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Julgamentos

Em quase todas as vezes que se conta um fato a alguém a reação deste será determinada pelo tipo de identificação que se seguirá. Se você conta uma história de violência doméstica, a imensa maioria das mulheres se identifica com a agressão sofrida e se enxerga na pele de quem sofreu na história relatada. Se você conta uma história de um homem enganado – apenas para falar de um sofrimento tipicamente masculino – os homens se identificam com o “pobre rapaz” cujos sentimentos foram pisoteados por aquela ingrata e blá, blá, blá…

Digo isso apenas porque não confio em opiniões isentas. Todas as manifestações, com raríssimas exceções, são marcadas pela perspectiva PESSOAL de cada um que as escuta. Eu também sou assim: sempre que alguém me conta uma história eu me sinto com as roupas e a espada do personagem, sinto na pele o que ele sofreu e tento me situar diante dos dilemas que ele teve de suportar. E sempre imagino a dor de quem não tem voz, não tem força suficiente e nem pode enfrentar, com paridade de armas, o exército que se coloca contra si.

A única diferença é que eu sei da minha parcialidade e tento – dentro das minhas limitadas condições – criticar em mim mesmo esta tendência. Exercitar a paralaxe – deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação – tentando observar o mesmo fato por outra perspectiva é uma capacidade de poucos. Uma rara virtude muito difícil de encontrar. Fico sempre imaginando a opinião de um magistrado condenando ou inocentando um sujeito, tendo nas mãos seu destino, e sem autocrítica suficiente para perceber o quanto de sua sentença está moldada pelos seus preconceitos e por sua visão parcial do que realmente ocorreu.

Quando visitei a prisão de Lula em Curitiba com minha amiga Andréia, tive uma crise compulsiva de choro ao me aproximar do Prédio da Polícia Federal, que mais parecia um castelo medieval, com suas torres, grades, portões, e muros inexpugnáveis. Quando vi a estrutura monstruosa do outro lado da rua eu me desestruturei ao imaginar o ex presidente preso por um arranjo político, falso, cruel e desumano. Senti na pele o que Lula estava passando e desabei. Fui ajudado pelos companheiros da Vigília, gente simples e humilde, que se colocaram ao meu lado naquele momento de angústia. Todavia, para quem não tem dentro de si essa vazio, este tipo de dor não é capaz de produzir eco. Eu entendo e respeito o silêncio de muitos para quem eu contei essa história.

Sim, julgar é a coisa mais fácil do mundo; ser justo uma das tarefas mais árduas. Olhar o mundo com os olhos alheios é obra de uma vida inteira.

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Day After

Para os bons observadores existe um curioso e instigante paralelo entre a França ocupada pelas tropas nazistas e a ocupação do Brasil pelo Bolsonarismo. O mesmo colaboracionismo, a ablação da crítica, a falta de valores humanos e o passar de pano para tantos crimes cometidos. Vejo – ainda que estupefato – queridos amigos de outrora adotando a narrativa bolsonarista que apaga da memória as terríveis ameaças que um candidato da direita, chefe miliciano, fez à nação ainda em campanha. Eram promessas de vingança contra a esquerda, o desprezo pelos negros, o escárnio com a população LGBT, a “ponta da praia”, o desmanche dos direitos trabalhistas e da aposentadoria. Ninguém foi enganado: Bolsonaro entregou a encomenda de ódio e destruição que havia prometido explicitamente. E com essas promessas veio a destruição de conquistas civilizatórias, assim como o preço da gasolina, do gás, do dólar e o negacionismo assassino.

E tudo o fazem por uma brutal lavagem cerebral ao estilo da guerra fria, onde o inimigo é o “comunismo”, o “foro de São Paulo”, a tétrade “Cuba-Venezuela-Nicarágua-Coreia do Norte” – não por acaso 4 países que lutam contra o domínio imperialista – e usam da velha retórica do “Sim, está ruim, mas seria pior com o PT”, um truque de retórica usado no golpe de 64 para justificar as torturas e o fim da democracia, quando diziam que tudo era justificado para nos livrar de uma ditadura comunista – até mesmo uma ditadura militar. Porém, para fazer isso, esquecem de propósito que o Brasil decolou em todos os sentidos durante os governos populares da centro-esquerda petista, e afundou exatamente depois do golpe contra a presidente Dilma.

Eu também tenho curiosidade para saber onde estarão os bolsonaristas depois da queda do Império da Ignorância. Como vão explicar aos seus filhos e netos suas escolhas torpes, a adoção pela retórica do atraso e o elogio à violência? Como vão explicar sua postura miliciana, seu apoio a um judiciário corrompido e sua escolha pelo atraso e pela escuridão?

Como será o “day after” da queda do mito?

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Kyle

Outra opinião para ser cancelado…

Liberais americanos disseram que Kyle Rittenhouse, que foi a uma manifestação de rua vestido com um rifle automático, merecia ter sido atacado, pois “estava pedindo”. Disseram eles: “Afinal, quem sai na rua assim está querendo o quê?”

Gente, os liberais!!! Os mesmos que atacam (com justiça) esse mesmo argumento quando se volta contra as mulheres, e que afirmam que esta lógica é torpe. Aqueles que dizem que a forma como você se apresenta não dá direito aos outros de tomarem atitudes ou fazer qualquer julgamentos de caráter.

Coerência gente, coerência…

Kyle Rittenhouse atirou em 3 brancos. Sabiam que um deles levou um saco de merda para atirar nos adversários e que estivera internado em um hospício até poucos dias antes? E que um outro foi armado com uma pistola para a passeata, e só ao apontá-la para Kyle foi atingido? “As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam”, como diziam Tunay e Sérgio Natureza, e por isso é importante ter em mente o risco que é julgar os casos pelas aparência, pela superfície. Quando examinamos o que realmente ocorreu a história se transforma. Se uma pequena horda sair correndo atrás de você gritando “mata”, e logo depois um cara bater na sua cabeça com um skate e lhe jogar no chão e por fim um outro puxar uma pistola contra sua cabeça enquanto você está caído… acreditam que aí se caracteriza legítima defesa? Ele não atirou em ninguém antes de ser agredido, e foi atacado POR SER QUEM ELE ERA!!!

Aliás, os abusadores de meninas dizem: “queriam que eu fizesse o que? Eu apenas reagi. Sou homem.”

A lógica que aqui tento comparar é a de que um sujeito não pode ser atacado pelo que aparenta, e a aparência de alguém não pode ser justificativa para uma agressão. Aliás, a polícia burguesa usa essa mesma lógica para massacrar a população negra diariamente. Sair de casa com capuz, carregar uma furadeira na rua, ter alguma coisa nos bolsos, sair à noite sendo negro, etc… é o que a polícia diz para justificar suas abordagens brutais, que muitas vezes terminam em morte.

Será a culpa dos negros e dos pobres? Seria uma furadeira uma real ameaça (na perspectiva dos policiais)? Uma mulher de roupas curtas e provocantes/sedutoras é algo atraente, mas estas roupas não podem dar direito a que alguém abuse dela. Um sujeito com um rifle é uma provocação, mas não é uma agressão em si. Ninguém pode agredir ou tentar matar um sujeito apenas porque se acha intimidado por quem ele é ou como está vestido, Essa é a analogia.

Aliás, para quem quiser saber, eu acho que uma mulher com roupas sensuais em lugares que podem conter psicopatas é um brutal equívoco, mas isso não dá direito a ninguém de atacá-la. Ir para uma passeata de protesto com uma arma semiautomática é uma profunda estupidez, mas isso não dá aos passantes o direito de tentar matá-lo.

Não é justo usar a condição de alguém – rico, branco, homem, ou com passado comprometedor – como prova de culpa, ao mesmo tempo em que não se pode usar a condição da suposta vítima – mulher, gay, trans, etc – como um escudo para crimes. Para julgar é preciso se ater aos fatos. Caso contrário será puro preconceito.

PS: Kyle Rittenhouse é um garoto mimado, fascista, racista, supremacista racial, idiotizado pela mídia, “gun lover”, admirador de um presidente psicopata, estúpido e um perfeito produto dos tempos atuais. Houvesse uma cultura de armas (e amparo legal) aqui, como a que existe nos Estados Unidos, e teríamos um fac-símile desse modelo. Veríamos muitos garotos bolsonaristas a andar de garrucha pelas ruas, provocando os transeuntes. Se imitamos descaradamente um touro na calçada e uma estátua da liberdade chinelona, porque não copiaríamos garotos justiceiros? Todavia, dos crimes dos quais Kyle Rittenhouse foi acusado, ele é inocente. Não há como aceitar que ele seja culpado pela forma como se apresenta, da mesma forma como nenhuma mulher é culpada por vestir-se de forma atraente ou sedutora. Ao meu ver fez-se justiça.

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Tristeza

Quem acredita nessas ideias deve pensar que ninguém se suicida em Paris ou São Petersburgo. Talvez ache que estar deprimido numa favela ou trancado num quarto em Dubai faz alguma diferença (desde que tenha as necessidades básicas supridas). Não romantizem a pobreza, mas também não idealizem a riqueza, acreditando que a posse de bugigangas possa livrar alguém de tormentos e sofrimentos psíquicos.

Quem já sofreu desse mal, ou já teve alguém ao lado sofrendo de depressão, pôde perceber que a sedução das alegrias externas não os afeta. Quem diz que curaria sua depressão com uma visita ao shopping, uma viagem à Europa ou uma casa melhor não está deprimido; está apenas sofrendo de capitalismo.

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Adeus amor…

Durante muitos anos escutei os lamentos de dor das mulheres cujos parceiros ganhavam asas e partiam. Eram histórias carregadas de sentimento, de afetos cortados, de amores interrompidos, de partidas, de camas vazias, de perguntas sem resposta.

Uma dessas histórias me marcou pela tristeza da protagonista. Ela era tão grata ao ex-parceiro que jamais se permitiu odiá-lo, e também porque percebeu a dor compartilhada pela chegada do fim. Certa noite chegou em casa do trabalho e encontrou o marido sentado no sofá da sala, no escuro, com a cabeça entre as mãos e soluçando. Atônita, abraçou-o e perguntou o que havia ocorrido. Como ele não respondia, questionou se houve “algo no emprego”, “dinheiro”, “sua mãe”, “família” e ele só movia a cabeça negando.

Subitamente, ela percebeu que só lhe restava como alternativa aquilo que mais temia. “Sou eu, então?” disse ela, o que ele respondeu balançando a cabeça afirmativamente, gesto que se repetiu quando ela fez a pergunta derradeira e fatal:

– Então… você não me ama mais?

Em outras vezes a reação trazia a crueza das feridas abertas. Indignação, raiva, desprezo. Choro e ranger de dentes. E quanto mais odiavam, mais dolorido era o luto. Aprendi errando a não dizer nada nessas horas. Acabei descobrindo que a identificação com o “outro opressor” podia ser facilmente estabelecida.

“Vocês são sempre assim, todos iguais!!!”, diziam algumas, esperando uma “defesa da classe” que com o tempo percebi inútil e ineficaz. Eu apenas silenciava, oferecendo minha mudez como eco às suas lágrimas. Eu intuía que aquela quantidade imensa de projetos e planos fracassados, transformados em cinza de sonhos, precisava encontrar na palavra seu necessário escoadouro.

Muitas vezes quis abraçar e acalentar estas almas sofridas, mas sabia o quão arriscado estes movimentos são. No fim, creio que o melhor é permitir que a dor de esgote, que curse seu caminho por completo, que passe por todas as paragens e que siga até o fim da linha. Sem atalhos ou desvios.

O Merthiolate do tempo acabava servindo como remédio infalível. A ardência corrosiva do abandono aos poucos dava lugar à aceitação, e depois dela a reconstrução. Para muitas era possível entender e perdoar, abrindo espaço para um novo amor. Sabiam elas que odiar era “adorar pelo avesso”, impedindo o corte duro e necessário dos laços que outrora foram sua razão de viver.

Escrevi isso porque meus ouvidos encontraram “Atrás da Porta” hoje, onde Chico Buarque, na voz de Elis, conta todas estas milhões de histórias com a simplicidade genial dos poucos versos.

“Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua”

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Decidam-se

Se o pai é importante, abandono paterno faz sentido e deve ser combatido, para proteger a criança dessa falta. Todos os esforços devem ser feitos para que os pequenos tenham o direito de conectar-se com o pai, entendendo-se a paternidade como uma função essencial na infância e a relação do pai com seus filhos considerada parte dos seus direitos fundamentais.

Todavia, se o pai é tratado como descartável, desimportante e supérfluo então deixem os homens em paz na sua falta de conexão com os filhos. Cobrem na justiça a pensão e fechem a conta. Se as mulheres são tão autossuficientes assim, então não há razão para se preocupar com os pais e suas ausências.

Em suma: Não dá para cobrar presença paterna e chamar os pais de inúteis ao mesmo tempo.

Nesse debate eu fico com o velhinho de Freiburg, tio Sig: “Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa do que a necessidade de sentir-se protegida por um pai”.

A frase dita pelo pai da psicanálise, expressa um sentimento que supera a lacuna de gerações, mantendo-se relevante muito após a época em que foi expressa. E não esqueçam que o abandono paterno é mais um efeito nocivo do capitalismo.

Pai não é essencial, mas nem mãe é… entretanto, eles são de extrema importância para a construção da estrutura psíquica do sujeito. Outra do Sig: “A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar, enquanto isso, a maior função de um pai é salvar esta criança das garras do amor materno”. Sem essas figuras a criança buscará alhures alguém para lhe ensinar o amor e, mais ainda, alguém que imponha a este amor primitivo seu necessário limite.

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Idade Média e Renascimento

A transição entre a idade medieval e o período renascentista foram bastante marcantes. No período medieval havia um marcado teocentrismo que determinava que a relação do homem era com Deus, sendo que os humanos eram sempre tratados como falhos, fracos, inferiores e falíveis. Todas as relações eram mediadas pelo criador, e o ser humano era ensinado desde cedo e temê-lo. Diante do poder divino o homem era incapaz de reagir. Com o Renascimento a relação se dá entre homem e natureza, fortalecendo a noção de que este é capaz de conhecer e transformar a natureza em seu benefício. O Renascimento inauguro uma visão antropocêntrica, onde o homem passa a ocupar o lugar outrora ocupado por Deus.

O Renascimento é marcado por algumas modificações muito importantes. Ocorre um renascimento comercial pela ampliação dos horizontes com as grandes navegações, em especial aquelas patrocinadas pelos ibéricos.  As cidades, esvaziadas durante a idade média e o domínio da Igreja Católica, voltaram a ser ocupadas, criando-se os “burgos”, pequenos vilarejos que deram o nome modernamente utilizado de burguesia, ou seja, aqueles que vivem em cidades.

Não apenas a revitalização das cidades, o comércio e as navegações, mas algumas invenções foram fundamentais no Renascimento, como a bússola, a pólvora, o papel e por fim a mais importante delas: a imprensa, pois com ela foi possível popularizar e disseminar o conhecimento. Também a imponência do poder centralizador da Igreja, que perdurou durante toda a idade média a partir da queda do Império Romano do ocidente, foi abalada pelas reformas protestantes conduzidas por Martinho Lutero, a ponto de produzir como força de reação a chamada “Contrarreforma” católica.

Outros elementos do período renascentista foram os incrementos artísticos – causados pelo dinheiro excedente nas principais cidades que financiaram grandes artistas através do mecenato – como também científico, que produziram o surgimento de gênios como Nicolau Copérnico e Galileu Galilei.

A mentalidade medieval tinha essa perspectiva teocêntrica, e todo o saber deveria ser encontrado nas escrituras. Pouco – ou nenhum – espaço havia para uma visão crítica sobre as palavras sagradas, tratadas como lei acima de todas as outras. O ser humano era fraco, frágil, pecador, insuficiente e só poderia ser salvo através da “Doutrina da Graça”, algo que se concentrava no desejo de Deus, independente das obras realizadas. O corpo era pouco importante, assim como os bens materiais. Toda a variedade dos fenômenos da natureza tinha como explicação a vontade divina, de quem nada escapava. Havia um estímulo ao conformismo, já que a vontade do Criador seria soberana, inobstante qualquer ato que pudéssemos realizar. Nesta visão de mundo a fé era superior a qualquer desígnio da razão.

Em contrapartida, a mentalidade surgida com o renascimento oferecia uma nova visão do homem e sua relação com a sociedade.  A visão passou a ser antropocêntrica, tendo o homem como centro de todas as decisões. O conhecimento deveria partir da experiência, dos estudos e pesquisas e baseados na razão. O ser humano passou a ser retratado como belo, como pode-se observar nas obras dos grandes pintores e escultores renascentistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Boticcelli, Caravaggio, Tintoretto e Michelangelo. Os fenômenos da natureza passam a ser explicados pela razão, e não mais pelos augúrios do Criador ou suas vontades inexpugnáveis. O mundo renascentista se preocupava em mudar o mundo, abandonar o pessimismo, olhar o belo dos corpos, o prazer e a luz da razão. Não mais a fé a guiar os caminhos, mas a luzes que emanam de um pensamento claro, livre e baseado no real.

O Renascimento produziu uma grande abertura para a expressão mais nobre da alma humana: um período de luz, afugentando o pessimismo e as visões diminutivas do ser humano, introduzindo o novo tempo que será marcado pela razão e pela expansão do conhecimento.

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Trânsito

O trânsito é um problema em todas as grandes cidades do mundo na atualidade. A verdade é que a imensa maioria delas viu um crescimento exponencial durante o século XX não apenas relacionado ao crescimento vegetativo das populações, mas também por uma migração de populações oriundas do campo, que se deslocaram para a cidade a procura de trabalho e melhores condições de vida. As cidades se encontravam despreparadas para os dois grandes influxos recebidos: as novas pessoas e os veículos automotivos, tratados como o “grande objeto de desejo” ocidental com seu florescimento na segunda metade do século XX.

A partir das descobertas da produção em massa – impulsionadas por Ford e a mecanização da indústria – os automóveis passaram a ser paulatinamente mais baratos e acessíveis a múltiplos segmentos populacionais. Assim, as ruas se tornaram insuficientes para conter o acúmulo de carros em suas artérias, tornando a circulação dramática na maioria das cidades ocidentais de médio e grande porte.  A engenharia de tráfego, com a criação de fluxos de circulação, pontes, viadutos, avenidas alargadas, passarelas, metrôs urbanos, elevadas e toda a criatividade da engenharia de tráfego ainda não conseguiu a solução definitiva. Em algumas cidades – como Londres – a entrada na cidade por automóvel custa um pedágio significativo, para inibir a entrada de mais carros na cidade. Outras como São Paulo chegam a fazer rodízios de placas, impedindo através de multas a entrada de novos automóveis em circulação nas ruas já congestionadas.

Talvez a solução esteja na mudança da matriz “automóvel”, um modelo altamente poluente, perigoso, com inúmeras mortes relacionadas ao seu uso, mas que usufruiu de uma grande popularidade pela sensação de autonomia e liberdade que oferece aos seus usuários, algo que ele carregou neste seu século de glória. Melhorar sensivelmente o transporte de população – metrôs, ônibus, barcos, em especial – é a única forma de deixar a compra de automóveis desinteressante, desafogando o trânsito, despoluindo o ambiente e diminuindo o número de mortes relacionado ao seu uso.

Todavia, para que isso ocorra é necessário que ocorra uma mudança CULTURAL, que inclua também a mudança na matriz industrial brasileira que depende ainda da indústria automobilista. Por isso, essa mudança precisa ser lenta e gradual. Por certo que, para além disso, oferecer estímulos para que atividades possam ser realizadas fora das grandes cidades é uma tendência que já estamos percebendo, não só com os projetos de descentralização, mas também com o advento e disseminação do home office que foi trazido pela pandemia de Covid19. O tele trabalho poderá ser um fator extremamente importante nesse objetivo de desafogar as ruas das cidades, na medida em que a presença física – para muitas profissões – deixará de ser indispensável.

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O Dilema de Snape

Na minha cabeça aparece frequentemente o roteiro de um romance no qual o tema central é uma ação dissimulada protagonizada por um sujeito cuja vida é guiada por um “sentido de dever”, e que leva este sentimento como algo superior inclusive à sua própria vida e o seu legado. Essa imagem aparece para mim desde que eu era adolescente, como um dilema angustiante, uma encruzilhada aflitiva, mas infelizmente percebi que ela nada tinha de original. Em Harry Potter ela aparece no dilema de Severo Snape.

O drama é esse: imagine que você precisa fazer algo justo e correto, mas terá que aparentar estar fazendo exatamente o oposto, agindo de forma muito errada e contrária à sua vontade e seu padrão moral, pois sabe que apenas assim sua ação poderá ter sucesso. A maldade será a máscara perfeita para as suas atitudes. Agirá tendo como orientação secreta a virtude e um objetivo moralmente irrepreensível, porém deverá parecer a todos como egoísta, orgulhoso, vaidoso, imoral, ganancioso e rude. Tudo fará para reforçar sua imagem de mau, pois só assim terá acesso aos recursos para levar a contento sua tarefa elevada.

Todavia, ao contrário de Severo Snape – cuja ações nobres foram desveladas após sua morte e sua memória resgatada como alguém que sempre lutou contra as “forças do mal” – as suas verdadeiras intenções JAMAIS serão descobertas. Você morrerá como traidor, visto por todos como a personificação do mal, passará para a história como o canalha egoísta, aquele que tanto mal fez aos seus semelhantes. Será visto nos livros de história como o perverso, o estúpido, o desleal e alguém que representa o oposto da virtude e do bem. Enquanto isso, em seu íntimo, saberá o bem que acabou produzindo. Você será o único ser no universo a carregar esta verdade, e não há nada e nem ninguém que poderá salvá-lo dessa maldição. Terá apenas as estrelas como testemunhas de suas intenções puras.

A simples ideia de enfrentar esse dilema me deixa angustiado. Pergunto: quem teria a nobreza de aceitar esta missão? Creio que, se esse sentimento existir e for provado, será possível acreditar que a verdadeira fraternidade existe, ou seja, a capacidade de fazer o bem sem receber qualquer recompensa, inclusive aquelas puramente simbólicas.

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Condescendências

Quando vejo lideranças indígenas falando dos “brancos” penso que é tão errado e preconceituoso quanto dizer “os índios”. Pior, romantizar os indígenas é pura ingenuidade e essencialismo, que não resistem a 5 minutos de evidências. A ideia de que existe uma perspectiva de mundo essencialmente diferente entre os indígenas e os “brancos” não faz sentido. Os indígenas não “amam” a floresta como nós gostamos de pensar, apenas estão envoltos por ela e não possuem (como nós) as condições de destruí-la – ou modificá-la.

Tratar indígenas assim não ajuda suas causas. Nosso erro continua sendo estabelecer diferenças morais entre brancos, negros, indígenas, mulheres, homens, héteros e gays. Quando se examina sem preconceito vemos que em todos esses grupos existem virtudes celestiais e defeitos horrendos. Somos todos feitos da mesma massa bruta e nossas diferenças são meramente circunstanciais e contextuais.

Sabem quanto tempo por dia um indígena ou aborígene que vive em um sistema de “caça e coleta” trabalha em suas funções específicas, para produzir alimentos, moradia, proteção, etc?

Duas horas, em média, por dia. Exato, apenas duas horas de trabalho, porque o estilo de vida que está à sua disposição oferece de forma muito abundante os recursos necessários. O resto do tempo é usado para “curtir”, contar histórias, namorar, tomar banho no rio e contemplar. As populações pré agriculturais tinham este tipo de relação com a natureza e, portanto, não é a essência dos indígenas que os torna mais “respeitosos” com a natureza, mas a sua simplicidade cultural e sua forma de relação com o meio ambiente. Todavia, basta que achem uma garrafa vazia de Coca-Cola para que sua estrutura social se transforme completamente, e valores que sobreviveram por milênios sejam desafiados de forma marcante (aqui me refiro à brilhante comédia sul-africana dos anos 80 – “Os Deuses devem estar Loucos”).

Regredimos ao nos tornarmos “civilizados”? Bem, de uma específica perspectiva sim, em especial no que diz respeito à criminalização do lazer e do prazer, mas não se percebermos que este estilo de vida produz uma brutal dependência da natureza. Quando uma criança da comunidade vira comida de jacaré a gente começa a pensar um pouco mais sobre as vantagens da civilização e o quanto a aplicação de tecnologia pode ter seu valor. Uma proteção maior contra as fúrias naturais vai ocorrer na medida em que temos mais controle sobre a natureza e menos dependência de sua “bondade” para conosco. Com isso deixamos a posição de meros objetos da natureza e passamos a ser sujeitos dela. Mas, não há duvida de que a existência de agrupamentos nativos com uma estrutura social muito próxima dos caçadores coletores é uma excelente forma de analisar os (des)caminhos das civilizações contemporâneas.

Não esqueça dos “tigres de dentes de sabre”, que habitaram o continente americano (inclusive no Brasil) durante a pré-história, e desapareceram há cerca de 10 mil anos, mas que foram exterminados pelas populações NATIVAS, e não por exploradores brancos malvadões. O mesmo fenômeno nos fala Zizek a respeito dos búfalos americanos, e porque não seria igual com os “nativos” europeus e sua relação com os mamutes?

Por fim, “patronizing” é uma palavra de difícil tradução para o português, mas é a melhor palavra para explicar este fenômeno de tratar grupos oprimidos como se fossem moralmente superiores. Acho que a melhor tradução ainda é “condescendência”. Creio que sempre que temos este tipo de essencialismo condescendente com indígenas estaremos atrapalhando sua autonomia. O mesmo com outros grupos historicamente oprimidos, como mulheres, negros, imigrantes, gays, etc…

Abaixo a manifestação de Zizek sobre o tema…

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