Arquivo do mês: fevereiro 2017

Erro e perdão

Uma paciente conta para seu médico, durante uma consulta, que seu filho de 2 anos dorme na cama com ela. Desfia uma série de justificativas e explicações para a cama compartilhada, que são conhecidas de todos. “É mais tranquilo para atender, ele dorme melhor, amamenta mais fácil etc”. A mãe estava separada do marido faz pouco e parecia óbvio que havia mais explicações e muito mais interpretações para sua atitude em relação ao filho. Necessidade de companhia, medo, carência talvez. O médico escuta suas razões e, sem dar a ela muito tempo para continuar as explicações, dispara:

– Se quiser recuperar o seu filho do estrago que já foi feito, retire-o imediatamente dessa cama. Crianças não devem compartilhar o leito com adultos. Se quiser que seu filho se torne um histérico mimado e egocêntrico continue assim, caso contrário coloque-o no seu próprio quarto. Imediatamente!!

A mulher manteve-se em silêncio sem dizer nenhuma palavra. Baixou os olhos como que a pedir desculpas. Ele devia estar certo, afinal era um médico, preparou-se para isso. Como poderia uma mulher pobre e sem estudo questionar o que um doutor dizia? Suas explicações simples eram insignificantes diante do conhecimento e da autoridade do jovem profissional à sua frente.

– Está bem, doutor. Assim farei se o senhor diz que é o melhor.

O médico sorri com sua benevolência aristocrática e superior. Coloca uma folha de receituário à sua frente e desenha com letra bonita um remédio que lhe pareceu adequado. Levanta-se e conduz a mulher até a porta. Ela se despede ainda cabisbaixa e caminha em direção à saída da clínica. Missão cumprida. Uma aula de arrogância e prepotência. Uma mulher que deixa um recinto sagrado de cura muito pior do que entrou. Carrega consigo uma folha de papel e uma tonelada a mais de culpa nas costas por ser uma mãe relapsa, egoísta e irresponsável. Talvez nunca mais volte, mas não por estar bem, e sim por sentir vergonha. Não sinto pena nenhuma desse profissional, mesmo que possa entendê-lo. Ele precisava ter ouvido umas boas reprimendas pela sua absurda falta de sensibilidade e ausência total de empatia. Mas, quem poderia lhe dar essa lição se, ao seu redor, tantos achavam sua atitude correta?

Esse médico era eu, há 25 anos, e o fato realmente ocorreu. Uma vida só é muito pouco para recuperar tantas tolices e erros cometidos. Resta esperar que, assim como tantos outros equívocos e tolices cometidas, essa falha também possa ser perdoada. É tudo que posso pedir.

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Títulos

Uma pausa para o esporte “bretão“:

Depois dos títulos “mundiais” por fax inaugurados pelo Palmeiras agora alguns torcedores de clubes (não por acaso atravessando fase de vacas magras) inauguram outra modalidade: o confisco do título alheio por e-mail.

Tais aficionados insistem no tal “título mundial FIFA” como sendo o único válido, o único “legitimamente” conquistado, quando o universo inteiro reconhece há décadas os títulos obtidos antes da FIFA encampar a competição. Essa estratégia fala mais do desespero de torcedores de clubes que atravessam crise sem precedentes do que um argumento válido para questionar estas conquistas.

Ora, sejamos justos. Para tirar os títulos de grandes clubes como Grêmio, São Paulo, Flamengo e Santos (assim como Boca, Real Madri, etc) precisa mais que um e-mail. Seria preciso apagar todos os livros de história do futebol, todos. Não poderia sobrar uma única página sequer, pois se encontrarem uma só nota sobre o assunto já será possível lembrar de Miller, Raí, Zico, Nunes, Pelé, Coutinho, Renato, De León e tantos outros heróis que tornaram verdade o sonho de fazer de seus clubes os maiores do mundo. Seria igualmente necessário arrombar todos os museus de todas as sedes de clubes para arrancar de lá os vistosos troféus e apagar da memória de todos os fatos relacionados a estas épicas e gloriosas conquistas.

Essa tarefa é impossível de se concretizar, além de ser abjeta e tola. A história não se apaga: se aprende com ela e se tenta imitar. Para aqueles novatos nestas conquistas aprendam com quem tem essa faixa pendurada há mais de 30 anos: ninguém se torna maior tentando diminuir os adversários. A grandeza ocorre pelo oposto, quando ao exaltar a conquista de todos nós nos tornamos maiores, pois a nossa vitória também é contemplada.

Obrigado

Na foto, Eurico Lara, goleiro e mito.

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Dádivas Seletivas

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Políticos são seres contraditórios e falíveis, iguais a todos nós. São retirados do povo, como eu e você. Não são seres de outro planeta e nem foram sujeitos a regras morais diferentes do contexto onde cresceram. Carregam os mesmos valores de seus eleitores, e são uma amostra bem razoável do nível moral e cívico da população que os elege.  Quando xingamos os políticos de forma genérica (como efetivamente fazemos) estamos xingando a nós mesmos. Eles mostram de forma bem clara quem verdadeiramente somos, enquanto coletividade.

Os políticos da Noruega são a imagem do seu povo, mas lá no norte da Europa uma empregada doméstica ou um trabalhador de fábrica ganha um ótimo salário enquanto o dono do jornal ou o empresário do comércio não se torna um mega multimilionário às custas da exploração dos seus empregados. Pensem nisso quando compararem a criminalidade ou a corrupção entre estes países. Não se reduz criminalidade e corrupção sem combater esses desníveis imorais de renda e acesso ao consumo. Uma sociedade que permite miseráveis já é estruturalmente violenta, mesmo que o aparato policial seja tão bom a ponto de impedir todos os crimes

Se quisermos um país justo não devemos esperar nada dos políticos; devemos começar por nós mesmos, escolhendo nossos representantes sem ser movidos e estimulados por interesses pessoais. Sejamos os melhores políticos possíveis no parlamento do nosso cotidiano.

Exija de você tanto quanto exige dos outros, mas não se iluda; não pense que as conquistas de bem estar e justiça podem acontecer sem abrir mão de privilégios injustos adquiridos no curso de várias gerações.

Arcebispo François Clevert, homilia sobre as “Dádivas Seletivas”, fevereiro 2017.

O Arcebispo François Clevert nasceu na França, na cidade de Reims, na Champagne francesa. Foi ordenado sacerdote em 1963 e destacou-se pelo espírito progressista de seus sermões. Engajado politicamente, foi um ativista dos direitos humanos palestinos durante a Primeira Intifada em 1987 e manteve-se ligado a eles até os dias de hoje. Socialista e ecologista, escreveu “Dádivas Seletivas” como um manifesto anti capitalista e contra a ação violenta do homem contra a natureza e contra minorias. Mora em Toulouse no Convento dos Jacobinos desde sua aposentadoria por problemas de saúde.

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Hereges

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Eu cheguei a criticar Leonardo Boff por se manter padre e ter uma postura crítica aos dogmas católicos, além de uma visão muito liberal e progressista, mas uma vez meu pai me disse “o que o torna relevante não é apenas a crítica que faz, mas de ONDE a faz. Fosse ele como você ou eu, quem lhe daria ouvidos?

Pelas mesmas razões quando um médico surge no Brasil defendendo o modelo humanizado de parteria sua voz é mais importante pelo fato de surgir de dentro da corporação médica do que pelo seu conteúdo. E no conflito entre paradigmas sua fala assume especial importância, e por isso mesmo (como ocorreu com Boff) tais personagens serão perseguidos e atacados.

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Silêncio

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“O silêncio é o momento mais sagrado de uma análise. Cultiva-se através do aprendizado duro e da intimidade com nossos próprios limites e dores. Entretanto, rompê-lo demanda coragem e sabedoria. A fala do analista é um caminhar às escuras em uma loja de cristais.”

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Armário aberto

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Durante a minha infância eu fui educado no cultivo de valores morais e espirituais cristãos, como a honestidade, o perdão, a fraternidade e uma visão teleológica de “evolução espiritual”. Poderia ter sido Rock n’ Roll, Elvis ou Stones, mas foi Allan Kardec. Nada contra nenhuma das possibilidades, mas isso tem um pouco de responsabilidade pelo que eu me tornei.

Em 1973 estávamos em plena ditadura militar e nessa época eu contava 13 anos de idade. Foi nesse período que moldei o meu coração vermelho, mesmo mantendo minha camiseta azul, preto e branco. A falta de liberdade e a sensação de constrição social começavam a gritar mais alto do que a visão perseverante, cristã, patriarcal e claramente conservadora que as vertentes religiosas – todas – ensinam nas entrelinhas dos versículos bíblicos e mensagens de Chico Xavier. Minha adolescência, que coincidiu com a entrada na escola médica, produziu esta guinada à esquerda aliada a uma visão social, já na própria medicina, que me acompanha até hoje.

Pois em 1973 eu tinha um amigo que morava há poucas quadras de minha casa e com quem conversávamos muito. Filho de uma família austera de alemães (a classe média de Porto Alegre é de “alemães” em sua maioria), seu pai era veterinário e ele tinha apenas uma irmã. Creio que foi por convite dele que fomos assistir o primeiro “filme proibido” no falecido cinema Carlos Gomes. Claro que no meio da sessão de “chanchada” brasileira – e antes de conseguir ver os almejados peitos descobertos da protagonista – a Polícia deu uma batida e todos os “dimenor” foram expulsos do cinema. O que poderia ser uma vergonha para nós foi motivo de orgulho, pois, mais do que uma sessão de cinema, participamos de uma aventura policial. Quem diria que naquela época seriam necessários pequenos crimes como este para ver inocentes mamilos. Pois este amigo, um certo dia, veio conversar sobre política comigo. Não era um assunto comum; era um tabu. Falamos da ditadura, do AI5, da falta de eleições e outros temas dentro da perspectiva de dos meninos entre 13 e 14 anos. O que fez essa conversa se tornar inesquecível é que os argumentos do meu amigo eram muito parecidos com os que a direita brasileira usa até hoje. A meritocracia ingênua, o culto ao “Cidadão de Bem”, a pobreza como escolha, o sucesso reservado aos competentes, a miséria como natural e a reação a este modelo como “ação criminosa”. Entretanto, em dado momento, diante dos meus argumentos de que a educação seria capaz de melhorar as condições de vida e fazer o Brasil alcançar níveis de civilização como na Europa, ele me respondeu:

Isso é inútil, Ricardinho. O filho do ladrão será ladrão e o filho deste também. São valores que se perpetuam nas gerações que se seguem. Não há solução. É como meu pai sempre diz: tem que colocar uma bomba na favela, explodir tudo, acabar com esses vagabundos e começar tudo de novo.

Fiquei por instantes calado e, um pouco tempo depois, ainda chocado, perguntei: “Teu pai disse isso mesmo?” Ele aquiesceu com a cabeça e continuou explicando porque achava que a “solução final” era o único caminho, mas a partir de então eu já não consegui escutar mais nada. Não podia acreditar que as pessoas pensassem assim. Os valores ingênuos de tolerância e amor ao próximo que recebi na infância não me permitiam aceitar um argumento desses sem me espantar. Nos despedimos e acho que nunca mais falamos sobre esses assuntos. Passamos décadas sem nos ver e hoje sei que ele milita em grupos de extrema direita. Nesse ponto ele tinha razão; o filho saiu ao pai, e o filho do filho tem a cama das ideias prontas para se deitar.

O que me fez lembrar essa história foi o fato de que, nos anos 70, uma ideia genocida e preconceituosa era contada apenas na família, com o rádio ligado, no meio do jantar e não saía dali a não ser por uma inconfidência de meninos. Era feio e socialmente condenável ser fascista, ter pensamentos totalitários e sem nenhuma noção sobre a gênese social da pobreza. Eu acho que a proximidade com a II Guerra Mundial e os horrores do nazismo nos ofereciam essa possibilidade de vergonha. Alguns combatentes vivos e seus depoimentos mantinham a história viva entre nós.

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Sobre essa transmissão transgeracional de valores eu lembro da imagem de crianças de 6 anos em Topeka, no Kansas, participantes da Westboro Baptist Church que carregam cartazes tipo “God Hates Fags” (Deus Odeia Gays). Não há como uma criança odiar homossexuais por seus próprios valores ou seu entendimento das “escrituras”. Estas atitudes só podem ter sido geradas através dos pais. Assim o ódio – tanto como o amor – pode ser ensinado para as crianças desde a mais tenra idade.

Entretanto, há alguns anos vi um documentário sobre adolescentes que conseguiram se libertar do torniquete mental do fanatismo fundamentalista da família que controla esta igreja, provando com isso que as duas proposições coexistem: as frutas não caem longe das árvores, mas é possível sair de perto delas através da informação e da ampliação dos horizontes. E isso tudo munido de muita coragem. Hoje em dia essas vergonhas se foram, o horror nazista pode ser “questionado”, o darwinismo social está em alta, a perseguição às minorias está liberada, questiona-se abertamente o estado laico, Bolsonaro é “mito” e o fascismo pode, finalmente, sair da toca depois de 70 anos de hibernação.

Um comentário como o do meu amigo de infância? Sim, ontem de tarde, no bar da esquina, entre uma cerveja e uma gargalhada.

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Darcy Ribeiro

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Esses dias vi alguém citando Darcy Ribeiro em sua fala. Fiquei pensando como faz falta um livre pensador como ele nos dias de hoje. Tomo como minhas as suas ideias e compartilho de sua “altiva depressão”. Fracassei no meu estado e na minha cidade na implantação de um modelo humanizado e transdisciplinar de atenção ao parto que coloca o protagonismo da mulher em primeiro plano. Fracassei na criação  de uma lei de doulas em minha cidade. Tive inúmeros fracassos em meus sonhos por um parto mais seguro e livre. Todavia, assim como ele, eu me envergonharia de estar no lugar de quem me venceu.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. 
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. 
Tentei salvar os índios, não consegui. 
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. 
Mas os fracassos são minhas vitórias. 
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
(Darcy Ribeiro)

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Brigas e esfacelamento do golpe

As brigas e bate-bocas entre os apoiadores de primeira hora do golpe são um sinal inequívoco do desmantelamento moral desse (des)governo. Assisti às gargalhadas o bafão Reinaldo X Joyce. É muito engraçado. A tentativa de desmerece-la como profissional, o falso comedimento, a raiva dissimulada e o desprezo são patentes em cada frase. Parece que agora eles jogam a criança de um lado para o outro gritando “É teu, é teu!!”. E o festival de vaidades expostas é impagável. O chororô do Reinaldo pareceu concurso de Drag Queen; só faltou no final tirar a peruca e descer o sarrafo.

O governo que já ruía por dentro agora começa a desmoronar por fora. Os jornalistas que deram suporte ao golpe jurídico-midiático começam a querer se livrar do rótulo de apoiadores de um governo que está afundado em corrupção até o pescoço.

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Dengue asiática

Dengue asiática

A dengue de Xiaoping o deixou muito Mao. O grande problema é que ele a adquiriu de um simples Beijing. Por esta razão tome cuidado. Caso encontre alguém com essa doença, não Tóquio, porque é sempre possível o karatê e não ser visível. Esperamos que este alerta não fique Confúcio e que medidas sejam tomadas.

Lembre-se sempre:

“If you can’t understand this message, Gengis Khan”.

Espero que esse comentário a judô você.

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Educação

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Uma estudante conta de alunas de obstetrícia que,  ao escutarem sua professora explicando porque as episiotomias rotineiras são desnecessárias, exclamam: “mas é mais fácil cortar“. Sim, alunas de obstetrícia.

Mais importante do que se enfurecer ou indignar é tentar entender a motivação inconsciente que estas meninas tem para cortar. Como dizia a personagem médica que Simone Diniz uma vez mencionou: “Eu sei que não devo cortar, mas minha mão vai sozinha e corta”.

O que a médica estava se referindo não era um automatismo neurológico da sua mão, nem mesmo uma possessão demoníaca. Ela se referia ao fato de que as motivações para o corte no períneo não eram CONSCIENTEMENTE determinadas. Sua RAZÃO dizia algo e seu desejo dizia outra coisa. A médica apenas descrevia – de forma curiosa e didática – o conflito entre razão e desejo.

A grande força das intervenções médicas se estabelece exatamente porque elas NÃO SÃO conscientemente determinadas, mas geradas nos estratos inferiores da mente, lá onde moram os nossos medos e os desejos inconfessos.

Ao dizerem “melhor cortar” as alunas apenas estavam sorvendo alguns goles do rio que flui sobre nossas cabeças chamado “campo simbólico”, que a todos afeta em maior ou menor grau. O que elas dizem com sua “vontade de cortar” é que parece muito mais fácil “fazer algo” ao invés de esperar que a mulher ajude a si mesma. Afinal, seus corpos frágeis, incompletos e defectivos demandam de nós ações objetivas para solucionar os dilemas do parto, obra de uma natureza madrasta, cruel e insensata.

Uma episiotomia é um corte simbólico; rasga a carne para atingir a alma. Seu sentido é mostrar o lugar da mulher no mundo: passível, imóvel e alienada do que ocorre ao redor. Por fim a lâmina fria lhe confirma: “Só parirás se for por mim. Eu sou o único caminho à verdade e à vida”.

Em função dessa carga histórica e ideológica, mais do que explicar conscientemente a inutilidade e os malefícios das episiotomias rotineiras (e de outras intervenções sem respaldo científico) é fundamental ensinar a beleza da fisiologia feminina, o processo milenar de aperfeiçoamento dos mecanismos de parto, sua adaptação paulatina à bipedalidade, à encefalização e à consequente fetação e deixar claro aos estudantes que NENHUM recurso tecnológico é capaz de tornar o parto normal mais seguro, e que as intervenções sobre o processo de parto só tem sentido do quando utilizadas em processo patológicos, cuja única finalidade é garantir segurança ao binômio mãe-bebê diante dos desvios da fisiologia.

O bom senso diante das intervenções e a orientação diante dos seus riscos deve ser acompanhada de um processo pedagógico intenso sobre a fisiologia feminina. O inimigo é o desprezo pela mulher e suas especificidades, que herdamos dos tempos mais sombrios do patriarcado.

Se as mulheres já conquistaram uma alma imortal resta-lhes conquistar um corpo digno e que seja respeitado pela medicina.

Talvez Carl Rogers tenha mesmo razão em sua frase, que eu sempre vi como perfeita para a medicina: “Perdemos um tempo precioso com treinamento que seria mais bem utilizado em seleção”. De NADA adianta treinarmos médicos e enfermeiras para a atenção ao parto se forem incapazes de sentir o parto e se apaixonarem por esse momento.

Por essa razão os médicos – via de regra – são parteiros sofríveis (para dizer o mínimo); eles foram selecionados em um vestibular pela suas capacidades com geografia, trigonometria e física, e não pela sua capacidade empática. Para piorar eles frequentam uma faculdade de medicina que os empurra para as intervenções – com drogas, cirurgias e palavras – desde os primeiros minutos da faculdade, ao sentirem o formol no nariz durante as aulas de anatomia.

Estamos selecionando de forma errada. Passei toda a minha vida de parteiro escutando o desprezo dos médicos pela arte de partejar. Como pode ser possível que, com todos os dados e estudos que temos das experiências do mundo inteiro, ainda apostamos na intervenção médica como atenção primária ao parto? Pela sua abrangência e capacidade destrutiva, a atenção médica ao parto eutócico é um dos maiores equívocos da história humana no que diz respeito à saúde e ao bem-estar.

Como pedir para estes meninos e meninas que acreditem nas mulheres se todo o seu ensino é focado na patologia e nas formas de intervir? E não apenas na obstetrícia, mas também como solicitar que neonatologistas acreditem nos mecanismos adaptativos dos bebês se todo seu ensino é baseado em catástrofes? Como exigir dos profissionais que “peguem leve” se toda a importância social que eles ganham está relacionada às intervenções?

Muitos médicos recebem prêmios e honrarias por terem salvado vidas, mas quantos recebem elogios manterem vidas a salvo através de uma atitude não violenta?

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