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Suicídio na Classe Médica

suicidio

Enquanto escrevo essas palavras podemos mentalmente nos despedir de mais um médico que tirou – em algum lugar do planeta – sua própria vida. Sim, em média um médico por dia se suicida no mundo. O estresse de lidar com o “twilight” entre a vida e a morte, o medo de ver sua carreira destruída por um erro ou um mau resultado, a perseguição perversa e vingativa de pacientes e colegas e a pressão por parte de uma corporação mais interessada em poderes e dinheiro… acabam, com o tempo, destruindo o que existe de humano nos médicos.

Os sobreviventes muitas vezes se refugiam no cinismo e no desinteresse. A morte das paixões muitas vezes ocupa o lugar da morte do corpo, mas transforma estes homens e mulheres em zumbis que olham sofregamente para o relógio aguardando a aposentadoria que lhes oferece, pelo menos, um pouco de paz.

Quatro centenas de médicos no mundo dizem “chega” à própria vida todos os anos. Perdi alguns colegas desta forma, alguns da minha especialidade, mas o suicídio de pessoas que deveriam ser o primeiro apoio a quem pensa em tirar a própria vida mostra que estamos falhando. E estamos matando o que existe de transcendente na medicina. Humanizar a medicina é humanizar também o trabalho de quem cuida. O modelo de “crime e castigo”, punitivo e cruel, anacrônico e inútil, é um dos que mais contribuem com tal tragédia.

Quem sabe no futuro possamos mudar a mentalidade para uma visão mais acolhedora e curativa, ao invés de investir na abordagem mutilatória que aplicamos nos profissionais da medicina, a qual arranca deles o que de mais nobre e justo podem oferecer à sociedade.

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Pensamento Arriscado

ligadura

Um pensamento arriscado que me ocorreu:

Eu acho que se uma mulher deseja fazer uma laqueadura para evitar uma gravidez futura seu marido deveria ter ciência disso. Portanto, sua assinatura não deveria ser uma “autorização”, mas uma prova de que sabe da decisão de sua esposa no que se refere ao futuro reprodutivo de ambos. Se uma mulher casada não pode vender um imóvel sem a assinatura do marido, porque isso afeta a vida financeira de ambos, porque deveria ser diferente com a… decisão de ter filhos?

Ah… e antes que achem isso machista, penso exatamente o mesmo em relação às vasectomias. Um homem casado não pode se esterilizar sem que sua mulher SAIBA – não confundir essa atitude com “autorizar”.

Aceito contraditórios. Se eu estiver errado me digam a razão.No debate sobre esterilização – aqui entendida como uma ação realizada de forma autônoma por um sujeito para impedir a reprodução – eu retirei alguns pontos que acredito resumirem as posições apresentadas.

Aqui está o que eu percebi:

1 – Ninguém questiona o direito inalienável do sujeito fazer alterações na sua capacidade reprodutiva livre de preconceitos, coerções ou constrangimentos. Autonomia total sobre o corpo. Ninguém tem o direito de determinar o que será feito no corpo de outro adulto.

2 – Algumas pessoas acham que essa ação é pessoal e não pressupõe aquiescência do parceiro. Não seria necessário ao parceiro assinar nenhuma autorização. Entretanto, pela legislação corrente no SUS funciona ainda assim, para homens e mulheres, sendo exigida autorização compulsória por parte do cônjuge.

3 – Um outro grupo acha que a justiça não tem nada a ver com isso. Nenhum documento e nenhuma comunicação compulsória seriam necessários. Isso é da vida íntima do casal e o Estado não pode – ou não deve – se interpor numa relação íntima, que só pode ser resolvida pelos sujeitos envolvidos.

4 – Outro grupo acha que, assim como uma compra de imóvel afeta a ambos, pela comunhão de bens que rege o matrimônio, seria justo que houvesse a comprovação da notificação quando uma cirurgia fosse realizada. Isto é: você pode fazer o que quiser com seu corpo, mas se isso afetar expectativas do seu companheiro(a) será obrigado a notificar (a posteriori) para evitar danos a ele(a).

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Túnel do Tempo

Parto realizado no Hospital da Aeronáutica de Canoas em 25 de março de 1992. Parabéns aos pais pelo lindo parto e pela filha, que veio trazer alegrias e esperanças.

Repetindo, para que não reste dúvida: o parto, como componente da vida sexual normal de uma mulher, será SEMPRE palco de disputas. Negar estes conflitos, entendendo o parto como evento meramente mecânico e biológico, serve aos interesses daqueles que historicamente oprimiram as mulheres fazendo delas objetos de troca. Aceitar que a visão sobre o parto muda no tempo e nas latitudes nos permite sonhar com uma era de pleno protagonismo e segurança para o nascimento.

A quem interessa impedir esse sonho?

“O parto vai congregar de forma exemplar todos os valores que circulam no campo simbólico. Sendo um aspecto da sexualidade feminina sua expressão será tão livre quanto livre for a mulher no tempo e espaço no qual ocorrer. Não existe parto livre em sociedades opressivas com as mulheres, e ele jamais será violento em um lugar onde a mulher sabe o papel fundamental a ela destinado pela vida.”

Esse parto aconteceu no HACO, hospital da aeronáutica em Canoas no ano de 1992. A paciente me trouxe essa cópia, a qual pude assistir quase 1/4 de século depois. O privilégio de atender nascimentos por 34 anos foi o maior presente que eu poderia imaginar para uma vida. A todas as mulheres que me ensinaram sobre o milagre da vida através dos seus partos os meus mais calorosos agradecimentos.

Ha 24 anos o simples fato de ser um parto de cócoras causava horror na comunidade médica. Tamanha era a repulsa por qualquer método “alternativo” de atenção ao parto que até hoje, duas décadas e meia depois, o parto deitado e imóvel ainda é ensinado nas universidades e serviços obstétricos anacrônicos da minha cidade como se fosse a única forma possível – e aceitável – de atender um parto. A pesquisa “Nascendo no Brasil” mostrou que 91% dos partos no nosso país acontecem nessa posição, que há décadas sabemos ser prejudicial para ambos, mãe e bebê.

Imaginem como os meus colegas me olhavam naquela época, e terão uma ideia do ódio e ressentimento que os “donos” do parto aqui na província sempre cultivaram por mim.

Parto realizado no Hospital da Aeronáutica de Canoas em 25 de março de 1992. Parabéns aos pais pelo lindo parto e pela filha, que veio trazer alegrias e esperanças.

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Hospitais

Corredor-de-hospital

Nos Estados Unidos o debate é aberto sobre o abuso tecnológico na atenção à saúde. Nesse debate entre Bill Gurley e Malcolm Gladwell (sempre ele) o segundo afirma ao primeiro: “Um dos maiores mistérios, quando falamos com as pessoas da área da assistência à saúde, é: por que os hospitais continuam a existir? Não faz nenhum sentido atender um parto no mesmo lugar em que se trata um câncer intestinal.

Esse tipo de debate, aqui no Brasil, é tratado como heresia pelos donos do poder, seres compostos de uma amálgama difusa entre membros da corporação e capitalistas da área hospitalar. Entretanto continuamos a apostar num paradigma falido, mesmo quando seus próprios criadores estão aos poucos abandonando o modelo.

Veja em https://youtu.be/xRpUl8KYVUk

(Veja essa citação em 13:40)

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Banho

banho hospital

Eu costumava dizer para não dar banhos em bebês recém-nascidos no hospital há mais de 20 anos, em especial quando ouvi pela primeira vez as teorias da preservação do biota do recém-nascido e a semeadura de bactérias “do bem” que a criança receberá ao nascer.

Em 2009 fui fazer uma palestra em Orlando, Flórida, no congresso do Healthy Children’s Center for Breastfeeding. Logo depois de falar fui procurado por um simpático senhor que se apresentou como o professor Lars Hanson, catedrático da universidade de Gotemburgo – Suécia. Ele parecia estar muito impactado e entusiasmado com as imagens de partos verticais que eu havia apresentado na conferência. Disse que isso era muito importante em função das questões microbiológicas envolvidas. Eu fiquei surpreso com a afirmação e disse que, até então, essa posição me parecia adequada porque facilitava o nascimento de bebês pelo aumento das “conjugatas”, os espaços ósseos da bacia, mas que não conseguia compreender nenhuma vantagem de caráter imunológico para o bebê.

Ele sorriu e me fez uma pergunta com um simpático sotaque nórdico bem carregado, cujo conteúdo lembro até hoje:

– Caríssimo amigo. Você já percebeu que todos os mamíferos superiores tem o introito vaginal próximo do ânus? Nunca se perguntou o porquê de tal proximidade?

Fiquei sem saber o que dizer, pois nunca havia pensado que essa proximidade pudesse ter algum propósito.

– Pense doutor… quando um bebê está para nascer, ainda no invólucro amniótico, ele se encontra em um ambiente estéril. No momento em que se encontra fora do útero, e rompida a bolsa que o envolvia, será imediatamente colonizado por bactérias. Mas… quem chegará primeiro na corrida para ocupar o espaço da superfície da pele desta criança?

– Bem, disse eu, imagino que sejam as bactérias maternas, se for um parto vaginal. Eu também penso que são bactérias para as quais o sistema imunológico da criança já está razoavelmente preparado pelo próprio convívio entre mãe e bebê.

– Mais do que isso, meu jovem, continuou o simpático professor. Ela será colonizada por enterobactérias (bactérias que vivem no intestino), que cobrirão a superfície corporal do bebê com bactérias anaeróbias – frágeis à presença de oxigênio – mas que protegerão o bebê contra os microrganismos maléficos do ambiente hospitalar por ocupar os espaços da superfície. Além disso, esse bebê vai deglutir as bactérias do sistema digestivo da mãe e colonizará seu próprio com bactérias maternas. Essa “semeadura” fará um amadurecimento adequado do seu sistema digestivo e neurológico. Desta forma, a proximidade dessas estruturas é benéfica para o ser que chega a este mundo, e funciona como uma “capa protetora” de bactérias maternas. Lavar a criança logo ao nascer é um absoluto equívoco, pois vai retirar dela a proteção microbiana e colocar em seu lugar patógenos potencialmente perigosos, pois cultivados em ambientes hospitalares.

– Faz sentido, respondi, e é provável que o processo de adaptação dinâmica que leva à evolução das espécies mamíferas nos colocou desde milhões de anos passados diante dessa condição: os recém-nascidos são banhados com elementos de colonização bacteriana materna, que os protegem do meio ambiente, ocupando o espaço dos elementos potencialmente perigosos e nocivos do local onde nascem.

– Exatamente, meu rapaz. Por isso que as posições verticais, em especial as de cócoras que você mostrou na sua apresentação, facilitam sobremaneira esta estratégia. Essa é a maneira mais fisiológica e saudável de nascer, e por isso mesmo a “esterilização” do ambiente de parto – o períneo – é tão inadequada. Para que haja saúde é fundamental que a criança seja semeada com os elementos do sistema digestivo de sua mãe.

Fiquei vivamente encantado com as palavras do mestre. Recebi como presente seu livro “Immunobiology of Human Milk: How Breastfeeding Protects the babies” (veja abaixo), o qual foi muito útil para escrever meu capítulo nas últimas três edições do livro de Marcus Renato de Carvalho e Luiz Tavares “Amamentação – Bases Científicas”, pois me mostrava que muito mais do que os elementos nutricionais e afetivos relacionados com a amamentação havia uma importante faceta microbiológica muito esquecida pela ciência médica no que diz respeito ao contato do bebê com a mãe, imediatamente depois do parto.

A perspectiva centenária de Koch-Pasteur, que demoniza as bactérias e venera os ambientes estéreis, está em seu ocaso. Muitas pesquisas estão sendo feitas para mostrar a importância de um biota – conjunto de seres vivos que nos compõem – saudável e o quanto o parto normal pode influenciar positivamente nessa condição. Muitos anos depois desse encontro revelador com o professor Lars Hanson eu pude assistir ao documentário “Microbirth” e pude constatar todas estas teses confirmadas pela ciência contemporânea.

A frase mais chamativa do filme é “Você é feito do que a sua avó comeu“.

Fantástico, não?

http://www.llli.org/llleaderweb/lv/lvaugsep05p88.html

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Ferocidade

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Ainda sobre a pediatra que negou atendimento a uma criança por ela ser filha de uma militante do PT.

Uma pergunta me ocorreu..

E se a questão não fosse a cor partidária, mas a cor da pele? Se a médica dissesse que não se sente bem por atender negros, orientais ou imigrantes, ainda sim o representante do sindicato da corporação diria que a médica deveria se orgulhar pela sua “sinceridade”? E se a mãe da criança fosse gay? Preconceito racial não pode, mas contra um partido pode? Alguns preconceitos são piores – ou mais aceitáveis – que os outros? É certo focarmos apenas na (necessária) sinceridade da profissional e esquecer o preconceito asqueroso e abjeto que a moveu?

Fiquei rindo sozinho (um sorriso triste, confesso) de imaginar o que diria o mesmo representante da corporação se uma médica petista (existem sim, acreditem) resolvesse escrever a mesma mensagem para uma mãe que veio à consulta com a camiseta da CBF e um adesivo “Fora Dilma” colado ao peito.

Alguém dúvida da ferocidade com a qual ela seria atacada por seus iguais?

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Valente menina

baby holding his mothers finger, selective focus

Volto para casa depois de 20 horas – passadas no domingo e no início da segunda feira – trancado num hospital para atender um parto cheio de desafios, mas que nos rendeu um nascimento maravilhoso e empoderador. Cansado, faminto e ao mesmo tempo eletrizado, sento à frente do computador para ver se chegou algum e-mail e escuto “Cinema Paradiso”, na versão de Josh Groban.

O primeiro refrão diz:

“Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Vedresti la bellezza che piena d’allegria
Io trovo dentro gli occhi tuoi
E ignoro se è magia o realtà.”

(Se você visse através dos meus olhos apenas por um dia
Você veria a beleza que me inunda de alegria
Quando olho para dentro de teus olhos
É um misto de magia com realidade)

Quem já atendeu um parto e teve nas mãos o corpo quente, escorregadio e viscoso de um bebê, e pôde ver nos olhos de uma mulher a vitória emoldurada por suor e lágrimas, entende a sensação divina e transcendental de ter participado de um momento sagrado e enigmático, para além da compreensão.

Seja bem vinda, valente menina…

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Diagnósticos

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A respeito de diagnósticos cruéis…
(Um tema que deveria ser mais explorado)

Existe um conceito que eu penso ser muito relevante quando tratamos de avaliações, exames e tratamentos: a ação médica tem como ÚNICO objetivo o auxílio ao paciente. Essa ideia deveria estar na mente de todo o cuidador em qualquer aspecto de seu ofício. A Medicina é uma das possíveis expressões da “fraternidade instrumentalizada”, não uma fábrica de certezas. A Verdade, por si só, é pouco importante para o sujeito que sofre sem que a possibilidade de ajuda se mantenha no horizonte.

Exercer a crueldade de um diagnóstico – que rouba ao paciente a derradeira esperança – em nome da “verdade” ou de um “diagnóstico certeiro” não é Medicina, mas o exercício da desumanidade em nome de um falso ideal de excelência técnica.

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Obstetras de Cristal

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No filme Matrix o personagem Tank (Marcus Chong), diferentemente de vários outros personagens da trama, não foi resgatado dos tanques que mantinham vivos os organismos humanos na vida virtual do grande programa chamado Matrix. “Born and raised in Zion”, exclama um orgulhoso Tank, cuja parte posterior do pescoço não exibe – como Neo, Morpheus e os demais – a cicatriz de acoplamento com a máquina de conexão à Matrix.

Tank já havia nascido em liberdade. Sua conexão com o mundo é real, e não filtrada por um sistema de crenças que o leva a crer como reais as construções ilusórias de um mundo artificial. Não é necessário um “cabo de dados” para o mundo de fantasia; sua consciência o conecta com uma realidade mais pura e verdadeira.

Todos os profissionais da humanização do nascimento que conheci na minha trajetória de 30 anos precisaram ser resgatados da Matrix Obstétrica. Acostumados a ver como reais a defectividade feminina, a incompetência essencial da mulher e a ritualística que se extrai dessa mitologia, após muitos anos de hibernação foram despertos do sono tecnocrático pela ação de elementos catalisadores: o nascimento do próprio filho, a gravidez, o luto, o êxtase inesperado ou uma singela paciente acocorada no fundo de uma sala de exames. Para cada despertar eu consigo ver um sujeito que “doulou” esta metamorfose; no meu caso, Dr. Moyses Paciornik. Para outros um professor, um palestrante, um mestre ou um paciente.

Contrariamente ao que se poderia imaginar pela firme vinculação da humanização do nascimento com a medicina baseada em evidências, estas transformações nunca ocorrem no terreno da razão; elas são fruto de uma maturação lenta e silenciosa do universo afetivo do profissional. É deste caldo emocional que surge a transformação, que só depois será aperfeiçoada pelo conhecimento e pelo estudo.

Entretanto, depois de três décadas observando alguns poucos obstetras se rebelando e sendo resgatados da nossa Matrix pela primeira vez na história começam a surgir os “obstetras de cristal”. Acho interessante esta forma de perceber os colegas da obstetrícia que não precisam ser resgatados, pois que algo suficientemente intenso ocorreu durante a sua formação, na graduação ou na residência, que os impulsionou diretamente para os valores do humanismo antes de serem tragados pelo moedor de carne da tecnocracia médica.

Para alguns, um parto humanizado que assistiram. Para outros um vídeo de parto. Em algumas profissionais foi sua própria experiência de parto que lhe permitiu sentir na carne o nascimento, antes de usar sua arte em outras mulheres.

Com sentimento, emoção, apuro e preparo técnico, muito além de serem apenas operadoras robotizadas, os(as) “obstetras de cristal” (uma alusão às crianças de cristal, seres da “nova era”) podem assumir-se humanos completos, sem abrir mão de suas qualidades afetivas ao realizarem a nobre tarefa de estar ao lado. E o fazem de uma maneira que sua presença não danifique a delicada tessitura de que é feito um nascimento.

Muitas experiências já estão em andamento no Brasil, como os alunos que já saem da sua formação orgulhando-se de não fazerem episiotomias de rotina, e reconhecendo a importância de proteger o parto normal. Precisamos ampliar o espectro desse novo paradigma, para que seja possível criar um exército de novos profissionais que se orientem pelas luzes do protagonismo garantido às mulheres, a visão integrativa do parto e sua vinculação com a ciência.

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Trotes

Quando nós questionamos as razões para a existência de lugares sombrios como o “dignidade médica” que tanto produziu de discurso de ódio, racismo e intolerância é importante entender que tipo de maquinário produz os médicos deste país e qual a matéria prima do qual são feitos. O “trote” universitário talvez seja apenas o plano visível de uma estrutura gigantesca cuja finalidade é manter e disseminar os valores mais conservadores de uma sociedade.

Como um gigantesco e penoso “moedor de carne” – no dizer do meu colega Max – a universidade destrói os alicerces que sustentavam o(a) menino(a) que emerge perdido(a) e temeroso(a) nos caminhos tortuosos do campus. Infelizmente, para uma enorme parcela dos estudantes, a rebeldia juvenil dá lugar a um conformismo e a uma postura altiva e pedante, apenas alguns anos passados do ingresso na escola médica. O que era inquietude vira certeza, o que um dia foi cooperação vira disputa e os sentimentos mais nobres que nos impulsionaram um dia a instrumentalizar a fraternidade se transformam em exercício de poder e preconceito de classe.

O trote serve como ritual de passagem para o convívio na universidade. Como bem nos esclareceu Robbie eles são repetitivos, padronizados e simbólicos e nos levam direto aos códigos valorativos profundos da cultura. Neste caso eles mostram a face mais feia e distorcida de uma sociedade excludente, racista, homofóbica, preconceituosa e alienada dos valores mais nobres da arte de curar.

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