Minha experiência com ídolos da música e das artes em geral é que eu me decepciono em 90% das vezes que leio ou escuto uma entrevista que aborde algo além de seu trabalho. Quase nunca estes personagens oferecem as virtudes e a postura que eu desejaria encontrar em um ídolo. Muitos são reacionários, outros tantos são superficiais, alguns são claramente incultos e tolos e muitos outros são abertamente egoístas e oportunistas. Estas são qualidades tipicamente humanas, as quais igualmente carrego como marca de minha imperfeição, mas que me incomodam nos ídolos.
O erro, portanto, não está nestas porções de humanidade que os artistas carregam consigo, mas na idealização ingênua que sobre eles fazemos. Acreditar que um sujeito capaz de criar uma obra carregada de criatividade e genialidade tenha também qualidades morais e intelectuais é um erro, e os exemplos são encontrados em qualquer pesquisa que se faça. Por esta razão, a separação entre o autor e sua obra é uma postura sábia, necessária e madura. Sem esta linha demarcatória corremos o risco de criar barreiras morais para a arte e para a ciência. E pior: baseadas na nossa definição estreita e subjetiva de moralidade. Hoje penso que do artista é justo cobrar apenas sua arte, sua coerência e sua perspectiva de mundo. E, como diria meu pai, “Dele são as virtudes; já os defeitos são de de seu tempo”.
O “Bebê Reborn” não é exatamente uma novidade; é a mesma crise com feições diferentes. Agora podemos criar bonecos que imitam de forma impressionante os bebês, em especial os recém-nascidos, mas antes disso vieram os comportamentos sociais compensatórios, os bichinhos domésticos e, entre eles, os indispensáveis gatinhos. Tudo isso para suprir uma pulsão extremamente forte que, na sociedade hedonista ocidental, sofre profunda repressão: a maternagem.
Quanto mais os cuidados dispensados aos filhos forem escasseando, por escolhas pessoais que não nos cabem julgar ou dificuldades específicas, mais prevalentes serão os derivativos culturais, seja com profissões que se esmeram no cuidado com os pequenos, com a adoção de animais de estimação ou mesmo usando próteses bem construídas para dar conta desse sentimento represado. Spielberg falou disso em “AI”, lembram?
Portanto, não se trata de debater se essa tendência é algo “certo ou errado”, mas de entender as raízes do fenômeno, suas razões profundas e inconscientes. Sim, existe comércio, exploração, moda, exibicionismo e sofrimento real, tudo junto e misturado, mas por baixo destas camadas existe um fenômeno social importante e que deveria ser estudado com mais rigor. Há um planejamento na estruturação da nossa espécie que não pode ser desprezado sem que sintomas apareçam à superfície. É fundamental que esse debate seja expandido e que as pessoas possam compreender a força impressionante dessas pulsões na estruturação dos sujeitos.
Vamos deixar algo bem claro: é nítido o desconforto de muitos com a figura de Janja no cenário da política nacional. Vários são os fatores, e o mais importante é que Janja é uma mulher querendo exercer protagonismo sem ter recebido votos para isso. Ou seja: ela estaria agindo na sombra do Lula. Mesmo entre os analistas identificados com a esquerda, existem pessoas que a criticam por falar quando não devia e se intrometer em assuntos de “gente grande”. Além disso, suas posições são francamente liberais, à direita do espectro político e identitárias. Para a esquerda raiz, uma pedra no sapato apertado do governo Lula.
Ainda assim, creio mesmo que os narizes torcidos para Janja que surgem na esquerda são devidos à ligação que muitos carregam na memória com dona Marisa, o que eu acho compreensível pela importância da ex-esposa de Lula na criação deste personagem político e para o próprio surgimento do PT. É possível entender esse sentimento, mas é certo que não se pode justificá-lo. Janja, para estes, seria a madrasta a tomar o lugar de nossa mãe. Entretanto, é inegável que a essência de muitas das críticas revela um evidente pendor misógino, algo que conhecemos muito bem. Quem poderia esquecer os adesivos de Dilma nos automóveis, o massacre midiático sobre qualquer deslize em seu discurso, as perguntas invasivas e indiscretas e as acusações falsas que acabaram por retirá-la do governo? Nada disso teria acontecido se, dos porões do inconsciente social, não brotasse uma frase, que continuamente era sussurrada: “este não é o seu lugar”. Mesmo entre aqueles que se diziam a favor da equidade, da diversidade e reconheciam os méritos de Dilma se incomodavam com ela, em especial com o seu sucesso.
Agora, mais uma vez, a esquerda caiu com extrema facilidade no discurso orquestrado pela mídia burguesa. A “víbora” da vez é Janja, que teria saído do seu lugar de “sombra” e tomado a palavra em um jantar durante a visita de Lula à China. Sem pedir licença ao marido, acabou por constranger o presidente Xi Jinping com perguntas indevidas sobre o TikTok. A direita se deleitou com o relato, apresentou a cena como um acidente diplomático e descreveu Janja como uma personagem falastrona, indiscreta, boquirrota e deselegante. Parte da esquerda uniu-se aos ataques dizendo que ela prejudica os esforços de Lula em construir pontes com a China, e que faria melhor caso se mantivesse calada. “Janja calada é uma poetisa”, diriam alguns.
A verdade veio no dia seguinte por intermédio do presidente Lula em entrevista coletiva: não foi Janja quem questionou o presidente Xi; a pergunta partiu do próprio Lula. Além disso, não foi sobre TikTok especificamente, mas o incluiu. Janja apenas pediu a palavra para endossar a posição expressa de Lula sobre o entendimento de boa parcela da esquerda de regulamentar as redes sociais e deu sua opinião sobre o domínio do TikTok pela extrema-direita. Ou seja: não houve “quebra de protocolo”, ela não foi indelicada, não causou constrangimento e o presidente Xi concordou com a ideia de mandar um representante ao Brasil para debater o tema das redes sociais sequestradas pelo fascismo.
Sobra uma verdade nesse caso: é preciso mudar a forma de pensar sobre a manifestação das mulheres e o seu direito de expressar livremente suas opiniões e suas perspectivas de mundo. Mesmo quando discordamos – e deixo claro que rejeito a ideia de cercear a livre expressão de ideias – é forçoso reconhecer que o fato de ser uma mulher a falar incomoda, irrita e nos faz desvalorizar seu ponto de vista. Isso precisa mudar, pois é injusto com as mulheres que chegam ao poder. Não é mais admissível tratar metade da população do mundo como se fossem cidadãs de segunda categoria. E deixo claro: não é blindagem aos erros que Janja possa porventura cometer; eu mesmo sou crítico contumaz de suas posições. Entretanto, é necessário aceitar que, entre os seus possíveis equívocos, não podemos incluir a “falha imperdoável” de ser mulher.
Virou uma espécie de mantra entre grupos identitários desmerecer a importância e o poder social da beleza. Desde o antigo “o que vale é a beleza interior”, passando por “beleza não põe a mesa” tendemos a desmerecer o juízo que as pessoas fazem do belo. Meu pai sempre me contava a história das suas observações na fila do banco quando, observando a reação das meninas do caixa, percebia a diferença de comportamento quando a pessoa a ser atendida era um homem bonito. Faziam isso de forma inconsciente, por certo, mas ficava evidente a diferença que as pessoas belas tinham nos prosaicos encontros cotidianos.
“Pesquisas recentes indicam que a vida pode ser menos dura e mais lucrativa para pessoas mais atraentes. Segundo o economista especializado em mercado de trabalho Daniel Hamermesh, essas pessoas ganham em média US$ 237 mil (R$ 1,2 milhão) a mais ao longo da vida do que pessoas igualmente qualificadas, mas menos atraentes nos Estados Unidos. Elas também são mais propensas a serem promovidas no trabalho, negociar melhores empréstimos e atrair parceiros mais qualificados e bonitos.”
Inúmeros outros trabalhos demonstram a vantagem que as pessoas belas obtém nessa sociedade. Entretanto, existem indicadores indiretos da importância que essas questões têm nas sociedades humanas. O mercado da beleza feminina é um mercado vasto, abrangendo produtos, serviços e cirurgias estéticas, com um valor global estimado em US$ 430 bilhões (2,4 trilhões de reais). Em 2022, o Brasil faturou US$ 26,9 bilhões (150 bilhões de reais) neste mercado, ocupando a quarta posição mundial. O mercado de cirurgias estéticas, que é um dos segmentos mais lucrativos, cresceu para US$ 127,1 bilhões (711 bilhões de reais) em 2023. O mercado brasileiro de estética é considerado um dos maiores do mundo, movimenta R$ 48 bilhões anualmente e ocupa o terceiro lugar no ranking mundial.
Apenas como comparação, estão previstos R$ 226,4 bilhões para a educação e R$ 245,1 bilhões para a saúde pública. Desta forma podemos ver a importância que se dá à aparência e o valor que as sociedades dão a ela Com tanta atenção a esta faceta do sujeito – o aspecto externo – pode-se imaginar o poder que existe naqueles sujeitos belos e sedutores.
Também não é à toa que a mais épica das histórias antigas gira em torno do poder de uma bela mulher, capaz de produzir uma guerra de uma década entre duas cidades. Assim fez Helena, que pelo poder de sua beleza, levou gregos e troianos à guerra. Desta forma, é ingenuidade acreditar que a beleza, em especial a feminina, não seja uma força extremamente poderosa nas sociedades humanas, e não é por acaso que os homens de poder obsceno conquistam mulheres de beleza estonteante e hipnótica. Desconsiderar o valor da beleza na estruturação da humanidade é desmerecer a própria herança que recebemos dos mamíferos que nos cercam e nos antecederam.
“Precisamos falar desse ‘romantismo tóxico’ que une homens mais velhos e meninas”.
Por que romantismo tóxico? Por que precisa ser isso o que une essas pessoas de idades díspares? Como afirmar que namorar alguém mais novo seja um pendor para a subjugar, e quando alguém muito mais novo entra neste tipo de relação há um desejo de ser oprimido?
As dinâmicas eróticas, afetivas e sexuais são únicas, subjetivas, pessoais e não há como saber o que realmente as conduz. Aliás, nem mesmo ao sujeito é dado saber, pois que as reais motivações para as escolhas amorosas estão escondidas no inconsciente. Entretanto, por que rotular a disparidade de idades como “tóxica”? E tóxica por parte de quem? Do sujeito mais velho e famoso que deseja rejuvenescer com um parceiro décadas mais novo? Ou do jovem desejando ascensão social e facilidades por meio da sensualidade de seu corpo atraente? Quem intoxica quem? Quem comanda ou detém o poder? O falo poderoso ou o corpo jovem e manipulador? Talvez, por que não, nenhum dos dois, se aceitarmos que estas relações também podem ser mediada por amor.
Por que é necessário achar que esse desnível de idade é tóxico? Olhe a experiência de outras mulheres, falando se suas experiências com homens mais velhos e mais jovens. Por que seria correto criminalizar relações que não se conformam à nossa visão específica de amor? Numa sociedade patriarcal, onde o poder está com os homens, é óbvio que ele será exercido nas relações afetivas. Entretanto, isto não é da essência dos homens, mas da essência do poder. Coloque o poder nas mãos das mulheres e o modelo se reproduz, como eu mostrei acima.
“Existem mulheres mais velhas que se envolvem com meninos, mas não é a norma, não é o mercado.”
Sim, não é o “mercado” porque poucas são as mulheres que ascendem a posições de poder. Entretanto, entre aquelas que atingem esta condição, seu valor social lhes oferece essa oportunidade. Repito: não é da essência dos homens e das mulheres, mas da essência do poder. Quem o detém (no patriarcado, majoritariamente os homens) terá a oportunidade de escolher seu parceiro mais belo e jovem, buscando nele a ilusão de eternidade.
Sabe o que me deixa triste? A ideia de que toda a relação de amor entre um homem mais velho e uma mulher mais jovem está regida pelo desejo de dominação, e que não passa de uma expressão machista de opressão. Mas, para aceitar isso, é necessário colocar as mulheres que se apaixonam por homens mais velhos como tolas, manipuláveis, ingênuas, frágeis ou submissas, quando a realidade nos mostra que, apesar da existência desse fenômeno, essa não é a totalidade e, penso eu, nem a maioria casos.
A emancipação das mulheres do jugo do patriarcado passa por reconhecer seus desejos e seu protagonismo nas escolhas amorosas, retirando-as da condição de objetos e alçando-as à posição de sujeitos de seu destino – inclusive no que diz respeito às suas escolhas eróticas. Acho curioso ver como algumas pessoas sabiam exatamente o que ocorria na cabeça daquela moça da foto, mas fazem isso julgando-a apenas pelos SEUS referenciais e experiências pessoais. Repito: se ainda existem elementos do patriarcado a modular estas relações, certamente que o mundo está em mudança, e não é justo acreditar que todas as relações construídas por esse modelo sejam fruto de estruturas opressivas ou masoquistas.
“Todos na sala discordaram dele, e mesmo assim ele se negou a reconhecer que estava errado. Fez isso porque escolheu se manter ignorante”.
Vamos ponderar que, dizer que alguém está errado apenas porque 4 ou 5 pessoas (ou mesmo 500) afirmaram o contrário e refutaram as provas apresentadas, não é um bom argumento. Não se pode aceitar que a verdade seja decidida por votação. “A Terra é plana ou esférica? Não sei, vamos votar?” ou então “Existe (ou não) aquecimento antropogênico porque a maioria dos cientistas concorda”. Isso, para a ciência séria, tem pouco valor. Quando Copérnico anunciou sua teoria sobre o heliocentrismo, muito mais do que 5 ou 6 de seus pares afirmaram que ele estava errado. Com Galileu ocorreu o mesmo, e por isso mesmo foi até julgado e condenado. Copérnico e Galileu seriam, para suas épocas, “negacionistas do geocentrismo”?
Não apenas eles, este é um mal que acomete a quase todos os gênios da humanidade: o isolamento e a incompreensão. Poderia citar milhares de outros exemplos de pensadores como Freud, Espinoza, Nietzsche, Marx, entre tantos que sofreram rechaço por parte da imensa maioria de seus colegas em seu tempo, mas que apesar da solidão produzida por suas ideias, carregavam a verdade em suas ideias. Isso prova a todos nós o quanto a verdade não é democrática; em verdade é poderíamos dizer que ela é “aristocrática” e “meritocrática”. Nietzsche, inclusive, afirmava que o verdadeiro gênio só teria sua obra reconhecida um século após a sua morte. Em vida, seria fatalmente maltratado, desprezado e incompreendido. Ele foi a prova de suas próprias ideias.
Certa vez Albert Einstein recebeu um manifesto assinado por inúmeros cientistas reunidos em um congresso, o qual, de maneira enfática, refutava uma de suas teses. Quando viu o número de assinaturas, ele comentou: “Meu Deus, mas para que tantos? Bastaria apenas um, munido de bons argumentos”. Ou seja: o número de pessoas que discorda de você é irrelevante; os argumentos que ela traz ao debate é que são os elementos essenciais.
Além disso, as pessoas não “escolhem se manter ignorantes”; elas apenas não conseguem enxergar o mundo por uma perspectiva diversa daquela que lhes oferece uma explicação segura e confortável do mundo. O medo delas é trocar aquilo que lhes garante uma compreensão mais coerente do universo e que lhes oferece mais segurança (que pode ser qualquer coisa, como a crença em Deus ou a descrença num princípio criador), por um salto no escuro, que lhes deixa com o medo e as incertezas de um novo paradigma.
Não tenha medo de carregar uma verdade solitariamente, mesmo quando muitos a contestam. Esteja sempre aberto a mudar sua posição e transformar o modo como enxerga o mundo, mas não se deixe atemorizar pelas falsas unanimidades. A verdade não é amiga da popularidade; muitas verdades que hoje nos abrem portas para o conhecimento foram, no seu tempo de despertar, tratadas como anátemas perigosos ou tolices inaceitáveis.
A ideia dos clubes uruguaios Peñarol e Nacional jogarem o campeonato gaúcho não me parece a mais justa. Imagine o que aconteceria com o campeonato uruguaio sem estes dois gigantes. A minha proposta é muito mais radical e eu a apresentei há mais de 20 anos. Seria algo como Pampa’s League (nome foi ideia do Oscar Krost) que incluiria clubes do Uruguai e do Rio Grande do Sul em um grande campeonato do cone sul, que seriam vistos futebolisticamente como pertencentes a um único Estado (algo que produz arrepios na nuca dos separatistas).
Enquanto ocorre a disputa, os campeonatos uruguaio (apertura) e gaúcho da série especial continuariam ocorrendo sem os clubes da Pampa’s League. Estes clubes restantes disputariam, em seus respectivos campeonatos locais, 2 vagas de cada país no campeonato do próximo ano, em modelo ascenso e descenso. Poderia ser um campeonato de 12 clubes, 6 de cada país. Haveria assim uma Copa Uruguai-RS, que teria como participantes 4 campeões mundiais, e ao todo seriam 13 Copas Libertadores ganhas pelos clubes disputantes. Nenhum campeonato regional teria essa imensidão de clubes com conquistas internacionais.
O campeonato gaúcho seria mais disputado e equilibrado, com vencedores do interior que teriam a oportunidade de jogar um campeonato bi-nacional no ano seguinte. Não tenho dúvida que seria bom para os clubes uruguaios e ótimo para os times gaúchos.
Os “Klek Shops” são símbolos da vida urbana da Bulgária. As “lojas de agachar” (klek shop) são um fenômeno interessante. Sua história começa com a mudança do sistema comunista para o capitalista em 1989, logo após a queda do muro e o desmanche do socialismo no leste europeu. Após esta mudança, o espaço para construção se tornou muito caro pela gentrificação do centro da cidade. Por esta razão, espaços mais baratos foram criados nos porões das casas, que foram convertidos em lojas de conveniência. A piada que as meninas de Sófia me contaram era que trabalhar nessas lojas era o emprego mais cobiçado pelos garotos da cidade, pois no verão a vista era a melhor possível.
Acho que não terei tempo de vida para voltar a essa cidade linda e cheirosa (Sófia é a “cidade das rosas”) que tem os táxis mais perfumados da Europa, um metrô limpo e amplo e mulheres lindas, donas de uma beleza estonteante, onde se pode ver a mistura dos olhos verdes com o cabelo loiro e os olhos puxados que herdaram do contato com o oriente.
Uma curiosidade: ainda muito jovem eu curtia uma imensa paixão pela música búlgara, desde que li uma crítica de Tárik de Souza na Veja sobre o lançamento de um CD chamado “Le Mystère de Voix Bulgares 3”, gravado pelo Coral da Rádio e TV estatal de Sófia. Quando comprei o CD, logo após seu lançamento em 1989, foi como se o céu caísse sobre a minha cabeça. O tipo de harmonia que elas produzem não é comum para os ouvidos ocidentais, com seus vibratos, meios-tons, sussurros, etc. Durante 20 anos essa paixão pela música folclórica da Bulgária foi só mais uma das minhas inúmeras esquisitices.
Quis o destino que eu fosse convidado a dar um curso sobre humanização do nascimento em Sófia, 23 anos depois do despertar desse amor – até então platônico. Fui recebido por duas queridonas: Liubomira, que na época era doula e agora parteira, e Olga, enfermeira obstetra. Logo após chegar confessei a elas o meu desejo de ver uma apresentação desse grupo de mulheres. Elas, com espanto, me disseram que haveria um show exatamente na noite da nossa chegada.
– Ok, levaremos vocês no teatro
Foi exatamente o que aconteceu. Mal descemos do avião e lá estava Olga para nos receber. Fomos ao hotel, deixamos as roupas e malas sobre a cama e rumamos céleres para um gigantesco teatro no centro de Sófia. Com Liubomira ao nosso lado, assistimos eu e Zeza à apresentação das mulheres de vozes misteriosas e belas. Não consegui parar de chorar durante toda a apresentação, o que é constrangedor e ridículo, mas honesto. Perguntei para Liubomira se é comum elas se apresentarem em Sófia, ao que ela me respondeu: “Pelo contrário. Faz uns 4 anos que não havia apresentações públicas. Foi muita sorte de vocês“.
Não foi sorte, foi um milagre. I love you, Bulgária.
Реликварий на живот, който си е заслужавал.
“Klek Shops” са символи на градския живот в България. „Скуот магазините“ (klek shop) са интересен феномен. Нейната история започва със смяната от комунистическа към капиталистическа система през 1989 г., малко след падането на стената и разрушаването на социализма в Източна Европа. След тази промяна строителното пространство стана много скъпо поради облагородяването на центъра на града. Поради тази причина бяха създадени по-евтини пространства в мазетата на къщите, които бяха превърнати в смесени магазини. Шегата, която ми разказаха момичетата от София беше, че работата в тези магазини е най-желаната работа сред момчетата в града, защото през лятото гледката е най-добрата възможна.
Не мисля, че ще имам време да се върна в този красив и ухаещ град (София е “градът на розите”), който има най-парфюмираните таксита в Европа, чисто и просторно метро и красиви жени, притежателки на зашеметяваща красота, където можете да видите смесицата от зелени очи с руса коса и наклонени очи, които са наследили от контакта с Изтока.
Интересен факт: Бях още много млад и изпитвах огромна страст към българската музика, откакто прочетох рецензия на Тарик де Соуза във Веха за издаването на компактдиск, наречен „Le Mystère de Voix Bulgares 3“, записан от Хора на Софийското държавно радио и телевизия. Когато си купих диска, малко след издаването му през 1989 г., сякаш небето се стовари на главата ми. Типът хармония, която произвеждат, не е обичаен за западните уши, с техните вибрато, полутонове, шепот и т.н. В продължение на 20 години тази страст към българската народна музика беше само една от безбройните ми странности.
По волята на съдбата бях поканен да водя курс по хуманизиране на раждането в София, 23 години след пробуждането на тази любов – дотогава платонична. Посрещнаха ме две сладури: Любомира, която тогава беше дула, а сега акушерка, и Олга, акушерска сестра. Скоро след като пристигнах, им признах желанието си да видя представление на тази група жени. Те с удивление ми казаха, че точно вечерта на пристигането ни ще има шоу.
– Добре, ще те заведем на театър
Точно това се случи. Едва слязохме от самолета и Олга беше там, за да ни посрещне. Отидохме в хотела, оставихме дрехите и куфарите на леглото и бързо се отправихме към един гигантски театър в центъра на София. С Любомира до нас със Зеза гледахме представянето на жени с мистериозни и красиви гласове. Не можех да спра да плача през цялото представление, което е неудобно и нелепо, но честно.Попитах Любомира обичайно ли е да играят в София, на което тя отговори: „Напротив. Минаха около 4 години, откакто нямаше публични изяви. Беше голям късмет за теб.“
Não lhes parece curioso que o sonho do presidente Trump a respeito da reconstrução de Gaza é a criação de uma cidade artificial, sem vida, plastificada, criada para ser um enorme cassino ao ar livre, com suas praias limpas, restaurantes, casas de jogos, (provavelmente) prostituição, shows de música, festas suntuosas, mulheres extravagantes, muita gente branca ao dado de uma multidão de trabalhadores simples de pele escura? A imaginação logo nos leva a enxergá-la como uma grande “Las Vegas Oriental” às margens do mar, com luxo, sofisticação e com algumas pinceladas das extravagâncias de Dubai.
Não acredito que essa fantasia seja uma coincidência, até porque esse é a imagem de progresso que um bilionário americano, e dono de cassinos, como Trump, projeta para Gaza. É assim que o centralismo capitalista enxerga esses lugares exóticos. Assim era Cuba antes de ser liberta pela Revolução: um lugar para os ricos passarem as férias, dançarem, encontrarem mulheres boas e baratas e serem servidos pelos garçons nativos. Percebam que é desta maneira que Hollywood retrata o oriente, dos árabes passando pelo Havaí, a Tailândia e tantos outros lugares onde o Imperialismo controla com seu exército ou sua economia.
Por outro lado, Dubai nos mostra como esse tipo de empreendimento realmente funciona. Ao lado da suntuosidade das torres gigantescas, das praias artificiais, dos restaurantes e da vida noturna existe um exército gigantesco de trabalhadores que habitam a cidade de Sonapur, na periferia da cidade glamourosa. São eles – uma mão de obra quase exclusivamente composta de estrangeiros – que mantém acesas todas as luzes do espetáculo da cidade, mesmo recebendo salários miseráveis e sofrendo a extrema exploração que os expatriados normalmente recebem.
No capitalismo, a ideia nunca se afasta desse padrão: uma multidão semi-escravizada trabalha para que os bem-aventurados possam se divertir, mesmo que isso custe aos trabalhadores sua saúde, a liberdade, o conforto e o contato com a família. Isso sem falar do tráfico de pessoas, uma ferida aberta de direitos humanos que acontece amiúde nesses projetos. As cidades dos bilionários da península arábica possuem milhares de histórias de mulheres abusadas, traficadas, usadas como escravas domésticas e impedidas de retornar aos seus países de origem. Enquanto no submundo ocorrem crimes de toda ordem, o espetáculo não pode parar e a música precisa continuar a tocar indefinidamente.
Trump planeja para Gaza um bordel americano, um lindo jardim às margens do Mediterrâneo, tendo os palestinos como seus empregados, e todo o dinheiro nas mãos de alguns poucos americanos, judeus e árabes dos Emirados vizinhos. Estes vão explorar a população da Palestina até que tudo que lá existe acabe sendo possuído por estes poucos capitalistas. Nesse momento o sonho sionista será concretizado, e os palestinos, por fim, se sentirão estrangeiros em sua própria terra.
Ela não vai comemorar o dia da mulher com sua família. Quem acha justo que uma mãe fique presa, afastada dos filhos pequenos, pelo crime “hediondo” de escrever com batom na estátua da Deusa Têmis, é porque vendeu sua alma ao fanatismo punitivista há muito tempo. Permitir que um tirano como Alexandre de Morais faça justiça conforme o seu humor, sem observar um preceito básico do direito, a proporcionalidade da pena, é jogar fora séculos de avanços civilizatórios. Um socialista verdadeiro não pode aceitar que o poder desmedido de um magistrado não sujeito ao voto esteja acima dos demais.
Pergunto: que tipo de “ato simbólico” – como manchar de batom uma estátua – é tão grave a ponto de fazer uma mãe ser afastada dos filhos e ficar presa, podendo ser condenada a 17 anos de prisão? Essas prisões estapafúrdias, grotescas, insanas e desumanas parecem a selva punitivista americana, na qual ainda existem penas capitais e onde um sujeito pode ser condenado a 10 anos de prisão por roubar um pedaço de pizza. E isso num país com uma população carcerária de quase 2 milhões de apenados.
Ou pior ainda: estas decisões parecem o sistema penal corrupto de Israel, onde lutar pela sua terra e pelo seu povo pode colocá-lo numa masmorra pela vida inteira. Que tipo de sociedade degenerada acredita que a insatisfação crescente do povo pela ocupação do seu país ou pela política das democracias burguesas pode ser solucionada com penas draconianas, pesadas, desumanas – e, portanto, injustas? Pelo contrário: a indignação do povo só aumenta com esse tipo de crueldade. Infelizmente quem se mobiliza até então é a direita fascista, porque a esquerda está inativa, paralisada pela ilusão de que Alexandre está ao lado da “democracia”. Apoiar esta insanidade ainda vai nos levar a uma tragédia.
Muitas manifestações da esquerda carnavalesca e identitária, favoráveis à prisão desta mulher, são copia-e-cola das manifestações da direita sobre a prisão de Lula, Delúbio, Zé Dirceu, Genoíno e José Kobori. Idênticas. “Quando roubou o sítio em Atibaia não pensou na família, né”? Ou seja: a sujeira jurídica do Impeachment, da prisão de Lula e a imundície da Lava Jato não nos ofereceram suficientes lições para desconfiar das sentenças da justiça burguesa e das decisões do supremo (que aceitou o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma e manteve Lula preso de forma ilegal). Continuamos atacando personagens como Bolsonaro sem perceber que ele não é a doença; ele é o sintoma. A doença verdadeira é a tirania e a ditadura da burguesia, muito bem representadas por vampiros como Alexandre de Morais, indicado pelo vampiro-Mor Michel Temer, golpista maior dos nossos tempos.