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A mais bonita

Em verdade, apesar do natural estranhamento causado por esta afirmação, não existe momento mais pleno de sexualidade do que o parto. Lembro de Ferdinand Celine, médico e polêmico escritor francês, escrevendo “Querem sexualidade de verdade? Procurem no parto“. Quem não concorda, tudo bem.

Vi algumas mulheres defendendo maquiagem e tratamentos para o cabelo para o momento das fotos na maternidade. Não me meto nesses assuntos e acho que cada um faz como quer, mas me incomodou a justificativa: seria para que ela ficasse “mais bonita” quando fosse gravar o momento em imagens.

Acho isso muito estranho, e posso dizer que não há nada mais belo do que a imensa balbúrdia de suores, gemidos, cabelos desgrenhados, lábios inchados e olhos molhados que testemunhamos no momento em que um bebê nasce. Não discuto os diversos conceitos de beleza, que precisam de poses, ângulos, iluminação e acessórios, mas repito que esta beleza crua e selvagem desse momento é muito mais significativa na construção de nossa própria sexualidade.

Bonita para receber seu filho“? Acham mesmo que um bebê vai se importar com a tonalidade do batom? Ou os presentes vão levar isso em consideração? Eu creio que o belo da cena está na superação e na própria vida que se revigora. Claro, uma forma mais sutil de beleza.

Na perspectiva do ser que nasce, inseguro e incompleto, desalojado de sua casa de idílio absoluto, a fagulha de esperança que lhe acalenta é o brilho das duas estrelas que, ao se aproximarem de seu rosto, informam que a única alternativa é o amor. Estas estrelas são os olhos brilhantes e úmidos de sua mãe.

O resto é comércio.

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Ecología íntima

Ok, eu concordo que está é uma discussão sem fim, complexa, emocional e por vezes desgastante. Está centrada nos valores mais fundamentais da maternidade e nos leva frequentemente a posições radicais.

Uma foto mostra um trio de mulheres lado a lado com seus bebês ao colo. Uma delas está amamentando ao seio, outra oferecendo fórmula láctea e uma terceira com alimentação parenteral. A mensagem implícita é óbvia: “não importa como foi, o importante é cuidar com afeto”. Pergunto: como não concordar com esta tese? Como negar que o elemento mais significativo que perpassa todas as mulheres desta cena é o afeto incondicional? Como não reconhecer na imagem a “fissura bizarra da ordem cósmica”, a qual chamamos amor?

Então…. por que apesar disso a imagem gera desconforto?

Eu creio que o que nos causa inquietude não é a mensagem explícita nas cenas de cuidado e amor. Não é a diversidade de manifestações de afeto, mas o que se esconde por trás do meramente manifesto, a mensagem sub-reptícia que nos leva a um ponto diferente das camadas mais superficiais da imagem apresentada.

A inquietude vem da idéia subliminar que perpassa, que exalta a banalização dos procedimentos, a valorização dos profissionais, a validade superior das tecnologias e a importância das intervenções médicas, carregando na chantagem emocional ao estilo “no fim o que realmente importa é o amor”. Fala da equalização de elementos díspares, tratando-os como se fossem, em essência, a mesma coisa.

Quem trabalhou no ativismo do parto mais de 3 décadas reconhece o mesmo tipo de mensagem nas publicidades que tentam tratar cesarianas e partos normais como se fossem formas igualmente válidas de retirar bebês do claustro materno. Todos sabemos onde essa banalização da cesariana nos levou.

Claro que o fim é importante; talvez o mais importante. Entretanto, o desprezo aos meios é sempre um erro, por ignorar o fato de que o processo de nascer é CONSTITUTIVO. Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, que estabeleceu uma criação ímpar e laços afetivos únicos como consequência.

Como diria Bárbara Katz-Rothmann “parto não é fazer bebês, mas também construir mães fortes o suficiente para suportar os desafios da maternagem”. Portanto, desprezar o processo de construção de uma mãe ignorando as características milenares que a formam jamais será uma atitude sábia.

Parir e amamentar possuem valor social exatamente por serem processos de grande superação. Se é verdade que podemos amar nossas crias sem parir ou amamentar (até mesmo sem gestar) também é verdade que o desprezo por estas etapas pode levar a consequências graves para os elementos formativos mais essenciais da espécie humana.

Parir e amamentar são processos em risco de extinção. Se nos preocupamos tanto com golfinhos e abelhas por que haveríamos de negligenciar de forma irresponsável nossa ecologia mais íntima?

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O rei que espiava

A respeito do texto que está rolando sobre um “rei que olhava as mulheres parindo” que teria dado origem à prática da litotomia para os partos.

“Acho essa tese profundamente fantasiosa, para não dizer tola e improvável. E fica fácil dizer isso levando-se em consideração que a tese que disputa espaço com esta se baseia nas óbvias vantagens de determinar às parturientes esta posição esdrúxula (que para muitos é a mais anti fisiológica existente) para assim facilitar o acesso dos médicos ao períneo. Em uma época em que o trabalho desses profissionais ganhava terreno exatamente pela possibilidade de controlar o parto através do uso de ferramentas, a troca de posição simbolizava também – e acima de tudo – uma mudanca de poderes: mulheres abaixo, homens acima.

Creio que a fixação sexual de um único sujeito não me parece forte o suficiente para moldar um padrão social de uma prática de atenção ao parto. Para que esta nova posição pudesse ser aceita ela precisava se adequar ao fluxo de modificações sociais que se apresentavam. Era preciso que ela oferecesse às mulheres a proteção simbólica que permitisse a elas entregar graciosamente a mais rica flor da feminilidade.

A conquista do parto é o ultimo bastião do patriarcado. A expropriação do parto é o controle definitivo sobre o milagre feminino essencial. As fixações sexuais de um rei são infinitamente menos relevantes do que o desejo de preponderância de uma corporação nascente e a do desejo ancestral de controlar os corpos femininos.”

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Histórias de Parto

Tenho visto muita gente escrevendo ultimamente sobre os “relatos de parto” de forma crítica, em especial no que diz respeito à expropriação da história vivida na primeira pessoa pela sua protagonista. Tais reflexões enfatizam que tais narrativas deveriam pertencer à família privilegiando o ponto de vista de quem permitiu que a história perpassasse as veias, fibras e sangue do seu próprio corpo. Para além disso, criticam a exposição da paciente e a utilização destas histórias como ferramentas de auto promoção.

Apesar da necessária crítica gostaria de recordar que o movimento de humanização do nascimento no Brasil a partir dos anos 2000 se alicerçou na confluência cibernética de milhares de histórias de parto partindo de inúmeros personagens. A estas histórias compartilhadas devemos muito do que construímos.

Acho que este refluxo sobre as narrativas de parto é importante principalmente pelos dois últimos pontos levantados: a questão da privacidade e a publicidade abusiva.

A privacidade é uma questão crucial nos dias de hoje, em especial num mundo em que se esfarela a vida íntima, onde conversas privadas se tornam públicas e a exposição exagerada de questões íntimas gera uma perda insidiosa dos limites entre o público e o privado. Todavia, resguardar a privacidade de um momento sagrado como o parto é essencial para que ele mantenha seu caráter íntimo e familiar.

O abuso de exposição do outro como forma de publicidade do seu trabalho também precisa ser objeto de contestação. Durante os anos que se seguiram ao surgimento do fenômeno das doulas essa era uma prática mais comum do que deveria. Na medida em que o entusiasmo foi se cercando de sensatez este tipo de exagero também foi arrefecendo. Hoje em dia acho que é bem raro.

Entretanto, eu discordo da idéia de que os relatos de parto pertencem somente à mãe. Acreditar nisso seria o mesmo que afirmar que a paixão de Cristo só a ele pertence, ou que a história da conquista da lua só pertence aos astronautas que lá pisaram.

Não. As histórias pertencem a todos, cada qual diante de sua perspectiva do evento. Um médico descrevendo um parto o faz diante de um viés absolutamente particular e distinto, assim como fará a doula ou o pai do bebê. A descrição da mãe é a mais celebrada, mas é um equívoco imaginar que seja a única. Assim é que se constrói uma narrativa: pela paralaxe de muitos olhares em que nenhum é melhor do que o outro, mas se sobrepõem para descrever um fenômeno único diante de múltiplas percepções..

Os relatos de parto pertencem à todos que dele participaram e cada um tem o direito de produzir sua história a partir das memórias e emoções suscitadas. Por outro lado, a preservação da privacidade sobre um evento de tal relevância é condição essencial para o respeito ao nascimento. Se não houver conflito entre estas duas perspectivas então haverá sentido e relevância nas histórias contadas.

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Circuncisão – Male mutilation

Um tema que sempre me atropela quando venho visitar a Matriz (gringolândia) é a luta de muitos ativistas – “red stained men” é um deles – contra a circuncisão. Aqui este é um tema atual e que suscita muitos debates acirrados. Entretanto, nunca ouvi nenhuma menção dessa questão no Brasil, pois que ela é restrita e exclusiva dos grupos religiosos, em especial os judeus. O contrário acontece por aqui no centro do Império: quase todos os meninos passam por esse ritual que em muito se assemelha às episiotomias, em especial porque são feitas sem o devido consentimento e sobre as zonas erógenas.

Vendidos como “procedimentos médicos” seguros e higiênicos (no caso da circuncisão) e necessários para proteger o bebê (no caso das episiotomias) suas vantagens nunca foram comprovadas pelas evidências científicas. Inobstante a ausência de benefícios, estas cirurgias se disseminaram no imaginário americano por cumprirem os três princípios fundamentais que compõem um ritual: repetitivos, padronizados e (acima de tudo) simbólicos. Junto com a tonsilectomia (a tradicional retirada de amígdalas na adolescência, que era comum até bem pouco tempo) estas cirurgias podem ser entendidas como “cirurgias ritualísticas e mutilatórias” da medicina ocidental – como contraponto à clitoridectomia, usada no Oriente. Violentas, traumáticas, injustificáveis e medievais, não passam de fósseis culturais que sobreviveram à razão e à ciência. Todavia, exatamente por serem ritualísticas e refratárias à razão, sua erradicação é tão difícil.

Entretanto, há ainda um outro detalhe que me chama a atenção. Boa parte dos ativistas contra esta mutilação sexual masculina é composta de…. mulheres. Sim, elas mesmas. São em especial mães que se debruçaram sobre o assunto, perceberam os traumas e dramas envolvidos, conheceram casos dramáticos e resolveram combater uma prática que, além de nunca ter se comprovado benéfica, expropria há séculos os meninos de sua plena capacidade de prazer sexual.

Apesar da suposta usurpação de um “lugar de fala”, de ser uma sensação erótica por elas desconhecida, de advogar em nome do outro gênero e de falar sobre o que ocorre na intimidade do corpo dos homens, estas mulheres se sentem no direito de combater uma prática obsoleta e arcaica apenas porque acreditam que o mal que é feito aos homens afeta não apenas a eles, mas a toda a coletividade humana – inclusive as mulheres que eles um dia vão amar. Sim, a luta delas é plena de valor porque se fundamenta na legítima proteção daqueles homens a quem tanto amam.

Quando os homens – existem muitos hoje em dia – se dedicarem ao parto e nascimento na defesa dos direitos de mães e bebês seria bom que este princípio também fosse amplamente respeitado. Defender as mulheres – seus direitos e seu protagonismo no parto – é, em última análise, defender a humanidade inteira. Não esqueça que, mesmo que você não tenha parido, certamente nasceu do corpo de uma mulher. O parto, inexoravelmente, afeta a todos nós…

ENGLISH VERSION

Male mutilation and birth

One issue that always strikes me when I come to visit the United States is the fight of many activists – “Bloodstained Men &Their Friends” is one of them – against circumcision. Here in USA, this is a current topic and it raises many heated debates. However, I have never heard any mention of this debate in Brazil, since it is restricted and exclusive to religious groups, especially the Jews. The opposite happens here in the center of the Empire: almost all boys go through this male ritual that very much resembles the episiotomies, especially because they are done without the proper consent and in the erogenous zones

Sold by the medical establishment as safe and hygienic “medical procedures” (in the case of circumcision) and necessary to protect babies and perineum (in the case of episiotomies) their advantages have never been proven by scientific evidence. In spite of the lack of benefits, these surgeries have spread in the American imaginary by fulfilling the three basic principles that make up a ritual: repetitive, standardized and (above all) symbolic. Along with the tonsillectomy (the traditional withdrawal of tonsils in adolescence, which was common until very recently) these surgeries can be understood as “ritualistic and mutilating surgeries” of Western medicine as a counterpoint to clitoridectomy, used in the East. Violent, traumatic, unjustifiable, and medieval, they are no more than cultural fossils that have survived reason and science. However, precisely because they are ritualistic and refractory to reason, their eradication is so difficult.

However, yet another detail strikes me. A good part of the activists against this male sexual mutilation is composed of …. women. Yes, mothers, girlfriends, spouses and grandmothers. These are especially women who have studied the subject, perceived the traumas and dramas involved, experienced dramatic cases and decided to combat a practice that, in addition to never being beneficial, expropriated for centuries the children of their full capacity of sexual pleasure.

In spite of the supposed usurpation of a “place of speech”, being an erotic sensation unknown to them, advocating on behalf of the other gender and of talking about what occurs in the intimacy of the men´s bodies, these women feel the right to fight an obsolete and archaic practice. The reason for that relies on their belief that the evil done to men affects not only them, but the whole human collective – including the women they will love someday. Yes, their struggle is full of value because it is based on the legitimate protection of those men whom they love so much.

When men – believe me, there are many nowadays – dedicate themselves to childbirth in defense of the rights of mothers and babies, it would be good if this principle was also widely respected. Defending women – their rights and their role in childbirth – is ultimately to defend the whole humanity. Do not forget that even if you did not give birth, you were certainly born from a woman’s body.

Childbirth, inexorably, affects all of us.

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As Histórias

Estive lendo o artigo de uma amiga (ainda não publicado) sobre as diversas formas de ensino da atenção ao parto, em especial no que diz respeito às parteiras tradicionais (TBA), cujo formato de aprendizado direto é substancialmente diferente do ensino formal que se obtém nas universidades.

O artigo demonstrava a importância dos “relatos de histórias” na construção – e disseminação – do conhecimento das parteiras. Para elas, qualquer explicação relativa à um determinado procedimento estava necessariamente atrelada a uma narrativa, vívida e pessoal, de como cada uma das múltiplas situações havia sido resolvida. Para estas parteiras (de ascendência Maya) não havia como descrever um caso clínico hipotético; era necessário buscar os fatos na memória pessoal e coletiva que envolvesse situações reais, com exemplos reais; mulheres e bebês de verdade.

Esta informação me fez pensar que em vários aspectos o parto é um aprendizado absolutanente particular. Diferente de matérias como química, física, matemática e até geografia, o nascimento possui uma complexidade de elementos que só podem ser entendidos – e relatados – com máxima precisão se estiverem anexados a uma história real, com gente de verdade, com todas as circunstâncias, contextos, emoções, ideias, perspectivas e vivências pregressas.

Aqui ficou para mim um grande aprendizado. As escolas de medicina organizam seminários inteiros sobre partos pélvicos, hipertensões, distócias, diabetes e todo tipo de patologia, mas os sujeitos por trás destas enfermidades, via de regra, são invisíveis ou inexistentes. Falamos de abstrações – as doenças – sem levar em consideração que elas só podem existir no corpo doente. Mas…. que corpo é este que se desequilibrou? Por qual razão? Com qual objetivo? Em que contextos?

Uma apresentação pélvica nunca terá a mesma história em duas gestantes distintas. Assim também será também o tratamento oferecido a elas. Enquanto uma pode aceitar o parto pela via natural, a outra se congela e trava de medo. Uma “se abre” enquanto a outra “se fecha”. Como poderíamos oferecer um protocolo de atenção a ambas, que conpartilham o mesmo quadro, sem considerar a diversidade absoluta entre estas duas pacientes, suas vidas e seu passado?

As histórias – ahhh, quantas histórias – oferecem a oportunidade fantástica de conhecer as patologias em sua subjetividade, seu contexto e sua dinâmica única. Não se trata mais da natureza da doença ou do desequilíbrio, mas o respeito à subjetividade e à construção pessoal de cada quadro único de desequilíbrio que transborda das narrativas obstétricas. Com isso humanizamos a doença, dando-lhe sentido e propósito.

A sabedoria milenar das parteiras pode nos ensinar um aspecto fundamental do entendimento das gestantes: o caráter especial de cada gravidez que só pode ser plenamente compreendido se, por trás de cada enfermidade ou transtorno, conseguirmos visualizar a vida em sua intensidade única.

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Médicos do bem

O fato de existir ainda uma escassez de médicos em ambientes de humanização prova a minha tese de que é preciso seduzi-los a entrar.

A questão que eu considero relevante é a posição de destaque do médico no contexto tecnocrático e em relação aos conhecimentos autoritativos.

Como exemplo trago a conversa que tive por Skype com uma ativista do parto no Japão, especificamente em Kyoto. Ela viu uma palestra minha e queria me perguntar algumas coisas sobre o Brasil e o modelo interdisciplinar de atenção ao nascimento. Ela me relatou não haver “birth doulas” na sua cidade, apenas doulas para pós parto. Disse também que fará em um futuro próximo um curso para doulas nos Estados Unidos, mas reconhece que terá dificuldade para trabalhar porque nenhum médico aceita essa função no Japão. O Japão está uns 20 anos atrasado em relação a nós no que diz respeito ao movimento de doulas. (desculpe falar assim, mas essa deve ser a unica cousa que estamos na frente deles).

Eu argumentei com minga amiga japonesa que sem essa “fissura na ordem médica” – isto é, a existência de um(a) obstetra humanizado(a) em um contexto tecnocrático – as doulas de parto ficam de mãos amarradas. Entretanto, o surgimento de UM médico apenas sendo “convertido” abrirá as portas para dezenas de doulas – e até parteiras. Eu mesmo sou um exemplo vivo disso; outros médicos no nosdo país também.

Portanto, não se trata de valorizar mais os médicos, mas de reconhecer que seu poder na atenção ao parto é estratégico. Por que não usá-lo em nosso favor?

Lembro quando Marsden Wagner dizia que odiava ser chamado de “doutor, mas notava que quando era obrigado a se anunciar assim “todas as portas se abriram facilmente”. Portanto, por que não permitir que os “doutores” possam abrir portas para os que vem atrás? Por que não usar esse poder médico a favor da humanização do nascimento?

Quem conheceria Marsden Wagner se ele não tivesse se tornado um médico rebelde e fosse – por exemplo – uma doula ou parteira? E Michel Odent? E Klauss, Kennell, Caldeto-Barcia e Paciornik? Quem leria Leonardo Boff se ele não fosse um padre heterodoxo e “herege”?

Poisceu afirmo que as suas condições DISTÓPICAS dentro de suas corporações é que lhes garantitam a merecida notoriedade, a qual estaria escondida se estivessem ocupando outras funções menos autoritativas.

Por isso os médicos convertidos são tão importantes do ponto de vista estratégico. Eles abrem as picadas e trilhas no meio da selva da tecnocracia, que depois poderão ser pavimentadas pelos outros atores da cena do parto, como as doulas e parteiras.

Eu seria o último sujeito do mundo a olhar para o movimento de humanização como uma organização “medicalizada”. Aliás, lutei toda minha vida contra a medicalização do parto. Entretanto, sou obrigado a reconhecer a importância capital dos obstetras e neonatologistas como pontas de lança na mudança de paradigma.

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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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Entrevista Juiz de Fora

1- Como a equipe interdisciplinar pode contribuir com assistência ao parto e nascimento?

A ideia de equipe interdisciplinar foi criada a partir da própria institucionalização do parto. No passado, estas atribuições de atenção à mulher e ao recém-nascido eram assumidas pela parteira e suas auxiliares, mas uma série de mudanças na estrutura básica da atenção ao parto forçaram a diversificação destas funções. Nosso modelo passou a ser centrado no médico, e não mais na parteira. O local do nascimento passou a ser o hospital, um local construído para manter e tratar pacientes extremamente incapacitados, até para deambular (os mais saudáveis iam para “ambulatórios”) e a própria forma como encaramos o nascimento humano modificou-se profundamente. – de um processo natural para um evento médico. Os médicos são formados por 6 a 9 anos dentro da universidade para tratar doenças e oferecer intervenções que possam tratá-las, mas fica claro para qualquer observador que as gestantes NÃO são doentes e sequer precisam de quaisquer intervenções na maioria das vezes. Assim, o modelo “iatrocêntrico” (centrado na figura do médico) coloca no centro da cena do parto um técnico em intervenções que, via de regra, tem pouca ou nenhuma conexão emocional e afetiva com as pacientes a quem atende. Mais ainda, seus conhecimentos são relacionados à intervenção – que deveria ser a exceção e não a regra – e suas habilidades para lidar com as questões emocionais e psicológicas do parto estão ausentes ou são muito frágeis. Nesse contexto, percebeu-se a necessidade de que aparecesse no cenário da humanização um novo-velho personagem que pudesse oferecer os aspectos mais femininos e acolhedores que a institucionalização e a medicalização do parto nos sonegaram. Com isso surgiram as doulas em meados dos anos 80 nos Estados Unidos, e inundaram o mundo com suas habilidades de contornar os desafios emocionais que o parto reserva. Para além disso, se inicia no mundo ocidental a migração do modelo de atenção ao parto centrado no médico para as enfermeiras e obstetrizes, mas ainda assim uma atenção transdisciplinar terá sempre que contar com a presença do médico para tratar os desvios da fisiologia e a sombra da patologia.

2- Há um novo movimento que aborda a descentralização do modelo centrado no médico para dar força ao modelo de equipe interdisciplinar. Como funciona? Quais benefícios traz para o momento do parto?

Existem vários modelos aparecendo no mundo baseados na mesma premissa: a desmedicalização do parto, mudando a lógica da intervenção para a lógica do cuidado. Podemos também dizer que o que se pretende é a troca de um paradigma assistencial, deste modelo tecnocrático a que estamos sujeitos para o modelo humanizado, que se baseia em três elementos constitutivos:

  1. O protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas um humanismo de fachada, sem profundidade;
  2. Uma visão abrangente e interdisciplinar, retirando da assistência ao parto da condição de “procedimento médico” para evento humano, sobre o qual vão incidir múltiplos pensamentos e propostas, vindas da psicologia, psicanálise, sociologia, antropologia, medicina, enfermagem e qualquer outro aspecto do conhecimento humano que se depare com as questões de nascer;
  3. Uma vinculação “umbilical”, consistente e dinâmica com a Saúde Baseada em Evidências, demonstrando que as ideias que norteiam este movimento são garantidas pelas descobertas cientificamente determinadas.

As vantagens da adoção desse modelo são inúmeras. Para além da participação efetiva da paciente nas decisões sobre seu corpo – uma questão para além da ciência, e que tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais – existem inúmeros indicadores que nos mostram que as intervenções para além da necessidade aumentam a morbimortalidade materna e neonatal. Portanto, regular estas intervenções e colocá-las dentro de limites razoáveis é uma questão que tangencia tanto os direitos humanos quanto a saúde pública.

3- Como você chegou à conclusão que o modelo atual de parto e nascimento está defasado?

Minha trajetória pessoal acabou me colocando em contato com as mulheres que davam assistência às gestantes em trabalho de parto sem serem médicas: as arteiras profissionais e as doulas (fui um dos introdutores do modelo de doulas no Brasil no início deste século). Isso pôde me mostrar o quanto existia de falha na assistência tecnocrática que eu oferecia, e que seria de enorme vantagem trabalhar com parteiras profissionais (enfermeiras ou obstetrizes) juntamente com doulas, para que o trabalho pudesse contemplar não apenas os aspectos médicos e fisiopatológicos, mas também as questões emocionais que afetam o parto. As enfermeiras e as doulas conseguiram, portanto, me mostrar que o parto é muito mais do que um evento medicamente controlado, e que em verdade é bem mais rico e abrangente do que eu jamais supunha. Além disso, meu contato com modelos de assistência ao parto de países tão díspares quanto Uruguai, Argentina, Portugal, Estados Unidos, Bulgária, México, Holanda e recentemente a China me mostrou que o caminho para um nascimento mais seguro e mais satisfatório estava ligado a aplicação de modelos humanizados ligados à garantia de protagonismo às mulheres. O mundo inteiro, na esteira das transformações sociais do final do século XX e no início do atual, nos mostram que não é mais possível tratar as mulheres como contêineres fetais e “bombas relógio” prestes a explodir, e que sua dignidade, assim como sua fisiologia, deveriam ser respeitadas.

4- Quais atitudes e mudanças devem ser realizadas pela equipe interdisciplinar para que o parto seja mais humanizado?

São muitas ações, mas todas se baseiam em uma ATITUDE diante do parto. Respeito à fisiologia, reconhecimento das necessidades ancestrais de suporte físico, psíquico, emocional, social e espiritual das gestantes. Proporcionar um ambiente adequado para a sacralidade do nascimento. Oferecer à família a possibilidade de participar do evento, quando a mãe assim o desejar. Restringir as intervenções o mais possível, dentro de limites de segurança. Cuidar a ocorrência de “verbose”, que é a doença produzida pelas palavras mal colocadas durante o processo de parto. Criar uma “psicosfera” positiva e criativa no local onde tantas transformações estão ocorrendo. Cuidar do uso exagerado de medicações, todas elas potencialmente perigosas. Respeitar os profissionais da equipe, pois deles também depende o sucesso do atendimento. Respeitar a cultura, as vontades e os desejos de quem vai parir.

5- Em um momento de reflexão você cita que “humanizar o nascimento é garantir o lugar de protagonista à mulher”. Como este ato deve ser realizado?

Sempre, durante todo o caminhar, do diagnóstico da gestação até o nascimento a mulher deve ser respeitada em suas decisões. Esta é em verdade a parte mais difícil para os profissionais que atendem: olhar a parturiente como sujeito e não mais como objeto de nossas intervenções e determinações. Sabemos que existe o que se chama de “humanismo superficial” que trata de elementos locais, arquitetônicos e de palavreado como pintar as paredes do hospital com cores agradáveis, treinar os profissionais em determinados procedimentos – como parto de cócoras ou na água – e evitar a “verbose” de termos inadequados como “mãezinha” e a infantilização do discurso dirigido à futura mãe, cheia de diminutivos e vozes melodiosas. Entretanto, todas estas ações – que são inequivocamente positivas – serão apenas “sofisticação de tutela” caso o protagonismo do nascimento não seja garantido à mulher. Sem que ela possa ser a figura principal de nossas atenções e do nosso cuidado teremos tão somente arranhado a superfície do controle patriarcal sobre o parto. Sem que seus desejos e visões de mundo sejam reconhecidos e respeitados não faremos uma verdadeira revolução no parto e ele continuará a ser o propagador de um modelo social anacrônico. “Mude o nascimento para mudar a humanidade”, já dizia o mestre Michel Odent.

6- Em um dos seus artigos você aborda a banalização da cesariana. Quais riscos as mulheres enfrentam a escolher esta modalidade de parto?

A banalização da cesariana demonstrou ser um risco à saúde das mulheres em todo o mundo, mas em especial nos países em desenvolvimento. Em um recente artigo (de algumas semanas) ficou demonstrado que, as cesarianas realizadas fora dos países desenvolvidos (do primeiro mundo), tem cem vezes mais possibilidade de produzir danos profundos à mãe. Os estudos até hoje publicados demonstram sem sombra de dúvida a potencialidade danosa das intervenções, em especial a mais radical delas: a cesariana; as dúvidas se concentram apenas no quanto de risco é associado ao procedimento. Isso não significa a demonização desta cirurgia, mas um chamado à moderação, para que ela seja somente utilizada quando houver real necessidade. Por isso mesmo é importante que busquemos nos aproximar dos exemplos de países desenvolvidos onde a atenção ao parto é colocada nas mãos de especialistas em parto vaginal: as parteiras profissionais, enfermeiras ou obstetrizes (de entrada direta), e que os partos com complicações sejam reservados aos médicos com pleno treinamento nas intervenções.

7- Quais recomendações você daria para as mulheres que estão grávidas ou pretendem ter filhos algum dia?

Informem-se sobre os seus direitos. Nunca entrem num hospital sem saber exatamente o que é garantido aos pacientes e, em especial, às grávidas e seus companheiros(as). Procurem profissionais que entendam a importância da humanização do nascimento, que conheçam e trabalhem com o suporte essencial das doulas. Investiguem o trabalho dos profissionais para saber se eles respeitam a fisiologia do nascimento – ou não. Não se deixem iludir por consultórios cheios e clínicas luxuosas; a humanização do nascimento está quase sempre vinculada à simplicidade, à sinceridade e a conexão pessoal e afetiva entre profissional e paciente. Procurem hospitais que tenham a humanização como proposta. Pesquisem sobre segurança de partos em casa de parto e domiciliares, para ver se são habilitadas para estas escolhas. Tenham confiança em sua capacidade de gestar e parir, mas mantenham uma porta aberta para a necessidade de uma intervenção. Discutam com seu cuidador, obstetra ou parteira, sobre as alternativas possíveis. Solicitem que todas as ações realizadas sejam explicadas e orientadas antes de serem feitas. Tenham fé, mas tenham cuidado.

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Invasões Bárbaras

As manifestações de médicos atacando os avanços do protagonismo feminino – em especial planos de parto – são parte do velho modelo anacrônico, carcomido, ultrapassado e embolorado da obstetrícia misógina brasileira. Tais profissionais usam a retórica oportunista de se vitimizar, colocando-se como perseguidos e injustiçados por uma horda de mulheres enfurecidas e cheias de “sangue nos olhos”. Posso garantir que mulheres que fazem planos de parto não são movidas por ódio, mas são as pontas de lança da idéia de “gestação participativa”

As acusações contra as mulheres que se informam e reivindicam são pura balela. Quem já passou 5 minutos dentro de um centro obstétrico de hospital privado sabe como acontecem as pressões e os constrangimentos a elas impostos. Estes sequer se iniciam ali; em verdade são o corolário de um processo que começa no primeiro comentário sobre a “bacia pequena”, a pouca (ou muita) idade, os riscos de sofrer todo o processo e não “ter passagem”, a segurança da medicina “moderna” (tecnológica), a crueldade dos partos “animais” e os riscos de ocorrer algo muito grave num parto pela vagina. Sem falar no “estrago” que uma criança é capaz de fazer ao “parquinho de diversões” do marido.

O discurso da obstetrícia nacional ainda é uma expressão de poder que, em cada detalhe – do excesso de exames à forma depreciativa como se descreve o processo de parir – traduz a visão diminutiva que ela (a obstetricia) cultiva sobre a mulher e sua fisiologia. É o que chamo de “misoginia estrutural”

A fala desses sujeitos apenas reproduz o que se escuta na Escola Médica e nos corredores e cafezinhos do hospital. Os médicos são descritos por si mesmos como vítimas de pacientes obcecadas e transtornadas, sem que possam entender de onde vem tanta ingratidão. Não raro culpam a Internet e as “ativistas loucas”.

Ingratas….

Sim, porque para eles cada mulher que vai parir não deve ao seu obstetra menos de que a mais absoluta gratidão por salvá-la de uma natureza má e cruel, que ofereceu como veículo de sua alma nada mais do que uma “máquina defeituosa e ineficiente”.

É contra essa imagem deturpada do corpo das mulheres e o questionamento radical de quem verdadeiramente o controla que se faz um Plano de Parto. É para que os médicos saibam que seu conhecimento tem valor e merece respeito, mas que não está acima da soberania que todos nós temos sobre nossos corpos e almas.

A história lembrará desse tempo como a invasão bárbara sobre o território dos corpos femininos. Lembraremos dessas falas reacionárias como os estertores do domínio espúrio sobre a sexualidade das mulheres. A partir daí um novo tempo surgirá, onde as parcerias serão feitas de forma mais livre e justa, garantindo o respeito pela autonomia, que se manterá pairando impávida sobre todas as palavras e gestos.

E que assim seja.

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