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Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinaridade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

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Vento

Passam-se os anos e os ventos não mudam. O mesmo disco quebrado repete o enfadonho réquiem de uma alma que se foi, condenada pelo desejo. “Assassina, assassina”, vociferam as consciências silenciosas da turba em êxtase ao ver o cortejo. Enquanto isso, na procissão macabra a jovem mulher canta sozinha a marcha fúnebre em seu esquife, calada, pálida e impedida de oferecer seu testemunho. “Fez-se a vontade de Deus”, diz a moça branca, enquanto do outro lado da rua, de dentro de um carro a voz rouca de um homem apressado grita “Saiam da frente”. Pobre anjo, diz a senhora idosa ao seu lado, mas engana-se quem pensou na falecida. Era para o embrião que se escondia em seu ventre o lamento da velha. Para ele as homenagens; para sua mãe o inferno.

Kathy McGuire-Daniels, “The Hell of Ourselves”, Ed. Printemps, pag 135

Kathy McGuire-Daniels é uma escritora estadunidense nascida em Bayard, Novo México. Estudou letras e literatura na Universidade do Novo México e passou a lecionar inglês em escolas de sua cidade natal. Em seu romance “The Hell of Ourselves” ela descreve o drama de Cynthia, uma mulher que mora em um acampamento de trailers junto com sua irmã Sylvia. Esta, se envolve com Gregory, um jovem bonito e inescrupuloso que trabalhava numa lanchonete próxima ao acampamento. Desse encontro ela engravida, mas vem a falecer em decorrência de uma tentativa frustrada de produzir um aborto em si mesma. A falta de empatia de seus companheiros de comunidade com a morte da irmã, e a solidão que lhe é imposta pela sua partida abrupta, a fazem abandonar a comunidade e cruzar os Estados Unidos – de baixo para cima – para reencontrar a mãe em Cleveland-Ohio, a quem não vê a mais de 20 anos e que está à beira da morte. Sua viagem de retorno, e a verdade terrível que precisará contar sobre a ausência da irmã, fazem desta trajetória uma intensa experiência de resgate, dor e renascimento. Kathy Daniels é casada com o advogado especializado em defesa de minorias e imigração Albert Lavalle, mora em Albuquerque e tem dois filhos Jessica e Rolland.

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Aborto

Tenho uma certa autoridade para falar sobre interrupção da gravidez. Acho o aborto algo horrível. Nunca faria um aborto, como sujeito, pai, avô ou médico. Fui pai aos 21 anos, ganhava meio salário mínimo, mas o aborto nunca esteve no meu horizonte Todavia, como eu disse, minha opinião e experiência pessoais não tem nenhuma relevância. Existe um drama contemporâneo que precisa ser tratado com coragem.

Passei os primeiros 30 anos da minha vida sendo contrário ao aborto, numa posição ideológica de “proteção ao feto”, proteção à vida e sem aceitar qualquer violência contra indefesos. Entendo exatamente todos os argumentos contrários ao aborto; já os usei e por muitos anos. Entretanto, foi preciso testemunhar o horror e o absurdo da morte de uma jovem de não mais de 25 anos em um plantão durante a residência para saber que o combate ao aborto não resolvia problema algum para os fetos e apenas acrescentava outros para as mulheres em desespero. Não era aceitável ver uma vida ser exterminada por uma gestação indesejada.

Meu choque foi com a crueza da morte, a pele marmórea, os lábios roxos, a mão gelada e o olhar vítreo fixo no teto. A cena não consegue escapar da minha mente, mesmo depois de 3 décadas. Aquela menina foi vítima de nossa insensibilidade, nosso muro social, nossa condenação das pobres ao inferno das curiosas, das agulhas, do Citotec clandestino e do submundo das clínicas de aborto.

Liberar o aborto legal é uma questão de democracia no acesso à saúde. “Ricas fazem aborto, pobres morrem tentando”. Não pode haver real justiça quando as de baixo arriscam suas vidas e as de cima tem todas as vantagens que o dinheiro garante.

Por mais que seja terrível a ideia de exterminar um ser em potencial que cresce no ventre de uma mulher nossa sociedade precisa aceitar que a luta contra o aborto MATA milhares de mulheres jovens era não diminui o número de embriões eliminados. Falhamos.

Precisamos pensar nessas mulheres e suas vidas. Continuar condenando essas meninas à morte precoce é um horror que não cabe mais neste mundo.

Como sou um velhinho de barba branca, quase um Dumbledore, posso dizer que o nível do debate sobre o aborto continua o mesmo dos últimos 40 anos. Lá pelas tantas aparece um “Só Deus pode dar e tirar uma vida“, e aí não resta nada a acrescentar que possa fazer qualquer diferença.

Esse debate parece com aqueles relacionados com a posse de armas nos Estados Unidos. O FATO de que mulheres morrem nos abortos clandestinos e de que crianças morrem nas escolas nos massacres parece ser desimportante diante de valores abstratos como a “liberdade”, “segunda emenda” ou “direito a nascer”. A realidade crua acaba sucumbindo diante das ideologias.

Sejamos sensatos.

A nossa opinião pessoal sobre o tema é irrelevante. Os dados sobre mortalidade na clandestinidade falam mais alto e por isso a liberação do aborto é uma necessidade, ou se quiserem, um “mal necessário”. E não adianta reclamar, pois já contamos vítimas demais causadas pelo nosso moralismo. O Brasil vai liberar a realização de abortos seguros, com limites reconhecidos por outros países, igual às outras nações do mundo, isso é uma questão de tempo. Aborto legalizado é um passo civilizatório inegável, pois salva vidas e oferece autonomia à mulher sobre seu próprio corpo.

Que a “onda verde” nos atinja!!!

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Carrapatos

Esses dias morreu (mais uma) menina por aborto inseguro no Brasil e sua história alcançou as capas de jornais e as mídias sociais. Achei que nenhuma notícia poderia ser mais triste do que esta…. até ler os comentários. Neste porão da estupidez humana proliferam como carrapatos os cidadãos de bem, desfilando pestilência em forma de ódio. Lá estão inclusive senhoras, mães, avós amorosas em cujas páginas pessoais do Facebook pululam imagens de Jesus, gatinhos, bolos deliciosos e….. Bolsonaro. A maldade travestida de “justiça” é a mais perversa das armadilhas. Essas “pessoas de bem” são a ralé moral desse país.

Como diria Cunha, outro cidadão exemplar, “que Deus tenha piedade de suas almas“.

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Invasão Fascista

É verdade que a decisão sobre o aborto acaba sendo tomada por um punhado de homens brancos, burgueses e ricos que conhecem as clínicas clandestinas “classe A” para levar suas mulheres, namoradas, filhas ou amantes. Esta decisão nunca está na mão da mulher negra e pobre que será submetida ao risco e à indignidade das agulhas, pílulas do mercado ilegal e dos aborteiros da favela.

Entretanto, muitas dessas mulheres votaram no pastor sedutor e no empresário falastrão, os mesmos que agora roubam sua esperança de dignidade e segurança na atenção à saúde. Só existe uma forma justa de mudar esse cenário: encarar a invasão da direita fascista evangélica como uma real ameaça às mulheres e seus direitos.

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