Arquivo do mês: abril 2017

Médico ideal

(…sobre a produção do “médico ideal”)

Desde a época da escola médica recebemos daqueles que nos orientam a ideia de que envolver-se com os pacientes é uma atitude “fraca”, “débil”, que demonstra uma labilidade emocional e afetiva, a qual aponta para uma falha formativa. O subtexto dessa formação é que o “médico perfeito”, na concepção platônica, deveria ser como o juiz: frio, duro, imparcial e sem qualquer esboço de emoção. Ou como o Dr. House: insensível, técnico, bruto, estúpido, grosseiro e genial.

Talvez esta visão de médico tenha uma conexão atávica com os antigos operadores de casaca curta, os “cirurgiões barbeiros”, que não carregavam nenhum sangue nas veias e se mantinham de pé sustentados por seus nervos graníticos, que arrancavam pernas, cálculos da bexiga e braços sem anestesia, olhando a dor, a agonia e até a morte dos pobres enfermos sem sequer mover as sobrancelhas.

Mark Lipmann, “Doctors from the Heart”, ed. Volare, pag. 135

Mark Weinstein Lipmann é um pediatra americano nascido em Houston – Texas em 1954. Foi criador e diretor do Centro de Pediatria de Pasadena, cidade para onde se mudou após terminar a residência em pediatria e neonatologia. Desde muito cedo começou a questionar o modelo tecnocrático de atenção à saúde, com intervenções exageradas e potencialmente perigosas, em especial na sua área – a pediatria. Desta forma, começou a militar nos movimentos de apoio à amamentação, sendo membro integrante da conhecida “La Leche League”. Escreveu inúmeros artigos sobre amamentação e inclusive a importância do parto normal e fisiológico para a introdução imediata da amamentação, assim como a importância da ausência de drogas no leite materno para um processo de aleitamento mais tranquilo e efetivo. Foi perseguido pela corporação médica de sua cidade por sua militância pelo parto e pela amamentação, e seguiu lutando a despeito das agressões e sanções. No livro “Doctors from the Heart” enumera suas convicções e o arcabouço teórico e filosófico do suporte à amamentação livre e ao parto normal. Foi aclamado pela crítica como “um libelo a favor da natureza humana e pelo resgate de uma vida mais simples e saudável” por sua postura firme, embasada e concisa sobre a importância de resgatar a fisiologia perdida pelo capitalismo e a tecnocracia.

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Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

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Sobre o escrever

“Meu pai dizia: leia qualquer coisa, tudo que puder e sem preconceitos; até rótulo de shampoo. Sempre será um exercício com as palavras e como elas se encaixam nas linhas, nas frases e nos conceitos. Eu digo hoje: escreva qualquer coisa e divirta-se com o “lego das letras”. Dê voz à sua angústia; não é o mesmo que falar dela, mas permitir que ela fale por si. Escreva sempre, transforme sua fala em um discurso escrito e verá um novo tipo de expressão brotar com os signos que se formam à sua frente. É como ter um sonho na lembrança e trazê-lo à superfície da palavra: ao contá-lo ele se transmuta, ganha um novo corpo e passa a adquirir significados que não possuía quando ainda dormitava na matéria bruta do pensamento.”

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Pena Capital

Sempre que eu leio ou escuto dos defensores da pena capital o argumento(?) “Ah, mas a pena de morte que os bandidos aplicam nas ‘pessoas de bem’ tu achas correto?” eu sempre escuto como um lamento ao estilo: “Ah… quando é pra gente se divertir não pode, só eles que podem, é?”

Pode ser um exagero, mas a mim parece que os defensores apaixonados da pena de morte (não aqueles que ao menos procuram um debate racional sobre sua efetividade) possuem um desejo inconfesso e recalcado de matar, uma violenta pulsão destrutiva, que foi obstaculizada por inúmeros fatores sociais, em especial a educação e os princípios religiosos.

Todavia, quando falam em pena de morte eles se transmutam, se alteram, ficam com a cara do personagem Dexter e pensam “E se eu pudesse dar vazão a estes instintos dentro da lei, não seria o máximo?

Certo que os traumas não totalmente resolvidos de algumas pessoas nos fazem entender este comportamento, mas a imensa maioria dos defensores da pena de morte nunca teve um episódio traumático – pessoal ou próximo – de violência extremada. Por isso penso que o discurso em favor “das pessoas de bem”, ou da “punição exemplar” é meramente encobridor de sentimentos muito mais primitivos, tão difíceis de aceitar quanto de confessar.

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Minimalismo

Dias atrás vi um belo documentário no Netflix, o qual recomendo com fervor: Os Minimalistas. Trata da história de uma dupla de jovens que resolveu se desfazer de quase tudo e viver uma vida o mais despojada possível, tateando os limites do desapego material. Ao assistir à narrativa fiquei envergonhado de perceber o imenso grau de fetichismo que ainda depositamos (depósito) em coisas, de roupas, objetos, utensílios a tamanho de casas.

Somos verdadeiramente governados por objetos que gravitam ao nosso redor, deixando de lado os verdadeiros valores da vida. Todos os conceitos do Minimalismo já existem na minha cabeça como elementos racionais há muitos anos, e a própria opção por viver no meio da natureza e em comunidade vai nesse sentido. Como próximo passo cabe a mim a difícil tarefa de que tais ideias baixem um pouco do alvo inicial e atinjam o coração.

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Sintoma Médico

O que causa o verdadeiro desconforto com a atitude dos estudantes recentemente chegados à escola médica é que sua atitude não se desenvolve em um vácuo. Não se trata de uma anomalia ou um fato isolado, mas o sintoma de uma doença sistêmica que só agora parece ser mais facilmente diagnosticada. Não é uma unha encravada ou o ferimento superficial em um corpo previamente saudável; não se trata da aparição súbita de uma infecção exógena que ataca um corpo indefeso.

Não. O que traz preocupação é que tais manifestações são apenas os sintomas e sinais visíveis de uma doença profunda, que agride os sentidos de forma insidiosa, que contamina os tecidos e órgãos de forma silente, mas que pode ser percebida quando deixamos de olhar para o evidente e levantamos o véu para ver o que se encerra por detrás do meramente manifesto.

Não é porque são estudantes de Medicina apenas, mas por serem parte dessa classe média arrogante e retrógrada que infesta o Brasil. Esses estudantes vão apenas reforçar esse preconceito durante a formação médica, e vão reproduzi-lo durante toda a vida profissional. Muito triste saber que eles terão a saúde de pessoas em suas mãos.

Todo movimento na medicina, por mais sutil e delicado que seja, é traçado pelas linhas do poder. Ali, nas entrelinhas do discurso, no espaço que se estende entre as palavras, no gesto fino, no branco difuso, na luz ofuscante, na frase cheia de abreviaturas, na desconexão entre o sentir e o real do corpo, entre o sujeito e o objeto é que se constrói a força dessa relação.

Esse encontro mágico tem a potencialidade ser o mais criativo caminho de cura, mas exatamente pela magia que o constitui e sustenta acaba sendo permeado por gritos de soberba e arrogância. Estes apenas sinalizam que o caminho que escolhemos se perdeu há muito e que reconstruir a arte de curar é outra grande tarefa para o milênio que se inicia.

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Crime e Castigo

“Como regra civilizatória um presídio JAMAIS poderia tratar um prisioneiro da mesma forma como o bandido trata a sociedade. Um está doente, o outro precisa ser saudável para oferecer a cura. Nenhuma sociedade civilizada apoiaria o absurdo de criar “centros de punição e vingança social”, imaginando que tal barbárie deixaria a cidade mais justa e segura. Pensar isso é regredir à idade das trevas, sem receber nenhuma segurança em troca.

Estados policiais, cheios de guardas e prisões, apenas iludem o espectador com sua fantasia totalitária e com a ideologia da “segurança para o cidadão de bem”. Onde foi aplicada o resultado foi catastrófico, em recursos, em vidas e em desumanidade.

A única saída para a criminalidade é a justiça social, mas no Brasil a Casa Grande não aceita abrir mão dos seus privilégios e por décadas ainda veremos a criminalidade ser tolamente tratada como um transtorno da alma, ao invés de ser entendida como uma construção social da qual todos – sem exceção – participamos.”

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A revolta domesticada

Acabei de assistir ao comercial controverso da Pepsi (pode ser visto aqui) e achei a maior juquice da história da publicidade mundial. Gente linda, elegante e sincera fazendo protesto num lugar que parece o Moinhos de Vento em Porto Alegre – ou Morumbi em SP – protestando talvez contra o aumento do preço da banda larga. Aí a bonitinha se interessa pelo protesto super civilizado nas ruas, junta-se à galere e acaba com as animosidades oferecendo uma pépis pro guardinha fofo. Pronto.

É assim, com amor e refrigerante, que se faz a mudança na estrutura social. Acabou a briga e todos podem voltar pra casa, tirar suas roupinhas féchon, deitar no sofá a assistir suas séries no Netflix.

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Terra primitiva

Sobre geração espontânea…

Abro um saco de farinha fechado e um inseto alado sai voando. Percebo que todo o saco, que devia conter apenas farinha, contém uma curiosa e inesperada diversidade de vida. Geração espontânea, nada mais natural.

Pegue uma bola de fogo girando em alta velocidade e inclua elementos simples como enxofre, carbono e hidrogênio. Esquente bem com vulcões e cataclismos de toda ordem, maremotos, tsunamis, continentes que se movem, meteoros e lava incandescente aos borbotões. Deixe esfriar e espere. Aguarde 4 bilhões e um pouco mais de anos, destape e recolha árvores, borboletas, flores, lagartos, morcegos, tubarões  crocodilos, mosquitos e seres humanos. Espere mais um segundos e estes últimos vão falar, escrever, brigar entre si e destruir os demais. Esperemos mais alguns instantes e tudo pode se evaporar num cogumelo de fumaça.

Do nada faz-se a vida, da vida consciência e da consciência o egoísmo. Desse ponto em que nos encontramos já podemos escolher entre a vida ou a fumaça.

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Guerra de versões

Antes de adotar um lado de qualquer de matérias tão importantes é essencial situar-se e ver como as informações são produzidas. O que vem da Síria, Coreia do Norte e mesmo Cuba é filtrado por agências de notícias com claras vinculações com o poder econômico internacional. As notícias da Coreia até hoje, e as do Iraque antes da invasão, são exemplos claros do quanto é possível mentir sobre um país inteiro. Quem lembra do Antrax e das armas de destruição em massa? Pois estas desculpas absurdas foram usadas para justificar à opinião pública o massacre sobre um país soberano.

Na Síria de hoje podemos ver “crianças recicladas” sendo tratadas como “novas vítimas” pelos “Capacetes Brancos” para produzir a comiseração internacional e modificar a percepção ocidental da barbárie da guerra. Pode-se ver isso claramente nos inúmeros vídeos sobre o tema. É importante notar que em 2014 houve eleições nas quais Assad foi o vencedor. Portanto, esforçar-se pela deposição de Assad – como é o desejo americano – é correr o grave risco de repetirmos Iraque, Afeganistão e Líbia, onde a intervenção produziu mais miséria, destruição e o controle americano dos recursos, mas às custas de milhares de mortes de civis.

Em qualquer sociedade é necessário que haja pessoas que desafiem o senso comum, procurem visões alternativas, desconfiem dos poderes constituídos e lutem por perspectivas múltiplas e democráticas para os eventos. Não existe verdadeira liberdade quando somos atraídos por uma única narrativa e nos seguramos a ela como se ela fosse “A Verdade”. Os exemplos de fraudes internacionais patrocinadas por grandes nações são incontáveis.

No Brasil o simples convencimento das seis famílias de controladores da grande mídias é suficiente para garantir uma versão particular da história como hegemônica, por mais absurda que ela possa ser. A farsa do triplex do Lula e as escutas de uma presidente eleita sendo divulgadas na grande mídia seriam suficientes para demonstrar a falácia da “liberdade de imprensa”. A confissão de Boni, com 20 anos de atraso, da vergonhosa manipulação do debate presidencial Lula-Collor poderiam botar uma pedra sobre a questão, mas a ilusão de democracia de meios se mantém mais pela nossa fé do que por qualquer evidência. As versões filtradas da guerra da Síria, assim como qualquer outra, mostram que um conflito como esse produz narrativas controladas estritamente pelos poderosos, sendo que só conseguimos alguma visão diferente através da garimpagem criteriosa de descrições alternativas. Nem sempre podemos tê-las, mas quando as encontramos podemos descortinar uma realidade, via de regra, antagônica à versão oficial.

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