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Vírus Maldito

Nosso erro reiterado: acreditar que o vírus é o nosso inimigo, que precisa ser destruído, porque é ruim e malévolo, dotado de uma consciência perversa que deseja nos destruir. Ele representa a desgraça e a crise que se abateu sobre nós. Mas, é certo que mais uma vez estamos olhando para o inimigo errado…

Antes foi a selva, os animais “perigosos”, as feras, as serpentes, as aranhas, as formigas assassinas, os tubarões e os mosquitos. Os rios que inundam, os furacões, as chuvas, a ventania e a seca. A natureza era a inimiga, que precisa ser controlada ou domada. Caso resistisse só nos restaria puni-la ou levar a cabo sua destruição.

Depois nosso ódio se voltou àqueles próximos à ela, os nativos, os indígenas, os povos originários. Os que tentam dialogar com ela sem a perspectiva do extermínio. É a sanha desenvolvimentista que a tudo deseja asfaltar, cimentar, ladrilhar, esterilizar.

A chegada da microbiologia, nos finais do século XIX se adapta maravilhosamente a uma ideologia anti-bios, contrária às outras formas de vida que, por definição, nos desafiam. Daí resultam os antibióticos, que destroem as vidas que nos ameaçam, enquanto as cidades avançam pelas matas com a mesma intenção, levando de roldão a vida e a diversidade biológica do planeta. Espécies inteiras são dizimadas, destruídas, aniquiladas. A vida perde, para o homem sorver, mais uma vez, a bebida inebriante da supremacia mortal.

Porém, é preciso ser justo; também quero me livrar desse vírus o quanto antes. Matá-lo até que não possa mais destruir tudo à sua volta. Todavia, não me refiro a estas minúsculas hélices de DNA que por hora se voltam contra nós, os humanos, em claro movimento de defesa contra as incessantes agressões.

Não, falo do vírus da ganância, do capitalismo, do modelo acumulador que ameaça nossa existência. Falo de nós mesmos, os humanos, infectados pelo consumo desenfreado e sem consciência ecológica. Falo do nosso desejo destrutivo de tudo abocanhar com nossa garganta infinita. Esse vírus que há muito nos acomete precisa ser destruído para que reste alguma esperança de sobrevivência para a nossa espécie, e para este pequeno planeta azul.

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Dom Quixote

Acho que, no lado das esquerdas, serei sempre visto como um Dom Quixote por não me furtar de fazer duros questionamentos à Big Pharma. Todavia, hoje em dia parece obrigatório ao campo democrático e progressista vestir a camiseta das vacinas, e qualquer crítica mais séria sobre este tema é vista como uma “traição”.

Tudo isso porque o tema “vacinas” se tornou um tabu alicerçado no desespero das pessoas diante do inimigo invisível – mas com resultados dramáticos e visíveis. Com isso se permitem inúmeros deslizes éticos (vide fundação Gates em África) com a desculpa de que os fins (salvar a humanidade) justificam os meios (abusos, coerções, danos irreversíveis, mortes, etc).

Pior…. tudo isso ocorre sob o rótulo de “Ciência”, como se a ciência fosse uma entidade mítica e monolítica, e não uma medusa com milhares de cabeças, cada uma delas com suas pesquisas conflitantes e contraditórias. E isso que não estamos citando a corrupção evidente na ciência inserida no capitalismo, que faz com que o pesquisador Peter Gotzsche (Fundador da Cochrane Library) não tenha pruridos para chamar a indústria farmacêutica de “Máfia” e Márcia Angel (editora durante duas décadas do New England Journal of Medicine) se permita dizer que é impossível acreditar em estudos e pesquisas contemporâneas.

Mas… questionar – a ética, os custos, a segurança, a aplicabilidade, a eficácia, etc – das vacinas ainda é tratado como bolsonarismo e terraplanismo. Na verdade esta postura não passa da aplicação de um dos princípios mais importantes da ciência: o saudável ceticismo. Aliás, o mesmo que nos fez desconfiar da Cloroquina como “bala de prata” e panaceia universal.

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O Experimento

Apesar dos inúmeros convites eu nunca entrei no Twitter. Também nunca frequentei Instagram e sempre escrevi apenas no Facebook. Se há uma coisa para mim espantosa é a violência e a ferocidade que o anonimato – e/ou a distância física – confere ao cidadão comum. O Twitter, segundo me dizem, é “terra de ninguém” onde a difamação e a calúnia são os idiomas oficiais, e o Instagram é a vaidade na potência infinita. Enquanto isso, a brutalidade inédita – em sua abrangência – das agressões nas redes sociais faz lembrar um pouco o experimento em Yale de Stanley Milgram com os choques elétricos. Mas lembra também Star Wars, onde a Estrela da Morte destrói o planeta Alderan inteiro com a leve pressão do dedo de um comandante.

Parece que, se o seu “inimigo” – por ser de outro partido, outra ideologia, outra religião, outra orientação sexual, outra opinião, outra perspectiva de mundo, etc – estiver distante o suficiente você pode apertar repetidas vezes o botão da ofensa e da violência que isso não será sentido. A distância e a invisibilidade alheia confirmam a noção de “quem não vê cara, não verá o coração destroçado”.

Já fui vítima de agressões de pessoas (até então) amigas pelo crime de pensar diferente e de expressar publicamente opiniões controversas, mas por certo que já estive na outra ponta do espectro ao escrever críticas duras sem levar em consideração o impacto que poderia causar nas pessoas atingidas. Isso me fez repensar os limites de nossa atuação e ação públicas. Por certo que verdades inconvenientes precisarão sempre da nossa voz (e nossa escrita), mas as críticas direcionadas às pessoas precisam um cuidado muito maior do que este que agora temos.

A violência virtual cresceu de forma exponencial nos últimos anos. A ruptura de antigas amizades e as ofensas desmedidas igualmente, talvez porque ainda não percebemos o quanto de nós mesmos aparece em cada palavra destrutiva que escrevemos. Mas também é possível que o prazer de ver alguém sofrer com o simples toque em uma tecla – como no experimento Milgram – nunca tenha sido avaliado em sua amplitude.

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Médicos

Não vejo possibilidade em curto prazo de uma modificação substancial no perfil dos médicos e da própria Medicina no Brasil. Minha descrença é fácil de entender, basta ver de onde vem os alunos da medicina. Eles são egressos das melhores escolas, dos melhores cursinhos preparatórios, são filhos das famílias que podem bancar esses anos de estudo, tem sobre o corpo a “melhor” cor de pele e as famílias possuem o melhor saldo bancário. É possível dizer o mesmo do judiciário e do Ministério Público, onde verdadeiros feudos dominam o cenário da justiça. A esquerda é francamente minoritária nesses cursos superiores e certamente nas corporações. E essa minoria é muito pequena MESMO.

Sou capaz de contar nos dedos da mão os colegas claramente de esquerda que conviveram comigo durante anos de percurso pela medicina. A imensa maioria tem discurso e atitude meritocrática, acreditam piamente que estão cursando estes cursos apenas pelo seu esforço pessoal, deploram o socialismo e suas vertentes, apoiam o fim do SUS, aplaudem PPP (parcerias público-privadas) na saúde, acreditam no paradigma tecnocrático da medicina de forma quase religiosa, acham que a iniciativa privada é superior (mesmo alguns tendo sido empregados do Estado a vida inteira), acreditam que os médicos são “especiais” e merecem privilégios e enxergam a saúde pública e a medicina de família como espaços menores da atuação médica – quando comparadas com especialidades tecnológicas como neurocirurgia, medicina por imagem ou algumas novidades mercantilistas.

Não acredito que o pequeno número de médicos com consciência de classe e com uma visão progressista e popular farão diferença em curto prazo. O que precisamos é de uma reformulação no ingresso e a abertura de “faculdades populares de medicina” para produzir novos médicos educados dentro do paradigma social e com ênfase na saúde pública e na prevenção. Questionar e aprofundar a crítica à visão capitalista e elitista da medicina deve ser uma grande tarefa para o século XXI.

No nosso atual contexto a corporação médica é reacionária, elitista e alienada em sua grande maioria, e alguns setores são francamente fascistas – bastam 5 minutos na comunidade “dignidade médica” para confirmar isso.

O Brasil precisa de uma medicina para seu povo, ligada às comunidades, e não uma profissão adjuvante das empresas de saúde e da fabricação de drogas.

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SUS

Em todos os lugares fora do Brasil onde falei sobre o SUS para explicar a diferença nas taxas de cesariana entre os 3 diferentes tipos de atenção (público, privado e medicina suplementar) eu sempre vi olhos brilhando e entusiasmo com o nosso sistema universal de atenção, em especial entre os americanos. Para eles um modelo solidário, onde o adoecimento não significasse a bancarrota, onde houvesse segurança de atenção para todos e os pobres tivessem atendimento digno, sem precisar de esmolas e caridade, era o paraíso da atenção digna à saúde.

Quando vejo os ataques ao SUS, o projeto de lenta e insidiosa privatização, o desmantelamento e o sucateamento planejados para depois dizerem que a venda era “necessária” eu fico imaginando o horror destes amigos americanos americanos ao perceberem que estamos imitando o que existe de pior na cultura liberal deles: a doença como negócio.

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Parteria no século XXI

O desprezo pela arte da parteria e a introdução do médico no acompanhamento da gravidez de risco habitual e na assistência ao parto eutócico foram os piores decisões tomadas na assistência à saúde no século XX. Esse modelo tecnocrático foi muito mais fortemente introduzido nos países satélites dos Estados Unidos, e muito menos intenso na Europa, sendo estes últimos os países que apresentam qualidade melhor nos índices de saúde materna e neonatal. Não por acaso. Essas evidências deveriam nos guiar, mas precisamos aumentar a pressão para que sejam adotados modelos mais adequados e justos.

A falta de evidências científicas que amparem um sistema centrado no médico, associado ao desprezo pela qualidade milenar da assistência das parteiras, demonstram que essa imposição só se sustenta pelo uso da força. Somente uma narrativa despregada da ciência permite que continuemos investindo num modelo caro e inefetivo.

A adoção de um novo/ancestral modelo centrado na atuação das parteiras profissionais à gestação e parto de baixo risco deverá ser a tarefa a atravessar o século XXI para que as mulheres possam alcançar o melhor de dois mundos: a qualidade e a delicadeza do atendimento das parteiras associado ao melhor que a ciência pode oferecer na correção das patologias, com sistemas de referência ágeis e respeitosos com os profissionais envolvidos.

A manifestação da Febrasgo está em sintonia com esta imposição de modos pelo poder, seja ele econômico ou pela condução da narrativa enviesada que controla a tecnocracia. Deve ser repudiada não apenas por quem preza a assistência de qualidade às gestantes, mas também por quem respeita a ciência – com a qual estas decisões deveriam estar sempre conectadas.

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Carrefour

“E os brancos que são mortos por negros? Eles não valem nada?”

Suas mortes são igualmente lamentáveis, mas pense bem: eles não morrem POR SEREM brancos. No caso do Carrefour o racismo é o principal elemento da cena, mas por certo não o único. A violência absurda, a covardia e o uso abusivo da força também contam. O poder econômico de uma grande rede de supermercados multinacional atacando a ponta frágil da sociedade – preta e pobre – é inegável e não podemos fechar os olhos para essa face cruel do capitalismo.

Mas a observação da Bebel é certeira e vai no ponto: se fosse branco nada disso teria acontecido. Alguém conversaria com ele, chamaria um responsável da loja e acabaria tudo sem maiores problemas. Vejam os vídeos dos barracos que brancos fazem e perceba a diferença. É a cor da pele, é a cor…

Sim, ele morreu por ser negro, sua condenação estava na escuridão da sua pele. Um negro não tem o mesmo direito de fazer um “barraco” e tudo ser resolvido na conversa, chamando o gerente. Não, com eles é na porrada no mata Leão, na asfixia – há pouco tempo, no chicote. A execução é sem júri, sem advogado; é no chão frio da rua, atrapalhando as “pessoas de bem” que vão fazer suas compras.

Claro que há negros que matam brancos, mas mostre para mim um grupo de negros pulando e asfixiando um branco apenas por ele ter sido inconveniente ou abusado. Onde estão?

A desculpa, quase onipresente aqui e nos Estados Unidos, é bem conhecida por todos nós: Por que ele resistiu? Por que não cooperou com as “autoridades”? Pois eu acho essa pergunta a maior das ofensas, pois no fundo ela significa: “Hei negro, ponha-se no seu lugar. Quando a gente manda, você obedece!”

Para um negro, reagir a uma injustiça é sempre um crime inafiançável. A eles só cabe a resignação e o silêncio.

O racismo fica evidente quando o que para nós brancos é tratado como “exagero” ou “inconveniência” para os negros significa uma sentença de morte.

Os não brancos são 51% desse país. Por quê nossos irmãos são tratados com muito mais crueldade que qualquer animal? Ontem foram 80 tiros. Um pouco antes Amarildo. A juventude negra continua sendo massacrada diariamente pelo Estado racista.

Até quando???

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Amor e Verdade

“Se o seu amor à causa for maior que seu amor à verdade, sua causa já morreu e você não notou”.

Erastus de Medina

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Sobre familiares no parto

Lembro de dezenas de relações maravilhosas relacionadas à presença da mãe (futura avó), durante o parto, mas também testemunhei meia dúzia de situações dramáticas causadas pela presença desta personagem, e algumas vezes do próprio marido. Só é possível avaliar a adequação dessa presença analisando caso a caso, e a decisão deve sempre ocorrer na perspectiva da gestante.

Imaginar que a presença da mãe – ou do marido – seja sempre uma boa ideia é não reconhecer as infinitas experiências possíveis criadas nestes relacionamentos. Medo, angústia, dívidas amorosas, fragilidade e falta de confiança nos profissionais podem ser os fatores determinantes desse convite, suplantando a proposta meritória (e por vezes romântica) de comunhão familiar.

Pior ainda, essas emoções negativas podem estar (e frequentemente estão) escondidas e inconscientes, e tudo que vemos na superfície é uma máscara de confiança, amorosidade e afeto. Infelizmente, esta aparência toda se dissolve diante das dificuldades ou desafios do trabalho de parto; onde existia harmonia e carinho pode aparecer ressentimento, impaciência e cobranças do passado. Daí para uma obstaculização definitiva do processo é um passo.

Assim, fica claro que não há como criar regras rígidas e aplicáveis a todos para a participação de futuras avós, maridos e filhos. Tudo o que podemos fazer é estabelecer princípios gerais (silêncio, não interferência, auxílio nas tarefas, etc) adaptados a cada situação particular.

Nenhuma mulher chora, ri ou goza igual às outras, e nenhuma vai parir de mesma forma como qualquer outra mulher já pariu. O parto é uma face da sexualidade feminina e sua expressão é tão própria do sujeito quanto suas digitais.

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Poderes

Não tem nada a ver com ciência, mas com poder. A narrativa dominante de penalização da natureza e exaltação da tecnologia não tem nenhuma ligação com a saúde ou as evidências científicas, mas com domínio e poder sobre as “matrizes”. O corpo das mulheres continua sendo o tabuleiro onde este jogo é encenado. Para manter o poder e o controle não se admite perder nenhum centímetro de pele conquistada.

“O parto é parte da vida sexual das mulheres”, e o seu controle pela ideologia médica envia uma potente mensagem subliminar de submissão que se transmite a quem dá à luz e direciona a vida de quem chega.

O controle da sexualidade das mulheres pela ideologia patriarcal dominante, é essencial para manter intocada a estrutura social. Destravar esse sistema opressivo é uma das formas mais eficientes de romper com a iniquidade e a injustiça na cultura e nas relações humanas. “Para mudar o mundo é essencial mudar a forma (opressiva) de nascer”.

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“Bebê nasce com infecção após cesárea eletiva:
—> era uma infecção prévia
Bebê nasce com infecção após parto normal: —> infecção causada pelo parto

Bebê nasce com desconforto importante após cesárea eletiva:
—> pulmãozinho molhado
Bebê nasce com desconforto importante após parto normal:
—> forçaram o parto normal

Bebê aspira mecônio após cesárea eletiva:
—-> o bebê tem um problema
Bebê aspira mecônio em parto normal:
—-> esperaram demais pra operar.

Não estou falando de leigos não… estou falando de médicos obstetras e pediatras.” (Ana Cris Duarte)

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