Conversa de enfermeiras na troca de plantão do Centro Obstétrico de um hospital privado da cidade:
– E aí a sala de recuperação e o centro de material e blá, blá, blá, e a escala, e a rouparia e blá, blá, blá, e as salas de parto e blá, blá, blá, e também depois do aumento que houve, né?
Espichei o ouvido e perguntou:
– Aumento de quê? Salário?
Elas sorriram
– Quem dera doutor. Estávamos falando do aumento de partos normais no hospital. É impressionante.
– Sério?, perguntei eu.
– Sim, inquestionável. Vamos tabular e te mostrar.
Eu sabia que eu ainda estaria vivo para testemunhar a “virada”. A razão para a mudança? As mulheres, as mulheres.
Alguns dias depois e testemunhei três salas de PP no hospital cheias. Partos acontecendo a toda hora. Figuras desconhecidas transitando pelos corredores conduzindo trabalhos de parto. Em duas salas havia doulas acompanhando, enquanto maridos esperavam pacientemente lá fora o momento de trocar com elas de lugar.
Recém se completou um ano de “proibição branca” de doulas (as pacientes precisam escolher apenas um acompanhante, seja ele o companheiro ou a doula), mas nós não desistimos. Nossa tática foi aceitar a imposição e agir com suavidade. Com a quantidade de partos aumentando e o número de funcionários estacionado as doulas passaram a ser cada vez mais importantes e necessárias.
E isso fica cada dia mais fácil de constatar.
Parabéns meninas pela perseverança delicada e firme
“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”
Percebo que muitos profissionais que argumentam contra o direito de uma mulher parir em casa com auxílio qualificado (médicos e/ou enfermeiras e obstetrizes) precisam mais informações sobre a quantidade e a variedade de equipamentos usados no parto domiciliar planejado. Além disso, é importante que conheçam a realidade de países que, mais do que reconhecer a validade dessa assistência, ESTIMULAM que os partos sejam extra hospitalares e atendidos por midwives (enfermeiras obstetras e obstetrizes, no Brasil).
O discurso do “risco” serve como um fio lógico para justificar o controle sobre o corpo e a sexualidade femininas. Como diria Robbie Davis-Floyd, sempre que ouvimos a palavra “segurança” em relação à atenção ao parto a palavra correta deveria ser “controle“. O mesmo raciocínio de risco usado na assistência ao parto nos impediria andar de avião, ou obrigaria a presença de médicos em cada rua ou automóvel. Quando partos planejados em domicílio são comparados com os hospitalares em GRANDES avaliações e com RIGOR METODOLÓGICO o que se observa é um número muito pequeno de intercorrências relacionadas ao acompanhamento e uma baixa morbi-mortalidade em ambas as amostras, mostrando que o ambiente hospitalar não acrescenta segurança quando comparado ao ambiente extra-hospitalar.
Na minha formação médica também fui bombardeado pela “lógica do risco”, mas com o passar do tempo fui me dando conta que ela só fazia sentido num contexto patriarcal, de controle rigoroso sobre a sexualidade feminina. Assim, o parto hospitalar compulsório é um dos meios de propagação e manutenção de um discurso patriarcal e misógino, que deplora a autonomia das mulheres e que – acima de tudo – teme uma sociedade baseada na liberdade sexual e na relação igualitária entre os gêneros.
O que eu acho curioso é o fato de que se comparam partos domiciliares com a atenção hospitalar sem levar em consideração o que as mulheres desejam. Isto é: a vontade das mulheres nunca conta. É o mesmo que avaliar vantagens de um alimento sobre outro e desconsiderar o desejo ou apetite de quem come. Uma fantasia que corre no meio médico é que os profissionais humanizados determinam o local de parto para suas pacientes, quando é o oposto que ocorre: as pacientes é que solicitam ajuda para SUAS escolhas, baseadas em leituras, seminários, pesquisas, conversas, avaliações subjetivas e sua vontade. Portanto, não se trata de escolher o melhor local para parto, mas honrar – ou não – escolhas que as próprias mulheres fazem sobre o nascimento de seus filhos.
Alias… Parto domiciliar planejado no Brasil não passa de 2% da totalidade de nascimento, mesmo quando acrescentamos aos partos planejados aqueles ocorridos em zonas remotas do país, como o nordeste e a Amazônia. Trata-se, portanto, de uma realidade minúscula, mas sua vertente urbana é predominantemente um fenômeno de classe média. Uma questão burguesa, admito. Por esta razão, e pelo número pequeno de partos que acontecem desta maneira, quando me convidam para falar de humanização e parto domiciliar eu sempre digo: “Ok, desde que eu possa falar 98% do tempo em parto hospitalar e casas de parto e 2% em parto em casa, pois esta é REAL relevância da questão“.
Assim sendo, o nosso foco precisa ser na humanização da assistência hospitalar e o aprofundamento do debate sobre o DIREITO DE ESCOLHA por parte das mulheres, sem constrangimentos ou pressões de qualquer natureza.
“Humanizar o nascimento é garantir o lugar de protagonista à mulher”
Leia o artigo do médico Ricardo Jones, referência em partos humanizados no Brasil
Por Ricardo Jones
Fotos: Kalu Brum
Parto humanizado ganha força no Brasil
Para muitos as últimas medidas governamentais em relação ao controle mais rígido da utilização de cesarianas(1) foram ações bruscas, repentinas, e excessivamente severas. Afinal, a cesariana como método de nascimento está arraigada no imaginário de muitas mulheres – em especial no Brasil – como um método seguro, limpo, moderno e indolor, mesmo que a realidade seja bem diferente desta imagem. Ainda que muitos profissionais concordem que existe “algum exagero” na realização desse procedimento, a reação da categoria médica foi de desaprovação. Para os ativistas da Humanização do Nascimento, todavia, tais medidas são a culminância de mais de 20 anos de lutas para que as mulheres tivessem plenos direitos de escolha, uma assistência centrada na fisiologia e uma postura embasada em ciência por parte dos cuidadores. Para os humanistas do nascimento, as medidas não foram bruscas e muito menos severas: foram a culminância de propostas de mais de duas décadas.
Mas porque a crise na atenção ao parto?
Somos herdeiros de uma cultura que acredita estar a saúde “fora do corpo”, e magicamente acondicionada em drágeas, pílulas, comprimidos e injeções. Esta modificação na forma como compreendemos a busca pelo equilíbrio (de um modelo interno, para um modelo externo) produz repercussões em toda a sociedade contemporânea, onde a “saúde” e o “bem-estar” são vendidos como produtos, alienando o indivíduo da responsabilidade de encontrá-los por si mesmo.
Essa ideologia “exógena”, quando aplicada ao nascimento humano, gera a série de problemas que vemos hoje em dia relacionados com a extrema artificialização da vida. O aumento das cesarianas é um bom exemplo deste exagero. Esta que deveria ser uma cirurgia salvadora acabou sendo banalizada ao extremo, e um percentual muito grande de mulheres acaba optando pela sua realização sem uma noção exata dos riscos a ela associados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) determina que não mais de 10 a 15% dos partos podem terminar em uma cesariana. Incrivelmente, num mundo em que os indicadores de saúde melhoram em função do incremento nas condições sociais, a mortalidade materna aumentou nos últimos anos nos Estados Unidos, principalmente às custas do aumento de cesarianas naquele país(2).
A sociedade está se dando conta de que o modelo tecnocrático existente não está mais oferecendo a qualidade de saúde que as mulheres exigem, e se une, através das múltiplas formas de representatividade, para discutir o destino do nascimento no nosso país. É desse caldo social e cultural que surgem as organizações de mulheres, de profissionais, governamentais e a própria mídia para impulsionar as mudanças que a sociedade exige no que tange à segurança para mães e bebês.
HUMANIZANDO O NASCIMENTO “Humanizar o nascimento é restituir o lugar de protagonista à mulher”.
Humanizar a chegada de um novo ser ao mundo baseia-se na ideia de que ele deve ser tratado com carinho e ser bem recebido desde o início, além de oferecer à mulher o controle do processo. O parto humano foi forjado nesse grande laboratório de aprimoramento que é o processo evolutivo, e não pode ser melhorado através de equipamentos, drogas ou cirurgias. Nossa função como cuidadores da saúde é observar os casos em que existe uma “fuga da fisiologia” na direção perigosa da patologia. Nesse caso, poderemos com toda a confiança e confiança usar a nossa arte e nossa tecnologia para salvar tanto mães quanto bebês.
Entretanto, o que vemos todos os dias é um abuso das cirurgias. As razões para esse fato residem na desconsideração das capacidades da mulher, como se ela fosse incapaz, defectiva, frágil e incompetente para dar conta da tarefa milenar de gestar e parir. Usamos abusivamente a tecnologia, e nos baseamos numa crença preconceituosa em relação à mulher: “A tecnologia é mais segura do que as mulheres para dar conta do nascimento“. Isso é comprovadamente falso. Por estas questões marcadamente filosóficas, a Humanização do Nascimento é também uma questão de gênero, porque a matriz desta visão distorcida é uma postura de descrédito para com a mulher e sua fisiologia. O projeto global de Humanização do Nascimento é uma forma de colocar a mulher numa posição de destaque, valorizando seu corpo e sua função social e oferecendo-lhe o protagonismo de seus partos.
DOULAS Elas dão suporte em várias dimensões às mulheres grávidas nos momentos do parto.
Doulas são profissionais que acompanham as grávidas durante o processo de nascimento. Elas se aperfeiçoam em oferecer suporte afetivo, emocional e físico para as grávidas durante o parto. Elas não realizam qualquer atividade de ordem médica ou de enfermagem. Seu foco de atenção é somente a mulher e seu conforto. Não verificam pressão arterial, não auscultam batimentos cardíacos fetais, não fazem exames para ver o progresso de dilatação e não oferecem medicações de qualquer ordem. Elas são referendadas pela OMS, através do livro “Assistência ao Parto Normal – Um Guia Prático”(3), assim como pelo Ministério da Saúde do Brasil desde a publicação do livro “Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher”(4), e sua atuação é baseada em evidências atualizadas e consistentes, como pode ser visto no livro “Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto – Enkin e Cols”(5) da biblioteca Cochrane, e nos inúmeros trabalhos realizados (Klauss & Kennell(6) – Mothering the Mother). Ao lado de tantos achados positivos relacionados ao parto, também encontramos uma incidência aumentada de mulheres que continuam amamentando além de seis semanas após o nascimento de seu bebê(7). Doulas não produzem trabalho redundante, não competem com médicos ou enfermeiras pelo trabalho com as grávidas e, inclusive, deixam os profissionais mais à vontade para suas tarefas específicas. “Na ausência de qualquer risco associado, e com as evidências claras das melhorias associadas com sua atuação, para toda a mulher deveria ser oferecida a oportunidade de ter uma doula a lhe acompanhar durante o parto.“(8)
UM PROFISSIONAL PARA A VIDA O que é um “profissional humanizado” e como reconhecê-lo?
Profissional humanizado é todo aquele que entende as dimensões subjetivas do seu paciente como extremamente relevantes. É o profissional que encara toda a paciente como singular, irreprodutível e única e encara o nascimento como momento único e evento ápice da feminilidade. Trata seus pacientes com gentileza e respeito, oferecendo às mulheres a condução do processo. Posiciona-se como uma instância de orientação técnica, e não como “proprietário” do evento. Usa os protocolos mais atualizados, como a Medicina Baseada em Evidências, para o tratamento de suas pacientes, mas sempre leva em consideração a dimensão pessoal de cada uma, forjada na sua história pessoal, suas lembranças, seus medos, suas expectativas, seus sonhos, suas características físicas e seu desejo de que o nascimento de seus filhos seja vivido como um ritual de amadurecimento. É um profissional que alia as habilidades técnicas com uma postura compassiva em relação às mulheres grávidas, entendendo-as como possuidoras de um grande tesouro, que deve ser cuidado com carinho e respeito. Desta forma, tem como meta um parto em que o menor número possível de intervenções ocorra, ao mesmo tempo em que se preocupa com o máximo de segurança e bem-estar para todos.
HUMANIZAÇÃO DO NASCIMENTO E TECNOLOGIA Elas não se opõem em hipótese alguma. A humanização do nascimento é a síntese que coloca estes dois paradigmas lado a lado.
Bem sabemos o quanto o uso de tecnologia poluiu o mundo a ponto de nos colocar em risco de sobrevivência. Sabemos da mortandade de peixes, da crise hídrica, do envenenamento de lagos e rios e do desaparecimento de espécies animais pela ação predatória irresponsável. Nesta lista também cabe elencar o paulatino desaparecimento da capacidade feminina de parir, assim como a crescente escassez de profissionais capacitados para o atendimento ao parto normal. A fantástica capacidade humana de mudar o mundo é ao mesmo tempo maravilhosa e perigosa.
A humanização do nascimento é a síntese que procura oferecer uma síntese para os paradigmas em conflito. De um lado temos o “naturalismo“, onde qualquer intervenção humana seria inadequada e ruim para um evento “natural” como o parto. No extremo oposto do espectro temos a “tecnocracia“, que é um sistema de poder que coloca em posição de destaque aqueles que controlam a tecnologia e a informação. Neste modo de ver o mundo as pessoas acabam se despersonalizando, perdendo seu rosto, tornando-se objetos da ação da tecnologia. O nascimento, que deveria ser um acontecimento social, familiar e afetivo, tornou-se, paulatinamente, um evento cheio de intervenções potencialmente perigosas quando dominado pelo olhar tecnocrático. Perdemos o contato com a natureza íntima, sexual, feminina e transformadora do parto. Domesticamos o nascimento, abafando a sua natural rebeldia. Entretanto, o que sobra de humano no parto? O que resta do evento que poderia ser aproveitado como elemento de projeção e de transformação para esta mulher?
A Humanização do Nascimento entra neste momento histórico como a síntese mais acabada das teses digladiantes. Procura entender o ser humano como um ser imerso na linguagem e que constrói a tecnologia como forma de expressão de sua própria natureza racional, mas que agora começa a se dar conta do perigo de “artificialização” excessiva da natureza, externa e interna. Assim, a ideia de “humanizar o nascimento” esforça-se para oferecer o “melhor de dois mundos“(9), ao procurar o resgate do suporte social, emocional, afetivo e espiritual às mulheres em trabalho de parto, ao mesmo tempo em que oferece o melhor da tecnologia salvadora para aquelas mulheres que se afastam do rumo da fisiologia e se dirigem ao caminho perigoso da patologia.
Não há porque negar o recurso tecnológico para resgatar vidas que se apresentam em risco; por outro lado não há porque se artificializar um evento tão humano quanto o nascimento de uma criança. De tão artificializado, o nascimento de um indivíduo desfigurou-se a ponto de ser hoje um simulacro do que foi no passado.
CAMINHOS PARA A HUMANIZAÇÃO A mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social de valores!
Existem várias formas de trabalhar com essa necessária reformulação. Primeiro, é importante entender a necessidade desta reavaliação. A intromissão da tecnologia em todos os setores da nossa vida cotidiana nos cria a sensação incômoda de que estamos perdendo nossa essência.
A humanização do nascimento opera na contramão da aventura tecnológica, questionando a invasão de nossas mentes e corpos por elementos estranhos. Além do mais, essa mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social dos valores mais profundos que nos sustentam. Somos seres sociais e a nossa ação política significa organizar e mobilizar pessoas em torno de ideais comuns.
UM PROCESSO LENTO E GRADUAL A educação e conscientização para o parto humanizado têm importância vital no processo.
A tarefa de humanizar o nascimento só pode se dar através de um processo demorado e lento, porque tem a ver com a própria estrutura que sustenta a sociedade ocidental. Nossa ação, portanto, deve ser em várias frentes, sendo a educação para o parto humanizado uma das tarefas mais substanciais.
Outra ação importante é com os cuidadores de saúde. Estes devem receber orientação sobre as vantagens que a medicina baseada em evidências oferece para a humanização do nascimento. Médicos, parteiras, psicólogas, educadoras perinatais, enfermeiras e doulas devem receber treinamento numa abordagem mais integrativa, suave, social e afetiva do nascimento. A presença de companheiros e/ou familiares na hora do nascimento deve ser estimulada por estes profissionais. Esta atitude simples e de baixo custo, além de não aumentar riscos, diminui a angústia e oferece uma vivência mais harmoniosa do parto para o casal e/ou família. As escolas médicas e de enfermagem deverão incluir de forma obrigatória classes que abordem os direitos das pacientes, a humanização do nascimento e medicina baseada em evidências. É imperioso que a formação das escolas da área da saúde seja direcionada para o “novo paradigma”, onde a mulher será o centro de onde irão irradiar as decisões sobre sua vida sexual e reprodutiva.
PRINCÍPIO FUNDAMENTAL Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento.
Acreditamos na capacidade de parir que cada mulher carrega. Acreditamos na perfeição da natureza e nos milhares de anos de preparo para os mecanismos intrincados do nascimento. Sabemos da importância da tecnologia para salvar a vida de pessoas que estão em risco. Por outro lado, entendemos que a intervenção num processo natural só pode se justificar diante de critérios muito claros. Intervir no nascimento para encurtar tempo ou por interesses econômicos quaisquer são erros graves que devem ser evitados. Atitudes como essas, que retiram da mulher o protagonismo do parto, não podem ser toleradas em uma sociedade que se deseja justa e fraterna.
O desempoderamento da mulher no nascimento de seus filhos tem repercussões na sociedade como um todo, pois será ela a principal guardiã dos seus valores, e quem vai lhes ensinar as primeiras ideias. O parto é um momento pleno de afeto e sexualidade e a intervenção desmedida pode ter efeitos devastadores – físicos e psicológicos – para a mãe e seu bebê. Além disso, “se quisermos verdadeiramente mudar a humanidade temos que mudar a forma como nascemos“, como já nos dizia Michel Odent.
Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento, para que todos possam chegar a esse mundo envoltos numa aura de carinho e amor.
Ricardo HerbertJones é ginecologista, obstetra e homeopata. REFERÊNCIAS NO TEXTO
Organização Mundial de Saúde. Assistência ao Parto Normal: Um guia Prático. Relatório de um Grupo Técnico. Genebra, 1996. 53p.
Ministério da Saúde Brasil. Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher – MS 200
Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
Klauss, M.H., Kennell, J.H., The Doula: An Essential Ingredient of Childbirth Rediscovered. Acta Paediatric 86:1034-6, 1997
Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
Sosa, R., Kennell, J., Klauss, M., Robertson, S., and Urrutia, J. (1980) The Effective of Supportive Companion on Perinatal Problems, length of labor, and mother-infant interaction. The New England Journal of Medicine 303:597-600
Threvathan, W.R., Smith, E.O., McKenna, J.J. Evolutionary Medicine (1999) Oxford University Pres
Rituais de passagem são fundamentais, e o parto é um exemplo da real necessidade de ritualizar as transições pelas quais passamos. Entretanto, no parto contemporâneo ocidental não há uma falta de rituais; pelo contrário, existe uma perversão daqueles que historicamente conduziram o nascimento nos milênios que nos antecederam. Um ritual nos permite enxergar os valores inconscientes da cultura que circulam de forma invisível no “campo simbólico”, e no parto não poderia ser diferente. Os rituais que usamos revelam a estrutura valorativa que sustenta nossa ação social. Se no passado serviam para fortalecer as funções primordialmente femininas de gestar e parir, hoje sustentam o modelo tecnocrático, empoderando instituições e profissionais às custas da subtração da mulher como condutora do processo.
Assim, não nos faltam “rituais” no parto. Eles existem em abundância, bastando para isso observar os movimentos que o constituem. As malas, as roupas, as consultas de pré-natal, a ida ao hospital, o corte dos pelos, as “lavagens”, o afastamento imediato, as intervenções e tantos outros eventos se estruturam pela repetição, padronização e simbolismo, os quais caracterizam e definem todos os rituais humanos.
A diferença nos rituais que hoje observamos na assistência ao nascimento é que eles afastam as mulheres do controle, enquanto exaltam as tecnologias e quem as controla. Mudar a forma de nascer implica em transformar estes rituais, adaptando-os a um novo paradigma, passando de um modelo que aliena e exclui as mulheres para outro que as inclui e, mais ainda, as coloca no comando do processo.
A grande deflagradora deste processo de resgate da ritualística no parto foi Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Robbie é uma das maiores personalidades do feminismo no mundo contemporâneo. Seu livro “Birth as an American Rite of Passage” é um marco na antropologia do parto e nascimento, ramo da ciência que estuda os recortes transcultural da assistência ao parto. Se primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado na Universidade do Texas, vendeu mais de 40 mil cópias, e isso é algo digno de nota. Ela recebeu algumas homenagens e honrarias que apenas feministas americanas realmente importantes receberam. Participou de várias edições de “Our bodies, ourselves”, e escreveu livros que transformaram a trajetória de parteiros no mundo inteiro. Robbie descortinou o imaginário do nascimento, sua profundidade simbólica e a relação dos rituais com as práticas da atenção ao parto ocidental contemporâneo. Muitos médicos, entre os quais me incluo, mudaram a forma de ver sua ação no parto a partir da perspectiva que ela inaugurou com relação aos rituais aplicados ao nascimento.
Este texto é a consequência direta de assistir – inadvertidamente – um colega atendendo um parto através da velha ritualística de atenção dos anos 50: paciente deitada de costas, pernas erguidas, obstetra mascarado, episiotomia, gritos, Kristeller, luzes ofuscantes e uma crença óbvia – apesar de inconsciente – na defectividade feminina para dar conta dos desafios do parto. Somente depois de conhecer o trabalho de Robbie o enigma da diferença – muitas vezes abissal – entre o que se sabe e o que se faz na prática pôde finalmente ser compreendido.
Os rituais foram desvelados por Robbie, e assim despidos, puderam ser por nós analisados naquilo que trazem de mais verdadeiro.
Por abrir estas “portas de percepção” teremos com Robbie uma dívida impagável.
ACOG – American College of Obstetrics and Gynecology – a mais importante associação americana de obstetras, mudou sua posição em relação à assistência ao parto conduzida por enfermeiras obstetras fora do hospital. A partir de agora este tipo de atenção é aceita para as mulheres de baixo risco. Ainda não fez o mesmo em relação ao parto domiciliar, mas também não apresenta nenhuma justificativa para que os “partos em casa” não sejam igualmente contemplados.
Mas qual a razão para esta mudança histórica? Bem, várias. Uma delas se relaciona aos custos. Um parto em hospital custa entre 30 e 50 mil dólares (entre 90 e 150 mil reais). O custo de uma enfermeira não passa de 3 a 7 mil dólares (9 a 21 mil reais) num atendimento fora do hospital. Diminuir custos é sempre importante para equilibrar as finanças de países que lutam com déficits crescentes em seu orçamento de saúde, como os Estados Unidos (e o Brasil, igualmente). Outra razão é que este orçamento é de quase 3 trilhões de dólares por ano, mas apesar de todo este investimento os EUA ocupam o lugar 26 em mortalidade infantil e o 60 em mortalidade materna, atrás de todos os outros países do chamado “primeiro mundo”. Em 1987 o número de mortes maternas era de 6/100.000 e hoje está em 28/100.000, num crescimento assustador.
Estes números são muito baixos em termos absolutos, mas o crescimento relativo nos óbitos nos obriga a repensar um modelo de assistência tecnocrático que nos oferece péssimos resultados. Por último (mas as razões não se esgotam por aqui) a publicação do NICE na Inglaterra no final de 2014, recomendando partos em casa e em casas de parto a partir dos resultados de uma extensa pesquisa chamada “Birth Place” – que comprova a excelente qualidade destas opções – deixou a obstetrícia americana defasada e sem reação. Era imperiosa uma alteração de atitude a partir do novo cenário que se desenhava no mundo inteiro.
Esta mudança histórica terá óbvias e previsíveis repercussões em todos os países que orbitam o modelo médico dos Estados Unidos. Já não será mais possível aceitar a arrogância e a desinformação de chamar atenção em Casas de Parto de “violência obstétrica”, como se ouviu de algumas autoridades médicas. Será necessária uma revisão dos postulados que sustentam a atenção centrada na figura dos médicos e nos hospitais, até porque toda a atenção ao parto no nosso meio era baseada na confiança depositada no modelo da “matriz” americana.
Para os que lutam pela liberdade de escolha, a visão integrativa e interdisciplinar do parto e uma medicina baseada em evidências, este é um grande momento. A partir de agora já será possível ver um futuro muito melhor para as gestantes, ao se oferecer a elas uma gama maior de alternativas comprovadamente seguras.
A partir de amanhã não faço mais parte do Portal “V. Mamífera”. Durante o tempo em que lá estive pude exercitar minha vontade de escrever, conjugada com uma necessidade praticamente insana de exorcizar pensamentos e ideias. Em função da minha inabilidade com as limitações políticas da escrita, e o desejo de dizer abertamente e sem anteparos a verdade de minha mente, acabei ferindo suscetibilidades de algumas parceiras do Portal que se sentem incomodadas com a minha presença, a ponto de exigir a minha expulsão. Meu pensamento, livre de amarras ideológicas e aberto para o embate no terreno das ideias, deixou algumas companheiras decepcionadas, o que acho respeitável e compreensível. É provável que na posição delas eu sentisse o mesmo. Entretanto, há alguns meses eu escrevi que faz parte de uma trajetória séria o cultivo de algumas decepções. Mais ainda, disse que “a não gostância dói, mas a unanimidade maltrata ainda mais“. Ser colocado numa posição de expectativa oblitera a liberdade de expressão, e é um castigo que não mereço.
Assim sendo me despeço dos colegas que cultivei e peço desculpas àqueles que decepcionei. Continuarei meus escritos solitários em meu futuro blog onde as pessoas poderão entrar se desejarem ler o que eu escrevo. Peço perdão se minhas palavras feriram alguém, mas no embate das ideias isso pode ocorrer a qualquer momento. É inevitável que o atrito gere calor, que para muitos é insuportável. Minha saída objetiva, acima de tudo, manter ativo um portal que foi construído com muito carinho pela doula Kalu Brum com o desejo de estimular o debate sobre partos e nascimentos no Brasil.
Sobre a fonte da discórdia, não retiro nada do que disse, porque mantenho minhas posições ainda hoje, mesmo admitindo que um dia argumentos melhores possam fazer que sejam alteradas. Continuarei na minha luta, cada vez mais pessoal e isolada, pelo pleno protagonismo da mulher nos seus momentos sagrados de gestar, parir e amamentar. Vou me manter fiel à LIVRE escolha, sem constrangimentos, das pessoas que ELA decide como acompanhantes. Continuarei escrevendo sobre a beleza de um nascimento protegido pela aura sublime da paz, que se conquista passo a passo em cada parto atendido com dedicação e envolvimento. Por outro lado, não me calarei diante dos exageros, da insensatez, da violência, da censura, e da tentativa de cercear a liberdade de pensamento em nome de ideários sectários. Não é calando a boca de alguém que se estimula o debate, e nada se constrói sem o choque dos contraditórios, que energizam o caminho e as conquistas.
Afastar os homens do cenário do nascimento pela constante desconsideração de suas vozes, criando um ambiente negativo e violento, só pode produzir a fragmentação de um movimento, o que atrasa seu progresso. Os opositores, os que fazem parte do “mainstream” do parto cirúrgico, sempre se divertem com essas brigas intestinas. Para os amigos que entenderam minhas posições, principalmente no que tange às diferenças entre “machismo” e “patriarcado“, eu espero que compreendam a atitude de minhas colegas. Para elas, absorvidas na luta diária por um mundo com mais equidade, minhas palavras parecem se contrapor ao que pensam. Não é o que eu disse, e muito menos o que eu penso, mas entendo que no seu ativismo uma voz dissonante (e não discordante) possa desestabilizar as suas lutas.
Obrigado pelo tempo em que pude compartilhar este espaço.
O artigo anexado – escrito em 1976, quando a honra de alguém levava mais tempo para virar cinzas – nos mostra o significado do “trashing”, ou como se destroem reputações e se joga na lama antigos parceiros que ousam pensar diferente e que vocalizam suas ideias de forma aberta e clara. Sempre que o “movimento”, a “causa”, a “irmandade” são maiores do que as pessoas que os compõem (ou combatem) teremos o que se chama “pensamento totalitário“. Quando Stálin mandava matar centenas de “tavarish” com um simples e prosaico golpe de caneta, em nome da “grande mãe Rússia”, ele também não se importava com o camponês que tinha 4 filhos, era casado com Olga e se chamava Vladimir. Não, o sujeito perdia sua face e sua história diante da “causa maior”. Entretanto, sem o respeito à cada uma das pessoas que vivem nesse planeta como portadoras de um elemento sagrado – sua individualidade – só o que teremos é o terror e o desprezo como elementos de controle social.
A expressão que mais se repetiu no recente episódio da perseguição contra mim (que ousei diferenciar patriarcado de machismo), curiosamente dita por doulas e ativistas dos direitos da mulher, foi “não passará“, uma provável alusão ao “Senhor dos Anéis”, quando Gandalf, o mago, grita da beira de um penhasco para um ser diabólico que tenta alcançá-lo em uma ponte. “You shall not pass!” diz ele levantando seu cajado ameaçadoramente. Pois a frase parece ser plena de sentido nos recentes acontecimentos. Para que a causa tenha sucesso os debatedores contrários aos dogmas do “movimento” são reduzidos a demônios maléficos, imbecis e uma série de outros adjetivos facilmente encontrados quando se procura desonrar um adversário. Para estes seres do mal nenhuma pena é pouca ou suficientemente dura.
Afinal, aquele que trai os nossos sonhos não merece menos do que a destruição de sua reputação.
O movimento feminista é, em alguns aspectos, igual a todos os movimentos de libertação do mundo, como o LGBT ou dos negros, mas em alguns aspectos é único em suas particularidades. Não vou falar o que as feministas devem fazer, mas ouso dizer que esmigalhar publicamente defensores da causa ou destruir reputações de irmãs do movimento jamais serão meios adequados de se alcançar justiça e equidade de gênero. A visão histórica (marxista) dos eventos sempre nos coloca face a face com os nossos dilemas e fragilidades. Não gostamos de falar disso. Não curtimos olhar para as falhas do passado e preferimos glamorizá-lo ou inventá-lo. Mas qualquer movimento que não se critica cristaliza e morre.
Nunca um artigo veio tanto a calhar no atual debate sobre o feminismo X humanização do nascimento. Sei que tê-lo publicado vai fazer incrementar o “trashing” pois os personagens descritos nele se parecem com algumas militantes mais violentas que conheci. O desabafo de muitas das vítimas deste tipo de perseguição poderia ter sido escrito por mim, e a dor e desesperança deles se parecem muito com as minhas. Espero que todos possam assimilar os ensinamentos contidos no episódio para que as ativistas não sejam obrigadas a castrar sua natural criatividade por medo da destruição subsequente de sua honra e imagem social.
Quando vejo pessoas defendendo o parto normal e/ou humanizado para além do que considero justo ou conveniente eu lembro das palavras de Robbie, a quem considero uma grande feminista: “Não podemos permitir que nosso fervor humanista transforme este movimento na Gestapo do parto normal”.
Por entender que o parto humanizado está abaixo do protagonismo restituído às mulheres é que a defesa das nossas teses não pode ser mais um modelo de opressão contra elas. Nossa defesa deve focar na mulher e suas escolhas. Nenhum modelo é superior a isso.
Fanatismo é o “império da paixão“. É ruim, mas impossível iniciar qualquer projeto se a paixão não nos tomar por inteiro. Seja no amor ou na construção de qualquer empreendimento humano. Por isso que, ao mesmo tempo que o critico, vejo o “fanatismo” como um elemento primordial de nossas ações, que apenas necessita, tal qual um garanhão indômito, ser amansado pela razão.
Eu acho que um certo “fanatismo” (quem não?) faz parte do processo inicial de qualquer grande ideia. Somos tomados pelo discurso revolucionário e olhamos o mundo pela ótica estreita de nossas paixões. Todo mundo já passou por isso, pelo menos aqueles que ousaram amar – pessoas ou ideias.
Fanatismo, como evitar?
Minh´alma de sonhar anda perdida Meus olhos ficam cegos de te ver Não és sequer a razão do meu viver Pois que tu és já toda a minha vida
Não é uma foto tirada no terceiro mundo, mesmo que pareça. É na Europa, na entrada do Centro Obstétrico do Hospital de Pontevedra, na Espanha. Vejam o sinal na porta: proibido doulas. Sim, graças ao famigerado documento produzido pelas “matronas” de lá os hospitais estão a vedar o ingresso das doulas. Entretanto eu vejo ali bem mais do que um simples “sinal”. Para mim trata-se da comprovação de que as doulas ameaçam o delicado balanço de poderes do sistema de atenção ao parto, fazendo-o pender perigosamente em direção ao polo historicamente mais fraco e negligenciado: as gestantes. Não há dúvidas que o rechaço lá, conduzido pelas enfermeiras obstetras – mas também o que vemos aqui patrocinado por alguns hospitais mais atrasados – se dá por conta do caráter revolucionário que tais personagens representam no cenário do parto.
Não é pelas “placentas comidas” (uma mentira que virou bandeira por lá), nem pelos óleos essências, as massagens, as canções cantadas em conjunto ou as lágrimas de alegria que elas – mães e doulas – compartilham em cada sucesso. Não, isso seria muito pouco para justificar uma perseguição e uma caça às bruxas. O fator preponderante é a ousadia de colocar a MULHER na posição de comando, reverenciando sua autonomia e liberdade reconquistadas. O que causa tanto horror é a mudança ameaçadora que a presença das doulas pode causar: as parturientes voltarem a ser o centro de todas as atenções e cuidados na assistência ao parto.
E isso, realmente, não pode ser tolerado. Mas, olhando por uma perspectiva otimista, talvez seja este o momento de capitalizar o movimento. Muitas vezes é preciso “cutucar” a onça para ela acordar. Aqueles que defendem a plena autonomia das mulheres para fazer escolhas relativas ao seu parto, e as que combatem o machismo de nossas estruturas de assistência, precisam se unir contra este tipo de barbárie. Escrevam, manifestem-se, gritem, saiam às ruas. Esta é mais uma das proibições importas sobre as mulheres, e se elas calarem agora esta “mordaça” será institucionalizada como uma “verdade” na assistência, necessária e correta.