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Ostomias

Recebi num grupo político do whatsapp um vídeo humorístico e mordaz que mostrava um ator homem interpretando uma médica entrevistando uma paciente no consultório. Essa mulher dizia à médica que seu marido gostaria que ela não desfizesse sua colostomia porque ele estava gostando de ter relações sexuais por aquela “via alternativa”. O vídeo é sarcástico e trata, de forma debochada, de uma questão que eu conheço há décadas: a história de que mulheres submetidas a colostomia são constrangidas a não fecharem suas cirurgias porque seus maridos desejam continuar a ter relações com elas pelo orifício cirúrgico.

Este relato eu escutei de muitas pessoas, de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e também de pessoas de fora da área médica. Diante de comentários deste tipo eu sempre questionava se havia algum relatório a respeito desse fenômeno ou se ele se restringia a este tipo de descrição anedótica. Via de regra, as pessoas se surpreendiam com a minha solicitação de evidências, como se eu estivesse numa posição de ingenuidade, sem saber como é feio “o mundo de verdade”. “Como você é ingênuo, Ric”, diziam elas. Outras afirmavam que “Sim, conheci muitas pessoas que me relataram essa história”, e ficavam indignadas se alguém questionasse a veracidade do relato. Acontecia sempre o mesmo: eu perguntava se havia alguma evidência científica relacionada a esta parafilia e a resposta imediata era “conheço uma amiga da minha prima que é enfermeira que me contou a seguinte história”. E sempre apareciam histórias indiretas, relatos, fatos contados por terceiros. Nada de concreto.

Quando recebi a mensagem no grupo de whatsapp imediatamente escrevi: “Eu acho que a antiga história do sujeito que pede para o médico não fechar a colostomia da esposa para poder continuar “usando” não passa de um mito médico, como tantos que circulam na cultura”. A reação do grupo (composto quase totalmente por mulheres) diante da minha observação foi de defesa da tese, e usando os mesmos argumentos: “Ahh, uma paciente me disse”, “isso é muito comum, você que não sabe”, “Ahh, vai dizer então que as mulheres estão mentindo?”.

Quando nos ocupamos de procurar na internet algo sobre o tema percebemos que os poucos relatos disponíveis costumam oferecer:

  • artigos sobre fetichismo médico;
  • revisões sobre coprofilia;
  • relatos de caso de parafilias incomuns;
  • discussões em comunidades de pessoas ostomizadas, onde ocasionalmente se menciona que alguns parceiros demonstram fascínio ou fetiche pela estomia, embora isso não constitua evidência científica.

Ou seja: relatos de pessoas esparsas, anônimas, sem que ninguém até hoje tenha contabilizado ou usado qualquer método para avaliar a prevalência desse evento. É notável o fato de que a ostomia não é reconhecida como um foco parafílico específico no DSM-5-TR nem na CID-11. Não existe um diagnóstico denominado “ostomy fetish” ou equivalente. É interessante isso porque, se uma pessoa quer ter sexo com cadáveres ou cães existe um nome específico para estas parafilias. Entretanto, o caso tratado como “comum” de uso das ostomias para a satisfação sexual de parceiros nunca foi classificado. Pode-se acreditar que não o foi porque, em verdade, é muito incomum, se é que ele realmente existe.

Para mim se trata realmente de um mito, mas segundo Claude Lévi-Strauss, um mito “uma forma de pensamento que organiza contradições fundamentais da experiência humana (vida e morte, natureza e cultura, masculino e feminino etc.) por meio de uma narrativa simbólica”. Quando escutava a manifestação desse mito relacionado à sexualidade masculina, sempre me questionei qual mensagem ele tentava simbolizar? Por que passei 40 anos escutando pessoas me dizendo que tal comportamente existe e é “mais comum do que se pensa”?. Sim, também escutei que as luas cheias traziam mais partos, e os relatos eram da mesma natureza: “a segunda feira passada era de lua cheia, e por isso tivemos 40 partos no plantão”. Nenhuma metodologia para avaliar a veracidade dessa prevalência aumentada, apenas um relato cru. Entretanto, existe uma razão que explica a emergência de mitos: no caso dos partos, a tentativa de colocar ordem no caos da natureza, como se a lua pudesse trazer alguma luz sobre a escuridão de um evento imprevisível como o parto.

E o mito das ostomizadas? Para mim é um mito de degradação da sexualidade masculina. É usado para reforçar a ideia de que o masculino é tóxico na nossa sociedade, e por isso esta mitologia é é tão fortemente disseminada por identitários. A ideia que subjaz é de que a sexualidade dos homens é doentia e obsessiva, incapaz de respeitar até mesmo as debilidades da parceira. Serve para criar a imagem de homens violentos e abusivos, ligados a mulheres frágeis, fracas, submissas e vitimizadas. Ficou sempre muito claro para mim que o foco não era sobre um fato aberrante, num sujeito que abusava de sua parceira de maneira cruel a despeito de suas dificuldades ou sofrimento. Não, a ideia era de mostrar que esta é a natureza da sexualidade masculina, de que os homens são assim mesmo, que isso faz parte da arquitetura normal do seu erotismo, intrinsecamente deteriorado e tóxico.

Creio que depois de décadas de feminismo e de sua luta justa por equidade e justiça é importante questionar até onde é correto este tipo de ataque à essência do masculino. Criar narrativas monstruosas sobre os homens e tratar historietas de corredor como se fossem uma verdade científica não auxilia as mulheres e afasta os homens de qualquer parceria. Criar a imagem de homens abusadores em potencial é injusto diante da gigantesca maioria de homens que jamais cometeram qualquer ato de violência contra as mulheres.Propagar mitos como se fossem verdades cristalinas acaba por revelar muito mais as dificuldades de quem os dissemina do que as fantasias de quem é acusado.  

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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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Direita e identitarismo

Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.

Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.

Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?

Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.

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Dor e luto

Eu entendo a dor, sei o quanto essa geração viu a importância da seleção brasileira decrescer no grande cenário mundial nos últimos 24 anos. Sei quanto dói perder para um país que tem a mesma população de alguns bairros de São Paulo. Porém…

Os ataques aos jogadores são injustos, porque nossos atletas são apenas comuns. Neymar é o nosso último craque excepcional e ele sofreu demais com as seguidas lesões, a falta de continuidade na equipe e também o excesso de dinheiro que nós pagamos a ele, assim como pagamos a todas estas estrelas. Quando o dinheiro de contratos e negócios paralelos é obsceno, e o futebol se torna apenas a vitrina que eles usam para vender seus produtos – entre eles as BETs – a fome passa. Como já dizia Renato Portaluppi, “só se joga com fome”, e por isso garotos de apartamento não prosperam no futebol. Da mesma forma, meninos milionários perdem o principal combustível para a excelência.

Uma análise mais ponderada por fim vai reconhecer a mediocridade dos nossos jogadores, a falta de talentos que desmontam nosdiscadversários e que possam decidir uma partida, assim como fizeram Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, etc. Não temos um Messi, um Mbapé ou um Haaland no nosso time, que decidem um jogo na única bola que recebem. Tivemos o jogo nas mãos por duas vezes contra os noruegos e não conseguimos marcar, por falha dos atacantes. Incapacidade? Inexperiência, talvez.

A maturidade também vai surgir quando pararmos de criticar a personalidade de Neymar para justificar nossos fracassos em campo, usando para isso seu bolsonarismo, seus negócios e seu comportamento. Ele estava na seleção para jogar bola, e não numa seletiva para genro. Mas eu sei exatamente como é essa dor, por isso vou aguardar que o luto passe e comecem a surgir as análises mais serenas e mais racionais.

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Namoro qualificado

Agradeço a Deus por estar fora do mercado.

Hoje em dia se discute uma nova(?) categoria que se chama “namoro qualificado“, que se caracteriza por um relacionamento afetivo duradouro, público e íntimo que se assemelha à união estável, mas se diferencia juridicamente por não possuir o objetivo atual de constituir família. O debate jurídico centra-se em proteger a liberdade individual frente a riscos patrimoniais e sucessórios. A discussão envolve implicações fundamentais para o direito de família e o planejamento patrimonial. Segundo a jurisprudência, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o divisor de águas entre namoro qualificado e união estável é o “animus familiae”, ou seja, o desejo de constituir uma família. Elementos como coabitação, viagens constantes, divisão de despesas e até a criação conjunta de animais de estimação confundem a distinção na prática, obrigando a análise caso a caso.

Para uma pessoa que namora, expressar diretamente o desejo de (algum dia) se casar, ou ter uma família ou mesmo ter filhos é uma sentença determinante do que ocorrerá naquele relacionamento quando ele se desfizer. Ter um “pet” que ambos cuidam é muito arriscado. Tirar fotos em uma viagem que fizeram é uma prova gerada para um futuro processo. Passar um tempo na casa do outro é atirar no próprio pé. Dividir as contas…. suicídio.

Namorar, ou mesmo desejar, estará sujeito à dureza das leis e tem o potencial de geral punições arruinar vida financeira de um dos participantes. Conheci inúmeros casos de golpes relacionados ao namoro, que agora tiveram um grande crescimento relacionado às inteligências artificiais. Durante minha vida profissional e pessoal eu conheci muitas pessoas sofrendo por causa desses criminosos e a maioria era de mulheres sendo enganadas por sujeitos sedutores, alguns mesmo “geniais” e maquiavélicos na arte de explorar a carência afetiva de suas vítimas – em especial mulheres mais velhas e solitárias. Entretanto, ultimamente tenho testemunhado muitos casos de mulheres se aproveitando de relacionamentos passageiros e descompromissados para exigir compensações financeiras e até pensão, como se um casamento – ou uma união consensual – tivesse efetivamente ocorrido.

Hoje se discute no supremo os limites do “namoro qualificado” que servem para diferenciar relacionamentos mais próximos e comprometidos de uniões mais frugais e passageiras. Se você tiver um namoro qualificado – onde o desejo de constituir família foi aventado por um ou por ambos – e resolver terminar a relação poderá sofrer punições e, inclusive, ser obrigado a pagar pensão ao seu parceiro(a). Fica muito evidente que uma questão que envolve a subjetividade, o desejo e os compromissos de duas pessoas (deixo de fora aqui os outros tipos de relacionamento não-dual) tornaram-se assuntos que são regulados pela justiça.

Ou seja: parece que não há saída para os relacionamentos que não passe pela judicialização, com testemunhas, em um cartório, com os documentos assinados em mão, tudo feito como se fosse um negócio, um acerto financeiro e/ou patrimonial. É preciso proteger-se para, futuramente se livrar da acusação de estar cometendo um crime.

Mas…. talvez hoje em dia, namorar seja mesmo visto como um ato criminoso

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Escola

É possível que a situação do magistério seja dramática mesmo. Afinal, o Brasil é governado por partidos ligados ao modelo capitalista desde seu surgimento, o qual trata a educação como negócio. Esse modelo se especializa na produção de um enorme contingente de trabalhadores com pouca ou nenhuma capacitação para realizar as funções mais exploradas e mal pagas da sociedade – como limpeza, segurança e construção civil. Por isso uma educação crítica é sempre vista como perigo pelos poderes constituídos, e qualquer mudança curricular de caráter progressista produz como reação algumas aberrações como “escola sem partido”. Quando um país alcança um nível superior de educação – como ocorreu no norte da Europa – a solução é importar trabalhadores braçais, como fazem Estados Unidos e Europa.

Entretanto, a solução poderia ser outra. Poderíamos aumentar o investimento na educação – como propõe a esquerda e em especial o saudoso Brizola – para oferecer melhores condições para os estudantes, e ainda garantir pensamento crítico e uma perspectiva transformadora para ser usada em benefício próprio, na transformação de suas vidas. Entretanto, esta proposta é por demais desafiadora e revolucionária para ser aceita pelos conservadores. Ao invés de melhorar a educação, eles apostam em algo mais radical: exterminar a escola, retirar as crianças, mantendo-as longe do convívio – e dos atritos – com outros infantes. O argumento usado? Ora, os professores são ruins e incapazes. Parece sensato?

Isso ocorre porque muitos não conseguem entender as funções primordiais da Escola. É necessario entender que as crianças não vão à escola para adquirir conhecimento, mas para escapar do jugo familiar, do universo restrito dos afetos primordiais, para descobrir o mundo e para aprender a conviver com seus iguais. Da mesma forma como um bebê não procura o seio para o leite, mas em busca de afeto – recebendo como prêmio o melhor alimento jamais criado pela natureza – a criança vai a escola em busca do outro, do mundo, mas também encontra ensinamentos valiosos para lidar com os desafios da vida.

Não sou pedagogo, mas ja estive na pele do estudante e do professor, e questiono a primazia dos aspectos cognitivos sobre o fluxo afetivo e emocional que circula no processo pedagógico. Criticar os conteúdos escolares para justificar o abandono da escola serve apenas manter intocados os sistemas de poder e o circuito afetivo familiar. Isso é um erro, porque trata a absorção de conhecimento como o único (ou principal) objetivo das escolas, quando em realidade as verdadeiras lições estão no campo das emoções.

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Homeschooling

Primeiramente, devo ressaltar que minha posição quanto ao ensino doméstico é muito semelhante àquela que tenho sobre parto domiciliar. Ao mesmo tempo que acredito serem as variantes domésticas um direito sagrado, baseado nas opções de vida dos envolvidos, acredito que não há como imaginar uma sociedade sem escolas e sem maternidades. Escolas são fundamentais para apresentar o mundo às crianças, com todas as suas contradições, descobertas, frustrações e dramas. Maternidades são fundamentais para dar conta dos casos de risco e para acomodar o grande número de mulheres parindo nas cidades. Portanto, não acredito que em médio prazo seja possível suprimir estas instituições.

É curioso notar, entretanto, o quanto os religiosos fundamentalistas adoram a proposta do homeschooling. Mesmo sendo um direito do sujeito e das famílias, sabemos muito bem as razões não faladas para que os fanáticos da direita religiosa não desejem os filhos na escola. O objetivo inconfesso é que suas crianças não tenham acesso facilitado ao contraditório, à ciência, à diversidade e ao pensamento crítico. Pelas mesmas razões, a extrema direita odeia as universidades, porque lá o ensino propõe conhecimento múltiplo e universal, com pleno acesso ao debate, ao enfrentamento de ideias, sempre iluminado pela luz da razão e das evidências. O conhecimento fomentado nas universidades assusta o obscurantismo religioso e a direita mais reacionária que, com suas visões em túnel, desprezam as posturas científicas e a ampla defesa de posições digladiantes. Da mesma forma, o homeschooling evita que crianças adquiram uma perspectiva de mundo diferente daquela dos pais, e isso incomoda aqueles genitores que não aceitam uma visão alternativa à sua.

Eu concordo com todas as críticas ao ensino formal, em especial no Brasil. Acredito mesmo que o ensino no nosso país – e muitos outros – é uma forma de adestramento de crianças para servirem de mão de obra para o capitalismo e a sociedade de classes, usando um modelo de aprendizado do século XIX. Entretanto, a coincidência de ver a extrema direita e a franja mais reacionária dos evangélicos apoiando esta proposta acendeu uma luz de alerta. Eles não desejam promover o homeschooling por causa dos conteúdos, por uma divergência da linha pedagógica ou pelos custos ao Estado. Muito menos pelos perigos à saúde que existem no contato com os outro alunos. Na verdade, é mesmo pelo que parece ser: para afastar as crianças do contato com a Escola, as outras crianças, o mundo externo e as visões de mundo que os pais não aceitam. Sempre fui favorável ao direito ao homeschooling, e conheço experiências de sucesso nesse campo. Entretanto, fica claro para mim que estae debate está sendo usada para desvirtuar a questão do ensino e tentar isolar crianças do mundo externo. Muitas vezes até pelo medo de que elas contem o que ocorre em casa

Por isso mesmo, não é curioso que pastores evangélicos estejam à frente das propostas de desescolarização, exatamente um grupo onde ocorrem queixas de abusos domésticos de toda ordem? Por que será que esta fração da sociedade deseja tanto manter seus filhos escondidos em casa, sem o contato salutar com outras crianças?

Por que será?

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Crime

Todos somos confrontados cotidianamente com o problema do crime – tanto na sua vertente “organizada” quando a parcela caótica e orgânica. Por certo que a tentação – para muitos incontrolável – é olhar para os sujeitos que abraçam o crime como portadores de uma mácula moral, como se algo ruim, egoístico e malévolo estivesse determinando suas atitudes. Eles seriam conduzidos por forças maléficas, por espíritos das trevas e, por isso, deveriam ser dominados ou destruídos. O simplismo dessa ideologia maniqueista se torna ainda mais dramático quando o “combate ao crime” é tratado apenas de forma punitiva, com a ideia de que, separando esses indivíduos da sociedade (ou eliminando-os, como sonha a direita), esta se tornaria limpa de sua sujeira moral e apenas sobrariam os trabalhadores, os éticos, os corretos e os honestos. O fim dos “vagabundos” traria paz social e progresso.

Com essa perspectiva punitivista e inexorável, somente sobrariam no capitalismo aqueles conformados com a dura realidade de suas vidas de trabalho, apenas aqueles que aceitam sem queixas sua subalternidade essencial, sua condição de classe, e o fato de que o mundo é construído para oferecer aos ricos as benesses e aos pobres o suor. Este modelo oferece ao 0.1% mais rico 14% da riqueza produzida por todos, ou seja, 1 milésimo dos americanos ganha 14% do bolo nacional, e metade da sua população mais pobre recebe apenas 2.5% da riqueza, um recorde impressionante. Nos Estados Unidos 133 mil famílias ganharam nesse período mais US$ 6 trilhões em riqueza líquida, principalmente devido ao aumento no valor das ações e de investimentos no mercado financeiro.

O problema é que esse modelo de eliminação dos insatisfeitos não leva em consideração as causas da criminalidade. Esta visão moralista não explica porque há tantos crimes no Brasil e tão poucos no Japão. Quando muito, apela para a velha retórica moral: os japoneses são mais éticos que os brasileiros, moralmente superiores – que o digam a Yakuza e seus métodos éticos ou o massacre de milhões de chineses e coreanos na II Guerra Mundial.

Mais ainda: o modelo de encarceramento é um fracasso absoluto em todos os países ou comunidades onde foi aplicado. Até mesmo no país que condena à morte crianças, como os Estados Unidos – que os Bolsonaro adoram – está diminuindo a volúpia prisional pelo fracasso do modelo dos “3 strikes” da época do presidente Clinton. Aumentar a massa carcerária estimula o crime, por colocar de volta à sociedade sujeitos ainda mais ressentidos com o sistema injusto que os governa.

Ou seja: não se trata crime com mais crime. Não se solucionam problemas estruturais de distribuição de renda de um país com cadeia. O problema é o capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção a sociedade de classes e a distribuição obscena de riquezas. Colocar os que se insurgem contra as injustiças – mesmo que de forma criminosa – atrás das grades nunca será solução definitiva, e apenas oferece um sentido de vingança, passageiro, fugaz e ineficiente. Ainda que possa aplacar a raiva das vítimas, é incapaz de mudar a realidade e ainda estimula a criação de novos criminosos pela abertura de vagas no mercado.

Sem olhar para as causas vamos continuar indefinidamente a combater as consequências, e com a mesma ineficiência de sempre.

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Língua

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)

Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.

Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.

Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.

Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam

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Retrocesso Civilizatório

No final dos anos 70 eu fiz meu primeiro vestibular e, naquele ano, haveria uma novidade: a redação passaria a ser obrigatória no vestibular unificado. Durante o ano inteiro em que fiz meu curso preparatório só se falava de uma possibilidade de redação: as crianças. Todos diziam que esse seria o tema es colhido porque no ano seguinte havia sido determinado o “ano internacional da criança”. Todo estudante daquele ano tinha uma redação que tratava sobre a infância e seus desafios decorada na cabeça, caso esse fosse o tema escolhido. Eu, por certo também tinha. Todos ficamos frustrados quando vimos que a redação tratava de um tema bem distante: a celebração da diversidade com a multiplicidade de idiomas, costumes e hábitos trazidos pelos imigrantes. Entretanto, fiquei com a minha redação – ou pelo menos fragmentos dela – por décadas na minha cabeça.

Sempre gostei de crianças, e sempre fui fascinado por elas. Cheguei a pensar em me especializar em pediatria, mas percebi que gostar dos pequenos e tratá-los como médico são situações ocupam porções diferentes e distintas do cérebro. Por isso me ocupei das mulheres e das mães, e dos fenômenos relacionados ao nascimento humano.

Este ano voltei a fazer provas que incluíam a redação. Não mais o vestibular, mas o ENEM. Desta vez não fiz nenhuma preparação especial para a prova e sequer tinha um palpite. Entrei na prova de coração aberto para qualquer surpresa. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o tema do ENEM era “Trabalho infantil”. Meu primeiro vestibular tinha essa “sombra”, e no meu último as crianças voltaram a ser o foco. O que eu achei interessante é que falar de crianças e de “trabalho infantil” é praticamente o mesmo, na medida em que um dos principais elementos civilizatórios foi a proteção da criança. Primeiro com o reconhecimento de sua existência, algo que apenas veio a ocorrer tardiamente, na virada dos séculos XVIII e XIX. Na minha redação citei Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) que revolucionou a visão sobre a infância ao defendê-la como uma etapa autônoma e fundamental da vida, distinta do dos valores e contextos do universo adulto. Em sua obra Émile, ou Da Educação (1762), ele propôs a “educação natural”, que respeita o ritmo e as necessidades próprias da criança, marcando um divisor de águas na pedagogia moderna. Falei também do pensador brasileiro Paulo Freire, que via a criança como sujeito histórico e motor da cultura onde está inserida, afastando-se da perspectiva de Rousseau e sua “tábula-rasa”. Em sua pedagogia defendeu que crianças têm direito à palavra, ao lúdico e ao debate, sendo, portanto, protagonistas do seu aprendizado, e não sujeitos passivos da sua educação.

Fiquei feliz com minha redação, mesmo tendo escrito demais – o que sempre será um defeito meu. No entanto, achei que a maioria dos meus argumentos eram apenas “chover no molhado”, algo como debater a esfericidade da Terra ou a superioridade do parto normal sobre as variantes cirúrgicas. Infelizmente, a realidade é diferente e, desde que a onda obscurantista e fascista tomou conta do debate político e científico, somos levados a defender o óbvio, as verdades cristalinas.

O pré-candidato Flávio Bolsonaro, também conhecido como “Zero Um”, não apenas defende a descriminalização do trabalho infantil – como seu pai, que dizia se tratar de “algo que não prejudica as crianças” – mas deseja diminuir a maioridade penal para atingir até crianças de 14 anos, em casos especiais. Na mesma semana, a apresentadora Leda Nagle publicou uma declaração onde elogiava o trabalho infantil com a conhecida retórica de “meus pais me colocaram para trabalhar desde cedo, e isso moldou meu espírito”. Disse ela: “Fazia os deveres de casa no balcão do armazém e depois atendia fregueses, junto com meus pais, pesando arroz, feijão (que na época eram vendidos a granel) e fazia pequenas entregas. Tenho belas lembranças desta época. Éramos fortes, unidos e felizes, sem drama”. A direita sempre romantiza o trabalho infantil, mas nunca descrevem o rtabalho em uma carvoaria, numa mina ou cortando cana. Via de regra, se refere ao rtabalho no empreendimento dos pais.

Uma pessoa que fala de redução de idade penal – para qualquer delito – demonstra um profundo e arrogante desconhecimento do que seja o ambiente prisional. Imaginar um garoto de 14 anos dentro de uma galeria entre faccionados é uma imagem infernal e absolutamente desumana. “Ahhh, mas é criminoso, que pague!!!”…. bem, esse tipo de argumento já escutei muito na banda de lá, os fascistas e punitivistas raivoso, que acreditam que as penas cruéis tenham validade. Já eu, que sou abolicionista penal, creio que qualquer indivíduo que proponha um absurdo como esse deveria ser punido de forma exemplar nas urnas, e jamais concorrer a qualquer cargo público. Qualquer um que diga que uma criança de 14 anos deveria pagar seus crimes numa prisão comum, junto com adultos, não faz a menor ideia do que seja a vida num presídio, ou não se importa com a sobrevivência desses garotos. Ou então sabe o que isso significa, e por isso mesmo quer fazer da presença desses meninos a antessala do inferno, com a ilusão de que esse tipo de vingança possa trazer algum benefício social.

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