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Parto “autoral”

A respeito do debate sobre “Parto Autoral” surgido recentemente. Ao me ver este termo é uma tentativa de oferecer uma nova roupagem ao termo “protagonismo”, nosso velho conhecido. A “autoria” do parto é um aspecto de um conceito mais amplo de humanização do nascimento. Parto autoral não avança para além do sentido já debatido da garantia do protagonismo à mulher, algo que enfatizamos desde que o debate sobre uma “nova forma de nascer” começou a ganhar corpo no Brasil e no mundo. Por esta perspectiva a “autoria” é o eixo central a partir do qual os outros elementos da humanização vão se estabelecer. Isto é: sem plena “autoria” nunca teremos humanização, apenas ações parciais que não atingem o cerne da questão do parto: os direitos das mulheres sobre seus corpos. Ou, como diria Max, “sem o protagonismo só resta a sofisticação de tutela“.

protagonismo

Por outro lado, aprofundando-se no debate sobre o protagonismo, um parto pode ser “autoral” e NÃO SER humanizado, desde que para isso não se obedeçam os outros pilares que sustentam esse conceito, a saber: a visão interdisciplinar do evento (retirando dele as amarras de procedimento médico) e as evidências científicas (sem as quais somos presa fácil das mitologias, via de regra misóginas e potencialmente perigosas). Como exemplo podemos citar uma mulher situada no extremo do espectro do protagonismo: uma gestante diabética e hipertensa que resolve de forma autônoma ter seu filho em casa sem o auxílio de qualquer profissional ou tecnologia. É autoral, mas é uma decisão que não tem interdisciplinaridade ou evidências científicas que a sustentem. O mesmo pode ser dito das cesarianas sob demanda: são autorais, mas agridem as evidências científicas no que diz respeito à segurança para mães e bebês.

Por esta razão eu acho que vale a pena esclarecer esses termos novos que surgem no cenário da humanização do nascimento para que não causem confusão.

Resumindo: a Humanização contempla a autoria, pois ela é a parte central do modelo que preconizamos. Por outro lado, a autoria não necessariamente se abriga sob a proteção da humanização. Uma decisão “autoral” não precisa ser humanizada.

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Responsabilidades

delegar

“Humanização do nascimento é uma via de duas mãos. Não existe como ser efetivamente humanizada a atenção ao parto em pacientes alienados e oportunistas, que jamais se responsabilizam por suas escolhas. Humanizar o nascimento é trabalhar em parceria, jamais se deixando seduzir pela expropriação do protagonismo da mulher, tão característica de uma medicina autoritária. Para mudar o nascimento no mundo é necessário mudar a forma de pensar a própria vida, encarando suas escolhas de forma responsável, inclusive sobre aqueles que vão acompanhá-la na trajetória em direção à maternidade”.

Um erro que vem do passado, ainda centrado numa espécie de arrogância profissional, é crer que a medicina pode ser transformada se os médicos se modificarem. Isso é ingenuidade, pois ela é um retrato dos valores e conceitos sociais, expressos ou subliminares. A arte médica (e a política, a polícia, as artes, a justiça, etc.) mudará quando quisermos que ela mude. O médico é arrogante “por demanda“, porque assim o determinamos. O professor ganha pouco e o Ronaldinho milhões porque nossa neurose coletiva e nosso desprezo pela educação assim o determinam. Culpar médicos ou políticos pelo quadro deficiente de nossa medicina ou política é tolice e perda de tempo. A culpa é toda nossa, enquanto sociedade.

Quantas vezes já escutamos alguém despudoradamente dizer: “O presidente X foi péssimo porque enquanto esteve na presidência nossa categoria não recebeu aumentos“. Isto é: um presidente é bom ou ruim se a pessoa teve benefícios PESSOAIS com seu governo, e não se o país como um todo evoluiu e/ou se desenvolveu. Nossa avaliação continua sendo ego centrada, umbiguista. Com a medicina a mesma coisa: criticamos os médicos mas não nos esforçamos para ver qual a parte que nos cabe nesse transformação. A mudança na atenção médica – em especial na assistência ao parto – ocorrerá quando as forças sociais que desejam mudança suplantarem a inércia e colocarem-se em luta por reais modificações.

Enquanto isso não ocorre continuaremos a escutar lamúrias esparsas, que mais refletem nossa incapacidade de mobilização do que um verdadeiro desejo de mudar.

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Porta

Porta

A porta só se abre pelo lado de dentro, e esse é o grande ensinamento que a gente precisa aprender: nossas ideias devem ser expostas, jamais impostas. O crescimento pessoal é uma tarefa solitária e custosa, e as pressões externas apenas podem produzir fingimentos, dissimulações e falsidades, que levam o sujeito a uma vivência neurótica e irreal. As religiões “espetaculosas” são pródigas em produzir estes fenômenos, que variam da “cura gay” até excessos de veneração. A reforma íntima, lenta e pedregosa, é o único caminho confiável de transformação. Da mesma forma a democracia, com seus problemas e sua natural morosidade, é a única maneira de produzir mudanças sociais sólidas e consistentes, e as ditaduras serão sempre um engodo sedutor.

O empoderamento no parto não é necessariamente a consequência de um parto humanizado, mas a capacidade de apreender os ensinamentos que qualquer nascimento pode oferecer. Muitas pessoas acordam para a necessidade de mudar o panorama da assistência ao parto depois de assistências violentas, cruéis e humilhantes. Isso também é empoderar-se. Sheila Kitzinger costumava dizer que um parto era válido (na perspectiva feminina) quando a mulher podia olhar para trás e ver um caminho de crescimento e consciência, e essa é uma verdade que pode sobressair de qualquer nascimento.

Infelizmente mesmo os partos mais bonitos e transcendentes não conseguem produzir estas modificações, pois não são os elementos externos que comandam esta evolução, e sim a capacidade do sujeito de captar e processar as mensagens a ele enviadas. Ali nossa tarefa termina: oferecer as condições para que as imagens, sons, conceitos e palavras possam produzir a sua ação dentro do sujeito. Mas nesta tarefa, só ele poderá agir. A nós cabe apenas a função de catalisadores…

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Baratinhas


Baratinhas

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Vai rolar uma nota de repúdio pelas expressões (descontextualizadas) que usei sobre as doulas, chamando-as de “biscateiras da Deusa” e “baratinhas” cuja presença denuncia as fissuras no assoalho da assistência ao parto. A metáfora das “baratinhas”  foi usada por duas características: por elas serem pequenas diante do gigantismo de uma corporação e por elas serem a demonstração tácita de que existe “algo de sujo no reino da obstetrícia“. E enquanto uma nota de repúdio sai – escrita por inimigas declaradas, as doulas do mal – eu continuo no hospital, atendendo orgulhosamente com uma doula, da mesma forma como faço há 16 anos, e muito feliz.

Mas pensem bem. Se eu as tivesse chamado de “anjos” seria criticado por não “humanizá-las”; se as chamasse de “maravilhosas” estaria essencializando e/ou bajulando. Se chamasse de “guerreiras” estaria reforçando o estereótipo de belicosas. Caso as chamasse de “doces” estaria tratando como submissas. Quando alguém é inimigo declarado, a ponto de vigiar cada frase escrita, nada que se diga será interpretado de forma positiva. Sem simpatia, ou mesmo respeito, que diferença faz a metáfora usada?

Quando suas mágoas pessoais sobrepujam os seus sonhos e ideais há que se questionar se sua ligação com estas propostas é o que realmente lhe mobiliza, ou apenas mais uma forma de tratar uma ferida que teima em arder.

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Trevas da Consciência Nacional

Brasil, Brasília, DF, 02/03/2015. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ)convoca reunião com a Mesa Diretora para rever a cota de passagens aéreas para cônjuges de parlamentares. "Reconheço que a repercussão foi muito negativa", afirmou o peemedebista. O benefício foi aprovado na reunião da Mesa Diretora no dia 25 de fevereiro. - Crédito:DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Código imagem:180989

Uma coisa fica clara: quando o desejo é maior do que os fatos a nossa mente troca a realidade para que ela se adapte ao que desejamos. Isso vale para os simples mortais em seu ofício diário tanto quanto para as grandes personalidades.

De tanto querermos acreditar que o Zé Dirceu era culpado que ele foi para a cadeia sem provas, fato esse assumido pelos próprios ministro do supremo. As manobras jurídicas e filosóficas para isso são até cômicas, não fossem uma tragédia para a justiça do Brasil.

Da mesma forma Lula e Dilma foram bombardeados por muitos anos com todo tipo de golpismo e insinuações. Quando Lula não parecia alcançável o alvo era seu filho, transformado em dono de fazendas, jatinhos, empresas (Friboi) e tantas outras. Nada foi provado contra nenhum deles em anos de investigação. NADA. Nenhuma ligação telefônica, cheque, recado, conta em Cayman, conta na Suíça, Fiat Elba ou reforma nos jardins. Porque então tanta perseguição?

Mesmo assim são os “petralhas“, corruptos, Luladrão, Dilmanta e tantas outras acusações. Hoje somos “surpreendidos” pela evidência de contas na Suíça do presidente da câmara, mas o “ruidoso silêncio das panelas” se escutou por todo o país. Onde estão as capas das revistas, as manchetes garrafais, a indignação do povo nas ruas?

Não. .. não era contra contra o roubo ou contra a corrupção. Era contra quem representava o homem comum, o pobre, o favelado. Isso é que é insuportável. No futuro esse período da política com a emergência dos BBB – Bala, Boi e Bíblia – será tratado como as trevas da consciência nacional.

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Caminho das Doulas

Galeano

A inserção das doulas na atenção ao parto começou assim. Passos, lentos e graduais, em direção a um lugar que sequer sabíamos com precisão qual era. Aos poucos fomos criando, com sacrifício e cuidado, a ideia dos limites de atuação das doulas, assim como um espaço de reconhecimento da sua ocupação. No início ninguém sabia o que era exatamente isso, e sobre o doular havia duvidas e incertezas. Para muitos a gente tinha que explicar, mostrando os resultados das pesquisas e debatendo em termos de direitos reprodutivos e sexuais de gestantes. Trouxemos há 13 anos Debra Pascali para nos dizer o que o movimento nos Estados Unidos tinha a nos ensinar e a partir daí muitos grupos de formação de doulas surgiram. As doulas capacitadas se multiplicaram, mudando a face da assistência ao parto, em especial na classe média.

Para cada conquista (leis municipais de doulas, inserção em hospitais, doulas voluntárias, livros, entrevistas, matérias em jornal, etc) percebemos que mais um passo era dado para que as doulas fossem incorporadas na cultura, como personagens indissociáveis da atenção ao parto. Tínhamos fé na recriação do “Círculo de Apoio” que foi a marca ancestral da atenção ao nascimento nos milênios que nos antecederam.

Cada pequena conquista é importante e nos faz olhar para um utopia distante, mas que há poucos anos sequer imaginávamos. Hoje já podemos sonhar com a ideia de uma doula para toda a mulher que assim o desejar. Se o caminho é longo também é grande nossa persistência.

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Pra não dizer que não falei de flores

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Doula NÃO é uma profissão, e talvez nunca seja. Uma profissão envolve regras, modelos, controle externo, conselhos de classe, punições, etc… Não sei se a “fraternidade instrumentalizada”, no dizer de Max, se adaptaria a este tipo de regramento. Seria possível a profissão de “amigo”? Poderíamos fazer cursos para que a amizade fosse mais sólida, mais honesta, consistente? Podemos regrar a compaixão e o carinho? “Olha, recomendamos massagens na região lombar até cinco minutos, em séries de no máximo cinco insistências. As evidências nos dizem que…”. Não acho que a subjetividade de um parto possa se adaptar a este tipo de protocolo.

Bem, se a doula não é uma profissão, ela é o quê?

Ao meu ver a doula é uma FUNÇÃO, que pode ser exercida por muitas pessoas e por várias profissões. A mãe pode ser, a irmã, a cunhada e até o marido. Todos os grandes estudos internacionais que atestam a importância e a qualidade da assistência prestada por doulas foram feitos com pessoas que exerciam essa função sem nenhum preparo prévio além da sua ligação afetiva com a gestante.

Ok, mas o marido pode ser doula? Sim, até o marido. Entretanto, mesmo sabendo que ele “pode” exercer a função de doula eu sempre digo que não é justo com ELE pedir para que tome conta dessa tarefa. E isso ocorre porque os maridos também estão diante de um processo transformativo difícil e penoso que é tornar-se pai. Existe para eles uma tensão muito grande, junto com medo, apreensão e angústia. Pedir a eles que exerçam essa função pode ser desgastante e complexo. Em outras palavras, os maridos também precisam ser “doulados“, em muitas circunstâncias.

Se a doula é uma função ela pode ser exercida por qualquer pessoa que tenha o desejo de ajudar e que tenha consciência dos LIMITES de sua atuação. Mas é claro que os LIMITES são as questões mais tensas no debate sobre as doulas.

Entender limites é olhar através de uma descrição do que a doula não é, a partir do que ela NÃO faz.

Uma doula não é uma profissional de saúde. Ela NÃO realiza nenhuma ação de enfermagem ou médica.

NÃO verifica pressão,
NÃO avalia apresentação ou dilatação do colo uterino,

NÃO verifica batimentos do bebê,
NÃO mede a barriga da paciente,
NÃO avalia bem estar materno ou fetal,
NÃO atende parto; atende gestantes em suas necessidades emocionais e físicas.

É claro também que uma médica obstetra, uma obstetriz ou uma enfermeira podem exercer o papel de doulas. Entretanto, se elas estiverem nessa função OUTRA PESSOA deverá estar ocupada com a assistência ao parto, sob pena de sobrecarregar a(o) profissional que presta o atendimento. Uma das características mais importantes das doulas é a possibilidade de que os profissionais se ocupem exclusivamente da atenção técnica do parto, deixando as ações de relaxamento, tranquilização, alimentação, movimentação etc.. com as doulas.

Para além das doulas nós temos os profissionais que são regulamentados para a atenção ao parto: médicos obstetras, médicos de família, enfermeiras e obstetrizes. São os “skilled attendants” que tanto exaltamos. As funções deles são razoavelmente claras: somente os médicos podem atender desvios da normalidade, as patologias e as cirurgias, e aos enfermeiros e obstetrizes cabe a atenção ao parto “eutócico”, sem anormalidades perceptíveis.

Doulas exercem uma função para a qual existem muitas técnicas no sentido de facilitar o bom posicionamento fetal, assim como acupressura, hidroterapia, massagem, ritmicidade etc, mas a excelência do seu trabalho está na transferência afetiva que ela pode oferecer às gestantes com a sua presença. Mesmo sem qualquer técnica ou qualidade especial a doula, ainda assim, terá uma grande ação para facilitar o trabalho de parto e o parto. As trocas emocionais que são produzidas pela presença da figura amorosa e carinhosa da doula são a chave para entender os resultados positivos da sua utilização. As técnicas, todas elas, vem como um valioso acréscimo.

Desta forma, não há porque confundir as ações das doulas com a de qualquer profissional da saúde na atenção ao parto. Doulas não fazem trabalho redundante e não tiram o lugar de ninguém. Elas vem se somar às equipes médicas e de enfermagem para que a paciente se sinta acolhida em TODAS as suas necessidades.

“Doulas são como flores de cactus brotando da aridez desértica da tecnocracia” (Max)

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Testosterona

Sei que sou odiado por isso, mas concordo com a visão crítica que Camille Paglia tem do feminismo contemporâneo. Sua visão ácida e contra hegemônica me atrai por oferecer um contraponto ao lugar comum da visão feminista corrente. Entretanto, existe um outro aspecto que considero importante, apesar de não ter sido tratado por ela nesta breve entrevista: a marginalização dos meninos na escola, prensados entre as dificuldades da formação da identidade masculina e uma educação feminina, gerenciada por mulheres e para meninas. Veja a entrevista em Entrevista com Camille Paglia – “As Mulheres Venceram”

Quem é homem, e sobreviveu à escola, sabe que nossas válvulas de escape eram as aulas de educação física, os combates épicos no futebol de “areião“, os gracejos desafiadores nas aulas, as brigas “na saída” e a baderna. O resto era o estímulo incessante a um comportamento feminino, dócil, cooperativo, educado e submisso aos poderes e autoridades. Não se constrói uma sociedade que almeja mudanças colocando estes valores acima de todos os outros. Existe algo da insaciabilidade testosterônica que falta na educação tradicional. Há uma falha em reconhecer e trabalhar com a impetuosidade desafiante dos meninos, o que gera ressentimentos e inconformidades.

Se o seu filho nunca causou confusão na escola talvez você precise saber qual a razão de tanto conformismo.

A escola sempre ofereceu uma educação de mulheres e para meninas. E sempre foi machista. Portanto, dizer que a escola é “machista” e é para “mfundaseninas” é um falso dilema. Se as mulheres são oprimidas por uma educação machista (e o são, aparte da proteção que também recebem) isso não invalida que essa educação é para elas, levada a cabo por mulheres em sua imensa maioria, e que desconsidera as características masculinas. O mundo não se explica apenas pela ótica da opressão feminina.

Esse modelo obstruir EM ESPECIAL a natural inserção testosterônica masculina, emasculando a sua força criativa.

A escola oferece uma educação em que os valores da feminilidade são exaltados e os da masculinidade reprimidos. É isso apenas o que digo, e nesse ponto estou de pleno acordo com a autora. Quem é MAIS prejudicado não é objeto da minha análise. A escola sofre as mesmas constrições do patriarcado como qualquer outra instituição humana, mas é – ao contrário de outras como a Igreja ou a medicina – supressora das características masculinas. E os meninos se ressentem por não terem uma educação que auxilie na resolução de seus conflitos e que não os valorize pelo que são. Não é à toa que a evasão escolar é MUITO maior entre meninos do que entre meninas. Eles vão “procurar a sua turma”.

Camille Paglia fala de masculino e feminino. Fala da cultura gay também. Essas generalizações são didáticas e procedem. Quando se diz que a competitividade é mais masculina também generaliza, mas está correta. A educação, insisto, é demasiado feminina e não precisava ser assim. Vale a pena comentar este ponto em particular das ideias de Camille porque acho que ela está correta. O isolamento feminino que ela aponta – pelo desaparecimento dos grupos de mães nas tribos e comunidades – é ainda mais marcado e cruel no parto e maternagem. O círculo de apoio feminino que as mulheres sempre receberam terminou com a “emancipação” feminina. Agora é “cada uma por si mesma”. As tarefas tradicionalmente femininas ficaram ainda mais pesadas, como gestar, parir, amamentar e maternar.

Os meninos são vítimas de um modelo que tem a educação feminina como paradigma. E também concordo que a performance superior das meninas na escola é uma “vitória de Pirro“, pois não se traduziu até agora em uma equalização nas relações de gênero. Ainda há muita coisa a ser feita nesse sentido.

Quanto a “ajudar” nas tarefas domésticas… ora, sejamos maleáveis. Estas foras as funções tradicionais das mulheres até duas gerações atrás. A ideia de dividi-las é muito recente. Entretanto, nada ouço sobre a divisão de tarefa dos lixeiros, operadores de britadeira, estiva, mergulhadores de profundidade e frente de combate. Se vamos exigir equidade, é para todos os lados. O que Camille salienta é que as mulheres venceram neste aspecto ideológico, mas é fácil perceber que o mundo ainda é regido pelo patriarcado, mesmo cambaleante e decadente. É disso que o texto dela trata, e não da necessidade de proteger as mulheres contra a violência.

Os homens querem mais participação das mulheres nas tarefas que matam milhares de homens todos os dias, como a polícia e o exército. É muito pesado para eles. Trocamos tal peso pela limpeza da louça suja e pela arrumação da casa. Para debater a questão dos valores do masculino e do feminino você precisa concordar com a existência de valores culturalmente associados ao feminino. Caso contrário o debate torna-se estéril. Cooperação, docilidade, aceitação, afetividade em contraposição à competição, disputa, imposição, firmeza e luta.

As mulheres nascem nesta posição delicada no jogo de poderes porque ficam gravidas e frágeis. Só agora é que podemos igualar isso, através da tecnologia. O Velho Testamento, em especial, marca o surgimento teológico do Patriarcado. Entendam que isso está escrito na Bíblia para marcar uma sociedade com a “virtude varonil“. Podemos achar errado ou estranho tais conceitos hoje, mas há 5 mil anos os povos que assim se organizaram – através da força inegável do patriarcado – foram os vencedores, e foram esses povos que geraram mulheres de quem VOCÊ MESMA é descendente. Os povos mais igualitários, foram TODOS dizimados ou subjugados.

O patriarcado era uma necessidade vital para um mundo que acabava de ser apresentado à posse e ao sedentarismo. Suas descendentes que viviam naquela época JAMAIS aceitariam um mundo IGUAL !!!!! Elas precisavam de filhos e maridos fortes para protegê-las para que, assim seguras, pudessem parir seus filhos. Não há nenhuma superioridade moral em não fazer guerras. Se isso fosse verdade os paraplégicos seriam moralmente superiores, pois nunca vi um assaltando bancos ou matando gente. Ora… no mundo em ebulição na virada do neolítico era fundamental esta divisão de tarefas para garantir a posse da terra. Achar que a Bíblia desejava “oprimir” as mulheres por pura misoginia não encontra respaldo na ciência. A misoginia é a consequência de um mundo que precisa ser regido pela FORÇA, e não pela graça, charme ou beleza.

Com este tipo de entendimento mais abrangente do sistema de poderes sociais fica claro entender que as mulheres não nascem submissas, e nem os homens opressores. Elas nascem mais frágeis por causa do ciclo gravido-puerperal, e ISSO (e não a maldade dos seus maridos) as torna mais suscetíveis às ameaças. Todavia, como são importantes matrizes, as sociedades sempre as protegeram. O patriarcado se organizou nesse sentido: manter a terra e proteger as mulheres. A opressão é a consequência disso, e não sua origem. Mais uma vez convido a todos que se interessam pelo tema a ler os últimos achados antropológicos que confirmam esta ordenação clara sobre os modelos patriarcais, inclusive no que diz respeito às culturas primitivas pré-agriculturais, que não eram opressoras mesmo na vigência da superioridade física dos homens.

E você sabe por quê? Porque os homens amam suas mulheres e são amados por elas. É por isso que o patriarcado vai acabar, pelo amor que eles sentem uns pelos outros. De nada vai adiantar o discurso de ódio contra os homens, e nem a misoginia violenta e degradante: a natureza é sábia e vai equalizar a sociedade baseando-se nesse princípio de desejo e amor.

O que me deixa triste é ver que as agressões contra as mulheres recebem o justo e firme combate da sociedade, mas o ódio aos homens e o desprezo pelos valores masculinos – explícito ou implícito – é considerado normal e mesmo exaltado como algo positivo e construtivo. Ódio não constrói nada, mas quando é que vamos incorporar essa verdade na nossa prática?

Falsa Simetria” é um mantra feminista. Ele equivale ao “holocaust card” que eu falei anteriormente. Quando se reclama que Israel mata, despedaça e humilha covardemente os palestinos, imediatamente um oportunista aparece com a “cartinha do holocausto” e coloca na mesa, imaginando ter em mãos as cartas definitivas que terminam qualquer debate. “Mas como queres falar de massacre contra mulheres, crianças, escolas e hospitais na Palestina, se os judeus foram massacrados na segunda guerra mundial em mais de 6 milhões. Isso é uma falsa simetria. Essas mortes em Gaza não são NADA comparadas ao que sofremos”. Com esse discurso QUALQUER arbítrio, assassinato e barbárie fica automaticamente justificado e perdoado.

Algumas feministas sempre usam esta retórica vitimista (mas que lucra com sua posição sofredora) para justificar o ódio e o preconceito contra o masculino e os homens, usando o fato (verdadeiro e digno de ser combatido ao extremo) de que muitas mulheres são discriminadas, mortas, abusadas e sofrem preconceito. Usam esse fato horroroso não para angariar simpatizantes – inclusive os poucos homens verdadeiramente dispostos a combater as amarras do patriarcado – e combatê-lo, mas para JUSTIFICAR os SEUS PRECONCEITOS (contra os homens serem doulas, contra homens terem guarda compartilhada, para exercer a nojenta alienação parental, etc…) dizendo que “isso é mimimi de macho, quem sofre mesmo somos nós”.

No campo do trabalho existem tarefas MORTAIS (o que faz com que a expectativa de vida dos homens seja MUITO menor do que a das mulheres em, qualquer lugar do mundo) que historicamente os homens realizaram, mas que as mulheres ainda continuam achando que “é natural que eles carreguem esse peso, afinal, eles são homens“. Quando uma mulher diz para o marido ir ver “que barulho foi esse na garagem“, isso é natural, afinal nesse EXATO momento (de perigo) ele é (oportunisticamente) o “homem da casa“. Mas experimente ver um marido dizer para uma mulher ir lavar a louça, afinal, essa é a “tarefa da mulher da casa“….

Ah, é mimimi de macho, não é? Mas… se as  verdadeiras defensoras da igualdade  de gênero (ou da equidade, se preferir) deveriam combater os preconceitos em TODAS as frentes, e não apenas naquelas que lhes oferecem vantagens.

Por último, eu acho que o diferencial biológico feminino torna as mulheres psicologicamente e culturalmente distintas dos homens, pois cultuam valores e modelos diferentes na tradução do mundo. Como dizia meu colega Max, “Carregar um filho no ventre não é uma tarefa impune“. Há um preço a pagar (e isso nada tem a ver com tarefas domésticas) e uma consequência: o surgimento da dor, da angústia e do amor.

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Slow Medicine

Marco Bobbio

Faz algumas semanas eu publiquei uma série de mensagens sobre um autor que eu havia recentemente conhecido chamado Marco Bobbio e que liderava em seu país, a Itália, uma campanha semelhante a um movimento que existe nos Estados Unidos chamado “Choosing Wisely” que tem como mote principal a ideia de que “Fazer mais não é fazer melhor“. A proposta, que agora percebo se espalhar pelo mundo todo, é a “suavização” da prática médica diminuindo os exames, pesquisas e procedimentos em todas as áreas que não se mostram positivos e que podem inclusive induzir ao erro ou produzir dano.

Por uma coincidência maravilhosa o professor Bobbio esteve palestrando hoje ao anoitecer para um seleto grupo de não mais de 15 pessoas no hospital que eu atendo. Depois de uma maratona de 3 partos e mais de 24 horas sem dormir, fazendo “plantão” no hospital, ainda tive energias para escutar as suas palavras.

O que eu mais senti na palestra do Dr Marco Bobbio, além da necessidade urgente de modificar o modelo de atenção à saúde no mundo inteiro, foi a importância que ele – um cardiologista – percebe na atenção ao parto como um dos exemplos mais gritantes do uso excessivo de exames, diagnósticos e tratamentos. Ficou claro que o parto – pelas questões de gênero envolvidas – é um dos campos da medicina mais evidentemente afetado pela tecnocracia. Por outro lado, outro sentimento se apossou de mim. Eu senti um orgulho muito grande do movimento de Humanização do Nascimento no Brasil que faz “slow medicine” (termo que está sendo difundido para uma medicina “low tech – high touch”) há décadas através dos nossos movimentos sociais. Entretanto, entre o discurso histórico da ReHuNa e os propagadores da “Choosing Wisely” existem diferenças marcantes e que são muito evidentes quando se observa a origem, percurso e visão de futuro que cada uma dessas proposta carrega e divulga.

O que se percebe no modelo proposto pelo Dr Marco Bobbio é que o “Choosing Wisely” americano ou a sua vertente italiana “Fazer mais não é fazer melhor” é que ainda são propostas medicamente centradas, iatrocêntricas e que ainda se baseiam em um modelo autoritário mesmo quando a proposta é produzir uma “horizontalização” da atenção. Muito se fala em MBE – Medicina Baseada em Evidências – como condutora principal das ações, mas ainda não é tão marcante a ênfase sobre os paradigmas, as mitologias contemporâneas (como a transcendência tecnológica) a pressão econômica e a violência das grandes corporações farmacêuticas como condutoras de ações na área da medicina. As ideias desses movimentos até abrangem a “medicina defensiva”, e o medo dos processos como propostas de hipermedicalização, mas não tangenciam de forma marcante e clara as outras forças sociais que impulsionam os tratamentos e a diagnose para um caminho diverso da excelência.

O que nós no Brasil temos como grande virtude é que a Humanização do Nascimento, durante os últimos anos, nunca se deixou engolir por um discurso positivista, medicalizado e organicista. Pelo contrário: a Humanização do Nascimento iniciou como um movimento social e até hoje se mantém assim. Este discurso jamais foi cooptado pela Medicina, nem por outros ramos do saber, até porque é da sua origem entender que as verdadeiras mudanças só podem ocorrer pela base, e não por deliberações determinadas por notáveis profissionais da saúde, portadores de verdades inquestionáveis. A característica única e marcante das nossas pautas – que mescla a Saúde Baseada em Provas com a ideia de um movimento social de consumidores, parceiros(as), gestantes, psicólogas, médicos(as), enfermeiras(os) etc – é o que nos oferece singularidade e força.

Tive uma breve oportunidade de conversar com o Dr Marco Bobbio após a sua brilhante exposição, e pude lhe dizer da satisfação de ver este movimento crescer no mundo inteiro. É fundamental observar o momento de crise – ética, profissional, econômica – da Medicina para elevar a sua qualidade. Falei-lhe por poucos minutos da ReHuNa e seu compromisso com partos humanizados e recebi dele a chancela de que estamos no caminho correto. Disse-lhe ainda: “Sem que procuremos uma mudança paradigmática profunda na sociedade, este movimento não irá a lugar algum. O abuso de procedimentos não é uma crise médica, é uma crise da sociedade capitalista, e é sobre ela que devemos agir de forma mais intensa e decisiva“.

O professor concordou com minhas palavras, apertou fortemente minha mão, e sorriu…

Arrivederci maestro!!!“, disse eu. Um dia para ficar na memória.

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