Arquivo da tag: prisão

Cadeia

A camiseta dessa moça é a grande ironia, que ninguém imaginava que viesse ocorrer. A diferença é que o presidente não vai usar uma camiseta “Sara está presa”, muito provavelmente porque – é possível e eu acredito – os mais de 500 dias de Lula na prisão o ensinaram sobre o erro gigantesco de sua gestão carcerária. Lula, por certo, não acredita mais no encarceramento como solução para as tensões sociais e a criminalidade. O aumento da massa carcerária nos governos Lula e Dilma (imitando o mesmo fenômeno nos governos “liberais” dos Clinton) é uma mácula que os próximos governos progressistas precisam eliminar.

Encarceramento = racismo.

Sara Winter não deveria ser presa. Deveríamos estabelecer medidas sérias e bem controladas de reparação social. Cadeia e perda da liberdade apenas para assassinos e perversos, gente cuja presença na sociedade é uma ameaça REAL à vida de outras pessoas. A prisão de Sara apenas reforça o punitivismo tacanho que caracteriza o nosso judiciário.

Sara provavelmente tem problemas mentais e emocionais graves, como fica claro em sua biografia, mas é apenas uma bufona, não representa um real perigo com seu exército Brancaleone. A sua prisão tem um interesse midiático, para reforçar a autoridade de um STF acovardado e pusilânime, mas foi quase um pedido explícito de Sara. Ao ver seu projeto de milícia fracassar, só lhe restava a imolação pública como propaganda final. Queria ser heroína, e para alguns será…

As esquerdas deveriam desconfiar sempre que sua alegria está vinculada a uma decisão do judiciário politizado e partidário que temos. Lembro (faz pouco tempo) de figuras das artes com cartazes de apoio a Bretas, ou de artistas da Globo dando suporte a Moro. Nosso judiciário tem lado, e não é o das esquerdas. Festejar suas decisões apenas por diversão é um erro estratégico. A prisão espetaculosa de Sara pode ser amanhã a de um líder do MTST ou do MST, bastando para isso que um juiz do STF acorde de mau-humor.

O discurso tão usado do “bota na cadeia” é um apanágio da direita. As pessoas que usam estas expressões por certo que não fazem ideia do que seja uma penitenciária no Brasil. Nunca se deram ao trabalho de ver a foto de uma cela superlotada e nunca estudaram o terror que é sobreviver nas condições desumanas de uma prisão de terceiro mundo. Jamais questionaram o preceito básico do direito penal que afirma que “nenhuma pena pode ser pior que o crime cometido”. Mas… o que pode ser pior que o inferno? Aliás, foi um general ignorante e racista, truculento e boçal, quem imortalizou a brutalidade da ditadura militar no Brasil, exclamando: “eu prendo… e arrebento”.

Prender, colocar na cadeia, aprisionar e encarcerar sempre foi a narrativa da direita, em especial da extrema-direita e do fascismo. Sei também que os totalitarismos da cortina de ferro também usaram desse artifício. São estes tiranos que exaltam o poder coercitivo do Estado para estraçalhar as dissidências na busca por um pensamento único. Todavia, eu esperaria da esquerda um passo adiante, rompendo o ciclo nefasto do “vigiar e punir” e acabando com a arbitrariedade das prisões determinadas pelos interesses ou pelo ódio do juiz, como assistimos na Lava Jato.

Entretanto, nosso rancor (compreensível) ainda vai manter o enredo. Agora é nossa vez de sair às ruas gritando “Sara está presa”, dando risadas do seu infortúnio e fazendo chacota, sem perceber que mantemos o círculo do ódio girando, só esperando a vez de nos atacar mais uma vez. Tolamente, colocamos nas mãos de juízes e promotores venais o poder discricionário de quem sofrerá a humilhação e o horror de adentrar os calabouços deste país. E, vale sempre a pena lembrar, a pena pesa sempre muito mais se você for de esquerda, preto e pobre.

Valha-me Valois…
Salve-nos Kenarik…
Nos ajude Igor Leone.

Abolicionismo penal já!!!

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência

Liberdade

A fantástica história de Jack e Emmet, e o homem que lia livros para se tornar livre…

Jack sabia do amor que Emmet nutria pelos livros. Não era sequer necessário que ele houvesse descrito a pequena biblioteca que tinha em sua casa antes de chegar aqui. Sua forma por vezes rebuscada de descrever os cenários ou os episódios de sua vida mostravam o apreço que nutria pelas palavras. Ah, os conceitos, as nuances, as filigranas. Nenhum objeto existia na descrição de Emmet que não merecesse uma metáfora. Esse seu jeito sofisticado de descrever a vida só podia ter surgido pelo exercício continuado de apreender seus significados folheando incansavelmente as páginas com a avidez erótica da curiosidade.

Ele, entretanto, não possuía livros em seu poder. Os poucos que eu tinha Zora os entregava mensalmente durante as visitas, os quais ajeitava com carinho debaixo do meu catre simples, mas sempre limpo. Para meu olhar clínico era fácil entender esta ausência nele. Emmet ajeitava os óculos com cuidado diante de qualquer tarefa, mas este esmero mais se mantinha por um cacoete do que pela justeza dos focos. Pouca diferença fariam os ajustes das lentes por sobre o nariz vermelho e anguloso. Emmet praticamente nada enxergava, mas tentava disfarçar ao máximo sua dificuldade na frente dos outros prisioneiros.

Por ser o mais velho da cela lhe coube a única cama que recebia uma tímida nesga de sol nas manhãs de inverno. Seu rosto magro recebia a carícia do sol apenas por breves momentos, exatamente quando recebíamos o sinal de deixar as celas para o café matinal. Emmet esperava que todos saíssem do cubículo para só então tatear suas roupas e calçar as botinas velhas e escuras. Perguntava por mim, e quando lhe respondia o cumprimento sorria dizendo “ora, que tonto, nem vi que ainda estava aí”. Meus anos na medicina me permitiam saber que Emmet estava há muitos anos lutando contra o diabete. Suas injeções diárias de insulina eram feitas à noite, escondido em sua cama, quando a cortina de panos encardidos lhe oferecia uma benfazeja, porém curta, privacidade. Mas eu sabia. Apesar disso, nunca comentei com outros detentos e sequer lhe disse que tinha conhecimento de sua doença.

Uma certa noite, antes do “black out”, Emmet me perguntou o que estava lendo. Por certo que ouviu o folhear lânguido das páginas ao seu lado. Talvez esse tenha sido um daqueles momentos transformadores na vida de um sujeito, mas que, em geral, passam despercebidos quando ocorrem. A pergunta de Emmet tinha um som estranho, que carregava mais do que uma simples curiosidade; era também mais do que uma forma de preencher o vazio cheio de silêncios entre nós, ou para se livrar do desconforto que tais momentos representam. Sua dúvida tinha a triste melodia de uma súplica. Coloquei o dedo entre as páginas do livro como um marcador e o fechei. Olhei para Emmet que permanecia com o olhar fixo na parede suja à frente.

– A República…

“Plato!!!” disse ele sorrindo, antes que eu pudesse completar a informação. Havia uma emoção triste e genuína em sua face emagrecida. “Em que parte está?”, perguntou ele.

– Quer que eu leia? perguntei, sem me dar conta de que esse era o desejo inconfesso de Emmet fantasiado de frugal curiosidade. Abri o livro novamente e li a partir de onde meu dedo, ainda preso entre suas páginas, apontava.

“Sócrates? Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância…”

Depois de poucos minutos levantei os olhos da leitura daquele parágrafo apenas para comentar alguma banalidade sobre o gênio de Platão, ou sobre sua influência no pensamento ocidental, mesmo após milênios passados de sua morte. Entretanto, minha voz foi interrompida antes da primeira palavra. Com as mãos espalmadas sobre os joelhos pontiagudos Emmet jazia imóvel. Seus olhos marejados se fecharam num piscar reflexo, de onde brotaram duas lágrimas que percorreram com morosidade os sulcos de seu rosto. Sem abrir os olhos, ele segurou meu braço com delicadeza e de seus lábios uma voz quase apagada sussurrou:

– Obrigado, meu amigo Jack.

James G. Higgins, “Freedom”, Ed. Lasseter, pág 135

James Garret Higgins é um jornalista e escritor americano nascido em Tulare na Califórnia em 1939. Fez sua formação universitária na California State University em Sacramento, tendo cursado Jornalismo e posteriormente Ciências Sociais. Após trabalhar na Nigéria por 3 anos como correspondente da Guerra de Biafra, de 1967 a 1970, voltou para os Estados Unidos e escreveu vários romances nos quais descrevia as condições que testemunhou na guerra brutal e fratricida que ocorria em uma das regiões mais miseráveis do planeta. O bloqueio imposto pelo governo nigeriano aos grupos rebeldes que se isolaram na região de Biafra levou a uma crise humanitária especialmente causada pela fome, mas piorada por doenças endêmicas. Estima-se que durante a guerra civil, mais de 100 mil mortes entre as forças militares foram devidas diretamente à inanição. Entre 500.000 e 2 milhões de civis da região de Biafra morreram devido a falta de comida. Esses fatos descritos por James Higgins para os jornais americanos produziram marcas profundas em sua alma. Em seus livros posteriores, como “Freedom”, ela fala da busca de sentido para vidas completamente destruídas por tragédias pessoais e pela privação de liberdade. James Higgins mora em Sacramento com sua esposa Margareth e tem duas filhas, Abayomi e Fayola.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Contos

A Força do Silêncio

Nikolai acordou quando uma lâmina de luz invadiu sorrateiramente a cela lambendo seu corpo encolhido. Abriu os olhos com sofreguidão, afastando as pálpebras e permitindo que o sol esquentasse sua cara amassada e pálida.  O brilho luminoso que tocava seus cabelos loiros e revoltos parecia produzir uma chama em sua cabeça. Resmungou um pouco e reclamou da hora. Não era fácil dormir durante a noite ao som dos gritos, os barulhos dos ratos, a conversa dos carcereiros e os sons variados da noite, os cães, os gatos, as corujas e os camburões que chegavam ao portão central trazendo novos hóspedes. Tudo isso fazia sua cela solitária ser invadida por milhões de pequenos pacotes de som, muitos deles misturados e sem distinção, enquanto alguns chegavam solitários e nítidos. A noite na prisão era cheia de vazios preenchidos por angústias e medo. Ergueu seu corpo esquálido e resolveu se refugiar do calor do sol, deu dois passos e colocou-se na face oposta da pequena cela, onde a sombra ainda cobria de penumbra a parede descascada. Ajustou suas costas nuas no vão entre a parede e um ressalto da viga e sentiu o vinco do concreto a lhe machucar as costelas. Apesar de passar horas durante o dia encostado naquela parede, nunca havia sentido o vinco do ressalto a lhe incomodar. Afastou-se por momentos da parede e olhou para o pequeno vão atrás de si para entender porque seu corpo parecia não caber mais naquele espaço.

Anos já se haviam passado desde que pela primeira vez foi colocado na pequena cela solitária. Não havia engordado, por certo. Sua perda de peso já contava mais de 20 quilos desde que ali chegara. Como poderia então seu corpo subitamente não caber mais num espaço que sempre foi usado para fugir do sol impiedoso que lhe castigava nas manhãs de verão? Olhou mais uma vez para o pequeno vão entre a viga e a parede branca. De súbito fechou os olhos, girou a cabeça em direção à porta enferrujada e suja da cela e, depois de alguns instantes puxando pela memória, tentou recordar as imagens que deveria estar vendo. Descreveu mentalmente a porta de ferro verde, a portinhola de baixo por onde lhe chegava o pão duro e a sopa de peixes, o grunhido que faz ao abrir, os sapatos dos carcereiros, o ar que entra quando ela eventualmente é aberta, o vaso sanitário imundo que está no canto contíguo e o sol colorindo com sua luz o chão poeirento.

Depois do exercício, abriu os olhos e se assustou com as imagens que viu sobrepostas à sua lembrança. Tudo em sua mente estava levemente diferente. Em pânico se ergue, empurra suas costas contra a parede e decide contar os passos até a porta da cela. Menos de quatro passos. Muito impreciso. Prefere, então, contar com os pés. Equilibra-se como um bailarino de corda bamba e coloca um pé disforme e sujo depois do outro, cutucando seu calcanhar cascurrento com a unha do dedão. Contou catorze pés e mais quatro dedos da mão. O sentimento era de assombro e pânico. Pensou por alguns instantes estar alucinando, mas resolveu olhar os rabiscos na porta de ferro, feitos com o cabo de seu garfo, nos primeiros dias em que ali havia chegado. Leu seu nome “Nikolai” arranhado na porta, com a letra trêmula que lhe sobrou após uma noite de espancamentos.

Não havia em sua mente mais nenhuma dúvida, e um frio gelado percorreu o estreito espaço de sua coluna. Aquela era a sua velha cela imunda, e ela estava encolhendo.

Nikolai Kuznetzov, “Сила молчания” (A Força do Silêncio), Ed Dubrov, pag 135.

Nikolai Kuznetsov é um escritor russo, nascido em São Petersburgo em 1958. É irmão do também escritor Anatoli Kuznetsov, apesar de terem mães diferentes, pois a mãe de Nikolai morreu de tifo pouco depois de sua morte e seu pai Sergei Kuznetsov casou-se com sua segunda esposa Maria, e tiveram seu único filho Anatoli. Enquanto Anatoli participava de manifestações e escrevia textos de protesto Nikolai dedicou-se às letras estimulado fortemente pelo irmão, cuja luta em defesa dos direitos LGBT muito o influenciou. Apesar de não ser homossexual esteve preso, assim como seu irmão, pelas passeatas e demonstrações das quais participou em defesa da comunidade LGBT. Escreveu “A Força do Silêncio” ainda na penitenciária em Moscou, para onde foi levado após uma prisão arbitrária sob a acusação de profanar a bandeira da federação Russa. É casado com Ekaterina Fedorov, e tem duas filhas: Natália e Malinka.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Contos

Enjaular

Há alguns dias foram mostradas as imagens de mais uma agressão contra a mulher. No caso uma advogada espancada covardemente por um jovem de 24 anos, filho de um politico influente de Goiás. O caso já corre em juízo e poucas dúvidas há de que ele deve ser condenado pelas agressões. Entretanto, sempre me impressiona o grito de algumas pessoas exigindo a prisão do infrator. “Como ainda não foi preso?”, perguntam espantadas. “Como podem deixar solto esse sujeito?”.

Prender? Como assim? Sem trânsito em julgado? Com qual justificativa? Que sentimento é esse que nos leva a exaltar a prisão de todo mundo? Qual o sentido de encarcerar diante de qualquer crime? O que realmente nos move para exigir a detenção diante de um delito? Que justiça é essa cuja ideologia – e aparentemente a única função que nos interessa – é encarcerar cidadãos diante de acusações, até mesmo antes de os envolvidos serem ouvidos?

Há poucos meses foi pedida a prisão de um doente mental – que perdeu metade do cérebro num acidente anos atrás – por se masturbar em um coletivo. Que sentimento bizarro de vingança é esse de tal amplitude que nos leva a gozar (perdão…) com a desgraça de um descapacitado psiquiátrico sendo enjaulado? Isso de alguma forma diminuiria o constrangimento de suas vítimas?

Para mim a questão continua sendo a nossa negativa em olhar para o agressor. Queremos mais justiciamentos do que a prevenção das tragédias. É mais uma faceta da lógica punitivista, tão popular quanto inútil.

Não é suficiente condená-lo e execrá-lo publicamente. Os homens (e até às mulheres) abusadores precisam ser entendidos, compreendidos e estudados. O agressor é parte ativa e um sintoma da revolução social insidiosa e silenciosa que acompanha a perda dos papéis masculinos clássicos. Temos agora diante de nós a necessidade de reacomodação da masculinidade.

Os homens sentem-se ameaçados e perdidos e a violência se apresenta para alguns como a única possibilidade. Para resolver a epidemia precisamos entrar na mente do criminoso e entender o que o motiva.

O texto abaixo, do juiz Luís Carlos Valois, lança um pouco de luz sobre as trevas punitivistas que se abatem sobre nós.

JUSTIÇA
(Texto publicado em Carta Capital)

Você, sim você, que está lendo estas palavras no computador, no celular, neste momento, pense em uma hipótese comigo. Se você encontrasse um policial, um deputado, ou uma autoridade qualquer, e essa autoridade, sem motivo algum, por uma paranoia momentânea, uma crise de autoritarismo, porque talvez não tivesse ido com a sua cara, acusasse você de qualquer coisa, estupro, o roubo da semana passada, porte de drogas – de uma droga que a própria autoridade iria providenciar – e algemasse você, levasse você preso para ser exposto no jornal das oito, imagine isso, imagine o que aconteceria.

Imaginou, pensou na hipótese? Agora continuemos, o que você acha que aconteceria com você? Nada, continuaria preso, porque todo mundo, inclusive você, quando vê uma pessoa algemada na televisão, no jornal, nas redes sociais, não espera processo, não espera pronunciamento da justiça, e aponta logo o dedo: bandido, deve ficar preso.

Do jeito que a coisa anda, com todo mundo aplaudindo quando uma pessoa é presa, elogiando a justiça quando uma pessoa é encarcerada, mas xingando a mesma justiça quando uma pessoa é solta, em pouco tempo não vai mais sobrar ninguém para aplaudir, estaremos todos presos.

Essa necessidade de ver pessoas presas nasce sim do sentimento de impunidade, do sofrimento de qualquer um que já teve o celular roubado, que paga impostos altíssimos sem ver nenhum benefício, que vê o playboy passar em uma Mercedes sem nunca ter trabalhado, é um sentimento bem abstrato e amplo, um espectro que paira sobre toda a sociedade.

Uma sociedade sofrida que precisa ver pessoas sofrendo para amenizar o próprio sofrimento, independentemente de quem sofra. Não importa se a pessoa presa não foi a que furtou o meu celular, se alguém está algemado na televisão, se alguém está sofrendo porque cometeu um crime, que bom, alguém está pagando, alguém está sofrendo mais do que eu, um alívio. Nessa sociedade de troca, sempre quando alguém perde, a sensação dos outros é de ganho, uma imolação, como toda a imolação, para diminuir a dor geral.

Não é de se admirar o prestígio que goza a polícia nos dias de hoje, porque é ela quem normalmente prende. Todos querem ser polícia para prender também, Ministério Público e Judiciário prendem para aparecer bem para a opinião pública e assim ninguém falar de seus altos salários, auxílios, carros oficiais, etc. A prisão de qualquer pessoa causa um êxtase, é a catarse que possibilita tudo continuar como sempre foi.

O interessante é que o prestígio da polícia, como quase todo mal, só serve para os outros. Temos uma sociedade que não gosta de ir à delegacia, tem horror de ser intimada, implora para não ter que prestar testemunho e muitas vezes sequer faz um boletim de ocorrência quando é vítima de um crime, em suma, uma sociedade que não acredita na polícia para ela mesma.

Mas quando é o outro, uma outra pessoa, um desconhecido, que está na delegacia, preso, acusado de um crime, a polícia é o órgão mais capaz e imune a erros do mundo. A contradição é a imagem perfeita de uma sociedade individualista, egoísta, que sofre com essa dor tão dispersa, mas goza quando essa dor é individualizada em um desconhecido qualquer.

Prender é o verbo. Soltar a ofensa. E nessa fixação, morre a Justiça, que é diálogo, que é sempre a possibilidade, a prioridade mesmo, da liberdade. Doente uma sociedade que fica feliz quando ocorre uma prisão, que não passa da demonstração do seu próprio fracasso como sociedade humana.

Volto a me dirigir a você. Então, não importa se você é de direita ou de esquerda, prender e soltar já se misturou com o sentimento moral de todos nós, foi preso, é bandido. E chamar alguém de bandido é o sinal, a autorização para se tirar qualquer dignidade, qualquer aspecto de cidadania, daquela pessoa presa.

O limite da cidadania está nas correntes e naquelas pequenas argolas com fechaduras que se chamam algemas, esvaziando a política, submetida à polícia, e, quando você for preso, por qualquer motivo, não vai adiantar gritar por Justiça, pois a que temos, a justiça atual, já foi feita naquele exato momento das algemas, que terão algemado também a sua voz, a sua dignidade. Você não será mais você.

Luís Carlos Valois é Juiz de direito no Amazonas, mestre e doutor em direito penal e criminologia pela USP, pós-doutorando em criminologia em Hamburgo – Alemanha, membro da Associação de Juízes para Democracia e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Escravidão

Queria ver você ser assaltado, com uma arma na cabeça, no Complexo do Alemão. Mudaria de opinião sobre a intervenção“.

Se eu fosse assaltado no Alemão tudo que eu faria era me convencer ainda mais que matar assaltantes ou prendê-los em NADA soluciona o problema. Infelizmente foi nos governos do PT que aumentamos ainda mais o encarceramento da população pobre e isso não resultou em nenhum resultado positivo. O mesmo aconteceu com o encarceramento em massa no governo Clinton com os famosos “Three Strikes”. Um crime terrível contra a dignidade humana, que até Clinton reconheceu.

Mandar prender é muitas vezes necessário diante de atentados ou ameaças à vida, e nenhum sujeito de esquerda ignora isso ou defende o oposto. Entretanto, não passa de pura raiva de pobres e negros a ideia de curar a ferida social da criminalidade deixando se alastrar esta ideologia punitivista. É agir com sentimento de vingança, sem se dar conta das razões que levam milhares de jovens a se tornarem bandidos ou contraventores.

É curioso, porque todos que vociferam pelas armas e pelo extermínio um dia assistiram Robin Hood ou Cidade de Deus e perceberam a sedução que a criminalidade produz no jovem, humilhado crônico, envolto num mundo de consumo em que o valor máximo da vida social lhe é sonegado. Por que na ficção é mais fácil entender?

Precisa muito ódio e desumanização para não enxergar que exterminar jovens negros e pobres – que lutam com as únicas armas que possuem para vencer na vida – é um ato tão criminoso quanto o que eles praticam.

E, por favor, não me venham contar das exceções de jovens que venceram se comportando como os patrões brancos e ricos queriam. Essas histórias são usadas apenas para refrear o ímpeto de mudança. Não passam de um bilhete de loteria, uma esperança tola que guardamos de que a vida possa se transformar sem enfrentamentos. Não duvido que, durante a escravidão legal no Brasil, muitos senhores de escravos contavam histórias de negros que eram tão prestativos e leais que acabaram recebendo alforria como presente. E muitos negros acreditaram que calar sua indignação era a conduta mais justa e correta. Para estes eu digo que “A vida é luta renhida e viver é lutar. A vida é combate que aos fracos abate e os fortes e bravos só pode exaltar.”

A sociedade não muda como mágica. Ela se transforma e transmuta, com suor e luta.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência

Crime e Castigo

“Como regra civilizatória um presídio JAMAIS poderia tratar um prisioneiro da mesma forma como o bandido trata a sociedade. Um está doente, o outro precisa ser saudável para oferecer a cura. Nenhuma sociedade civilizada apoiaria o absurdo de criar “centros de punição e vingança social”, imaginando que tal barbárie deixaria a cidade mais justa e segura. Pensar isso é regredir à idade das trevas, sem receber nenhuma segurança em troca.

Estados policiais, cheios de guardas e prisões, apenas iludem o espectador com sua fantasia totalitária e com a ideologia da “segurança para o cidadão de bem”. Onde foi aplicada o resultado foi catastrófico, em recursos, em vidas e em desumanidade.

A única saída para a criminalidade é a justiça social, mas no Brasil a Casa Grande não aceita abrir mão dos seus privilégios e por décadas ainda veremos a criminalidade ser tolamente tratada como um transtorno da alma, ao invés de ser entendida como uma construção social da qual todos – sem exceção – participamos.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Visitas Íntimas

detentos-revista

Existem maneiras de avaliar o nível espiritual de um lugar, desde uma cidade a um país. Costuma-se dizer que se pode medir pela capacidade de cuidar dos mais frágeis: as minorias, as mulheres, as crianças, os deficientes e os idosos. Nesta curta lista eu apenas acrescentaria os prisioneiros. Nenhuma sociedade pode-se dizer verdadeiramente civilizada e justa enquanto o sistema prisional for um “depósito de lixo humano”. Se não formos capazes de guardar uma porção, por pequena que seja, de nossa compaixão para os que erraram não poderemos nos considerar minimamente civilizados.

Escrevi isso porque é incrível o número de pessoas que se ofendem com as visitas íntimas dos prisioneiros. Acham que o exercício da sexualidade só deveria ser exercido pelas “pessoas de bem”, as que estão fora do cárcere. Bem, não vou falar minha opinião sobre o que eu considero como “pessoas de bem”, mas o fato de ser esse o nome do jornal da KKK já dá uma pista sobre a minha opinião. Entretanto, a questão destas visitas é humanitária e prática.

Quando você diminui a tensão sexual masculina a violência dentro das prisões cai dramaticamente. Os casos de estupro em presídio desabaram com a instituição das visitas de esposas e companheiras. Acima de tudo, um prisioneiro não pode ser tratado como um animal. A sexualidade privada leva a neurose. Freud estudou a histeria em sociedades onde as mulheres tinham COMO REGRA esta privação sexual, e o resultado era a somatização e a histeria. Se achamos indigno o cerceamento da liberdade sexual das mulheres, por que deveria ser diferente com prisioneiros? Some-se a isso uma cultura falocêntrica e o acúmulo de testosterona e temos um barril de pólvora nas penitenciárias. Sem sexo, desumanizados e privados da liberdade, por que razão não se comportariam como animais ferozes enjaulados?

Visita íntima devolve calma e tranquilidade ao ambiente terrível de uma penitenciária e, mais que isso, oferece um pouco de amor próprio e dignidade ao prisioneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência