Decidam-se

Se o pai é importante, abandono paterno faz sentido e deve ser combatido, para proteger a criança dessa falta. Todos os esforços devem ser feitos para que os pequenos tenham o direito de conectar-se com o pai, entendendo-se a paternidade como uma função essencial na infância e a relação do pai com seus filhos considerada parte dos seus direitos fundamentais.

Todavia, se o pai é tratado como descartável, desimportante e supérfluo então deixem os homens em paz na sua falta de conexão com os filhos. Cobrem na justiça a pensão e fechem a conta. Se as mulheres são tão autossuficientes assim, então não há razão para se preocupar com os pais e suas ausências.

Em suma: Não dá para cobrar presença paterna e chamar os pais de inúteis ao mesmo tempo.

Nesse debate eu fico com o velhinho de Freiburg, tio Sig: “Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa do que a necessidade de sentir-se protegida por um pai”.

A frase dita pelo pai da psicanálise, expressa um sentimento que supera a lacuna de gerações, mantendo-se relevante muito após a época em que foi expressa. E não esqueçam que o abandono paterno é mais um efeito nocivo do capitalismo.

Pai não é essencial, mas nem mãe é… entretanto, eles são de extrema importância para a construção da estrutura psíquica do sujeito. Outra do Sig: “A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar, enquanto isso, a maior função de um pai é salvar esta criança das garras do amor materno”. Sem essas figuras a criança buscará alhures alguém para lhe ensinar o amor e, mais ainda, alguém que imponha a este amor primitivo seu necessário limite.

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Parto é Pauta

Em uma reunião político-partidária na qual estive envolvido há alguns meses escolhi fazer parte do grupo temático que debateria as questões das mulheres. Minha experiência de quase 40 anos escutando suas queixas, sonhos e alegrias (acreditava eu) poderia ser útil para o debate. Por certo que acabei chamando a atenção por ser o único homem em um círculo composto por duas dezenas de mulheres de várias partes do Brasil, de diferentes etnias e de distintas classes sociais. Mas, como acho que todos temos o direito de cultivar e expor nossas perspectivas sobre qualquer problema social, permaneci sentado aguardando humildemente a oportunidade de me manifestar. Eu temia o que estava para ocorrer, e por isso mesmo estava preparado para desafiar o padrão dos debates. A coordenadora listou, como sugestão, que fossem debatidos três temas essenciais, os quais eu já sabia de antemão que estariam presentes.

1. Trabalho doméstico
2. Descriminalização do aborto
3. Violência contra a mulher

Fácil adivinhar, não? Estes são os três temas mais comuns em todos os debates feministas, e não há como negar sua importância ou relevância. O trabalho doméstico é um ponto nevrálgico da sociedade capitalista ao manter a mulher atrelada a uma rotina de trabalho estafante e não remunerado, condenando-a à dependência econômica e/ou à tripla jornada, sacrificando sua saúde e seu lazer. O debate sobre a dinâmica desse labor é essencial para a emancipação da mulher, a qual jamais ocorrerá sem a conquista de sua independência financeira.

Já o aborto é uma questão de saúde pública mas, anterior a isso, está o direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos e seus destinos. É, portanto, um tema relacionado aos mais básicos direitos humanos reprodutivos e sexuais, pois tem repercussão na saúde e na proteção das mulheres. A luta pelo aborto livre e seguro não pode faltar em nenhum debate que se proponha a proteger socialmente as mulheres e seus filhos.

Por último, a violência doméstica contra a mulher. Triste perceber que esta drama social teve um aumento de significativo durante a tragédia social dos governos Temer/Bolsonaro, mas também em função da pandemia e da crise que a antecedeu. Durante todo ano de 2020, 1.350 mulheres foram vítimas de feminicídio, número 0,7% maior que no ano anterior. O número de chamadas por violência doméstica para o 190 (Polícia Militar) subiu 16,3% e chegou a 694.131 no ano passado. Todavia, a única resposta que temos oferecido a este problema nos últimos anos tem o caráter punitivista da Lei Maria da Penha que jamais solucionou o problema da violência de gênero porque ataca apenas a ponta do iceberg: o resultado social das frustrações acumuladas transformadas em violência. Como todas as ações que apontam para a punição, esta é mais uma medida de resultados pífios; a causa, como sabemos, é a perversidade do capitalismo, porém nos parece mais fácil encarcerar pretos e pobres do que sanar nossa ferida social crônica da iniquidade e da opressão. Finda a apresentação eu sabia que a mesma lacuna desses grupos se repetiria e, por isso mesmo, pedi a palavra em primeiro lugar para que as pessoas que se manifestassem depois de mim pudessem pautar suas falas com o que eu tinha para lhes dizer. Olhei para minhas colegas de causa socialista e disse:

“É provável que a maioria de vocês nunca passe por um aborto. Algumas, espero, nunca serão vítimas de violência de gênero, ao menos por aquelas agressões mais grosseiras. Algumas de vocês talvez tenham companheiros dispostos a dividir tarefas no lar. Entretanto, TODAS vocês estarão marcadas pelo parto, sem exceção. Sim, porque se não tiveram a oportunidade de parir, ou sequer desejam passar por esta experiência, certamente chegaram a este mundo através de um parto. Não é exagero dizer que o nascimento é um dos eventos mais marcantes na vida de homens e mulheres e nele podemos ver claras as marcas do capitalismo e do patriarcado, momento em que seus valores serão impostos e reforçados.

O nascimento de uma criança é o momento onde mais ocorre violência contra a mulher, que vai se manifestar na visão diminutiva e defectiva sobre ela, nas práticas desnecessárias, nos procedimentos anacrônicos, na perda dos seus direitos, no silenciamento da sua voz e na visão depreciativa que a sociedade lança sobre suas capacidades de gestar, parir e maternar com segurança.

Não haverá nenhum avanço nas lutas das mulheres sem que o parto e o nascimento livres tenham um lugar de destaque nas lutas pela dignificação feminina. É preciso que a esquerda se dê conta da importância do parto no discurso de emancipação das mulheres. Como dizia Máximo Gorky “só as mães podem pensar no futuro, porque dão a luz à ele em suas crianças”, mas, digo eu, elas também vão parir e educar os reacionários, e por isso estas mulheres precisam encontrar no parto o momento de revolução de sua autoimagem, tornando clara sua nova trilha de autonomia, valor, coragem e liberdade – na direção do socialismo”.

Surpreendentemente todas as mulheres presentes concordaram que esse deveria ser um tópico que não poderia faltar, e muitas deixaram em suas falas depoimentos pessoais de maus tratos obstétricos, inclusive citando a epidemia de cesarianas como um aspecto dessa violência, que se mascara como cuidado tecnológico, limpo e asséptico, mas que, em verdade, é dominado por uma perspectiva autoritária e alienante, tornando as mulheres prisioneiras de uma lógica intervencionista e despersonalizante. Mais tarde o trabalho do grupo temático foi lido na plenária e fiquei muito orgulhoso de ver a violência obstétrica levada a todos os congressistas como um tema que não deve jamais ser esquecido – como historicamente o foi – nas pautas de luta das mulheres. Por fim, mesmo que ainda testemunhemos violência e abusos na atenção ao parto, não há porque naufragarmos no mar do pessimismo, pois sempre haverá motivos para manter a esperança.

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Mamas?

Aqui está outro debate que coloca algumas ideias culturalmente disseminadas contra a parede e exige delas coerência. A primeira ideia que surgiu como comentário na matéria acima foi a condenação da “amamentação do marido” porque “a sociedade erotiza os seios e a própria amamentação”. Outra crítica que retirei da seção de comentários da revista é que as mamas tem uma função nutricional, e que seu uso para além dessa tarefa seria uma “profanação” e uma “perversão”. A terceira crítica curiosa foi “podem fazer, mas longe da minha visão. Que o façam entre 4 paredes, não precisa esse exibicionismo”. Lembra alguma coisa?

Meu corpo minhas regras, não? Cada um é responsável pelo seu prazer, certo? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, ok? Entre quatro paredes tudo é válido enquanto consensual e feito entre adultos, combinado?

Coloquei uma penca de clichês sobre corpo, sexo e amor consensual. Faltou algum?

Creio que o mito da “amamentação angelical” precisa ser questionado e desafiado na mente das pessoas, em especial das mulheres. Aliás, as críticas a este relato foram todas colhidas de mulheres, que me pareciam fazer uma espécie de defesa através da denegação. Assim, se já temos maturidade suficiente para entender que “parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, por que insistimos em retirar a amamentação dessa categoria? Por que esterilizamos o ato de amamentar, retirando dele seus óbvios componentes eróticos? Por que insistimos em negar para as mamas e para a amamentação seus óbvias conexões com o prazer? Se as mamas não fossem eróticas, não seriam tão bem escondidas do nosso olhar…

Quanto aos aspectos nutricionais Freud já esclarecia que uma criança não procura leite nas mamas, mas afeto, e se surpreende com a delicia e a maravilha do leite materno. Os experimentos de Harlow (onde os macaquinhos desprezavam a mãe de arame com leite e procuravam a mãe fofinha com água – mesmos às custas da desnutrição) nos ensinaram isso há mais de meio século. Portanto, o seio é o grande objeto erótico da fase oral, mas por certo que os resíduos dessa impregnação sexual nos acompanham por toda a vida. Quanto ao uso “pervertido das mamas”, lembro que toda a construção sexual humana tem estrutura perversa (vide abaixo, Zizek) e que, se a boca fosse feita “somente para comer”, muito do nosso arsenal erótico se desmancharia no ar…

Quanto a “não expor publicamente” isso me remete aos discursos ainda existentes sobre o comportamento dos gays. “Podem ser gays, mas vão se beijar em casa”. Pois eu achei muito pertinente que este casal tenha deixado clara uma fantasia que deve ser compartilhada por mais gente do que pensamos. Por que tanto medo ao ouvir a confissão de uma fantasia alheia?

Porém, acima de tudo, acredito que uma fantasia sexual entre adultos não deveria receber tantas condenações de ordem moral, em especial por parte das mulheres que tão bravamente lutaram pela liberdade de usufruir do prazer que podem obter de seus corpos. Chega de dedos apontados às mulheres. Mamas são eróticas, amamentar faz parte da vida sexual normal de uma mulher. Casais adultos podem explorar sua sexualidade como desejarem. Moralismos são anacrônicos e abusivos. Sexo é legal e quanto mais livre melhor.

E fora Bolsonaro…

Clique aqui para ver a matéria completa.

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Bateria

A bateria do meu velho carrinho faleceu, apesar dos nossos esforços paliativos. Descobri a loja mais próxima e telefonei perguntando se haveria bateria de 60 amperes. O jovem atendente confirmou e lá fui eu para trocar. Fui atendido por um jovem de 20 e poucos anos que me mostrou em um catálogo o tipo de bateria que eu precisava, mas lamentou pois havia se enganado.

Sim, a bateria estava em falta e a que eu precisava chegaria apenas no meio da tarde. Desculpando-se pela falha ele se comprometeu a levar na minha casa, já que eu estava com a Avinha e a Bebel e não teria como esperar.

Pediu meu endereço e se surpreendeu que éramos quase vizinhos, pois ele morava não mais de 500m da Comuna. Perguntou o que eu fazia e eu lhe disse que trabalhei 35 anos como obstetra. Nesse ponto, o dono da loja de baterias apontou para o jovem e falou orgulhoso:

– Esse meu filho está se formando em psicologia.

Surpreso, perguntei a ele o que pretendia fazer depois da graduação, e ele me respondeu sem titubear: “clínica psicanalítica”. Disse que estuda Freud e Lacan e pretende fazer pós graduação aqui mesmo em Porto Alegre. Conversamos sobre alguns dos meus professores daqui, como Alfredo Jerusalinsky, Contardo Calligaris, a psicanálise argentina e a APPOA. Por fim ele me disse que no momento estava fazendo estágio em clínica de crianças, que era o que pretendia fazer no futuro. Nos despedimos e voltei para casa. Agora estou aguardando a chegada da bateria.

Pergunto a você, que leu até aqui: quando você imaginaria que, ao procurar um lugar para trocar sua bateria arriada, seria atendido por um psicanalista?

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Idade Média e Renascimento

A transição entre a idade medieval e o período renascentista foram bastante marcantes. No período medieval havia um marcado teocentrismo que determinava que a relação do homem era com Deus, sendo que os humanos eram sempre tratados como falhos, fracos, inferiores e falíveis. Todas as relações eram mediadas pelo criador, e o ser humano era ensinado desde cedo e temê-lo. Diante do poder divino o homem era incapaz de reagir. Com o Renascimento a relação se dá entre homem e natureza, fortalecendo a noção de que este é capaz de conhecer e transformar a natureza em seu benefício. O Renascimento inauguro uma visão antropocêntrica, onde o homem passa a ocupar o lugar outrora ocupado por Deus.

O Renascimento é marcado por algumas modificações muito importantes. Ocorre um renascimento comercial pela ampliação dos horizontes com as grandes navegações, em especial aquelas patrocinadas pelos ibéricos.  As cidades, esvaziadas durante a idade média e o domínio da Igreja Católica, voltaram a ser ocupadas, criando-se os “burgos”, pequenos vilarejos que deram o nome modernamente utilizado de burguesia, ou seja, aqueles que vivem em cidades.

Não apenas a revitalização das cidades, o comércio e as navegações, mas algumas invenções foram fundamentais no Renascimento, como a bússola, a pólvora, o papel e por fim a mais importante delas: a imprensa, pois com ela foi possível popularizar e disseminar o conhecimento. Também a imponência do poder centralizador da Igreja, que perdurou durante toda a idade média a partir da queda do Império Romano do ocidente, foi abalada pelas reformas protestantes conduzidas por Martinho Lutero, a ponto de produzir como força de reação a chamada “Contrarreforma” católica.

Outros elementos do período renascentista foram os incrementos artísticos – causados pelo dinheiro excedente nas principais cidades que financiaram grandes artistas através do mecenato – como também científico, que produziram o surgimento de gênios como Nicolau Copérnico e Galileu Galilei.

A mentalidade medieval tinha essa perspectiva teocêntrica, e todo o saber deveria ser encontrado nas escrituras. Pouco – ou nenhum – espaço havia para uma visão crítica sobre as palavras sagradas, tratadas como lei acima de todas as outras. O ser humano era fraco, frágil, pecador, insuficiente e só poderia ser salvo através da “Doutrina da Graça”, algo que se concentrava no desejo de Deus, independente das obras realizadas. O corpo era pouco importante, assim como os bens materiais. Toda a variedade dos fenômenos da natureza tinha como explicação a vontade divina, de quem nada escapava. Havia um estímulo ao conformismo, já que a vontade do Criador seria soberana, inobstante qualquer ato que pudéssemos realizar. Nesta visão de mundo a fé era superior a qualquer desígnio da razão.

Em contrapartida, a mentalidade surgida com o renascimento oferecia uma nova visão do homem e sua relação com a sociedade.  A visão passou a ser antropocêntrica, tendo o homem como centro de todas as decisões. O conhecimento deveria partir da experiência, dos estudos e pesquisas e baseados na razão. O ser humano passou a ser retratado como belo, como pode-se observar nas obras dos grandes pintores e escultores renascentistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Boticcelli, Caravaggio, Tintoretto e Michelangelo. Os fenômenos da natureza passam a ser explicados pela razão, e não mais pelos augúrios do Criador ou suas vontades inexpugnáveis. O mundo renascentista se preocupava em mudar o mundo, abandonar o pessimismo, olhar o belo dos corpos, o prazer e a luz da razão. Não mais a fé a guiar os caminhos, mas a luzes que emanam de um pensamento claro, livre e baseado no real.

O Renascimento produziu uma grande abertura para a expressão mais nobre da alma humana: um período de luz, afugentando o pessimismo e as visões diminutivas do ser humano, introduzindo o novo tempo que será marcado pela razão e pela expansão do conhecimento.

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Trânsito

O trânsito é um problema em todas as grandes cidades do mundo na atualidade. A verdade é que a imensa maioria delas viu um crescimento exponencial durante o século XX não apenas relacionado ao crescimento vegetativo das populações, mas também por uma migração de populações oriundas do campo, que se deslocaram para a cidade a procura de trabalho e melhores condições de vida. As cidades se encontravam despreparadas para os dois grandes influxos recebidos: as novas pessoas e os veículos automotivos, tratados como o “grande objeto de desejo” ocidental com seu florescimento na segunda metade do século XX.

A partir das descobertas da produção em massa – impulsionadas por Ford e a mecanização da indústria – os automóveis passaram a ser paulatinamente mais baratos e acessíveis a múltiplos segmentos populacionais. Assim, as ruas se tornaram insuficientes para conter o acúmulo de carros em suas artérias, tornando a circulação dramática na maioria das cidades ocidentais de médio e grande porte.  A engenharia de tráfego, com a criação de fluxos de circulação, pontes, viadutos, avenidas alargadas, passarelas, metrôs urbanos, elevadas e toda a criatividade da engenharia de tráfego ainda não conseguiu a solução definitiva. Em algumas cidades – como Londres – a entrada na cidade por automóvel custa um pedágio significativo, para inibir a entrada de mais carros na cidade. Outras como São Paulo chegam a fazer rodízios de placas, impedindo através de multas a entrada de novos automóveis em circulação nas ruas já congestionadas.

Talvez a solução esteja na mudança da matriz “automóvel”, um modelo altamente poluente, perigoso, com inúmeras mortes relacionadas ao seu uso, mas que usufruiu de uma grande popularidade pela sensação de autonomia e liberdade que oferece aos seus usuários, algo que ele carregou neste seu século de glória. Melhorar sensivelmente o transporte de população – metrôs, ônibus, barcos, em especial – é a única forma de deixar a compra de automóveis desinteressante, desafogando o trânsito, despoluindo o ambiente e diminuindo o número de mortes relacionado ao seu uso.

Todavia, para que isso ocorra é necessário que ocorra uma mudança CULTURAL, que inclua também a mudança na matriz industrial brasileira que depende ainda da indústria automobilista. Por isso, essa mudança precisa ser lenta e gradual. Por certo que, para além disso, oferecer estímulos para que atividades possam ser realizadas fora das grandes cidades é uma tendência que já estamos percebendo, não só com os projetos de descentralização, mas também com o advento e disseminação do home office que foi trazido pela pandemia de Covid19. O tele trabalho poderá ser um fator extremamente importante nesse objetivo de desafogar as ruas das cidades, na medida em que a presença física – para muitas profissões – deixará de ser indispensável.

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O Dilema de Snape

Na minha cabeça aparece frequentemente o roteiro de um romance no qual o tema central é uma ação dissimulada protagonizada por um sujeito cuja vida é guiada por um “sentido de dever”, e que leva este sentimento como algo superior inclusive à sua própria vida e o seu legado. Essa imagem aparece para mim desde que eu era adolescente, como um dilema angustiante, uma encruzilhada aflitiva, mas infelizmente percebi que ela nada tinha de original. Em Harry Potter ela aparece no dilema de Severo Snape.

O drama é esse: imagine que você precisa fazer algo justo e correto, mas terá que aparentar estar fazendo exatamente o oposto, agindo de forma muito errada e contrária à sua vontade e seu padrão moral, pois sabe que apenas assim sua ação poderá ter sucesso. A maldade será a máscara perfeita para as suas atitudes. Agirá tendo como orientação secreta a virtude e um objetivo moralmente irrepreensível, porém deverá parecer a todos como egoísta, orgulhoso, vaidoso, imoral, ganancioso e rude. Tudo fará para reforçar sua imagem de mau, pois só assim terá acesso aos recursos para levar a contento sua tarefa elevada.

Todavia, ao contrário de Severo Snape – cuja ações nobres foram desveladas após sua morte e sua memória resgatada como alguém que sempre lutou contra as “forças do mal” – as suas verdadeiras intenções JAMAIS serão descobertas. Você morrerá como traidor, visto por todos como a personificação do mal, passará para a história como o canalha egoísta, aquele que tanto mal fez aos seus semelhantes. Será visto nos livros de história como o perverso, o estúpido, o desleal e alguém que representa o oposto da virtude e do bem. Enquanto isso, em seu íntimo, saberá o bem que acabou produzindo. Você será o único ser no universo a carregar esta verdade, e não há nada e nem ninguém que poderá salvá-lo dessa maldição. Terá apenas as estrelas como testemunhas de suas intenções puras.

A simples ideia de enfrentar esse dilema me deixa angustiado. Pergunto: quem teria a nobreza de aceitar esta missão? Creio que, se esse sentimento existir e for provado, será possível acreditar que a verdadeira fraternidade existe, ou seja, a capacidade de fazer o bem sem receber qualquer recompensa, inclusive aquelas puramente simbólicas.

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Condescendências

Quando vejo lideranças indígenas falando dos “brancos” penso que é tão errado e preconceituoso quanto dizer “os índios”. Pior, romantizar os indígenas é pura ingenuidade e essencialismo, que não resistem a 5 minutos de evidências. A ideia de que existe uma perspectiva de mundo essencialmente diferente entre os indígenas e os “brancos” não faz sentido. Os indígenas não “amam” a floresta como nós gostamos de pensar, apenas estão envoltos por ela e não possuem (como nós) as condições de destruí-la – ou modificá-la.

Tratar indígenas assim não ajuda suas causas. Nosso erro continua sendo estabelecer diferenças morais entre brancos, negros, indígenas, mulheres, homens, héteros e gays. Quando se examina sem preconceito vemos que em todos esses grupos existem virtudes celestiais e defeitos horrendos. Somos todos feitos da mesma massa bruta e nossas diferenças são meramente circunstanciais e contextuais.

Sabem quanto tempo por dia um indígena ou aborígene que vive em um sistema de “caça e coleta” trabalha em suas funções específicas, para produzir alimentos, moradia, proteção, etc?

Duas horas, em média, por dia. Exato, apenas duas horas de trabalho, porque o estilo de vida que está à sua disposição oferece de forma muito abundante os recursos necessários. O resto do tempo é usado para “curtir”, contar histórias, namorar, tomar banho no rio e contemplar. As populações pré agriculturais tinham este tipo de relação com a natureza e, portanto, não é a essência dos indígenas que os torna mais “respeitosos” com a natureza, mas a sua simplicidade cultural e sua forma de relação com o meio ambiente. Todavia, basta que achem uma garrafa vazia de Coca-Cola para que sua estrutura social se transforme completamente, e valores que sobreviveram por milênios sejam desafiados de forma marcante (aqui me refiro à brilhante comédia sul-africana dos anos 80 – “Os Deuses devem estar Loucos”).

Regredimos ao nos tornarmos “civilizados”? Bem, de uma específica perspectiva sim, em especial no que diz respeito à criminalização do lazer e do prazer, mas não se percebermos que este estilo de vida produz uma brutal dependência da natureza. Quando uma criança da comunidade vira comida de jacaré a gente começa a pensar um pouco mais sobre as vantagens da civilização e o quanto a aplicação de tecnologia pode ter seu valor. Uma proteção maior contra as fúrias naturais vai ocorrer na medida em que temos mais controle sobre a natureza e menos dependência de sua “bondade” para conosco. Com isso deixamos a posição de meros objetos da natureza e passamos a ser sujeitos dela. Mas, não há duvida de que a existência de agrupamentos nativos com uma estrutura social muito próxima dos caçadores coletores é uma excelente forma de analisar os (des)caminhos das civilizações contemporâneas.

Não esqueça dos “tigres de dentes de sabre”, que habitaram o continente americano (inclusive no Brasil) durante a pré-história, e desapareceram há cerca de 10 mil anos, mas que foram exterminados pelas populações NATIVAS, e não por exploradores brancos malvadões. O mesmo fenômeno nos fala Zizek a respeito dos búfalos americanos, e porque não seria igual com os “nativos” europeus e sua relação com os mamutes?

Por fim, “patronizing” é uma palavra de difícil tradução para o português, mas é a melhor palavra para explicar este fenômeno de tratar grupos oprimidos como se fossem moralmente superiores. Acho que a melhor tradução ainda é “condescendência”. Creio que sempre que temos este tipo de essencialismo condescendente com indígenas estaremos atrapalhando sua autonomia. O mesmo com outros grupos historicamente oprimidos, como mulheres, negros, imigrantes, gays, etc…

Abaixo a manifestação de Zizek sobre o tema…

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Desatenção

Mais uma vez eu estava saindo do Bazaar sem comprar o que tinha em mente. “Não temos seu número”, disse a simpática vendedora. Ok, pensei eu. Afinal, para ser bem franco, eu não tinha mesmo nenhuma necessidade de comprar nada, muito menos um “tênis para longas caminhadas” em promoção. Bastou a menina da loja me dizer que não poderia satisfazer meu impulso consumista e um alívio tomou conta de mim. Melhor assim. Volto para casa de mãos vazias, mas com a consciência limpa.

Ao dobrar o corredor da cafeteria em direção ao estacionamento eu percebi meu colega Tarik sentado sozinho em uma mesa, absorto com seu celular nas mãos. Encontrei Tarik há muitos anos, ainda na faculdade, e fui o responsável direto pela sua entrada no nosso grupo de trabalho. Conhecia seu serviço e gostava de sua dedicação e iniciativa. Achei, desde o início, que ele poderia somar no trabalho que estávamos iniciando e acreditei que sua presença poderia acrescentar dinamismo aos nossos projetos.

Desviei meu caminho da saída e me dirigi à sua mesa.

– Tarik, tudo bem? Como vai?

Ele me olhou com surpresa, mas de forma pouco expressiva. Eu me sentei à sua frente enquanto ele me dava um “olá” sem muito esforço. Animado pelo encontro fortuito eu lhe disse:

– Eu precisava mesmo conversar contigo rapidamente sobre o que pretendemos fazer no departamento. Estamos com planos importantes e gostaria muito de saber sua opinião e sua posição sobre o que decidiremos na próxima quarta-feira.

Tarik me olhou impassível por alguns instantes e após esta pausa disse:

– Ok, aguarde um instante. Vou buscar o café.

Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à cafeteria à frente. Passados alguns instantes ele voltou com uma bandeja que continha uma xícara de café. Olhou-me nos olhos e disse:

– Bem, o que você queria mesmo me dizer?

Foi naquele momento, quando me dirigiu a pergunta, que eu entendi o que, até então, eu havia sido incapaz de perceber. Imediatamente tudo passou a fazer sentido e fui tomado por grande constrangimento. Literalmente eu não sabia o que dizer ou fazer. Por certo que ali estava mais um gigantesco erro meu: uma arrogância imensa e uma profunda incapacidade de enxergar por detrás do meramente aparente à visão desarmada. Fui envolvido por uma nuvem escura de desapontamento, uma vergonha súbita e constrangedora. Baixei o olhar e o fixei mais uma vez no café, seus matizes de marrom e negro, seu vapor hipnótico e seu odor cativante.

– Nada, Tarik, nada. Não era nada. Olha, eu falo com você outra hora, talvez na quarta-feira, antes da reunião. Preciso sair agora. Foi um prazer lhe ver. Mande um abraço para Laila.

Estiquei a mão e cumprimentei Tarik antes de sair. Senti em sua mão um aperto frouxo. Olhei para ele à minha frente e pensei: “Que tipo de pessoa poderia comprar uma única xícara de café ao conversar com um amigo e tomá-la sozinho, sem qualquer constrangimento?”

A resposta era simples: alguém que tinha por mim profundo desprezo. Agora estava explicada a reação de Tarik ao me ver: ele estava claramente constrangido com minha falta de percepção dos seus sentimentos. Eu nunca havia percebido o ódio que Tarik nutria por mim, e o quanto ele me desconsiderava como colega. Estivera ali, por todos esse tempo, e eu nunca fui capaz de enxergar.

Por muitos anos depois desse dia continuei sentindo o gosto amargo da vergonha ao me lembrar de tamanha desatenção. Infelizmente ela aparece com mais frequência no momento em que fixo meus olhos em uma xícara fumegante de café.

Aisha Boukhalfa, “Oásis de Ideias”, ed. Sextante, pág 135

Aisha Boukhalfa é uma escritora argelina nascida em Batna, em 1975. Fez seus estudos em Argel na Benyoucef Benkhedda Universidade de Argel, tendo se graduado em jornalismo em 2005. A partir de então tem se ocupado com o movimento feminista argelino, a participação no partido Comunista da Argélia e seu trabalho como doula atendendo partos nas cidades de Argel, Blidas e Boumerdas. Por seu ativismo feminista e seu trabalho como doula ela acabou se tornando cronista, e suas histórias acabaram se transformando em livro. “Oásis de Ideias” é uma coletânea de histórias sobre suas experiências, em especial com o trabalho com gestantes em um país onde os direitos reprodutivos e sexuais continuam muito defasados quando comparados com a Europa ocidental. Suas crônicas são distribuídas através do seu blog pessoal e do Facebook. Mora em Argel e é casada com o enfermeiro Omar Boukhalfa, com quem tem uma filha nascida de parto domiciliar chamada Iasmin.

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Médicos

Eu acho que, inobstante o avanço da ciência e da tecnologia, não há como os médicos tornarem-se obsoletos e trocados por equipamentos, por mais sofisticados que eles se tornem. Por outro lado, estes médicos que consideramos “top de linha” – que em verdade são bons ou excelentes técnicos – poderão ser substituídos por robôs ou terão suas ações realizada por engenheiros, sejam eles mecânicos ou geneticistas.

Além disso, imaginem a transformação radical que vai ocorrer na prática médica quando políticos e sanitaristas resolverem os problemas produzidos na saúde pública pela pobreza, a fome, a competitividade doentia, as guerras, a exploração do trabalho, os acidentes evitáveis, o ódio de classe, o racismo e a xenofobia. O que será da medicina quando o capitalismo for superado e não houver mais ódio e desprezo de classe? Quantas vezes atendi pacientes cujo principal diagnóstico era “síndrome da estrutura social perversa”

Como eu costumo dizer, bastaria que a Medicina fosse praticada com plena observância das evidências científicas para que sua prática se tornasse totalmente irreconhecível daquela que se aplica hoje. Imagine isso combinado com um mundo de paz, com a superação da sociedade de classes. A medicina se tornaria um exercício de pura conexão pela palavra. Por esta razão, o médico que produz uma ponte afetiva e profunda com seu paciente jamais será substituído por máquinas, pois a ligação que ele propõe é de alma para alma.

Isso me lembra a forma como os Navajos classificam seu curadores. Longe de romantizar as populações nativas, eu acho apenas que a experiência da medicina num modelo pré-capitalista sempre tem algo a nos ensinar.

Para estes nativos existem 3 níveis de curadores, numa carreira que prolonga por uma vida inteira. O primeiro nível comanda rituais e utiliza algumas ervas curativas. O segundo nível se especializa no uso das múltiplas ervas e substâncias para as diversas doenças catalogadas por sua cultura. Já o último nível, aquele que se alcança depois de ter passado uma vida inteira na função de curador, se ocupa tão somente em oferecer… conselhos.

Assim, a função do curador segue na direção da sutileza, partindo das artes mais densas dos corpos – pessoal e social – e chegando na palavra, a quintessência da cura. Sim, é possível substituir as ações mecânicas dos médicos, mas sempre haverá a necessidade de conectar-se com o suposto saber de alguém que instrumentaliza sua fraternidade no sentido da compaixão e da cura.

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