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Boneca de Porcelana

O jovem cavalheiro adentrou a loja e pigarreou discretamente anunciando sua presença. Vestia-se de forma simples e discreta, porém demonstrava asseio e cuidado. Tinha o cabelo curto e bem apartado, e suas unhas eram cortadas bem curtas. Na cabeça, o indefectível chapéu “Fedora”, última moda na capital, um artefato que leva o nome da peça teatral de Victorien Sardou, com Sarah Bernhardt.

A jovem Irma captou sua chegada com o canto dos olhos e manteve-se arrumando as flores e as samambaias da floricultura, como se a entrada do rapaz fosse um fato trivial. Todavia, ela sabia que a sua presença significava mais do que uma simples visita. Arrumou-se discretamente, mas manteve o olhar distante. Sabia o que sua entrada trazia e sabia também que hoje era o dia para definir o futuro desses encontros.

Ele passeava com os olhos pelo multicolorido das flores e as vezes acariciava com a ponta dos dedos as orquídeas, os jasmins, as rosas, as camélias, begônias, orquídeas, bromélias, ninfeias, ciclames, grevíleas, prímulas e os chefleur que se misturavam nas prateleiras. Dissimulava um vivo interesse, mas tanto ele quanto Irma sabiam se tratar de uma falsa curiosidade pelo mundo da botânica. Seu interesse era mesmo a jovem atendente, com seu vestido cinza e seus cabelos curtos.

Depois de ziguezaguear por entre as plantas da floricultura encontrou Irma no balcão anotando os pedidos para o fim da tarde. Quando colocou a mão sobre o balcão ela fingiu graciosamente uma surpresa, fechou seu bloco de anotações e sorriu timidamente.

– Como vai Irma? Estava passando aqui pela Barros Cassal e resolvi comprar umas flores para minha mãe. Você está bem?

Ela sorriu novamente e respondeu de forma mais fria do que ele esperava.

– Eu estou bem. Quer ajuda para escolher as flores? Temos lindos cravos e crisântemos que acabaram de chegar.

O jovem sorriu mas não se deu por vencido.

– Em verdade, as flores podem ficar para depois. Gostaria agora de saber sua resposta. Meu coração precisa de um repouso. Não posso mais viver nessa dúvida. Olhe, eu trouxe algo para você.

Colocou a mão em uma sacola que trazia consigo e retirou de lá uma pequena caixinha de papelão atado com fita azul. Como ela titubeasse para segurar o presente com suas mãos de dedos finos ele mesmo desatou a fita e tirou a tampa.

– Achei parecida com você. Linda, delicada, recatada e tímida. Quero que fique com ela, pois ela representa o sentimento que tenho por você.

Irma não sabia o que dizer, mas segurou a pequena figura de porcelana e vestido longo que o jovem colocou em suas mãos. A boneca tinha um rosto delicado e pálido, com bochechas vermelhas e cabelos curtos e loiros.

– Irma, você sabe o quanto gosto de você e eu sei que seu coração ainda não é meu. Entretanto, tenho paciência e posso esperar até que você esteja pronta. Além disso eu…

Irma interrompeu sua fala com a mão espalmada à frente.

– Por favor, não insista. Já conversamos sobre isso. Meu coração pertence ao meu noivo, Olintho. O simples fato de falar com você já me parece pecaminoso. Sou uma mulher comprometida e faria muito bem a nós dois que você não viesse mais a esta loja.

O jovem ainda ensaiou uma nova frase, mas foi interrompido com um “não”, seco e definitivo. A ele não restou nada além de levantar a aba do Fedora num gesto de despedida, saindo para nunca mais voltar.

Irma sentiu o peso da culpa saindo de suas costas. Foi até a ponta da loja e serviu-se de um copo d’água do filtro de barro. Ainda tremia de nervosa, mas sabia que fizera a única coisa certa. Respirou fundo, aguardou uns instantes e voltou ao balcão para finalizar a lista do dia.

Só depois de alguns minutos percebeu que a boneca permanecia sobre a mesa. Correu até a porta, olhou por toda a extensão da Avenida Independência, até onde seus olhos podiam alcançar, mas ele não estava mais lá.

Pensou em devolver, pois sabia seu endereço, mas isso a obrigaria encontrá-lo, o que não desejava. Esse encontro definitivo já havia sido por demais angustiante. Por outro lado, jogar fora uma linda boneca de porcelana lhe pareceu um crime, mas sabia que mantê-la consigo seria uma espécie de traição.

A solução veio simples. À noite, ao voltar para casa, deu de presente a boneca de porcelana para sua irmã Erna, que a guardou como a um tesouro por toda sua vida. Por nunca ter se casado sua irmã presenteou a boneca, já no fim da vida, à sua sobrinha Miriam Elisabete, que a guarda até hoje. Um século já nos separa da história de um amor frustrado, uma boneca de porcelana e uma bela moça comprometida que, alguns anos depois, estaria me segurando nos braços e a quem eu chamaria de “vovó Irma”.

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Romance

Sempre me perguntei se haveria alguma razão para que eu fosse um sujeito romântico. Aqui vou conceituar “romântico” como alguém que acredita no amor entre duas pessoas, que pensa que uma relação assim pode gerar filhos e que constituir uma família pode ser um dos objetivos mais nobres da vida. Não se trata do romantismo de gestos externos como flores, bombons, declarações grandiloquentes ou, modernamente, carro de som na porta da casa – substituindo as serenatas. Não… apenas a crença no amor entre duas pessoas.

E vejam, coloco a crença no amor romântico apenas como mais um fetiche humano, tão válido quanto qualquer outro – cintas-liga, poliamor ou roupas de couro incluídas. É uma conexão afetiva de ordem irracional, portanto infensa às análises racionalistas e objetivas. Não acho que alguém se torna “superior” por se dedicar a essa fantasia, mas reconheço que os românticos assim definidos se tornam sujeitos mais fáceis para manter relacionamentos duradouros.

Escrevo isso porque arrumando livros antigos dos meus pais encontrei uma singela pista para o meu acanhado romantismo: uma carta que minha mãe escreveu ao meu pai uma semana antes de ganhar seu primeiro filho, meu irmão mais velho. A carta é um primor de romantismo, como não se encontra mais na literatura, mas também explica porque as mulheres nos anos 50-60 tinham muito mais facilidade para parir. O estado se espírito da minha mãe poucos antes do “grande dia” era de pura excitação com o que estava para ocorrer. Não havia uma linha sequer de angústia, preocupação ou temor, apenas uma viva ansiedade para ter seu filho nos braços…. e uma alegria imensa em poder cumprir aquilo que o “destino” havia legado a ela. Outros tempos, por certo…

Achei invasivo mostrar a carta inteira escrita por ela, mesmo que ambos já tenham partido, mas creio que a última frase é um primor de amor romântico e retrata bem as mulheres de sua época, que apostavam sua felicidade no amor profundo por seu companheiro e por seus filhos, dedicando-se uma vida inteira para que eles fossem felizes.

Lendo a derradeira frase daquela simpática missiva parece que estou assistindo uma novela escrita pela cubana radicada no Brasil Glória Magadan…

“My romance doesn’t need a castle rising in Spain
Nor a dance to a constantly surprising refrain
Wide awake I can make my most fantastic dreams come true
My romance doesn’t need a thing… but you”

Carly Simon – My Romance

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Mentiras em 3D

Ultrassom 3D ou 4D(?) se refere a estas imagens que parecem moldes de cera com formato de feto dentro do útero, e são uma produção virtual cibernética e criativa que brota desse imenso campo das fantasias humanas.

Vou usar uma comparação tosca, mas que poderá servir de analogia.

Uma vez uma paciente me contou de um acidente terrível de automóvel que resultou na morte de uma criança de sua família. Depois de alguns meses a família enlutada procurou uma sensitiva, uma médium, que poderia trazer a palavra da criança já no plano espiritual. A paciente contou então do alívio provocado pela narrativa, ao saberem que a criança estava bem e que sua estada na terra foi abreviada um função de dívidas emocionais contraídas em outras encarnações. Estava feliz e tinha já encontrado o tio X, a vó Z e estava se recuperando do trauma de sua partida inesperada.

Não me cabe discutir a veracidade desse relato, e nem tem relevância aqui, mas apenas entender do que se constitui a mensagem da médium.

Diante do encontro com essa criança desencanada os fatos narrados por ela poderiam ser de dois tipos básicos: ela poderia contar uma história de superação, de otimismo, de positividade e de esperança, como de fato foi o relato que ela reproduziu à família. Por outro lado haveria outra possibilidade: ela poderia ter falado do seu sofrimento, da raiva, do ódio que ainda sentia e do ressentimento de ter sido expulsa dessa vida de forma tão abrupta. Poderia estar no “umbral”, sofrendo, consumida pelo ódio e pelo rancor, em especial contra as pessoas que não a protegeram ou que causaram sua partida precoce.

Pergunto: tendo diante de si uma família pesarosa, culposa, arrasada emocionalmente e destruída afetivamente quem diante desse quadro contaria a verdade, caso tivesse escutado da alma da criança a segunda versão? Conseguiria ser plenamente verdadeiro e fiel às palavras da menina ou mentiria, sabendo que esta mentira acalmaria seus corações e lhes traria a paz tão desejada, enquanto a verdade dura jogaria mais profundamente a todos no abismo de suas dores?

Eu acho que, inobstante a veracidade desses relatos, os videntes “mentem” (ou adocicam a dureza da verdade) para satisfazer aqueles que os procuram, pois sabem exatamente o que eles desejam – ou precisam – ouvir. É preciso ser movido por uma enorme crueldade para ser honesto e verdadeiro diante de tanta dor.

Nas ultrassonografias o programa “mente”, suaviza as bordas, preenche de forma automática as lacunas e falhas que o ultrassom não capta, acrescenta um colorido que os sons não reconhecem, oferecendo uma mentira que a todos agrada e satisfaz, além de aliviar as angústias e fantasias dos pais. Criamos um método baseado no falseamento das formas e na homogeneização dos contornos, mas curtimos essa mentira na medida que ela nos alivia a alma e diminui o peso das nossas ansiedades.

E nós todos caímos, claro, porque a angústia do desconhecido é mais poderosa do que as evidências e a própria verdade.

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Caramujismo

Sonhei que minha mãe me dizia uma das suas expressões prediletas em francês. Chegou-se perto de mim e sussurrou ao meu ouvido – como só as mães sabem fazer.

“Joie de vivre”…

Afastou-se um pouco e, olhando nos meus olhos, sorriu como se tivesse me contado o maior de todos segredos. Arregalou suas sobrancelhas finas como a dizer: “agora que sabes, o que vais fazer?” Minha mãe sempre teve como uma de suas marcas mais salientes a “alegria de viver”, que poderia ser traduzida como um encantamento pela oportunidade de estar aqui, viva, convivendo com todos, enxergando beleza em tudo e todos e não permitindo que os detalhes – grandes ou pequenos – a impedissem de ser agradecida pela dádiva da existência e do convívio. Era uma otimista irrecuperável, capaz de enxergar ensinamento tanto nos pequenos fatos cotidianos quanto nas grandes tragédias da humanidade. Ela carregava consigo esta marca, a inefável alegria de viver e de conviver. Ela sempre foi o melhor contrapondo ao caráter sério, sisudo e reservado do meu pai, mas apesar disso ela o adorava, como quem adora um ídolo do cinema. Esta é, aliás, uma marca que me conecta ao meu pai: somos ambos pouca areia para o caminhão que o destino nos ofereceu.

Herdei os traços da minha mãe e o caráter fechado e caramujístico do meu pai. Se fosse possível escolher gostaria de ter recebido dela o “joie de vivre”, a exaltação da beleza pura, a alegria de acordar cada manhã e saudar a oportunidade de compartilhar a vida em todo seu esplendor com quem nos acompanha. Uma pena não conseguir ser dela o espelho que gostaria.

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Era uma vez…

Meu neto Oliver, no primeiro dia na nova escola, disse para os seus colegas: “Meu avô conta histórias muito assustadoras”. Orgulho me define…

Em verdade, o que eu conto aos meus netos são histórias de aventuras, ficção juvenil, porém carregadas de suspense e com momentos de tensão e surpresa. É emocionante contar estas fábulas e perceber seus olhos parados em um ponto da parede enquanto suas mentes embarcam no navio que leva à ilha misteriosa, ajudados pelo velho pirata McKinnon com a promessa de recuperar o baú perdido no incêndio do iate (no qual faleceram os pais de Gregor) e que, talvez, contenha a “Tiara Dourada”…

Hoje, enquanto eu contava um capítulo da segunda temporada de “Aventuras na Praia”, expliquei a eles que os protagonistas (Jack, John, Mary e Gregor) haviam encontrado uma caixa escondida no porão da mansão do enigmático Sr. Wilkinson. Ela poderia ser mais uma peça para montar o intrincado quebra-cabeças da trama. Quando descrevi as dimensões da pequena caixa – que mais tarde descobriríamos estar cheia de moedas de ouro envolvidas em uma bolsa de couro – Henry, o meu neto de 5 anos, falou: “Olha vovô, quando tu falas essas coisas eu vou imaginando na minha cabeça como elas são, e o baú é bem do tamanho que eu tinha pensado!!”

A contação de histórias é a mais antiga das nossas formas de representação teatral. Ela tem a mesma idade da linguagem articulada, e creio mesmo que criamos a fala apenas para liberar as histórias que estavam prisioneiras em nossas mentes. Posso enxergar as crianças ao redor de uma fogueira arregalando os olhos enquanto escutam em silêncio os relatos de coragem, as lutas sangrentas, o embate com as feras e os mitos que os velhos trazem ao circulo. Na cena vejo a emoção que se regenera a cada relato misturada com as sombras dançantes que se projetam nas faces atentas enquanto escutam o crepitar da fogueira, no alvorecer daquilo que chamamos de humanidade.

Reviver esse costume milenar e transmitir ideias, conceitos, proporções, perspectivas de mundo e – acima de tudo – valores através dessas histórias é a razão pela qual a natureza permite que nos tornemos velhos o suficiente para termos netos. A vida seria insuportável sem a ficção, e as crianças se preparam para a vida adulta por meio dessas narrativas. Benditos aqueles que tem a oportunidade de deixar um pouco de si nestas historias, como legado para os pequenos.

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Poder e Perversão

Durante o atendimento a um parto hospitalar acabei por indicar uma cesariana. Depois de uma certa relutância, entreguei os pontos diante de uma longa parada de progressão. Saí da sala de partos e me dirigi ao posto de enfermagem para solicitar que um anestesista fosse chamado ao hospital. Sim, a mesma corporação médica que condena partos domiciliares por “falta de recursos” para atendimentos emergenciais acha natural que um centro obstétrico possa funcionar sem anestesista de plantão e que este seja chamado apenas diante de uma necessidade.

Fica fácil entender porque os obstetras daquele hospital – via de regra desinteressados pelo atendimento ao parto normal – preferem marcar cesarianas a correr o risco de precisar encontrar um anestesista às pressas. No meio do caminho entre a sala de pré-parto e o balcão das enfermeiras encontro uma anestesista do centro obstétrico. Eu a conhecia há alguns anos e sabia ser uma pessoa, digamos, “difícil”. Essencialmente rude e insensível, muitas vezes grosseira. Já havia ocorrido atritos anteriores com algumas colegas, mas apesar de saber que não gostava de mim e das propostas da humanização do nascimento, nunca havia acontecido, até então, qualquer desavença comigo. Ao cruzar com ela no curto corredor percebi que estava de saída do hospital, após atuar em uma cesariana agendada. Resolvi perguntar a ela se poderia ficar e atender a cesariana que eu estava a indicar, pois se tratava de um caso de parada de progressão no qual a paciente estava com muitas dores. A resposta dela não esqueço até hoje. Sem me olhar direto nos olhos ela falou: “Não atendo essas pacientes de vocês, pacientes humanizadas. Procure outro anestesista”.

Eu fiquei chocado e estarrecido. Ela virou as costas e saiu do hospital sem dizer mais palavras. Corri para o posto de enfermagem e chamei outro anestesista, mas a cirurgia não ocorreu antes de ter se passado mais uma hora, com a paciente suportando contrações dolorosas e inefetivas. A insensibilidade daquela médica, que resolveu descontar a raiva que tinha de mim sobre uma pobre paciente, foi algo inacreditável, tamanha a perversidade. Uma triste lembrança do quanto uma posição de poder pode ser destrutiva.

Mas afinal, por que tanto ódio? Fiquei sabendo que semanas antes esta médica havia discutido com a paciente de uma colega por detalhes sobre uma analgesia de parto. Teria ficado furiosa com a gestante ao ver que esta questionava demais tudo o que lhe era determinado. Disse à minha colega obstetra que essas pacientes eram “doutrinadas” para a rebeldia e para desobedecer as ordens médicas. Em sua mente a culpa, por certo, era dos obstetras “humanizados” que as condicionavam a desprezar as orientações dos demais profissionais. O ataque era direcionado à humanização do nascimento, mesmo fazendo uma paciente de vítima. Essa médica via em nós uma afronta à sua autoridade. Por esta razão, não deveria causar surpresa a onda de ataques e perseguições aos obstetras humanistas do Brasil. Qualquer perspectiva médica que minimamente valorize a autonomia dos pacientes será vista como perigosa e terrorista. Médicos humanistas – de qualquer área – são vetores de desordem e desequilíbrio, ao oferecerem aos pacientes uma perspectiva mais ampla e justa sobre seus direitos.

Hoje tudo está ainda mais explícito. No momento em que a corporação médica, através dos seus órgãos representativos, se associa ao fascismo explícito do governo, muitas personalidades anteriormente ocultas sob uma capa de civilidade acabam desvelando sua arrogância e violência. Paulo Freire foi perseguido por ensinar brasileiros a ler, oferecendo a eles autonomia e uma consciência alargada sobre a complexidade do mundo que os cerca. Médicos que ensinam aos pacientes seus direitos e suas escolhas serão perseguidos e tratados da mesma forma punitiva. Não deveriam nos espantar estas agressões, apenas nos estimular à mobilização, à indignação e à luta

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Forcinha

Um amigo próximo, que trabalha como professor universitário, certa vez me contou que estava em sua sala conversando com um colega de faculdade quando o telefone tocou. Era outro professor, mais antigo, que queria lhe pedir um favor.

– E aí, tudo bem? Preciso lhe avisar que hoje à tarde meu sobrinho fará entrevista para a vaga de residência e você estará lá para entrevistá-lo. Gostaria de lhe pedir uma atenção especial. Sabe como é, uma forcinha.

Meu amigo perguntou, de forma reflexa, o que ele entendia por “atenção especial” e “forcinha”.

– Ora, disse ele, você sabe muito bem ao que me refiro. Não “sacaneia” ele, só isso. A gente sabe o quanto estas avaliações são subjetivas. Não faça perguntas difíceis e nem o coloque contra a parede. Você sabe como funciona: uma mão lava a outra. Não esqueça que você mesmo precisou de ajuda para chegar onde está agora.

Meu amigo ficou sem saber o que dizer, mas lembrou ao seu colega que não havia recebido nenhuma ajuda para alcançar seu posto. Pelo contrário, não tinha parentes acadêmicos que pudessem interceder por ele nem mesmo para pedir uma “forcinha”. Foi admitido por seus méritos, concurso e um currículo construído com muito esforço.

Isso deixou o velho professor ainda mais indignado.

– Olha, eu não inventei as regras. Todo mundo sabe como estas coisas funcionam, desde que o mundo é mundo. Não estou lhe pedindo nada demais, apenas um favor pessoal, um cuidado especial com um sobrinho meu. Um dia poderemos estar em posições opostas e você poderá precisar de uma ajuda minha. Custa alguma coisa ter um pouco de coleguismo?

Meu amigo não sabia o que dizer. Despediu-se do velho professor com a promessa de não “pegar pesado” e comentou o caso com seu colega ao lado. Este, abriu a pasta dos candidatos, pegou a avaliação do pretendente à vaga, coçou a cabeça e disse, quase sussurrando:

– Bem, se a nota da entrevista for máxima, somando com o currículo e a nota da prova, daí…

Meu amigo interrompeu bruscamente a fala do seu colega e exclamou:

– Não tenho saúde para mais de uma decepção ética por dia. Não ouse insinuar isso, por favor.

Ele guardou as avaliações de volta na pasta e não mais falou desse caso. Meu amigo conta até hoje que por “sorte” as notas do rapaz eram fracas e nem mesmo uma nota excepcional e irreal faria o jovem se classificar. Entretanto, para esse amigo este dia ficou marcado como a primeira de uma série de frustrações em sua carreira acadêmica.

Minha ingenuidade me fez perguntar se não havia como denunciar, ao que ele sorriu e explicou que isso significaria dar adeus à sua vida na Academia. Ninguém acreditaria em sua palavra contra a versão de um velho catedrático e sua denúncia seria inútil.

Lembrei da negativa de atendimento à uma urgência obstétrica feita por uma anestesista e concordei pois, também nesse caso, a única pessoa que poderia ser punida por denunciar seria eu mesmo.

Resta a tristeza e a impotência de ver que estas condutas ainda estão longe de serem consideradas “coisas do passado”

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Cambalhotas

E se eu lhe pedisse para virar uma cambalhota, você viraria?

Havia (creio até que já faleceu) em minha cidade um obstetra bastante famoso e conhecido. Apesar de não ser da Academia – um passo importante para a notoriedade – ele atendia pessoas da alta classe, assim como artistas e pessoas da mídia. Era por certo um obstetra tradicional: tinha mais de 80% de cesarianas, fazia todas as intervenções da moda, preferia cesarianas aos partos normais e quando os realizava fazia uso do pacote completo das intervenções sem embasamento. Usava da mitologia do “imperativo tecnológico” mas era muito bom para lidar com a imprensa e para convencer suas pacientes a lhe escolherem como profissional. Uma vez indicou a cesariana de uma artista da TV dizendo que teve que fazê-lo porque o bebê estava “embolado de um lado só da barriga”, o que demonstra como ele usava de factoides para explicar suas intervenções. Porém, estas são histórias corriqueiras de profissionais inseridos no paradigma intervencionista, que enxergam no nascimento um “ato médico” e que – mesmo sem o saber ou dizer – não acreditam na capacidade das mulheres de parir e gestar com segurança.

O que eu achava curioso e didático desse médico em especial é algo que duas pacientes me contaram a respeito de seu atendimento. Quando a gestação se aproximava do final, ou seja, quando as contrações poderiam ocorrer a qualquer momento, ele se sentava à frente da paciente e lhe fazia a seguinte pergunta:

– Diga-me uma coisa; se durante sua internação no hospital eu pedir que você vire uma cambalhota, o que fará?

As pacientes eram surpreendidas com sua pergunta e algumas retrucavam “Mas por que o senhor me pediria tal coisa”, ao que ele respondia que não importava a razão para isso, apenas queria saber o que fariam em resposta ao pedido. Por certo que a maioria respondia “O senhor é o meu médico e a pessoa em quem confio para fazer o meu parto. Apesar de estranho, se realmente houvesse esse pedido eu viraria uma cambalhota”.

Diante dessa resposta ele sorria e deixava claro “Então você pode ser minha paciente”.

Percebi que ele fazia essa pergunta para muitas – senão todas – pacientes porque duas delas (que não se conheciam) me disseram que a ouviram durante uma consulta. Ambas responderam “não” e a partir dessa negativa ele se mostrou rígido e insatisfeito. Elas preferiram não voltar mais lá.

Todavia, essa pergunta sempre me inquietou pelos seus significados mais profundos. Em verdade, o que ela busca é uma adesão visceral e irracional dos pacientes para com a autoridade médica. Ela me faz lembrar a frase do grande tribuno cartaginês Tertuliano:

Natus est dei filius; non pudet quia pudendum est; et mortuus est dei filius; prosurs credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.” (Creio porque é impossível – ou absurdo. Morreu o filho de Deus, isto é perfeitamente crível, porque é absurdo. E, sepultado, ressuscitou; isto é certo porque é impossível.)

O que o médico exigia de suas pacientes era nada menos do que uma declaração de fé ao nível da irracionalidade. “Creio em si, mestre, porque é absurdo. Uma gestante virar uma cambalhota isto é perfeitamente crível, porque é absurdo”. A intenção era determinar o absoluto apoderamento do desejo alheio, a demanda por uma completa rendição à vontade do mestre, a ponto de que uma ação absurda se tornasse plena de sentido. É a mais vibrante demonstração da alienação e da expropriação da autonomia de um sujeito que eu já presenciei, mesmo que pelas palavras de quem a testemunhou. A obediência cega aos comandos se tornava válida e poderosa exatamente por ser um pedido absurdo, o que demandaria uma fé tão poderosa a ponto de fazer a própria lucidez e a noção de ridículo serem deixadas de lado.

A frase do médico em verdade ficou marcada na minha memória não pela originalidade da intenção, mas tão somente por ser demonstrá-la de forma explícita. A arte médica, durante milênios, se caracterizou por este tipo de proposta. “Creia em mim, eu sei o que estou fazendo. Não tenha medo”, Ou então, diante da mais sutil desconfiança das ordens de um médico, este retrucaria: “Eu sou um médico, não um charlatão”, parafraseando o Dr. Valcourt, na novela “O Preço de uma Vida” de 1965.

Por isso é que a proposta de garantir o protagonismo aos pacientes – em especial às mulheres – encontra tanta resistência. É necessário romper uma prática milenar calcada na objetualização dos doentes e na expropriação de sua autonomia tão intensa que quase se confunde com o próprio exercício da medicina. Imaginar uma medicina igualitária e não autoritária – mesmo em se observando a essencial transferência – demanda esforço de imaginação, pois que dificilmente ela se expressa assim. Não poderia haver surpresa que médicos ainda se sustentem pelo antigo paradigma.

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Crachás

Uma vez nos anos 90 do século passado fui a um encontro da Secretaria Estadual da Saúde do RS falar pela Liga Homeopática em nome da adesão de medicinas complementares no âmbito dos postos de saúde estaduais. Depois da minha fala sentei e fiquei assistindo a reunião que contava com a participação de representantes das secretarias de saúde dos municípios gaúchos. Cada um deles trazia no peito um crachá com nome do seu município.

Depois de algumas apresentações técnicas a coordenadora do evento pegou o microfone e anunciou: “Caros secretários. Procurem os representantes da sua região e façam pequenos grupos para trazer à assembleia as demandas regionais. Vocês têm 15 minutos”.

Imediatamente 500 pessoas se levantaram à procura de seus vizinhos. Logo à minha frente uma senhora se ergueu e começou a olhar os crachás das pessoas próximas. Assim que lia o nome da cidade no crachá dizia:

Arvorezinha, fique aqui do meu lado. Dois Lajeados, não se afaste. Guaporé, veja se encontra Ilópolis e Putinga e peça para que venham nos encontrar aqui no canto. Vespasiano Corrêa, alguém viu?

Até que ela olhou para a moça loira, gordinha e com cara de alemoa sentada ao meu lado e disse, apertando os olhos para ler o crachá:

– Ahh, que bom que achei (passou uns instantes) você…. mocinha.

A moça ao meu lado sorriu envergonhada e se juntou ao grupo.

Era a secretária de saúde de Anta Gorda

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Fumacinhas

Meu pai era o mestre das palavras, um grande conversador e contador de histórias. Todavia, tinha preguiça de escrever. Para ele a escrita era um exercício muito difícil; enfadonho e até torturante. Culpou sempre seu perfeccionismo virginiano por sua aversão em colocar sua visão de mundo em livros.

Como Cristo e Sócrates, o que sabemos dele – e de suas ideias – vem através dos contatos diretos. Conversas, encontros, bate-papos, palestras e pequenas intervenções. Apesar disso, suas posições e ideias ficaram conhecidas em diversas partes do país e até fora dele. Tinha um tal magnetismo ao falar que todos lembram até dos pequenos detalhes dessas conversas.

Eu sou o oposto disso. Por saber que não tenho a doçura, a simpatia e o encanto do meu pai, eu escrevo tudo. Acordo de madrugada e escrevo o sonho que tive. Lembro de um fato engraçado que aconteceu há muitos anos no consultório e coloco tudo no papel. Se recordo de um acontecimento – no qual percebo um significado escondido que só agora me ocorreu – tenho de cair imediatamente de cabeça no texto.

Escrevo em todos os lugares. Filas de supermercado, no banheiro, olhando futebol na TV, na cama, na hora do almoço. Qualquer hora. E não tem nada a ver com qualidade, só o desejo compulsivo de transformar fatos e ideias em texto…

Tenho medo de esquecer uma história. Como elas só existem pela minha perspectiva, vivem solitárias em minha mente. Escrever sobre elas é libertá-las, deixar que ganhem vida. Meu pânico é ver a morte que se aproxima e pensar que algumas histórias morrerão comigo. Como um velho que vem a falecer sem revelar onde escondeu o dinheiro que guardou…

No final da vida, como é comum aos velhos, meu pai contava, como se fossem novas, histórias bem antigas e que eu já ouvira dezenas de vezes. Eu dava risadas e me mostrava interessado, como se fosse a primeira vez a escutá-las. Sei que eu também, em pouco tempo, me surpreenderei escrevendo de novo sobre fatos que já coloquei no papel, mas será apenas por medo de que algo se perca.

Desenvolvi essa compulsão há 20 anos, mas hoje fico pensando que deveria ter começado aos 7 anos de idade. Triste saber que, por certo, nesse tempo todo muitas histórias enjauladas na minha mente já definharam e jamais puderam ver a luz do dia, o que é lamentável.

Pelo menos esta aqui coloquei para fora antes que virasse fumacinha.

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