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Motivações e sombras

Em toda mobilização subjetiva no sentido da transformação haverá um deflagrador de origem primitiva, emocional; sexual em essência. Como dizia Dimitri*, as concepções de ordem intelectual jamais oferecem potência para mobilizar as energias criativas de um indivíduo. A real origem delas pode ser recôndita, inconsciente e inconfessa, mas uma busca apurada encontra a semente psíquica e erótica desses movimentos que, multiplicados por contextos e circunstâncias infinitos, produzem guerras, monstruosidades, o amor romântico, a cura das doenças e até a conquista do universo.

Edouard Davrigny, “The Inner Circle of Mystic Roots – The life and work of Dimitri Czerkow”, ed. Altumus Press, pág. 135

Edouard Davrigny é um escritor belga nascido em 1936 na cidade de Kortrijk, próximo à fronteira da França. Sua mãe era comerciante e seu pai professor de história na escola local. Fez seus estudos na França, tendo estudado psicologia na Sorbonne. Durante seus estudos tomou conhecimento da obra do místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, que no século XIX produziu uma extensa coletânea de livretos que poderiam ser considerados precursores da obra de Freud, não fosse que o mestre austríaco jamais poderia ter tomado conhecimento deles, já que somente foram descobertos em 1950 durante a construção da estação Komsomolskaya (Комсомольская) do metrô de Moscou, quando uma arca com manuscritos muito bem preservados foi descoberta sob uma das casas demolidas. Dimitri passou a ser estudado por vários pesquisadores e historiadores russos, mas nenhum deles produziu uma historiografia tão completa quanto a de Edouard Davrigny. Edouard escreveu vários livros sobre psicologia e participou de coletâneas de vários outros autores. Entre seus livros, o mais conhecido é “Psychologie et substances psychoactives”, também lançado pela Altumus Press.

* Refere-se ao místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, cujo livro “Inner Circle” de 1866 estabelecia as rotas, os rituais e os condicionantes para a elevação espiritual dos iniciados. Ficou conhecido pelo uso de substâncias alucinógenas derivadas de raízes de Eleutheria pragnatis nas suas atividades como místico e por sua devoção à divindade Gorratchin – uma mistura de bondade extremada e desinteressada com hipersexualidade dionísica. Acabou seus dias com distúrbios sérios da sanidade mental e foi enforcado por fraude fiscal.

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Silêncio

Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.

Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135

Karl Batterman é um escritor inglês nascido em Leicester em 1869. Filho de pai operário e de uma família de 10 irmãos (entre eles o líder do “Labour Representation Committee” Jeffrey Batterman, morto na revolta dos trabalhadores de Manchester em 1902), escreveu várias novelas que eram publicadas em jornais de Londres. Contemporâneo de Sir Arthur Conan Doyle, rivalizava com ele na preferência popular. Escreveu “A Study in White” como uma sátira à obra de seu compatriota, falando da história do Inspetor Legendre, um policial beberrão e desastrado que, com muita sorte e ações do acaso, conseguia desvendar casos em que a polícia inteira fracassava. Sua obra “The Neverending War”, escrita em 1905, foi tomada por muitos críticos posteriores como uma previsão sarcástica dos fatos que redundaram na eclosão de duas grandes guerras mundiais. De uma certa forma, seus personagens agiam diante da inevitabilidade de uma catástrofe iminente, o que, de fato, acabou tragicamente ocorrendo. Morreu em Suffolk em 1915.

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Vítimas

Karl havia se indisposto várias vezes com o promotor Ernest em outras oportunidades, mas sempre no âmbito dos julgamentos em que ambos representavam lados opostos da causa. Sabia também que, apesar dos arroubos e dos gritos frequentes, estes embates são encenações que têm o mesmo sentido daquelas protagonizadas por jogadores que simulam as faltas em um jogo de futebol. Finda a partida, seria possível esquecer as escaramuças tomando uma boa cerveja no bar contíguo ao tribunal. “No hard feelings” diziam eles.

Entretanto, não era o caso do promotor Ernest. Suas desavenças não se limitavam aos casos específicos em que duelaram diante do júri, mas tinham a ver com as perspectivas de mundo absolutamente distintas que abraçavam. Para Ernest, o mal e o crime eram marcas da alma do sujeito, escolhidos conscientemente como ferramentas de reconhecimento social. Os delitos eram produtos de “almas ruins e degradadas”, e usava exemplos conhecidos de sujeitos que, vindos dos locais mais infectos de uma sociedade, conseguiam se tornar cidadãos de bem, produtivos e honestos. Para ele, a gênese social da criminalidade era um mito marxista tolo e infantil, e a única forma de exterminar o mal seria mediante punições exemplares aplicadas àqueles que fugissem à trilha da ordem e da lei. Apesar de reconhecer a inutilidade de debater estes assuntos com pessoas como Ernest, desta vez Karl não se conteve e decidiu-se por falar o que pensava, enquanto ambos aguardavam a chegada do juiz Sebastian para os acertos definitivos sobre o “Caso Ingelheim”, que tanto lhe atormentava.

– O ladrão é vítima, disse ele olhando para Ernest por sobre os óculos finos que repousavam sobre o nariz pontudo. Vítima, também. Entretanto, continua sendo um criminoso. O problema com essa questão é a sua visão estúpida e moralista que nos impede de ver que, sim, um indivíduo pode ser criminoso e vítima social ao mesmo tempo. O fato de ser vítima de uma estrutura social injusta e perversa não significa que o crime que porventura cometeu não deva ser punido, mas mostra que este delito não ocorre isolado, produzido apenas pela ótica simples da degeneração moral do malfeitor.

Ajeitou sua gravata e pigarreou, levando o punho à boca. Ajeitou os papéis sobre a mesa como cartas de um baralho. Continuou suas palavras para Ernest mesmo sabendo do pouco efeito que sua visão humanista teria em seus ouvidos duros.

– Não, Ernest; o crime cometido – seja ele qual for – é apenas a ponta visível do iceberg de abusos e violências cometidas contra este, agora criminoso, mas são escondidas do nosso olhar preconceituoso e racista. O universo desses “esquecidos” é povoado de pequenas e grandes tragédias, que são sempre desconsideradas quando levantamos o braço e apontamos nosso dedo acusador.

Nesse momento, abriu-se a porta de mogno escuro e apareceu a figura imponente do juiz Sebastian.

Herbert Blumm, “Der Ankläger”, ed. Klopf, pag. 135

Herbert Koennighausen Blumm é um jornalista alemão, especialista em casos policiais, nascido em Bonn em 1983. Escreveu dois livros sobre a temática da criminalidade, “Der Ankläger” (O Promotor) e “Der Richter” (O Juiz), e prepara-se para publicar o terceiro livro da trilogia “Der Rechtsanwalt” (O Advogado), onde aborda os dramas intestinos dos operadores do direito, em especial no que diz respeito aos acertos extrajudiciais e as pressões produzidas por corporações multimilionárias sobre a livre decisão dos magistrados. Seus livros desnudam a corrupção das altas esferas do judiciário alemão e a impunidade que cerca grandes nomes da política. Mora em Berlim e é articulista do “Der Spiegel”.

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Liberdade

A fantástica história de Jack e Emmet, e o homem que lia livros para se tornar livre…

JJack sabia do amor que Emmet nutria pelos livros. Não era sequer necessário que ele houvesse descrito a pequena biblioteca que tinha em sua casa antes de chegar aqui. Sua forma por vezes rebuscada de descrever os cenários ou os episódios de sua vida mostrava o apreço que nutria pelas palavras. Ah, os conceitos, as nuances, as filigranas. Nenhum objeto existia na descrição de Emmet que não merecesse uma metáfora. Esse seu jeito sofisticado de descrever a vida só podia ter surgido pelo exercício continuado de apreender seus significados folheando incansavelmente as páginas com a avidez erótica da curiosidade.

Ele, entretanto, não possuía livros em seu poder. Os poucos que eu tinha, Zora os entregava mensalmente durante as visitas, os quais ajeitava com carinho debaixo do meu catre simples, mas sempre limpo. Para meu olhar clínico era fácil entender esta ausência nele. Emmet ajeitava os óculos com cuidado diante de qualquer tarefa, mas este esmero mais se mantinha por um cacoete do que pela justeza dos focos. Pouca diferença fariam os ajustes das lentes por sobre o nariz vermelho e anguloso. Emmet praticamente nada enxergava, mas tentava disfarçar ao máximo sua dificuldade na frente dos outros prisioneiros.

Por ser o mais velho da cela, lhe coube a única cama que recebia uma tímida nesga de sol nas manhãs de inverno. Seu rosto magro recebia a carícia do sol apenas por breves momentos, exatamente quando recebíamos o sinal de deixar as celas para o café matinal. Emmet esperava que todos saíssem do cubículo para só então tatear suas roupas e calçar as botinas velhas e escuras. Perguntava por mim, e quando lhe respondia o cumprimento sorria dizendo “ora, que tonto, nem vi que ainda estava aí”. Meus anos na medicina me permitiam saber que Emmet estava há muitos anos lutando contra o diabete. Suas injeções diárias de insulina eram feitas à noite, escondido em sua cama, quando a cortina de panos encardidos lhe oferecia uma benfazeja, porém curta, privacidade. Mas eu sabia. Apesar disso, nunca comentei com outros detentos e sequer lhe disse que tinha conhecimento de sua doença.

Uma certa noite, antes do “black out”, Emmet me perguntou o que estava lendo. Por certo que ouviu o folhear lânguido das páginas ao seu lado. Talvez esse tenha sido um daqueles momentos transformadores na vida de um sujeito, mas que, em geral, passam despercebidos quando ocorrem. A pergunta de Emmet tinha um som estranho, que carregava mais do que uma simples curiosidade; era também mais do que uma forma de preencher o vazio cheio de silêncios entre nós, ou para se livrar do desconforto que tais momentos representam. Sua dúvida tinha a triste melodia de uma súplica. Coloquei o dedo entre as páginas do livro como um marcador e o fechei. Olhei para Emmet que permanecia com o olhar fixo na parede suja à frente.

– A República…

– Platão!!! – disse ele sorrindo, antes que eu pudesse completar a informação. Havia uma emoção triste e genuína em sua face emagrecida.

– Em que parte está? – perguntou ele.

– Quer que eu leia? – perguntei, sem me dar conta de que esse era o desejo inconfesso de Emmet fantasiado de frugal curiosidade. Abri o livro novamente e li a partir de onde meu dedo, ainda preso entre suas páginas, apontava.

Sócrates: “Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância…”

Depois de poucos minutos levantei os olhos da leitura daquele parágrafo apenas para comentar alguma banalidade sobre o gênio de Platão, ou sobre sua influência no pensamento ocidental, mesmo após milênios passados de sua morte. Entretanto, minha voz foi interrompida antes da primeira palavra. Com as mãos espalmadas sobre os joelhos pontiagudos, Emmet jazia imóvel. Seus olhos marejados se fecharam num piscar reflexo, de onde brotaram duas lágrimas que percorreram com morosidade os sulcos de seu rosto. Sem abrir os olhos, ele segurou meu braço com delicadeza e de seus lábios uma voz quase apagada sussurrou:

– Obrigado, meu amigo Jack.

James G. Higgins, “Freedom”, Ed. Lasseter, pág 135

James Garret Higgins é um jornalista e escritor americano nascido em Tulare na Califórnia em 1939. Fez sua formação universitária na California State University em Sacramento, tendo cursado Jornalismo e posteriormente Ciências Sociais. Após trabalhar na Nigéria por 3 anos como correspondente da Guerra de Biafra, de 1967 a 1970, voltou para os Estados Unidos e escreveu vários romances nos quais descrevia as condições que testemunhou na guerra brutal e fratricida que ocorria em uma das regiões mais miseráveis do planeta. O bloqueio imposto pelo governo nigeriano aos grupos rebeldes que se isolaram na região de Biafra levou a uma crise humanitária especialmente causada pela fome, mas piorada por doenças endêmicas. Estima-se que durante a guerra civil, mais de 100 mil mortes entre as forças militares foram devidas diretamente à inanição. Entre 500.000 e 2 milhões de civis da região de Biafra morreram devido à falta de comida. Esses fatos descritos por James Higgins para os jornais americanos produziram marcas profundas em sua alma. Em seus livros posteriores, como “Freedom”, ele fala da busca de sentido para vidas completamente destruídas por tragédias pessoais e pela privação de liberdade. James Higgins mora em Sacramento com sua esposa Lilith e tem duas filhas, Abayomi e Fayola.

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A Cartola e a Bengala de Karpov

Olhou para seus interlocutores com um ar de enfado e regurgitou seu clichê sem nenhum pudor:

“Sou um homem muito dedicado à família”.

Na realidade, Karpov é um solitário, incapaz de cultivar amigos, reservado e tímido. Taciturno, indignado e misantropo. Um fóbico social, desajeitado e desinteressante. Não lhe sobram muitas alternativas além dos filhos e da mulher, que por força das pressões sociais continuam a manter com ele um contato protocolar. Fosse ele um mero desconhecido, sua mulher e filhos não veriam nele nenhuma das inúmeras qualidades morais que enumera para si mesmo. Deveras, se o encontrassem, murmurariam entre cochichos: “que velho chato e inoportuno!!”.

Mais do que entreveros consuetudinários, os laços de sangue lhe servem de boias salva-vidas. Não fosse pelo sangue que compartilha com os seus, sua alma seria nada mais do que uma diminuta semente presa à casca corpórea, que solitariamente rolaria pelo jardim de uma casa há muito abandonada. Sua proteção contra o completo abandono foi produzida metodicamente com as ferramentas mais primitivas: manter a dependência de sua família à relativa segurança dos bens que adquiriu. Karpov antevia que seu destino era a solidão.

Alexei Ustinov, “Цилиндр и трость Карпова” (A Cartola e a Bengala de Karpov), Coletânea de contos, Ed. Vostok, pág. 135

Alexei Ustinov nasceu em Astrakhan, no Império Russo, em 1820. Passou a infância às margens do Volga, envolvido nos estudos e na literatura. Com 11 anos de idade, leu Noites na Fazenda de Dikanka (1831), do seu compatriota Nikolai Gogol, o que lhe produziu profundo impacto. No início de sua adolescência leu Arabescos (1835) e Mirgorod do mesmo autor, e quando da leitura dessas obras decidiu-se pela carreira de escritor. Como Gogol, especializou-se em contos, cheios de ensinamentos e crítica social. Alexei jamais escondeu que “A Cartola e a Bengala de Karpov” foi baseado em “O Capote” de Gogol, assim como “O Regente Ivan Aleksándrovitch” é uma referência óbvia ao falso inspetor enviado para fiscalizar a cidade no “Inspetor Geral”. Escreveu várias coletâneas sobre a vida no campo, o Volga, os passeios de barco no Cáspio e também sobre as interações das crianças com seus cuidadores diante da educação severa – e por vezes brutal – na Rússia imperial. Escreveu em 1852 um conto chamado “Adeus ao Mestre” em que faz referência a Nikolai Gogol, falecido naquele ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua juventude. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua infância. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.

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Nathalie

Nathalie cruzou as mãos sobre os joelhos e manteve seus olhos fixados em um ponto abaixo do horizonte plúmbeo. Tinha-os tristes e as linhas que os circundavam eram marcadas por nuvens densas a cobrir de sombras seu rosto.

– Nada pode preencher este vazio, Nick. Não há sequer palavras que possam ser ditas. Talvez aqui esteja mesmo o “encontro das pontas” que o pastor falou em seu sermão. Se não é possível descrever em palavras a emoção fulgurante do nascimento, também na morte faltam as palavras; ela só pode ser percebida por inteiro quando sentida na carne. Nada do que é dito faz sentido diante da ausência, do vão, do nada que nos recobre. A morte é um grande fosso de nada.

Nick, engoliu em seco e pensou que seu silêncio diria mais do que qualquer frase. “Na dúvida, silencie”, lembrou do conselho do avô. Olhou os olhos secos de Nathalie e sentiu nos próprios braços, como uma cãibra, a dor da impotência. Queria acalentar sua amiga, mas não há abraço suficiente para um momento em que a dor ultrapassa os sentidos.

Nathalie continuou, depois de suspirar e girar os olhos pelo céu, sem poder fixá-los em nada.

– Sabe o que é pior, Nick? É essa sensação incrível de perda, como um membro arrancado sem aviso. O desejo de caminhar e perceber que faltam as pernas, ou de afagar quando se foram os braços.

– Mas… – Nick balbuciou meias palavras, mas foi interrompido pela fala de Nathalie.

– Só o que consigo pensar é que as coisas de que eu mais gostava foram tiradas de mim. Não lembro agora das festas, das viagens, do nascimento dos nossos filhos ou da chegada dos netos. Essas são luzes brilhantes que iluminaram nosso caminho e jamais as perderei da lembrança. Entretanto, o amor não se sustenta apenas por estes alicerces, mas pelos humildes tijolos que lhe dão forma. Em minha mente agora está o prato da comida de que ele mais gostava, o barulho da chave no portão da casa quando chegava, seus passos arrastados no pequeno hall, sua face cansada e o sorriso que ele colava no rosto ao ver chegarem os netos ou quando sentia o cheiro da sua comida predileta.

– Entendo – murmurou Nick, sem ter muito mais o que dizer.

– Que sentido há em viver quando aquele sorriso simples, que significava a minha vida inteira, se perdeu na poeira para sempre?

Nathalie deixou correr uma lágrima tímida enquanto as últimas luminosidades do sol se recolhiam, driblando as nuvens e avisando ao relógio o fim de mais um ciclo.

Jeremy S. Woolworth, “Bridge to Nowhere”, Ed. Sargaço, pág 135

Jeremy Sean Woolworth é um escritor americano nascido em Rodman, Nova York, em 1935. É descendente da família de milionários americanos fundada por Frank Winfield Woolworth, que abriu a gigantesca rede de lojas Woolworth, inaugurada em 1879. Apesar de seu berço dourado, jamais se interessou pelos negócios – que seus irmãos levaram adiante – e se dedicou desde muito cedo à literatura. Fez em seus livros uma excelente descrição da sociedade americana prévia à segunda guerra mundial e, depois dela, com a sombra do macarthismo assombrando a liberdade de expressão que atingiu artistas, jornalistas e escritores – incluindo ele mesmo, preso por desacato ao Congresso após se recusar a depor perante o HUAC (House Un-American Activities Committee), no auge da caça às bruxas macarthista. “Bridge to Nowhere” é uma coletânea de contos sobre a perda em suas formas mais diversas — o exílio, a amizade destroçada pela delação e, também, o luto mais íntimo e silencioso, como o de um casamento interrompido pela morte.

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Dimitri morreu

Hoje se completam 35 anos da morte de Dimitri. Lembro da data porque estava no trabalho e meu telefone tocou. Era Vladimir me trazendo a notícia. “Súbito”, me disse. Dimitri não tinha mais do que 28 anos. Era psicótico, e eu mesmo o havia visitado em um hospital durante um surto. Já fazia algum tempo morava só. O pai também sofria de transtornos mentais, assim como o irmão mais novo. Foi encontrado três dias depois de ter morrido. “Ouvi falar de uma ruptura de aneurisma”, emendou Vlad.

Muitos diziam que Dimitri era gay, mas não havia como saber naquela época. Ele tinha 4 anos a mais do que eu, e provavelmente sequer ele se sabia homossexual. Certa vez me convidou para jantar e ficamos conversando sobre nossas famílias e planos. “Pago o jantar”, insistiu. Eu tinha 18 e ele 22. Dimitri era dono de uma inteligência fina, raciocínio rápido e humor ácido. Sim, tinha uma certa afetação e um gosto por se vestir bem, mas na minha juventude a homossexualidade era como espinhas no rosto: se tornavam evidentes na puberdade e se tentava escondê-las ou, se possível, fazer de conta que não existiam. A homossexualidade cursava silenciosa, como uma pleurisia que se disfarçava suprimindo a tosse. Fecho os olhos, vejo nítida a imagem do amigo à minha frente e escuto sua risada, seus comentários jocosos e seus trejeitos apenas para me surpreender com nossa cegueira diante de tantas evidências. Dimitri era gay, mesmo sem o saber. Sua morte me surpreendeu. A voz carregada de Vlad ao telefone me tomou de assalto. Nada pude dizer, e o resto da tarde fiquei adornando minhas ideias com as nossas últimas falas. Dimitri gostava do velho Viktor, e o tinha como um pai substituto para os assuntos mais complexos, já que seu pai estava sempre envolvido com a bebida e sua paranoia megalomaníaca. Viktor o escutava como podia, mas havia coisas que o fosso das gerações o impedia de entender. “Seu pai te tem em grande conta”, Dimitri me contou certa vez que Viktor lhe dissera, “você não é o patinho feio que pensa ser”.

Dimitri não teve um acidente vascular; ele tirou a própria vida, mas esta realidade foi de todos sonegada pelo tabu do suicídio. Quando alguém chega a este ponto, muitos dedos são apontados para todos aqueles que, estando por perto, nada fizeram. Não fui ao enterro, pois não suporto tanto a dor quanto a estupefação pela morte de um jovem. Todavia, entendo por que nos contaram a versão adocicada de sua morte. Tanto antes, quanto hoje, o suicídio é marcado pela mancha da vergonha e da culpa. Como Marc-Antoine, o filho de Jean Calas – no famoso erro judiciário de Toulouse tão bem descrito por Voltaire – tirar a própria vida é uma vergonha que se espalhava para cima, para baixo e para os lados, atingindo tanto a memória de quem se foi quanto a respeitabilidade daqueles que com ele conviviam.

Dimitri não conseguiu suportar uma vida de dedos apontados e desejos sufocados. Apenas Viktor um dia escutou dele uma tênue confissão. Não de uma visão clara, mas de uma ponta que se erguia do iceberg de sua alma. Viktor lhe perguntou o que sentia, e por que tanto se angustiava, e tudo o que Dimitri conseguiu responder foi “Eu não sei. Meu desejo é apenas um fragmento de caos deslocado no universo”.

Dimitri teria hoje 63 anos.

Anatoli Kuznetsov, “Contos de Novosibirsk”, Ed. Fiodorov, pag 135

Anatoli Kuznetsov é um escritor russo nascido em São Petersburgo em 1962. Escreve basicamente contos e crônicas em especial do universo LGBT. É um dos mais conhecidos ativistas russos contra as leis de censura à homossexualidade, em especial às prisões, constrangimentos, humilhações públicas, perseguições políticas e até mesmo assassinatos. Anatoli Kuznetsov foi preso por “desordem pública” em 1990 ao liderar uma passeata em favor das minorias, tendo sido mantido preso sem julgamento por mais de dois meses, sendo liberado a seguir sem uma acusação formal. Faz parte – e foi fundador – da Coalizão Russa pelos Direitos LGBT e milita nesta causa até hoje em sua cidade. Escreveu mais 4 livros e um ensaio de fotografias sobre a história e a vida reclusa dos velhos homossexuais.

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A Força do Silêncio

Pavel acordou quando uma lâmina de luz invadiu sorrateiramente a cela lambendo seu corpo encolhido. Abriu os olhos com sofreguidão, afastando as pálpebras e permitindo que o sol esquentasse sua cara amassada e pálida. O brilho luminoso que tocava seus cabelos loiros e revoltos parecia produzir uma chama em sua cabeça. Resmungou um pouco e reclamou da hora. Não era fácil dormir durante a noite ao som dos gritos, os barulhos dos ratos, a conversa dos carcereiros e os sons variados da noite, os cães, os gatos, as corujas e os camburões que chegavam ao portão central trazendo novos hóspedes. Tudo isso fazia sua cela solitária ser invadida por milhões de pequenos pacotes de som, muitos deles misturados e sem distinção, enquanto alguns chegavam solitários e nítidos. A noite na prisão era cheia de vazios preenchidos por angústias e medo. Ergueu seu corpo esquálido e resolveu se refugiar do calor do sol, deu dois passos e colocou-se na face oposta da pequena cela, onde a sombra ainda cobria de penumbra a parede descascada. Ajustou suas costas nuas no vão entre a parede e um ressalto da viga e sentiu o vinco do concreto a lhe machucar as costelas. Apesar de passar horas durante o dia encostado naquela parede, nunca havia sentido o vinco do ressalto a lhe incomodar. Afastou-se por momentos da parede e olhou para o pequeno vão atrás de si para entender por que seu corpo parecia não caber mais naquele espaço.

Anos já se haviam passado desde que pela primeira vez foi colocado na pequena cela solitária. Não havia engordado, por certo. Sua perda de peso já contava mais de 20 quilos desde que ali chegara. Como poderia então seu corpo subitamente não caber mais num espaço que sempre foi usado para fugir do sol impiedoso que lhe castigava nas manhãs de verão? Olhou mais uma vez para o pequeno vão entre a viga e a parede branca. De súbito fechou os olhos, girou a cabeça em direção à porta enferrujada e suja da cela e, depois de alguns instantes puxando pela memória, tentou recordar as imagens que deveria estar vendo. Descreveu mentalmente a porta de ferro verde, a portinhola de baixo por onde lhe chegava o pão duro e a sopa de peixes, o grunhido que faz ao abrir, os sapatos dos carcereiros, o ar que entra quando ela eventualmente é aberta, o vaso sanitário imundo que está no canto contíguo e o sol colorindo com sua luz o chão poeirento.

Depois do exercício, abriu os olhos e se assustou com as imagens que viu sobrepostas à sua lembrança. Tudo em sua mente estava levemente diferente. Em pânico se ergue, empurra suas costas contra a parede e decide contar os passos até a porta da cela. Menos de quatro passos. Muito impreciso. Prefere, então, contar com os pés. Equilibra-se como um bailarino de corda bamba e coloca um pé disforme e sujo depois do outro, cutucando seu calcanhar cascurrento com a unha do dedão. Contou catorze pés e mais quatro dedos da mão. O sentimento era de assombro e pânico. Pensou por alguns instantes estar alucinando, mas resolveu olhar os rabiscos na porta de ferro, feitos com o cabo de seu garfo, nos primeiros dias em que ali havia chegado. Leu seu nome “Pavel” arranhado na porta, com a letra trêmula que lhe sobrou após uma noite de espancamentos.

Não havia em sua mente mais nenhuma dúvida, e um frio gelado percorreu o estreito espaço de sua coluna. Aquela era a sua velha cela imunda, e ela estava encolhendo.

Pyotr Kuznetsov, “Сила молчания” (A Força do Silêncio), Ed. Dubrov, pag 135.

Pyotr Kuznetsov é um escritor russo, nascido em São Petersburgo em 1958. É irmão do também escritor Anatoli Kuznetsov, apesar de terem mães diferentes, pois a mãe de Pyotr morreu de tifo pouco depois de seu nascimento e seu pai Sergei Kuznetsov casou-se com sua segunda esposa Maria, e tiveram seu único filho Anatoli. Enquanto Anatoli participava de manifestações e escrevia textos de protesto, Pyotr dedicou-se às letras, estimulado fortemente pelo irmão, cuja luta em defesa dos direitos LGBT muito o influenciou. Apesar de não ser homossexual, esteve preso, assim como seu irmão, pelas passeatas e demonstrações das quais participou em defesa da comunidade LGBT. Escreveu “A Força do Silêncio” ainda na penitenciária em Moscou, para onde foi levado após uma prisão arbitrária sob a acusação de profanar a bandeira da Federação Russa. É casado com Ekaterina Fedorova, e tem duas filhas: Natália e Malinka.

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L’odeur du Désert

É impossível crescer sem sentir dor. As dores – tanto as físicas quanto as da alma – são constitutivas dos sujeitos, sem as quais nos tornamos autômatos e insensíveis. Somos formados no espaço que se cria entre nossos traumas e a solução que encontramos para eles.

Caminhou por entre as cadeiras reviradas e procurou uma das poucas mesas que ainda estava de pé. Colocou seu copo de vinho sobre ela e sorveu a última baforada do seu cigarro. A festa já havia acabado há mais de uma hora, e apenas alguns convivas ainda se encontravam deitados ao chão, esperando as últimas porções de álcool deixarem a mente. O aspecto do salão era desolador. Uma virada de ano, especialmente em um navio, é um convite à perda de limites. Ao seu lado Ahmed se ocupava em erguer cadeiras que atrapalhavam a circulação, mas o fazia de uma maneira metódica, como se fosse um real empregado do barco. Robert fez um gesto como a dizer “deixe assim, não se ocupe com isso/’, mas Ahmed parecia ter a compulsão para colocar a bagunça em ordem.

– Apesar de ter deixado de trabalhar em restaurantes, o fato de ter feito isso a vida inteira torna minha preocupação algo natural. Quando os franceses deixavam o bar depois das festas era quando começava meu trabalho mais duro e enfadonho.

– Deixe seus traumas em Argel, Ahmed. Você está prestes a começar uma vida nova. Você não precisa mais arrumar as bagunças que os franceses deixam para trás.

Ahmed cruzou os braços e ficou por instantes observando o Mediterrâneo. Estávamos há poucas horas de chegar a Marselha e uma vida completamente nova. O “Ville D’Alger”, da Compagnie Générale Transatlantique, riscava o oceano escuro, deixando para trás Argel, com suas histórias, memórias, cheiros e dores. Os anos de sua juventude passados em meio à guerra de libertação foram por demais traumáticas. Naquele momento, Ahmed trouxe à memória seu irmão Karim, para quem essa viagem, e os sonhos que ela propiciava, fora uma promessa compartilhada por ambos. Seu irmão havia sucumbido sob a baioneta de um gendarme em dezembro de 1960, em Belcourt, deixando seus sonhos numa poça de sangue na Rue de Lyon. De todas as perdas da guerra, esta foi a mais sentida, a mais dolorida e da qual imaginava jamais poder se recuperar. Karim era mais do que um irmão mais velho. Depois da morte do pai ele assumiu as responsabilidades da família, e funcionava como um substituto da presença paterna.

Foi Karim quem o convidou a participar das marchas e dos protestos de 22 de janeiro de 1956, quando Albert Camus fez um apelo público por uma trégua civil na guerra da Argélia, no Cercle du Progrès, nas proximidades da Praça do Governo, em Argel. Na reunião estavam aproximadamente 1.200 participantes, entre europeus e argelinos muçulmanos. Camus propôs que as partes em conflito se comprometessem a poupar a população civil. Entre os presentes estava Ferhat Abbas, importante líder nacionalista que, em setembro de 1958, se tornaria presidente do governo provisório da Argélia independente em formação. Karim estava entre aqueles que vaiaram Camus, pois não acreditava em uma solução pacífica para o colonialismo.

Robert aproximou-se do amigo enquanto este tentava encontrar no horizonte negro alguma luz que sinalizasse o porto de Marselha.

– É cedo – gracejou Robert. Só devemos chegar amanhã pela tarde.

Karim continuou em silêncio, perdido em suas memórias. Robert colocou a mão sobre o ombro do amigo e falou:

– Imaginar uma vida sem dissabores, perdas, fracassos e derrotas é absurdo e talvez enlouquecedor, meu irmão. É preciso agradecer por nossas tímidas vitórias cotidianas tanto quanto pelos nossos fracassos pedagógicos. Devemos fugir, isto sim, da anestesia, e saudar com sobriedade as dores inevitáveis que nos moldam a alma.

Henry Bouchel, “L’odeur du Désert”, Ed. Sotero, pág. 135

Henry Bouchel é um escritor argelino, nascido em Mostaganem, na costa do mediterrâneo, em 1940. Seus pais eram franceses e trabalhavam na Universidade Central de Mostaganém. Seu pai, Michel Bouchel era professor de literatura francesa e sua mãe Madeleine Bouchel era professora de geografia. Na sua infância foi testemunha dos levantes liderados por Ahmed Ben Bella, chefe da FLN – Frente Nacional de Libertação – que atuava tanto nas comunidades rurais quanto urbanas da Argélia. Muitos de seus livros espelham este respeito pelos sentimentos patrióticos dos magrebinos e sua luta contra a colonização europeia. Cerca de 300 mil argelinos pereceram nesta guerra, e 27 mil soldados franceses não retornaram vivos para casa. Sendo sua família de imigrantes, o medo de um ataque por parte dos argelinos era constante. Apesar disso, Henry desenvolveu uma clara simpatia pelas reivindicações dos argelinos por liberdade e autonomia. Muitos de seus livros espelham este respeito pelos sentimentos patrióticos dos magrebinos e sua luta contra a colonização europeia. Em 1962, quando Henry completou 22 anos de idade, a paz foi assinada por Charles De Gaule, e Ahmed Ben Bella foi conduzido à presidência. Todavia, Henry e sua família já haviam se mudado para a França há alguns anos, temendo algum tipo de ataques à sua família, como ocorreu com mais de 900 mil franceses que tiveram que voltar à França durante e após o conflito. Seu livro “O Perfume do Deserto” (L’odeur du Désert) descreve a saga de um casal de franceses em sua tentativa de fugir da FNL e voltar à França, no livro que posteriormente se tornou uma famosa película estrelada por Yves Montand. Foi casado com a novelista francesa Amélie Deschanel Dupont com a qual teve dois filhos, Robert e Ahmed – nomes inspirados nos personagens deste livro. Robert é jornalista e trabalha no Le Monde, e Ahmed é diretor de teatro. Henry mora em Marselha, na França.

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Os rios de Brecht

No envelope amassado entregue pelo guarda, Zdenka conseguiu de imediato reconhecer a letra rude e a firmeza dos traços que ferem o papel, produzidos pela caligrafia de Oleg. Ao alto ele escreveu entre aspas:

“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem.” (Bertolt Brecht)

Veja, minha amada Zdenka, esta é uma das mais belas frases e concepções que conheço. Vemos com facilidade a violência no assaltante frio, mas não enxergamos as amarras sociais invisíveis que o atam à bandidagem. Dizemos brutal o roubo da propriedade, mas não dizemos desumana a privação de quem nunca a teve. Percebemos com clareza a brutalidade de um assalto, mas não salta aos nossos olhos a injustiça de quem nada tem para perder. Por fim, acreditamos justa a punição de quem de nós algo subtrai, mas esquecemos de punir quem de todos expropria.

Theodor Luděk Novotný, “Řeky a jejich břehy” (Os rios e suas margens), Ed. Palmear, pág. 135

Theodor Novotný é um escritor nascido em Praga, na Tchecoslováquia em 1974, após a primavera de Praga e durante a dominação soviética. Toda a sua infância foi marcada pela intromissão soviética no seu país e seus trabalhos iniciais – como “Flores para Václav” – se inseriam no retorno da autoestima do povo checo. A partir daí, e muito influenciado pela literatura de Milan Kundera, passou a se dedicar aos dramas psicológicos mais profundos, mas sempre com o pano de fundo das transformações produzidas pela Guerra Fria, pela queda do muro de Berlim e pela implosão do “comunismo real”. Em “Os rios e suas margens”, ele centra a ação em Zdenka, uma militante de esquerda acusada de conspirar contra os governos alinhados com o totalitarismo. Nos interrogatórios a que foi submetida, ela encontra o prisioneiro Oleg, um velho comunista ressentido que sofre pela desilusão e a derrocada de seus sonhos. Desse encontro surge uma amizade que perdura através de missivas, entregues pelos guardas de ambos os setores da prisão. No final, uma mistura de drama e comédia, ocorre o reencontro de ambos e brota uma mensagem de esperança surgida das cinzas de vidas esmagadas pela fidelidade aos ideais.

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