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Política, para que política?

Quando digo que parto humanizado é uma questão política muitos torcem o nariz e dizem que esta proposta será vitoriosa pela avalanche de evidências científicas confirmando nossas teses sobre a autonomia e a visão transdisciplinar desse evento. Essa teleologia me parece tola. Eu acho que acreditar na ciência como guia das ações humanas é basicamente uma postura…. anti científica.

Minha resposta a este positivismo ingênuo é mostrando que as episiotomias – cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental – possuem evidências que comprovam sua ineficiência quando usadas de rotina há mais de 30 anos. Três décadas de provas contundentes, e mesmo assim continua sendo praticada no mundo inteiro. Por este exemplo simplório fica fácil entender que a verdade dos fatos não é suficiente para nos afastar de um preconceito, em especial quando ele nos beneficia.

A homossexualidade deixou de ser considerada doença há poucas décadas, e sua saída do DSM foi celebrada por muitos. Por acaso alguma evidência científica nos mostrou esse erro? Qual o exame clínico deixou clara a inexistência do “homossexualismo”? Ou foram as pressões políticas nesse sentido que produziram a mudança? Vou além: qual a evidência científica seria necessária para liberar o aborto ou para uma aceitação mais científica do parto extra-hospitalar?

A superioridade comprovada – em termos de morbimortalidade materna e neonatal – do parto normal sobre a cesariana é conhecida de todos os profissionais do nascimento. Todavia, a taxa de cesarianas na classe média brasileira é da ordem de 85%, exatamente no segmento mais esclarecido da população. As evidências e provas não produzem nenhuma pressão no sentido de diminuir este abuso.

Ora… nenhuma evidência será suficiente para quem se nega a aceitar as mudanças que ela propõe. Por acaso Galileu foi perseguido por ter poucas provas de suas ideias ou, ao contrário, por tê-las em demasia – o que obrigaria a uma mudança radical no paradigma medieval geocêntrico?

Assim, apesar de reconhecer a importância das pesquisas eu percebo que elas são o SUPORTE das mudanças sociais, a base para produzir sedimentação, mas jamais sua ponta de lança. Para que estas modificações ocorram, é necessário uma ação política coordenada, para assim produzir transformações significativas e duradouras. Por outro lado, esta ação só vai ocorrer quando existir adequado amadurecimento de conceitos e propostas.

Parir é um ato político.
Sexo é um gesto político
Nascer, viver, amar e morrer … também.

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A los que Luchan

O sistema de patrulha que existe hoje em dia, mormente nas redes sociais, impede (ou dificulta) que as pessoas se posicionem de forma contra hegemônica em alguns temas sensíveis. Isso produz uma espécie de duplicidade retórica, onde o sujeito guarda suas crenças pessoais, porém sua opinião expressa é uma “mentira pública”. Nesse modelo o sujeito diz para você em uma conversa privada: “Sim, eu concordo com você, mas é óbvio que eu não podia falar isso publicamente, pois você conhece aquele pessoal: eles fariam pedacinhos de mim”.

Mais curioso ainda é quando algumas pessoas ficam tão conectadas com essa sua face pública que passam a tratá-la como verdade, mesmo que no íntimo saibam que se trata de algo contrário às suas crenças mais íntimas e mais profundas. Chegam a defender ardentemente algo que discordam e até mesmo desprezam, como os sofistas, tendo como pagamento a aprovação das pessoas que encontram em suas palavras aconchego e esperança. Mentem descaradamente por terem se viciado na aprovação da qual, por fim, se tornam dependentes. As vezes, ao testemunhar as manifestações emocionadas e veementes de alguns sujeitos, fico pensando: “Será mesmo que essa pessoa acredita no que afirma? Ou estará ela apenas aceitando a submissão a um ordenamento social que, caso rompesse, sabe de antemão que não suportaria?”

Muito dessa relação dissimulada com seus próprios valores eu vi na política, nos partidos e nas amizades, mas também no trabalho com o parto humanizado. Testemunhei dezenas de colegas que se aproximaram de mim em inúmeras ocasiões dizendo: “Acho que o que você está fazendo é correto. Não há como aceitar a barbárie imposta à mulheres no momento do parto e nascimento. Eu concordo com sua perspectiva, mas você há de entender a minha situação”. A partir daí falavam das pressões dos colegas, das dificuldades locais, das chefias médicas, do diretor do hospital, da família e da fé pública que tanto prezavam, e que é, em verdade, o maior patrimônio de qualquer profissional. “Eu realmente gostaria de trabalhar guiado por tais perspectivas, mas veja…. não há como”. E como se poderia culpar alguém que percebe o tamanho do gigante que lhe faz sombra? Nem todos tem vocação para Davi, e muito menos para Kamikaze. É compreensível que as pessoas queiram exercer seu ofício sem ameaças, sem violências, sem perseguições e sem ter uma espada apontada diuturnamente contra seu peito.

Em tempos de linchamento virtual, em especial pelos guardiões do politicamente correto, é compreensível que alguns se calem e contem suas verdades apenas entre devaneios – ou no obscuro cenário das alcovas. Entretanto, como diria Bertold Brecht, há que reverenciar aqueles que diante das balas no Pelotão de Fuzilamento das redes sociais abrem a camisa e gritam: “Que venham as balas, pois minha integridade e consciência são superiores à própria vida”.

À “los que luchan”, minha reverência…

Hay hombres que luchan un dia y son buenos;
Hay otros que luchan un año y son mejores;
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos;
Pero hay los que luchan toda la vida,
Esos son los imprescindibles.
(Bertold Brecht)

Abaixo, Mercedes Sosa declamando esta estrofe de Brech na música Sueño con Serpientes de Silvio Rodriguez

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Medicina e Socialismo

Muitos médicos fazem da prática da medicina toda a sua vida, pois é dela que extraem seu valor social, seu significado e sua importância. Ter essa conexão com a profissão não é exatamente errado, mas é perigoso. Em primeiro lugar porque somos muito mais do que a profissão que abraçamos. Somos uma potencialidade infinita de funções e modos de ser. Somos pais, avós, filhos, escritores, marceneiros, empresários, cantores em potencial e ater-se apenas a uma forma de expressão pode impor uma limitação desnecessária a qualquer um de nós.

Muitas mulheres – e até homens – colocaram na sua relação amorosa todo o valor de sua existência. Como Florbela Espanca, dizem “tu não és sequer a razão do meu viver, pois que já és toda minha vida”. Alguns profissionais fazem o mesmo, e alienam sua existência a um ofício. Em medicina isso é muito comum. Todavia, creio ser importante criar outras formas de ser relevante e sentir-se produtivo. Ou, como diriam os apostadores, não devemos colocar todas as fichas (da nossa paixão) no mesmo número.

Em segundo lugar, a Medicina tanto abriga quanto oprime. Ela é uma mãe poderosa, amorosa e benevolente, porém possessiva e vingativa. Ao mesmo tempo em que lhe oferece um poder desmedido, valor social e dinheiro ela lhe cobra fidelidade. Para a imensa maioria de seus filhos essa fidelidade é oferecida sem queixas. Afinal, quem reclamaria do preço a pagar diante de produto tão valioso? Existem, entretanto, aqueles a quem sua fidelidade está direcionada a valores outros, como uma mente livre e sem amarras. Para estes a conexão à medicina e seus postulados só terá sentido se não afetar outros aspectos da vida, como a equidade, a justiça, os direitos humanos e a liberdade do sujeito de fazer suas próprias escolhas.

É nesse momento que os choques podem ocorrer. No caso da Medicina, a expressão da arte médica se faz no espaço que se forma entre a justa ação de proteção dos pacientes e a apropriação indébita da autonomia destes pelo jugo imposto pelo capitalismo. É nessa zona esfumaçada e incerta que operam os profissionais. Para a maioria, os abusos sobre a autonomia dos doentes são um preço baixo que eles devem pagar para a sua prometida segurança. Para outros, liberdade é a meta última, e qualquer ação que destrua a autonomia alheia será criminosa.

Uma mente inquieta sofrerá a inevitável dor e padecerá da angústia, do sofrimento e viverá em conflito quando estiver diante desse “imperativo de consciência”. Calar-se e acovardar-se diante da injustiça produz doença e martírio moral. Lutar causará dor, feridas, ressentimento e tristezas profundas. Consciência e postura ética cobram um preço deveras alto. Para alguns o embate será inexorável e muitos sabem que essa luta poderá não trazer qualquer resultado além do próprio sacrifício pessoal. Nesse aspecto a luta política pela conquista do socialismo emparelha seu caminho com a luta por uma medicina mais democrática. Não faz sentido que a luta pela saúde dos pacientes não incorpore a ideia de uma sociedade justa e igualitária. Imaginar que é possível tratar os sujeitos doentes sem se importar com as causas primeiras do adoecimento é fazer o jogo mórbido das indústrias que lucram com a doença e o martírio.

Baruch Espinoza, judeu sefardita holandês nascido em Amsterdã, resolveu fazer críticas à dogmas cristãos e à própria Bíblia que foram consideradas pesadas e inadequadas pela oficialidade da comunidade judaica, por agredir elementos essenciais do cristianismo. Estes rabinos, com razão, temiam que suas posições deixassem em risco os judeus que foram recebidos na Holanda após sua expulsão de Portugal pela inquisição portuguesa.

Apesar das pressões, Espinoza não se retratou, por fidelidade à sua consciência e pelo valor que dava à sua liberdade de expressão. Foi humilhado, excomungado e expulso de sua comunidade, vindo a se refugiar em um sótão para trabalhar como relojoeiro até o final de sua vida. Ele é, para mim, o maior exemplo de integridade e respeito a si mesmo. Muitos médicos que conheci – como vários colegas do Brasil e do exterior – seguem esse padrão ético e pessoal. Muitos deles tem marcas na alma das lutas incessantes contra um sistema cruel cujo respeito à autonomia dos pacientes não ocupa o lugar central que deveria ter na ação terapêutica. Para estes minha reverência e meu respeito.

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Informações perigosas

Minha tese a respeito das investigações é simples, e tem a ver com os estados psíquicos induzidos pelas informações. Para mim, a comunicação – em especial tudo o que dizemos aos pacientes – também contém riscos. Uma informação inútil pode se tornar algo extremamente perigoso. Por exemplo: quantas vezes atendi partos em que a única avaliação do tamanho do bebê havia ocorrido pela palpação, ou por uma ecografia bem precoce. No dia do parto… tóóóóin, nascia um bebezão de 4.400g. Pois eu pergunto: como se comportariam TODAS as pessoas envolvidas no parto – incluindo mãe, família e equipe – na presença de uma ecografia apontando um bebê de 4800g (imaginando que a ultrassonografia erre por 10%)? Que tipo de resiliência a uma parada de progressão haveria no transcurso do trabalho de parto? Que tipo de paciência haveria diante de um período expulsivo prolongado? Quanto sobraria de confiança a esta mulher e seu companheiro diante da sentença “fatídica” de um bebê “enorme”?

Pois agora respondam o que aconteceria a uma mulher cujas mamas foram “avaliadas” pela sua possível capacidade (ou não) de produzir leite ANTES de estar efetivamente amamentando. Que mulher investiria na continuidade da amamentação diante de uma avaliação “preocupante”? Quem insistiria em um projeto de amamentar com um rótulo grudado no peito dizendo “mamas incompetentes”? Quem se manteria firme ao ver surgir a primeira fissura ou ao ver que seu bebê que não entra na curva de crescimento da pediatra?

Façam o seguinte: avaliem meninos de 15 anos de idade para saber seu o pênis deles vai funcionar adequadamente quando tiverem relações sexuais. Não precisa nem dar nota, basta olhar, examinar e depois coçar o queixo dizendo: “hum, não sei não. Acho que está bom, mas vamos ver”. O que acham que ocorreria?

Eu digo: uma explosão no diagnóstico de impotência. Ou… um aumento vertiginoso nas vendas de Viagra ou até mesmo de tratamentos para aumento de pênis. E talvez UM em 100.00 tivesse realmente um problema verdadeiro relacionado à sua capacidade de ter relações sexuais satisfatórias relacionada ao seu pênis. Desta forma, essas avaliações são semeaduras de insegurança, mas que nenhuma vantagem produzem.

No caso das mamas, se houver uma (raríssima) incapacidade de produzir leite, que diferença faz saber durante o pré-natal? O que esse diagnóstico presuntivo ajudaria esta mãe? O mesmo eu digo das ecografias invasivas e suas informações inúteis, que quase só disseminam pânico, e nenhum benefício. As vantagens para os profissionais e o sistema capitalista nós já sabemos, mas qual a vantagem para os pacientes?

Tetas erradas = bacias erradas. Fazer diagnóstico de ambas “de olhada” é um erro. E esse erro vai transmitir à mulher (mais) uma mensagem de sua longa lista de defectividades culturalmente determinadas. Também vai dar a ela uma excelente oportunidade para desistir na primeira dificuldade. “Afinal, não tenho mesmo passagem, ou minhas tetas são atrofiadas. Para que insistir?”

E mais… “Toda mãe sabe parir e todo bebê saber nascer”. Sim, mas nem todos sabem interpretar essa frase, porque parimos e nascemos antes de termos qualquer consciência disso. Portanto, parir e nascer são coisas que “sabemos” muito antes de termos condições de racionalmente “saber”.

As falhas não ocorrem por falta de “saber”, mas talvez pelo oposto: criar expectativas e racionalizar sobre um fato pulsional e automático, sobre o qual quanto menos a mulher racionalizar, melhor ocorrerá. Uma breve história: conheci um paciente de quase 70 anos no estágio de urologia da residência médica, o qual veio ao hospital para operar uma hipospádia. Isto é; a uretra saía no meio do pênis, para baixo, e não na ponta. Com isso ele urinava para o chão e tinha um pênis muito encurtado.

Enquanto fazíamos a avaliação pré-operatória, meu colega (ingênuo e desatento) lhe perguntou: “Por que o senhor não veio antes? Digo, há muitos anos mesmo. Poderíamos consertar isso e o senhor teria uma vida normal, com filhos e tudo”. Quando ouviu isso o “colono” acostumado com a lida da roça respondeu com o sotaque alemão característico e de forma rude:

“Filhos? Pois eu tenho 6, com 3 mulheres diferentes. E não estou pensando em parar”.

Se alguém tivesse lhe dito que não podia, ou que era insuficiente, talvez não fosse tão fértil. Oferecer ajuda é diferente de induzir anomalias onde ainda não existe nenhum problema real.

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A Sedução dos Atalhos

Na série de artigos que escrevi ultimamente sobre George Soros e a “benemerência colorida” era exatamente sobre essa perspectiva que eu me debruçava. Muitos de nós estamos tão fortemente aprisionados na perspectiva capitalista que sequer percebemos as armadilhas do realismo capitalista para a captura de consciências. Por isso eu vi com um certo horror a passividade com que grupos de assistência ao parto saudavam a intromissão da “Open Society” – uma organização internacional com tentáculos em todo o planeta e gerenciada pelo bilionário Soros – nas nossas organizações, e a justificativa dada era de que “Bem, não há como combater a perversidade desse sistema; assim, nada mais nos resta a não ser jogar a toalha. Porém, não custa nada aproveitar um pouquinho destes valores oferecidos para mitigar os efeitos devastadores do capitalismo na cultura, nos povos, nos trabalhadores e nas minorias“. É neste exato momento que nos iludimos com a ideia de que o auxílio às vítimas do capitalismo pode ser feito usando os próprios recursos dos capitalistas, sem perceber o quanto isso reforça seus pressupostos.

Não acredito na possibilidade de avançar em campos tão sensíveis como a assistência à saúde – em especial à assitência à mulher – sem uma ruptura com a lógica subjacente ao sistema capitalista, onde a saúde está vinculada ao lucro e ao incentivo das intervenções. Um sistema que lucra com a piora da qualidade de vida dos clientes/cidadãos tem uma estrutura perversa, que não pode perdurar. Aceitar que os grandes capitalistas financiem ONGs que atuem no Brasil é aceitar que influenciem na forma como essas questões são abordadas pela população. Esta interferência é deletéria e ameaça a soberania de qualquer país.

Como seria possível deixar que o capitalismo curasse as feridas que ele mesmo produz pela adoção de uma sociedade dividida em classes? De acordo com Fisher:

“… o realismo capitalista conquistou de tal modo o pensamento público que a ideia de anticapitalismo não mais atua como a antítese do capitalismo. Em vez disso, é implantado como um meio de reforçar o capitalismo. Isso é feito por meio da mídia que visa fornecer um meio seguro de consumir ideias anticapitalistas sem realmente desafiar o sistema. A falta de alternativas coerentes, conforme apresentadas através das lentes do realismo capitalista, leva muitos movimentos anticapitalistas a deixarem de visar o fim do capitalismo, mas em vez disso mitigar seus piores efeitos, muitas vezes por meio de atividades individuais baseadas no consumo.”

É fundamental entender que o capitalismo é um sistema que está fadado a falhar, pois não é possível crescimento infinito em uma realidade finita, e a exploração de uma classe sobre a grande maioria da população é moralmente inaceitável. Os modelos de benemerência criados por bilionários, como tentativa de mitigar o sofrimento que o sistema (que os beneficia) impõe, apenas atrasa a adoção de uma mudança profunda na estrutura social. As maquiagens na assistência à saúde da mulher, ao parto e nascimento, não vão solucionar os problemas nevrálgicos dessa sociedade, mesmo que pontualmente possam trazer benefícios para indivíduos “agraciados” por esta ajuda. Este é o clássico “mudar os rótulos para que a estrutura se mantenha intocada”.

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Outing

Eu vejo uma certa perversidade social que se expressa no tal de “outing”. Hoje, manter-se reservado quanto à sua (homos)sexualidade parece um ato de covardia e um elogio à mentira. Ao mesmo tempo que admiro as pessoas que bravamente assumem de forma pública e desabrida sua orientação sexual e – mais penoso ainda – sua identidade de gênero, não posso aceitar que estas declarações se transformem em imposições sociais que, muitas vezes, até agravam os casos de culpa e depressão, ao invés de liberarem o sujeito. Se eu creio que a vivência da sexualidade livre só pode ocorrer a partir de escolhas livres, a exposição de sua intimidade só poderia acontecer pela mesma via.

Quando vejo cobranças sobre a “transparência” dos gays (atores, atrizes, políticos e pessoas comuns) eu sempre imagino que aqueles que “oprimem pela obrigatoriedade” da exposição (mesmo se dizendo parceiros na luta) em verdade deixam claro que: “se você quer usufruir deste gozo, então pague a nós o preço de gozar onde nos é interditado”. A cobrança diz muito mais de quem cobra do que daquele de quem cobramos. A maioria dos gays e lésbicas que conheci queriam apenas curtir sua sexualidade sem constrangimentos, e não ser um “banner de arco-íris ambulante”. Ser reservado em relação à sua vida mais íntima é um direito pelo qual deveríamos todos lutar. Armário é um espaço que só deveria ser aberto por dentro… o resto é violência.

(A partir de uma provocação de Diana Hirsch)

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Alianças

Tenho pensado muito no significado destas instituições internacionais de “ajuda” como a “Fundação Bill & Melinda Gates” e a “Open Society” porque entendo o quanto a injeção de dinheiro do capitalismo transnacional pode ser sedutor para os empreendedores sociais – no Brasil e no mundo todo. Muitos desses grupos – alguns deles eu conheci de perto – precisam desesperadamente de verba para levar adiante seus projetos. Esses patrocínios são, muitas vezes, a diferença entre a existência ou não uma ação social, e por isso mesmo são tão disputados.

Mostrar-se contra o recebimento de dinheiro (tanto quanto comer sabão em barra) é apanágio dos loucos, insanos e desmiolados. Questionar uma quantia de grana que pode auxiliar uma obra social honesta e necessária parece um ato sem sentido. Não?

Nem sempre. Perguntem aos defensores amamentação se aceitariam o patrocínio da Nestlé para algum projeto de estímulo ao aleitamento materno. Perguntem aos grupos da ecologia se uma verba da Monsanto seria bem vinda para recuperação de uma floresta. Que dizer do financiamento de um conhecido contraventor para uma campanha de um político? Eu poderia citar vários outros exemplos de empresas e indivíduos cujas ações mostraram-se tão profundamente danosas à sociedade a ponto de ser natural negarmos qualquer conexão com elas, mesmo quando o oferecimento de recursos não pressupõe qualquer contrapartida objetiva ou explícita. A diferença neste caso está que nós sabemos quem são essas empresas e não permitimos que um benefício em curto prazo possa manchar nossa reputação em longo prazo, ou empoderar ainda mais esses gigantes capitalistas.

A analogia que me ocorre é que aceitar este auxílio se assemelha a subir ao palanque com o MBL e a direita comportada. Se na superfície pode parecer benéfico para um objetivo imediato – forçar a saída do presidente fascista – quando investigamos em profundidade percebemos que poderemos estar abrindo espaço para a direita golpista que, por sua vez, tentará “manter o Bolsonarismo sem Bolsonaro“, culminando com a proposição de um nome nas eleições ligado ao neoliberalismo predatório, mas com bons modos à mesa. Não esqueçam que essa direita que agora brada contra Bolsonaro foi a Ficha 1 nos golpes sucessivos contra a nossa democracia.

Ligar-se ao capital abutre das instituições liberais filantrópicas significa aceitar que o capitalismo internacional e concentrador de renda continue a controlar a forma como o terceiro setor atua no país. Afastar-se desse dinheiro é uma questão de princípios, de independência e de autonomia. Pode trazer dificuldades em curto prazo, mas oferece a consciência limpa na longa caminhada.

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Armas, Guerra, Germes e Soros

Eu participava de um grupo relacionado à minha área há muitos anos de forma bastante intensa, até o dia em que o nome de George Soros e sua “Open Society” – ou Sociedade Aberta, nome derivado de um livro do filósofo conservador Karl Popper – entrou em debate pelos colegas. A questão se relacionava à participação do grupo em uma licitação para receber um “grant”- um financiamento – da Open Society para dar conta de projetos ligados à Humanização do Nascimento. Minha postura, como seria de se esperar, foi evidentemente contrária à qualquer ligação da nossa instituição com George Soros. Argumentei que este cidadão era um representante do “capitalismo sem fronteiras”, e um conhecido financiador de rebeliões neoliberais, o que faz das suas doações a grupos identitários uma perfeita cortina de fumaça objetivando encobrir suas ações de reforço ao neoliberalismo transnacional e sem barreiras, modelo que tanto admira.

Imediatamente as pessoas do grupo se colocaram contra minha posição, tratando-a como radical e baseada apenas em preconceito. Afinal o senso comum o trata como um homem progressista, defensor da democracia liberal e da diversidade, dos trans, negros, gays, mulheres, etc. Que mal poderia haver em um bilionário de bom coração, interessado em distribuir o que ganhou para causas que reconhece válidas e importantes?

Por certo que estas ações mudaram a vida de algumas – ou muitas – pessoas, mas nada produzem de diferença na estrutura social, que se mantém intocada, permanecendo injusta, desequilibrada e perversa. A ação desses bilionários da “caridade identitária” é exatamente essa: fomentar a divisão da sociedade por identidades e separá-la em guetos distribuídos por etnia, orientação ou identidade sexual, gênero, etc. Muda-se a vida de poucos para que a estrutura que comanda a todos não se altere.

É exatamente esse tipo de perspectiva política o que faz com que um negro pobre e miserável perceba como inimigo um branco igualmente pobre, desviando a atenção do fato cristalino de que ambos são vítimas de um modelo social injusto e excludente que produz uma enorme massa de pobres (de todas as cores, gêneros e orientações sexuais) que é explorada por uma elite invisível de bilionários – como George Soros.

Não há como confiar num sujeito cuja riqueza depende da nossa miséria.

Minha posição firme, baseada na minha perspectiva marxista e anti imperialista, foi rechaçada violentamente pelo coordenador do grupo, sendo que até as referências que usei para sustentar minha tese (uma entrevista golpista de Soros se opondo à eleição de Lula em 2002 na Folha de SP) foram desconsideradas e tratadas como “fake news”.

O resultado foi o meu cancelamento sumário e a minha posterior saída do grupo. Não havia maturidade para um debate mais profundo sobre as raízes de nossa dependência e as armadilhas criadas pelo imperialismo para sequestrar nosso ativismo. Ok, vida que segue. Todavia, minha saída tem uma interpretação que pode ser bastante pedagógica.

O objetivo desses institutos internacionais neoliberais (Soros, Gates, Koch, etc.) é a divisão da sociedade em elementos artificiais (criados pela própria sociedade para a divisão do trabalho) como etnia, orientação sexual, gênero, etc., fazendo-nos esquecer elementos muito mais gritantes como as classes sociais que nos dividem pelo capitalismo. Portanto, servem para nos separar, pois unidos em torno das reivindicações de classe somos mais fortes e mais vigorosos no combate à iniquidade social.

Pois a divisão causada nesse grupo pela figura sinistra do bilionário Soros cumpriu exatamente essa função. Separou e desuniu e nos fez esquecer o que nos unia exaltando a artificialidade – a defesa da benemerência colorida – que nos diferenciava. Tristemente didático. Fez lembrar um filme “Proposta Indecente”, com Robert Redford. Na trama, a história de um dinheiro oferecido cuja ideia dissimulada e perversa era separar e desunir, desviando o olhar do fato de que havia amor para além das posses.

Agora ficamos chocados com as informações trazidas a nós através do Ministério de Defesa da Rússia de que várias entidades ucranianas, georgianas e estadunidenses estariam se preparando para a produção de armas químicas. Particularmente, segundo esta fonte militar, o funcionamento destas instalações estaria sendo financiado e controlado por uma gama de organizações americanas, entre as quais o Fundo de Investimento Rosemond Seneca, dirigido por Hunter Biden, filho do presidente americano, e o fundo administrado por George Soros. A subsecretária de Estado americana, Vitória Nuland, reconheceu a existência desses laboratórios, assim como Avril Haines, diretora de inteligência Nacional dos Estados Unidos, que também declarou a existência destas instalações, porém, ambas negaram que em tais laboratórios houvesse a produção de armas químicas.

É importante entender que, quanto mais se investigam as ramificações de poder destes bilionários, mais aparecem seus tentáculos produzindo a exploração e a miséria de povos subjugados. O mesmo George Soros que controla a “Open Society” tem conexões com entidades fascistas ligadas ao golpismo na Ucrânia. Como pode haver ainda alguma dúvida de que sua presença no Brasil deveria ser rechaçada pelo conjunto das forças de esquerda ou por qualquer instituição que deseja ser livre das imposições do capital predatório internacional? Por que aceitamos que um candidato que se posiciona à esquerda do espectro político nacional esteja ligado a instituições golpistas como o NED, a CIA e o próprio Soros?

A atitude marxista mais justa e coerente será sempre lutar pela soberania dos povos e pela ruptura dos laços de subserviência ao imperialismo. Qualquer união com golpistas, por mais inocente que possa parecer, será um passo na direção oposta.

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Véus

Na minha perspectiva ocidental Xador, Amira e Hijab são praticamente iguais, mas depois aprendi que o Xador cobre o corpo inteiro, e a Amira não permite aparecer nenhuma parte do cabelo. Já o Hijab permite que se veja um pouco do cabelo frontal. Existe diferenças no formato para além da cor apresentada na imagem acima. Entre os mais conservadores a Arábia Saudita wahabista e (minha surpresa) o Paquistão.

Nesses países muçulmanos apenas 4% das mulheres não usam véu – mas no Líbano metade das mulheres já não o usam. Quase metade usarão Amira, mas a burca (tão condenada por nossas bandas) não passa de 2% das mulheres, e mesmo na Arábia Saudita mal passa de 10% de uso. Entretanto, recheamos nossas críticas ao mundo islâmico com esses estereótipos que estão longe de mostrar a diversidade do Oriente.

Às vezes – guardadas as proporções – vejo críticas ao islã que partem de generalizações miseráveis. Quando dizem que nos países muçulmanos as “mulheres são obrigadas a usar burca” eu imediatamente imagino um iraquiano olhando uma foto do Rio Grande do Sul e comentando “Pobres brasileiros, obrigados a usar bombacha. Deve ser horrível vestir isso na floresta amazônica”.

What???

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Colonialismo, início do fim?

Tem gente que, em pleno século XXI, acha que a autonomia de uma nação é algo negociável e, embriagados pela campanha imperialista, não conseguem enxergar as tragédias e a barbárie causadas pelos invasores nas terras conquistadas. São os mesmos que condenavam, até pouco tempo, a libertação da Argélia, de Angola, de Moçambique, do Vietnã, da Índia e tantas outras colônias massacradas pelos colonizadores europeus. Diziam que, apesar do tratamento “duro” dado aos “nativos” nada é tão importante como a língua oferecida, as ferrovias e alguns bons modos à mesa.

As pessoas que nos acusam de ficarmos felizes com a expulsão dos americanos do Afeganistão pelo Talibã e que por isso somos “machistas” aceitariam ser chamados de “genocidas” por sua conivência com as mortes de meninas e mulheres durante a ocupação americana? Aceitam o rótulo de neocolonialistas? Aceitariam a pecha de “bandeirantes da América”? Aceitam o meio milhão de mortos em sua conta? Aqueles que nos acusam de sermos “autoritários” por apoiarmos um “ditador” como Putin, em sua luta contra as ameaças constantes à integridade da Rússia, deveriam entender que a influência norte-americana no leste da Europa se expressa como um gigantesca sombra de opressão e de domínio, onde as liberdades civis dos povos ameaçados será uma das primeiros pratos no banquete do imperialismo.

O biscoitismo – em especial partindo de figuras públicas da Academia – é um cacoete terrível de intelectuais que se aventuram nas redes sociais. É preciso agradar em primeiro lugar ao seu “eleitorado”, e só depois fazer algumas concessões à realidade. O salário indireto recebido por estes personagens são os “likes” e os elogios rasgados ao seu idealismo – o qual não suporta 10 minutos de mergulho na verdade dos fatos. Quem, entre as pessoas horrorizadas com a vitória do Talibã – um grupo de reacionários e fascistas de direita muito parecidos com os bolsonaristas no Brasil – ocorrida há poucos meses lembrou das 500 crianças mortas pelos bombardeios americanos nos últimos 5 anos de ocupação do Iraque? Por acaso é possível comparar a porcaria reacionária do Talibã com as milhares de crianças explodidas pelas bombas imperialistas?

Portanto, as recentes decisões do governo brasileiro e chinês de negociar diretamente entre si usando suas moedas nacionais sem a intermediação do dólar me parecem mais um graveto que irá fomentar a grande fogueira que nos livrará do Imperialismo. Diante do importância que os povos do mundo precisam colocar na libertação do domínio exercido pelo Império estas iniciativas precisam ser encaradas com a devida seriedade, e demonstram que existe real interesse do governo americano em construir uma estrutura global mais equilibrada e mais justa para as nações. Nada mais adequado que Brasil e China – pelas suas dimensões e importância geopolítica – estejam à frente desta luta.

Há apenas alguns poucos dias (29/3), ambos governos anunciaram a criação de uma “Clearing House” (ou Câmara de compensação), uma instituição bancária que permite que negócios e concessões de empréstimos sejam realizadas entre os dois países sem a utilização da moeda americana como forma de viabilizar os negócios de caráter transnacional. O Banco Industrial e Comercial da China (IBC), será a instituição bancária que vai operar a “clearing house” aqui no Brasil, permitindo que os empresários locais tenham a possibilidade de realizar negociações e até empréstimos em yuan (RMB) ,e não apenas em dólar, como é a regra que impera para estas transações até agora. A adoção dessas medidas aproxima o Brasil do seu maior parceiro comercial – a China – e faz uma demonstração inequívoca de que o Brasil se afasta do decadente imperialismo para uma tentativa de multipolaridade, onde as relação entre os países se dará de forma menos autoritária e impositiva.

Para aqueles que viam o governo Lula como um “agente do imperialismo” este foi um duro golpe de realidade. Some-se a isso as decisões de não subscrever a declaração final da “Cúpula da Democracia”, por não concordar com o foro onde este debate está sendo realizado “O entendimento do Brasil, no entanto, é de que a guerra da Ucrânia deve ser tratada em foros específicos para o tema, como a Organização das Nações Unidas”, diz o comunicado Em outra oportunidade o governo de Lula chegou a votar a favor de uma resolução da Assembleia Geral da ONU que repudiava a invasão russa, dando a entender para alguns analistas de que o governo do presidente Luiz Inácio estaria se postando ao lado dos interesses do Imperialismo. A clara inclinação em direção à China mostra o contrário, o que só pode ser saudado como uma ação positiva por todos os partidos de orientação marxista.

Esperamos que estas iniciativas sejam as primeiras de outras grandes propostas para o fortalecimento dos BRICS e do sul global.

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