Hummm..quanta braveza. Chamar o ex-presidente de bêbado… para isso é preciso muita coragem. Pelos seus cálculos o Eduardo Cunha e o Malafaia são santos, já que frequentemente doam algumas migalhas para pretos e pobres nas suas igrejas. Sua noção de “caridade” é muito parecida com a dos escravagistas. “Eu ajudo negros, dou-lhes comida, abrigo e remédios“, mas sem jamais os considerar como iguais.
Criticar os governos que permitiram aos pobres ascender …e vislumbrar seu lugar ao sol, por uma perspectiva pequeno burguesa, é fácil. Preferem que falte comida e roupa aos pobres, mas reclamam a alta no preço do Peru da Ceia de Natal. Precisamos um pouco mais de visão sistêmica para criticar qualquer governo.
Ora… o Brasil se cansou disso e mesmo com crises jamais voltaremos à ignorância servil de outrora. Somos cada vez mais preparados para entender as diatribes de uma imprensa umbiguista e falaciosa.
E se você tomou essa crítica como pessoal… Talvez tenha débitos que eu desconhecia. Eu falei genericamente e assino em baixo de tudo que disse. Mas se preferes acreditar que isso é pessoal ou – pior ainda – que fazendo “caridade” vamos melhorar o Brasil…. bem, você está absurdamente enganada.
Os pobres e desvalidos não querem caridade, assim como os escravos não queriam bons tratos.
O debate sobre tragédias recentes tende a ser pouco racional e com tendência à emocionalidade exacerbada tendendo à violência explícita. Isso a gente sabe de longa data.
Nos vários lugares em que fui marcado para debater um mau resultado recente em um parto domiciliar (deviam me marcar nas tragédias hospitalares também) os argumentos passavam por grosseiras, ofensas, escárnio, deboche, absurdas interpretações de texto e ataques constrangedores à língua portuguesa, sem que as questões básicas de medicina baseada em evidências, direitos reprodutivos e sexuais, autonomia feminina e – acima de tudo – o conhecimento MÍNIMO do que seja uma doula e suas atribuições, fossem respeitados.
Quando, após várias ofensas pessoais, um senhor (creio ser médico) me disse que doulas não passam de uma “idiotisse” eu pensei: “Chega“. Percebi que, com este tipo de abordagem e linguagem, não é possível qualquer debate que produza benefícios para a solução dos dilemas da assistência ao parto em um mundo de convulsões na questão de gênero, onde as mulheres não aceitam mais caladas nenhum “abre as pernas“, “deita ali” ou “cala a boca“.
Cunha aceitou o pedido de impedimento da presidenta Dilma, mas só o fez em desespero de causa, porque percebeu que a pressão contra ele está aumentando e se tornando insuportável. Ele está acuado, como um animal sendo caçado. Seu ataque é a demonstração inequívoca do seu desespero.
O Brasil terá que fazer uma escolha difícil. Extirpar Cunha da câmara é uma necessidade moral, para que um falsário e chantagista não seja a imagem do que significa política no país. Ele precisa pagar por uma vida inteira dedicada à corrupção. Por outro lado, levar adiante o impeachment significa criar uma tragédia política que vai arranhar a imagem do país por muitos anos. A quebra da normalidade democrática através do golpismo óbvio dessa atitude fará o Brasil emparelhar-se ao Paraguai em termos de maturidade política.
Se a vingança dos perdedores levar a cabo a saída da presidenta e o desprezo pelos 54 milhões de votos que a sustentam eu temo por uma grave divisão nacional e até uma guerra civil. A classe média de um lado e os excluídos de outro. Não será bom para ninguém. O “terceiro turno” será violento e amargo
Não faz sentido comparar os equívocos cometidos pelos governos militares com os de agora. Os erros do governo militar são comprovados: sequestros, mortes, torturas, perseguições, falta de liberdade, mordaças, maquiagens econômicas, endividamento externo e interno, etc. Também não faz sentido achar que a liberdade oferecida por este governo às instituições que combatem a corrupção foram “concessões pela governabilidade”. Não se trata disso: é um projeto claro de cortar a pele a abrir o abscesso da corrupção.
Contra o governo de Lula e Dilma, por enquanto apenas apareceram boatos (no que diz respeito à corrupção). Os erros na questão econômica poderão ser julgados no futuro, quando forem avaliados dentro dos contextos a que pertenceram. O que Dilma fez não foi algo “ao apagar das luzes do seu governo“. NÃO: foi um política clara desde o primeiro dia do seu primeiro mandato de oferecer garantias à Policia Federal e ao Ministério Público para investigarem tudo e a todos. NÃO FOI uma atitude desesperada, e nem uma “saída honrosa”; foi uma atitude do governo de curar a ferida da corrupção acabando com seu principal agente: a IMPUNIDADE. Por esta razão até mesmo José Dirceu foi condenado de forma irregular e SEM PROVAS, num escândalo jurídico (e que ainda não acabou, posto que irá para as cortes superiores da OEA). Mesmo cortando na própria carne este governo GARANTIU a continuidade do projeto de combate incessante à corrupção, e por esta razão, apesar das mentiras e das falsidades de inimigos ideológicos, é o governo mais HONESTO que tivemos neste país.
Que ainda há muito a fazer, não resta dúvida. Mas olhe bem para os partidos que são acusados de corrupção: o PT é o NONO (9º colocado). Tudo isso nos deixa claro que existe uma manipulação extensiva para culpabilizar o PT naquilo que ele faz de BOM, como o combate à corrupção. As críticas falsas, daninhas, sem provas, sem embasamento são usadas pelos mesmos grupos poderosos que agem desde 1954 para que as reformas (como o combate à corrupção hoje, ou a reforma agrária em 64) sejam interrompidas em nome da “moralidade”, ou para punir os “ladrões”.
O que me dói é ver gente pobre ou da classe média trabalhadora servir de massa de manobra para estes mesmos grupos que há séculos comandam os fios invisíveis de onde pendem nossos corpos. Não se trata de obstruir a crítica SEVERA aos erros MÚLTIPLOS que este governo cometeu e ainda vai cometer, mas de perceber que as críticas à HONRA só proliferam quando existe algo mais do que elementos de macroeconomia e políticas estruturais a combater. Nesse caso, o interesse é barrar as investigações, impedir que se chegue ao Cunha, ao Aécio, ao Nardes, à RBS, à cúpula do PP, ao PMDB (o mais corrupto de todos). É essa a luta para derrubar Dilma, que acaba sendo orquestrada pelos tolos da vez, pessoas que acham que atacando o bisturi poderão melhorar o abscesso.
Uma coisa fica clara: quando o desejo é maior do que os fatos a nossa mente troca a realidade para que ela se adapte ao que desejamos. Isso vale para os simples mortais em seu ofício diário tanto quanto para as grandes personalidades.
De tanto querermos acreditar que o Zé Dirceu era culpado que ele foi para a cadeia sem provas, fato esse assumido pelos próprios ministro do supremo. As manobras jurídicas e filosóficas para isso são até cômicas, não fossem uma tragédia para a justiça do Brasil.
Da mesma forma Lula e Dilma foram bombardeados por muitos anos com todo tipo de golpismo e insinuações. Quando Lula não parecia alcançável o alvo era seu filho, transformado em dono de fazendas, jatinhos, empresas (Friboi) e tantas outras. Nada foi provado contra nenhum deles em anos de investigação. NADA. Nenhuma ligação telefônica, cheque, recado, conta em Cayman, conta na Suíça, Fiat Elba ou reforma nos jardins. Porque então tanta perseguição?
Mesmo assim são os “petralhas“, corruptos, Luladrão, Dilmanta e tantas outras acusações. Hoje somos “surpreendidos” pela evidência de contas na Suíça do presidente da câmara, mas o “ruidoso silêncio das panelas” se escutou por todo o país. Onde estão as capas das revistas, as manchetes garrafais, a indignação do povo nas ruas?
Não. .. não era contra contra o roubo ou contra a corrupção. Era contra quem representava o homem comum, o pobre, o favelado. Isso é que é insuportável. No futuro esse período da política com a emergência dos BBB – Bala, Boi e Bíblia – será tratado como as trevas da consciência nacional.
Esta semana fui surpreendido com declarações de alguns elementos da “direita raivosa” de que o menino que esfaqueou o médico no Rio de Janeiro morava em uma casa oferecida por um plano governamental (Minha Casa, Minha Vida) e que estudava em uma escola pública, o que demonstrava que ele não era o “santinho” que os “petralhas” tentavam nos mostrar. Em outras palavras, ele não era o resultado de uma sociedade injusta: ele era mau por natureza.
Bem, as comparações eram esdrúxulas e sem sentido, como é típico de uma parcela raivosa e violenta da direita que acabou de sair do armário, aquela que curte um coturno e uma falta de liberdade… para os outros, claro (pobres, vagabundos, escurinhos, favelados…). Ele não é, por certo, nenhum santo. Ele é apenas o resultado de um modelo que aposta nas diferenças e que segrega boa parte de um povo impedindo-o de desenvolver suas potencialidades
Ah, e não é toda a direita que é assim, por certo, mas não é difícil ver a diferença. A direita consciente nunca chama o PT e seus aficionados de “a corja”, “os outros”, “canalhas”, etc. A direita consciente pode fazer críticas DURAS e até VIOLENTAS, mas contra os programas e as ideologias, e não contra as pessoas, como se a essência moral e ética dos atuais governantes diferisse significativamente dos anteriores. Os homens e mulheres da direita racional são democratas, abominam a intervenção política das forças armadas, aceitam a derrota nas eleições, criticam as medidas políticas e econômicas com argumentos (e não com palavras de ordem), deploram o golpismo da Veja e de boa parte da mídia, não se aliam às mentiras como forma de ludibriar o povo e pensam em conquistar novamente o poder através do VOTO. Para essas pessoas todo o meu respeito e admiração pois, mesmo que estejamos afastados ideologicamente, estamos eticamente próximos.
Esta história em quadrinhos é relevante para mostrar, de uma forma artística, onde está a “diferença” entre os desvalidos e nós, que defendemos a meritocracia sem nos darmos conta do oceano de privilégios (muitos deles pouco visíveis) onde flutuamos diariamente. Quando ressaltamos nossas qualidades e virtudes esquecemos de observar a quantidade de benefícios que recebemos durante toda a vida, já que nossa memória seletiva os obstrui em nome de uma autoimagem eternamente positiva.
Eu, reconhecendo que nasci em berço de ouro (onde o dinheiro era o artigo de menor valor), surfando nas ondas da opulência afetiva, ética, amorosa, educacional que gratuitamente recebi da vida, me sinto envergonhado quando meus colegas da classe média fecham os olhos para os benefícios inquestionáveis que receberam desde que nasceram.
Caso aportasse uma comitiva de americanos no Brasil dizendo: “Nós sabemos como resolver o problema de vocês. Deixem tudo conosco. Temos técnicos formados em Harvard, em Yale e muitas outras universidades, e sabemos exatamente o que fazer. Temos o conhecimento, o dinheiro, as condições e a experiência. Abram alas, nós vamos consertar o Brasil“…
Só conheço uma pessoa suficientemente americanófila capaz de aceitar essa proposta, mas não declinarei seu nome aqui…
A pergunta que caberia, em nome da autonomia e da liberdade é : “Como assim, cara pálida? Quem são vocês para saber o que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para saber como se expressa o preconceito contra os nordestinos, por exemplo? Como vocês sabem como se expressa a questão indígena? Como podem saber como é a posição da mulher, do negro, do gay ou de qualquer outro grupo nesse contexto especial, limitado geograficamente e temporalmente, que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para falar em nome de um povo que conhecem apenas por revistas, fotografias e fotos do Carnaval?“
Não, vocês podem saber muitas coisas, mas não como nós que “sofremos e gozamos” a brasilidade todos os dias…
O mesmo pode ser dito para estes grupos. Se é possível opinar e tecer comentários – até mesmo oferecer apoio – o PROTAGONISMO precisa ser de quem tem legitimidade para conduzir a questão. Os gays, as mulheres, os negros, os brasileiros…
Não existe uma justiça essencial e natural; ela é uma construção humana, dinâmica e constituída pelo tensionamento das forças políticas. O que é legal e aparentemente justo hoje pode não o ser amanhã. O que é ilegal também. As forças conservadoras patriarcais reagem às mudanças que observamos na realidade do parto, e respondem com a mesma intensidade com que se sentem pressionados ou ameaçados. O rechaço ao direito de fazer escolhas informadas – entre elas o local de parto – desnuda o desconforto da corporação com qualquer discurso ou ação por parte das mulheres que desafie uma onipotência duramente conquistada. Somente a pressão das mulheres pelos seus direitos e por sua autonomia poderá fazer a mudança na forma como a sociedade julga estas ações.
Seguindo o pensamento de Ivan Illich sobre o significado último das intervenções na saúde das populações, eu pergunto: quem é capaz de causar mais impacto positivo no nível de saúde global, uma nova estatina (medicamento para o colesterol, que gerará bilhões em lucro para um laboratório inglês, americano ou suíço) ou um simples sapato que protegerá os pés das crianças africanas? Sabemos que esta ação provavelmente não vai gerar lucro algum para o seus inventores, mas prevenirá milhares de mortes absolutamente evitáveis através de uma intervenção civilizatória simples (proteger os pés), de baixo custo e fácil de implementar.
Ainda recordo de uma frase que li no livro “A Nêmesis da Medicina” do mesmo Ivan Illich em que ele dizia “Vidros nas janelas e cuecas limpas fizeram mais pela saúde do que todas as drogas e tratamentos no mundo“. Quando analisamos os impactos que as ações de saúde promovem no sujeito (e também numa determinada cultura) muitas vezes ficamos perplexos em como são limitados os resultados “drogais” e como são relevantes as alterações positivas decorrentes de mudanças estruturais. Se isso não serve para desconsiderar a importância de alguns medicamentos e seu uso, também deve nos mostrar que o impacto deles sobre a saúde é muito pequeno e circunscrito.
Um erro plantado na cultura ocidental contemporânea é a crença de que as guerras entre israelenses e palestinos ou entre britânicos e nacionalistas na Irlanda tem alguma conotação religiosa. A religião é apenas uma coincidência. Da mesma forma que brancos e negros poderiam ter religiões diferentes na África do Sul, ela nunca foi a origem do Apartheid. Israel domina o território palestino, mas isso nada tem a ver com a religião, até porque os ideólogos sionistas eram declaradamente ateus. O mesmo se dá com as lutas entre “católicos” e “protestantes” na Irlanda, que nada mais são que uma forma de desviar a atenção sobre o colonialismo britânico e colocar sobre a disputa uma conotação religiosa e de intolerância com as crenças alheias.