Arquivo do mês: junho 2017

Consciência e mudança

Por debaixo de um ato qualquer existe uma construção social e inconsciente que nos impele às ações. Mesmo quando o ato nos parece incongruente existe uma lógica que o sustenta além da nossa rasa compreensão. O que os torna fortes e longevos é sua conexão com o desejo, e não com a razão.

A episiotomia ocupa um lugar no próprio imaginário feminino, que aceita tais mutilações como o “preço a pagar” por ser mulher e trazer seu filho ao mundo com segurança. O mesmo ocorre com as mutilações genitais na África, onde as próprias mulheres ainda aceitam esse destino como justo, talvez como culpa ancestral pela própria condição feminina, sempre ligada ao pecado e ao erro.

Na China nenhuma das alunas enfermeiras obstetras de diversas províncias chinesas realizava episiotomia de rotina. Ficaram escandalizadas quando falei da nossa taxa global de 56% (e de estados do centro-oeste com 70% de taxa de episiotomia). E isso em um país em que quase todos os partos são em litotomia. Para elas episiotomia é uma conduta estranha e violenta. Conseguiram manter a ideia de um períneo intocado mas infelizmente sucumbiram aos modismos ocidentais como parto deitado, máscara, esterilização, separação mãebebê, hospitalização, etc.

Mudar essa condição será possível quando trouxermos tal construção histórica à luz. A simples evidência de sua inutilidade e malefício (cujos estudos comprobatórios já contam mais de 30 anos) não é suficiente para erradicar uma prática violenta, por mais evidências apontadas. É preciso mais do que razão; é necessário consciência política e organização social para pressionar pela extinção das más práticas.

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Rotinas hospitalares

As rotinas hospitalares são usadas, no dizer de Robbie Davis-Floyd e Brigitte Jordan como “tecnologias de separação“. Se existem raros casos em que esta distância e o confinamento de recém-nascidos são necessários o uso alastrado dessa prática tem muito mais significado pelo que carrega de forma invisível e simbólica. Esse afastamento manifesta uma atitude autoritária dos poderes delegados do Estado contra a autonomia da mulher sobre seu filho. O objetivo inconsciente destas condutas e rotinas é despojar a mulher do controle sobre seu filho, estabelecendo uma tirania da técnica e do conhecimento sobre a conexão mãe-bebê que recém se estabelece. Nesse momento especial é lançada a pedra fundamental para a construção de um sujeito subserviente ao Poder.

Nesses momentos sempre lembro a frase da minha amiga Mary, parteira da Holanda: “Você quer que seu filho nasça como paciente ou como cidadão?”

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Generalização

“Uma generalização negativa e demeritória sobre grupos, etnias, gêneros, religiões etc. com a qual não concordo. Caso concorde, então é apenas a verdade dura que precisa ser dita”.

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Profissionalização

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Esperança

“Não esmoreça. Passe pela vida e deixe seu testemunho. A vida é curta demais para covardias e vaidades. Faça esse tempo curto de convívio conosco valer a pena. Deixe seu tijolo para a construção de um mundo melhor e permita que sua consciência e sua ética guiem seus passos em meio à artilharia pesada das forças do atraso. Siga em frente de peito aberto. Não se iluda: muitos acompanham teus passos em silêncio e seguem teu exemplo.”

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