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Enquanto tu gritas gol…

A ideia de que a Copa é alienante e deveríamos estar preocupados com as eleições, pois são elas que decidem nossa vida, é uma meia verdade. Não vou dizer que eleições “não valem nada”, mas elas estão longe de apresentar soluções para a crise do capitalismo.

Depois das eleições a vida segue praticamente imutável. Enquanto o sistema neoliberal perdurar as eleições apenas escolherão o gerente da massa falida do capitalismo. As diferenças são pouco significativas na estrutura da sociedade. Os bancos continuarão a mandar na sociedade e o governante escolhido ainda será sequestrado pelos interesses intestinos do Parlamento. A diferença é que a eleição de um elemento da direita continuará o desmanche do Estado brasileiro, privatizado-o para ser controlado por poucos e sem controle público. A eleição da esquerda vai priorizar a diminuição do fosso entre as classes altas e os pobres, e a cobrança de tributos dos mais ricos, mas não a ponto de mudar a arquitetura perversa das democracias liberais. Por esta singela razão vou votar no PCO no primeiro turno e no companheiro Lula no segundo turno, pois é preciso afastar a ameaça fascista e o entreguismo da direita.

Portanto, acreditar em uma mudança profunda neste modelo de democracia liberal, controlada pelo poder econômico, é tolice. Sou velho o suficiente para lembrar quando elegeram um negro democrata nos Estados Unidos achando que alguma mudança ocorreria na estrutura última da sociedade, e que finalmente os descamisados teriam vez. Obama invadiu inúmeros países, matou milhões de pessoas, espionou o Brasil e países da Europa, aprofundou o discurso identitário direitista e não produziu nenhuma mudança na saúde americana, aprofundando a disparidade entre a casta dos bilionários e a imensa camada pobre americana.

Até Lula, para ser justo, também jamais conseguiu uma mudança radical porque está amarrado num sistema que não lhe garante um congresso ao seu lado. Nossas eleições funcionam mais uma caricatura democrática, uma encenação – cara – para manter intocado o real sistema de poderes, que se concentra nas mãos de quem controla o capital. Ou vocês não perceberam que Vorcaro tinha o legislativo e o judiciário nas mãos? Quem era o verdadeiro dono do Brasil?

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Arquivado em Causa Operária, Política

Pinkwashing(ton)

Militante invadiu o campo com a bandeira do arco íris e a camiseta do Superman, com apoio às mulheres do Irã e o apoio à Ucrânia

Durante o jogo de Portugal contra o Uruguai pela Copa do Mundo de 2022 o jogo foi interrompido pela entrada de um manifestante vestindo uma camiseta do “Super Homem” contendo um explícito apoio aos gays e às mulheres do Irã. Entretanto, na sua camiseta à frente, em letras grandes apareciam os dizeres…. “Salvem a Ucrânia”. Claro, não poderia faltar o símbolo Tryzub do nacionalismo ucraniano no braço do ativista.

Sim, o objetivo era associar a luta pelos direitos gays e femininos com a guerra do Otanistão contra a Rússia. Para os novatos parece uma manifestação de apoio aos oprimidos, mas para quem conhece as manobras do poder hegemônico esta é uma tática antiga frequentemente utilizada. Entretanto, é inacreditável como ainda é fácil vender propaganda imperialista para identitários. Como sempre, de início a gente engole sem mastigar mas o problema depois é defecar todo essa mistura indigesta de boas causas com guerra e dominação ideológica e militar. Aliás, a camiseta do Superman é quase um deboche para as mentes ingênuas ou descrentes. Não há nada de nobre e de ingênuo nessa mistura de causas.

Neste caso, a defesa dos oprimidos vem acompanhada de propaganda para a manutenção do poder do Império criando, de forma esperta, um “combo” indissociável. Assim, se você é a favor da causa dos gays, trans, mulheres e qualquer outra minoria precisa estar associado à aventura belicista e russofóbica da guerra da Ucrânia, nem que para isso precise estar também apoiando os grupos nazistas mais violentos, brutais e abjetos da atualidade.

O mesmo é feito em qualquer invasão americana a países soberanos. A isca é sempre “direitos humanos”, “democracia” e “derrubada de tiranos sanguinários” – cujos feitos maléficos são fabricados nos laboratórios de fake news da imprensa hegemônica. Todavia, com isso compramos no “pacote” as guerras de dominação, que ao invadir para controlar o petróleo e outros recursos naturais deixamos um rastro de mais de 1 milhão de mortos durante a invasão no Iraque, grande parte deles de mulheres e crianças.

Aos identitários cabe uma boa parte de responsabilidade pela ingenuidade que os leva a comprar essa propaganda nojenta travestida de boas intenções. A nobre causa dos negros, trans, mulheres, gays, imigrantes, etc não pode ser tratada desta forma repugnante, prostituindo suas intenções originais em nome da garantia de privilégios ao Império. O exemplo do “pinkwashing sionista“* – que criou a falsa ideia de uma democracia sexual em Israel contra a “barbárie” do Islã para encobrir o massacre da população da Palestina – recebe de muitos brasileiros simpatia e apoio, como ocorreu com um ex deputado que defende a causa gay.

É contra esse tipo de engodo que a esquerda – e todos os grupos e partidos anti imperialistas – precisam se opor. Dar voz aos “Cavalos de Troia” que levam o imperialismo escondido no ventre de suas boas intenções aparentes é um crime contra a soberania dos povos.

* Pinkwashing (lavagem rosa ou lavagem de imagem rosa) é um empréstimo linguístico (do inglês pink, rosa, e whitewash, branquear ou encobrir) para referir-se, no contexto dos direitos LGBT, à variedade de estratégias políticas e de marketing dirigidas à promoção de instituições, países, pessoas, produtos ou empresas apelando a sua condição de simpatizante LGBT. A expressão é especialmente usada para referir à “lavagem de imagem” do Estado de Israel que, promovendo a sua população LGBT+, disfarça a violação sistêmica dos direitos humanos da população palestina. (wikipedia)

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Festa dos Identitários

Então vejamos… “Se não quer que passem a mão em você não saia de casa com vestido curto”. A tática é a mesma: transformar a vítima em algoz. Neymar sai com o tornozelo destruído, parecendo uma abóbora, mas a culpa é dele por “pegar a bola”. Sério que a perseguição ao Neymar vai chegar nesse nível? Não acredito que por posições políticas discordantes vamos fazer coro a este tipo de estultice. Não se trata de “sofrer falta”. Pelé foi caçado em 62 e 66, Neymar em 2014, o que nos fez perder a Copa. Agora foi atacado violentamente de novo. Será que isso é “mimimi“?

Tenha em mente apenas que o meu exemplo compara a lógica utilizada, não os fatos. Por isso é uma ana-logia. Faltas no futebol são diferentes de abusos contra mulheres, mas a lógica para justificá-los pode ser a mesma. Usar a ideia de que levar faltas graves e violentas é o “ônus natural de quem carrega a bola” é o mesmo que dizer que ser apalpada é o ônus natural de ser bonita e/ou provocante. Não há nada natural nestas violências e tanto as mulheres quanto os jogadores não podem ser considerados culpados pela condução da bola ou por suas formas exuberantes. A explicação do jogador rival de Neymar não convence, apenas explica a brutalidade. Da mesma forma, a explicação do abusador não me faz mudar de ideia.

Não existe nada mais direitista do que expressar ódio a um jogador da seleção durante uma copa do mundo. Eu, que não gostava muito do cara, estou virando fã. Essa exigência com o Neymar curiosamente não se aplica a outros membros da seleção, quase todos bolsonaristas, nem com outras figuras públicas. Esse tipo de perseguição sempre obedece as linhas mestras do imperialismo: destruam seus ídolos, encontrem falhas neles que possam eclipsar seus feitos e suas vitórias.

O mesmo foi feito com Lula, que de herói passou a ser tratado como “ladrão”, depois de uma intensa campanha midiática de iconoclastia. A mesma estratégia de atacar Lula por elementos alheios à política – sua vida privada – agora é usada contra outro herói, outro negro que, assim como Pelé teve sua imagem vilipendiada por fatos bem distantes do futebol. Torcer contra Neymar é fazer o jogo do Império, e nessa armadilha eu não caio.

Não dou ouvidos a fofocas de jogador. São garotos e, como eu, diziam muita bobagem antes dos 30 anos. Não o convocamos para ser professor de ética,mas para representar o futebol brasileiro. Eu não chamaria esse cara pra tomar um chimarrão na minha casa, mas apenas para representar meu país numa Copa do mundo.

E mais…. os ataques de Neymar são muito menos frequentes do que os ataques que sofre desde os 16 anos. Ele é muito mais vítima do que agressor. Vocês odeiam o Neymar porque ele é exibido e egocêntrico? Consegue imaginar que alguém que, aos 14 anos era considerado um super craque e que antes dos 30 é bilionário, não fique assim? Qual o problema disso? O que isso nos ofende? Os colegas adoram ele e não se importam com isso!!!! Por que a gente fica dodói com essas histórias???? Os jogadores estão fechados com seu amigo, e a torcida contra não ajudará a manter a União do grupo.

Força Neymar, cala boca Casagrande!!!!

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Neimá

É importante não cair na sedução de misturar os dois temas: a pessoa e o jogador Neymar. Existe, sem dúvida, uma espécie de boicote a Neymar protagonizado pela imprensa (em especial o Casagrande), que insiste nas críticas ao comportamento do jogador, menospreza suas conquistas e ressalta de forma insistente os fracassos nas Copas. Essa rejeição também ocorre por uma parte grande da torcida, em especial a esquerda identitária e festeira, que mistura a figura pública com sua performance futebolística. No caso de Neymar, assim como na vida de muitos heróis e ídolos de muitos aspectos da cultura, há uma mistura entre “autor e obra”, mas sabemos o quanto existe de esforço para denegrir a obra de alguns autores quando sua mensagem interessa à burguesia, ao mesmo tempo que “passamos pano” e esquecemos falhas graves de muitas personalidades quando sua exaltação vai no mesmo sentido dos interesses da classe que está no poder. Sabemos do interesse do imperialismo em destruir ídolos e líderes nacionais, exatamente porque eles funcionam como canalizadores de desejos populares, que via de regra não coincidem com aqueles da burguesia. .

Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de “desprezo moralista”, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta perseguição.

Porém, mesmo sabendo que existe interesse de alguns em atacar aspectos da personalidade Neymar Júnior, ainda acho que é apressado tratá-lo como o melhor jogador de futebol do mundo, acima de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandowski, Benzema, etc. Acho um exagero, uma “pachecada”, e não o vejo nessa posição. Ele é top 10, por certo, mas não me parece ter atingido o posto de melhor do mundo. Todavia, como dito acima, pode se tornar caso destrua nessa Copa. Messi, ao que tudo indica (escrevo essas palavras logo após a desastrosa estreia da Argentina para a Arábia Saudita), vai fracassar de novo.

Torço por Neymar e pela seleção, e não vou me deixar seduzir pela campanha de desprezo que alguns fazem contra nosso produto mais famoso e valioso.

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