Buracos da Memória

Foi o sobrinho de Freud, Edward Louis Bernays, quem dizia no início do século passado que “somos controlados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formadas e nossas ideias são sugestionadas”. Também foi ele o primeiro que entendeu a importância da propaganda na criação do que passou a ser chamado de “Consenso Manufaturado”, um conceito primeiramente criado por Walter Lippmann em 1922 e posteriormente disseminado pelo intelectual americano Noam Chomsky. Não é admissível desprezar décadas de propaganda violenta que, junto com os aparatos de repressão do Estado, tentam evitar a explosão inevitável da barragem produzida pelas lágrimas de milhões de excluídos pelo capitalismo. Propaganda e Estado policial; Publicidade e Forças armadas a serviço do Império.

Hoje vemos a adesão inacreditável da mídia imperialista da América do Norte, da Europa e até do Brasil (em especial a rede Globo) à luta contra a “ameaça russa”, retirando das tumbas o macarthismo dos anos 50, adaptando-o às exigências das redes sociais e da velocidade da informação. Para tanto, a publicidade oficial das nações ocidentais – movidas pelo interesse americano e pelo acadelamento das nações europeias – tenta nos fazer apagar o passado nazista da Ucrânia – Stepan Bandera, a iconografia nazi, os monumentos, as execuções de judeus, o Batalhão Azov e tantos outros fatos que ligam este governo ao seu passado recente. Toda essa obliteração da memória é construída para justificar a aliança das nações do mundo ao governo golpista de Zelensky, um comediante medíocre, notório corrupto e que nos últimos meses fechou 12 partidos de oposição – incluindo o partido comunista da Ucrânia – usando como desculpa o conflito no Donbass. Imaginem se Vladimir Putin, que é um autoritário direitista, proibisse a existência de partidos da oposição ao seu governo (incluindo aí o Partido Comunista da Federação Russa) usando a mesma desculpa: “Ora, estamos em guerra!!”. Como seria tratado pelo ocidente? Ora, no mínimo “ditador sanguinário”…

A propaganda, usada de forma científica, é uma das mais importantes ferramentas de dominação e isso pode ser atestado facilmente hoje em dia, bastando olhar para os fatos recentes da geopolítica. Os eventos que se seguiram à derrubada das Torres Gêmeas e que culminaram na guerra contra o Iraque são “cases” de propaganda, meticulosamente utilizados para moldar a opinião pública com o objetivo de criar o engajamento de uma nação para a destruição de outra. Milhões de pessoas morreram nessa aventura, e o que se pode observar pelas inúmeras mentiras contadas à época (as armas de destruição em massa, os ataques de Antraz, etc…) é de que havia um esforço de inteligência para que, antes da guerra dos tiros de artilharia, fosse vencida a guerra da opinião pública. Na atual guerra da Ucrânia o mesmo tipo de “guerra midiática” pode ser observada, em especial as fraudes sobre “massacres”, técnica igualmente utilizada na Síria há pouco tempo.

No célebre livro “1984” George Orwell descreve as dezenas de milhares de incineradores chamados “Buraco da Memória” nos corredores do edifício do Ministério da Verdade, onde o protagonista Winston Smith trabalha. Nele são colocados os documentos que não mais interessam ao governo atual, apagando as histórias, relatos e contradições existentes, para não criar constrangimentos para a nova direção do país.

“Destinava-se ao desembaraço de papéis servidos. Aberturas idênticas existiam aos milhares, ou às dezenas de milhares em todo o edifício, não apenas nas salas, como a pequenos intervalos, nos corredores. Por um motivo qualquer, haviam sido apelidados de buracos da memória. Quando se sabia que algum documento devia ser destruído, ou mesmo quando se via um pedaço de papel usado largado no chão, era gesto instintivo, automático, levantar a tampa do mais próximo buraco da memória e jogar o papel dentro dele para que fosse sugado pela corrente de ar morno, até as caldeiras enormes, ocultas nalguma parte, nas entranhas do prédio.” (1984, George Orwell)

Hoje existem milhões desses buracos espalhados por todo o mundo, mas não estão confinados aos prédios de um governo absolutista. Sequer precisam ficar restritos à criações literárias de futuros distópicos. Eles são, em verdade, controlados pelo poder econômico e atendem pelo nome de “imprensa corporativa”, que nos fazem apagar as mazelas e os horrores do passado apenas para que não sirvam de constrangimento para nossos interesses atuais. Claro que através destes buracos não passam apenas o passado obscuro e criminoso de quem agora defendemos; passa também nossa ética, nosso amor à verdade e nossa dignidade.

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Amores e labores

Tenho muito medo – as vezes tristeza – quando escuto gente que acha que relacionamentos são encontros místicos, confluência de almas gêmeas, sinos tocando e borboletas na barriga. Trabalhei 35 anos escutando mulheres e creio que nunca encontrei um relacionamento duradouro (com mais de 10 anos de duração) que não tenha sido construído com labor, sacrifícios, lutas, acertos, atritos e resoluções compartilhadas. Achar que é possível encontrar um caminho fácil quando duas almas de histórias e perspectivas distintas se encontram é uma tola ilusão.

Eu sempre usei essa lógica para os relacionamentos: “a pessoa que aceitaria estar comigo sem nunca se atritar precisaria ser tão boa e tão maravilhosa, paciente e benevolente, sábia e compreensiva que jamais daria bola para um sujeito comum e banal como eu. Seria alguém impossível, inacessível, perfeita demais, que jamais suportaria conviver com este compêndio de imperfeições que leva meu nome“.

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Casamentos

O segredo das relações longas não está exatamente no caráter, na espiritualidade, na moral ou nas condições econômicas dos casais envolvidos, mas no desejo – ou necessidade – de que esta relação tenha sucesso. Ou seja, não está sequer no amor, mas na fantasia compartilhada de que a união se mantenha viva por um valor intrínseco a ela. Isso não significa que qualquer um de nós precisa manter relacionamentos insatisfatórios. Aliás, ninguém defende mais manter relações que são apenas fantasmas ambulantes, resquícios de algo que há muito morreu, mas que apenas não foi ainda devidamente enterrado. Todavia, o post fala do desejo dos sujeitos para que as relações se mantenham apesar das dificuldades inerentes à qualquer relacionamento humano.

Entretanto, o que se observa hoje é o oposto: pela facilidade dos desenlaces, os casamentos são (ex)terminados diante das mais simples contrariedades. Com a queda da penalização social (não totalmente) as separações ficaram simples, fáceis e rápidas. Em países como a Inglaterra 50% dos casais se separam até 8 anos de relação, mas no Brasil não deve ser muito diferente – em especial na classe média. Isso nos coloca diante de relações afetivas que não conseguem sofrer o saudável amadurecimento que só vem com o tempo, e os divórcios produzem famílias fraturadas, com todas as consequências financeiras e emocionais que daí advém, em especial para as crianças.

Ou seja: não se trata de exaltar relações longas a despeito da infelicidade dos envolvidos, mas um aviso para aqueles que buscam parceria: procurem saber o quanto de dedicação à um relacionamento o(a) parceiro(a) está disposto a empenhar. Paixão e amor são insuficientes para estabelecer a longevidade de uma relação; muito mais importante é o desejo (e a fantasia) de constituir uma parceria. E não há razão em fazer qualquer julgamento de mérito; não acredito que ser romântico – ou seja, acreditar no amor romântico – é um “estado superior da alma”, mas tão somente que estes sujeitos “românticos” são as pessoas mais adequadas para encontrar na vida caso você deseje um amor duradouro e capaz de resistir às intempéries de um casamento.

Helen M. Hofstetter, “Living the Dream – How to Create Valid Relationships”, ed. Pauline, pág 135

Helen Maguire Hofstetter é uma psicóloga e escritora americana, especializada em relacionamentos, nascida em Fort Collins, Colorado. Possui sua clínica em Denver onde se especializou em terapias de casal. Foi por muitos anos colunista de revistas femininas onde fazia aconselhamento para dramas corriqueiros da vida em comum: traições, partilhas, insatisfação sexual, fantasias, questões econômicas, etc. Nos início do século, com a expansão da Internet, criou uma empresa de relacionamentos “on line” chamada “Forever in Love”, onde procurava realizar encontros de casais utilizando sofisticados (para a época) algoritmos onde procurava cruzar perfis na procura de parcerias “perfeitas”. A empresa fechou em 2010, mas a deixou com uma larga experiência sobre as motivações e os desafios de estabelecer encontros duradouros. Escreveu seu primeiro livro sobre a experiência acumulada na “Forever in Love” e causou um certo furor ao afirmar que sua atividade à frente do site – que chegou a ter 100 mil inscritos – apenas lhe demonstrou que os recursos matemáticos e os cruzamentos objetivos produzidos pelo software tinham a mesma eficiência em criar casais duradouros que a mais aleatória das escolhas – como jogar uma moeda para cima e anotar o resultado. Sua conclusão é de que o sucesso destes encontros é muito mais complexo do que pode ser obtido através de uma listagem de escolhas pessoais, preferências, rejeições, expectativas e projetos. Em verdade, segundo ela, eles se encontram em elementos do inconsciente, invisíveis às análises objetivas. Desta forma, passou a exercer sua atividade de uma forma muito mais subjetiva e analiticamente orientada, ao invés de se manter na busca do “par perfeito” através de fatos positivos e mensuráveis. Seu último livro “O Abismo do Amor” nos fala do salto profundo no universo desconhecido do desejo, e da necessidade de reconhecer que as inscrições do inconsciente que nos fazem construir relações duradouras e produtivas não estão acessíveis à olho nu, por mais que os seus resultados estejam à nossa frente. Mora em Denver com seu marido, com quem está casada há 40 anos, e seus cães de estimação, Rolf e Hrowulf.

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Paixões

Vi hoje o post de um sujeito exaltando sua “alegria por não saber nada do que acontecia no contexto do futebol mundial“. Ponderei que sem a paixão não há dor e nem alegria. Sem elas não há gozo, ou como diria minha mãe “joie de vivre“. Não digo que só é possível haver prazer na vida através do futebol, apenas que, para este sujeito, esta porta se encontra fechada; o futebol não será uma via para alcançar as dores e prazeres das grandes vitórias e das dolorosas derrotas. Ou seja, não haverá como viver seus dramas através do teatro deste jogo.

Para mim, que gosto e vivo o futebol, seria o mesmo que, diante da morte abrupta de Gal Costa, e a comoção que se criou a partir do seu anúncio, alguém afirmar “Quanta alegria não saber quem foi esta artista”. Bem, admito que não sofreria a dor que agora nos atinge, mas também teria de renunciar a sua arte e tudo de bom e transcendente que dela brota.

Prefiro a sabedoria do para-choque: “Melhor amar e perder do que jamais sentir o gosto do amor”. Ou melhor ainda, como diria Paul Simon, I am a rock, and a rock feels no pain, and an island never cries. Se quiser abolir a dor terá que, inexoravelmente, desistir do prazer.

Após explicar minha escolha pelo pagamento do pacote completo da vida, com suas dores e sabores, ele achou por bem me bloquear. Bem…. ainda assim prefiro a dor do bloqueio do que a paz de não defender as paixões. 

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A Nova Política das Redes

As grosserias dos parlamentares da extrema direita precisam ser entendidas diante do fenômeno das redes sociais, as quais mudaram a forma de fazer política nos últimos 10 anos. Os novos parlamentares que surgiram no cenário nacional, em sua maioria, não foram forjados nos partidos políticos, nos diretórios acadêmicos, nos órgãos de classe e muito menos nos sindicatos e centrais trabalhistas. Da mesma forma como os políticos de décadas passadas surgiram da exposição no rádio e na televisão, estes de agora são fruto da explosão midiática do YouTube, Instagram, Tiktok e Twitter. Desta forma, eles não são políticos na acepção tradicional da palavra; são youtubers, “influencers” e lacradores profissionais surgidos da possibilidade que as redes sociais criaram de oferecer exposição e notoriedade instantânea

O ethos que orienta estes novos personagens da cena política é diferente daquele que se exigia tradicionalmente na política. Ao contrário dos políticos de formação, estes novatos estão no parlamento para fazer tretas, espetáculos e até arruaças; são especialistas em selfies, provocações e postagens escandalosas e disseminam suas informações como um espetáculo onde a verdade e a correção são meros detalhes – quando não claros entraves. O meio é muito mais relevante que a veracidade das informações. Não se importam de que sua exposição acabou gerando desinformação. O importante é ser visto, comentado, criar engajamento, ter sua imagem disseminada por milhares, quiçá milhões de seguidores.

Este grupo de novos representantes não está no parlamento para apresentar propostas, conduzir composições, propor acertos e estabelecer debates, nem mesmo para fazer oposição baseada em suas distintas perspectivas políticas. Sua intenção é outra, e pouco tem a ver com os partidos – meras fantasias que usam e jogam fora quando não mais lhes servem. Sua ação é gerar a exaltação de personalidades.

Espero que as pessoas com o tempo percebam que esta é uma ação contrária à política. Afinal, o personalismo é o oposto da ação política, na medida em que esta última se preocupa com a representatividade, onde um sujeito defende os anseios de um grande contingente de cidadãos. Para o pensador estagirita Aristóteles (384 – 322 a.C.) o homem é um sujeito social que, por sua própria natureza, necessita estar conectado a uma coletividade. Somos todos gregários, comunitários e solidários. Somos também seres políticos, capazes de trabalhar para além da nossa sobrevivência e do nosso grupo familiar, desejando o melhor para as ruas, cidades e nações. Minha esperança é que, com o tempo, as pessoas cansem desse tipo de personagem e os devolvam ao esquecimento. A política que eles propõem é a do circo, da galhofa, dos “likes“, mas a ação política pede mais que isso, pois ela é a mais elaborada ação humana, cuja essência é a fraternidade e o bem comum.

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O Martírio da Verdade

Já tentou entender o horror que é para um artista quando o único tradutor possível para os rabiscos e ideias que escreve ou desenha é ele mesmo? Consegue imaginar a solidão de ser o único falante de um idioma que desapareceu e nunca foi compartilhado? Por ventura já procurou saber a dor de ser o guardião de um tesouro ameaçado, e apenas você tema chave do cofre que o encerra?

Meu irmão Mikael, durante seu último surto, mostrava com a ponta do indicador um minúsculo ponto localizado entre os olhos e me indagava: “Você consegue imaginar a sensação de ter todo o conhecimento do universo concentrado bem aqui, uma matéria tão densa e tão pesada que se impossibilita de conter? Consegue entender a dor de saber o que a ninguém é dado conhecer? Percebe a solidão que a verdade me condena?”

Não, Mikael, dessa dor só você pode falar. A mim não foi dado ter essa clarividência; minhas verdades são minúsculas, pessoais, passageiras e fugazes. Mas, se me fosse oferecido o benefício da escolha, ficaria com a mediocridade das minhas pequenas mentiras. Não me vejo capaz de suportar o martírio das verdades cruas e brutais.

Wolfgang Hübner, “O Imperador das Estepes”, ed. Dexter, pág. 135

Wolfgang Hübner é um escritor austríaco, nascido em Viena em 1⁰ de Janeiro de 1900. Cresceu na cidade que era o centro da cultura europeia no início do século XX e foi testemunha ocular dos acontecimentos determinantes para a ascensão do nazismo. Graduou-se em literatura na Universidade de Viena e foi professor de escolas secundárias durante boa parte de sua vida. Dedicou-se à literatura escrevendo colunas sobre arte e política nos jornais vienenses e passou posteriormente a se dedicar aos romances. Seu livro de estreia foi “Bleib zu hause, geh nicht raus” (Fique em casa, não saia às ruas) onde descreve a agitação na sociedade alemã na década de 20 relacionada ao crescimento da extrema-direita. Escreveu 10 romances no período entre a Primeira Guerra Mundial e o fim da segunda, a maioria deles ambientados na Áustria ocupada e na crueza da luta pela sobrevivência. Em “O Imperador das Estepes” ele descreve as agruras do jovem serralheiro Amadeus que busca fugir da ocupação alemã na Áustria em direção à Bélgica, carregando consigo o irmão esquizofrênico Mikael, que ficou sob seus cuidados após a morte dos pais e da irmã Helga. Wolfgang Hübner morou a vida inteira em Viena, nunca teve filhos e morreu em 1951, de câncer na laringe.

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Adoecimentos

O problema do adoecimento ao contrário do que muitos acreditam, não é dos cirurgiões ou dos clínicos; será sempre do sujeito doente. Foi ele quem o fez, quem o construiu; também quem o albergou e acalentou, às vezes por anos a fio. A negação sobre a responsabilidade das doenças pode servir de proteção para o psiquismo, em especial para quem está desconcertado diante da perspectiva da morte, mas não passa de ilusão. As doenças são construções do sujeito, obras que ele mesmo realiza no sentido – por vezes desesperado – de alcançar equilíbrio.

As enfermidades não são o “desafio dos médicos”, mesmo que deles dependa o tratamento e, algumas poucas vezes, até a eliminação dos sintomas. Alienar-se dessa responsabilidade apenas atrasa a compreensão dos sentidos últimos da enfermidade por parte dos enfermos, assim como de sua imensa potencialidade transformadora.

Ao dizer isso nada mais faço do que uma contestação à ideia prevalente de que a resolução dos problemas da saude repousa no outro, quando na verdade a doença é uma construção subjetiva. Por certo que os fatores ambientais adoecem o sujeito, porém o ambiente é também uma construção dos sujeitos sociais e só eles podem modificá-lo, não uma força mistica externa a eles. Assim, a responsabilidade pela saúde será sempre dos sujeitos através do cuidado próprio e de sua ação na sociedade.

Esther Ackerman, “Silente Healing” (Cura Silenciosa), ed. Chamonix, pág 135

Esther Ackerman é uma neurocirurgiã nascida em 1976, formada por Princeton e que fez residência médica na Case Western Reserve University, em Cleveland. Durante a gestação de sua segunda filha foi diagnosticada com leucemia e, na época, foi aconselhada a realizar um aborto para iniciar de imediato seu tratamento. Diante da negativa de começar o protocolo medicamentoso antes do parto ela mantece a gestação e, meses após, nasceu Victoria, uma criança saudável porém prematura, que precisou ficar alguns meses internada para ganhar peso. No período que se seguiu ao parto começou seu tratamento para o câncer, ao mesmo tempo em que dava suporte à sua filha recém nascida. Abandonou por dois anos a prática de consultório para se dedicar a estas tarefas e quando sua filha já estava estabilizada, e ela mesma livre do câncer, escreveu “Silent Healing”, onde descreve o turbilhão de emoções que surgiram com a gravidez, o câncer, a internação da filha prematura e o tratamento para sua doença. Seu livro mistura uma abordagem subjetiva do “precipício emocional” no qual foi jogada pela ocasião do seu diagnóstico, mas também uma análise muito objetiva das trajetórias possíveis que se oferecem às pessoas que se encontram diante de escolhas dramáticas. O livro recebeu o “Medical Writers Award” e foi posteriormente adquirido pela Paramount para se transformar em filme, com filmagens programadas para iniciar em 2024, com Sandra Bulock no papel de Esther. Mora em Boston com seu marido Samuel Hodgkin e as filhas Priscilla e Victoria.

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Fígado

A gente escreve algo como:

“As esquerdas se organizam de forma descentralizada o que lhes confere diversidade, mas isso não garante uniformidade nas lutas, funcionando como um exército onde cada soldado escolhe um inimigo em particular”.

O sujeito lê com o fígado e imediatamente responde: “Era só o que faltava!! Servi durante anos no exército e essa ordem nunca foi dada. Jamais combatemos dessa maneira. Você deve ser muito mau caráter para falar isso do exercito brasileiro!!”.

Como lhe dar???

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Nostalgia

Quantas vezes a gente já escutou essa expressão?

“A gente era feliz e não sabia. Que saudade da minha infância”

A gente – no sentido de todos nós – não era mais feliz e nem mais alegre nos anos 60-70. Também não era mais saudável bebendo anilina no K-Suco, respirando DDT no “Flit” ou se engasgado com bala Soft. Talvez um pouco mais seguros, desde que a gente pense apenas na pequena fatia de classe média a qual eu mesmo pertencia. Sim, naquele tempo era possível voltar a pé da casa da namorada de madrugada sem temer ser assaltado. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu desfrutava dessa liberdade, os pobres – naquela época 80% da população – experimentavam todas as inseguranças possíveis. Da insegurança de não haver escola, de não ter o que comer até de ser espancado impunemente pela Polícia pelo crime de ser pobre.

Nós, que vivíamos em uma pequena bolha social, tínhamos mais segurança porque a violência urbana – resultado das crescentes contradições do capitalismo – ainda não havia explodido e se tornado o que é hoje: um desastre cotidiano de segurança pública, brutalidade policial, violência moral contra a população pobre, crimes domésticos, etc. Olhar com saudosismo para o século passado sem sair da pequena caixa de classe média onde estamos inseridos é perder o contexto. Este é, em verdade, o erro mais característico da direita: olham para o Brasil como se fosse uma extensão do seu bairro, desconhecendo propositalmente a miséria e a desassistência que nos circunda. Dentro de suas redomas, a realidade pode ser muito enganadora.

Temos esse saudosismo sobre o passado por sermos capazes de escolher aquelas lembranças que nos parecem mais adequadas para uma melhor adaptação a qualquer situação. O esquecimento de aspectos ruins e traumáticos de nossas vidas é essencial para que possamos guiar nosso comportamento e essa inibição da memória é parte fundamental do funcionamento cognitivo. Além disso, deixar de olhar para o lixo que se acumula pelo capitalismo sempre nos dá a impressão de um lugar mais limpo, por mais que isso seja uma miragem.

A vida no passado pode nos parecer mais sorridente apenas quando apagamos os seus aspectos negativos e olhamos exclusivamente para o mundo que nos cerca, o pequeno universo ao redor do nosso próprio umbigo.

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Paralaxe

Mesmo quando o assunto é uma improvável viagem espacial, a conquista de Constantinopla, a nova teoria da evolução ou os temperos prediletos da cozinha da Mongólia, qualquer coisa que escrevemos é essencialmente sobre nós mesmos. Nada do que sai das nossas palavras foge da formatação produzida por nossas experiências pessoais e a impregnação emocional que elas produzem em nossa personalidade. Não existem opiniões isentas, infensas às emoções e sentimentos de quem as exprime. Essa “neutralidade” técnica é uma ficção, pois se basearia na existência de fatos objetivos, capazes de fugir à necessária interpretação dos nossos sentidos

Existem, em verdade, sujeitos que se preocupam em acolher várias abordagens para um mesmo fato, reconhecendo-os como válidos e coerentes, o que não pode ser confundido com esta pretensa neutralidade. Por certo que aqui se encontra a sabedoria de Heckenhorn*, que deveria ser transmitida às novas gerações que estão chegando às escolas a partir do século, que faz pouco deu seus primeiros vagidos**.

Os estudos da alma humana, em especial estas produzidas pelo médico austríaco Siegfried Freud*** talvez possam nos oferecer novas perspectivas para o estudo do comportamento humano e as motivações recônditas das atitudes e ações aparentemente contraditórias e paradoxais. Vale a pena olhar com atenção o manuscrito recentemente lançado “Três Ensaios sobre a Sexualidade” e os estudos que ele realizou com as doentes histéricas, em especial os relatos da enfermaria de Charcot****.

Herbert Finkler, “Verhaltenshandbuch für den Mann des 20. Jahrhunderts” (Manual do Comportamento para o Homem do Século XX), ed. Prophezeiung, pág 135

Herbert Klaus Finkler foi um escritor alemão nascido em Düsseldorf em 1866, filho de pais agricultores e fabricantes de vinho. Muito cedo se destacou pela sua capacidade de dominar muitas línguas, aprendendo além do alemão o inglês, o latim, o francês, o italiano, o russo e o polaco. Em função do crescimento da vinícola do seu pai com as vendas realizadas para os países vizinhos, ainda jovem acumulou uma considerável fortuna, o que o possibilitou dedicar-se à Academia e à literatura. Em função disso, desenvolveu uma cultura baseada na leitura de clássicos, em especial Friedrich Schiller, que o motivou a escrever sua tese sobre a formação da língua alemã na Universidade de Strasbourg. No seu livro “Manual do Comportamento para o Homem do Século XX” ele descreve uma série de ações e comportamentos relacionados ao que ele descreve como “homem moderno” no campo da sexualidade, fidalguia, honra, mérito e sua relação com o meio ambiente em uma Alemanha que iniciava seu processo de industrialização e urbanização. Morreu em 1929 em Potsdam de causas naturais.

* Heckenhorn foi um pedagogo alemão que descreveu um método crítico de educação baseado na apresentação de “paralaxes”, perspectivas diferentes da mesma realidade. Em função disso, foi homenageado com o “cubo de Heckenhorn”, um objeto que muda de forma na medida em que sofre um giro sobre seu eixo principal.

** O “novo século” que há pouco havia iniciado era o século XX. Herbert Finkler escreveu seu primeiro livro com projeções para o século XX em 1890, quando apresentou sua ideias sobre o que se poderia esperar para os próximos 100 anos. Acreditava ele na descoberta de civilizações avançadas na Amazônia, populações nativas da Lua, viagens para outros planetas, bicicletas voadoras, cura da tísica (doenças consumptivas, em especial a tuberculose) e, por certo, acreditava na eugenia, propondo a criação de uma raça única e homogênea para todo o planeta.

*** O autor certamente se referia a “Sigmund” Freud, o médico austríaco, mas inadvertidamente trocou seu nome para *Siegfried*, apesar de conhecer a obra do pai da psicanálise, visto que citou este autor no mesmo parágrafo. Em verdade, “Siegfried Mallmann” era o nome de seu padrasto, homem que se casou com sua mãe após a morte misteriosa de seu pai ao cair dentro de um poço em sua propriedade. Suspeitou-se desde o princípio do vizinho, Siegfried, pois este há muito cortejava a mãe de Herbert. O vizinho foi a julgamento e posteriormente inocentado, mas Herbert confessou a muitos de seus amigos que desconfiava que Siegfried havia cometido o crime, ou ao menos havia participado do seu planejamento. Talvez este seja um real ato falho que apareceu na escrita de Herbert, pois no início do século XX Freud já era conhecido como o “pai” de uma nova ciência da alma.

**** Em 1885, Freud ganhou uma bolsa e uma licença do hospital onde atuava para estudar em Paris por 6 meses. Lá trabalhou com Jean-Martin Charcot, um respeitável médico neurologista do hospital psiquiátrico Saltpêtrière. Charcot estudava paralisias histéricas com o uso de técnicas de hipnose, o que marcou Freud profundamente, e contribuiu muito para que Charcot se tornasse um paradigma profissional para o jovem médico que recém iniciava seus estudos sobre as histerias.

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