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Injustiça

Pode um elogio sincero e emocionado ser o corolário de um gesto heroico e ao mesmo tempo guardar em seu âmago uma incômoda injustiça?

O corpo pesado da senhora aterrissou ruidosamente no solo frio do corredor do hospital fazendo um ruído surdo reverberar pelas paredes. De costas para o solo sua mão tocava a faixa amarela que guiava os pacientes para a sala de ecografias. Apenas um murmúrio saía de sua boca descorada. Os olhos vidrados olhavam para o teto branco sem se mover. Como testemunhas de sua queda, apenas nós.

O expediente do hospital chegava ao seu fim e os poucos pacientes que ainda circulavam pela recepção estavam marcando consultas ou retirando exames no guichê. Os consultórios se encontravam vazios e os médicos já se dirigiam para seus carros no estacionamento em frente. Apenas nós ainda caminhávamos pelos corredores depois de tomar o último gole de café. Alguns poucos minutos antes do corpo estender-se no piso do corredor do hospital eu e Fabrício estivéramos conversando sobre nossas dificuldades de encarar uma medicina cada vez mais mercantilista e limitada. Não nos parecia razoável que a teia intrincada e complexa do sofrimento humano pudesse ser traduzida tão somente por alterações mecânicas e químicas, sem levar em consideração a palavra e sua potência. Havia algo da alma humana a ser explorado, algo que não suportava o confinamento na caixa estreita do modelo tecnocrático da medicina. Os poucos anos que nos separavam de nossa formatura eram suficientes para antevermos uma vida inteira em que esses dilemas se apresentariam diante de nós. As conversas ao redor de xícaras fumegantes de café sempre giravam em torno de alternativas, modelos paralelos e complementares, vias de entendimento diferentes e criativas. Este havia sido o tema de mais um debate de fim de expediente na cafeteria do hospital. Fabrício também voltaria para casa, mas eu permaneceria pois estaria no “plantão geral” para as emergências. Nossas despedidas foram interrompidas pelo som do corpanzil que caiu poucos metros à nossa frente.

A princípio pensei se tratar de um escorregão, mas a imobilidade da senhora que se seguiu à queda logo me mostrou que se tratava de mais do que um mero tropeção. O corpo jogado ao solo com as pernas tortas e o dorso colado ao chão denunciavam mesmo uma perda súbita de consciência. Estávamos distantes dela não mais do que parcos 15 metros, e assim que a vimos corremos imediatamente para ajudá-la e tentar entender do que se tratava. Ao nos aproximarmos a palidez era chocante, e os lábios se limitavam a duas listas violáceas a rasgar a pele marmórea do rosto. Ela balbuciava palavras desconexas enquanto tentava, sem sucesso, focar seu olhar de nós. Segurei o braço da mulher com a intenção de erguê-la, enquanto Fabrício colocava os dedos em seu pescoço para avaliar seus batimentos cardíacos. A pobre senhora a tudo assistia em profunda confusão.

Passados poucos instantes Fabrício segurou meu braço e exclamou:

– Fibrilação ventricular. Cardioversão!!

Fabrício era um clínico e intensivista muito qualificado, apesar de mal ter passado dos 30 anos. Eu cheguei a questionar uma medida que me parecia tão extrema em uma paciente que não estava inconsciente, apenas confusa, ao que Fabrício respondeu como firmeza: “Cuide das grávidas, disso aqui cuido eu!!” Obedeci sem questionar, por certo, e me limitei a ajudá-lo a carregar a paciente para a sala de emergência, que se encontrava apenas poucos metros de onde ela havia caído. Ao perceberem a movimentação inusitada para aquele horário de fim de tarde, as enfermeiras e atendentes se aproximaram e nos ajudaram no transporte de poucos metros até a maca na sala de emergência. Com a paciente já acomodada na sala, e com o aparelho ligado em suas mãos, Fabrício gritou:

– Cardioversão!!! Afastem-se!!

Não é necessário ser médico ou enfermeira para entender o que isso significa, basta ter assistido algum programa dramático sobre o cotidiano de uma unidade de emergência. O aviso serviria para que ninguém recebesse desavisadamente parte da carga de 100 jaules de energia que seriam transmitidos entre os dois polos do cardioversor visando a retomada do ritmo cardíaco normal.

BUM”, fez o aparelho, enquanto as pernas da senhora eram jogadas reflexamente para o alto.

A isso seguiu-se uma nova avaliação de Fabrício sobre seu ritmo cardíaco. Depois de um silêncio momentâneo, repetiu-se o aviso.

– Outra carga, afastem-se!!!

Novo chacoalhar de braços e pernas para cima. Depois o silêncio. Novamente a mão de Fabrício tateou as carótidas da senhora.

– Ritmo sinusal. Revertemos. Podem levá-la para a UTI.

A cena toda não durou mais de 10 minutos. Menos talvez, mas as brumas do tempo me impedem de recordar de maneira exata. Pouco afeito às manobras das UTIs, fiquei vivamente impressionado com a pronta ação do meu colega. O diagnóstico preciso, a ação imediata, a repetição quando foi necessária e a resolução da emergência me deixaram emocionado. Ainda tive tempo de cumprimentá-lo quando o vi acompanhar a maca que cruzaria o hospital em direção à Unidade Intensiva.

Passei aquela noite de plantão no hospital pensando nas múltiplas variáveis que precisaram estar presentes para que aquele milagre viesse a ocorrer. Sim, ouso chamar de milagre porque houve uma sequência de eventos que, caso algum deles estivesse fora do lugar, teria custado a vida daquela senhora. A presença do meu colega, já fora do expediente ao meu lado, foi o primeiro deles. Estivesse eu sozinho – um ginecologista e obstetra – e não seria capaz de fazer um diagnóstico cardiológico com tamanha precisão e rapidez, nem mesmo carregá-la para a sala de emergência. Além disso, a queda da senhora se deu a não mais de 15 metros de onde estávamos, enquanto caminhávamos sofregamente pelo corredor do hospital. Mais ainda, ela foi ao chão praticamente em frente à sala onde estava o cardioversor. Se Fabrício não estivesse comigo, se ela tivesse caído minutos antes, no estacionamento de onde veio ou mesmo se estivesse em outro ponto do hospital talvez o resultado seria um óbito por fibrilação seguido de parada cardíaca. A cena se repetia em minha mente enquanto eu pensava sobre a fragilidade da vida e os encontros ocasionais de elementos fortuitos que causam tanto os milagres quanto as tragédias.

Duas semanas se passaram desde o acontecido, e neste período eu ficava sabendo da paciente pelas conversas com Fabrício na hora sagrada do café. Sua recuperação havia sido excelente e ela finalmente teve alta hospitalar. Saiu com uma avaliação geral e uma série de medicamentos para corrigir seu distúrbio cardíaco básico. No dia que se seguiu à alta o diretor do hospital encerrou o “briefing” que iniciava um novo dia de trabalho lendo para todos os médicos, enfermeiras, bioquímicos e fisioterapeutas do turno da manhã uma carta escrita a punho pela paciente agradecida. Não recordo das palavras exatas, mas o teor era claro. Agradecia às enfermeiras, médicos e pessoal de suporte pela atenção recebida durante a sua estada no hospital, e em especial a Deus por ter oferecido a ela uma nova oportunidade de continuar vivendo depois do quadro dramático e inesperado pelo qual passou. Entretanto, dizia ela, “nenhum fator foi mais importante que a ação corajosa, profissional e altamente qualificada do Dr Fabrício, de quem me sinto eternamente devedora”.

Depois de lida a carta o diretor solicitou que todos os profissionais presentes à reunião se levantassem e aplaudissem nosso colega pelo excelente trabalho realizado, o que fizemos de forma veemente e sincera. Muitos foram os que se dirigiram ao meu colega e o abraçaram efusivamente, cumprimentando-o pelos elogios merecidos relacionados àquele atendimento. Eu fui um deles. Entretanto, o rosto de Fabrício não parecia estar muito feliz com o acontecimento. Em verdade, a cada abraço e aperto de mão ele respondia com um sorriso constrangido e uma explícita inquietude. Quando a reunião se encerrou, chegou-se próximo a mim e confidenciou:

– Não me parece correto, Ric. Não acho justo. Existe uma grande injustiça aqui.

Fiquei a princípio intrigado com sua reação. Como poderia haver injustiça em uma ação perfeita, correta, profissional e, acima de tudo, salvadora? Não lhe parecia justo que a paciente, cuja vida só se manteve por sua ação imediata, agradecesse  por tudo que recebeu de um profissional qualificado?

– Não entendi, Fabrício. Afinal, qual a sua contrariedade?

Ele respondeu:

– Não me entenda mal, Ric. Eu me sinto feliz e envaidecido pelas homenagens, mesmo sabendo que, para um intensivista, o que fiz não seja algo tão complexo. Fui treinado para fazer isso. Também me chamou a atenção, e aposto que a você também, o impressionante encadeamento de eventos que permitiram que ela fosse atendida a tempo de sobreviver. Não é incrível?

Respondi afirmativamente com um meneio de cabeça. Ele continuou.

– Mas não é isso que me incomoda. Sabe o que ela estava fazendo àquela hora no corredor? Ela havia acabado de marcar uma consulta no setor de clínica médica depois de mais de um ano sem comparecer ao hospital. Ela já tinha há alguns anos o diagnóstico de arritmia cardíaca, mas não estava se tratando. Tomava remédios de forma errática e em doses inadequadas. Quando indagada porque deixou de marcar consultas no hospital disse que o médico que lhe atendia na época não lhe dava suficiente atenção e era frequentemente rude com ela. Parou de comparecer, atrasou as revisões, não se medicou com adequação e isso tudo levou ao desfecho que vimos no corredor do hospital.

– Sim, Fabrício, eu entendo, certamente que houve falhas. Ela não foi corretamente tratada e isso levou ao agravamento da doença básica. Não tivemos competência para prevenir este caso, mas nada disso retira o brilhantismo de sua atuação e sua conduta. Cara, você foi brilhante!! Você é o meu herói!!

Ele sorriu do meu entusiasmo, mas continuou sua narrativa.

– Mas Ric, você não está enxergando a injustiça? Não percebe que existe uma falha grave nessa homenagem?

Mais uma vez fiz uma cara de surpresa e pedi que me explicasse.

– Ora, Ric, deixe que eu lhe explique. Há algumas quadras daqui há um posto de saúde da prefeitura onde um médico clínico geral “genérico” trabalha. Ele é mal pago, atende dezenas de pacientes por dia e tem uma sobrecarga grande de trabalho. Entretanto, ele é um “médico de verdade”. Tem profundo amor pelos seus pacientes e oferece a eles um tratamento não apenas baseado em evidências, mas complementado por um entendimento psicológico, afetivo, emocional e social de suas enfermidades. Conhece os pacientes pelos nomes e sabe de suas vidas, suas dores, seus fracassos, suas feridas – no corpo e na alma – e trata-os da forma mais integrativa possível. Nenhum paciente foge das consultas, pois em cada uma delas nosso “herói de periferia” os escuta, ajuda, consola, orienta e medica adequadamente. Não existem desistências ou negligências.

– Sim, estou acompanhando, disse eu

– Pois o resultado do trabalho desse colega anônimo, escondido num acanhado posto de saúde – mas poderia também estar em um consultório de luxo – é que seus pacientes correm um risco muito menor de descompensarem de forma grave e súbita. Eles dificilmente abandonam o tratamento ou negligenciam sua saúde. Este médico é o verdadeiro sustentáculo do tratamento, muito mais do que qualquer droga ou procedimento. Repetindo o dizer de Balint “ele é o melhor remédio que seus pacientes podem ter”. Sua condução firme, ao mesmo tempo afetiva, oferece estímulo e coragem para que seus pacientes se mantenham em tratamento.

– Acho que sei onde você quer chegar, Fabrício.

– Sim, Ric, pois o que considero injusto é que exatamente a boa condução do tratamento, a qual torna muito difícil que seus pacientes venham a piorar gravemente, é o que nos impede de enxergar a magnitude do seu trabalho de preservação da saúde. Nós valorizamos o ato heroico que surgiu após uma série de pequenos fracassos, mas não aplaudimos o trabalho silencioso dos profissionais que impedem que os desastres aconteçam. Homenageamos apenas o que enxergamos, o espetáculo, a ação salvadora, o sucesso e a vida por um fio, mas deixamos de reverenciar todas as ações invisíveis à olho desarmado cuja excelência bloqueia – ainda na semente – as tragédias evitáveis.

Suspirou com um certo pesar e arrematou.

– Não me importo que reconheçam o meu trabalho, mas não posso permitir que essa injustiça se estabeleça. Existem centenas de colegas cujo trabalho não é percebido e elogiado exatamente porque são competentes e dedicados. Assim não lhe parece?

– Sim, caríssimo, estou de acordo. Também percebo que cada vez que um parto normal impede uma infecção hospitalar ou um problema futuro por uma cesariana estamos plantando sementes invisíveis de saúde. Sei o quanto é gratificante ser reconhecido por um trabalho como o seu, mas ao mesmo tempo reconheço que existem trabalhos muito mais importantes e abrangentes, os quais não recebem o devido reconhecimento por serem menos vistosos e espetaculares.

– Seguro que sim, respondeu meu colega. Mas enquanto não encontramos uma resposta definitiva para mais este dilema da medicina, que tal buscarmos a solução provisória que, apesar de ser a mais imediatista, é certamente a mais saborosa?

– Sim, colega…. café!!!

– Não há porque divergir sobre isso!!

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Distanásia

A “distanásia”, compreendida como a terapêutica de manutenção artificial da vida para além de uma esperança ou uma recuperação, é uma “praga” que não foi introduzida pela medicina, mas pela cultura. Quem trabalha em UTIs sabe como é o peso de tomar decisões sobre a manutenção de uma vida em estado vegetativo sem esperança de retorno.

Lembro de um caso na Santa Casa de Porto Alegre nos anos 80. Paciente idoso, em coma, múltiplos transtornos de saúde, diabético, pós AVC. Família pobre. Os filhos e netos se revezavam nas visitas, que eram “caras”, pois trabalhavam durante o dia e vinham de uma cidade vizinha para visitar o velhinho. Certa vez a filha teve um acesso de raiva e desesperança e passou a nos questionar porque daquela “indignidade”, porque não permitiam que ele se fosse “sem sofrer”, qual a razão de prolongar inutilmente uma vida que não mais voltaria. Meu colega (eu era estudante na época) escutava com atenção e balançava a cabeça. Por repetidas vezes dizia: “Enquanto houver um fio de vida lutaremos por ela”. A tudo eu escutava, mas os argumentos da filha me pareciam sensatos e justos. O que estávamos realmente fazendo? Prolongando funções vitais artificialmente em um laboratório? Qual o sentido para o sujeito e sua família de um coração que ainda bate, mas que nenhuma emoção ou sentimento transita entre este corpo e nós?

Depois do desabafo ela se pôs a chorar e se retirou. Meu colega preceptor apenas me falou: “É o que nos cabe dizer“, e voltamos aos nossos afazeres. Entendi que ele também concordava com os argumentos da filha e compartilhava sua angústia, mas seu papel como médico não lhe permitia ler um outro script que não o “mantra da vida sagrada” que ele havia repetido de forma maçante para a pobre moça.

Uma semana depois o velho morre, naturalmente, durante a madrugada. “SPP” (se parar, parou) se dizia na época. Após uma brava luta contra o desenlace do qual só podemos adiar, depôs suas armas e entregou-se para a vida de lá. Logo após a constatação de morte saímos para fora da UTI e informamos a família.

A filha mais velha se aproximou de nós e disparou: “Eu sabia que ele ia morrer nessa pocilga. Vocês o mataram. Não permitiram sequer que ele acordasse para que fosse possível uma despedida digna. Vocês vão ver, vamos tirar isso a limpo”.

Mas, mas…. a mesma filha que uma semana antes pedia para abreviarmos o sofrimento inútil e custoso do seu pai agora nos acusa exatamente quando seu pai consegue finalmente descansar?

“Exatamente, disse Max, meu colega. Suas acusações nada mais são que um artifício psicológico para se livrar da culpa corrosiva que sente por estar tão aliviada com a morte do pai. É por essa razão, acima de qualquer outra, que mesmo concordando com todos os argumentos que ela havia nos apresentado, ainda não é possível abrir a guarda e encarar a morte como fazendo parte da vida. Os mesmos pacientes que se solidarizam facilmente podem nos apedrejar.”

Max fez uma pausa e continuou.

“É triste, mas a mudança não virá de nós…. virá de todos, ou não virá. Enquanto essa nova postura diante da morte não chega não será possível abandonar o clichê anacrônico de “preservar a vida acima de tudo”, mesmo quando esta não passar de meras funções vitais de um sujeito que há muito se foi”.

Para mais informações sobre o tema, leia o artigo da Prof Maria Júlia Kovács aqui

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Brasil dividido

Li o texto de Vera Iaconelli na Folha de São Paulo de hoje, 2 de janeiro 2018, “Ódio ao Brasil” e de pronto concordei com sua tese sobre um Brasil que cultiva ódios e se distancia das nações mais democráticas por se manter atrelado a uma divisão arbitrária em sua sociedade. O debate sobre sermos um “país majoritariamente negro“, que eu discordei, é um detalhe irrelevante. Eu me associo à sua visão de país dividido, assim abraço a tese de Jessé Souza que acredita que somos uma sociedade que jamais se recuperou de “maio de 88”.

Sim, não errei de ano. Não me refiro à “maio de 68” em Paris, mas 13 de maio de 1888, data da promulgação da Lei Áurea. Nunca conseguimos nos recuperar plenamente do trauma do fim da escravidão. Jamais abandonamos a ideia inconsciente de uma sociedade dividida entre cidadãos e e escravos, entre gente e sub-gente; entre senhores e serviçais. É esse nojo do Brasil mestiço que esteve palpitando nas manifestações contra Dilma, naquele mar que misturava o verde e o amarelo nas camisetas com o branco da pele, e por cima daquelas faces raivosas uma fantasia de moralidade e combate à corrupção.

O silêncio das panelas é a prova insofismável de que nunca houve uma real rejeição à corrupção. O que movia essa parte mais branquinha do Brasil era o rechaço a um projeto de pais mais igual, mais colorido, mais integrado. O pecado dos governantes de antes foi tocar no nervo exposto das castas sociais.

Lembrei de um colega dos meus tempos de médico militar. Sempre muito vaidoso, cultivava uma cabeleira fora dos padrões, mas para mantê-la parecia ter costas largas com os coronéis. Sempre se comportava como um Lord inglês perdido no meio de tupiniquins. Diz-se dele que, apesar do salário médio dos oficiais militares, adorava ostentar. Quando compareceu à festa de 10 anos de formatura da medicina em sua cidade teve o cuidado de chegar na festa com um carro importado. Alugado, mas ninguém precisava saber.

Uma vez durante as férias economizou o suficiente para viajar para a Europa com a esposa. Na volta me disse uma frase que nunca esqueci, referindo-se a Paris: “Aquilo sim que é cidade, e não essa chinelagem daqui. Eu merecia ter nascido lá, e não no meio dessa porcaria”.

Essa frase me marcou, mesmo passados quase 30 anos, porque resume a ideia de uma porção considerável da classe média branca brasileira. Parece a eles que acabaram de desembarcar no Brasil vindos do velho continente e perceberam que esse país está cheio de uma gente estranha, escura, ignorante e suja. “Aqui não é o meu lugar”, dizem eles de costas para o Brasil. Sua postura é de uma eterna distopia; estão no lugar errado, cercados de gente inferior.

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci brasileiro
(e ainda no Rio de Janeiro!!!)
– Chico Buarque –

Pois eu digo que esse Brasil que desprezam só é assim porque uma parte muito grande da classe média continua sonhando ser o que não é, além de cultivar uma postura xenofílica e pedante.

Na verdade é o Brasil que não precisa mais dessa classe média arrogante e egoísta.

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Presentes

Eu sempre achei a correria de presentes de fim de ano uma angústia maléfica, mais do que desnecessária, que se oferece às crianças. Não é segredo que as pessoas felizes não consomem. Sua realização pessoal e a harmonia de seus sentimentos não gera a necessidade de artifícios externos. Desta maneira,  o trabalho árduo dos publicitários é criar a infelicidade nos consumidores, para imediatamente lhes vender o remédio: “cargo”, a coisa, o produto.

Somos assim guiados por um hipnotismo social consumista que se inicia inoculando a sensação de impotência, falha e falta. O pior é que este padrão se inicia na infância, onde suas raízes são fincadas no solo fértil da personalidade nascente. Não existe nenhum consumista que não tenha o princípio do seu vício muito precocemente estabelecido na primeira infância. Por essa razão eu acredito que afastar as crianças deste tipo de ciclo vicioso de falta – saciedade – frustração é uma tarefa que cabe aos pais iniciar o quanto antes.

Nossa decisão – minha e de Zeza – de abolir os presentes de Natal, dia das crianças e até aniversário, tem uma história. Meus filhos foram os primeiros netos por parte dos meus pais e quando tinham uns 7 e 4 anos começaram a perguntar o que ganhariam de Natal. A partir disso se iniciou um “zunzum” por parte dos avós e das tias sobre quem daria o quê para quem. A Zeza notou que isso passou a ser, além de um assunto entre eles, uma fonte de ansiedade e expectativa.

Havia uma espécie de “cobrança” antecipada, como se as pessoas tivessem que pagar um pedágio pela alegria que o convívio com meus filhos lhes oferecia. Para além disso, havia um comércio velado. “Se você me der um presente eu lhe pago com uma demonstração calorosa de amor“. Quem resiste?

Porém, a pergunta que eu me fazia era: o que, em verdade, era “o presente”? Seria o brinquedo (afeto materializado) ou o amor encenado que eles nos ofereciam em troca? 

Zeza percebeu esse distúrbio e decretou, com seu jeito sempre meigo (irony mode on) de fazer essas comunicações: “Não quero nenhum presente para os meus filhos, senão não viremos à ceia”.

Sargentona… mas hoje acho que a sua decisão foi de profunda sabedoria. Ela sabia que essas atitudes nos pequenos geram comportamentos que muito dificilmente eliminamos na vida adulta. Ela intuía que precisava cortar o mal do consumismo pela raiz e assim fizemos.

Claro que meus filhos ganharam presentes na vida, até hoje, mas nunca determinados por uma data ou por uma obrigatoriedade. Se houvesse necessidade ou vontade isso seria feito, mas procuramos retirá-los o quanto antes de uma vida que ligava felicidade ao consumo de coisas.

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Mágica

Existe uma brincadeira que todo tio ou avô já fez com seu sobrinho ou neto. Eu até acho que como pai eu não fazia, mas agora velho acho irresistível: dar um tapinha no ombro contrário do meu neto e me fazer de maluco. Enquanto ele olha para o lado oposto em que estou tenho tempo de me recompor e fazer cara de paisagem. Aí ele me diz com uma graça irresistível: “Eu sei que foi tu, vovô!!”,  ao que eu respondo com surpresa e indignação.

Talvez algum psicólogo critique esta brincadeira, analisando-a sob a ótica das novas concepções do desenvolvimento emocional infantil, mas não consigo resistir, em especial porque depois ele tenta fazer o mesmo comigo e preciso encenar uma atuação espetacular para mostrar a ele que também estou sendo terrivelmente ludibriado.

Entretanto, no último domingo aconteceu um fato interessante. Estávamos almoçando em um restaurante e o Oliver sentou ao meu lado. Na TV à frente passava um jogo de futebol. Oliver comia uma fatia de pizza despreocupadamente e num momento de distração cutuquei seu ombro. Ele se voltou para o lado oposto onde eu estava, como esperado, e eu tive tempo de retornar para minha posição estática, sério e de olhos vidrados na TV.

Foi então que ele me surpreendeu. Quando me viu de braços cruzados, sério, compenetrado e olhando a TV…. ele chorou. Fez um muxoxo e disse “Não gostei”. Imediatamente sua mãe ralhou comigo, mas eu fiquei intrigado com o seu pranto. Comecei a falar com ele e notei que intercalava risadas envergonhadas com muxoxos. Fiquei intrigado pois queria entender a razão de chorar diante da brincadeira que era comum entre nós.

A resposta para esta indagação veio mais tarde quando pude reconhecer que o problema – perdão pela petulância – foi a excelência da “performance”. Sim, ao contrário das outras vezes, onde o criminoso é sempre um tanto óbvio, meus braços cruzados, o olhar fixo na TV e minha cara séria o desconcertaram. Eu o coloquei em contato com uma angústia bem primitiva: o medo do desconhecido.

Talvez este seja o mesmo fator que faz as crianças em especial (mas também os adultos) adorarem mágica. Existe uma regra básica na performance: o mágico é o elo entre o real e sua expressão aos sentidos. É por  ele que o truque passa, e a nossa ansiedade é controlada por esse conhecimento. “É tudo uma ilusão,  mesmo que eu não saiba como se produziu”. O mágico fez aquilo, de alguma forma.

Para Oliver o toque no ombro é obra de alguém, e isso lhe permite confiar nas leis do universo e transitar por ele com alguma segurança. Entretanto, se o avô estava tão distante do fato, com um comportamento tão alheio… poderia não ser ele – pelo menos desta vez. Quem seria? Que outra realidade poderia existir? Seria possível uma “mágica” real, verdadeira, um efeito sem causa?

Talvez isso tenha deixado Oliver com medo: a possibilidade de eventos que não podem ser explicados e traduzidos pela sua lógica, algo que lhe foge à compreensão. O “erro” cometido foi ser competente demais, não fazer uma boca torta ou um sorriso contido que denunciasse o truque e mostrasse o culpado. Isso o aliviaria “Ufa, foi o vovô de novo“.

Lembrei disso essa semana ao debater alguns temas no Facebook e perceber a angústia que desperta nas pessoas a apresentação de formas alternativas de abordar a realidade. Esta é a mesma angústia que sofrem os religiosos quando confrontados com a possibilidade de um mundo governado por leis outras que não a autoridade máxima de um Deus antropomórfico. Diante de uma ordem cósmica incompreensível – à primeira vista – a atitude natural é a negação e o combate visceral, como se aquela forma diferente de interpretar o mundo fosse uma ameaça à sua sanidade. Acontece na Medicina e em qualquer área do conhecimento.

Todavia, crescer é, acima de tudo, enfrentar esse desafio e encarar o abismo que se apresenta quando abrimos a porta para o universo e nos deixamos impregnar pela escuridão do infinito.

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Personagens de si mesmos

Lembrei hoje de um fato entre tantos de posturas preconceituosas e sexistas de professores de medicina. Este fato ocorreu há quase 40 anos durante um curso de verão na enfermaria de Medicina Interna do hospital universitário. O professor por certo já é falecido. Estávamos em um “round” debatendo casos da enfermaria quando o professor anunciou que precisaria se afastar por uma hora para acompanhar as entrevistas de seleção para os novos residentes do serviço.

Continuamos nas prescrições e questionamentos aos residentes (eu estava no 3o ano de medicina) até que o professor voltou da sua tarefa e perguntamos a ele como haviam sido as entrevistas. “Medianas“, respondeu com ar de enfado. “Nenhum candidato se sobressaiu. Todos ganharam notas médias, nada de mais”. Nesse momento ele parou por uns instantes sua fala e resolveu nos dar uma informação extra. “Só um deles recebeu de mim a nota zero”.  

Para os estudantes presentes essa poderia ser uma informação valiosa. Ficamos todos tentando imaginar o que levaria um professor a zerar a nota de um candidato na entrevista para uma vaga de residente em Medicina Interna. Talvez sabendo do erro cometido poderíamos evitá-lo quando nossa vez chegasse. Não me contive e perguntei ao professor a causa da nota baixa, sem me dar conta que a observação havia sido feita com o único propósito de firmar uma posição e expor um princípio.  

Ele desmunhecou“, disse ele, imitando o gesto afeminado com as mãos grossas, arrancando sorrisos acanhados dos estudantes e residentes presentes na sala. Eu não ri, e ele tomou minha seriedade como uma censura.  

“Eu não permitiria que um degenerado fosse residente nesse serviço”, disse ele visivelmente contrariado e me fuzilando com seus olhos azuis. “Tu gostarias que um sujeito como esse atendesse teu pai, tua mãe ou um irmão teu?”  

Não consegui responder, e minha apatia dói até hoje. Eu era um menino de 20 anos enfrentando, com o olhar parado e uma expressão atônita, um professor rico e famoso com idade para ser meu pai. Meu silêncio até hoje me incomoda, tantas vezes revi a cena e ensaiei respostas para o homem à minha frente. Mas naquele dia minha covardia e meu medo me venceram. Não consegui dizer do meu horror de imaginar um jovem médico sendo barrado no seu sonho apenas por sua orientação sexual.  

No ano seguinte um querido amigo homossexual foi selecionado para residência em pediatria naquele mesmo hospital e fiquei imaginando que sua entrada só ocorreu porque, durante a entrevista, teve que encenar, da forma mais cínica possível, um personagem que não despertasse desconfiança nos professores à sua frente.

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Homem de Verdade

E lá estava eu tentando arrumar de todas as formas o carro de uma amiga sem resultado. Sei que não é bateria porque posso escutar o motor girar, e também que não é falta de gasolina porque o mostrador está marcando “cheio”. Param por aí meus conhecimentos sobre mecânica. Minha ignorância sobre carros é espantosa. Não conheço marcas, modelos e há pouco tempo achava que os carros “Flex” tinham duas entradas independentes, para álcool e gasolina.

Desisti de achar uma solução, depois da busca indefectível por um fio desligado com o capô do carro levantado e uma cara de especialista. “Não adianta, disse eu para Flávia, melhor chamar um homem de verdade para consertar isso“.

Depois fiquei pensando que um homem de verdade é um cara forte, grandalhão, barbudo, com uma camisa xadrez, conhecedor de mecânica, é lenhador e caça sua própria comida.

Ah, é sujo e não lava o pinto…

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Simbolismos

Parei totalmente de fazer episiotomia num memorável plantão obstétrico em uma cidade vizinha de Porto Alegre quando corria o ano de 1990; lá se vão 27 anos. Resolvi testar a capacidade elástica dos períneos por mim mesmo, em uma época em que episiotomia era tabu e não realizá-la era considerado má prática. Todavia, essa determinações não vinham da ciência e das pesquisas, e sim através do “Guardiões do Saber da Província“, mais preocupados com a manutenção dos seus privilégios do que com a garantia da integridade física de suas pacientes.

O resultado de minha experiência prática nos plantões foi espantoso: os períneos, em sua imensa maioria, se mantinham íntegros ou com lacerações minúsculas. A paciência com a elasticidade perineal, conjugada com a posição vertical do parto – que eu já usava desde a residência – foi um grande sucesso, e apresentou duas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, demonstrou o que a pesquisa de Thacker & Banta já afirmava: não se justifica a episiotomia de rotina para proteção contra lacerações nos tecidos do períneo. Em segundo lugar, confirmou a tese de que a episiotomia era um ritual mutilatório por oferecer os três elementos que o constituem: padronização, repetição e simbolismo. Quanto à repetição e à padronização do procedimento não havia dúvidas, mas qual o simbolismo se escondia por detrás do meramente manifesto no corte sobre as estruturas perineais?

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, só parirás se for por mim”, dizia Max sobre a ação que abria as portas do claustro materno, permitindo assim a liberação do ser por ela sequestrado. Cabia a nós, médicos, permitir que o bebê pudesse escapar das amarras de pele e músculo pelas quais sua mãe o prendia. Era por nossa ação que ele escapava da prisão sufocante em que se encontrava, podendo finalmente encontrar o ar que o corpo de sua mãe teimosamente sonegava.

A episiotomia nos colocava gloriosamente no centro da parturição, atestando nossa importância no evento e confirmando nossa desconfiança milenar na defectividade essencial do corpo da mulher. O monstro da “vagina dentada”, se mutilava falos no passado, hoje encarcera bebês, e o bisturi da cultura ao corta-lhe a garganta devolve a nós o produto social – o bebê – agora pela mão hábil, precisa e segura do cirurgião.

Foi preciso acordar dessa fantasia, transmitida pelo currículo oculto da escola médica, para interromper as mutilações genitais que fui ensinado a fazer. Nunca me arrependi de ter abandonado essa prática medieval, mas ainda carrego um certo remorso pelas tantas vaginas que maltratei – por ignorância, medo e miopia – durante meus anos iniciais de prática.

Que elas possam um dia me perdoar.

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Copos limpos

“Humanização pode parecer um “plus a mais” quando em verdade deveria ser a condição “sine qua non” de qualquer atendimento à saúde.”

“Não confundir autonomia com protagonismo. Autonomia é decidir ter um filho por cesariana. Protagonismo é usar o bisturi para isso.”

 


 

Isso me lembra a história (fictícia ou não) que meu amigo Daniel Grassi me contou de uma aventura sua num restaurante na Índia.

Sabendo das condições não muito higiênicas do local um ocidental se aproxima do garçom e lhe diz:

– Traga para nós o menu e copos com leite. Mas, por favor, copos limpos!!

O garçom gira nos calcanhares e volta alguns minutos depois com os menus e uma bandeja de copos com leite. Coloca os menus na mesa e fala ao grupo:

– Aqui está o seu leite senhores. O copo limpo era para quem mesmo?

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Duas mães

Uma vez, aos 10 anos de idade, saí na porrada com um colega de aula. Ao chegar em casa a história ja tinha sido contada pela minha irmã fofoqueira. Levei pito do meu pai e da minha mãe. Expliquei: ele me chamou de “filho da puta”. Minha mãe deu uma risada e disse: “E tu achas que eu me incomodo com o que o pirralho do teu colega diz de mim?”. Eu suspirei fundo e expliquei: “Não era de você que ele estava falando, era da minha “mãe”. A minha mãe e você são duas pessoas diferentes e eu não admito que aquela outra seja ofendida. Entendeu?”

Meus pais ficaram me olhando assustados. Eles certamente anteviam que não poderia sair coisa boa daquele moleque.

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