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Objeção de Consciência

“Deveríamos abolir a “objeção de consciência” com relação ao aborto, já que os profissionais que assim se manifestam estão negando direitos reprodutivos e sexuais às mulheres?”

Esta é uma questão muito tensa. A atenção ao aborto – assim como o direito à cesariana sem indicação médica – se encontram em uma interface entre cultura, religião e valores subjetivos e por isso mesmo são trazidos à tona com frequência. Ao mesmo tempo nunca escutamos debate algum – e no mundo inteiro – sobre negativa de atendimento a membros de outra religião, negros, gays ou imigrantes, pois que nenhum conselho de Medicina ou legislação pública tem dúvidas sobre esse tipo de ação, por todos considerada como crimes contra a vida. São exemplos teóricos que não existem na prática, ou não geram dúvidas no mundo médico ou jurídico.

Mas podemos usar um exemplo melhor e que cabe ser usado neste debate: clitoridectomia. Eu pergunto: “E se você estivesse trabalhando em uma aldeia na África setentrional e fosse solicitado a usar seus conhecimentos médicos para auxiliar neste procedimento? Poderia usar de SEUS valores subjetivos para se negar a infligir dano ao corpo de uma menina?

E se fosse para a mudança cirúrgica de sexo? Deveríamos obrigar profissionais que discordam dessa prática de participar destas cirurgias? Creio que é muito fácil colocar nossas crenças como sendo “direitos inalienáveis” e desconsiderar as repercussões entre os profissionais que dela participam. Mas, creia, quem já participou de abortos sabe dos possíveis impactos que eles podem causar no psiquismo dos obstetras.

Na Alemanha nazista diz-se que as câmaras de gás foram criadas muito em função das repercussões danosas das execuções entre os soldados alemães. Depois de um certo número de execuções à bala o psiquismo dos carrascos ficava tão deteriorado que eles mesmos cometiam suicídio em bom número. “Ora, diriam, não podem se negar. É importante para a Alemanha. Se quiserem trabalhar aqui devem se comprometer com este serviço, mesmo quando ele agride seus valores humanos mais profundos”.

Não funcionou. Desconsiderar os sentimentos dos soldados se tornou desastroso. Era preciso respeitar os valores do executor. Ele também sofria pelo ato, assim como os profissionais se afetam pelo que fazem.

Apesar de apoiar a descriminalização do aborto de forma ampla, irrestrita, livre, sem constrangimentos, com suporte social e psicológico acho inaceitável obrigar médicos – treinados a valorizar a vida desde sua mais tenra manifestação – a participar de atos que a exterminam. Que isso seja feito por profissionais especialmente contratados pelo Estado para esta função e que não se obriguem estes procedimentos aos profissionais que enxergam a vida de outra forma.

Como eu disse, esta é uma interface muito rica no debate, e por isso mesmo ela é tão debatida. Ninguém usa “objeção de consciência” para não trabalhar no sábado ou para não tirar vesículas, mas a vida e a produção voluntária de dano no sujeito sempre será o motivo de debate.

E há que se respeitar quem pensa diferente de nós, enquanto exigimos do Estado uma postura que ofereça às mulheres esse recurso. Desconsiderar os valores do médico – neste caso em especial – é um erro que pode custar caro. Sobre a ideia proposta de que haveria vantagens com a supressão da “objeção por consciência” por parte dos médicos:

Acho essa posição muito vulnerável. Sou a favor da liberação do aborto até 12 semanas, além dos outros casos já previstos em lei, como malformações incompatíveis com a vida e estupro. E, como já disse, que ele seja livre, sem constrangimentos, pelo SUS, gratuito e com suporte emocional. Apesar das minhas objeções ao término voluntário de gestações, creio que este é o caminho com menor dano e que pode, inclusive, salvar muitas vidas.

Entretanto, eu jamais faria, por questões pessoais, emocionais, e considero uma violência obrigar um médico a participar disso. O acesso ao aborto legal por parte das mulheres deverá ser obrigação do Estado, assim como é hoje nos casos já previstos em lei. Porém, não é justo exigir que médicos participem de um ato contra sua vontade. O empoderamento das mulheres sobre seus corpos não pode ocorrer pela completa supressão do médico e seus valores.

E também não é justo fazer confusão: chama-se “objeção de consciência” e não “objeção religiosa”. A laicidade do estado não tem nada a ver com os valores éticos subjetivos de cada profissional. E vamos combinar… essa é uma questão que acontece teoricamente. No dia em que o Estado permitir o aborto e regulamentá-lo acredito que a maioria dos ginecologistas não terá problema algum com este procedimento.

Aliás, a discussão das cesarianas a pedido tem a mesma base argumentativa. Mesmo acreditando no direito que as mulheres têm sobre esta escolha, é injusto obrigar um médico a participar de um procedimento cirúrgico que agride suas convicções sobre produção de dano, tanto para mães quanto para os bebês. Todavia, se este pedido é mantido pela futura mãe, cabe ao Estado encontrar alguém que o faça. Como no caso do aborto legal, a cesariana legal não terá nenhum problema em encontrar quem a realize.

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Propaganda médica

Justiça seja feita…

Estávamos reunidos no Hospital de Clínicas para os preparativos da formatura quando fomos avisados que havia uma reunião marcada para os formandos. A “rádio corredor” avisava que o Laboratório X estaria fazendo uma palestra na sala Y sobre seus produtos, onde seriam distribuídas amostras grátis, brindes e um livro de especialidades farmacêuticas – por eles editado.

“Grátis”. A palavra mágica tilintou nos meus ouvidos. Assim que nossa reunião terminou me dirigi à sala X para escutar a “palestra” e receber meus presentes. No meio do caminho encontro meu colega Marcelo Zubaran Goldani e o convido a me acompanhar à sala de reuniões.

Má ideia. Com genuína indignação meu colega me deu uma verdadeira “carraspana”. Explicou, nos cinco minutos que durou nossa breve conversa, todos os elementos constitutivos da “propaganda médica” e porque todos nós, jovens médicos, deveríamos no envergonhar deste tipo de aliciamento.

Por certo que minha reação às suas palavras foram exatamente o que se espera de um jovem “doutor” arrogante e prepotente.

“Ora, o que pode haver de mal em receber estes agrados se nada é pedido em troca?“, pensei eu. Ou talvez o meu pensamento fosse ainda mais ingênuo: “Eu sou mais esperto que isso, eles não podem me enganar”, como se os gigantes da BigPharma não conhecessem nossas frágeis resistências e as formas de quebrá-las.

Ainda surpreso, agradeci as palavras do meu colega e me despedi. Sim, sem dúvida fui ao encontro e saí de lá com o meu livro (que guardo até hoje como lembrança) e a minha sacolinha de bugigangas “grátis”. Claro, deixei a sala também com minha reluzente canetinha no bolso, com o nome da droga da moda escrita em dourado. Minha inquietude ainda era muito adolescente para entender os profundos significados desse encontro. Fui, como todos, gado…

Meu colega estava certo. É profundamente humilhante a conduta dos médicos que trocam – mesmo que inconscientemente – sua preciosa prescrição por presentinhos, agrados e conversa sedutora. É inaceitável que ainda hoje aceitemos a publicidade ostensiva aos médicos por parte da indústria farmacêutica nos moldes em que ainda é feita. A relação da Nestlé com sociedades médicas me mostra que esta é uma relação atual e recente, e não uma reminiscência antiga e suplantada.

O fato de, passados 35 anos, eu ainda me lembrar da rápida conversa com Marcelo é a prova que este encontro foi importante e fortaleceu a semente de uma postura crítica sobre a ação médica. A necessária indignação com os (des)caminhos da arte médica é uma das mais importantes matérias que nos falta no currículo da faculdade.

Ao meu amigo Marcelo meu agradecimento. É muito provável que ele não se lembre desse breve encontro, mas é justo que ele saiba a ação que suas palavras tiveram no meu pensamento. Cada dia tenho mais certeza que as Escolas Médicas precisam de sujeitos chatos como ele.

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Adeus Renan

Depois de uma longa espera, o jornalista Renan Antunes (do DCM) finalmente recebeu um rim novo por meio de um transplante. Trabalhei muitos anos com doentes renais antes de me formar em Medicina e sei o quanto um transplante significa para um doente renal crônico amarrado a uma máquina. Depois da cirurgia – que teve o sucesso esperado – Renan estava feliz e radiante com a oportunidade de recomeçar sua vida ao lado da família. Poucas semanas depois do transplante eclode a pandemia do Covid. Renan era do grupo de risco pelas medicações imunossupressoras utilizadas como estratégia para evitar a rejeição do rim transplantado. Era natural que ficasse angustiado e com medo da contaminação.

Surgem sintomas respiratórios e ele vai ao hospital. Avisa de sua falta de ar assim como de sua condição especial de imunodeprimido. Faz o teste para Covid e logo depois é liberado para casa, mas com uma receita nas mãos que se mostraria desastrosa. Premidos pelo medo e pela pressão da opinião pública – onde se encontram figuras públicas como o presidente da República – os médicos receitam Hidroxicloroquina; muito provavelmente “por via das dúvidas”. Complicações cardíacas tiraram sua vida poucas horas depois. Arritmia, disseram. Logo depois vem o resultado do exame para o corona vírus: negativo.

O que matou Renan Antunes?

Não vou jogar os médicos aos leões, por certo. Tenho certeza que fizeram o que lhes parecia melhor. Vão sofrer ataques e agressões, mas prefiro me colocar no lugar de quem toma decisões dramáticas em situações críticas. Atire a primeira pedra aquele que…

Entretanto, creio que está é uma morte que poderia ser evitada não fosse a ideologia que EMPURRA os profissionais a usarem tecnologia, mesmo quando sua utilidade não é garantida ou quando seus malefícios aumentam – ao invés de diminuir – os riscos em uma determinada enfermidade. A isso chamamos de “imperativo tecnológico”, que não é um mito da medicina, mas cultural; não apenas os médicos são afetados, os pacientes também. Renan morreu por uma série de mitos. O mito da transcendência tecnológica, o mito da inocuidade das drogas, o mito da autoridade suprema dos médicos. Acabou sendo vítima do medo que os profissionais da saúde tem de esperar e não medicar. Medo de “nada fazer”.

Como no parto, a suprema sabedoria da clínica está na “lentidão dos atos que se aproxima da imobilidade”, reservando a ação heroica apenas para os casos dramáticos onde a ação se faz imperiosa. Talvez – e aqui apenas uma suposição – o nada fazer seria a mais justa e correta atitude. Renan estaria hoje fazendo um escalda-pés em casa e tomando chá de limão com mel (além das drogas para prevenir a rejeição). Mas para que isso acontecesse teríamos que abrir os olhos para tantos mitos (do grego mythós, de mýein = fechado) que não nos permitem enxergar que em Medicina, na maioria das vezes, menos é mais.

Siga em paz, Renan…

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Medicina e arte

(a partir de uma conversa com Eva Saints)

Lembro de ter comentado que o uso da máscara cirúrgica satisfaz muito mais a nossa fantasia da proteção do que a própria efetividade do recurso. Nós nos sentimos protegidos, mesmo que essa sensação não tenha um suporte muito claro em evidências. Durante muitos anos usamos máscaras para a atenção ao parto normal e só com muito esforço e convencimento reconhecemos sua inutilidade na assistência ao parto vaginal. Da mesma forma os médicos indicam repouso numa situação de ameaça de aborto porque sabem que, caso o aborto efetivamente ocorra, é natural que os pacientes – premidos por suas próprias culpas imaginárias – tracem uma linha entre não repousar e abortar. Ao fazerem isso resolvem dois problemas: estabelecem uma causalidade para sua tragédia pessoal e encontram um culpado fácil e próximo para sua desgraça: o médico descuidado que não enfatizou o repouso. Enchem a boca para dizer “erro médico”.

Os médicos sabem que em casos de aborto muito inicial as causas quase sempre são desacertos genéticos incompatíveis com a vida. Nem a bênção do Papa poderia criar um embrião que sequer chegou a se formar por falhas na conjugação dos gametas. Por esse entendimento, o sangramento seria a limpeza natural de um projeto que não seria passível de continuação.

Entretanto, mais do que simplesmente tratar o inevitável há que se reconhecer os medos e angústias que dominam um cenário de perda – como os abortos ou os óbitos fetais precoces. Acima de tudo o paciente que sofre perdas se acha culpado pelos que causou a si mesmo e aos que o amam. Essa culpa é insuportável para a maioria, e a forma mais fácil de se livrar dela é através da “diversão”, ou seja, desviando a responsabilidade da sua perda, livrando-se do peso da culpa através do encontro de um culpado outro. Por isso mesmo, por saberem da natural propensão humana de autoproteção, os médicos SEMPRE vão procurar se proteger diante da inevitável busca que os seres humanos fazem pelos culpados – verdadeiros ou não – das suas mazelas.

Assim, mesmo sabendo ser uma recomendação inútil, ele indica repouso absoluto. Melhor determinar uma ação desnecessária – e por vezes enfadonha – do que suportar os dedos injustamente apontados para si.

Há um exemplo ainda mais curioso de práticas “mágicas” que aprendi com os cirurgiões plásticos. Eles sabem muito bem que o resultado das suas cirurgias dependem – em grande monta – das características subjetivas de cicatrização dos seus pacientes. Mesmo com a mão mais qualificada e a técnica mais apurada e moderna, nenhum cirurgião está livre de encontrar um queloide (cicatriz grossa e larga) em seus clientes. Desta forma, para evitar serem acusados de má prática usam de um estratagema esperto.

Depois da cirurgia – por exemplo, cirurgia de redução de mamas ou uma abdominoplastia – eles fazem uma recomendação absurda e praticamente impossível de cumprir: pedem para a paciente ficar 14 dias imóvel na cama sem se mexer, fazendo inclusive suas necessidades com auxílio de uma “comadre” e um “papagaio” (coletores de fezes e urina).

Essa é uma determinação praticamente impossível de cumprir para um paciente que se submeteu a uma cirurgia simples e não cavitária como as descritas acima. Depois de 3 dias deitado, e não sentindo dores fortes, a paciente normalmente vai se levantar – mesmo com auxílio – e vai fazer suas necessidades de forma autônoma – e digna, pois não sente nenhuma necessidade de se manter imóvel em uma cama, o que por si só já é uma “tortura”.

Quando volta ao médico para revisão, diante de qualquer problema de cicatrização, o médico vai imediatamente questionar: “Mas diga lá, quantos dias ficou imóvel?”

O paciente constrangido responde: “Ah. Doutor, eu fiquei 5 dias (mentira, ficou 3) mas depois não aguentei e fui fazer xixi no banheiro, que fica bem pertinho“.

Ahhh“, grita o médico sem esconder a euforia. “O que foi que eu disse? Não obedeceu minhas recomendações e agora aconteceu isso“.

Pronto, o médico está livre de qualquer acusação e o paciente baixa os olhos, sentido para si uma culpa que não é de ninguém, mas que o médico espertamente desviou antes que pudesse acertá-lo.

A medicina, é muito mais a arte da compreensão das fantasias e angústias de seus pacientes do que a ilusória busca por uma droga salvadora.

PS: é claro que uma comunicação livre e honesta entre o paciente e seu médico poderia evitar boa parte desses jogos e dessas performances. Entretanto, nossa medicina procura se aprofundar muito mais nas tecnologias de afastamento (exames, imagens, drogas, cirurgias) do que nas práticas que promovem a conexão íntima e profunda entre o doente e seu cuidador. Se esta ligação entre os personagens desse encontro fosse entendida como primordial, as consultas que hoje duram não muito mais do que 15 minutos passariam a durar mais de uma hora, mas isso se choca com o tempo que os médicos aceitam despender para cada con$ulta. As lacunas de explicações que se formam nesse contato são preenchidas por determinações fantasiosas, homogeneizantes, por vezes inúteis e que não respeitam a unicidade de cada sujeito, o que deveria ser a alma de todo encontro médico-paciente. Sem conexão e vínculo não existe uma verdadeira e profunda medicina, apenas o exercício alienante e ilusório do paciente em colocar no outro a glória ou o fracasso de sua cura.

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(In)Dignidade Médica

Entrei nesse grupo – incluído por alguém – há pouco menos de 10 anos e pude testemunhar o pior da espécie humana nos 15 minutos que consegui permanecer naquele antro pestilento de reacionarismo e racismo. Os médicos – como grupo e como corporação – são a escumalha fascista da sociedade. Sua representação política (CRMs e CFM e até os sindicatos) são fiéis representantes do que existe de pior na sociedade brasileira.

O racismo, o fascismo, o preconceito de classe, a arrogância, o preconceito de gênero (as agressões contra Dilma eram misóginas e nojentas) e o TOTAL descompromisso com a saúde da população estão representados nestes órgãos. Só o que vale é a proteção do quinhão, dos privilégios, das vantagens e dos benefícios. Sanguessugas do povo, aproveitadores e enganadores.

E não digo isso agora; minha visão negativa da estrutura dessa corporação tem a idade da minha inserção nela. “Dignidade Médica” é apenas a ponta de lança mais desavergonhada do fascismo da nossa classe médi(c)a. Puro lixo.

Sim, há muitos médicos de qualidade técnica, ética e moral, mas nenhum nesses lugares.

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Prognósticos

Eu respeito todas as análise prognósticas feitas com base científica mas, como sou velho, acho mais adequado aguardar o desenrolar dos fatos antes de entrar em pânico. Se há alguma vantagem em envelhecer, esta é o acúmulo de histórias vividas e experiências acumuladas. Lembro claramente de duas projeções trágicas surgidas no meu tempo de faculdade e exploradas à exaustão pela mídia e pelos senhores da ciência: “explosão demográfica” e “AIDs“.

De acordo com as previsões dramáticas e negativistas do início dos anos 80 estaríamos exterminados por uma delas, ou pela combinação de ambas. Quem não lembra a progressão geométrica do incremento populacional? Lembro muito do filme “Soylent Green”, com Charlton Heston. A versão brasileira tinha um título ridículo mas curioso: “No Mundo de 2020”, ou seja, agora. O filme mostrava um mundo insuportavelmente quente e abarrotado de gente e me marcou pessoalmente por sua visão pessimista do futuro, onde o suicídio aparecia como uma opção válida e justa. E sobre a Aids? “Vai passar dos homossexuais para os bissexuais e de lá para os ‘normais’ da população”, combinando um catastrofismo irreal com os preconceitos de orientação sexual da época.

Nada disso se cumpriu. A população decrescente já é um problema social em várias partes da Europa, em especial na Itália, Portugal, Irlanda e no norte da Espanha. O aumento que ainda ocorre na África é muito mais em função de uma cultura agrária e pela falta de desenvolvimento social, determinados em função da longa exploração colonialista. Todavia, estamos muito longe de uma hecatombe populacional e esse assunto quase não é mais tratado pela imprensa. Sobre a AIDs, esta síndrome continua sendo um problema de saúde pública, mas longe de ser um problema maior que os tradicionais “exterminadores” que se mantém na ativa, como podemos ver na lista abaixo (PAHO):

1ª) Cardiopatia isquêmica
2ª) Acidente vascular cerebral (AVC)
3ª) Doença pulmonar obstrutiva crônica
4ª) Infecções das vias respiratórias inferiores
5ª) Alzheimer e outras demências
6ª) Câncer de pulmão, traqueia e brônquios
7ª) Diabetes mellitus
8ª) Acidentes de trânsito
9ª) Doenças diarreicas
10ª) Tuberculose

Mais da metade das pessoas no mundo morrerá das doenças acima listadas, a maioria delas produzidas na esteira da distribuição miserável dos recursos do planeta, originada pelo capitalismo e sua ideologia de acúmulo. A cura para estas enfermidades não está nos remédios, na medicina tecnológica, nos hospitais ou no aporte gigantesco de recursos para o tratamento de enfermidades, mas na adoção de um modelo político e social mais justo, que não condene os sujeitos a uma alimentação ruim, stress crônico, sedentarismo e pobreza. Buscar essa mudança em nível global é mais importante do que a cura de doenças que, por si só, seriam exterminadas se as suas verdadeiras causas fossem eliminadas.

Com a atual pandemia podemos esperar o mesmo curso normal de enfermidades transmissíveis conforme a história nos ensina. O catastrofismo precisa ser evitado, o que não significa negar as medidas de isolamento que parecem ser, por ora, nossa única defesa reconhecidamente justa de proteção.

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Corona vírus e Homeopatia

As prescrições homeopáticas que estão surgindo nas mídias sociais para uso no quadro gripal causado pelo corona virus são nitidamente genéricas – para sintomas virais comuns – e não devem ser usadas para “prevenção”. Regra básica da homeopatia: se estiver assintomático não use nada. Além disso, evite as drogas, mesmo as aparentemente inocentes. Algumas drogas, como os anti inflamatórios, são prejudiciais em casos de infecção por corona virus. Seja moderado e procure ajuda se sentir que as coisas estão fugindo do controle.

Sempre é justo e correto individualizar os casos de qualquer doença, em especial as agudas. Nossas doenças são construções subjetivas e demandam uma observação cuidadosa com a forma como são construídas. Entretanto, a exemplo do que já foi observado em outras epidemias (inclusive a “espanhola”), é importante caracterizar o “genus epidemicus”, ou seja, a forma como a epidemia se comporta na maioria dos casos. Para isso será necessário observar centenas (ou milhares) de casos para se perceber a maneira específica como esse patógeno interage com o organismo humano e quais as reações fisiopatológicas mais comuns nos doentes. Algumas observações boas já foram produzidas, e elas poderão ser muito úteis para a seleção do(s) remédio(s) homeopático(s) mais adequado(s).

Muito importante lembrar que o medicamento homeopático não trata doenças, mas produz reações orgânicas no sujeito doente no sentido da cura, oportunizando uma cura pelos processos fisiológicos (e não artificiais) de reação. Entretanto, nenhuma homeopatia – e nenhum outro medicamento!!! – substitui as medidas fundamentais para a erradicação das pandemias:

* Lavar as mãos
* Proteger-se e proteger os mais frágeis
* Isolamento
* Medidas gerais de cuidado e conforto (hidratação, descanso, sono, alimentação, etc)
* Se sintomático (tosse, febre, espirros, mal estar, fraqueza, etc.), não se aproximar de outros sujeitos, em especial velhos, crianças e imunodeprimidos.
* Não comparecer a reuniões, em especial aquelas que desejam o extermínio da democracia. Nesses lugares a contaminação é pior, pois o vírus se mistura com ódio e preconceito e tem seus efeitos potencializados.

Consulte o sistema público de saúde diante de qualquer sinal de agravamento, em especial dificuldade respiratória. Evite procurar serviços de saúde – em especial as emergências – se o quadro não for realmente preocupante. Deixe lugar para quem precisa!!

Acima de tudo seja compreensivo e fraterno. Pense nos outros. Seja um farol de positividade e esperança em um mundo cheio de medos e paranoias. Faça a diferença.

Em verdade Leonardo Boff já dizia que a nossa espécie se caracteriza pelo fato de valorizarmos de forma especial o ato de cuidar. Somos uma espécie em que o cuidado com o outro assumiu importância vital. É hora de mostrar que merecemos pertencer à coletividade humana, cuidando de todos à nossa volta.

Veja aqui as orientações sobre o uso de Justicia Adhatoda para a pandemia de Corona virus.

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Rótulos

O gozo que os pacientes experimentam ao receber – em batismo médico – o nome de suas doenças e enfermidades sempre me surpreendeu. “Mas afinal, o que é isso que tenho?”, perguntavam com ávida ansiedade. O “carimbo” médico – a nomeação de seus males – era seguido de um suspiro de alívio. O esforço comovente que tantas pessoas fazem para colar nos outros – e em si mesmos – diagnósticos e rótulos para explicar suas mazelas é uma das marcas da nossa medicina. O efeito apaziguador dessas rotulagens oferece um sentido de pertencimento e delimitação. Desta forma, estabelecendo barreiras para o sofrimento, parece-nos mais simples imaginar uma cura para os males, mesmo que não seja mais do que uma fantasia com pouca conexão com a realidade. Também nos livra do isolamento que se abate sobre todo aquele que se vê vítima de uma enfermidade. “Somos muitos aqui nessa dor”, e não há como negar o quanto este compartilhamento apazigua o sofrimento.


Dr. James McKinnon, “Disease as a Matter of Fact”, Ed. Coltrane, Pág. 135

James McKinnon é um médico sul-africano nascido em 1943 em Cape Town. Com 24 anos de idade foi testemunha do primeiro transplante cardíaco realizado por Christiaan Neethling Barnard durante seu período como residente de cardiologia no hospital Grote-Schuur em Cape Town, quando o coração de uma pessoa falecida bateu pela primeira vez no peito de outro ser humano, exatamente às 5h 25min do dia 3 de dezembro de 1967. James McKinnon era da equipe de suporte da UTI do paciente transplantado, que sobreviveu a cirurgia apesar de vir a falecer de sepse 18 dias depois do transplante. Apesar do aparente fracasso, as equipes envolvidas nessa cirurgia inédita não se deixaram esmorecer e logo após realizaram uma nova cirurgia, onde o paciente sobreviveu por 1 ano e 7 meses. McKinnon iniciou uma carreira de sucesso como cardiologista e passou a se dedicar à literatura na maturidade, quando começou a escrever sobre temas médicos mais amplos, inclusive com uma visão muito crítica à medicina exógena e medicamentosa contemporânea. Seu livro “Medicina Quaternária” lançou seu nome como um dos importantes escritores médicos de língua inglesa. “Disease as a Matter od Fact” é seu último livro, e trata das relações entre médicos e pacientes, em especial na força curativa da relação transferencial.

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Médicos

Na verdade essas recomendações de exames médicos anuais, ou mesmo bianuais, se prestam a um sistema de controle biomédico sobre a população, agindo como uma “polícia da saúde” que constrange os sujeitos para que entreguem sua intimidade aos profissionais da saúde. Trata-se de um projeto higienista que coloca os profissionais de saúde na posição de “juízes dos comportamentos”, interferindo na alimentação (você está proibido de… complete com o vilão alimentar da moda), na vida social, nos sentimentos (aqui entra a criminalização da tristeza), nos desejos (aqui o papel fundamental da medicina na criminalização das práticas heterodoxas da sexualidade) e na vida política (e aqui podem entrar os médicos que fazem proselitismo político em consultório). Cabe ainda lembrar dos casos de médicos denunciando mulheres que fizeram abortos, numa atitude policialesca e que viola de forma grave o pacto de confidencialidade – que é o centro da ética profissional. A discussão contemporânea de denúncia compulsória de violências de gênero – que também violaria a confidencialidade – entra no mesmo debate.

Essa função social do médico (tão bem descrita por Foucault) ainda está ancorada em uma gigantesca e multibilionária indústria farmacêutica que transforma os médicos em “despachantes de drogas”, criando e mantendo pacientes escravizados a substâncias químicas, seja pela dependência direta da ação das drogas, ou pela vinculação psicológica, produzida por uma narrativa centrada no valor curativo de elementos externos – como drogas e cirurgias – que em última análise reforçam e mantém o poder médico. A medicina contemporânea acaba se tornando tanto um poder político quanto um braço que sustenta o patriarcado e o capitalismo.

Lembro apenas as palavras do meu querido Max, que há mais de 30 anos me afirmava “A medicina como projeto de cura vai se tornando paulatinamente mais diáfana e sutil, até o ponto em que se torna pura pedagogia…. e empatia.

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Medicina e Ciência

A prática da medicina se apoia na ciência apenas quando o conhecimento científico oferece sustentação aos seus interesses corporativos ou quando garante mais poder aos profissionais. Monitorização eletrônica foi introduzida sem nenhuma evidência clara de seus benefícios. Episiotomia e ultrassons de rotina, igualmente. Em contrapartida, décadas de estudos científicos bem desenhados que provam a ineficiência e/ou a maleficência destas condutas são insuficientes para desbancar tais procedimentos de nossas rotinas. Evidência científica só é boa se nos beneficia ou nos enriquece.

Henrico di Blasio “L’Uomo e la Scienza”, ed. Metaphisis, pag. 135

Henrico di Blasio é um médico italiano, especialista em medicina de Família. Nasceu em Nápoles e fez mestrado e doutorado em farmacologia na Universidade de Nápoles Federico II. Escreveu “L´Uomo e la Scienza” como um manifesto contra a medicalização extrema da sociedade e o totalitarismo que ocorre com a Medicina Baseada em Evidências quando não se aplica sobre ela uma visão holística e humanista. Mora em Nápoles e é casado com a pediatra Laura Stefanni.

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