É impossível crescer sem sentir dor. As dores – tanto as físicas quanto as da alma – são constitutivas dos sujeitos, sem as quais nos tornamos autômatos e insensíveis. Somos formados no espaço que se cria entre nossos traumas e a solução que encontramos para eles.
Caminhou por entre as cadeiras reviradas e procurou uma das poucas mesas que ainda estava de pé. Colocou seu copo de vinho sobre ela e sorveu a última baforada do seu cigarro. A festa já havia acabado há mais de uma hora, e apenas alguns convivas ainda se encontravam deitados ao chão, esperando as últimas porções de álcool deixarem a mente. O aspecto do salão era desolador. Uma virada de ano, especialmente em um navio, é um convite à perda de limites. Ao seu lado Ahmed se ocupava em erguer cadeiras que atrapalhavam a circulação, mas o fazia de uma maneira metódica, como se fosse um real empregado do barco. Robert fez um gesto como a dizer “deixe assim, não se ocupe com isso/’, mas Ahmed parecia ter a compulsão para colocar a bagunça em ordem.
– Apesar de ter deixado de trabalhar em restaurantes, o fato de ter feito isso a vida inteira torna minha preocupação algo natural. Quando os franceses deixavam o bar depois das festas era quando começava meu trabalho mais duro e enfadonho.
– Deixe seus traumas em Argel, Ahmed. Você está prestes a começar uma vida nova. Você não precisa mais arrumar as bagunças que os franceses deixam para trás.
Ahmed cruzou os braços e ficou por instantes observando o Mediterrâneo. Estávamos há poucas horas de chegar a Marselha e uma vida completamente nova. O “Ville D’Alger”, da Compagnie Générale Transatlantique, riscava o oceano escuro, deixando para trás Argel, com suas histórias, memórias, cheiros e dores. Os anos de sua juventude passados em meio à guerra de libertação foram por demais traumáticas. Naquele momento, Ahmed trouxe à memória seu irmão Karim, para quem essa viagem, e os sonhos que ela propiciava, fora uma promessa compartilhada por ambos. Seu irmão havia sucumbido sob a baioneta de um gendarme em dezembro de 1960, em Belcourt, deixando seus sonhos numa poça de sangue na Rue de Lyon. De todas as perdas da guerra, esta foi a mais sentida, a mais dolorida e da qual imaginava jamais poder se recuperar. Karim era mais do que um irmão mais velho. Depois da morte do pai ele assumiu as responsabilidades da família, e funcionava como um substituto da presença paterna.
Foi Karim quem o convidou a participar das marchas e dos protestos de 22 de janeiro de 1956, quando Albert Camus fez um apelo público por uma trégua civil na guerra da Argélia, no Cercle du Progrès, nas proximidades da Praça do Governo, em Argel. Na reunião estavam aproximadamente 1.200 participantes, entre europeus e argelinos muçulmanos. Camus propôs que as partes em conflito se comprometessem a poupar a população civil. Entre os presentes estava Ferhat Abbas, importante líder nacionalista que, em setembro de 1958, se tornaria presidente do governo provisório da Argélia independente em formação. Karim estava entre aqueles que vaiaram Camus, pois não acreditava em uma solução pacífica para o colonialismo.
Robert aproximou-se do amigo enquanto este tentava encontrar no horizonte negro alguma luz que sinalizasse o porto de Marselha.
– É cedo – gracejou Robert. Só devemos chegar amanhã pela tarde.
Karim continuou em silêncio, perdido em suas memórias. Robert colocou a mão sobre o ombro do amigo e falou:
– Imaginar uma vida sem dissabores, perdas, fracassos e derrotas é absurdo e talvez enlouquecedor, meu irmão. É preciso agradecer por nossas tímidas vitórias cotidianas tanto quanto pelos nossos fracassos pedagógicos. Devemos fugir, isto sim, da anestesia, e saudar com sobriedade as dores inevitáveis que nos moldam a alma.
Henry Bouchel, “L’odeur du Désert”, Ed. Sotero, pág. 135
Henry Bouchel é um escritor argelino, nascido em Mostaganem, na costa do mediterrâneo, em 1940. Seus pais eram franceses e trabalhavam na Universidade Central de Mostaganém. Seu pai, Michel Bouchel era professor de literatura francesa e sua mãe Madeleine Bouchel era professora de geografia. Na sua infância foi testemunha dos levantes liderados por Ahmed Ben Bella, chefe da FLN – Frente Nacional de Libertação – que atuava tanto nas comunidades rurais quanto urbanas da Argélia. Muitos de seus livros espelham este respeito pelos sentimentos patrióticos dos magrebinos e sua luta contra a colonização europeia. Cerca de 300 mil argelinos pereceram nesta guerra, e 27 mil soldados franceses não retornaram vivos para casa. Sendo sua família de imigrantes, o medo de um ataque por parte dos argelinos era constante. Apesar disso, Henry desenvolveu uma clara simpatia pelas reivindicações dos argelinos por liberdade e autonomia. Muitos de seus livros espelham este respeito pelos sentimentos patrióticos dos magrebinos e sua luta contra a colonização europeia. Em 1962, quando Henry completou 22 anos de idade, a paz foi assinada por Charles De Gaule, e Ahmed Ben Bella foi conduzido à presidência. Todavia, Henry e sua família já haviam se mudado para a França há alguns anos, temendo algum tipo de ataques à sua família, como ocorreu com mais de 900 mil franceses que tiveram que voltar à França durante e após o conflito. Seu livro “O Perfume do Deserto” (L’odeur du Désert) descreve a saga de um casal de franceses em sua tentativa de fugir da FNL e voltar à França, no livro que posteriormente se tornou uma famosa película estrelada por Yves Montand. Foi casado com a novelista francesa Amélie Deschanel Dupont com a qual teve dois filhos, Robert e Ahmed – nomes inspirados nos personagens deste livro. Robert é jornalista e trabalha no Le Monde, e Ahmed é diretor de teatro. Henry mora em Marselha, na França.