Em Carrion de los Condes fica o albergue de Santa Maria, controlado por freiras que se vestem com hábitos tradicionais, parecidos com a roupa de Sally Fields em “A Noviça Voadora” (The Flying Nun). Quando chegamos era possível sentir no ar como doçura e a simpatia destas senhoras é contagiante. Estávamos – obviamente – cansados e doloridos pela caminhada do dia e fomos recebidos com o mais caloroso dos sorrisos. Nos informaram as camas que ficaríamos, explicaram as regras gerais (horários, banhos, roupa por lavar, luzes, etc) e nos avisaram que as 17h haveria um “momento musical” ao qual estávamos convidados a participar.
Encontramos nossos amigos no Jardim dos fundos e ficamos por umas duas horas conversando com Alessandro, da Itália e Brian da Irlanda, contando as curiosidades e peculiaridades de nossos países.
Quando se aproximou das 17h Bebel e Juliana começaram a preparar nosso jantar. Depois de vários dias no “lanchinho” decidimos comer comida de verdade. Arroz, molho, vinho, queijo, legumes. Enquanto elas se ocupavam na cozinha resolvi entrar na sala onde haveria a apresentação.
Quando entrei já havia se iniciado e pude voltar no tempo ao ver as freirinhas tocando violão e cantando com a voz afinadinha canções adaptadas e hinos religiosos. A cena tocou fundo na minha memória mais infantil, quando isso acontecia nas igrejas da minha cidade.
Terminadas as canções ofereceram o violão a um grupo de brasileiros que recém haviam chegado. Estes não se fizeram de rogados e cantaram “Meu Erro” dos Paralamas. Foram muito aplaudidos.
No final fizeram uma bênção a cada um dos peregrinos presentes, fazendo uma imposição de mãos sobre a cabeça e nos deram de regalo uma estrela colorida que simbolizava o coração delas que nos acompanharia por todo o caminho. Eu me debulhei em lágrimas pensando em Zeza, Lucas, meus pais, irmãos, nora e netos e por um instante senti que muito da negatividade que carregava no coração pela dor diante das injustiças saíram naquelas lágrimas.
O Caminho traz surpresas inesperadas. Em verdade estas pérolas de carinho e cuidado nos trazem de volta para o otimismo e a positividade que a vida muitas vezes nos sonega. Às irmãs do Albergue Santa Maria um agradecimento especial pela delicadeza e a amorosidade que acolheram este coração ferido.
“Não, acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos prá tomares conta, agora conta como hei de partir”.
(Chico Buarque)
A coisa mais mágica – e mais preciosa – que se recebe de um amor é a oportunidade de olhar o mundo pelos seus olhos. Eu sempre fui um menino de classe média baixa. Nunca tive os brinquedos mais caros, nem meu pai – um funcionário de nível médio de uma estatal – comprava carros novos, nem casa na praia, viagens caras, roupas de grife, etc. Era kichute, camiseta Hering e busāo para todos. Coca-Cola litrão no fim de semana.
Aos 17 anos namorava uma menina também da classe operária. Uma jovem garota com 6 irmãos, filha de um bancário e uma dona de casa. Classe média, um pouco mais baixa que a minha. Logo após começarmos a namorar eu entrei para a faculdade de medicina e ela foi cursar enfermagem. A faculdade abre nossos horizontes. O mundo se expande de forma avassaladora. O pequeno universo da família e do bairro se torna da cidade e do mundo (urbe et orbi, dizia o omni-bus que eu tomava). Meus colegas de aula tinham sobrenome de ruas da cidade e de instituições financeiras. Entre eles, os novos herdeiros de feudos médicos tradicionais. Chegavam à escola médica de carro próprio aos 18 anos e alguns se recusavam a comer no bandejão da universidade porque não gostavam do “tempero”. Eu era um alienígena em um ambiente feito para eles, não para mim.
Mas tudo poderia ser diferente. Eu poderia ter deixado minha namorada de escola por Jennifer. Filha de um oftalmologista – que dividia seu tempo entre a clínica na Padre Chagas e a criação de gado em Lavras do Sul – e uma juíza do trabalho, ela era o sonho de consumo de qualquer sujeito que almejasse um “upgrade” na escala social. Linda, loira, coqueta, vaidosa e estudiosa. Herdaria a clínica do pai e desde o início da faculdade seu mundo se resumia a um “olho”, cuja anatomia devorara rapidamente dos livros, com suas câmaras, íris, pálpebras e dutos lacrimais. Um futuro róseo e feliz planava altivo por sobre suas sobrancelhas grossas e morenas. Quis o destino que Jennifer nunca tenha tomado conhecimento da minha existência e que minha namorada de escola tenha me oferecido seus olhos para que eu tomasse conta. Ao invés de ver o mundo através da alta classe, fiquei com os olhos verdes de uma proletária.
Acreditem, para mim isso fez toda a diferença. Minha vida se manteve fiel às suas origens sem que as promessas de um mundo charmoso e sofisticado daquela profissão, crivada de privilégios, me deixasse esquecer de onde vim. Tive a oportunidade especial de olhar o mundo que se abriu à minha frente pelos olhos emprestados de uma enfermeira e isso me proporcionou uma brecha de autocrítica extremamente rara no mundo médico. A ela devo tudo que sei, tudo que aprendi e o pouco que pude ensinar. Se há algo de valioso nas parcerias que fazemos, em especial aquelas cujo amor é o elo essencial, esta é a chance de ver o mundo com os olhos do outro. Agradeço a oportunidade única de ter recebido de uma enfermeira a possibilidade de enxergar os dilemas do nascimento através do seu doce olhar.
Um dos aspectos mais transformadores e radicais na ação das doulas é muito pouco comentado. Em verdade, nunca vi ninguém falar isso abertamente como um elemento central do trabalho delas. Vou contar uma história que me marcou na vida como estudante e espero que auxilie a aclarar meu ponto de vista.
Nos primórdios da década de 80 estava eu atendendo um pós-parto no hospital como estudante, doutorando provavelmente. Enquanto avaliava a puérpera sob meus cuidados adentrou a sala um professor Tubarão cercado pelos seus alunos-rêmoras para atender uma paciente do outro lado da sala. Falaram com ela durante cinco minutos e depois saíram da sala com seus aventais esvoaçantes, suas canetas Parker e seus estetoscópio estrategicamente pendurados no pescoço, como correntes prateadas de periferia.
Na sala permanecemos eu com minha paciente, a moça atendida pela equipe e uma jovem senhora da limpeza. Logo após a saída da equipe a moça examinada tinha o semblante preocupado e estava quase chorando. Olhei de relance para ela tentando não ser intrusivo, enquanto anotava dados da minha paciente. O que se seguiu a este meu olhar dirigido a ela foi revelador.
A moça angustiada chamou a jovem senhora da limpeza e disse: “Dona Juraci (já deviam se conhecer de outro dia), eles disseram que é melhor eu me operar. Estou com medo. O que a senhora acha?”
Naquele instante me subiu um arrepio pela espinha dorsal. “O que a senhora acha?”. Ela era a MULHER DA LIMPEZA!!!! Como ousava perguntar isso a uma empregada dentro de um hospital e na frente de um médico (ok… eu nem parecia com isso nessa época, nem com estetoscópio no pescoço). Achei a cena absurda, quase ofensiva. Desrespeitosa, por certo. Como ousa!!!!
Precisou bastante autocrítica e análise para entender a cena que eu testemunhara. E levou tempo.
Em verdade a moça examinada pela equipe fez a pergunta para a única pessoa que compartilhava com ela valores, experiências, temores e vivências. Ela fez um pedido de ajuda para uma igual, alguém que falava seu idioma, que poderia entender suas dúvidas e que tinha sintonia consigo. Perguntou para a única pessoa com quem teria liberdade para expressar suas angústias sem ser desprezada.
A equipe médica era ameaçante, como sempre é a medicina. Seu higienismo, sua objetualização dos corpos, seus valores burgueses, seus preconceitos com pobres, seus jargões, seu palavreado empolado e difícil, suas regras e imposições são sempre uma ameaça aos doentes. Médicos inspiram medo, como pais severos. A senhora da limpeza era um porto seguro com quem podia “se abrir”, falar dos seus medos, seus temores e ansiedades sem ser julgada ou reprimida.
Pouca gente fala que a doula é valorosa exatamente por ser tão mulher quanto suas clientes. O fato de não ser uma profissional da saúde é uma VANTAGEM SUBJETIVA que as doulas carregam. Elas podem ser parceiras em condições de igualdade. Se fosse possível a moça diria a equipe “Ok, eu deixo vocês me operarem, desde que a Juraci possa entrar comigo. Ela vai defender meus direitos a partir da MINHA PERSPECTIVA DE MUNDO, e não dos saberes técnicos que os senhores apresentam. Quero comigo alguém que possa entender minha doença (ilness) na perspectiva única do paciente, e não pelos olhos de médicos que tratam apenas da objetividade destas doenças (diseases).”
Foi um momento grandioso para um jovem estudante que teve a oportunidade de aprender o que é adoecer na perspectiva de quem sofre o mal, e não apenas de quem o observa objetivamente.
Passei por uma experiência interessante e gratificante proporcionada por minha querida amiga Lucia Scalco. Resolvemos conversar com uma antiga “apanhadeira de bebês“, Dona Catarina (nome fictício), uma parteira tradicional urbana de 82 anos que trabalhou durante 38 anos num dos conhecidos bolsões de pobreza de Porto Alegre – RS. Atendeu seu último parto há 8 anos.
Catarina nos informou que sua formação veio pelo aprendizado com outra parteira que lhe cobrou (muito dinheiro, segundo ela) para a acompanhar e conhecer suas técnicas. Durante anos foi acompanhante desta sua “mestra” e depois seguiu em “carreira solo”. Não sabe quantos bebês nasceram sob seus cuidados, porque nunca se deteve a anotar ou contar, e não sobrou nenhum registro do seu trabalho. Vive em uma casa pobre com um parente que a ajuda, no coração da vila onde mora há mais de 4 décadas.
A entrevista foi valiosa por vários aspectos, em especial pela possibilidade de observar os ângulos mais sombrios da parteria. Ao invés de escutar um relato glamoroso e cheio de encantamentos e emoções, testemunhamos uma história de ressentimentos, dramas, dores e mágoas. Dona Catarina diz que seu ofício nunca foi recompensado, e que as pessoas a quem atendeu eram profundamente ingratas com seu trabalho. “Nem um muito obrigado elas me diziam. Viravam a cara quando me encontravam na rua“. Perguntada porque não era paga ela respondeu “Pagar com o que? Eram todos muito pobres. Tinham seus filhos em casa porque não podiam pagar um táxi para o hospital“. Perguntei se havia pagamentos simbólicos, como frutas, pães, galinhas, ovos, roupas ou mesmo um reconhecimento social, como é muito comum em comunidades do interior e ela negou. “Não me davam nada. Nunca ganhei para atender as pessoas“, disse.
Dona Catarina é pobre. Mora em uma casa de esquina no centro geográfico da vila, e sua história é cheia de pequenas e grandes tragédias. Ter seu trabalho explorado e não reconhecido é apenas uma delas, e das mais leves. Alguns de seus filhos se envolveram com drogas e chegaram a ser moradores de rua. O tempo inteiro se referiu a eles sem qualquer carinho, saudade ou doçura. É uma mulher pequena, miúda, aparentemente frágil, mas conta inúmeras histórias de lutas físicas contra agressores. Fala de uma briga em que enfrentou um vizinho alcoolizado de facão em punho, tendo lhe infligido um corte profundo no braço. Quando mais jovem levou um agressor ao hospital com golpes de madeira. Segundo ela, ficou um mês na UTI e veio a falecer. Conta a história sem qualquer remorso ou arrependimento. “Ela é uma fera, doutor. É pequena, mas muito brava.” Olha para ela e diz “Jesus manda perdoar também, viu?“, mas ela responde com um muxoxo.
Dona Catarina seguiu os passos de um contingente crescente da população de periferia no Brasil tendo se convertido a uma das inúmeras vertentes evangélicas que proliferam em sua comunidade. Agora diz-se “cristã”, mesmo tendo sido católica a vida inteira. Rompeu relacionamento com parentes e em especial com seus próprios filhos, alguns deles ligados a religiões de matriz africana. “Não existem duas águas boas para beber, só uma“, e esta sua visão de mundo é compartilhada pelo rapaz que nos acompanha na conversa, único parente que vive com ela. A Bíblia aberta sobre a mesa – ao lado do velho aparelho de som que toca música Gospel insistentemente – confirma suas palavras. “(Meus filhos) são batuqueiros do demônio. Quero distância deles“.
Quando perguntada sobre as mudanças que presenciou nos últimos anos em sua vila expressa a vontade de sair. “Vou vender o que tenho e ir embora daqui. Aqui só tem maconheiro, ladrão.” Parece profundamente consumida por ressentimentos e desconfianças.
Em relação ao seu trabalho dizia que usava luvas, cordão, tesoura e álcool. Nada de balanças/ “Eles iam pesar depois no armazém, mas já atendi muito bebê de mais de 5 kg“. Descreve suas habilidades com toques ginecológicos e repete mitos populares de “pentes fechados”, “bebês cansados”, “ossos que impedem o parto”, “bebês que engolem água do parto”. Conta um segredo: bafo de erva de chimarrão para facilitar os partos. A tudo termina com uma gargalhada, num sorriso em que nenhum dente sobrou para deixar testemunho.
Dona Catarina durante décadas era chamada a atender nas madrugadas, no frio, em lugares miseráveis e insalubres. Barro, sujeira, chuva, esgoto a céu aberto. Refere-se aos pobres da vila de invasões próxima de onde estávamos como “preguiçosos, vagabundos e acomodados”, para em seguida listar tudo o que conseguiu conquistar com seu esforço e determinação. Mesmo sendo muito pobre percebia nitidamente a diferença que a afastava destes outros, mais necessitados e despossuídos. Repetia um claro discurso meritocrático que coloca a pobreza como resultado da preguiça e da falta de vontade, uma fala muito usada pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pela igrejas evangélicas.
Bradava sua independência como um grande valor pessoal. “Não preciso de homem nenhum, pra comida, pro serviço ou pra cama“. Vive de sua aposentadoria e refere o medo de que as pessoas que a cercam se aproveitem de si.
Dona Catarina sentir-se confiante com a nossa presença e por isso permitiu-se abrir o seu coração para a dor que acumulou durante tantos anos. Onde eu imaginava encontrar um anjo de doçura e transcendência encontrei uma mulher brava e indócil, que sobreviveu a um ambiente duro e violento usando as armas que lhe foram possíveis. Os nascimentos eram parte de sua tarefa, mas não como elemento de elevação espiritual ou como um “sacro ofício”. Não havia nada de sagrado ou superior nos partos que atendia, apenas uma tarefa “nem dura, nem fácil, mas para a qual era necessário ter conhecimento, para não ser como essas ‘parteiras facāo’ que estragam as mães e os bebês”.
Terminou nossa conversa dizendo que “parto não tem nada de bonito. É muita nojeira e sangue, mas não pode ter nojo e nem ter crise de nervos. Precisa coragem e se manter fria”.
Tomamos nosso café e nos abraçamos, mas ficou no meu coração o desejo de escutar por mais tempo a riqueza impressionante das histórias de dor e martírio de uma guerreira de partos, uma heroína tipicamente humana, com todos os defeitos e virtudes que compõem os nossos heróis.
Foto: Bonecas Abayomi. A palavra Abayomi significa “encontro precioso”, aquele que traz felicidade e alegria. Quando os negros vieram de África para o Brasil em navios Negreiros atravessavam o oceano Atlântico numa viagem penosa. As crianças choravam assustadas porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, para acalentar suas crianças, rasgavam tiras de pano de suas saias para fazer bonecas para elas brincarem. Essas bonecas são chamadas de Abayomi. Quando você dá uma dessas bonecas a alguém significa que você está dando o melhor de você para essa pessoa. Este foi o presente que ganhei da comunidade que visitei.
Conversa real ocorrida há uns 20 anos entre o Dr. Fulano, chefe do serviço X do hospital universitário, e o Dr. Sicrano, professor recém admitido e examinador da banca de residentes do serviço Y do mesmo hospital.
– Oi Dr Sicrano, como vai? Aqui é o Dr Fulano, tudo bem? – Tudo, o que manda professor? – Pois tu sabes que amanhã é a entrevista do meu sobrinho para o serviço de vocês e eu precisava que vocês dessem a ele uma atenção especial. Sabe como é, certo? – …… – Alô? – Professor, o que o Sr. quer dizer com “atenção especial”? – Ora Sicrano, não se faça de desentendido. Você sabe como as coisa funcionam aqui na Universidade. – Desculpe professor, mas eu não sei. Poderia me explicar, por favor? – Veja o seu próprio caso. Foi admitido como professor em um concurso há pouco mais de um ano. Havia vários candidatos qualificados, tão bons quanto você. Todavia, foi seu o nome escolhido. Certamente você teve uma atenção “carinhosa” dos seus colegas de banca, não lhe parece? – Não sei do que o Sr. está falando Dr. Fulano. Que eu saiba fui admitido pelos meus méritos e meu currículo acadêmico. Não tive nenhuma vantagem indevida para chegar chegar onde estou. – Ora Sicrano, agora está sendo cínico comigo? Lembre de uma regra que é muito usada aqui: uma mão lava a outra. Não é muito saudável bancar o íntegro e o honesto comigo pois logo na esquina precisará também de um favor. Pense nisso. Você está recém começando; não construa uma carreira feita de inimizades e desavenças. Avalie com cuidado o meu sobrinho e muito obrigado.
CLIK
Nesse ponto aparece o Dr. Beltrano, jovem professor e colega do Dr.Sicrano.
– Que houve Sicrano? – Não vais acreditar. Dr. Fulano me ligou agora pedindo explicitamente para avaliarmos positivamente a entrevista do seu sobrinho amanhã. O tom foi quase de ameaça. Que absurdo… – Hummmmm – Hum o quê, Beltrano? – Vais arrumar uma briga com um velho professor por causa de um “detalhe” como esse? Que diferença faz para nós quem será o próximo residente? Para que criar essa animosidade e esse clima ruim? Pensando bem, uma mão realmente lava a outra e daqui a pouco podemos precisar de uma ajuda dele no conselho da faculdade. Diz aí, qual o nome do sobrinho? – Não ouse… – Credo, que radicalismo…
Trabalhei por 30 anos com agenda para marcação de consultas, mas meus atendimentos eram marcados a cada hora cheia. Como sou homeopata e obstetra não acredito que um paciente possa ser atendido com cuidado e atenção para abordar a profunda complexidade e sutileza de suas queixas em menos de 60 minutos. Entretanto, eu sabia como era o funcionamento padrão dos consultórios médicos da minha cidade, em especial aqueles que atendem convênios: uma mistura de hora marcada com “walk in“.
Funcionava assim: os pacientes das 16:30 eram 3 ou 4; aquele que chegasse primeiro seria atendido com menos atraso. Muitas pacientes minhas que consultavam com esses colegas me contavam da surpresa que tinham quando a secretária perguntava “Paciente das 16:30?” e várias pessoas levantavam a mão.
Consultas médicas são muito mais do que aparentam ser. Para entender os mistérios intrincados desse encontro pessoal e único é importante entender que uma consulta com um profissional da medicina significa muitas coisas, desde um perdido de socorro, uma opinião técnica, um encontro místico, uma relação erotizada sobre o próprio corpo ou um simples ato burocrático de um “despachante médico” – para fazer perícia, pedir exames ou conseguir um atestado (frio ou não). Todavia, diante de qualquer dessas possibilidades uma consulta é, acima de tudo, uma relação de poder e subjugação.
Muitos médicos que conheço usavam de técnicas sofisticadas para expressar essa assimetria de poderes. A roupa, os estágios intermediários até chegar ao “Dr Fulano” (o porteiro, a secretária para a burocracia, a enfermeira para os sinais vitais, as vezes estudantes para tomar a história e por fim o “doutor”), os diplomas pendurados, o estetoscópio, o jaleco branquíssimo, a mesa separando os corpos, os livros na parede, a linguagem empolada e difícil, etc. Todos os detalhes servem para garantir e manifestar poder. São potentes armas semióticas de subjugação simbólica.
Entretanto a forma mais corriqueira de expressar a distância entre cuidador e paciente é deixar os pacientes esperando. Muitas vezes vi isso ser feito propositalmente; deixavam o paciente na sala de espera enquanto batiam papo ao telefone pois essa espera de alguns minutos determinava os valores dos tempos subjetivos e as respectivas hierarquias. “Você me espera pois eu tenho o poder do seu tempo em minhas mãos. Eu sou o doutor“.
Lembro que eu costumava almoçar com meu filho próximo (ao lado) do meu consultório e ele, com certa frequência, reclamava dos atrasos causados pelo papo que tínhamos na hora do descanso do meio dia. Dizia ele: “Olha aí pai, 14:05. O paciente já deve ter chegado!!!“
Eu respondia um pouco surpreso, mas na defensiva: “Calma, são só 5 minutos!!!“
Mas ele terminava a conversa com uma expressão claramente debochada e de reprovação: “Claro, o doutor vai chegar atrasado e deixar os pacientes esperando para mostrar quem é que manda…“
Jantando na praça de alimentação do shopping e ouvindo duas senhoras (coroas como eu) tagarelando sobre… política.
– Veja bem, amiga. Agora essas bandidas podem ter prisão domiciliar se tiverem filhos pequenos só porque a vagabunda aquela do Rio teve esse benefício. É uma vergonha. Esses políticos são todos facínoras e larápios. Ainda bem que botaram o exército na rua. Tem que pegar esses ladrão tudo e…
Depois disso descreveu para a amiga todas as atrocidades e maldades que um governo totalitário e cruel é capaz de fazer com seus cidadãos, numa fala ao estilo Bolso*, sem meias palavras, e que o deixaria orgulhoso.
Quando escuto estas manifestações eu me convenço de que o amor pela democracia ainda é um luxo na sociedade contemporânea. Mesmo com as prováveis atrocidades relacionadas aos direitos humanos que estão por vir mais de 80% da população apoiou a intervenção midiática, inócua e ineficaz no Rio de Janeiro. As vozes dissonantes clamando por moderação, liberdade, democracia e direitos humanos se perdem no burburinho de gritos e ranger de dentes de uma população hipnotizada pela mídia. As soluções imediatistas e populistas seduzem as mentes mais frágeis.
Eu me posiciono no contrafluxo desse clamor, mesmo reconhecendo ser uma voz solitária, perdido numa multidão a pedir cabeças em bandejas. Não precisamos de prisões cruéis e arbitrárias. Não acredito que milicos despreparados e arrogantes sejam a solução, muito menos que ela venha de juízes vaidosos e justiceiros ou promotores punitivistas. Também não carecemos de um herói que nos salvará da eterna danação de viver em um país que teima em se manter deitado eternamente em berço esplêndido.
Nossa carência é de outra ordem. Precisamos uma intervenção civilizatória profunda, que expurgue o arbítrio do imaginário social. Um choque de democracia e civilização que retire de nossos corações a ideia de que a violência seja capaz de combater a violência.
Precisamos exterminar a dureza pétrea de corações que não entendem a dor de um filho cuja mãe – que ainda o amamenta – está presa apenas por carregar um cigarro de maconha. Nossa intervenção deveria ser o oposto do que testemunhamos hoje; não a ablação da democracia e da cidadania, mas sua garantia e o reforço de seus princípios.
Terminei de jantar e pedi às Deusas da Vida que não me permitam envelhecer corroído por mágoas, rancores e ressentimentos. Que o ódio não seja jamais o norte a guiar meu caminho.
Na minha juventude o meu grupo de jovens espíritas era formado por um grande contingente de homossexuais. Todos estavam vivendo a gigantesca angústia da transição, do “outing“, da dolorosa saída do armário. A maioria não se reconhecia gay e achava que seus pensamentos eram influências espirituais maléficas e perturbadoras, vindas das profundezas do Umbral e os seus sentimentos homoafetivos eram perturbações kármicas. Todos, sem exceção, acreditavam que o espiritismo poderia funcionar como um “torniquete afetivo” capaz de impedir a hemorragia erótica que se anunciava para breve. Naquela época, fim dos anos 70, a homossexualidade ainda guardava uma relação com mácula moral, fraqueza, obsessão e pecado. Talvez também isso explique muito de sua invisibilidade.
Até mesmo nós, amigos e companheiros, acreditávamos nessa fantasia, que nos garantia que a fé e a contenção poderiam funcionar para endireitar o comportamento – assim entendido – errôneo e doentio. Seria como um “gays anônimos“. Pensávamos que a imersão num mundo de crenças místicas associadas à ideia da reencarnação poderia causar dois resultados: o fim das ideias obsessivas em relação ao mesmo sexo ou – no caso de falha – uma ajuda no penoso processo de contenção e castidade. Afinal, se Chico e Divaldo recomendavam “sublimar” seus impulsos em nome da moral, do trabalho e das promessas realizadas antes do nascimento, por que haveriam eles de sucumbir?
Todos os meus amigos, gays espíritas da juventude, romperam com o movimento espírita com graus variáveis de violência logo após a saída da adolescência ou mesmo durante essa fase. Muitos deles sequer aceitam falar no assunto. Muitos pediram acolhimento na Umbanda e alguns se tornaram agnósticos. Todos se sentiram oprimidos e pouco acolhidos nas hostes espíritas, e hoje posso reconhecer que tinham boas razões. Eu mesmo testemunhei palestras catastróficas em Centros Espíritas sobre o tema e senti na pele a ardência da rejeição quando, ao ser convidado para um seminário, falei de forma mais compreensiva e acolhedora sobre o tema. Em algumas vezes pensei, logo após uma palestra que praticamente criminalizava a homossexualidade: “se eu fosse gay só me restaria uma vida de culpa imobilizante ou o suicídio“.
Meus amigos precisaram abandonar o espiritismo mesmo mantendo suas crenças na reencarnação, mediunidade, na sobrevivência do espírito ou nas leis de causa e efeito, pois o convívio com o moralismo cristão espírita foi tóxico demais para suas vidas. É uma pena que tal barreira ainda permaneça no seio de uma filosofia que deveria ser progressista e apta a comandar a transição para uma compreensão mais alargada sobre tais fenômenos.
Pode um elogio sincero e emocionado ser o corolário de um gesto heroico e ao mesmo tempo guardar em seu âmago uma incômoda injustiça?
O corpo pesado da senhora aterrissou ruidosamente no solo frio do corredor do hospital fazendo um ruído surdo reverberar pelas paredes. De costas para o solo sua mão tocava a faixa amarela que guiava os pacientes para a sala de ecografias. Apenas um murmúrio saía de sua boca descorada. Os olhos vidrados olhavam para o teto branco sem se mover. Como testemunhas de sua queda, apenas nós.
O expediente do hospital chegava ao seu fim e os poucos pacientes que ainda circulavam pela recepção estavam marcando consultas ou retirando exames no guichê. Os consultórios se encontravam vazios e os médicos já se dirigiam para seus carros no estacionamento em frente. Apenas nós ainda caminhávamos pelos corredores depois de tomar o último gole de café. Alguns poucos minutos antes do corpo estender-se no piso do corredor do hospital eu e Fabrício estivéramos conversando sobre nossas dificuldades de encarar uma medicina cada vez mais mercantilista e limitada. Não nos parecia razoável que a teia intrincada e complexa do sofrimento humano pudesse ser traduzida tão somente por alterações mecânicas e químicas, sem levar em consideração a palavra e sua potência. Havia algo da alma humana a ser explorado, algo que não suportava o confinamento na caixa estreita do modelo tecnocrático da medicina. Os poucos anos que nos separavam de nossa formatura eram suficientes para antevermos uma vida inteira em que esses dilemas se apresentariam diante de nós. As conversas ao redor de xícaras fumegantes de café sempre giravam em torno de alternativas, modelos paralelos e complementares, vias de entendimento diferentes e criativas. Este havia sido o tema de mais um debate de fim de expediente na cafeteria do hospital. Fabrício também voltaria para casa, mas eu permaneceria pois estaria no “plantão geral” para as emergências. Nossas despedidas foram interrompidas pelo som do corpanzil que caiu poucos metros à nossa frente.
A princípio pensei se tratar de um escorregão, mas a imobilidade da senhora que se seguiu à queda logo me mostrou que se tratava de mais do que um mero tropeção. O corpo jogado ao solo com as pernas tortas e o dorso colado ao chão denunciavam mesmo uma perda súbita de consciência. Estávamos distantes dela não mais do que parcos 15 metros, e assim que a vimos corremos imediatamente para ajudá-la e tentar entender do que se tratava. Ao nos aproximarmos a palidez era chocante, e os lábios se limitavam a duas listas violáceas a rasgar a pele marmórea do rosto. Ela balbuciava palavras desconexas enquanto tentava, sem sucesso, focar seu olhar de nós. Segurei o braço da mulher com a intenção de erguê-la, enquanto Fabrício colocava os dedos em seu pescoço para avaliar seus batimentos cardíacos. A pobre senhora a tudo assistia em profunda confusão.
Passados poucos instantes Fabrício segurou meu braço e exclamou:
– Fibrilação ventricular. Cardioversão!!
Fabrício era um clínico e intensivista muito qualificado, apesar de mal ter passado dos 30 anos. Eu cheguei a questionar uma medida que me parecia tão extrema em uma paciente que não estava inconsciente, apenas confusa, ao que Fabrício respondeu como firmeza: “Cuide das grávidas, disso aqui cuido eu!!” Obedeci sem questionar, por certo, e me limitei a ajudá-lo a carregar a paciente para a sala de emergência, que se encontrava apenas poucos metros de onde ela havia caído. Ao perceberem a movimentação inusitada para aquele horário de fim de tarde, as enfermeiras e atendentes se aproximaram e nos ajudaram no transporte de poucos metros até a maca na sala de emergência. Com a paciente já acomodada na sala, e com o aparelho ligado em suas mãos, Fabrício gritou:
– Cardioversão!!! Afastem-se!!
Não é necessário ser médico ou enfermeira para entender o que isso significa, basta ter assistido algum programa dramático sobre o cotidiano de uma unidade de emergência. O aviso serviria para que ninguém recebesse desavisadamente parte da carga de 100 jaules de energia que seriam transmitidos entre os dois polos do cardioversor visando a retomada do ritmo cardíaco normal.
“BUM”, fez o aparelho, enquanto as pernas da senhora eram jogadas reflexamente para o alto.
A isso seguiu-se uma nova avaliação de Fabrício sobre seu ritmo cardíaco. Depois de um silêncio momentâneo, repetiu-se o aviso.
– Outra carga, afastem-se!!!
Novo chacoalhar de braços e pernas para cima. Depois o silêncio. Novamente a mão de Fabrício tateou as carótidas da senhora.
– Ritmo sinusal. Revertemos. Podem levá-la para a UTI.
A cena toda não durou mais de 10 minutos. Menos talvez, mas as brumas do tempo me impedem de recordar de maneira exata. Pouco afeito às manobras das UTIs, fiquei vivamente impressionado com a pronta ação do meu colega. O diagnóstico preciso, a ação imediata, a repetição quando foi necessária e a resolução da emergência me deixaram emocionado. Ainda tive tempo de cumprimentá-lo quando o vi acompanhar a maca que cruzaria o hospital em direção à Unidade Intensiva.
Passei aquela noite de plantão no hospital pensando nas múltiplas variáveis que precisaram estar presentes para que aquele milagre viesse a ocorrer. Sim, ouso chamar de milagre porque houve uma sequência de eventos que, caso algum deles estivesse fora do lugar, teria custado a vida daquela senhora. A presença do meu colega, já fora do expediente ao meu lado, foi o primeiro deles. Estivesse eu sozinho – um ginecologista e obstetra – e não seria capaz de fazer um diagnóstico cardiológico com tamanha precisão e rapidez, nem mesmo carregá-la para a sala de emergência. Além disso, a queda da senhora se deu a não mais de 15 metros de onde estávamos, enquanto caminhávamos sofregamente pelo corredor do hospital. Mais ainda, ela foi ao chão praticamente em frente à sala onde estava o cardioversor. Se Fabrício não estivesse comigo, se ela tivesse caído minutos antes, no estacionamento de onde veio ou mesmo se estivesse em outro ponto do hospital talvez o resultado seria um óbito por fibrilação seguido de parada cardíaca. A cena se repetia em minha mente enquanto eu pensava sobre a fragilidade da vida e os encontros ocasionais de elementos fortuitos que causam tanto os milagres quanto as tragédias.
Duas semanas se passaram desde o acontecido, e neste período eu ficava sabendo da paciente pelas conversas com Fabrício na hora sagrada do café. Sua recuperação havia sido excelente e ela finalmente teve alta hospitalar. Saiu com uma avaliação geral e uma série de medicamentos para corrigir seu distúrbio cardíaco básico. No dia que se seguiu à alta o diretor do hospital encerrou o “briefing” que iniciava um novo dia de trabalho lendo para todos os médicos, enfermeiras, bioquímicos e fisioterapeutas do turno da manhã uma carta escrita a punho pela paciente agradecida. Não recordo das palavras exatas, mas o teor era claro. Agradecia às enfermeiras, médicos e pessoal de suporte pela atenção recebida durante a sua estada no hospital, e em especial a Deus por ter oferecido a ela uma nova oportunidade de continuar vivendo depois do quadro dramático e inesperado pelo qual passou. Entretanto, dizia ela, “nenhum fator foi mais importante que a ação corajosa, profissional e altamente qualificada do Dr Fabrício, de quem me sinto eternamente devedora”.
Depois de lida a carta o diretor solicitou que todos os profissionais presentes à reunião se levantassem e aplaudissem nosso colega pelo excelente trabalho realizado, o que fizemos de forma veemente e sincera. Muitos foram os que se dirigiram ao meu colega e o abraçaram efusivamente, cumprimentando-o pelos elogios merecidos relacionados àquele atendimento. Eu fui um deles. Entretanto, o rosto de Fabrício não parecia estar muito feliz com o acontecimento. Em verdade, a cada abraço e aperto de mão ele respondia com um sorriso constrangido e uma explícita inquietude. Quando a reunião se encerrou, chegou-se próximo a mim e confidenciou:
– Não me parece correto, Ric. Não acho justo. Existe uma grande injustiça aqui.
Fiquei a princípio intrigado com sua reação. Como poderia haver injustiça em uma ação perfeita, correta, profissional e, acima de tudo, salvadora? Não lhe parecia justo que a paciente, cuja vida só se manteve por sua ação imediata, agradecesse por tudo que recebeu de um profissional qualificado?
– Não entendi, Fabrício. Afinal, qual a sua contrariedade?
Ele respondeu:
– Não me entenda mal, Ric. Eu me sinto feliz e envaidecido pelas homenagens, mesmo sabendo que, para um intensivista, o que fiz não seja algo tão complexo. Fui treinado para fazer isso. Também me chamou a atenção, e aposto que a você também, o impressionante encadeamento de eventos que permitiram que ela fosse atendida a tempo de sobreviver. Não é incrível?
Respondi afirmativamente com um meneio de cabeça. Ele continuou.
– Mas não é isso que me incomoda. Sabe o que ela estava fazendo àquela hora no corredor? Ela havia acabado de marcar uma consulta no setor de clínica médica depois de mais de um ano sem comparecer ao hospital. Ela já tinha há alguns anos o diagnóstico de arritmia cardíaca, mas não estava se tratando. Tomava remédios de forma errática e em doses inadequadas. Quando indagada porque deixou de marcar consultas no hospital disse que o médico que lhe atendia na época não lhe dava suficiente atenção e era frequentemente rude com ela. Parou de comparecer, atrasou as revisões, não se medicou com adequação e isso tudo levou ao desfecho que vimos no corredor do hospital.
– Sim, Fabrício, eu entendo, certamente que houve falhas. Ela não foi corretamente tratada e isso levou ao agravamento da doença básica. Não tivemos competência para prevenir este caso, mas nada disso retira o brilhantismo de sua atuação e sua conduta. Cara, você foi brilhante!! Você é o meu herói!!
Ele sorriu do meu entusiasmo, mas continuou sua narrativa.
– Mas Ric, você não está enxergando a injustiça? Não percebe que existe uma falha grave nessa homenagem?
Mais uma vez fiz uma cara de surpresa e pedi que me explicasse.
– Ora, Ric, deixe que eu lhe explique. Há algumas quadras daqui há um posto de saúde da prefeitura onde um médico clínico geral “genérico” trabalha. Ele é mal pago, atende dezenas de pacientes por dia e tem uma sobrecarga grande de trabalho. Entretanto, ele é um “médico de verdade”. Tem profundo amor pelos seus pacientes e oferece a eles um tratamento não apenas baseado em evidências, mas complementado por um entendimento psicológico, afetivo, emocional e social de suas enfermidades. Conhece os pacientes pelos nomes e sabe de suas vidas, suas dores, seus fracassos, suas feridas – no corpo e na alma – e trata-os da forma mais integrativa possível. Nenhum paciente foge das consultas, pois em cada uma delas nosso “herói de periferia” os escuta, ajuda, consola, orienta e medica adequadamente. Não existem desistências ou negligências.
– Sim, estou acompanhando, disse eu
– Pois o resultado do trabalho desse colega anônimo, escondido num acanhado posto de saúde – mas poderia também estar em um consultório de luxo – é que seus pacientes correm um risco muito menor de descompensarem de forma grave e súbita. Eles dificilmente abandonam o tratamento ou negligenciam sua saúde. Este médico é o verdadeiro sustentáculo do tratamento, muito mais do que qualquer droga ou procedimento. Repetindo o dizer de Balint “ele é o melhor remédio que seus pacientes podem ter”. Sua condução firme, ao mesmo tempo afetiva, oferece estímulo e coragem para que seus pacientes se mantenham em tratamento.
– Acho que sei onde você quer chegar, Fabrício.
– Sim, Ric, pois o que considero injusto é que exatamente a boa condução do tratamento, a qual torna muito difícil que seus pacientes venham a piorar gravemente, é o que nos impede de enxergar a magnitude do seu trabalho de preservação da saúde. Nós valorizamos o ato heroico que surgiu após uma série de pequenos fracassos, mas não aplaudimos o trabalho silencioso dos profissionais que impedem que os desastres aconteçam. Homenageamos apenas o que enxergamos, o espetáculo, a ação salvadora, o sucesso e a vida por um fio, mas deixamos de reverenciar todas as ações invisíveis à olho desarmado cuja excelência bloqueia – ainda na semente – as tragédias evitáveis.
Suspirou com um certo pesar e arrematou.
– Não me importo que reconheçam o meu trabalho, mas não posso permitir que essa injustiça se estabeleça. Existem centenas de colegas cujo trabalho não é percebido e elogiado exatamente porque são competentes e dedicados. Assim não lhe parece?
– Sim, caríssimo, estou de acordo. Também percebo que cada vez que um parto normal impede uma infecção hospitalar ou um problema futuro por uma cesariana estamos plantando sementes invisíveis de saúde. Sei o quanto é gratificante ser reconhecido por um trabalho como o seu, mas ao mesmo tempo reconheço que existem trabalhos muito mais importantes e abrangentes, os quais não recebem o devido reconhecimento por serem menos vistosos e espetaculares.
– Seguro que sim, respondeu meu colega. Mas enquanto não encontramos uma resposta definitiva para mais este dilema da medicina, que tal buscarmos a solução provisória que, apesar de ser a mais imediatista, é certamente a mais saborosa?
A “distanásia”, compreendida como a terapêutica de manutenção artificial da vida para além de uma esperança ou uma recuperação, é uma “praga” que não foi introduzida pela medicina, mas pela cultura. Quem trabalha em UTIs sabe como é o peso de tomar decisões sobre a manutenção de uma vida em estado vegetativo sem esperança de retorno.
Lembro de um caso na Santa Casa de Porto Alegre nos anos 80. Paciente idoso, em coma, múltiplos transtornos de saúde, diabético, pós AVC. Família pobre. Os filhos e netos se revezavam nas visitas, que eram “caras”, pois trabalhavam durante o dia e vinham de uma cidade vizinha para visitar o velhinho. Certa vez a filha teve um acesso de raiva e desesperança e passou a nos questionar porque daquela “indignidade”, porque não permitiam que ele se fosse “sem sofrer”, qual a razão de prolongar inutilmente uma vida que não mais voltaria. Meu colega (eu era estudante na época) escutava com atenção e balançava a cabeça. Por repetidas vezes dizia: “Enquanto houver um fio de vida lutaremos por ela”. A tudo eu escutava, mas os argumentos da filha me pareciam sensatos e justos. O que estávamos realmente fazendo? Prolongando funções vitais artificialmente em um laboratório? Qual o sentido para o sujeito e sua família de um coração que ainda bate, mas que nenhuma emoção ou sentimento transita entre este corpo e nós?
Depois do desabafo ela se pôs a chorar e se retirou. Meu colega preceptor apenas me falou: “É o que nos cabe dizer“, e voltamos aos nossos afazeres. Entendi que ele também concordava com os argumentos da filha e compartilhava sua angústia, mas seu papel como médico não lhe permitia ler um outro script que não o “mantra da vida sagrada” que ele havia repetido de forma maçante para a pobre moça.
Uma semana depois o velho morre, naturalmente, durante a madrugada. “SPP” (se parar, parou) se dizia na época. Após uma brava luta contra o desenlace do qual só podemos adiar, depôs suas armas e entregou-se para a vida de lá. Logo após a constatação de morte saímos para fora da UTI e informamos a família.
A filha mais velha se aproximou de nós e disparou: “Eu sabia que ele ia morrer nessa pocilga. Vocês o mataram. Não permitiram sequer que ele acordasse para que fosse possível uma despedida digna. Vocês vão ver, vamos tirar isso a limpo”.
Mas, mas…. a mesma filha que uma semana antes pedia para abreviarmos o sofrimento inútil e custoso do seu pai agora nos acusa exatamente quando seu pai consegue finalmente descansar?
“Exatamente, disse Max, meu colega. Suas acusações nada mais são que um artifício psicológico para se livrar da culpa corrosiva que sente por estar tão aliviada com a morte do pai. É por essa razão, acima de qualquer outra, que mesmo concordando com todos os argumentos que ela havia nos apresentado, ainda não é possível abrir a guarda e encarar a morte como fazendo parte da vida. Os mesmos pacientes que se solidarizam facilmente podem nos apedrejar.”
Max fez uma pausa e continuou.
“É triste, mas a mudança não virá de nós…. virá de todos, ou não virá. Enquanto essa nova postura diante da morte não chega não será possível abandonar o clichê anacrônico de “preservar a vida acima de tudo”, mesmo quando esta não passar de meras funções vitais de um sujeito que há muito se foi”.
Para mais informações sobre o tema, leia o artigo da Prof Maria Júlia Kovács aqui