Arquivo da categoria: Medicina

Parefeitos

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“A objetualização do paciente, sua coisificação e o tratamento frio a que ele é submetido NÃO SÃO “paraefeitos” do modelo de ensino contemporâneo. Pelo contrário; tais elementos formam a base do paradigma tecnocrático de assistência no processo de produção dos novos profissionais da saúde. Sem a plena compreensão dessa intencionalidade inconsciente e ritualística jamais completaremos a tarefa de humanização da assistência. O problema é que a violência praticada é invisível, como se, assim naturalizada, ela passasse a ser parte integrante da atenção. Com isso ela se torna inquestionável. Afinal, como questionar uma ação que é essencial para o atendimento? Botar alunos em fila para apalpar uma tireoide ou fazer um exame de toque, passa a ser o “certo“, o “essencial” e o “natural“. Como reclamar?”

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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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Ultrassom

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Outra sensação agradável em contraposição ao meu notável e inexorável envelhecimento físico: minha mente ainda mantém boa parte dos atrevimento da juventude. Há mais de 25 anos eu denuncio os abusos de ecografias pela obstetrícia ocidental, questionando a validade do exagero e as desvantagens econômicas, médicas e relacionais deste uso.

No podcast do Dr. Stu desta semana ele se reporta a um artigo publicado no Wall Street Journal que expõe o uso excessivo de ecografias sem a contrapartida de melhorias nos resultados pós-natais, tanto para mães quanto para bebês. Aos poucos o cerco se fecha sobre esse “modismo”…

Todas as nossas pacientes grávidas já tiveram a oportunidade de escutar a minha explicação sobre os “três tipos de ultrassom”, quais sejam: médico, sedativo e recreativo. Apesar de soar como uma “restrição” essa explicação faz parte da informação que precisa acompanhar qualquer negativa ou consentimento de exame. É importante que as pacientes e seus(suas) companheiros(as) saibam exatamente do que se trata e quais os limites de uma investigação como esta. Por isso, quando as perguntas recaem sobre a “translucência”, “a morfológica”, a “ecocárdio” – além daquelas típicas “pra ver se está tudo bem” – elas já sabem que receberão uma longa explicação conjugada com a minha visão sobre os riscos inerentes de tais exames.

Felizmente hoje escutei a opinião do meu colega “homebirther” americano, que mais pareceu uma telepatia transoceânica, explicando que se limita a pedir apenas UMA ecografia entre 18 e 22 semanas de gestação e com as mesmas razões que oferecemos às pacientes: certeza do sítio placentário, análise de malformações graves e confirmação da idade gestacional. Mas a justificativa que ele fornece para este pedido único de ultrassom é a mesma que damos: “Só peço porque algumas pacientes planejam partos domiciliares”, que é a mesma ressalva que fazemos para as pacientes que pretendem parir com seus cuidadores (enfermeiras obstetras) em ambientes extra-hospitalares.

Os rituais contemporâneos da medicina, por serem sustentados por elementos pré-racionais e ligados ao desejo, são complexos e, por vezes, impossíveis de eliminar em curto prazo. Episiotomias, enemas, tricotomias e ultrassons são apenas alguns exemplos. Todavia, quando observamos a inexistência em nosso meio de “virgens queimadas” por uma colheita ruim percebemos que os rituais, por mais fortes que sejam, um dia enfraquecem até que, por fim, desaparecerem. A racionalidade é uma luz que nos guia em meio à treva, e que mesmo custando tempo e vidas, um dia vence as resistências e ilumina o pensamento.

Práticas abusivas e exageradas podem levar séculos para serem eliminadas, mas um dia serão apenas páginas amareladas da nossa longa história de equívocos na assistência.

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Impactos

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Seguindo o pensamento de Ivan Illich sobre o significado último das intervenções na saúde das populações, eu pergunto: quem é capaz de causar mais impacto positivo no nível de saúde global, uma nova estatina (medicamento para o colesterol, que gerará bilhões em lucro para um laboratório inglês, americano ou suíço) ou um simples sapato que protegerá os pés das crianças africanas? Sabemos que esta ação provavelmente não vai gerar lucro algum para o seus inventores, mas prevenirá milhares de mortes absolutamente evitáveis através de uma intervenção civilizatória  simples (proteger os pés), de baixo custo e fácil de implementar.

Ainda recordo de uma frase que li no livro “A Nêmesis da Medicina” do mesmo Ivan Illich em que ele dizia “Vidros nas janelas e cuecas limpas fizeram mais pela saúde do que todas as drogas e tratamentos no mundo“. Quando analisamos os impactos que as ações de saúde promovem no sujeito (e também numa determinada cultura) muitas vezes ficamos perplexos em como são limitados os resultados  “drogais” e como são relevantes as alterações positivas decorrentes de mudanças estruturais. Se isso não serve para desconsiderar a importância de alguns medicamentos e seu uso, também deve nos mostrar que o impacto deles sobre a saúde é muito pequeno e circunscrito.

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Judiciário

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“Enquanto o judiciário continuar com seus mitos e preconceitos contra o parto normal, agindo embasado na mitologia da transcendência tecnológica, acreditando na “cesariana salvadora”, aceitando qualquer intervenção como “natural” e necessária, e todo respeito à fisiologia como “risco”, será difícil seduzir os médicos a adotarem uma postura mais serena e embasada em evidências. Sem uma modernização do pensamento jurídico será muito mais lento qualquer progresso na atenção ao parto. Por isso mesmo os “Cursos de Violência Obstétrica” para a área jurídica são tão importantes.”

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Admirável Mundo Novo

Acompanhei meu pai a uma consulta médica em um centro clínico ligado a um hospital da minha cidade. A princípio seria uma consulta banal, para entrega de exames e uma conversa sobre os medicamentos que ele utiliza. Marcada a consulta nos dirigimos ao hospital.

A entrada do prédio é majestosa, por onde seguranças discretos passeiam de um lado para outro, com os indefectíveis fones de ouvido. O hall é grande, amplo, marmóreo e limpo. Se de um lado tal magnitude reforça a imponência do ambiente, por outro lado diminui de forma considerável a importância do sujeito que o procura. Eu me senti pequeno, diminuto, uma minúscula engrenagem num sistema gigante. Apresentamos nossos documentos de identidade para funcionários de uniforme. Meu pai tentou dizer uma gracinha costumeira para a funcionária, para tentar desmanchar seu olhar soturno. Nada conseguiu. Após dizermos o nome da médica e a sua especialidade, recebemos nossos crachás magnéticos e brevíssimas instruções de como usá-los nas catracas eletrônicas.

Ao lado da recepção uma grade é interrompida por pequenos monstrengos cromados: as catracas. Uma leve aproximação do crachá modernoso e uma seta verde brilha no aparelho trifásico. Está liberada. “Catrrracc“, grita o bichano quando meu corpo empurra seus braços de ferro. Sim, ponderei… nada mais é que uma onomatopeia, mas só hoje, depois de mais de 50 anos, eu me dei conta dessa banalidade. Nunca é tarde para se aprender com a experiência cotidiana. Pegamos o elevador que vai para o décimo segundo andar. Impossível não lembrar:

Estranho é gostar tanto do seu All Star Azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje

Infelizmente não era Cássia Eller que estava nos aguardando para terminar aquela conversa que começamos no outro dia. Na verdade eu gostaria de lhe dizer muita coisa. Queria ouvir sua voz rouca, falar sobre seu filho, a dureza de uma vida conturbada, suas dificuldades em lidar com a sexualidade sem arreios. Queria também lhe perguntar, por exemplo, naquele fatídico dia, o que ela…

Meu pai interrompe meus pensamentos e aponta para uma máquina pequena à nossa frente. Pequena e amarela, com um botão azul. Sobre ela o lia-se um cartaz: “Retire sua senha e aguarde ser chamado”. Aperto conforme determinado e o aparelho vomita uma tarja amarelo-biliosa com um número destacado: 341. Digo ao meu pai que é melhor sentar e aguardar, pois ainda teremos 340 consultas antes da nossa. Ele sorri, pois sabe que este é um humor típico da nossa família, e a culpa é sua por essa herança maldita. Seguimos em frente e entramos na ampla sala de espera do centro clínico.

A sala estava repleta de pessoas, mas achamos vagas duas poltronas no canto. À nossa frente uma linha de recepcionistas com telefones acoplados à cabeça. As pessoas na recepção não sorriem, parecem tensas ou conformadas. Não existe nenhum vestígio de alegria. Meu pai ainda tenta me contar piadas, ou fazer comentários curiosos sobre as pessoas presentes, mas o ambiente não ajuda. Ficamos alguns minutos aguardando que algo viesse a acontecer, mas a TV ligada à nossa frente com reprises de novelas dos anos 90 era o único som a preencher o ambiente carregado. As janelas mostravam um dia radiante, com temperatura ainda amena e agradável, mesmo que o clima dentro da sala de espera fosse artificialmente controlado. Os raios de sol passavam raspando pela última das janelas, deixando um filete radiante e dourado na parede adjacente, anunciando que o pôr do sol não tardaria.

Resolvi me levantar e perguntar o que ocorreria a seguir. Dirigi-me à recepcionista que estava livre e sem dizer nada apresentei a ela minha “senha”: 341. Ela me cumprimentou sorridente e disse que já ia mesmo chamar. Avisou que a consulta está confirmada com a doutora “P”, neste mesmo andar, e que anunciaria no sistema de alto-falantes quando fosse a hora de entrar. Já haviam transcorrido mais de 30 minutos de nossa chegada e o horário da consulta também já tinha passado.

Voltei para o meu lugar e meu pai apenas deu de ombros. Continuamos a conversar sobre amenidades: meu neto, a comunidade que pensávamos criar, minha mãe. Alguns minutos mais tarde o alto-falante anunciou: “Pacientes da doutora “P”….

Levantamos imediatamente, mas notamos que ao nosso lado outra pessoa também se ergueu. O som do alto-falante continuou: “Pacientes da doutora “P”…. as consultas estão atrasadas em uma hora”. Percebemos que o senhor que se levantou ao nosso lado também esperava por uma consulta com a mesma médica. Olhou para nós conformado e resolveu ligar para alguém da família avisando o atraso. Finalmente, uma hora e meia após o horário previamente marcado, e a recepcionista nos avisou. “Por favor, dirijam-se ao consultório de número 11 no corredor à esquerda”, diz a secretária. Um pequeno passeio pelo labirinto e fomos levados pelos números nas portas idênticas até o consultório. “Consultório 11 – Office 11”, dizia a placa bilíngue, obviamente preparada para a Copa do Mundo.

Era tudo branco. Uma parede branca, cadeiras brancas. Um computador sobre uma mesa branca e nua. A Dra. “P” nos recebeu amavelmente, com um sorriso e boas-vindas. Nem uma palavra sequer sobre o atraso de uma hora e meia. Lembrei das palavras do meu filho, quando costumava almoçar comigo próximo do meu consultório, na época em que ele estudava no centro da cidade. Saíamos do restaurante, depois de muita conversa, às 14h, o exato horário em que estava marcada a minha primeira consulta da tarde. Na verdade o consultório ficava na mesma quadra do edifício onde eu trabalhava, o que me faria chegar 5 minutos atrasado. Diante dessa minha desculpa, meu filho sempre respondia: “Claro, são os SEUS cinco minutos, e não os do paciente. Eles que esperem, afinal são pacientes, certo?” Ele tinha razão, mas os atrasos em consultórios médicos, excetuando-se a parcela menos expressiva de atrasos justificáveis, são derivados da curiosa tessitura que compõe esse encontro. A espera do paciente – muitas vezes torturante – é a primeira parte da consulta; ela serve para mostrar quem manda naquela relação. O chá de banco é uma instituição que normatiza relações de poder desde que o mundo é mundo – ou desde que os bancos foram inventados. O tempo, a mais importante mercadoria, se mantém sob o controle de quem detém o poder. Ao doente, já desempoderado pela sua fragilidade física ou emocional, só cabe esperar. E ser “paciente”.

A Dra. “P” começou a sua consulta e pediu para que o meu pai esclarecesse o que ocorreu em suas últimas entrevistas. Percebi que ela lembrava muito pouco do caso que estávamos trazendo à sua frente. Olhava para meu pai tentando lembrar detalhes, até que ele mencionou um exame realizado, o que a fez ligar instantaneamente uma lanterna mental que iluminou um espaço obscuro de suas lembranças. Depois disso ela perguntou as reações a algumas medicações e os efeitos previstos no organismo.

Nenhum papel, nenhuma anotação. Não havia uma caneta sobre a mesa. Nada, uma mesa branca, limpa, estéril. Não havia marcas da consulta anterior, nenhuma ficha sobre um canto da sala. Este ambiente era idêntico a um pequeno ambulatório, como aquelas salas de hospital onde se aplicam injeções ou se faz uma nebulização. As paredes, alvas e nuas, não tinham nenhuma marca, nenhum prego. Somente atrás da cadeira da doutora havia uma pintura abstrata, igual a várias outras espalhadas pelo centro clínico. Percebi que estas obras eram feitas em série: o mesmo artista, a mesma técnica. “Ah, você é artista? Pois queremos comprar umas obras suas. Quantas? Umas 100, todas do mesmo modelo, assim, como se diz? Ahhh… abstrato

Não havia livros na sala. Ou revistas. Qualquer informação era obtida pelo computador. Percebi que a história do meu pai estava ali, na tela, mas era apenas a fotografia biológica de um sujeito; nenhuma percepção subjetiva, impressão, ideia ou intuição. Não, apenas cálcio, sódio, ferro, hemogramas, eletrocardiogramas, ureia e fosfatases. A nudez absoluta, a minimalização extremada: uma pessoa reduzida aos seus componentes moleculares. A complexidade infinita de um sujeito condensada em poucos elementos químicos e desenhada nas linhas de traçados sinuosos.

Percebi, com uma espécie de espanto, que aquele consultório não era da Dra. “P”. Aquele era um “consultório genérico”. Uma mesa branca, uma maca branca, paredes brancas e um computador. A Dra. “P” provavelmente chegou ao hospital e perguntou às secretárias qual consultório havia sido designado a ela para as consultas daquele dia, e para lá se dirigiu. Não havia nenhuma marca pessoal: a foto do namorado, ou do marido, uma foto de crianças ou de um lugar que lhe trazia lembranças agradáveis. Não, ela era tão alienígena ali quanto nós.

Fui obrigado a fazer uma comparação mental com o meu consultório. Livros pela sala, que servem de consulta à Matéria Médica e ao Repertório Homeopático. Livros de obstetrícia e manuais do Ministério da Saúde. Quadros nas paredes da recepção. Pedras sobre a mesa, presentes de uma paciente geóloga. Ao lado esquerdo dos pacientes um nu feminino e as fotos de meus filhos misturadas – propositalmente – com crianças fotografadas em Serra Pelada por Sebastião Salgado. Papéis espalhados, fichas de pacientes, calendários de data menstrual, anotações de partos futuros e datas de palestras. Café, muito café. Crachás de palestras que participei, coleção que imitei de Debra Pascali-Bonaro. Música no computador, onde uma foto sorridente do meu neto Oliver aparece em alta definição. E Zeza ao meu lado…

A Dra. “P” explicou pacientemente as medicações e as medidas a serem tomadas. Foi educada e mostrou interesse em todas as informações, mas era possível perceber, mesmo que de forma muito sutil, a impaciência para o término da consulta. Sim, não mais do que 20 minutos já haviam passado, mas o que mais há para se falar sobre moléculas, exames laboratoriais e efeitos colaterais de medicações? Meu pai, ingenuamente, espichava a conversa e tentava falar dele, de suas manias, seus jeitos, suas ideias e suas suposições. Arriscava disgnósticos baseados em suas percepções e na sequência lógica de eventos que experimentava. Criava fantasias sobre suas dores e sofrimentos e a possível conexão destes com seu mundo afetivo e emocional. Nada disso parecia cativar a atenção e muito menos atiçar a curiosidade da jovem doutora; nada a fez aprofundar qualquer dessas questões. Meu pai falava de uma conexão para ela inexistente, mundos separados por séculos, onde os desejos, as paixões e a angústia haviam se divorciado da carne crua, e com ela não mantinham nenhum contato. Mas meu pai não sabia desse divórcio litigioso e continuou a falar sobre sua alma até que eu, gentilmente, lhe toquei o braço, anunciando que era tempo de “liberar” a doutora da nossa presença.

Combinamos uma nova consulta para um par de meses, apenas para acompanhar o andamento das novas medicações. Nos despedimos e caminhamos em sentido inverso no corredor branco que nos levava de volta à recepção, e de lá para os elevadores, as catracas e o mundo. Falei ao meu pai que aquela consulta poderia ter sido feita por telefone, durando não mais do que 15 minutos de simples informações, o que ele concordou. Comentei que naquele ambiente nós não somos relevantes; somos peças de uma engrenagem, da qual o médico é também apenas mais um elemento. Percebi que quem fez a consulta foi o computador, o sistema: os exames, as análises laboratoriais, as pesquisas dos remédios, tudo isso é feito por programas específicos que guardam todas as informações. Ao mesmo tempo em que somos estorvo, o médico se torna, paulatinamente, supérfluo.

Eu havia visitado com meu pai o “Admirável Mundo Novo”, ou as clínicas de eutanásia de “Soylent Green”. O cenário futurista e tecnológico servia para deixar claro que o importante no local é o fluxo ordenado, a segurança e o controle; as consultas são meros acessórios para a fluidez mecânica e programada de todos os elementos do atendimento. A identificação, as catracas, as senhas, a espera tediosa, a consulta meteórica, as salas nuas e despojadas, o tratamento educado, gentil e intencionalmente impessoal, tudo me mostrava que ali não éramos as estrelas. Sim, Cássia, ali nós não fomos “All Star“. Não, os pacientes são pontos escuros em um mapa de circulação humana numa central cibernética. Nada naquele dia me mostrou afeto, proximidade, carinho, cuidado centrado no sujeito, entendimento e visão complementar. Tudo era branco demais, limpo demais, claro demais. Estéril.

Pensei na minha abordagem “narrativa” de pedir a uma paciente – que me procurava por um corrimento ou uma dificuldade em engravidar – que discorresse livremente sobre sua vida e suas paixões; sua história e seus sonhos. Percebi que é provável que muitas clientes pensassem nisso como uma absurda perda de tempo, uma conversa sem sentido e que apenas atrasava a chegada “ao ponto”: a mancha, a dor, a cólica, o prurido, as tripas, as angústias e as feridas. Por outro lado, algumas percebiamm que é exatamente nessa conversa e nessa experiência exonerativa que se instalava a verdadeira conexão terapêutica. Não é no remédio, na droga ou no bisturi: é na palavra, a não ser quando o desequilíbrio avançava a ponto de não ser mais possível recuperar o dano que se instituía no corpo.

Minha mente me fez lembrar, sorrindo, das minhas consultas na Liga Homeopática. Lá, mesmo que não soubessem, os pacientes marcavam uma consulta mas recebiam duas. A minha, consulta médica propriamente dita, e a “consulta” que tinham com a secretária que os atendia na recepção. Esta mulher, dotada de uma rara sabedoria, acalmava, tranquilizava, oferecia alternativas, orientava e preparava os espíritos para a consulta que ocorreria em alguns minutos. Por mais que entendamos os limites destes encontros, é importante reconhecer e reverenciar seus aspectos terapêuticos. Ali, tudo era conexão: os filhos, o emprego do marido, as dores nas pernas, a gastrite e as gripes; nada fugia à necessária conexão com o todo.

Já na rua me despedi de meu pai. Foi um prazer poder acompanhá-lo à consulta, e penso que os filhos deveriam fazer isso sempre. Infelizmente percebi que o mundo contemporâneo não trata os pacientes como as estrelas no cenário da atenção. A tecnologia, com seu canto sedutor, nos faz acreditar que as paredes brancas e assépticas de uma clínica, o avental impecável de uma jovem doutora, o computador cheio de dados e números, possa – por fim – nos desvendar os mistérios últimos que nos constituem. A pobreza das respostas, a falha de cumprir com sua promessa de nos redimir da dor e da morte, nos mostram que pouco ou nada sabemos de profundo sobre os enigmas que nos rondam. Saímos do centro clínico com algumas angústias a mais do que tínhamos ao chegar. Voltei meu olhar para a rua e caminhei em direção ao estacionamento. Pensei mais uma vez em Cássia… e falei com ela em meus pensamentos. Na minha cabeça chegaram palavras, palavras ao vento…

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras

PS: Voltei a ler esse texto 10 anos após ter sido escrito. Coloquei minhas impressões no papel logo depois da consulta com meu pai. Nesta época, tanto ele quanto minha mãe ainda estavam vivos. Na verdade, ao escrever o texto ocultei detalhes importantes. Não era uma “doutora P”, mas um médico, muito jovem, um neurologista com poucos anos de formado, e a consulta era para a minha mãe (que não tinha condições de estar presente). Esse jovem neurologista era profundamente arrogante, insensível e sem qualquer tipo de empatia. Ele havia atendido a minha mãe durante uma crise terrível que ela passou no hospital Moinhos de Vento e chegou 2 horas após ter sido chamado, e para esse atraso sequer pediu desculpas ou se explicou. Chegou ao hospital vestido como se estivesse em uma festa, e fez questão de deixar claro – por suas atitudes – que a crise neurológica de minha mãe estava atrapalhando sua vida social. A consulta havia sido marcada com ele porque foi automaticamente agendada quando minha mãe recebeu alta.

Não revelei isso no texto original porque era a minha irmã quem controlava os médicos do meu pai e da minha mãe e eu não queria que ela soubesse da minha contrariedade; não desejava ser o responsável por atrapalhar uma transferência que podia existir. Muitos anos depois meu pai me disse que havia detestado a consulta e o médico, mas não quis me dizer para que eu não pensasse mal dele. Fiquei muito impressionado com o péssimo atendimento da chamada “medicina de grupo” (meu pai tinha Unimed) e percebi o quanto este tipo de seguro saúde vale muito mais como divisor de classe social do que um verdadeiro “upgrade” na qualidade do atendimento. Uma sociedade realmente evoluída não divide a atenção à saúde por classes: num mundo ideal, o médico do Ministro atenderia também os faxineiros do Palácio.

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Alegria, alegria

Mulher feliz

Das possíveis alegrias na vida de um médico, em especial um obstetra e ginecologista, está o relato de uma mulher, que depois de alguns anos de atendimento e tratamento homeopático – através do que se poderia chamar de “medicina narrativa” – alcançou pela primeira vez um orgasmo, com a idade de 61 anos.

Mais do que uma melhora clínica, a cura de uma “doença”, a suavização de um sintoma ou a alteração de valores laboratoriais, esta mudança em sua sexualidade nos sinaliza para um câmbio de perspectiva de vida, para um olhar mais positivo e livre das amarras pregressas de rancores e mágoas doloridas, as quais a impediam de alcançar seus mais nobres objetivos.

No ocaso de um percurso de mais de 30 anos de escuta, um relato pleno de esperança como este é capaz de nos encher de alegria e contentamento.

Patu Saleh!!

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Checkpoint

Checkpoint

“Enquanto continuarmos a valorizar os planos de saúde eles funcionarão como uma espécie de “salvaguarda da classe média” que nos alivia da tensão de ficarmos doentes e termos que dividir espaço com os pobres. No Brasil 52 milhões de pessoas usam este artifício. Para mim é apenas segregação. Um país civilizado tem saúde de qualidade para todos e não apenas pra quem paga grandes quantias de dinheiro para empresas privadas. Aqui os planos de saúde – todos – funcionam como um muro de apartheid, como na Palestina, separando os brancos europeus da escuridão epidérmica dos palestinos. Se você tem “Bamerindus Gold” pode passar o checkpoint e entrar no hospital “Middle Class Paradise”. Ah, não tem carteirinha, cabeção? Entre na fila do hospital público, e saiba qual o seu lugar…”

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Um pouco de Homeopatia

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Esclarecimentos gerais sobre homeopatia…

Medicamento homeopático não produz sintomas. entretanto, se houver similitude entre o sujeito que o usa e as características do remédio escolhido poderá haver o despertar de sintomas que pertencem à história daquela pessoa. Caso não haja semelhança a homeopatia não passa de água.

A busca do remédio homeopático parte da investigação das múltiplas características físicas, psicológicas, emocionais, familiares e biopatográficas (a história das doenças) e a confrontação destes aspectos subjetivos com a experimentação de milhares de substâncias homeopaticamente estudadas e catalogadas.

Desta forma, homeopatia funciona como música. Se houver sintonia com a melodia, você pode se emocionar, alegrar ou mesmo entristecer. Ela “desperta” sentimentos e emoções se houver conexão frequencial. Por outro lado, se a música não lhe “tocar” de nada adiantará escutar de novo ou aumentar o volume. É a frequência vibracional que produzirá a sintonia. Você precisa ter aquela música dentro de si

Se não houver esta “similitude” a música que você escuta é apenas barulho.

No caso da homeopatia, é tão somente água

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Invasões

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas. Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário:

Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.

Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos”, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen”, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas.

Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres

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