Em toda mobilização subjetiva no sentido da transformação haverá um deflagrador de origem primitiva, emocional; sexual em essência. Como dizia Dimitri*, as concepções de ordem intelectual jamais oferecem potência para mobilizar as energias criativas de um indivíduo. A real origem delas pode ser recôndita, inconsciente e inconfessa, mas uma busca apurada encontra a semente psíquica e erótica desses movimentos que, multiplicados por contextos e circunstâncias infinitos, produzem guerras, monstruosidades, o amor romântico, a cura das doenças e até a conquista do universo.
Edouard Davrigny, “The Inner Circle of Mystic Roots – The life and work of Dimitri Czerkow”, ed. Altumus Press, pág. 135
Edouard Davrigny é um escritor belga nascido em 1936 na cidade de Kortrijk, próximo à fronteira da França. Sua mãe era comerciante e seu pai professor de história na escola local. Fez seus estudos na França, tendo estudado psicologia na Sorbonne. Durante seus estudos tomou conhecimento da obra do místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, que no século XIX produziu uma extensa coletânea de livretos que poderiam ser considerados precursores da obra de Freud, não fosse que o mestre austríaco jamais poderia ter tomado conhecimento deles, já que somente foram descobertos em 1950 durante a construção da estação Komsomolskaya (Комсомольская) do metrô de Moscou, quando uma arca com manuscritos muito bem preservados foi descoberta sob uma das casas demolidas. Dimitri passou a ser estudado por vários pesquisadores e historiadores russos, mas nenhum deles produziu uma historiografia tão completa quanto a de Edouard Davrigny. Edouard escreveu vários livros sobre psicologia e participou de coletâneas de vários outros autores. Entre seus livros, o mais conhecido é “Psychologie et substances psychoactives”, também lançado pela Altumus Press.
* Refere-se ao místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, cujo livro “Inner Circle” de 1866 estabelecia as rotas, os rituais e os condicionantes para a elevação espiritual dos iniciados. Ficou conhecido pelo uso de substâncias alucinógenas derivadas de raízes de Eleutheria pragnatis nas suas atividades como místico e por sua devoção à divindade Gorratchin – uma mistura de bondade extremada e desinteressada com hipersexualidade dionísica. Acabou seus dias com distúrbios sérios da sanidade mental e foi enforcado por fraude fiscal.
Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.
Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135
Karl Batterman é um escritor inglês nascido em Leicester em 1869. Filho de pai operário e de uma família de 10 irmãos (entre eles o líder do “Labour Representation Committee” Jeffrey Batterman, morto na revolta dos trabalhadores de Manchester em 1902), escreveu várias novelas que eram publicadas em jornais de Londres. Contemporâneo de Sir Arthur Conan Doyle, rivalizava com ele na preferência popular. Escreveu “A Study in White” como uma sátira à obra de seu compatriota, falando da história do Inspetor Legendre, um policial beberrão e desastrado que, com muita sorte e ações do acaso, conseguia desvendar casos em que a polícia inteira fracassava. Sua obra “The Neverending War”, escrita em 1905, foi tomada por muitos críticos posteriores como uma previsão sarcástica dos fatos que redundaram na eclosão de duas grandes guerras mundiais. De uma certa forma, seus personagens agiam diante da inevitabilidade de uma catástrofe iminente, o que, de fato, acabou tragicamente ocorrendo. Morreu em Suffolk em 1915.
Karl havia se indisposto várias vezes com o promotor Ernest em outras oportunidades, mas sempre no âmbito dos julgamentos em que ambos representavam lados opostos da causa. Sabia também que, apesar dos arroubos e dos gritos frequentes, estes embates são encenações que têm o mesmo sentido daquelas protagonizadas por jogadores que simulam as faltas em um jogo de futebol. Finda a partida, seria possível esquecer as escaramuças tomando uma boa cerveja no bar contíguo ao tribunal. “No hard feelings” diziam eles.
Entretanto, não era o caso do promotor Ernest. Suas desavenças não se limitavam aos casos específicos em que duelaram diante do júri, mas tinham a ver com as perspectivas de mundo absolutamente distintas que abraçavam. Para Ernest, o mal e o crime eram marcas da alma do sujeito, escolhidos conscientemente como ferramentas de reconhecimento social. Os delitos eram produtos de “almas ruins e degradadas”, e usava exemplos conhecidos de sujeitos que, vindos dos locais mais infectos de uma sociedade, conseguiam se tornar cidadãos de bem, produtivos e honestos. Para ele, a gênese social da criminalidade era um mito marxista tolo e infantil, e a única forma de exterminar o mal seria mediante punições exemplares aplicadas àqueles que fugissem à trilha da ordem e da lei. Apesar de reconhecer a inutilidade de debater estes assuntos com pessoas como Ernest, desta vez Karl não se conteve e decidiu-se por falar o que pensava, enquanto ambos aguardavam a chegada do juiz Sebastian para os acertos definitivos sobre o “Caso Ingelheim”, que tanto lhe atormentava.
– O ladrão é vítima, disse ele olhando para Ernest por sobre os óculos finos que repousavam sobre o nariz pontudo. Vítima, também. Entretanto, continua sendo um criminoso. O problema com essa questão é a sua visão estúpida e moralista que nos impede de ver que, sim, um indivíduo pode ser criminoso e vítima social ao mesmo tempo. O fato de ser vítima de uma estrutura social injusta e perversa não significa que o crime que porventura cometeu não deva ser punido, mas mostra que este delito não ocorre isolado, produzido apenas pela ótica simples da degeneração moral do malfeitor.
Ajeitou sua gravata e pigarreou, levando o punho à boca. Ajeitou os papéis sobre a mesa como cartas de um baralho. Continuou suas palavras para Ernest mesmo sabendo do pouco efeito que sua visão humanista teria em seus ouvidos duros.
– Não, Ernest; o crime cometido – seja ele qual for – é apenas a ponta visível do iceberg de abusos e violências cometidas contra este, agora criminoso, mas são escondidas do nosso olhar preconceituoso e racista. O universo desses “esquecidos” é povoado de pequenas e grandes tragédias, que são sempre desconsideradas quando levantamos o braço e apontamos nosso dedo acusador.
Nesse momento, abriu-se a porta de mogno escuro e apareceu a figura imponente do juiz Sebastian.
Herbert Blumm, “Der Ankläger”, ed. Klopf, pag. 135
Herbert Koennighausen Blumm é um jornalista alemão, especialista em casos policiais, nascido em Bonn em 1983. Escreveu dois livros sobre a temática da criminalidade, “Der Ankläger” (O Promotor) e “Der Richter” (O Juiz), e prepara-se para publicar o terceiro livro da trilogia “Der Rechtsanwalt” (O Advogado), onde aborda os dramas intestinos dos operadores do direito, em especial no que diz respeito aos acertos extrajudiciais e as pressões produzidas por corporações multimilionárias sobre a livre decisão dos magistrados. Seus livros desnudam a corrupção das altas esferas do judiciário alemão e a impunidade que cerca grandes nomes da política. Mora em Berlim e é articulista do “Der Spiegel”.
A fantástica história de Jack e Emmet, e o homem que lia livros para se tornar livre…
JJack sabia do amor que Emmet nutria pelos livros. Não era sequer necessário que ele houvesse descrito a pequena biblioteca que tinha em sua casa antes de chegar aqui. Sua forma por vezes rebuscada de descrever os cenários ou os episódios de sua vida mostrava o apreço que nutria pelas palavras. Ah, os conceitos, as nuances, as filigranas. Nenhum objeto existia na descrição de Emmet que não merecesse uma metáfora. Esse seu jeito sofisticado de descrever a vida só podia ter surgido pelo exercício continuado de apreender seus significados folheando incansavelmente as páginas com a avidez erótica da curiosidade.
Ele, entretanto, não possuía livros em seu poder. Os poucos que eu tinha, Zora os entregava mensalmente durante as visitas, os quais ajeitava com carinho debaixo do meu catre simples, mas sempre limpo. Para meu olhar clínico era fácil entender esta ausência nele. Emmet ajeitava os óculos com cuidado diante de qualquer tarefa, mas este esmero mais se mantinha por um cacoete do que pela justeza dos focos. Pouca diferença fariam os ajustes das lentes por sobre o nariz vermelho e anguloso. Emmet praticamente nada enxergava, mas tentava disfarçar ao máximo sua dificuldade na frente dos outros prisioneiros.
Por ser o mais velho da cela, lhe coube a única cama que recebia uma tímida nesga de sol nas manhãs de inverno. Seu rosto magro recebia a carícia do sol apenas por breves momentos, exatamente quando recebíamos o sinal de deixar as celas para o café matinal. Emmet esperava que todos saíssem do cubículo para só então tatear suas roupas e calçar as botinas velhas e escuras. Perguntava por mim, e quando lhe respondia o cumprimento sorria dizendo “ora, que tonto, nem vi que ainda estava aí”. Meus anos na medicina me permitiam saber que Emmet estava há muitos anos lutando contra o diabete. Suas injeções diárias de insulina eram feitas à noite, escondido em sua cama, quando a cortina de panos encardidos lhe oferecia uma benfazeja, porém curta, privacidade. Mas eu sabia. Apesar disso, nunca comentei com outros detentos e sequer lhe disse que tinha conhecimento de sua doença.
Uma certa noite, antes do “black out”, Emmet me perguntou o que estava lendo. Por certo que ouviu o folhear lânguido das páginas ao seu lado. Talvez esse tenha sido um daqueles momentos transformadores na vida de um sujeito, mas que, em geral, passam despercebidos quando ocorrem. A pergunta de Emmet tinha um som estranho, que carregava mais do que uma simples curiosidade; era também mais do que uma forma de preencher o vazio cheio de silêncios entre nós, ou para se livrar do desconforto que tais momentos representam. Sua dúvida tinha a triste melodia de uma súplica. Coloquei o dedo entre as páginas do livro como um marcador e o fechei. Olhei para Emmet que permanecia com o olhar fixo na parede suja à frente.
– A República…
– Platão!!! – disse ele sorrindo, antes que eu pudesse completar a informação. Havia uma emoção triste e genuína em sua face emagrecida.
– Em que parte está? – perguntou ele.
– Quer que eu leia? – perguntei, sem me dar conta de que esse era o desejo inconfesso de Emmet fantasiado de frugal curiosidade. Abri o livro novamente e li a partir de onde meu dedo, ainda preso entre suas páginas, apontava.
Sócrates: “Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância…”
Depois de poucos minutos levantei os olhos da leitura daquele parágrafo apenas para comentar alguma banalidade sobre o gênio de Platão, ou sobre sua influência no pensamento ocidental, mesmo após milênios passados de sua morte. Entretanto, minha voz foi interrompida antes da primeira palavra. Com as mãos espalmadas sobre os joelhos pontiagudos, Emmet jazia imóvel. Seus olhos marejados se fecharam num piscar reflexo, de onde brotaram duas lágrimas que percorreram com morosidade os sulcos de seu rosto. Sem abrir os olhos, ele segurou meu braço com delicadeza e de seus lábios uma voz quase apagada sussurrou:
– Obrigado, meu amigo Jack.
James G. Higgins, “Freedom”, Ed. Lasseter, pág 135
James Garret Higgins é um jornalista e escritor americano nascido em Tulare na Califórnia em 1939. Fez sua formação universitária na California State University em Sacramento, tendo cursado Jornalismo e posteriormente Ciências Sociais. Após trabalhar na Nigéria por 3 anos como correspondente da Guerra de Biafra, de 1967 a 1970, voltou para os Estados Unidos e escreveu vários romances nos quais descrevia as condições que testemunhou na guerra brutal e fratricida que ocorria em uma das regiões mais miseráveis do planeta. O bloqueio imposto pelo governo nigeriano aos grupos rebeldes que se isolaram na região de Biafra levou a uma crise humanitária especialmente causada pela fome, mas piorada por doenças endêmicas. Estima-se que durante a guerra civil, mais de 100 mil mortes entre as forças militares foram devidas diretamente à inanição. Entre 500.000 e 2 milhões de civis da região de Biafra morreram devido à falta de comida. Esses fatos descritos por James Higgins para os jornais americanos produziram marcas profundas em sua alma. Em seus livros posteriores, como “Freedom”, ele fala da busca de sentido para vidas completamente destruídas por tragédias pessoais e pela privação de liberdade. James Higgins mora em Sacramento com sua esposa Lilith e tem duas filhas, Abayomi e Fayola.
Olhou para seus interlocutores com um ar de enfado e regurgitou seu clichê sem nenhum pudor:
“Sou um homem muito dedicado à família”.
Na realidade, Karpov é um solitário, incapaz de cultivar amigos, reservado e tímido. Taciturno, indignado e misantropo. Um fóbico social, desajeitado e desinteressante. Não lhe sobram muitas alternativas além dos filhos e da mulher, que por força das pressões sociais continuam a manter com ele um contato protocolar. Fosse ele um mero desconhecido, sua mulher e filhos não veriam nele nenhuma das inúmeras qualidades morais que enumera para si mesmo. Deveras, se o encontrassem, murmurariam entre cochichos: “que velho chato e inoportuno!!”.
Mais do que entreveros consuetudinários, os laços de sangue lhe servem de boias salva-vidas. Não fosse pelo sangue que compartilha com os seus, sua alma seria nada mais do que uma diminuta semente presa à casca corpórea, que solitariamente rolaria pelo jardim de uma casa há muito abandonada. Sua proteção contra o completo abandono foi produzida metodicamente com as ferramentas mais primitivas: manter a dependência de sua família à relativa segurança dos bens que adquiriu. Karpov antevia que seu destino era a solidão.
Alexei Ustinov, “Цилиндр и трость Карпова” (A Cartola e a Bengala de Karpov), Coletânea de contos, Ed. Vostok, pág. 135
Alexei Ustinov nasceu em Astrakhan, no Império Russo, em 1820. Passou a infância às margens do Volga, envolvido nos estudos e na literatura. Com 11 anos de idade, leu Noites na Fazenda de Dikanka (1831), do seu compatriota Nikolai Gogol, o que lhe produziu profundo impacto. No início de sua adolescência leu Arabescos (1835) e Mirgorod do mesmo autor, e quando da leitura dessas obras decidiu-se pela carreira de escritor. Como Gogol, especializou-se em contos, cheios de ensinamentos e crítica social. Alexei jamais escondeu que “A Cartola e a Bengala de Karpov” foi baseado em “O Capote” de Gogol, assim como “O Regente Ivan Aleksándrovitch” é uma referência óbvia ao falso inspetor enviado para fiscalizar a cidade no “Inspetor Geral”. Escreveu várias coletâneas sobre a vida no campo, o Volga, os passeios de barco no Cáspio e também sobre as interações das crianças com seus cuidadores diante da educação severa – e por vezes brutal – na Rússia imperial. Escreveu em 1852 um conto chamado “Adeus ao Mestre” em que faz referência a Nikolai Gogol, falecido naquele ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua juventude. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua infância. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.
Hoje se completam 35 anos da morte de Dimitri. Lembro da data porque estava no trabalho e meu telefone tocou. Era Vladimir me trazendo a notícia. “Súbito”, me disse. Dimitri não tinha mais do que 28 anos. Era psicótico, e eu mesmo o havia visitado em um hospital durante um surto. Já fazia algum tempo morava só. O pai também sofria de transtornos mentais, assim como o irmão mais novo. Foi encontrado três dias depois de ter morrido. “Ouvi falar de uma ruptura de aneurisma”, emendou Vlad.
Muitos diziam que Dimitri era gay, mas não havia como saber naquela época. Ele tinha 4 anos a mais do que eu, e provavelmente sequer ele se sabia homossexual. Certa vez me convidou para jantar e ficamos conversando sobre nossas famílias e planos. “Pago o jantar”, insistiu. Eu tinha 18 e ele 22. Dimitri era dono de uma inteligência fina, raciocínio rápido e humor ácido. Sim, tinha uma certa afetação e um gosto por se vestir bem, mas na minha juventude a homossexualidade era como espinhas no rosto: se tornavam evidentes na puberdade e se tentava escondê-las ou, se possível, fazer de conta que não existiam. A homossexualidade cursava silenciosa, como uma pleurisia que se disfarçava suprimindo a tosse. Fecho os olhos, vejo nítida a imagem do amigo à minha frente e escuto sua risada, seus comentários jocosos e seus trejeitos apenas para me surpreender com nossa cegueira diante de tantas evidências. Dimitri era gay, mesmo sem o saber. Sua morte me surpreendeu. A voz carregada de Vlad ao telefone me tomou de assalto. Nada pude dizer, e o resto da tarde fiquei adornando minhas ideias com as nossas últimas falas. Dimitri gostava do velho Viktor, e o tinha como um pai substituto para os assuntos mais complexos, já que seu pai estava sempre envolvido com a bebida e sua paranoia megalomaníaca. Viktor o escutava como podia, mas havia coisas que o fosso das gerações o impedia de entender. “Seu pai te tem em grande conta”, Dimitri me contou certa vez que Viktor lhe dissera, “você não é o patinho feio que pensa ser”.
Dimitri não teve um acidente vascular; ele tirou a própria vida, mas esta realidade foi de todos sonegada pelo tabu do suicídio. Quando alguém chega a este ponto, muitos dedos são apontados para todos aqueles que, estando por perto, nada fizeram. Não fui ao enterro, pois não suporto tanto a dor quanto a estupefação pela morte de um jovem. Todavia, entendo por que nos contaram a versão adocicada de sua morte. Tanto antes, quanto hoje, o suicídio é marcado pela mancha da vergonha e da culpa. Como Marc-Antoine, o filho de Jean Calas – no famoso erro judiciário de Toulouse tão bem descrito por Voltaire – tirar a própria vida é uma vergonha que se espalhava para cima, para baixo e para os lados, atingindo tanto a memória de quem se foi quanto a respeitabilidade daqueles que com ele conviviam.
Dimitri não conseguiu suportar uma vida de dedos apontados e desejos sufocados. Apenas Viktor um dia escutou dele uma tênue confissão. Não de uma visão clara, mas de uma ponta que se erguia do iceberg de sua alma. Viktor lhe perguntou o que sentia, e por que tanto se angustiava, e tudo o que Dimitri conseguiu responder foi “Eu não sei. Meu desejo é apenas um fragmento de caos deslocado no universo”.
Dimitri teria hoje 63 anos.
Anatoli Kuznetsov, “Contos de Novosibirsk”, Ed. Fiodorov, pag 135
Anatoli Kuznetsov é um escritor russo nascido em São Petersburgo em 1962. Escreve basicamente contos e crônicas em especial do universo LGBT. É um dos mais conhecidos ativistas russos contra as leis de censura à homossexualidade, em especial às prisões, constrangimentos, humilhações públicas, perseguições políticas e até mesmo assassinatos. Anatoli Kuznetsov foi preso por “desordem pública” em 1990 ao liderar uma passeata em favor das minorias, tendo sido mantido preso sem julgamento por mais de dois meses, sendo liberado a seguir sem uma acusação formal. Faz parte – e foi fundador – da Coalizão Russa pelos Direitos LGBT e milita nesta causa até hoje em sua cidade. Escreveu mais 4 livros e um ensaio de fotografias sobre a história e a vida reclusa dos velhos homossexuais.
Pavel acordou quando uma lâmina de luz invadiu sorrateiramente a cela lambendo seu corpo encolhido. Abriu os olhos com sofreguidão, afastando as pálpebras e permitindo que o sol esquentasse sua cara amassada e pálida. O brilho luminoso que tocava seus cabelos loiros e revoltos parecia produzir uma chama em sua cabeça. Resmungou um pouco e reclamou da hora. Não era fácil dormir durante a noite ao som dos gritos, os barulhos dos ratos, a conversa dos carcereiros e os sons variados da noite, os cães, os gatos, as corujas e os camburões que chegavam ao portão central trazendo novos hóspedes. Tudo isso fazia sua cela solitária ser invadida por milhões de pequenos pacotes de som, muitos deles misturados e sem distinção, enquanto alguns chegavam solitários e nítidos. A noite na prisão era cheia de vazios preenchidos por angústias e medo. Ergueu seu corpo esquálido e resolveu se refugiar do calor do sol, deu dois passos e colocou-se na face oposta da pequena cela, onde a sombra ainda cobria de penumbra a parede descascada. Ajustou suas costas nuas no vão entre a parede e um ressalto da viga e sentiu o vinco do concreto a lhe machucar as costelas. Apesar de passar horas durante o dia encostado naquela parede, nunca havia sentido o vinco do ressalto a lhe incomodar. Afastou-se por momentos da parede e olhou para o pequeno vão atrás de si para entender por que seu corpo parecia não caber mais naquele espaço.
Anos já se haviam passado desde que pela primeira vez foi colocado na pequena cela solitária. Não havia engordado, por certo. Sua perda de peso já contava mais de 20 quilos desde que ali chegara. Como poderia então seu corpo subitamente não caber mais num espaço que sempre foi usado para fugir do sol impiedoso que lhe castigava nas manhãs de verão? Olhou mais uma vez para o pequeno vão entre a viga e a parede branca. De súbito fechou os olhos, girou a cabeça em direção à porta enferrujada e suja da cela e, depois de alguns instantes puxando pela memória, tentou recordar as imagens que deveria estar vendo. Descreveu mentalmente a porta de ferro verde, a portinhola de baixo por onde lhe chegava o pão duro e a sopa de peixes, o grunhido que faz ao abrir, os sapatos dos carcereiros, o ar que entra quando ela eventualmente é aberta, o vaso sanitário imundo que está no canto contíguo e o sol colorindo com sua luz o chão poeirento.
Depois do exercício, abriu os olhos e se assustou com as imagens que viu sobrepostas à sua lembrança. Tudo em sua mente estava levemente diferente. Em pânico se ergue, empurra suas costas contra a parede e decide contar os passos até a porta da cela. Menos de quatro passos. Muito impreciso. Prefere, então, contar com os pés. Equilibra-se como um bailarino de corda bamba e coloca um pé disforme e sujo depois do outro, cutucando seu calcanhar cascurrento com a unha do dedão. Contou catorze pés e mais quatro dedos da mão. O sentimento era de assombro e pânico. Pensou por alguns instantes estar alucinando, mas resolveu olhar os rabiscos na porta de ferro, feitos com o cabo de seu garfo, nos primeiros dias em que ali havia chegado. Leu seu nome “Pavel” arranhado na porta, com a letra trêmula que lhe sobrou após uma noite de espancamentos.
Não havia em sua mente mais nenhuma dúvida, e um frio gelado percorreu o estreito espaço de sua coluna. Aquela era a sua velha cela imunda, e ela estava encolhendo.
Pyotr Kuznetsov, “Сила молчания” (A Força do Silêncio), Ed. Dubrov, pag 135.
Pyotr Kuznetsov é um escritor russo, nascido em São Petersburgo em 1958. É irmão do também escritor Anatoli Kuznetsov, apesar de terem mães diferentes, pois a mãe de Pyotr morreu de tifo pouco depois de seu nascimento e seu pai Sergei Kuznetsov casou-se com sua segunda esposa Maria, e tiveram seu único filho Anatoli. Enquanto Anatoli participava de manifestações e escrevia textos de protesto, Pyotr dedicou-se às letras, estimulado fortemente pelo irmão, cuja luta em defesa dos direitos LGBT muito o influenciou. Apesar de não ser homossexual, esteve preso, assim como seu irmão, pelas passeatas e demonstrações das quais participou em defesa da comunidade LGBT. Escreveu “A Força do Silêncio” ainda na penitenciária em Moscou, para onde foi levado após uma prisão arbitrária sob a acusação de profanar a bandeira da Federação Russa. É casado com Ekaterina Fedorova, e tem duas filhas: Natália e Malinka.
No envelope amassado entregue pelo guarda, Zdenka conseguiu de imediato reconhecer a letra rude e a firmeza dos traços que ferem o papel, produzidos pela caligrafia de Oleg. Ao alto ele escreveu entre aspas:
“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem.” (Bertolt Brecht)
Veja, minha amada Zdenka, esta é uma das mais belas frases e concepções que conheço. Vemos com facilidade a violência no assaltante frio, mas não enxergamos as amarras sociais invisíveis que o atam à bandidagem. Dizemos brutal o roubo da propriedade, mas não dizemos desumana a privação de quem nunca a teve. Percebemos com clareza a brutalidade de um assalto, mas não salta aos nossos olhos a injustiça de quem nada tem para perder. Por fim, acreditamos justa a punição de quem de nós algo subtrai, mas esquecemos de punir quem de todos expropria.
Theodor Luděk Novotný, “Řeky a jejich břehy” (Os rios e suas margens), Ed. Palmear, pág. 135
Theodor Novotný é um escritor nascido em Praga, na Tchecoslováquia em 1974, após a primavera de Praga e durante a dominação soviética. Toda a sua infância foi marcada pela intromissão soviética no seu país e seus trabalhos iniciais – como “Flores para Václav” – se inseriam no retorno da autoestima do povo checo. A partir daí, e muito influenciado pela literatura de Milan Kundera, passou a se dedicar aos dramas psicológicos mais profundos, mas sempre com o pano de fundo das transformações produzidas pela Guerra Fria, pela queda do muro de Berlim e pela implosão do “comunismo real”. Em “Os rios e suas margens”, ele centra a ação em Zdenka, uma militante de esquerda acusada de conspirar contra os governos alinhados com o totalitarismo. Nos interrogatórios a que foi submetida, ela encontra o prisioneiro Oleg, um velho comunista ressentido que sofre pela desilusão e a derrocada de seus sonhos. Desse encontro surge uma amizade que perdura através de missivas, entregues pelos guardas de ambos os setores da prisão. No final, uma mistura de drama e comédia, ocorre o reencontro de ambos e brota uma mensagem de esperança surgida das cinzas de vidas esmagadas pela fidelidade aos ideais.
Os olhos fechados sobre o inox recebiam da mesa gelada o reflexo das lâmpadas que se penduravam do teto. Nenhum movimento, nem mesmo quando a furtiva mosca pousou sobre o contorno da sua orelha esquerda. Os lábios cerrados mantinham encarcerada a última palavra, ainda repousando sobre a língua descolorida. Havia muito que já não tinha cabelos, e a pele há muito perdera sua cor rosada, substituída por uma palidez marmórea.
Seu rosto duro encarava a lâmina giratória à sua frente de forma impassível. As rugas no contorno dos olhos se mantinham estáticas, emolduravam a comissura dos olhos com uma serenidade aterrorizante. Nenhuma lágrima e nenhum remorso aparente. Seu crime seria pago com indiferença. Subitamente Ezra, o assistente manco de avental amassado, apertou o botão vermelho na parede ao lado e fez a lâmina girar, e nos assaltou um som agudo de marcenaria – ou açougue. A sala acanhada se encheu com o ruído fino e envolvente da máquina giratória, enquanto os dentes da lâmina brilhavam ao nosso olhar incrédulo. A execução se iniciava.
Com a mão na nuca do homem, ele fez um delicado movimento, empurrando-o em direção à serra circular. Esse nada disse, sequer resistiu. Seus olhos se mantiveram fechados assim como sua boca, talvez por pressentir que seu momento derradeiro se aproximava. O ruído ficou mais intenso enquanto nós, aglomerados no lado oposto da mesa, sentimos os pelos do braço retesarem à espera do inevitável. Aguardamos por um grito, uma resistência, uma queixa que nunca chegaria. Talvez para nós a passividade do homem se mostrava mais brutal do que a pena a ele imposta. O giro da máquina parecia se intensificar à medida em que se aproximava da face lívida do pobre homem. Nossa respiração há muito parou e as batidas surdas de nossos corações retumbavam pela sala, num tamborilar de medo e horror, mas também nos envolvendo em uma excitação inquestionável. Enquanto isso, os lábios pareciam querer beijar a lâmina que se aproximava e, mesmo assim, ele nada disse. Meus ouvidos escutavam o guinchar histérico dos violinos de Psicose em sinistra repetição.
A loucura foi seu crime. A insanidade levando ao isolamento e ao martírio de uma vida infeliz. Resgatado dos porões do manicômio, agora estava ali diante de nós para pagar sua derradeira pena. A serra impiedosa encostou, finalmente, em seu nariz, bem ao centro. Nenhum movimento, nenhuma sílaba, sequer um apertar de pálpebras. Seguindo seu ritmo, ela cortou a cartilagem do nariz enquanto feria o lábio inferior, seguindo-se o superior. Ezra manteve-se mudo, sem dizer palavra. Havia respeito ou insensibilidade? Ajeitou seu pé manco sob a mesa e imprimiu mais força na nuca do homem, deixando o aço frio atingir a testa, o queixo, e separar definitivamente seus olhos. Enquanto a lâmina atingia o pescoço, alguém ao meu lado levou a mão à garganta, e a sala inteira pôde escutar seu soluço involuntário.
Mais um minuto e a mão firme do carrasco cortou a última fibra de pele da nuca. Com a mão enluvada, apertou novamente o botão e a máquina se calou. De imediato o homem caiu para os dois lados ao mesmo tempo; uma parte de si para cada borda da mesa, exibindo seus miolos, sua mente insana, sua loucura e suas memórias. Fragmentos da sua infância, vida adulta, seus amores e dramas salpicaram na mesa, mas não havia sangue, apenas silêncio. Ezra juntou as metades do condenado e as colocou em uma bacia. Nenhuma explicação do que seria feito. Ainda com as máscaras no rosto, saímos em fila da sala, carregando conosco a certeza de que não há nada que nos ensine mais sobre a vida do que olhar um corpo que ela abandonou, despudoradamente exposto em uma aula de anatomia.
John Avery Smith, “The Day When They Sort it Out”, Ed. Printemps, pág 135
John A. Smith nasceu em Augusta, divisa da Georgia com a Carolina do Sul no auge da depressão americana pós “crack da bolsa”, em 17 de agosto de 1930. Filho de agricultores, muito cedo desenvolveu o gosto pela escrita, sendo o editor chefe do jornal de sua escola o “Old College” em Athens, que posteriormente se tornou a University of Georgia. Foi nessa universidade que ele cursou medicina, tendo se formado em 1956, vindo a praticar em diversas cidades na Georgia e na Carolina do Sul. Seu primeiro livro foi “Amidst the Battle Roar”, um romance sobre um soldado negro desertor na “Batalha de Atlanta” ocorrida na Georgia em 1864. Recebeu o “Prêmio Maccabee de Literatura” por esta obra, o que o estimulou a continuar seu trabalho como escritor ao lado de sua prática médica. Morreu em Atlanta em 1997, aos 67 anos, vítima de um infarto fulminante, logo após escrever seu derradeiro livro (para alguns seu “canto do cisne” e sua obra-prima) chamado “Love, Peace and Truth”, dedicado a sua esposa Meggy Weinsbaugh, conhecida novelista. Não teve filhos.
Diante do cenário luminescente de matizes multicoloridos do céu, ele se despiu do último cigarro, fazendo a brasa vívida brilhar contra a paisagem avermelhada dos bancos do bar. Da primeira baforada surgiu a frase entrecortada pela fumaça.
– Se há algo que não podemos controlar, Rick, é o ouvido alheio. Nada nos garante que o coração de quem ouve poderá compreender o que falamos, muito menos o que se esconde no vão das palavras. Como saber se a frase solta não vai encontrar um oceano de contextos na mente do outro? É verdade, irmão, o ressentimento é uma capa que ao mesmo tempo em que nos protege sorrateiramente nos corrói a alma.
Sentado à sua frente, Richard colocou uma colher a mais de açúcar no café, fazendo o tilintar da colher entoar um dueto com os carros que passavam na rua. Seu olhar estava fixado na porta do bar na esperança de que Emma viesse finalmente encontrá-los. A ansiedade pelo encontro enchia o bar acanhado de silêncios que, misturados com o aroma de café passado, traziam a todos a dor pesada de muitas nostalgias. Richard descolou o olhar da porta e sorveu o primeiro gole de café. Enquanto absorvia o amargor adocicado da bebida, fitou Mark ainda com a xícara tocando os lábios.
– Se ela entendeu dessa forma, não há nada que você possa fazer, disse. Não adianta se martirizar. Se ela se magoou com aquelas breves palavras, não cabe a você se culpar. Você sabe como são as mulheres…
Mark sorriu pela primeira vez.
– Não, irmão. Nunca saberei.
O tilintar dos sinos da porta de entrada anunciou a chegada de Emma. Rick sabia que seu rosto denunciaria seu propósito e o que ocorreria nas próximas horas. Vestia-se sobriamente e carregava uma sombrinha nas mãos. Seu olhar procurava a dupla que a aguardava até que finalmente atingiu em cheio as pupilas contraídas de Richard.
– É ela, Rick? – disse Mark sem ousar virar o corpo.
– Temo que sim. Esteja preparado e boa sorte, brother.
Barry Wiedeman Harris, “The Portrait of the Devil”, Ed. Canvas, pág 135
Barry W. Harris foi professor de literatura medieval na Universidade do Novo México. Escreveu vários livros relacionados aos conflitos sociais derivados da imigração. Como homem de esquerda, foi membro do Partido Socialista da América e, quando do seu desmembramento em 1973, manteve-se filiado ao Comitê Organizador Socialista Democrático. Seus livros e crônicas abordam de maneira ácida o racismo e o preconceito de classe dos “WASPs” (White Anglo-Saxon Protestant) em contraposição aos sonhos e esperanças das comunidades latinas que vivem nos estados limítrofes da fronteira mexicana. Casou-se com Julieta Morejano, de ascendência guatemalteca, e teve dois filhos, Pedro e Enrique. Morreu em 1998, vítima de um câncer de tireoide.