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A Solidão do Desejo

Esta é uma metáfora antiga, e não sei qual sua origem exata. Talvez seja uma história do Lacan ou talvez do Contardo Caligaris contando a partir de um relato de Lacan, mas isso é menos importante.

Esta metáfora compara a relação sexual com um jogo de tênis entre duas pessoas unidas por um laço fantasmático de desejo. Entretanto, ao invés de uma rede a separá-los há uma parede sólida, a qual impede os jogadores de verem seus parceiros de jogo. Assim, cada um joga do seu lado do muro, atirando a bola contra ele e rebatendo… solitariamente.

Apesar da notável solidão, deixam-se guiar pelo som da bolinha que o parceiro joga contra a parede rígida e ambos dançam ao sabor dessa simetria sonora. Apesar de não se verem, reconhecem a existência do outro por detrás do muro, e jogam de acordo com o som que escutam e os movimentos que imaginam

Dessa forma, o que em verdade se constitui em dois jogos distintos e autônomos parece, ao observador desavisado, um jogo entre dois parceiros – concatenado e simétrico – de fina sintonia.

Eu escutei há muitos anos essa metáfora que explicava a “impossibilidade da relação sexual” mas que ao mesmo tempo ensinava ser a sustentação do desejo uma responsabilidade do próprio sujeito, a depender da sua capacidade de escutar a bolinha que bate na parede enquanto acompanha com seu jogo do lado de cá.

Não sei se essa narrativa é triste ou bonita, mas sempre acreditei ser profundamente pedagógica. Ela ensina que um encontro de amor é um encontro consigo mesmo, através do outro.

(A partir de uma conversa com Deia Moessa Coelho)

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Vírus Maldito

Nosso erro reiterado: acreditar que o vírus é o nosso inimigo, que precisa ser destruído, porque é ruim e malévolo, dotado de uma consciência perversa que deseja nos destruir. Ele representa a desgraça e a crise que se abateu sobre nós. Mas, é certo que mais uma vez estamos olhando para o inimigo errado…

Antes foi a selva, os animais “perigosos”, as feras, as serpentes, as aranhas, as formigas assassinas, os tubarões e os mosquitos. Os rios que inundam, os furacões, as chuvas, a ventania e a seca. A natureza era a inimiga, que precisa ser controlada ou domada. Caso resistisse só nos restaria puni-la ou levar a cabo sua destruição.

Depois nosso ódio se voltou àqueles próximos à ela, os nativos, os indígenas, os povos originários. Os que tentam dialogar com ela sem a perspectiva do extermínio. É a sanha desenvolvimentista que a tudo deseja asfaltar, cimentar, ladrilhar, esterilizar.

A chegada da microbiologia, nos finais do século XIX se adapta maravilhosamente a uma ideologia anti-bios, contrária às outras formas de vida que, por definição, nos desafiam. Daí resultam os antibióticos, que destroem as vidas que nos ameaçam, enquanto as cidades avançam pelas matas com a mesma intenção, levando de roldão a vida e a diversidade biológica do planeta. Espécies inteiras são dizimadas, destruídas, aniquiladas. A vida perde, para o homem sorver, mais uma vez, a bebida inebriante da supremacia mortal.

Porém, é preciso ser justo; também quero me livrar desse vírus o quanto antes. Matá-lo até que não possa mais destruir tudo à sua volta. Todavia, não me refiro a estas minúsculas hélices de DNA que por hora se voltam contra nós, os humanos, em claro movimento de defesa contra as incessantes agressões.

Não, falo do vírus da ganância, do capitalismo, do modelo acumulador que ameaça nossa existência. Falo de nós mesmos, os humanos, infectados pelo consumo desenfreado e sem consciência ecológica. Falo do nosso desejo destrutivo de tudo abocanhar com nossa garganta infinita. Esse vírus que há muito nos acomete precisa ser destruído para que reste alguma esperança de sobrevivência para a nossa espécie, e para este pequeno planeta azul.

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Cacarecos

Que tal um Natal com poucos cacarecos?

Pensem bem antes de dar presentes em festas comerciais!! No fim das contas pode sair muito caro. O stress, a exposição ao vírus, o custo inflacionado dos brinquedos a (in)utilidade do presente, etc. Será mesmo que vale a pena tanto esforço em troca de um carinho que pode ser recebido com a simples presença e a comunhão?

Não esqueça que o presente verdadeiro nessa negociação capitalista é o impacto no sujeito causado pela fugaz gratidão infantil. Ela dura poucos minutos e depois o apetite de afeto das crianças exigirá mais presentes, e assim indefinidamente. O desejo é infinito, os recursos não…

Meu conselho é que sejam fortes e resistam à pressão. Crianças que recebem presentes demais tornam-se insensíveis às coisas, aos objetos. É uma adição como qualquer outra; depois de um certo tempo só doses mais fortes conseguem produzir a endorfina necessária para o disparo da onda de prazer.

Não usem as crianças como lenitivos para seus traumas infantis. Graças às inúmeras faltas da infância é que desenvolvemos o desejo de conquistar algo mais na vida. “Toda conquista se faz a partir dos escombros de um fracasso”. Não permita que seus traumas prejudiquem seus filhos e netos. Acreditem no potencial deles em desenvolver criatividade, alegria e sucesso sem a necessidade de acumular coisas.

O Natal é o melhor momento para ensinar as crianças como suportar a frustração consumista.

Tenham todos um Feliz Natal com pouca coisa…

Veja outro post meu aqui

… e leia mais sobre o tema aqui

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Divergências

Tem uma tese que corre solta por aí que diz: “Quando eu era pequeno tomava todas as vacinas de boa e não perguntava o que tinha dentro e nem de onde vinham. Agora estamos todos metidos a cientistas de vacina”.

Bem, é certo que comportamentos paranoicos não ajudam a formular uma conduta sensata. Negar-se a usar um produto por puro preconceito com sua origem é quase sempre uma estupidez; deixar de usar algo baseando-se em memes ou fake news do WhatsApp também.

Porém, quando eu era pequeno, meu pai passava “Flit” pela casa para matar mosquitos e ninguém perguntava nada; todo mundo confiava nas empresas americanas que produziam esse veneno mortal. A gente tomava litros de anilina e glicose nos K-Sucos e achava apenas gostoso. A comida era cheia de aditivos e todo mundo comia de boa. A agricultura usava todos os tipos de defensivos tóxicos e todo mundo comprava sem perguntar nada. Quando uma nova indústria abria a gente comemorava, e nem ligava para a poluição. Quando o governo inaugurava uma estrada ninguém se importava com a destruição do meio ambiente; o mesmo com barragens e hidrelétricas. No tempo do meu pai matar passarinho era diversão.

Só os impertinentes reclamavam; só os inconvenientes escreviam textões em revistas que ninguém lia. Vozes diminutas…

As notícias da TV passavam pelo crivo de SEIS famílias, que controlavam TUDO que você poderia saber, e ninguém achava estranho. A gente comia embutidos, conservantes, saborizantes e muito açúcar e não havia muitas vozes para nos alertar dos perigos. A maioria iniciava o cigarro aos 14-15 anos como ritual de passagem, e poucas eram as vozes para alertar para o perigo do tabagismo. Na minha infância a gente dava leite de vaca para crianças pequenas e as tirava do peito, produzindo uma geração de sequelados que foram privados de leite (e afeto) materno, e ainda assim fazíamos concurso de beleza para bebês (obesos) tratados com fórmula artificial.

Só nos livramos dessas toxinas através de gente MUITO CHATA que apontava o dedo para os erros e para os equívocos e que chamavam a atenção para os desvios genocidas do nosso comportamento. Foi preciso escutar as vozes dissonantes para corrigir os erros e traçar novas rotas. Também foi necessário que milhões morressem para que a nossa indignação se transformasse em ação.

Não posso acreditar que abolir a consciência sobre os riscos do que ingerimos e injetamos possa ser errado. Criticar TUDO – inclusive as vacinas – é uma VIRTUDE do mundo contemporâneo. Por certo que muitos exageros vão ocorrer; é previsível que uma postura crítica possa descambar para a pensamentos persecutórios, “Nova Ordem”, “Illuminati”, paranoia “comunista”, “Globalistas”, “Ordem do Sião” e tanto mais; é o risco que temos que correr para disseminar o contraditório e encontrar soluções. Todavia, não é possível admitir que “pensar menos” sobre um tema e aceitar acriticamente determinações vindas de grandes corporações (também elas com seus interesses específicos) possa ser a saída para os dilemas que estamos agora enfrentando.

A única fórmula que reconhecidamente funciona para bloquear desinformação é produzir MAIS informação, isenta e de qualidade, e não criticando as divergências – naturais e benéficas – ou desacreditando sistematicamente tudo o que se contrapõe à narrativa hegemônica.

Não será obstaculizando a crítica que construiremos uma sociedade mais equilibrada e saudável.

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Bolhas

Cena 1: Meu avô morreu aos 94 anos na casa do meu pai. Estava cansado e tinha problemas respiratórios crônicos. Morreu de gripe. Acordou pela manhã e avisou o meu pai que era seu último dia. Distribuiu seus pertences – entre verdadeiros e imaginários – para os filhos e netos. No meio da tarde, e com muita dificuldade respiratória, chamou meu pai e disse “Deu…”. Fechou os olhos, expirou pela última vez e foi encontrar minha avó no outro plano.

Até pouco antes de morrer mantinha o hábito de tomar whisky “on the rocks” todas as tardes. Um dia uma parente notou o copo servido ao seu lado e tentou retirá-lo discretamente. Quando viu, meu avô puxou o copo para si e disse “não mexa no meu scotch!!”, ao que ela falou “não faz bem para você tomar isso todos os dias”. Ele respondeu com aquela cara vermelha e mau humorada dos ingleses: “Tenho mais de 90 anos e vou partir em breve. Deixe-me ao menos morrer feliz”.

Cena 2: Trabalhei muitos anos com pacientes renais em uma clínica de diálise. Os pacientes tinham dietas severas, com ausência quase total de sal, o que torna a comida sem sabor algum. Havia entre eles um garoto de 20 anos que morava na periferia da minha cidade. Era dependente químico, tinha um bebê recém nascido e os rins destruídos. Sobrevivia pela hemodiálise que fazia duas vezes por semana. Mais de uma vez fui buscá-lo no banheiro onde se escondia para comer pó de K-Suco. Uma segunda-feira sua esposa ligou para a clínica dizendo que ele não viria fazer a diálise. Montou uma festa em casa no fim de semana onde bebeu, comeu de tudo e avisou que seria seu último dia de vida. Disse “não quero mais viver uma vida sem gosto”. Morreu no domingo à noite.

Cena 3: o Garoto da Bolha, filme com John Travolta e baseado em fatos reais. Ausência de funcionalidade do sistema imunológico, o que o obrigava a viver dentro de uma bolha. O filme inteiro é sobre a vida insuportável e solitária do garoto, preso em seu mundo de plástico. A cena final do filme é sua fuga da bolha e o contato com o mundo de verdade.

Essas histórias me vem à memória quando acusam de irresponsáveis (com razão) as pessoas que resolvem fazer festa, abraçar, beijar, transar, ir à praia e fazer compras. Talvez o pensamento simplista delas seja “de que vale a vida sem poder vivê-la de verdade?”.

Para mim é fácil apontar o dedo para essa gente, já que tenho os genes da fobia social e vou passar o resto da minha vida isolado e solitário, mas o que dizer das “pessoas das pessoas”, os extrovertidos, os amorosos, os carentes e os amantes? É justo acusá-los de exigirem o direito de viver uma vida feliz, ao lado de quem amam?

Sim, eu sei. A pandemia, o afastamento, o vírus, a segurança dos OUTROS e não apenas a sua, etc. Tudo isso é verdade é não há como discordar. Eu apenas acho errado condenar ao inferno as pessoas que se rebelam contra uma vida infeliz e encarcerada. Se podemos condenar as atitudes que negligenciam a epidemia também acho que é justo entender quem apenas sonha com uma vida miseravelmente normal.

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Academias

Nunca me interessei pela vida acadêmica apesar do profundo respeito que tenho por esta forma de produção de conhecimento e pela disputa de ideias que se estimula no ambiente universitário. Entretanto, sempre considerei curiosa a maneira como algumas pessoas deste mundo defendem a forma como “deveriam” ser chamadas. Hoje em dia quando chamam um médico (ou um advogado) de “doutor” (pela tradição) isso passa a ser visto como uma contravenção. “Como ousam usar este nome que só a nós pertence?”

Parece justo, mas funciona muito mais como sintoma do que como um reconhecimento honorífico. Os títulos falam de um processo de formação, mas não garantem a qualidade de uma assertiva. Galilei Galilei abandonou os estudos de medicina para dar aulas. Descartes formou-se em Direito e nunca exerceu a advocacia – seus trabalhos mais brilhantes os fez enquanto militar, Entre 1619 e 1620, em uma cidade próxima de Ulm ou Neuberg, no Danúbio, é onde provavelmente teve a intuição da Geometria Analítica e de um novo método para a organização de uma filosofia. Nietzsche publicou suas principais obras após abandonar a universidade. Charles Darwin também desistiu da medicina e, como Nietzsche, desejava seguir a carreira eclesiástica. Assim como Freud e os demais, nunca se interessou pela vida Acadêmica.

Digo isso apenas para afirmar que a exaltação exagerada dessas conquistas acadêmicas – apesar de valorosas e significativas – por vezes escondem uma autoestima frágil. Quando os valores de uma proposta se estabelecem mais na forma e menos no conteúdo isso significa que há falhas evidentes neste, o que explica a inflação daquela.

“Ninguém é rico pelas vestes que usa nem pobre pelos farrapos que põe sobre o corpo. A riqueza e a pobreza estão na honestidade com a qual se cobrem e no egoísmo do qual se despem”. (Isófanes de Pérgamo)

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“So I’m going to go on record of having both not liked the title “dr” and not having used it for years.

Its a degree. No one calls anyone Bachelor Sandy or Masters Emma. Or plumbers of 25 years of experience Plumber John. So why does graduation with any other degree entitle you other than an inappropriate power model? It is not a sign of respect or those other people would also have titles of respect for their calling. Midwives of 35+ yrs of study and practice are not less deserving of respect than ones who graduated this year. And on and on.

Its outdated, archaic, and a holdover from a bygone era.

I didn’t read the OpEd but I’m tired of seeing the “sign of respect” nonsense online.”

Written by Shannon Mitchel

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CPFs “cancelados”

Nada me fará pensar diferente: uma sociedade está muito doente quando celebramos a morte de quem quer que seja.

Eu entendo a indignação com os assaltantes e outros criminosos. Ninguém é obrigado a ficar impassível diante da violência. Entretanto, a solução NUNCA será o extermínio simples. Para cada criminoso morto outros mais surgem para ocupar essa vaga. A sociedade não fica mais segura apenas porque matamos estas pessoas. Vivemos em uma sociedade que PRODUZ criminosos de forma industrial por causa de um modelo econômico excludente e cruel. Matar gente, usando uma lógica higienista, não produz benefício algum.

Isso explica porque um país rico e excludente como os Estados Unidos têm mais de 2 milhões de pessoas presas enquanto a Suécia – inclusiva e igualitária – está fechando suas prisões por falta de demanda. Isso também fica óbvio ao vermos que a aceleração do encarceramento promovida nos últimos governos não foi capaz de diminuir a criminalidade e nem a sensação de insegurança.

Criar um estado policial – mortal e matador – só piora a indignação e o ressentimento dos excluídos. E não esqueça… quem morre é SEMPRE o pessoal preto e pobre das vilas e periferias, e nunca o branco criminoso de sapatênis dos bairros ricos.

Nosso sistema jurídico faz parte desse apartheid social que criminaliza e extermina os pobres

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O Experimento

Apesar dos inúmeros convites eu nunca entrei no Twitter. Também nunca frequentei Instagram e sempre escrevi apenas no Facebook. Se há uma coisa para mim espantosa é a violência e a ferocidade que o anonimato – e/ou a distância física – confere ao cidadão comum. O Twitter, segundo me dizem, é “terra de ninguém” onde a difamação e a calúnia são os idiomas oficiais, e o Instagram é a vaidade na potência infinita. Enquanto isso, a brutalidade inédita – em sua abrangência – das agressões nas redes sociais faz lembrar um pouco o experimento em Yale de Stanley Milgram com os choques elétricos. Mas lembra também Star Wars, onde a Estrela da Morte destrói o planeta Alderan inteiro com a leve pressão do dedo de um comandante.

Parece que, se o seu “inimigo” – por ser de outro partido, outra ideologia, outra religião, outra orientação sexual, outra opinião, outra perspectiva de mundo, etc – estiver distante o suficiente você pode apertar repetidas vezes o botão da ofensa e da violência que isso não será sentido. A distância e a invisibilidade alheia confirmam a noção de “quem não vê cara, não verá o coração destroçado”.

Já fui vítima de agressões de pessoas (até então) amigas pelo crime de pensar diferente e de expressar publicamente opiniões controversas, mas por certo que já estive na outra ponta do espectro ao escrever críticas duras sem levar em consideração o impacto que poderia causar nas pessoas atingidas. Isso me fez repensar os limites de nossa atuação e ação públicas. Por certo que verdades inconvenientes precisarão sempre da nossa voz (e nossa escrita), mas as críticas direcionadas às pessoas precisam um cuidado muito maior do que este que agora temos.

A violência virtual cresceu de forma exponencial nos últimos anos. A ruptura de antigas amizades e as ofensas desmedidas igualmente, talvez porque ainda não percebemos o quanto de nós mesmos aparece em cada palavra destrutiva que escrevemos. Mas também é possível que o prazer de ver alguém sofrer com o simples toque em uma tecla – como no experimento Milgram – nunca tenha sido avaliado em sua amplitude.

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Drogas

Sempre foi minha ideia de que não se faz bom combate ao uso de drogas com proibição. Isso se chama “proibicionismo” e não funciona no nível subjetivo. Não funciona agora – mesmo com todo dinheiro investido – assim como não funcionou há 100 anos com a “lei seca” nos Estados Unidos, que só criou “mercado paralelo” e produziu milionários (como os Kennedy) que exploravam o tráfico. Teve que ser abandonada logo depois. Da mesma forma proibir maconha é inútil e só serve para eliminar pretos e pobres e para enriquecer traficantes e políticos corruptos.

Outra coisa: não é a droga que vai fazer uma criança fracassar na vida, é o contrário. É uma vida fracassada e cheia de dores morais que vai levar um sujeito às drogas. Droga não é a origem do mal… É CONSEQUÊNCIA. A guerra às drogas é o ato desesperado de “tirar o sofá da sala”, trocando o resultado por sua causa. Este tipo de ato não produz nenhum benefício social. Não interrompe o uso e só coloca jovens pobres na cadeia onde farão a faculdade do crime. Em suma: uma perda de tempo e recursos que poderiam ser usados na prevenção.

É qual a prevenção? A resposta curta é acabar com o capitalismo, um sistema econômico que sobrevive do consumo de inutilidades (ou produtos para o desejo infinito, e não para reais necessidades) e que torna doentes e fracassados aqueles que não podem consumir. A droga se torna uma válvula de escape natural.

A resposta mais longa é parar com o estímulo à todas as drogas – sim, os remédios inclusive – dos quais as sociedades atuais se tornaram dependentes. Hoje se morre MUITO mais de ansiolíticos e antidepressivos do que de maconha e cocaína. MUITO MAIS. Por ano são 200 mil pacientes que morrem pelos efeitos colaterais de remédios prescritos, apenas nos Estados Unidos, e isso é muita gente!!! Essa medicina tecnocrática, drogal e intervencionista já é a terceira causa de morte entre os americanos, atrás apenas de doenças cardíacas e câncer.

Precisamos combater a CULTURA DA DROGA, que nos faz acreditar que a cura da angústia se vende em pílulas ou injeções. Qual a possibilidade de um adolescente não se drogar se desde a mais tenra infância ele é ensinado de que “para cada sintoma corresponde uma droga que se compra na farmácia”?

Ora… quando a adolescência e suas dúvidas e angústias começarem a doer de verdade (quem já não sentiu na pele essas dores?) ele vai procurar uma droga que lhe produza alívio; na farmácia ou na esquina. Como convencê-lo a não se drogar se a sua vida inteira houve estímulo para colocar nas drogas a solução dos dilemas????

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Imprensa Livre

Ah, a “imprensa livre”…

Hoje (mais) duas empresas romperam o patrocínio com a rádio Gaúcha aqui de Porto Alegre em razão dos comentários no programa Timeline de um formador de opinião que se chama Davi Coimbra.

Eu acho o Davi Coimbra um desastre comentando futebol, e seus comentários sobre política são conhecidos como “a voz do patrão”, sempre à direita, contra Lula, contra o PT e com ataques frequentes à esquerda. Eu jamais o assisto desde um famigerado posicionamento seu – sem provas e sem evidências – contra Lula para impedi-lo de concorrer à presidência. Também não assisto o Timeline, mas sei que a entrevista com Lula foi desrespeitosa e grosseira, assim como uma realizada com o senador Requião na qual ele bateu com o telefone de tão furioso ficou com o tratamento jocoso e debochado dos jornalistas do programa.

Posso não gostar nada do que estes comunicadores falam ou escrevem, mas esse é um problema de quem os assiste, não meu. Faço o meu boicote pessoal e acho justo que assim se faça. Se não houver abuso da lei digam o que quiserem em seus veículos. Entretanto, o que vemos agora é que os patrocinadores retiram os contratos diante das discordâncias de opinião. Tudo para não manchar sua imagem diante de opiniões controversas.

Atentem para a situação: hoje em dia, o que você escuta e assiste em uma rádio e também em outros meios fica por conta da régua moral de um fabricante de bolachas que, por discordar do chato do Davi, resolve retirar o seu patrocínio. Foi exatamente o que aconteceu…

Entretanto, “imprensa é dizer aquilo que alguém não quer ouvir”. Essa é a frase do imperador do jornalismo americano, William Hearst, que inspirou Orson Welles em Cidadão Kane. Dizer grosserias pode ser jornalismo, assim como destratar pessoas. O jornalista anda no fio da navalha, pois para trazer a verdade sempre corre o risco de ser ofensivo. Minhas grosserias contra Bolsonaro precisam ser toleradas assim como aquelas ditas contra Lula. Se estiver dentro da LEI está valendo. Retire-se dessa pauta difamação e calúnia e o resto precisa ser protegido. Todos fazemos críticas e elas também precisam de proteção. Se nós admitirmos esse tipo de patrulha sobre a opinião alheia então seremos reféns desse tipo de controle corporativo sobre o que pode ou não ser dito.

E quem disse que empresas de bolacha tem o direito de decidir que tipo de notícia será dada? Ou a perspectiva a ser utilizada? O que eu digo é que esse tipo de controle da notícia pelo capitalismo pode ser qualquer coisa, menos imprensa livre. Prefiro a opinião ridícula de um bolsonarista que fala para quem quer lhe escutar do que o controle feito por algum capitalista (ou pelo Estado) do que seja justo noticiar.

Jornalismo é falar algo que alguém não quer ouvir, mas racismo, machismo, difamações ou mentiras não são cobertas por esta análise, exatamente porque há LEI para coibir este tipo de manifestação.

Para mim fica evidente e translúcido o ocaso da imprensa corporativa. Uma imprensa que precisa agradar seus patrocinadores produz um jornalismo vendido, amarrado, preso. Pode ser tudo, menos imprensa livre.

Jornalista fazendo publicidade de produtos – como garotos propaganda – é o fim da várzea. Sou do tempo em que se dizia “jornalista não tem amigo”, para mostrar que o profissional da imprensa íntegro deveria estar na linha de frente para ACUSAR as empresas que ferem a ética, políticos que agem de forma corrupta e até empresas que atentam contra a saúde pública. Mas, para serem silenciados, são comprados com patrocínios em seus programas. “Não disse o que queremos ouvir? Então tiramos o seu salário”.

É preciso criar um novo modelo, sem as amarras da publicidade corporativa, sem as chantagens e pressões do capital. Sem isso não temos imprensa, no máximo “relações públicas” empresariais.

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