Umbigos

Posso falar pelos homens nesse aspecto: tudo, literalmente tudo que fazemos no cotidiano, de escovar os dentes a construir um centro de pesquisas aeroespaciais, de jogar futebol a subir no Everest, nós o fazemos para as mulheres, e por causa delas. Não há nada na existência dos homens que fuja desse determinismo. Os franceses imortalizaram a frase “Cherchez la femme!!” exatamente para deixar claro que todas as manifestações do gênio humano, das brutais e criminosas às angelical e sublimes, tem essa motivação primordial.

Somos seres criados para a reprodução, essa é a lei suprema da nossa existência. Nessa engenharia da vida as mulheres serão o prêmio elementar, a chave para imortalidade, a recompensa para todos os nossos esforços. Coloque dez homens juntos em uma sala e aguarde alguns poucos minutos; inevitavelmente o assunto deles vai convergir, como uma espiral concêntrica, para as mulheres, suas manias, graças, cheiros e sabores. Coloque dez mulheres em um grupo e passados poucos instantes o assunto delas será…. as próprias mulheres.

O poder sobre as mulheres sempre foi essencial na arquitetura do modelo patriarcal. Esse domínio teve que ser exercido muitas vezes à força e só agora começa a ser desconstruído, pois sem dúvida o patriarcado imprimiu historicamente uma configuração diversa às partes distintas desse dueto. Todavia, para um observador, as semelhanças são muito mais arrebatadoras que as diferenças. Na minha perspectiva a grande diferença é da estrutura objetual da sexualidade masculina, em contrapartida com a sexualidade feminina, caracteristicamente narcísica. Isso oferece ao homem uma curiosa vantagem: ele sabe, desde sempre, que é incompleto e precisa de algo fora de si, um objeto de desejo que perseguirá por toda sua vida. Já a mulher muitas vezes fantasia com a autossuficiência. O que, aliás, não faz sentido: somos intrinsecamente dependentes da construção que o outro faz de nós mesmos.

As mulheres são o umbigo do mundo. Não melhores, nem piores, mas o centro.

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Pesadelo

Meu pesadelo renitente:

Estou em um programa de auditório, tipo Sérgio Groisman ou outro qualquer deste formato, e durante um debate o apresentador volta sua atenção para mim, que estou sentado silenciosamente na plateia. Com o dedo apontado na minha direção ele pergunta:

– E você, o que pensa sobre este tema? Concorda ou discorda?

Imediatamente aparece um microfone a meio palmo da minha cara. Durante uma fração de segundo eu penso nas alternativas. Depois de escutar as palavras dos debatedores percebi que existe uma versão que acompanha o senso comum, aquela que a maioria das pessoas, ou a média da população, valoriza e aceita. Existe também a versão do programa, que as perguntas do apresentador demonstraram ser a perspectiva da emissora ou do poder que a controla. Existe, por fim, o que eu penso, que – via de regra – é uma posição contra-hegemônica, politicamente incorreta, impopular e que desagradaria praticamente a todos, do público aos entrevistados.

Por alguns instantes olho para o infinito cósmico pensando se devo escolher o aplauso insípido e amorfo da concordância ou a fogueira flamejante da reprovação. Diante de mim um dilema claro: a sinceridade e a fidelidade aos meus princípios vale o preço de ser linchado publicamente por um tema que sequer tem tamanha relevância? Por outro lado, de que me serviriam essa fugaz popularidade, esses aplausos anódinos e essa aprovação popularesca, se não for pela expressão de algo que penso, sinto e vivo?

O apresentador insiste.

– Então? e repete a pergunta como seu o meu problema fosse auditivo e não o drama de uma escolha complexa entre duas perspectivas dolorosas.

Penso mais… se eu falar o que todos querem ouvir, como poderei me encarar sabendo que minha escolha apenas escondeu minha fraqueza, a covardia de se erguer, o medo de subir na classe e dizer a todos de peito aberto o que carrego como valor. Porém, se disser aquilo que penso – a minha verdade pessoal – expressão dos valores que cultuo, como suportar as críticas, o desamor, o desprezo, as costas se virando e a fuga dos amigos?

– Bem, no meu modesto ver….

Acordo. Existem sistemas psíquicos de segurança que atuam até na fantasia dos sonhos, que previnem os desastres, nos protegem dos dramas insolúveis e resguardam nossa sanidade emocional. Entretanto, toda vez que vejo alguém enfrentando esse dilema ao falar em público, eu bem sei que as palmas que se seguem foram, muitas vezes, às custas do silêncio das verdades guardadas, palavras escondidas, cuja manifestação foi trancada no peito pelo medo das dores que poderiam provocar.

Qualquer um diz o que todos desejam ouvir; só os bravos e fortes dizem o que querem falar.

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Meras empregadas

Sabe qual a semelhança nessas propagandas? A ideia de que os comportamentos são determinados pelo gênero. Assim, o comportamento inadequado (ou anacrônico) de um homem seria um modo de ser “dos homens”, enquanto as falhas de uma mulher representariam “as mulheres”. Apesar do gênero ainda condicionar de forma marcante a vida humana, tanto quanto a classe social ou a “raça”, dizer como os homens, as mulheres, os pobres e os brancos pensam e desejam é sempre uma homogeneização apressada e injusta, usada para atacar os sujeitos e seus grupos, ao invés de criticar suas ações.

Em relação à pergunta feita na publicidade cor-de-rosa, como então as mulheres descreveriam um “bom homem”? Já que a brincadeira é generalizar e olhar a humanidade inteira como um rebanho com comportamentos determinísticos, qual seroa a visão que as mulheres teriam de um “bom homem”? Seria ele amoroso e gentil? Ou seria um provedor que a protegesse? Será mesmo que vão aparecer descrições baseadas na diferença moral entre os gêneros, onde um deles é nobre e amoroso e o outro egoísta e utilitarista?

Estes são textos cíclicos nas redes sociais. Faz pouco tempo circulava uma monstruosidade sexista que afirmava que os homens (não alguns, mas o gênero masculino) odiava as mulheres, que não passavam de seres usados para o seu prazer, enquanto o verdadeiro amor masculino era devotado somente aos outros homens. Agora circula este, onde fica implícito que os homens não oferecem às mulheres amor e cuidado, e delas apenas desejam um bom serviço doméstico.

Este tipo de preconceito, e essa campanha anti-masculina, que floresce na seara da misandria e circula entre aquelas mulheres cuja vida afetiva foi insatisfatória ou mesmo traumática, está na raiz do surgimento do seu contraponto: os Red Pill, tolos masculinistas que usam da mesma retórica excludente e preconceituosa – mas de sinal trocado – de característica misógina e agressiva, causada por suas más experiências afetivas.

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Analfabeto

Mia Couto, nesta imagem acima, reconhece a relatividade dos seus saberes quando confrontados com saberes outros, muitos deles completamente desconhecidos pela nossa experiência sensorial cotidiana. Esta é a mesma perspectiva que o biólogo Jared Diamond descreveu em seu livro “Armas, Germes e Aço” sobre sua convivência entre os bosquímanos da Nova Guiné. Conta-nos ele que, em uma específica situação na floresta da Guiné, Jared e um grupo de nativos ficaram presos na floresta, sem comida e sem poderem avançar, pois nativos de um grupo hostil os haviam cercado. A solução foi aguardar a chegada do dia para encontrar uma rota de fuga segura. Atingidos pela fome, resolveram procurar víveres ali mesmo na mata, e assim um dos aborígenes saiu pelos arredores para coletar cogumelos. Armaram suas barracas simples e aguardaram a chegada do nativo com o jantar improvisado.

Em alguns minutos o jovem trouxe uma sacola cheia de cogumelos de vários tamanhos, cores e tipos. Jared, do alto de sua arrogância ocidental, perguntou se ele tinha certeza de que aqueles cogumelos eram comestíveis e não venenosos. Como bom ocidental, tinha apenas o conhecimento superficial de que existem cogumelos alucinógenos e até alguns capazes de produzir intoxicações mortais. Indignado, o nativo, auxiliado pelo tradutor, começou a falar ininterruptamente, e deu uma aula completa sobre os 50 tipos diferentes de cogumelos daquela região, além dos locais onde podem ser encontrados, seu sabor e suas qualidades medicinais.

Foi uma dura lição para o explorador branco e cosmopolita. Naquela região o desengonçado, o inculto e o analfabeto era ele.

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Catedrais

Na construção do pensamento existem os que constroem catedrais e os que as criticam. Para os primeiros a energia bruta e indomável da criatividade; para os outros a perspectiva das leis. Ninguém traz à vida uma catedral sem obedecer às determinações limitantes, mas ela jamais emerge da mente sem que a criatividade livre seja sua guia mestra.

Edmond Charon, “Fleurs et Fruits”, Ed. Montparnasse, pág. 135

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Paradigma

Segundo um obscuro professor de medicina da província, “doula é igual a verdureiro”, pois sua função não é regulamentada. Na verdade, as palavras do professor expressam o medo de testemunhar uma real mudança na forma de encarar o nascimento. As doulas fizeram a maior revolução na atenção ao parto desde a sua institucionalização, e exatamente por isso são atacadas por representantes do velho paradigma. Esse choque paradigmático ocorreu precisamente porque as doulas preenchem o espaço deixado pela falha do sistema médico tecnocrático em reconhecer as necessidades psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais das gestantes, em especial no momento de parir.

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Elogios

Eu pensava que a prática de fazer elogios rasgados, exagerados e oportunistas aos colegas de profissão fosse uma característica de radialistas, que tem o péssimo costume de fazer troca de agrados com convidados de programas e parceiros. Entretanto, ao escutar o depoimento de Tacla Duran sobre a extorsão da qual foi vítima pelo conluio entre procuradores desonestos e o juiz parcial da LavaJato, eu percebi que essa é uma prática que também é comum no mundo jurídico. É impressionante o quanto estes personagens ficam ensaboado juízes da suprema corte, procuradores e outros operadores do direito. Na verdade é algo asqueroso…

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Mentes Limitadas

Quer saber como funcionam as mentes limitadas? Basta saber que para estas, todas as ideias que fogem à sua compreensão ou sua experiência estão erradas ou são perigosas. Mais ainda: tudo fazem para proibi-las, pois interditadas não ameaçam sua pequena caixa de saberes. Assim agem os maus cientistas e os fundamentalistas.

Já as mentes abertas não descartam ideias por parecerem absurdas. Pelo contrário, se deixam seduzir pelo desafio de entendê-las, dissecá-las e traduzi-las. Mesmo quando delas discordam, não as tratam com desprezo pois sabem que somente as ideias aparentemente bizarras podem trazer algo de novo ao conhecimento. Quem precisa de verdades e de certezas deveria se dedicar às religiões, jamais às ciências.

Antoine de Saint Etiénne, “La Disparition du Cygne Noir”, ed. Hachette, pág. 135

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Nome

A moça das entregas me chama no portão da Comuna com um pacote na mão. Pergunta por “Richard”. Eu respondo que não há ninguém aqui com esse nome. Ela aperta os olhos, aproxima o pacote do rosto e diz:

– Richard Herbert Jones?

– O nome é “Ricardo”, respondo.

Ela aperta os olhos mais uma vez e confirma o nome na etiqueta do pacote.

– Ah, “Ricardo”. Hummmm, mas não fica bem…

Entrega o pacote e sai sem dizer mais nada. 

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Menos Médicos

Não é justo cobrar que entidades médicas se interessem pela saúde da população. Essas entidades estão centradas na saúde… dos profissionais que as compõem. Imaginar que as corporações darão apoio a iniciativas que diminuam seu poder político é pura ingenuidade. Elas não foram criadas para isso, mas para manter e garantir o poder social e econômico ao grupo que representam. Por esta singela razão, jamais podemos oferecer posição decisória a grupos criados para olhar para a saúde de forma parcial, sem observar a complexidade que esta atenção demanda. Pacientes não podem ser reféns de quem analisa a saúde de maneira unilateral.

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