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Medicina do Futuro

Já nos anos 90 eu dizia que “nos tornamos especialistas em tratar os desarranjos da saúde criados por um sistema médico caótico e desintegrado que é o resultado de uma Medicina inserida na ideologia capitalista”. Agora volto a assistir médicos debatendo os rumos da medicina, em especial a partir da ideia de que, investindo em medicina primária, mudaríamos toda a estrutura da medicina moderna.

Não há como discordar disso, entretanto é algo que eu mesmo digo há 25 anos; mesmo sabendo que poucas pessoas estão interessadas em debater medicina a partir dessa perspectiva.

Para mim a Medicina se comporta como uma terapia distópica, tapando os buracos que ela mesma cria por suas intervenções intempestivas. Nos anos 90 eu falava ainda algo mais catastrófico: “Fosse a Medicina realmente baseada em evidências científicas produzidas por estudos bem conduzidos sua expressão cotidiana seria tão diferente do que hoje conhecemos que ela seria praticamente irreconhecível”.

Não há dúvida que esta medicina seria chocante para nós. Imagine-se como um viajante do tempo que encontrasse um amigo no futuro e ele lhe dissesse: “quer me acompanhar na visita ao médico?” e ambos fossem cantar em um grupo de canto coral.

“Como assim?“, diria você. Pois talvez, se as evidências se confirmarem, pintar, dançar, cantar, cuidar do jardim e brincar com filhos e netos tenha muito mais a ver com saúde humana do que todas as drogas até hoje produzidas. É bem provável que a busca pela saúde pouco tenha a ver com as múltiplas intervenções externas e mecânicas, e muito mais com o equilíbrio interno, a organização social, o convívio, o prazer, a alegria e a natureza.

Lembro agora das reuniões de Pré Natal em Pithiviers dirigidas por Michel Odent, quando ele trazia uma professora de piano e estimulava o canto, a música, as piadas, a presença de crianças, etc. Quem ousaria negar que isso é muito mais efetivo para o estímulo à saúde do que sentar à frente de um doutor forrado de arrogância e ideologia etiocentrada?

Como dizia um filósofo conhecido: “Não, não é depressão. É capitalismo mesmo”.

Portanto, não há mais dúvidas quanto a necessidade de repensar a medicina e centrar nosso foco em atenção primária. Quero apenas dizer que esse discurso é antigo, que de tempos em tempos veste roupagens diferentes, mas é sempre bom vê-lo sendo repaginado. Todavia, minha tese é que jamais existirá uma mudança radical na saúde sem que haja uma transformação no sistema econômico. Enquanto a doença for algo economicamente incentivado nada de profundo vai mudar.

Pense no dilema do cesarista; que tipo de pressão ele tem para promover a saúde dos seus pacientes? Se você perguntar a ele porque não segue os estudos e a Medicina Baseada em Evidências ele lhe dirá, do alto de sua sinceridade racionalista: “Por que diabos eu faria isso? Ganho muito mais dinheiro, tranquilidade e tempo sendo assim, e nenhuma paciente reclama. Mais ainda: recebo total apoio dos meus pares; jamais serei incomodado pelo CFM por passar bisturi em todo mundo”.

Houve uma época que até eu acreditei que “educar médicos” seria a solução, mas abandonei essa ideia há mais de 25 anos, porque não se trata de uma questão de educação ou de informação, mas de paradigmas centrados no poder das corporações e no lucro. Hoje cultivo um ceticismo esperançoso, aguardando que as radicalidades de outrora sejam cada dia mais próximas da centralidade do poder autoritário.

Essa minha postura pode ser traduzida como o eterno embate idealismo X materialismo. Eu sei que o certo seria uma revolução proletária comunista mas ninguém está preparado para isso, então a gente acredita nas promessas de “domesticação dos escorpiões” imaginando que confinados e bem educados eles deixariam de picar as pessoas. É só por isso que a gente continua acreditando no revisionismo das esquerdas que prometem civilizar o capital. Da mesma forma, acredito que ações parciais em direção à autonomia e à prevenção de transtornos podem ser positivas, mesmo sabendo que nenhuma mudança radical poderá ocorrer enquanto tivermos uma medicina centrada no capitalismo.

English version

Back in the 90s I used to say that “we have become specialists in treating health disorders created by a chaotic and disintegrated medical system that is the result of a Medicine inserted in the capitalist ideology”. Now I witness again doctors debating the trends of medicine in the 21st century, especially from the idea that, investing in primary medicine, we would change the entire structure of modern medicine.

There is no way to disagree with that, however it is something I have been saying myself for 25 years; even though few people are interested in debating medicine from this perspective.

For me, Medicine behaves like a dystopian therapy, filling the holes that it creates by its untimely interventions. In the 90’s I said something even more catastrophic: “Were Medicine really based on scientific evidence produced by well-conducted studies, its everyday expression would be so different from what we know today that it would be practically unrecognizable”. There is no doubt that this medicine would be shocking to us. Imagine yourself as a time traveler who met a friend in the future and he says to you: “Will you accompany me to the doctor’s visit?” and both end up going a choral singing group.

“How so?”, you would say. Perhaps, if the evidence confirms, painting, dancing, singing, taking care of the garden and playing with children and grandchildren have much more to do with human health than all the drugs produced so far. It is likely that the search for health has little to do with multiple external and mechanical interventions, and much more to do with internal balance, social organization, conviviality, pleasure, joy and nature.

I remember the prenatal meetings in Pithiviers led by Michel Odent, when he brought a piano teacher and encouraged singing, music, jokes, the presence of children, etc. Who can deny that this is much more effective in boosting health than sitting in front of a doctor infused with arrogance and etiocentric ideology?

As a well-known philosopher used to say: “No, it’s not depression. It is just capitalism”.

Therefore, there is no longer any doubt about the need to rethink medicine and the necessary focus on primary care. Indeed, I know that this speech is old, which – from time to time – wears different clothes, but it’s always nice to see it being reworked. However, my thesis is that there will never be a radical change in healthcare without a transformation in the economic system. As long as the disease is something economically encouraged, nothing profound will change.

Think on the diehard C-section apologist´s dilemma; what kind of pressure does he have to promote the health of his patients? If you ask him why he does not follow studies and Evidence-Based Medicine he will say, from the height of his rationalistic sincerity: “Why the hell would I do that? I earn a lot more money, I have peace of mind, time for my family and no patient complains. What’s more: I get full support from my peers; I will never be bothered by the medical board for using a scalpel over all patients”.

There was a time when even I believed that “educating doctors” would be the solution, but I abandoned this idea more than 25 years ago, because it is not a question of education or information, but about a paradigm centered on corporate power and profit . Today I cultivate a hopeful skepticism, hoping that the radicalisms that we shared many years ago are each day closer to the centrality of authoritative power.

This posture can be translated as the eternal clash between idealism and materialism. I know that the right thing would be a communist proletarian revolution but nobody is prepared for that, so we believe in the promises of “scorpion´s domestication”, imagining that confined and well educated they would stop biting people. This is the only reason why people continue to believe in the revisionism of the left that promises to civilize capital, even thou they know it goes against the essence of capital. Likewise, I believe these partial actions towards autonomy and the prevention of disorders can be positive, even knowing that no radical change can occur as long as we have a medicine centered on capitalism.

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Sobre botes em oceanos revoltos

Vez por outra aparecem matérias – em geral sensacionalistas e com relatos anedóticos – a respeito de partos domiciliares planejados e até episiotomia, com a clara intenção de criticar os primeiros e exaltar a necessidade da segunda.

Não há dúvida de que, procurando bem, você pode encontrar artigos pequenos e sem relevância autoritativa para questionar, criticar ou exaltar qualquer coisa, em especial procedimentos médicos. Pode-se criar e desfazer gráficos de morbidade com relativa facilidade, bastando para isso torturar as estatísticas para que falem o que desejamos ler. O estado da arte, entretanto, é da qualidade e segurança do atendimento domiciliar e da inutilidade – e mais ainda, o efeito deletério – das episiotomias quando aplicadas como procedimento de rotina durante a assistência ao parto. Isso é o que – neste momento da história – nos fala a “Saúde Baseada em Evidências”.

Entretanto, esse debate só faz sentido se tivermos noção de que a ciência não se comporta como um bote que se move em um lago plácido e imóvel usando as evidências e provas como remos. Muito pelo contrário: o bote está em alto mar, sendo jogado para todos os lados pelo vento das energias culturais, equilibrando-se sobre gigantescas correntes oceânicas, as quais são comandadas pelo capitalismo e pelo patriarcado, as duas principais forças a movimentar as águas dos comportamentos, mas também de dados, pesquisas e estudos.

Desta forma, é lícito entender que episiotomia e parto domiciliar NÃO são debates exclusivamente médicos, mesmo que a medicina e a obstetrícia possam fazer ciência com estes eventos. Em verdade, eles são enfrentamentos de ordem FILOSÓFICA, com algum embasamento científico e consequências médicas.

A origem da disputa entre estas vertentes não está nos gráficos de morbimortalidade materna e perinatal, mas na forma como a sociedade enxerga a função social e a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Todo o arcabouço científico é produzido A PARTIR das visões filosóficas primordiais que estabelecemos sobre esse tema central, e só depois disso as pesquisas se moldam para atacar ou refutar estas premissas.

A simples pesquisa sobre episiotomia e parto domiciliar já denuncia um preconceito que nos obriga a perguntar: por que é necessário debater sobre a integridade física de uma mulher ou sobre seu direito de ser assistida onde desejar? Por que é claro e nítido que nenhuma pesquisa assim seria feita com homens? Por que achamos justo questionar direitos humanos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, e jamais dos homens?

A medicina jamais será a linha de frente das modificações na atenção, pois que apenas reflete, dissemina e amplifica valores profundamente relacionados à nossa estrutura social.

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Estrangeiros na própria terra

Conheço alguns, até (em especial) médicos…

Sempre se acharam superiores a essa “tigrada” com quem são obrigados a conviver. Um deles, um cardiologista, quando viajou pela primeira vez à Europa, veio nos dizer que se sentia “em casa”, com aquela “finesse”, todo o charme e a elegância dos europeus. Esta falta de noção aqui no Rio Grande do Sul é MUITO pior do que no resto do Brasil por causa da colonização italiana e alemã.

Há alguns anos uma sociedade cultural italiana aqui de Porto Alegre distribuía aos seus sócios um adesivo onde se lia em dialeto vêneto: “Mi son Talian grazie Dio”, ou seja “Eu sou italiano graças a Deus”, o que nos faz lembrar dos italianos mortos de fome e miseráveis que vieram para nosso país para fugir da “mirada” (miséria + gelada) da Europa do século XIX. Foram recebidos de braços abertos e com terras gratuitas para plantarem. Alguns viraram industriais e grandes fazendeiros, e muitos continuam vivendo na Europa, mesmo sem sair da sua fazenda no interior do Rio Grande do Sul ou São Paulo.

Hoje os tetranetos desses miseráveis europeus se acham superiores pela cor de sua pele, e não aceitam ser confundidos com os “pelo duro”, os moreninhos, os “brasileiros” com quem são obrigados a conviver. Dizem frases características como “se eu pudesse fugia daqui” (mesmo para ser cidadão de segunda classe em Miami), ou “o problema não é o Brasil, mas esse povinho” (mas sempre se colocam fora do “povo”) e tantas outras grosserias que estamos acostumados a ouvir em mesas de bar ou conversas informais.

“O Brasil não merece uma pessoa como eu”, dizem, numa arrogância patética e estúpida. Negam o quanto receberam desse país e o tanto de benefícios tiveram para chegar onde agora estão. Médicos, advogados, comerciantes e empresários sustentados pelo esforço conjunto de uma sociedade que agora desprezam, achando que seu mundo é outro.

Mal sabem que quando chegam na Europa são vistos com deboche e desconsideração pelos racistas que, como eles, não percebem o quanto de sua riqueza depende do trabalho de quem tanto desprezam.

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Incultos treinados

Na Medicina o profissional “inculto treinado” é uma novidade do século XX. Antes disso era comum aos médicos um “saber enciclopédico” e uma cultura geral abrangente. A invasão da farmacologia iatroquímica, consequência natural da indústria do petróleo, consumou o distanciamento das visões médicas mais integrativas.

Ao afastar-se das humanas e aproximar-se das exatas o médico tornou-se um mecânico sofisticado da Corporis Humani Fábrica. Técnico, preciso, específico, que enxerga os corpos numa esteira rolante, consertando partes danificadas sem levar em consideração o todo, seu destino final ou seu propósito. Privado das ciências sociais e da abordagem psíquica o médico contemporâneo enxerga cada vez menos do humano e cada vez mais das pequenas partes que o compõe.

Sem as linhas da psicologia e da filosofia para costurar estas partes separadas pelo cartesianismo ficamos a olhar o sujeito doente como um Frankenstein, batendo inutilmente em sua carne a pedir-lhe que “Fale!!”.

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Medicina e Sexo

Quando adolescente eu era fascinado por literatura de suspense e mistério. Herdei dos meus tios uma coleção de revistas chamadas “Ellery Queen’s Mistery Magazine”, onde eram publicados contos carregados de ação e tramas detetivescas. Eram histórias cativantes, contos curtos ao estilo dos filmes de Alfred Hitchcock. As histórias me faziam viajar pelas incríveis soluções encontradas pelos detetives para os casos complexos, e minha imaginação embarcava junto com eles para países distantes e exóticos.

De tantos contos lidos naquela época, uma história apenas eu guardo na memória. O resto são flashes desconexos feitos de lembranças, como pedaços soltos de um quebra-cabeças. Esta história me marcou por ser uma história que misturava sexo, mistério e horror.

A trama eu não me recordo em detalhes, mas apenas a cena principal. Uma bela jovem havia sido sequestrada por sujeitos estranhos, que mais tarde se revelaram seres de outro planeta, e levada para uma casa abandonada. Sozinha e nua , amarrada em uma cadeira em um quarto vazio, ela seria violada pelo alienígena chefe, como forma de produzir uma linhagem de seres geneticamente híbridos, “parte humanos, parte ETs”, que seriam o embrião de uma nova civilização cujo objetivo era a conquista do planeta. Todavia, a cena brutal do estupro foi descrita da forma mais estranha possível, e por isso mesmo produziu um choque que após 50 anos ainda não se desfez.

Despido de seu invólucro humano, o alienígena finalmente apareceu diante da moça como verdadeiramente era: um ser disforme, viscoso, esverdeado e com múltiplos tentáculos que faziam o papel das suas mãos. Como um polvo gigante abraçou o corpo da menina envolvendo-a num abraço vigoroso e sexual.

Entretanto, como os alienígenas estavam há tempo estudando nossa espécie, os tentáculos foram milimetricamente direcionados às partes mais sensíveis do corpo da mulher. Os pontos de prazer feminino eram massageados por cada uma das finas e delicadas pontas tentaculares do monstro. O “polvo espacial” nada dizia, não esboçava nenhuma reação, apenas operava mecanicamente, estimulando a sensibilidade da mulher, tornada uma máquina na qual o uso correto de pontos específicos a faria sucumbir ao prazer.

É evidente que isso foi conseguido com sucesso. Diante da manipulação cientificamente calculada, e levando em consideração o estudo aprofundado das terminações nervosas da garota, ela não apenas multiplicou orgasmos, como engravidou da besta interplanetária.

O fim do texto mostrava a própria jovem descrevendo a cena como uma “experiência fantástica“, e que “havia sido tocada como jamais uma mulher o foi“.

A base da história – aparte toda a trama desinteressante e clichê das invasões alienígenas – é de que a sexualidade feminina pode ser despertada e controlada pelo conhecimento científico, pela razão, pelo entendimento da anatomia, pela compreensão do papel dos hormônios e pela determinação exata da topografia do desejo.. A inscrição do gozo estaria no corpo, mediada pelos nervos e hormônios e controlada pelo cérebro.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim

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Poder e Ciência

Basicamente quando se procura um tratamento lançamos mão da melhor evidência sobre uma determinada doença, com o estudo mais abrangente possível e com o maior rigor científico que se possa aplicar. Não creio que possa haver algum profissional da saúde que esteja em desacordo com esta afirmação. Se a medicina não é uma ciência – mas uma arte e um saber – ela certamente se apoia na ciência para aplicar tratamentos e implementar exames e terapêuticas.

Entretanto, esse não é – nem de longe!! – o problema da aplicação de conhecimento científico aos pacientes e seus sofrimentos. O drama reside na adaptação destas evidências aos choques de poder inevitáveis que vão ocorrer quando se está diante de descobertas capazes de abalar sistemas de poder bem sedimentados. No caso das vacinas, para usar um exemplo em voga, são BILHÕES de dólares que estão sendo disputados pelas “biotechs” de vários países na luta feroz por fatias bilionárias de mercado com essa pandemia. A experiência nos mostra que nenhuma ética na história da humanidade resiste a tanto dinheiro – e o poder que dele emana.

Pensem bem: se as evidências funcionassem no sentido de implementar mudanças ou determinar protocolos, 90% dos remédios de uma farmácia comum seriam jogados no lixo, pois são comprovadamente inúteis e/ou perigosos – em especial os psicotrópicos. A maioria das cirurgias seriam abandonadas, em especial algumas altamente lucrativas como as intervenções cirúrgicas cardíacas. Muitos exames inúteis (boa parte das ecografias, por exemplo) seriam abandonados, assim como as mamografias de rotina. No campo da obstetrícia, não haveria episiotomias, cesarianas seriam exceções (nem 15% dos casos) e sequer haveria médicos atendendo partos, pois as evidências comprovam que eles são os piores atendentes de parto disponíveis, atrás de parteiras e médicos de família. A presença de doulas seria obrigatória em todos os hospitais.

Percebam como a “verdade” que emana dos estudos e das pesquisas não é suficiente – por si só – para implementar mudanças. É preciso haver pressão política para que uma verdade deixe de ser oculta e passe a ser a vertente hegemônica de entendimento de um fenômeno qualquer na sociedade.

Olhar para a ciência como uma entidade mítica e isenta, amorfa e imparcial, é um erro brutal. A ciência que nos chega aos sentidos é trazida por sujeitos como nós e feita por homens e mulheres com interesses, preconceitos, desejos e falhas. Seu trabalho sofre todo tipo de pressão para apresentar resultados. Acreditar que a ciência possa se expressar num vácuo cultural, infensa à vaidade humana e ao poder, é pura ingenuidade – que pode custar vidas.

Sobre essas drogas que são propagandeadas como “positivas para tratar a Covid19” existe um conflito muito grande. A respeito da Ivermectina há uma verdadeira cisão entre especialistas. Novos estudos – em especial um que surgiu há poucos dias na Argentina onde esta droga foi usada em profissionais da saúde – confirmam que pode existir um resultado muito positivo com seu uso, o qual não pode ser desprezado por preconceitos de ordem científica ou política.

Recomendo esse vídeo do senado americano para ver o quanto o debate por lá é muito mais intenso e aberto do que por aqui.

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Os Heróis da Capa da Revista

Que absurdo.

Essa “babação de ovo” para a corporação é tremendamente ridícula e injusta com o contingente MUITO MAIOR de enfermeiras, obstetrizes, doulas, técnicas de enfermagem e do pessoal de apoio (limpeza, motoristas, porteiros, etc) que trabalharam – muitos com o sacrifício da vida – nessa pandemia. Sim, os médicos se sacrificaram também, mas não mais que os policiais todos os dias, os bombeiros, os lixeiros, os salva vidas, os eletricistas, os funcionários que colocam cabos de telefonia etc. Não há porque chamar de heróis aqueles que cumprem sua função com dignidade e honestamente.

Nem preciso falar sobre o apoio institucional e disseminado ao golpe de 2016 entre os médicos, o que os torna responsáveis pela agressão à democracia e a eleição de Bolsonaro.

Fica evidente que por trás disso está a exaltação politiqueira do Mandetta, um médico cuja vida foi dedicada à desvalorização do SUS e SÓ POR ISSO foi escolhido pelo Bolsonaro para liderar a pasta da saúde. Ele não é herói de nada, não passa de um ex-bolsonarista que tenta limpar seu currículo cuspindo (agora) no prato onde comeu.

Tudo isso para lançar um nome da direita limpinha para 2022.

PS: esse post não é para desvalorizar o importante trabalho dos médicos, mas para ressaltar a injustiça de premiar um grupo em detrimento dos outros profissionais – tão ou mais importantes.

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Revelação

Algumas questões contemporâneas:

Quando o pessoal faz “chá de revelação” a mãe também não sabe o sexo do bebê ou ela já sabe e só finge surpresa? Caso seja surpresa também para ela, como faz isso? Combina com o ecografista para avisar apenas ao confeiteiro?

Minha curiosidade vem do fato de que meus filhos nasceram exatamente na época da introdução das ecografias na prática obstétrica. Não foram realizados estes exames durante as gestações de Zeza, mas também não havia nenhuma curiosidade sobre o sexo dos bebês que justificasse a invasão da intimidade do ventre materno. O sexo era uma descoberta emocionante, mas o que havia era o “parto revelação”. O parto revelava tudo: peso, cara, cabelos e o sexo de nascimento.

Entretanto, esse “modismo”de descobertas precoces seguidas de um espetáculo de revelação enseja uma série de perguntas: por que exatamente no momento histórico onde o sexo biológico é tão desprezado como “determinante de gênero” essa comemoração é mais intensa, espetacularizada e pervasiva? Afinal, aqueles pequenos detalhes têm ou não importância? Qual o significado último dessas cerimônias de “revelação”? O que essa aparente contradição tem a nos “revelar”?

Para além dessas preocupações sobre os sentidos da revelação, muitas vezes estas festas se transformam em espetáculos de grosseria explícita. Há inúmeros exemplos de como a revelação extemporânea do sexo de uma criança pode ser tratada de forma abusiva, fazendo do momento um Fla-Flu grotesco e sem graça. Pior: a criança enquanto sujeito não vale nada, resumida ao valor das apostas sobre qual sexo pertence. Um objeto de brincadeira entre os adultos.

Fica claro que no mundo atual os eventos precisam ser espetacularizados, e parece que ser reservado significa abdicar do protagonismo. Hoje mesmo vi alguém reivindicando o direito das mulheres em fazer “topless”. Eu acho que esse direito deve ser garantido, mas deixar de cobrir o corpo tem muitos outros significados para além de evitar o calor e proteger-se do fio. O principal deles é a perda insidiosa da intimidade. O corpo deixa de ser algo privado e se torna público.

Assim, tudo o que é seu é exposto, passa a ser de todos, e a noção de pudor ou intimidade se desfaz como um anacronismo sem sentido. Tudo, inclusive sua sexualidade mais pessoal, precisa ser exposto, aberto e iluminado pelos holofotes das redes sociais. O que vejo acontecer, como era de esperar, é um questionamento cada vez mais intenso sobre esse modelo de auto exaltação. Eu, pessoalmente, acho muito bom que haja esta revisão.

Minha inquietude se mantém, e minha pergunta é honesta: Por que logo agora a descoberta do sexo passa a ser valorizada e espetacularizada, exatamente quando aquilo que por milênios definiu nosso sexo está caindo por terra, em nome de uma identidade de gênero muito mais fluida – mais da palavra e menos do corpo?

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Obstetras ou “Obstétricas”

Model in studio isolated on white background

Afinal, é “enfermeira obstétrica”ou “enfermeira obstetra”?

Bem, aqui vai a minha opinião…

Eu discordo da tese que nomeia as enfermeiras com pós-graduação como “obstétricas”. Para mim o nome mais indicado é “enfermeira obstetra” por algumas boas razões, e acho que essa deveria ser uma luta da enfermagem em nome de sua valorização.

A primeira é que colocar “obstetra” no nome não se adjetiva o trabalho, mas o substantiva, coloca-o em uma pessoa. Querem um exemplo simples de entender? Quando me perguntavam minha profissão eu dizia “médico”, e se depois perguntassem a especialidade dizia “obstetra”, jamais “médico obstétrico”. E por que com as enfermeiras deveria ser diferente?

Ora… porque aos olhos do poder médico hegemônico na enfermagem NÃO existem obstetras, mas tão somente “enfermeiras que fazem serviços obstétricos“, o que retira delas esta denominação, essa função e esse poder.

Para mim fica claro que há um truque semiótico e semântico na retirada desse denominador, mas não contem comigo para usar um nome que pode servir para diminuir a importância da enfermagem obstétrica no cenário contemporâneo.

Se não houver uma determinação (equivocada, ao meu ver) para retirar o nome de “obstetras” das parteiras profissionais é assim que vou continuar a chamá-las. “Obstétrica” fala da função, “obstetra” da pessoa; prefiro reforçar o que SÃO, não o que fazem. Aí está a chave para entender a disputa.

Portanto, eu pessoalmente prefiro chamar as profissionais que atendem o parto de “parteiras profissionais” – para reforçar o nome e os valores da parteria – mas na esfera da enfermagem o nome que me parece justo é obstetra mesmo, pelo que eu expus acima.

Semiótica é tudo. Os nomes com os quais batizamos as coisas desvelam o valor que nelas colocamos. Por isso chamamos “paciente” quem nos espera para ser atendido ou descrevemos menopausa como “falência ovariana”. Não existe nome inocente. E não se trata de debater o português, mas as intenções inconscientes do seu uso.

Ahhh, a outra razão? Não acho legal uma profissional cujo nome termina em “tétrica”.

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Limites

Passados exatos 100 anos os fascistas na Itália já eram responsáveis pelo assassinato de cerca de 600 italianos, uma mostra da total impunidade dessas milícias que, por princípio, preferiam usar pedaços de pau e não armas contra seus inimigos – sindicalistas, socialistas, comunistas – pois seu objetivo essencial era humilhá-los, e não dar cabo de suas vidas.

Um médico na Itália, de sólida reputação e posição social, foi vítima dessas brigadas fascistas. Por sorte não morreu, mas recebeu seu quinhão de tortura e humilhação. Seu filho, ainda pequeno, a isso presenciou com terror, amargura e indignação.

Nesta época era comum na Itália que estas facções criminosas, os “camisas negras”, emboscassem líderes sindicais e atirassem nos joelhos, para que eles nunca mais pudessem andar; essa ação se chamava gambizzare. Outra prática era a purga: constranger o sujeito a beber litros de óleo de rícino para provocar tormentos na barriga e no intestino. Também havia ataques aos sindicalistas e líderes operários com correntes; esses eram os castigos determinados para o “crime” de liderar as reivindicações dos trabalhadores.

Assim era o pânico desse menino, que o aterrorizava todos os dias: receber à noite seu pai alvejado e tornado inválido pelos camisas negras fascistas. A guerra acabou. Mussolini foi executado e sua família foi exposta ao ódio que ele tanto semeou. O fascismo esmaecia na Itália e os camisas negras tornaram-se a triste memória da crueldade e do horror. Esse menino, filho do médico, já adulto volta à Itália já graduado depois de ter estudado com a nata do pensamento freudiano na França, tornando-se psicanalista. Abre uma consultório e começa a atender seus pacientes.

Certo dia encontra em sua sala um cliente novo, homem maduro à procura de atendimento. Trata de assuntos domésticos, angústias, dores do passado. Relata minuciosamente suas neuroses, suas dúvidas e suas feridas abertas. O atendimento continua sem novidades por algumas semanas até o dia em que ele conta de seu passado na Itália fascista, e revela que pertenceu a um grupo de agitadores cuja missão era atirar no joelho dos sindicalistas. Ele havia participado das gangues de “gambizzare”.

Nesse momento de revelação o coração do jovem psicanalista congelou. Por seus olhos passaram as cenas de terror e medo de sua infância, na iminência de ver seu pai voltando para casa baleado, aleijado ou morto, seu ativismo castigado pelos porretes e tiros dos camisas negras. Diante dessa confissão, nada falou, mas percebeu que uma lembrança muito sensível de sua alma foi atingida.

Na consulta seguinte pediu ao paciente que procurasse um colega. Criou uma desculpa qualquer e se despediu. Sentiu que havia sido atingido em um local por demais delicado de sua constituição emocional, ferindo mortalmente a relação que recém se havia iniciado.

“Mas e quanto à isenção do profissional? E o que dizer da escuta sem preconceitos e julgamentos?“, perguntou o aluno, ao escutar a história contada pelo mestre.

Ora, não existe escuta isenta. Não há ouvidos que não transformem e metabolizem histórias no curto trajeto entre o tímpano e os sentimentos mais profundos. Exigir de um terapeuta que não seja tocado pelas narrativas que encontra em sua escuta cotidiana é pedir que negue o que há de mais humano em si. Se é justo pedir que as emoções e a perspectiva de mundo de um analista não conduzam um tratamento, também é correto aceitar que a carne que o constitui é suscetível às palavras e seus significados.

“Cada um sabe de seus limites”, respondeu ele com simplicidade. Da mesma forma, quando médicos invocam a “objeção de consciência” para recusar uma demanda podem estar falando de suas limitações diante da dramaticidade das escolhas que são obrigados a tomar. Não é justo tratá-los como se habitassem corpos ausentes de alma.

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