Alguém escreveu uma frase a respeito de um tema que sempre me interessou, e ultimamente de uma forma mais intensa e profunda. Disse ela:
“Assim, se você opta por acreditar que um lado é bom e o outro é mau, que só há dois extremos, que só existem dois lados, então você automaticamente exclui todas as infinitas nuances e possibilidades com que a vida nos contempla.”
Concordei de pronto com a manifestação de minha amiga. Entretanto, alguns minutos depois outra amiga escreveu um post declarando que em algumas circunstâncias – em especial na necessidade de “sobrevivência” – é importante “não perdoar“, e adequado “não compreender“. Não posso reproduzir o que ela escreveu, mas a tese central era a de que em momentos especiais temos que fazer escolhas e optar por um lado, colocando o outro lado como inimigo e aceitando “não compreendê-lo“.
Achei confusa a manifestação e respondi indagando se eu tinha entendido de forma correta, mas acabei sendo bloqueado, provavelmente por questões passadas. Mas o que eu queria dizer, e acho que isso sim tem importância, é que a visão compreensiva sobre a posição do outro, e a possibilidade de analisar um fenômeno por diferentes perspectivas, permite fugir do reducionismo maniqueísta e injusto no qual frequentemente incorremos. A busca de uma “paralaxe”, o olhar múltiplo sobre o mesmo objeto, enriquece nossa compreensão sobre qualquer fenômeno. “Para combater o racismo e o nazismo é preciso entender porque eles foram (e são) tão populares…”, disse eu.
Simplesmente eleger os nazistas, xenófobos, homofóbicos, racistas e coxinhas (mas poderiam ser os esquerdopatas, ok) como inimigos, desreconhecendo as razões que os motivam, impede que possamos defender nossas ideias com determinação e abrangência. Não é necessário concordar com tais atitudes, por certo, mas perceber que elas são expressões legítimas do pensamento humano é importante até para que um dia possam, finalmente, desaparecer.
Eu respondi à amiga: “Mas, abrir mão de uma visão imparcial e abrangente em nome do quê? Compreendo que se deva tomar partido e fazer escolhas, mas daí a reduzir o adversário à sua condição de “inimigo” e aceitar “não compreendê-lo” como uma desculpa para não aceitar suas razões é demais para mim. Não entender as razões do outro pode ser considerado certo? Por quê? Pois é exatamente no momento da “sobrevivência” que essa compreensão se torna uma ferramenta fundamental! Revoltar-se é legítimo e necessário, até no que diz respeito à violência obstétrica, entre outras mazelas. Mas “não entender” as razões daqueles que perpetuam estas atitudes seria o mais inaceitável dos erros.”
Olhar para o outro como igual, na infinitude de diferenças que a vida nos contempla, é tarefa árdua. Entretanto, sem esta mirada respeitosa com a experiência alheia jamais poderemos absorver as verdades que o adversário graciosamente nos propicia com a oferta do contraditório.
Comentário sobre a Matéria da Revista Crescer com o título de “Tudo o que acontece nos primeiros 60 minutos de vida do seu bebê“
Meu nome é Ricardo e sou médico obstetra. Infelizmente virou rotina que empresas jornalísticas escrevam matérias sobre parto e nascimento baseadas em mitologias, informações enviesadas e protocolos anacrônicos. A matéria acima não foge à regra, e esta poderia ser categorizada entre as matérias mais desatualizadas e fracas sobre parto e nascimentos dos últimos tempos. Certamente que o(a) profissional que a assina colocará a responsabilidade nos entrevistados, mas isso não o(a) exime de culpa. Não se admite mais TANTA desinformação e tantos equívocos. Seria enfadonho listar todos os erros graves na reportagem, mas atentem apenas para um deles: as episiotomias são procedimentos agressivos e injustificados, comprovadamente INÚTEIS para mães e bebês desde os trabalhos clássicos de 1987 (Thacker & Banta). Já se passaram 27 anos e existem jornalistas que ainda disseminam este tipo de violência obstétrica!
Para haver uma imprensa responsável, ética e correta é preciso que este tipo de informação venha de mais de uma fonte, para evitar que um entrevistado com carência de boas informações e com condutas ultrapassadas e erradas dissemine conceitos que não tem mais espaço na medicina moderna. Os erros sobre o corte do cordão e aspiração de líquido amniótico são constrangedores. Para um leitor desavisado, mas com conhecimento na área da saúde, pareceria estar abrindo uma revista “Seleções do Readers’s Digest” de 1955, tamanha a desatualização de conceitos. Numa época em que se fala incessantemente de Violência Obstétrica, uma matéria como essa serve de exemplo de como o (mau) jornalismo pode ser violento com a inteligência dos seus leitores.
É importante lembrar os 3 pilares que sustentam a humanização do nascimento:
Protagonismo restituído à mulher, para que ela deixe de ser “tutelada” pelo sistema de saúde, e possa ser a condutora de seu próprio destino;
Parto como evento humano, e não como procedimento médico (mesmo que a visão médica seja uma das importantes formas e perspectivas para avaliar o parto e o nascimento) e…
Vinculação visceral com a MBE (Medicina Baseada em Evidências).
Na matéria da Revista Crescer a mulher não aparece como protagonista, mas como um ser passivo sobre a qual um grande número de procedimentos desnecessários e perigosos serão executados, em sua grande maioria sem a autorização expressa por parte da mulher para a sua realização. As descrições dos procedimentos partem de uma visão absolutamente médica, sem levar em consideração os aspectos emocionais da mãe (afastada de seu filho imediatamente depois do parto para ser “secado” – ???, tendo feito uma episiotomia, mas “sem machucar a mãe” – ?????), psicológicos, sociais, culturais, antropológicos, econômicos e espirituais. E, de forma conclusiva e marcante, as “recomendações” não se baseiam em ciência, mas em mitos, procedimentos antigos, exercício de poder e rituais sem a devida comprovação científica de sua validade. Isso precisa acabar, para que possamos atingir em um futuro próximo a condição de “país civilizado” que, pelo menos no que tange à garantia da integridade física de mães e bebês, ainda não alcançamos.
Modernizar a atenção ao parto é uma URGÊNCIA na saúde brasileira.
“O pior da violência é quando não é reconhecida como tal. É quando ela se mistura às normas e rotinas, procedimentos e protocolos, sendo institucionalizada e banalizada, a tal ponto que fica camuflada no cenário da atenção. Invisível ela cria raízes e se consolida na paisagem. Quando alguém, por fim, desperta e reclama, sempre aparece um outro que, amortecido pela mesmice das condutas repetitivas exclama: Mas como? Sempre fizemos assim e nunca ninguém reclamou“.
Acredite… quando um grupo de antropólogos e feministas aportou em terras de África para questionar a clitoridectomia em meninas adolescentes como prática ritualística e institucionalizada esta foi a EXATA manifestação do líder tribal. “Como assim “violento”? Esse ritual é realizado há milênios e jamais alguém havia reclamado!!”.
Para ter direitos é necessário conhecê-los. Para viver em um mundo melhor é preciso primeiro concebê-lo, depois desejá-lo e por fim construí-lo.”
Participei de um debate há alguns dias – e que terminou ontem – sobre uma placa colocada no portão da frente de uma clínica veterinária a qual considerei abusivamente agressiva para as pessoas. Tratava-se de um aviso sarcástico e ameaçante para aqueles que deixavam animais na porta (ou abandonavam) para serem atendidos pela profissional que lá trabalha. Não vou repetir os dizeres, mas eram agressivos, uma espécie de xingamento misturado com uma ameaça fictícia.
O debate seguiu com algumas pessoas legitimamente clamando que o abuso contra pobres e indefesos animais precisaria de um contraponto violento como aquele, e que seria um absurdo criminalizar a atitude de uma médica veterinária, a qual estava movida por uma genuína indignação com os maus tratos dados aos animais. Sua “fúria”, portanto, se justificava pelo somatório de frustraçôes e pelo excesso de abusos que se acumulavam no que diz respeito à forma como são tratados os animais domésticos.
Acabei, como de costume, escrevendo muito sobre o tema a ponto de me exceder um pouco, para o quê peço desculpas aos debatedores. Por outro lado, creio que a minha ideia – mesmo reconhecendo que a forma como a transmito seja excessiva por vezes – ainda tem valor. Minha tese é de que “os fins não justificam os meios”, e jamais construiremos uma sociedade mais digna e respeitosa com violências, agressões e respostas desmedidas. Acredito que a veterinária tinha razões para se indignar com a crueldade que testemunhava todos os dias, mas sua reação foi desrespeitosa, violenta e totalmente desproporcional.
Ok, mas qual a relação desta história com a questão do parto no Brasil? Creio que esta discussão me tocou porque é exatamente este o estado atual do debate sobre humanização do nascimento no Brasil, e sobre isso já tratei algumas vezes.
Passado o furor inicial deste movimento social, que se caracterizava pela profunda indignação com a forma como as mulheres são tratadas no momento de parir, e com acusações de violências aparecendo por todo o lado, é importante que criemos espaço para o que chamo de “agenda positiva”.
Por este termo, que não é novo e sequer me pertence, me refiro a um movimento que vi acontecer há alguns anos conversando com Robbie Davis-Floyd. Dizia ela estar um pouco cansada das acusações contra o modelo patriarcal, machista, agressivo e acusatório existente em seu país e que partiam dos membros e das instituições ligadas à humanização do nascimento nos Estados Unidos. Havia muita tristeza no ar, um sentimento de raiva surda, que se expressava nos textos, livros, crônicas e discursos das ativistas. Era tempo de fazer uma virada no foco, “mudar o lado do disco”, e mostrar uma “agenda de positividade” ao invés de apontar dedos para o que existia (e ainda existe) de negatividade no cenário do nascimento.
Dessa ideia surgiu seu último livro “Birth Models that Work” (Modelos de Parto que Funcionam) em que ela lista experiências positivas na atenção ao parto no mundo, falando das coisas que ela admira, que dão certo e que, em última análise, “funcionam” no terreno da assistência às mães e bebês. O livro foi um sucesso, e continua inspirando ativistas no mundo inteiro a construir algo de positivo para a assistência mais humanizada e centrada nas necessidades da mulher, da família, comunidade e sociedade como um todo.
É assim que eu vejo o futuro da assistência ao parto no Brasil. Reconheço a importância dos esforços pela erradicação da violência institucional que estão ocorrendo no Brasil, a força das ONGs de proteção à mulher gestante, a importância de levar adiante as queixas de maus tratos das mulheres em unidades de saúde e a premência de escutar as mulheres, para que as suas vozes sejam levadas em consideração e não caiam no vazio. Chega de indiferença contra o arbítrio e a violência. Chega de agressões inaceitáveis contra a mulher em seu momento de maior fragilidade.
Entretanto, essa é uma parte apenas deste movimento social, e não pode ser a cara da humanização. Não podemos nos tornar Torquemadas do parto humanizado, mandando para a fogueira aqueles que ainda não foram tocados pelas teses do nascimento com amor. Se nos posicionamos contrários à violência temos que dar o exemplo e tratar esta questão de forma compreensiva, amorosa e superior. Se existe espaço para a justiça, existe um ainda maior para a compreensão das dificuldades em se adaptar a um novo ordenamento social, que jamais se processa da noite para o dia.
Nosso discurso deve ser em torno do que amamos e nos apaixona, e não centrado na indignação e no rancor. Não podemos fazer do nascimento humanizado uma bandeira de vingança e ódio, mas de lenta sedução para os nossos pressupostos. Como dizia meu colega Max, “Precisamos fazer do parto um momento tão gratificante e belo que a escolha por uma cesariana será a mais tola das decisões”.
Precisamos falar mais da beleza do nascimento em paz, e menos do terror de parir de forma violenta, entendendo que “falar menos” não significa calar-se. Mostrar o erro também faz parte das nossas obrigações como ativistas, mas esta ação não pode ser mais evidente e clara do que apontar caminhos para uma atenção gratificante, respeitosa e digna para todas as mulheres.
Uma mensagem enviada para mim sobre um caso de violência obstétrica, dessas que normalmente passam desapercebidas por nós, mas que deixam marcas profundas na nossa existência. O relato abaixo ocorreu na cidade de Botucatu – SP
Ric,
Eu demorei a entender a dimensão da violência que sofri no meu parto.Foi tão difícil convencer o marido de que a presença dele no nascimento do Pedro era importante…. ele se convenceu, se empolgou…
A começar eu fiquei de pé no corredor frio do hospital, onde o único lugar que eu tinha pra me apoiar era o meu marido e o o bebedouro (que foi onde fiquei). Enquanto isso ouvia as enfermeiras me chamarem de fresca, que aquilo ali estava só começando, que eu só ia parir no dia seguinte e olhe lá (!!!). Bem, só pra calar a boca delas, eu pari em 2 horas. Em segundo lugar fui examinada por um residente que me mandou subir na escadinha e deitar na maca, com todas as dores das contrações (não, ele não podia abrir mão daquilo, eram ordens da professora). Depois ela quis demonstrar como se estourava a bolsa e chamou “todo mundo” pra ver (os residentes, eram bem uns 10 – segundo meu marido eram mais de 10 pessoas acompanhando… claro, meu marido foi convocado a sair da sala, ficou constrangido de me ver naquela situação, com aquele monte de estudantes, todos da minha idade, alguns conhecidos dele, de vista, pois ele fazia mestrado na farmacologia e tinha muito contato com os estudantes de medicina, inclusive nas festinhas). Nesse momento eu me senti estuprada, pois eu gritava (não conseguia falar de outra forma) que não era pra estourar, que meu irmão havia me dito que não era pra estourar (pois ele é GO e sabia que podia ocasionar um prolapso de cordão). Ela me ignorou, simplesmente, estourou a bolsa com ar superior (pois quando ela me perguntou o porque não estourar, eu não tive argumentos, nem força pra argumentar) e continuou falando com os alunos.
Dali tive que me levantar pra ir pra sala de cirurgia, andando semi nua pelo corredor, toda ensanguentada. Dei de cara com o meu marido, que já queria bater em todo mundo porque estava impedido de entrar. Eu fiz sinal pra ele ficar quieto, pois no momento já mal conseguia respirar. Já não conseguia raciocinar…
Obedeci, simplesmente, tinha medo de que tudo ficasse pior e que, por vingança me fizessem uma cesárea, pois quando me disseram que eu iria pra sala de cirurgia e eu gritei que “não, eu quero parto normal”, percebi que uma desobediência poderia ser determinante ali. Subi novamente na escadinha e me deitei na mesa de cirurgia. Me entreguei, pensando na frase clássica “se o estupro é inevitável, relaxa e goza”. As enfermeiras colocaram as minhas pernas nos estribos, enquanto a doutora descrevia o meu quadro pros estudantes. Fechei os olhos, pois não queria ver a cara de ninguém, estava frustrada já antes de parir. Senti que o bebê (que antes eu sentia que estava saindo) já não estava saindo mais… a força que eu sentia antes, do expulsivo, tinha diminuído. Me mandaram segurar naqueles ferros e fazer força, muita força… “Vai mãezinha, que se não parir em 15 minutos, vai ter que ser cesárea e você não quer, não é mesmo?”. Pra “ajudar”, subiu na minha barriga e empurrou. A médica bem boazinha, “olha, tá difícil de sair, vou fazer um cortezinho pra ajudar” (que me rendeu 7 pontos). Nesse momento ela falou que ia colocar o fórceps (pros alunos), mas depois ela desistiu, disse que já estava saindo. E nasceu meu filho, com 2,980Kg. Vi que levaram ele pra uma pia (depois não vi mais, só as costas das enfermeiras, e ele chorando sem parar). O residente fez os pontos errados, a professora deu bronca, mandou tirar e fazer de novo. Eu estava exausta, mas mesmo assim quis me levantar e ir embora. Não deixaram, falaram que eu ia cair, pois estava com hemorragia.
Depois de alguns minutos trouxeram meu filho todo embrulhadinho. Eu queria ver as mãozinhas, os pezinhos…. mas lá estava ele embrulhado, de luvinha, touquinha, meinha. Me mostraram ele como mostram um bebê pra uma mãe que acabou de passar por uma cirurgia. Me deram a ordem: “beija ele, mãe, nem parece que está feliz!”E eu não estava mesmo. Estava triste, chateada, magoada e confesso que rejeitei meu filho naquele primeiro minuto. Eu que o queria tanto já não o queria mais. Levaram ele embora pra incubadora. Eu queria ver meu marido… chorar e dizer que aquele não era o parto da lagoa azul, como eu imaginava… Pedi meu marido, ele veio. Perguntei onde estava o meu filho, ele disse que na incubadora, que ele era lindo e que ele ia pra lá que não queria perder ele de vista. Saiu.
Enquanto isso me colocaram em uma maca e me levaram pra enfermaria. Pedi pra trazer meu filho, que queria ficar com ele. A enfermeira muito sensível disse que só em duas horas, “agora você vai dormir, porque vai passar o resto da vida sem dormir!”Apesar de ter passado a noite inteira em claro, com dores, levantando pra ir ao banheiro, vomitando… eu não consegui dormir (meu pequeno havia nascido às 9h da manhã). Esperei ele chegar. Quando ele chegou dormia, não acordava, só dormia… Pensei, “meu filho é um anjo, só dorme”…
Acordou, mamou mal. Dormiu no peito sem mamar direito. Começou a perder peso, teve icterícia. Vez e outra vinha um pediatra, levava ele, pesava e voltava dizendo que tinha dado complemento porque ele estava perdendo peso. Fiquei 5 dias no hospital. As enfermeiras disseram que era pra eu amamentar de 1 em 1 hora, senão ia ter que ficar mais tempo ainda no hospital. Eu passei todos aqueles dias e muitos, muitos outros acordando de 1 em 1 hora, dia e noite (com despertador do lado), pra enfiar o peito na boca do menino e segurar (ele não fazia questão de mamar – tbém, com soro glicosado na veia e NAN….), quando ele dormia eu o acordava mexendo no queixo, na boca… de medo dele perder peso e ter que ir pro hospital.
Meu marido indignado, queria que eu fosse pra casa. Nem eu, nem ele imaginávamos que aquele momento mágico de estar juntinho com nosso bebê recém nascido se transformaria nisso.Quando cheguei em casa tivemos logo uma briga. Ele chorou falando que não admitia, que aquele monte de estudantes tinha visto o filho dele nascer e ele tinha sido proibido de entrar na sala de parto. Que todos eles tinham visto a mulher dele com as pernas abertas, como ele ia encarar eles os encontrasse na faculdade? O detalhe disso tudo era: marido muito ciumento, muito possessivo. O ciúme dele se transformava em violência. E esse ciúme ficou ainda mais exacerbado depois do parto.
O parto, que poderia ter sido um momento de respeito e de aproximação acabou se tornando um problema nas nossas vidas. Qual foi o grau de contribuição desse evento pra nossa separação? Eu não sei… mas é certo que contribuiu.Não posso deixar de me lembrar desse parto como um evento doloroso. Não posso deixar de culpá-lo por muitos eventos que se sucederam. Quem pode saber se o nascimento do meu primeiro filho tivesse sido diferente, será que não estaríamos juntos até hoje? Se éramos tão apaixonados? Se fizemos um filho com tanto amor? Eu prefiro não pensar e levar a vida adiante. Hoje tenho outro marido, outro filho e mais um pra nascer.
Enfim… não adianta chorar o leite derramado. Mas eu gostaria muito, mas muito mesmo de dar uma resposta à essa GO (que sequer sei o nome, mas ainda vou saber!). Se houvesse uma lei que punisse naquele momento eu a teria denunciado, sem a menor sombra de dúvidas. Ela foi totalmente desrespeitosa, acabou com o meu momento, do meu marido e do meu filho.Nos marcou pra sempre. Eu nunca vou conseguir não chorar esse parto.
M* (que atualmente não consegue mesmo lembrar desse parto sem chorar)
Nos últimos dias fomos assaltados por uma imagem que até poderia ser chocante e agressiva não fosse a televisão a nos escandalizar todos os dias e banalizar os abusos. Entretanto, tivesse acontecido há alguns anos e isso seria intolerável para a moral e os bons costumes. Na foto que circulou pela Internet, um conhecido dramaturgo brasileiro (apesar do nome estrangeiro) coloca as mãos por debaixo do vestido exíguo de uma – aparentemente – constrangida apresentadora que participava de um programa de televisão. A cena é tão grosseira que até parece uma montagem previamente combinada, tamanha a liberalidade com que o artista se desvencilha das mãos da modelo e tenta alcançar as peças mais íntimas do seu vestuário.
Tudo é permitido na cena contemporânea. Para alcançar o sucesso e a fama parece que o limite tornou-se obscuro e esfumaçado. Numa sociedade de “ninguéns” um alguém que retira despudoradamente a calcinha de uma modelo parece alcançar uma merecida notoriedade. A fotografia bizarra chamou a atenção da mídia e de inúmeros articulistas, das feministas aos cronistas de cotidiano, todos condenando a ação violenta e grosseira levada a efeito durante a sessão de autógrafos do citado artista.
Por outro lado, muito se falou sobre o descaramento e a permissividade do tal ato, e pouco se falou do terreno fértil que a cultura contemporânea cria para esta ação. Se a atitude do cabeludo artista é deplorável, e tem sido por todos condenada, resta a pergunta que não quer calar: porque é tão fácil acessar o corpo de uma mulher?
Difícil responder, mas eu temo que esta questão fique restrita à discussão da exposição excessiva do corpo e das formas de uma mulher desejável, e das consequências que este oferecimento parece produzir nos homens. É certo que a provocação erótica de uma mulher que vende seus atributos físicos para o uso da fantasia alheia não significa, em hipótese alguma, a liberação de acesso à sua intimidade. Se a atitude agressivamente erótica dela pode receber alguma crítica de setores mais moralistas da sociedade, não vejo possibilidade de aceitar qualquer invasão do sagrado território de seu corpo com a justificativa de que “ao vestir-se assim estava autorizando o abuso”. Chega desse tipo de discurso, pois que ele está velho demais para continuar sendo usado.
Entretanto, eu gostaria de falar de outros abusos contra o corpo das mulheres. Há mais neste abuso do que simplesmente uma mão boba explorando uma calcinha, e acho que é oportuno que abordemos esta questão de frente. Para mim, que milito na área da humanização do nascimento, o “levantar de saias” deste senhor é uma agressão menor se comparada aos abusos diários e repetidos contra as mulheres perpetrados por uma atenção ao parto que viola a segurança de seus corpos.
O índice de cesarianas no Brasil chegou a números inaceitáveis. Mais da metade das mulheres deste país é submetida a uma grande cirurgia para a extração de bebês, muitos deles antes de estarem minimamente adaptados à vida extrauterina. As taxas de prematuridade explodiram no país, com consequências que podem se alastrar por toda a vida deste ser que está nascendo. Nossa invasão irrefletida ocorre à despeito de milhões de anos de processo adaptativo que capacitaram as mulheres para um nascimento fisiológico. Centenas de estudos e pesquisas abrangentes já foram realizados sobre esta questão e todos confirmam que a cesariana é muito mais perigosa e danosa para a segurança de ambos, mãe e bebê. Mesmo assim, e apesar das comprovações do risco aumentado, a incidência continua aumentando. Por quê? Qual a razão para continuarmos aceitando tanto abuso?
Se nos escandalizamos com a atitude obscena, despudorada e invasiva realizada contra a modelo de pernas saradas, por que não ocorre o mesmo com as intervenções abusivas nos corpos roliços e lustrosos de grávidas, submetidas diariamente – e aos milhares – a procedimentos invasivos e perigosos? Mais ainda: Se consideramos inaceitável que o ato deste artista seja esquecido, e considerado apenas um “arroubo de liberalidade em uma sociedade histérica”, ou quem sabe “uma brincadeira inconsequente de uma mídia para idiotas”, porque continuamos a fechar os olhos para a violência de corpos retalhados sem necessidade para satisfazer os desejos de controle e poder sobre as gestantes e seus corpos? Porque não produzimos em nós a mesma sensação de enojamento que o abuso na moça bonita produziu?
Minha resposta não é que os homens e as mulheres ainda se calam, ainda se fecham. Não há vozes suficientes para fazer a indignação das redes sociais virar um clamor por respeito, verdadeiro e eficiente. Os mesmos corpos que são vendidos ao lado de cervejas não conseguem se mobilizar para exigir que a inviolabilidade do corpo de uma mulher seja um fato social.
Por enquanto só escutamos ruídos baixos, ranger de dentes, lágrimas contidas e indignações sussurradas. O respeito à mulher precisa ir para a rua, para os parlamentos, para os centros obstétricos e para o ouvido das meninas, para que elas cresçam com a consciência de que o corpo que carregam por toda uma vida é um patrimônio de valor, e que deve ser respeitado.
Enquanto as mulheres permanecerem em silêncio todos os tipos de abusos serão cometidos. Levantar o vestido de uma mulher em público, abrir seu ventre sem justificativa ou impedir que seu marido esteja presente no parto são abusos que tem a mesma origem: o silêncio, a mortificação muda, a apatia vitimista e a condescendência com uma ordem cultural que avilta o feminino e expropria a mulher de seu próprio corpo. Lutar pela liberdade das mulheres é um dever dos cidadãos, homens e mulheres, que desejam uma sociedade baseada na fraternidade, na justiça e na liberdade.
Nesse momento de dor e sofrimento, em que estamos consternados e tristes pela tragédia que vitimou tantos jovens em Santa Maria, eu fico feliz em escutar minha filha falando da sua especial maneira de analisar o que ocorreu. Infelizmente muitas pessoas gastam seu tempo no justiciamento, na raiva, no ódio e com pensamentos de vingança. O que aconteceu para os proprietários dessa casa noturna, assim como para o jovem da banda (cujos nomes eu não quero saber), TAMBÉM foi uma tragédia, e nem os mais empedernidos e raivosos fascistas acreditam que eles, por algum momento, imaginavam que isso pudesse ocorrer, e muito menos que tinham o desejo de carregar o peso de tantas mortes pelo resto de suas existências. Mesmo reconhecendo como fundamental a apuração de TODOS os fatos relevantes deste caso, o que inclui a adequada punição dos culpados, o desejo de linchamento que eu percebo em muitas pessoas (inclusive jornalistas) é lamentável.
Pior ainda: quanto mais tentamos colocar as culpas nas pessoas (pois tal atitude parece nos confortar de alguma estranha forma) menos lições positivas tiramos do caso. A tragédia de Santa Maria precisa ser vista como um marco, a partir do qual as condições que lá estavam presentes não se repitam. Enquanto Fulano e Sicrano forem os culpados não se torna necessário olhar para dentro de nós e descobrir o que precisa ser mudado, o que está equivocado, inclusive nas nossas próprias atitudes.
Bebel me disse: “Perdemos tempo demais em atitudes ruins, pensamentos raivosos, disseminando as “energias negativas” do ódio, rancor e mágoa. Não vejo razão em odiar alguém em meio a tanta dor, e estes sentimentos jamais construíram algo de bom para a humanidade. Os responsáveis devem ser punidos pela lei, mas apenas para que suas culpas (onde houver) sejam reconhecidas e nos ajudem a evitar mais desastres, e não pelo prazer de ver mais gente sofrendo.“
Nenhum ódio é capaz de trazer essas vidas de volta. Nenhum linchamento, físico ou moral, poderá nos ajudar. Espero que, entre as lições que a tragédia possa nos dar, o perdão e a compreensão possam estar presentes, tanto quanto a necessária e indispensável justiça para aqueles que cometeram erros.
A civilização poderá usar esse momento triste e chocante como elemento transformador. Eu prefiro acreditar que a indignação gerada pela morte brutal e inaceitável de uma menina em Nova Delhi, na Índia, venha a se transformar no estopim de uma “revolução para o bem”. Para tanto, me parece importante deixar de lado os sentimentos de ódio e vingança, olhar para frente e tentar propor soluções em todos os níveis (educacional, jurídico, político, social, policial, etc.) para que ocorra uma verdadeira e profunda a mudança nos valores daquele povo. O linchamento dos criminosos pode até satisfazer algumas almas que se deliciam com o sentimento de revanche, aquelas que ainda acreditam na lei de Talião. Entretanto, o “olho-por-olho” não é capaz de construir a sociedade que desejamos. Mesmo que não pareça aceitável negligenciar a necessidade de uma justiça dura, severa e exemplar para este caso, por outro lado nossos olhos precisam se voltar para o amanhã, exatamente porque o caso dessa menina é apenas emblemático, e está longe de ser um “fato isolado”. Mais de 600 estupros já haviam sido denunciados naquela cidade só em 2012.
A morte desta estudante foi apenas mais uma na estatística de violências hediondas produzidas por uma sociedade anestesiada pela impunidade, e que acabou por banalizar tais crimes. Executar meia dúzia de perversos não será a cura para esta doença, a enfermidade do desrespeito com a mulher. Precisamos muito mais do que a simples vingança; é necessário entender as raízes da violência, do machismo, da impunidade e dos abusos de ordem sexual para poder combate-los e prevenir a ocorrência de novas tragédias como a que testemunhamos. Somente com um postura civilizatória e fraterna poderemos fazer desse triste episódio uma lição duradoura para a humanidade.
Sabem qual a sensação que me dá quando eu leio na internet as declarações anônimas de pessoas pedindo os mais diversificados e sofisticados tipos de linchamento contra os assassinos da menina de Nova Delhi? Eu fico com a sensação de que realmente Terêncio tinha razão: “O que é humano não me é estranho”. O sentimento de vingança e justiciamento cego que algumas pessoas colocam na Internet é tão feroz e insano quanto o próprio crime que testemunhamos. É claro, dirão; são apenas “desafogos”, desabafos indignados e não há a “passagem para o ato”. Entretanto, o que nos distancia dessa passagem? É possível que, ao avaliarmos a vida, a infância, as circunstâncias e o contexto desses criminosos poderemos perceber que o ato brutal e inaceitável que cometeram nada mais é do que um elo na cadeia de ações aviltantes de suas vidas. Poderemos perceber que o crime que cometeram é tão somente uma “vingança”, cometida contra uma vítima inocente. Entretanto a “vingança” está atrelada a um passado em que eles próprios também foram vitimizados por uma sociedade cruel e nefasta.
O crime cometido por eles não está tão distante como pensamos de nossa própria realidade. Talvez fôssemos nós a cometê-lo, se nos tivessem oferecido o contexto e as circunstâncias que a eles foram ofertados. Longe de desmerecer a necessária dureza nas sentenças, creio que uma humanidade mais justa precisa olhar para casos assim com uma compreensão que se afasta dos sentimentos mais rasteiros, olhando para o futuro e tentando prevenir outras ocorrências trágicas como essa.
O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.
Vou abrir um espaço para falar o que penso, sem brincadeiras (que, aliás, não apenas curto como estimulo, pois se trata da possibilidade de fugir do politicamente correto). Eu não acredito que exista um clube mais homossexual (em termos de torcida) que outro. Simplesmente não faz sentido. Aliás, se houver algum será o Flamengo, e depois o Corinthians, simplesmente porque detém as maiores torcidas. Simples assim, mas isso não significa que eles sejam percentualmente mais gays que outros. Aqui mesmo nana Internet apareceram fotos de homossexuais (postadas pela torcida adversária, claro) de todas as agremiações; basta procurar por alguns minutos na Internet que se acha.
Olha… eu sou do tempo em que o Grêmio teve uma torcida chamada “Coligay”. Era formada por um grupo de jovens homossexuais que frequentavam uma boate chamada Coliseu. Eu cheguei mesmo a assistir Grenal em que estava esta torcida, e ela era não apenas tolerada, mas até exaltada como um exemplo de diversidade; alegre, divertida, barulhenta e colorida. Havia também outra torcida no Grêmio chamada de “Força Azul” comandada pelo “Careca” que era um notório homossexual. Há relatos que ele praticava felação com os jovens durante os jogos, escondido no meio das bandeiras. Entretanto, mesmo sabendo esse tipo de “viadagem”, isso não nos incomodava ou ofendia: entendíamos como o exercício da liberdade sexual. Olhava quem queria, chegava perto quem tinha curiosidade e entrava na roda quem precisava. Havia, curiosamente, um respeito pela diversidade sexual, algo impensável para os dias de hoje. Mas por quê? O que se modificou na relação que nós temos com esse tipo de atitude? O que houve nos últimos 30 anos que modificou a estrutura da sociedade contemporânea penalizando a atitude homossexual, com as óbvias repercussões nos fenômenos de massa, como o futebol?
Há várias interpretações. A minha é a queda do muro de pedra. Não, nada a ver com o muro de Berlim. É sobre outro muro, do outro lado do mundo. Este muro é igualmente de pedra, chamado de “Stone Wall”, uma famosa boate gay na cidade de Nova York, no início dos anos 70. Uma feroz e desumana batida policial realizada naquele local colocou seus frequentadores diante das câmeras pela prática da “pederastia”. Diante dos televisores dos lares americanos apareceram os “doentes”, os “transviados”, ou “perversos” praticantes de uma doença que parecia se alastrar, colocando em risco a estrutura da família americana. Mas, para o assombro geral, os sujeitos presos e humilhados durante a abordagem policial eram pessoas como nós: pais, jovens, velhos, advogados, avós, médicos, professores, arquitetos. Gente. Pessoas perigosamente parecidas demais conosco, os heterossexuais.
É importante recordar que para nós, nos anos 70, não havia homossexualidade, que só foi inventada nos anos que se seguiram. Havia um distúrbio, uma doença, um desvio e uma aberração biológica e moral chamada “pederastia”. Diante desse nome, dessa marca e desse diagnóstico paradoxalmente sentíamo-nos seguros e protegidos. “Eu não sou homossexual, não tenho essa enfermidade”. A homossexualidade era tratada, curiosamente – e de forma um tanto jocosa – como uma doença contagiosa, num modelo “vampiresco”. Os próprios homossexuais ingenuamente diziam “Ah, você se julga hetero, mas se um dia você “der” nunca mais vai ser o mesmo”. Era folclore, misturado com preconceito e com a ignorância do determinismo de desejo que se aplica à orientação sexual.
Pois a queda de Stone Wall acabou por provocar uma onda de protestos por todos os Estados Unidos, pelos direitos da livre expressão da sexualidade. O início desse movimento pode ser visto no filme MILK, grande obra de Sean Penn. Daquele ponto em diante a homossexualidade passou a ser vista como uma bandeira de luta pela liberdade, contra o moralismo e a favor da autonomia do sujeito sobre seu próprio corpo e seu desejo. A bandeira multicolorida, o orgulho gay, as paradas e as manifestações, assim como o surgimento de grupos em todo o mundo (como o “Nuances” no Brasil) marcam a trajetória de um movimento de resgate da homossexualidade como manifestação legal e legítima de afeto entre as pessoas.
Entretanto, a saída do armário acabaria produzindo um notável movimento de reação. Somente depois do surgimento da homossexualidade é que nós criamos a homofobia. Esse sentimento (que em geral não se expressa de forma organizada, mas como uma posição subjetiva) é derivado do medo de que os sentimentos homossexuais, derivados de nossa configuração sexual primitiva na tríade amorosa primordial, sejam descobertos pelo outro, e expressos como preconceito. A homofobia, portanto, nasce como contraponto à expressão livre da sexualidade na cultura. Ela é a forma como nos defendemos de nossas próprias inseguranças, refugiando-nos num estereótipo “macho” para esconder nossas fragilidades. O homossexual é sempre o outro, assim como na escola nos apressávamos em chamar o colega de “baixinho” antes que alguém pusesse os olhos em nós e visse que nossa altura era igualmente desfavorecida.
Homossexuais são as torcidas adversárias : As Marias, o Gaymio, os Coloridos (moranguinhos), o Gaylo, os Bambis e todos aqueles que não são “nós”, num exorcismo que fala muito mais de nossas inseguranças do que de uma verdadeira preferência sexual do outro. Hoje em dia vemos que os xingamentos de torcida são todos exorcismos sexuais. Os outros são “putos”, são “viados” e “bixas”. Na minha época de criança xingávamos a mãe, foco de nosso amor desmedido e centro da nossa proteção. Tudo mudou: ofendemos o outro por suas preferências supostas, imaginadas e/ou temidas.
Eu achei que seria interessante abordar um fenômeno novo (porque não tem mais do que 30 anos) no futebol: a homofobia. Muito mais do que a defesa ingênua e tutelante que eu as vezes presencio, eu acredito ser mais interessante entender as origens da homofobia em função da conjuntura atual, decorrente dos movimentos de liberação gay. Nessa perspectiva, a homofobia (como manifestação, não como sentimento e nem como prática) é uma consequência dos movimentos GLTB (ou queers, que engloba tudo). Antes da extroversão dessas modalidades de expressão sexual não havia necessidade de expressão homofóbica, pela simples razão de que ela não ameaçava a maioria heterossexual. Bastou os homossexuais se assumirem publicamente, mostrarem seus rostos na rua, para nos apavorarmos com a semelhança (e não com as diferenças) que eles possuem com o mundo dos “normais”.
É isso, exatamente, que gerou a homofobia: a parecença, o fato de eles serem humanos, amarem, odiarem, terem medo e orgulho. Como qualquer um. Portanto, ninguém mais estaria a salvo. Saíram dos armários e do DSM (lista de doenças psiquiátricas), e isso os deixou perigosamente próximos de todos os héteros, os que sustentavam a ideia de família cristã e prolífica. Assim, tornou-se imperioso expurgar a suspeita e colocá-la no outro. Foi essa a razão pela qual os xingamentos homofóbicos se tornaram lugar comum nos estádios, e também na vida das cidades: o medo, pânico de que descubram minhas fragilidades…
Mas sou um otimista inveterado. Eu ainda gostaria de ver de novo uma torcida homossexual no meu clube. Mais ainda: gostaria que a orientação sexual não fizesse diferença alguma para o torcedor, e que as barreiras entre homos e héteros simplesmente ficassem restritas aos leitos e aos corações. Gostaria que os homossexuais gostassem de futebol, se interessassem pelo espetáculo e se apaixonassem pelos gols e vitórias. Gostaria que meu clube não impedisse, através da direção ou da torcida, a livre expressão de amor clubístico pelos grupos homoafetivos. A repressão que qualquer preferência sexual é um mal para a sociedade. Mesmo que eu defenda com unhas e dentes a livre expressão, e o direito à homofobia, eu sonho com uma sociedade livre desses preconceitos, em que a comunhão em torno da alegria do futebol seja o traço de união entre todos que o procuram.