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O Mito da Circular de Cordão

Cordão Umbilical

Minha experiência com circulares de cordão é razoável. Muitas pacientes me procuravam com medo de uma cesariana porque o seu médico falava que o cordão está enrolado no pescoço, portanto uma cesariana era mandatária, sob pena do nenê entrar em sofrimento.

Circulares de cordão são banalidades na nossa espécie. Um número muito grande de crianças nasce assim. Eu tinha a informação que a incidência era de 30%, mas talvez seja um número antigo ou inadequado. De qualquer sorte, uma quantia considerável de crianças vem ao mundo desta forma. Já tive partos com 3 voltas bem firmes no pescoço, e com escore de Apgar 9/10.

É engraçado ver a expressão das pacientes quando conto pra elas que o que me preocupa não é o pescoço, mas o cordão. O fato do pescoço estar sendo pressionado é pouco importante se comparado com a compressão do cordão. A fantasia da imensa maioria das mulheres (mas também dos homens) é que a criança está se “enforcando” no cordão. Elas ficam surpresas quando explico que o bebê não está respirando, então porque o medo da asfixia? Acontece que existe espaço suficiente para o sangue transitar pela estruturado cordão, protegido pela geleia de Warthon que o recobre, mesmo com voltas em torno do pescocinho. Além disso, se houver uma diminuição na taxa de passagem de oxigênio pelo cordão isso será percebido pela avaliação intermitente durante o trabalho de parto. E esse evento NUNCA é abrupto. DIPs de cordão, como os chamamos, ficam dando avisos durante horas, e são diminuições fortes apenas durante as contrações, com o retorno para um batimento normal logo após. Marcar uma cesariana por um cordão enrolado no pescoço é um erro.

Sei como é simples e fácil apavorar uma mãe fragilizada contando histórias macabras a esse respeito, mas a verdade é que não se justifica nenhuma conduta intervencionista em virtude deste achado. Por outro lado, a presença deste diagnóstico tão disseminado nos consultórios e nas conversas entre pacientes nos chama a atenção porque, se não é um problema médico, é uma questão sociológica.

Esse exame parece funcionar como um acordo subliminar entre dois personagens escondidos no inconsciente dos participantes da trama, médico e paciente.

De um lado temos uma paciente amedrontada, desempoderada diante de uma tarefa que parece ser muito maior do que ela. Acredita piamente no que o “representante do patriarcado” lhe diz. Não retruca, não critica; sequer pergunta. Nada sabe, mas precisa do auxílio daquele que detém um saber fundamental aos seus olhos. Diante das incertezas, da culpa, do medo e da angústia ela se entrega, aliena-se. Fecha os olhos e coloca o “anel”, que faz com que ela mesma desapareça, entregando-se docilmente aos desígnios dos que detém o poder sobre seu destino. Oferece seu corpo para que dele se faça o que for necessário.

Na outra ponta está o médico. Sofre em silêncio a dor da sua incapacidade. Pensa baixinho para que ninguém leia seus pensamentos. Sabe que pouco sabe, mas também tem plena noção do valor cultural que desempenha. Nada entende do milagre do nascimento, mas percebe seus rituais, muitas vezes ridículos, outras vezes absurdos e perigosos, produzem uma espécie de tranquilização nas mulheres. Não se encoraja a parar de encenar, porque teme que não lhe entendam. Continua então repetindo mentiras, esperando que não descubram o quão falsas e frágeis elas são. É muitas vezes tomado pelo “pânico consciencial”, ou o medo que surge diante de uma tomada de consciência. Muitas vezes age como um sacerdote primitivo que, por uma iluminação divina ou por conhecimento adquirido, percebeu que suas rezas e ritos de nada influenciam as colheitas, e que o que governa estes fenômenos está muito além de suas capacidades. Entretanto, sabe que os nativos precisam dos rituais, que ele percebe agora como inúteis, porque assim se dissemina a confiança e a esperança. Mente, mas de uma forma tão brilhante, sofisticada e tecnológica, que deveras acredita no engodo que produz.

Ambos, mulher e médico, precisam aliviar suas angústias diante de algo poderoso, imprevisível e incontrolável. Olham-se e tramam o golpe. O plano que deixará ambos aliviados diante do enfrentamento. Mentem-se com os olhos. Eu finjo saber; você finge acreditar. Peço os exames. Todos. E mais um pouco. Procuro até encontrar aquilo que nos fornecerá a chave. A minúscula desculpa. Eu, com ela nas mãos, posso realizar os rituais que me desafogam da necessidade de suportar a angústia de olhar e nada fazer. Você, poderá escapar da dor de aguardar e fazer o trabalho por si. Poderá dizer que “tentou”, mas, foi melhor assim. O nenê poderia correr perigo. O cordão poderia deixar meu filho com problemas mentais, etc.

Feito. Pedido o exame, lá estava: O cordão, mas poderia ser o líquido, a posição, a placenta, a ossatura, as parafusetas protodiastólicas. Quem se importa? O carneiro, a virgem, o milho, todos são sacrificados. Quem se importa? Livramo-nos da dor. Anestesiamos nossas fragilidades e angústias. Ritualizamos, encenamos e todos acreditam. Nem todos! Alguns acordam, mesmo que leve muito, muito tempo.

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Porque patologizamos o parto?

A análise acima do livro “O Doente Imaginado“, de Marco Bobbio, se refere à construção de uma entidade nosológica a partir de sintomas comuns, como constipação. O objetivo é introduzir um medicamento com abrangência gigantesca e com lucros igualmente incalculáveis. Pensem em quantas pessoas conhecidas tem “intestino preso” e imaginem o mercado de drogas para este sintoma.

Entretanto as mesmas regras usadas para transformar transtornos comuns em doenças podem ser utilizadas para fazer a mudança da nossa percepção do parto, de evento fisiológico para uma patologia perigosa e traiçoeira. Toda uma cultura sobre o parto se construiu sobre esta deformação da realidade, que desvia o olhar para a riqueza de fenômenos adaptativos milenarmente construídos por sobre a arquitetura fisiológica do parto e incentiva uma visão demeritória, depreciativa e patologizante da mulher parindo.

O roteiro é o mesmo descrito no texto para a criação de doenças. Basta escutar os especialistas em “patologia obstétrica” para ficar convencido que as mulheres apenas sobrevivem aos horrores dos partos em função das técnicas, drogas, especialistas e os locais altamente tecnológicos elaborados para atender a este evento arriscado.

Os passos são idênticos:

1 – Fornecer números: des-subjetivar o evento e transformar o parto em um fato meramente epidemiológico, longe da subjetividade e da individualidade de cada mulher parindo.
2 – Despertar temores: mostrar cada evento catastrófico como sendo o destino certeiro de toda a mulher que ousar parir de forma natural e fisiológica.
3 – Sugerir exames: ecografias sem embalsamento científico em todas as consultas de pré-natal, uso de vitaminas sem sentido, manipulações exageradas nas consultas e uma postura autoritária dos profissionais.
4 – Banalizar a solução: entregue as decisões na mão de quem “sabe”. Não questione, não pergunte, não desconfie; apenas obedeça. Afinal, eles sabem tudo o que pode acontecer de errado com você.

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação pelas mulheres desta visão, é um dos capítulos mais fascinantes da história da mulher no ocidente, e um dos menos estudados, por razões históricas e contextuais. Entretanto, creio que a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos mais femininos. Pelo contrário, será pelo reforço de suas especificidades.”

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Herói

Herói médico

“A causa essencial dos problemas relacionados com a atenção médica ao parto é o próprio paradigma médico incidindo sobre a fisiologia deste evento. Vejam bem: encarceramos estudantes por 6 a 9 anos numa universidade ensinando-lhes patologia e intervenção, o combate às doenças e os tratamentos – cirúrgicos e medicamentosos. Depois de formados oferecemos a eles a fisiologia e os ciclos vitais normais, que requerem atenção e cuidado, e não intervenções tecnológicas e heroicas, as quais só deveriam existir como exceção. Diante desta encruzilhada, o que fazem os médicos em pânico, a quem oferecemos algo que não sabem fazer, não conhecem a fundo, não querem entender e sentem-se impotentes para lidar?

O que se vê e que estes profissionais transformam a gestação em doença e o parto em processo cirúrgico para assim, aliviados, poderem fazer uso de sua arte. Os médicos, portanto, também são vítimas de um modelo onde se sentem deslocados. Melhor seria que a eles fosse reservada a condição de “heróis”, prontos para agir apenas quando sua arte é necessária. Precisamos de mesmo de personagens de coragem e fibra, prontos a agir diante das ameaças que um parto pode apresentar, e não profissionais que transformam um importante rito de passagem feminino em um evento operatório, frio, asséptico e arriscado.”

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Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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Fotografia de Formatura

Formatura Medicina

É difícil que os médicos recém saídos das universidades consigam entender as reais necessidades da população que atendam, e por isso temos tantas dificuldades. Essas pessoas, os novos médicos, são de estratos sociais completamente diferentes daqueles a quem vão assistir e tratar. É complicado entender o sofrimento humano, principalmente as questões carenciais básicas, quando você tem uma casa, comida e afetos e não sabe o que é ter violência doméstica, falta de comida, crack, sujeira, tráfico, pobreza intensa e tantas outras mazelas contemporâneas.

Quando eu era residente escutei uma contratada dizer que achava que toda a ciência “psi” (da psicologia, passando pela psiquiatria até a psicanálise) era pura balela, pois que suas questões (sim, as dela…) eram todas resolvidas com um “banho de loja”, pois isso resolvia suas carências e conflitos. Não, ela não estava brincando; era verdade mesmo. Como ela poderia atender uma mulher em profundo sofrimento psíquico? Como ela poderia entender a dor de uma perda, de um remorso, de uma carência afetiva fundamental e trágica? Da mesma forma, como ela atenderia no posto de saúde uma mulher que não consultou antes porque não tinha dinheiro suficiente para pagar a passagem do ônibus? Será ela capaz de entender o que isso significa? Será ela capaz de entender a dor de ser negro em uma sociedade racista? Uma distância tão gigantesca entre perspectivas e visões de mundo pode ser superposta por boa vontade, empatia e uma visão “carinhosa” com os desvalidos? Ou seria fundamental que essas pessoas tivessem um mergulho nessas sub-culturas para que pudessem entender o que a saúde e os tratamentos significam para elas? Será possível esta visão em uma academia que prepara médicos (mormente especialistas) para dar atenção à burguesia através de tecnologias de ponta e tratamentos curativos terciários? Ou teremos que mudar radicalmente a abordagem à saúde e os sujeitos que a conduzem?

É inegável que existem médicos maravilhosos que conjugam valores técnicos com humanos, mas também é claro que a formação e o sistema abafam a real expressão desses valores. É difícil manter-se conectado a esses princípios diante de tantos estímulos em contrário. É quase impossível ser estudante universitário sem ser da classe média alta, principalmente em universidades públicas. As transformações estão acontecendo, mas uma REAL mudança demográfica nas universidades ainda levará uma geração para se consolidar.

A medicina e o direito, só para dar dois exemplos de cursos universitários clássicos, tradicionais e fáceis de entender, foram criados para servir uma burguesia que aos poucos se organizava. Estas instituições apenas a pouco começaram a ser oferecidas às classes populares. O direito, diferentemente da medicina, só há pouco tem “sistemas populares” de atendimento, como “pequenas causas” ou a defensoria pública. Meu pai me conta que só veio a conhecer um médico em sua vida com mais de 12 anos de idade, quando veio do interior para a capital. E “conhecer” é usado no sentido de “enxergar“, pois consultar com um desses profissionais era inviável há 70 anos.

Fazer essas profissões darem conta das necessidades do povo é um desafio cultural pois que, como eu disse anteriormente, os próprios atores sociais que as compõe não são – com raras e notáveis exceções – oriundos das classes mais baixas. Para se certificar disso basta olhar a história pessoal dos antigos médicos, os que hoje nomeiam enfermarias na Santa Casa, nomes de rua, professores catedráticos da universidade e ver de onde saíram: quase todos da burguesia abastada ou do latifúndio. Assim, democratizar a atenção oferecida por estas profissões – a saúde física da medicina e a saúde social do direito – é uma tarefa complexa e difícil, mas absolutamente necessária. Entretanto, para que ela atinja seus objetivos mais profundos, é fundamental que seus integrantes tenham pleno conhecimento da população que atendem, com seus dramas, valores, idiomas, tragédias e alegrias.

Para isso é necessário sentir na pele o que é ser como eles.

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Toques

Toque

O toque vaginal de rotina durante as consultas de pré-natal cabe na definição de ritual que Robbie Davis-Floyd nos ofereceu. “Repetitivo, padronizado e simbólico, carregado de valor cultural“. Mas, com este viés da ritualística aplicada na atenção à saúde, qual o sentido inconsciente (é bom deixar claro) existente na rotina do toque que se realiza como parte da consulta?

Na minha opinião trata-se da submissão do outro ao seu saber. “Eu sei de algo sobre seu corpo que nem você mesma sabe“.

Um sujeito assim autorizado sente-se empoderado com a força que lhe é instituída a partir de um conhecimento superior, e isso aumenta sua distância com relação ao sujeito-paciente. É pela potência inconsciente dessas ações que elas permanecem vivas e fortes, mesmo com as evidências apontando para a direção oposta.

O exame de toque pode ser útil em várias circunstâncias, no pré-natal e no trabalho de parto. O que é preciso dizer é que realizá-lo de forma protocolar ou rotineira é um erro e não tem embasamento científico, caindo na definição de ritual. Além disso este é um ritual desagradável e possivelmente doloroso e constrangedor. Para ser realizado de forma adequada precisa ser explicado, e realizado apenas com consentimento explícito.

Somos movidos por um fluxo poderoso de emoções, onde nossa razão é muitas vezes um frágil barquinho de papel tentando navegar contra a corrente.

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Medicina e Medo

Medicina e Medo

Fiquei sabendo que a Faculdade de Medicina da UFRGS, assim como a de Pelotas, foram reprovadas na avaliação do governo. Acredito que esta reprovação nada tem a ver com insuficiência de notas, mas com o boicote realizado pelos alunos contra a realização da prova. Isso me faz lembrar um incidente acontecido no hospital onde fiz a minha residência, há muitos anos.

Naquela época, em uma universidade de Porto Alegre, foi estipulada uma prova para avaliação dos residentes da GO. Após uma reunião com os residentes de 1º, 2º e 3º anos, a referida prova foi solenemente boicotada pelos mesmos, ainda que houvesse a promessa de que nenhuma nota viria a ser publicada.

Eu entreguei minha prova – neguei-me a boicotar – e fui falar com o professor responsável. Disse a ele que poderia publicar a nota com meu nome em letras garrafais na porta do departamento. Se minha insuficiência existia queria reparti-la com todos os responsáveis: eu mesmo e quem deveria estar me treinando. Nada disso ocorreu, e o assunto morreu por aí. Não houve avaliação da residência médica, pelo menos naquele ano.

Entretanto, sempre fiquei com dúvida sobre as razões pelas quais meus colegas celebraram a ideia de boicotar uma avaliação. A desculpa “oficial” era de que a residência médica, por ser tão “falha” no treinamento que nos oferecia, não tinha condições morais para nos avaliar. Discordei imediatamente desta ideia. Talvez fosse justo dizer que o sistema não poderia nos “CULPAR”, mas tinha a obrigação de nos avaliar, até para ter elementos para aquilatar as suas próprias falhas no processo de ensino. Nossa atitude, entretanto, refletia mais do que indignação com a falha pedagógica e a escassez de treino. Mesmo sendo justo o descontentamento com a ausência total de professores para nos ensinar a atenção ao parto, coisa que era realizada por residentes mais antigos e contratados desinteressados, nossa ação continha elementos inconscientes e não revelados.

Sim, havia muito mais do que o meramente manifesto nas palavras e atos superficiais. Existia, em verdade, um sentimento de profundo medo com a avaliação que pudesse ser feita sobre o nosso desempenho. Havia o pânico de que nossa verdadeira capacidade fosse desvelada, escancarando os meninos e meninas que se escondiam por debaixo de jalecos brancos, estetoscópios no pescoço, receitas decoradas, protocolos rígidos e infinitas fórmulas dialéticas de dissimular a nossa mortal insegurança. Havia um temor de que a construção arrogante e falsa de nosso saber fosse exteriorizada, mostrando nossos pés de barro.

A negativa dos alunos mais festejados – medalhas de Ouro no quesito “universidade” – em realizar uma prova que demonstraria objetivamente a sua qualidade ou competência segue a mesma linha. Muito mais do que um protesto contra o ensino – que até pode ser verdadeiro, como era a negligência do corpo docente em minha época com relação ao ensino da atenção ao parto – existem elementos mais profundos que podem dar conta da negativa peremptória em realizar a a avaliação.

Medo explica. Só o medo pode nos garantir o elemento essencial para entender. Oferecer aos outros a imagem da nossa incapacidade é sempre um ato heróico. Expor com bravura nossas fragilidades e temores é algo que dificilmente encontramos em meninos recém saídos das fraldas da universidade.

No famoso artigo “Obstetric training as a rite of passage” de Robbie Davis-Floyd existe um parágrafo que explica muito sobre o medo, a tensão constante, a angústia e a “visão em túnel” que o residente desenvolve sobre este tema.

“A maioria de nós entrou para a faculdade de medicina com ideais muito humanitários. Eu sei que cheguei dessa forma. Mas todo o processo de educação médica faz você desumano. Eu vi colegas totalmente devastados quando não sabiam uma resposta A coisa toda pode torná-lo bastante deformado. Eu acho que é aqui que os sentimentos começam, quando você sente que alguém lhe deve alguma coisa, porque você realmente, você sabe, você bloqueou uma boa parte de sua vida. Pessoas perderam namorados e namoradas, noivas e casamentos. Houve algumas tentativas de suicídio. Assim você esquece o resto da sua vida. E então, no momento em que você começa a residência, você termina por não se preocupar com nada além das mais recentes técnicas que você pode dominar e quais os sofisticados testes que você pode executar.”

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Medicina e Ideologias

Pesquisa

Tive há dois dias uma amigável discussão com um jovem colega médico que – entre algumas provocações e palavras ásperas – me afirmou que “Não existe “ideologia médica”. Medicina de verdade é praticada com base em fatos (…) e evidentemente não existe zona de conforto na medicina.”

A ideia de que a medicina é uma ciência baseada em “fatos” é curiosamente muito disseminada dentro das faculdades de medicina. Para nós, estudantes, parece-nos óbvio que as pesquisas, os estudos e as evidências são elementos “matemáticos” que nos aproximam da verdade. A frase do meu jovem colega, em verdade, retrata um modelo de pensamento hegemônico entre os médicos. Nós realmente vemos a medicina através dessa perspectiva positivista e cientificista, onde o conhecimento e o aprimoramento tecnológico por fim vencerão o obscurantismo e nos elevarão ao conhecimento pleno, o conhecimento da Verdade e do Real.

Eu também me deixei embevecer por esta visão por muitos anos. Basta que você veja qualquer livro da história da medicina e a construção dos fatos históricos nos levará a este entendimento. Parecemos estar vencendo as doenças através da invasão ininterrupta do saber racional sobre a economia orgânica, seja pelas drogas, infusões, cirurgias, quimioterapias, etc. O porvir da medicina parece claramente ligado a um controle exógeno cada dia mais intenso. Entretanto, a bela construção de uma “medicina positivista” esbarra nos próprios acontecimentos da prática médica, onde a ciência é desconsiderada e elementos outros (o poder, o patriarcado, a política, a economia, a moral e a religião) ocupam o lugar central no direcionamento das condutas.

As ideologias controlam a medicina. Os paradigmas são vinculados a questões históricas e contextuais, e eles são os geradores da própria pesquisa e suas interpretações.

Todavia, a ideia de uma ciência médica “pura” – não contaminada pela ambiência e pelas brisas políticas que sopram, ora de bombordo, ora estibordo – sempre me incomodou. A própria produção científica e sua matriz preferencial – a Academia – me parecem claramente influenciadas por modelos ideológicos relacionados à sua época e às circunstâncias onde apareceram. As grandes descobertas médicas só podem ser entendidas de forma abrangente se pudermos entender o contexto histórico e político em que foram encenadas, da mesma forma que apenas a compreensão mais ampla das circunstâncias políticas da Guerra Fria pode nos explicar as viagens à lua, da mesma forma como a queda da boate “Stone Wall” em Nova York pode nos fazer entender as pesquisas sobre o “vírus da AIDs”.

Imaginar uma “medicina sem ideologia” é imaginar um corpo sem “alma”, comandado pelo mundo real, excluído da formatação da linguagem. A medicina SEMPRE foi um campo para a aplicação de controle social e autoridade política.

A ideia de que os procedimentos se baseiam em experiências e “fatos” (fatos não existem, apenas interpretações – Nietzsche) deveria fazer as episiotomias terminarem quando os fatos científicos demonstraram a sua inutilidade como procedimento de rotina, e isso aconteceu em 1987, há décadas. No entanto, “Nascer no Brasil” apontou 53% de episiotomias entre aquelas afortunadas que conseguem um parto normal no Brasil. As cesarianas abusivas, que determinam o AUMENTO da mortalidade materna em alguns países, entre eles os EUA, também deveriam ser freadas com as evidências e os estudos. Entretanto, como essa clara assincronia entre “o que se sabe e o que se faz” demonstra, a medicina NÃO se expressa necessariamente através da ciência, mas pelos caminhos mais tortuosos da ideologia e da política. A destruição da parteria no Brasil e nos Estados Unidos – e NÃO na Europa – é outra prova de que a construção dos modelos de atenção se baseia em elementos alheios às pesquisas, e muito mais ligados às forças que favorecem umas corporações em detrimentos de outras.

Dizer que praticamos “medicina baseada em fatos” é uma ingenuidade. Pensar que deveríamos agir assim é um objetivo e uma utopia, tão nobres quanto inalcançáveis. Existem forças invisíveis (e as ideologias são exatamente “agir sem se dar conta do que nos move”, no dizer de Slavoj Zizek) que fazem com que a mão corte uma episiotomia ou prescreva um antibiótico, mas nos iludimos ao acreditar que a razão foi a condutora magna de tais movimentos.

As ideologias, que se ligam mais aos desejos do que à razão, são o que está por trás dos fios invisíveis que nos guiam.

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Cirurgias Ritualísticas

Map Clit

Consideramos classicamente as cirurgias mutilatórias e ritualísticas da medicina ocidental (em contraposição à clitoridectomia, oriental) as seguintes intervenções: Postectomia (circuncisão), Tonsilectomia (retirada das amídalas) e Episiotomia (corte perineal no parto). É digno de nota que as três intervenções ocidentais citadas alcançaram um apogeu e estão em franco declínio, pela falta de evidências científicas para o seu uso e pela pressão popular pela sua diminuição. O mesmo se aplica à clitoridectomia, proibida no ocidente e com severas críticas de países ocidentais quanto à sua prática em alguns países islâmicos, em especial a Nigéria.

Entretanto, para além das cirurgias acima descritas, já é possível incluir a cesariana como uma cirurgia mutilatória e ritualística, largamente alastrada no ocidente, já que tem a mesma base irracional das anteriores para a sua abrangência.

Isto é: mesmo reconhecendo a importância dessas cirurgias em casos específicos (não é necessário enumerar a importância das cesarianas para salvar a vida de mães e bebês em situações especiais), sua abrangência fala muito mais de uma relação ritualística do que de um uso operacional (em nome de uma real necessidade clínica).

Segundo Robbie Davis-Floyd, um “Ritual” pode ser definido como um procedimento padronizado, repetitivo e simbólico carregado de sentido cultural, e cuja leitura (exegese) de seus pressupostos pode nos levar ao código profundo de valores que sustenta uma específica sociedade. A existência de cesarianas em profusão nos permite analisar que tipo de valor está na base da cultura onde elas se inserem. No caso das sociedades ocidentais os valores que se mostram evidentes são o patriarcado e o capitalismo, aliados a uma ideia contemporânea de praticidade (tempo) e conjugada com a mitologia da transcendência tecnológica (que nos diz que todo procedimento tecnológico é melhor que sua variante natural).

Portanto, faz todo o sentido analisar as cesarianas sob este prisma. Os exemplos citados de pressões culturais sobre a mulher (espartilhos, pés esmagados, dietas, culto à beleza, etc.) estão absolutamente adequados para sustentar esta análise, por também serem regidos pelos mesmos elementos sociais inconscientes. O mesmo tipo de constrangimento social se aplica às cesarianas e, como nos exemplos anteriores, fica claro que o exagero desta cirurgia beneficia muito mais as corporações e instituições do que as mulheres e seus filhos. As evidências que confirmam esta afirmação estão aí para quem se puser a investigar.

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Cesarianas em excesso

Cesraiana 01

A propósito, com relação às cesarianas em excesso…

Diminuir “na marra” as cesarianas excessivas que presenciamos no mundo contemporâneo jamais será uma solução definitiva. De que adianta diminuir índices de cesariana para aumentar taxas de violência obstétrica? Nada, pelo contrário, tal atitude só tornará a situação pior e criará uma fama injusta para o parto normal. É inútil solicitar aos profissionais errados que façam o trabalho correto. Michel Odent já falava isso há muitos anos. A simples diminuição de cesarianas não nos leva a lugar algum. O que precisamos é tornar o parto um evento tão grandioso e prazeroso que a cesariana se tornará a mais tola das escolhas, ou a mais rara das opções.

É necessário MELHORAR o parto, para que as cesarianas caiam por consequência, e não por decreto

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