Entre a Luta e a Resistência

Eu as vezes acho que as esquerdas, ao serem tão pró-establishment, fazem o jogo que a direita gosta e aplaude.

Pensem bem; Bolsonaro foi eleito com um discurso anti sistema, contra os poderes, contra o “globalismo”, criticando as grandes corporações. Em suma, contra o mundo inteiro, tal qual ele se apresenta a nós. Por causa disso, por representar a mudança (falsa, é verdade) ele angariou milhões de simpatizantes. O discurso de contraposição aos governos, de revisão de valores, de mudança de modelo econômico e de reversão de valores foi cooptado pela direita.

A direita, assim, se tornou proativa, colocando a esquerda como reativa, acuada, nas cordas, na defensiva. A esquerda entregou a narrativa à direita, e se adaptou à condição de “resistência”. Isto é, “vamos resistir ao que eles fazem conosco”. Passividade assumida. Assumimos aquele cartaz infeliz de algumas marchas “Parem de nos matar!!”.

Para quem viveu a ditadura, a abertura democrática, a constituinte e viu ressurgir a esquerda no Brasil testemunhar o grito “Obedeçam às autoridades” vindo do nosso campo é muito estranho. Bizarro, eu diria. Oferecer essa narrativa de enfrentamento aos mauricinhos não me desce pela garganta.

Vejam, por exemplo, a pandemia. Não vou me ater à eficácia de qualquer tratamento, mas a postura da direita foi desde o princípio como contestação do status quo. Inobstante estar equivocada, a direita se mostrou crítica e contestadora, enquanto a esquerda se mostrou submissa à autoridade, seja da ciência oficial, da OMS, das empresas farmacêuticas, da TV, dos grandes conglomerados industriais. Empresas mafiosas multinacionais tornaram-se heroínas nesta batalha, as mesmas cujas práticas foram historicamente denunciadas pelos partidos à esquerda. Desde quando Bill Gates e George Soros poderiam servir de exemplos para socialistas??

Mesmo no meio da paranoia e das teorias de conspiração mais fajutas, é notável o empenho da nova juventude de direita em produzir mudanças no cenário atual de crise aguda do capitalismo. Por certo que elas se resumem ao aprofundamento da distância entre as classes, mas ao menos a eles é oferecida a honra de lutar contra os gigantes do capitalismo “globalista”. Eles se esforçam em fazer, enquanto nós nos acomodamos na re-ação.

Enquanto a esquerda glorifica seus antigos adversários, oferecendo apenas complacência e concordância, a direita seduz os jovem a lutar “contra tudo isso que tá aí, taokey?

A direita procura heróis, a esquerda mártires..

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O Especialista

Outro tema que eu considero interessante é o surgimento do “especialista”. Quando se fala essa palavra imediatamente associamos “qualidade” ao sujeito que a carrega. “Pode ficar seguro, ele é especialista no assunto”. Pois eu sempre tive reservas quanto a essa tendência, porque considero o culto à especialização é algo claramente limitante.

Meu pai, ao contrário, era um generalista. Meu avô paterno também. Ambos eram capazes de falar sobre qualquer assunto com desenvoltura. Eram curiosos, guardavam “cultura (in)útil”, contavam histórias, conheciam lugares, tinham uma percepção abrangente do mundo, possuíam uma curiosidade ativa e um pensamento crítico aguçado. Gostavam de se definir como “livres pensadores”.

Todavia, não eram especialistas em nada. Não se dedicavam a uma parte apenas do conhecimento. Tinham essa visão abrangente da cultura e do conhecimento, e gostavam dessa perspectiva que tinham do mundo.

Pois eu creio que os especialistas, na estrutura tecnocrática da sociedade, acabam se tornando perigosos. Pedir a opinião de alguém que enxerga o mundo pelo funil de sua especialidade é sempre arriscado. Pedir que um especialista em parte elétrica avalie um motor o fará olhar para ele por este viés. Nos médicos isso é sempre complicado, porque se criou a ideia equivocada de que o especialista é um sujeito mais qualificado, o que é um erro. Bem sabemos o que os especialistas em patologia obstétrica tendem a pensar sobre partos. Os médicos generalistas deveriam ser 80% da assistência à saúde no Brasil, e os mais bem pagos, exatamente porque 80% dos transtornos da saúde entram no escopo de ação desses profissionais.

Infelizmente a perspectiva que valoriza o especialista ainda é hegemônica na sociedade. Entretanto, creio que eles deveriam ser acionados apenas nas raras situações em que um saber muito específico precisa ser acionado. Infelizmente não é assim, e todos os dias vejo gente consultando especialistas de forma equivocada, em situações nas quais o generalista daria conta do recado de forma muito mais rápida, segura e justa.

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Diferenças

Tenho uma tese que carrego há décadas. As divergências morais e intelectuais entre os humanos são muito pequenas. Assim como nas minúsculas diferenças genéticas que temos com nossos primos primatas, as distâncias entre gênios e sujeitos comuns são ainda menores. No grande espectro são desprezíveis. As nossas discrepâncias são muito menores do que as semelhanças. Ainda mais posso dizer entre gêneros e “raças”. Não há qualquer diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, ou entre qualquer etnia.

A diversidade observada pode ser facilmente explicada pela história e pela geopolítica dos últimos 80 séculos, o que não é nada se levarmos em conta que isso representa menos de 5% do tempo em que vivemos na Terra. Exaltar um grupo especial ou desmerecer outro com essencialismos provou-se tolo e sem embasamento. Acreditar que homens são mais burros ou violentos que mulheres e que negros são mais nobres que brancos – e vice-versa – só serve a quem semeia divisões e mentiras.

Não é apenas a quantidade de informação o elemento essencial para a valorização de um profissional, mas o valor que se dá às pessoas que realizam estas funções. Não fosse assim um astrofísico ganharia mais do que um astro… de futebol, e uma professora ganharia o mesmo que um médico e assim por diante. A valoração que damos é muito mais política e cultural do que baseada no acúmulo de saberes e técnicas.

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Especismo

Chorar por um golfinho ou uma baleia mortos na praia é um sentimento nobre; já saborear um atum não causa nenhuma crise de consciência na imensa maioria de nós. São todos grandes animais aquáticos, mas um deles não desperta empatia. Por quê?

Não é “amor aos animais” o que nos faz sofrer por eles, pois amamos apenas alguns. Cães, gatos, cavalos, baleias, golfinhos, mas jamais ratos, baratas, mosquitos, gambás, cobras e escorpiões. Nossa seletividade ocorre porque nosso amor é por nós mesmos, pois nosso sentimento só se revela quando é possível SE VER no animal. No fundo é a identificação quem determina o afeto.

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Informações perigosas

Minha tese a respeito das investigações é simples, e tem a ver com os estados psíquicos induzidos pelas informações. Para mim, a comunicação – em especial tudo o que dizemos aos pacientes – também contém riscos. Uma informação inútil pode se tornar algo extremamente perigoso. Por exemplo: quantas vezes atendi partos em que a única avaliação do tamanho do bebê havia ocorrido pela palpação, ou por uma ecografia bem precoce. No dia do parto… tóóóóin, nascia um bebezão de 4.400g. Pois eu pergunto: como se comportariam TODAS as pessoas envolvidas no parto – incluindo mãe, família e equipe – na presença de uma ecografia apontando um bebê de 4800g (imaginando que a ultrassonografia erre por 10%)? Que tipo de resiliência a uma parada de progressão haveria no transcurso do trabalho de parto? Que tipo de paciência haveria diante de um período expulsivo prolongado? Quanto sobraria de confiança a esta mulher e seu companheiro diante da sentença “fatídica” de um bebê “enorme”?

Pois agora respondam o que aconteceria a uma mulher cujas mamas foram “avaliadas” pela sua possível capacidade (ou não) de produzir leite ANTES de estar efetivamente amamentando. Que mulher investiria na continuidade da amamentação diante de uma avaliação “preocupante”? Quem insistiria em um projeto de amamentar com um rótulo grudado no peito dizendo “mamas incompetentes”? Quem se manteria firme ao ver surgir a primeira fissura ou ao ver que seu bebê que não entra na curva de crescimento da pediatra?

Façam o seguinte: avaliem meninos de 15 anos de idade para saber seu o pênis deles vai funcionar adequadamente quando tiverem relações sexuais. Não precisa nem dar nota, basta olhar, examinar e depois coçar o queixo dizendo: “hum, não sei não. Acho que está bom, mas vamos ver”. O que acham que ocorreria?

Eu digo: uma explosão no diagnóstico de impotência. Ou… um aumento vertiginoso nas vendas de Viagra ou até mesmo de tratamentos para aumento de pênis. E talvez UM em 100.00 tivesse realmente um problema verdadeiro relacionado à sua capacidade de ter relações sexuais satisfatórias relacionada ao seu pênis. Desta forma, essas avaliações são semeaduras de insegurança, mas que nenhuma vantagem produzem.

No caso das mamas, se houver uma (raríssima) incapacidade de produzir leite, que diferença faz saber durante o pré-natal? O que esse diagnóstico presuntivo ajudaria esta mãe? O mesmo eu digo das ecografias invasivas e suas informações inúteis, que quase só disseminam pânico, e nenhum benefício. As vantagens para os profissionais e o sistema capitalista nós já sabemos, mas qual a vantagem para os pacientes?

Tetas erradas = bacias erradas. Fazer diagnóstico de ambas “de olhada” é um erro. E esse erro vai transmitir à mulher (mais) uma mensagem de sua longa lista de defectividades culturalmente determinadas. Também vai dar a ela uma excelente oportunidade para desistir na primeira dificuldade. “Afinal, não tenho mesmo passagem, ou minhas tetas são atrofiadas. Para que insistir?”

E mais… “Toda mãe sabe parir e todo bebê saber nascer”. Sim, mas nem todos sabem interpretar essa frase, porque parimos e nascemos antes de termos qualquer consciência disso. Portanto, parir e nascer são coisas que “sabemos” muito antes de termos condições de racionalmente “saber”.

As falhas não ocorrem por falta de “saber”, mas talvez pelo oposto: criar expectativas e racionalizar sobre um fato pulsional e automático, sobre o qual quanto menos a mulher racionalizar, melhor ocorrerá. Uma breve história: conheci um paciente de quase 70 anos no estágio de urologia da residência médica, o qual veio ao hospital para operar uma hipospádia. Isto é; a uretra saía no meio do pênis, para baixo, e não na ponta. Com isso ele urinava para o chão e tinha um pênis muito encurtado.

Enquanto fazíamos a avaliação pré-operatória, meu colega (ingênuo e desatento) lhe perguntou: “Por que o senhor não veio antes? Digo, há muitos anos mesmo. Poderíamos consertar isso e o senhor teria uma vida normal, com filhos e tudo”. Quando ouviu isso o “colono” acostumado com a lida da roça respondeu com o sotaque alemão característico e de forma rude:

“Filhos? Pois eu tenho 6, com 3 mulheres diferentes. E não estou pensando em parar”.

Se alguém tivesse lhe dito que não podia, ou que era insuficiente, talvez não fosse tão fértil. Oferecer ajuda é diferente de induzir anomalias onde ainda não existe nenhum problema real.

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Psicologia da violência

Essa “brincadeira” vai e volta nas redes sociais. Tudo bem, entendo o humor, mas cabe uma resposta mais séria.

“Estes são apenas antigos aparelhos de tortura infantil. Deixam marcas na alma sempre; no corpo às vezes. Deveriam ser expostas em um museu para as pessoas entenderem que o espancamento de crianças produziu uma geração que votou em alguém que acha a tortura aceitável.”

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Em Busca da LUZ

Meu amigo Túlio Ceci Vilaça escreveu sobre o poder e a sedução que existe em construções fantasmáticas de mentes criativas, algo mentiroso e falso mas que é apresentado como “A VERDADE que eles escondem de você”. Tipo, o bordão “Isso a globolixo não mostra!!!”

Sim, entendi e concordo. Tenho um conhecido muito querido meu que, quando adolescente, me falava de teorias conspiratórias sobre quase tudo: de ETs, de ninjas, da China, da “grande conspiração internacional” e do comunismo do dia-a-dia, mas quando você mostrava uma séria contradição a essa arquitetura de causas e efeitos (tipo, “se o STF é de esquerda, porque mantiveram o Lula preso e o impediram até de dar entrevistas?”) ele respondia com uma frase que ficou clássica entre os seus conhecidos: “Isso é exatamente o que eles querem que tu acredite”.

Essa pessoa é muito querida, e eu particularmente gosto muito dela, mas sei que estas crenças são adquiridas em estratos muito primitivos da mente, e não estão sujeitas a análises racionais. É inútil retirar o véu da falsidade para mostrar a verdade que se esconde por baixo, porque a realidade é menos importante do que o desejo. Ou, como diriam os filósofos “o intelecto do homem não é páreo para a sua vontade”.

Eu ainda entendo que a este tipo de vinculação com as teorias conspiratórias, ou a busca de um sentido recôndito, como uma maquinaria superior a coordenar as nossas vidas e através de uma ultra estrutura cósmica que coordena cada um de nossos passos apenas representa o desejo de encontrar sentido no caos, que nada mais é do que uma das mais nobres aspirações humanas.

A diferença é que alguns suportam – com maior ou menos grau de sofrimento – a angústia do desconhecido e das perguntas sem resposta, enquanto outros, por medos atávicos do desamparo, procuram estas respostas de forma compulsiva e irreflexiva, e acabam encontrando nos gurus, nas seitas, nas drogas, nos planos cósmicos mirabolantes e nas teorias conspiratórias mais elaboradas um alívio para este tipo especial de ansiedade.

Oferecer para eles (melhor dizendo, para nós) a saída dessa armadilha do desejo, não será através da ferramenta da razão. Apenas o afeto tem esse poder transformador.

PS: Ahhh, mas não esqueçam que o fato de um sujeito ser paranoico não impede que ele esteja MESMO sendo perseguido. Além disso, a pior de todas as teorias conspiratórias é acreditar que não há nenhuma conspiração.

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A Estatueta

Martyn pediu uma cerveja e dois copos ao garçom e ajeitou-se na cadeira do restaurante, como que a procurar espaço para poder dizer o que queria.

– Terry, você lembra da minha queda na cozinha, não? O hospital, a mancha roxa, o seu colega médico mal educado, a minha bronca. Pois eu lembro muito bem, parceiro, inclusive da sua gentileza em me buscar em casa na madrugada. Nunca pude lhe agradecer o suficiente por isso.

Ensaiei um “que é isso, amigo é prá essas coisas”, mas ele me interrompeu com um tapinha no braço.

– Era mentira, Terry. Era tudo mentira. Hoje resolvi lhe contar a história toda. Não fique bravo comigo, tenho certeza que você vai entender as minhas razões para ocultar a verdade.

Mentalmente minha memória viajou dez anos para trás, e pousou exatamente no dia em que, no início da madrugada, Martyn me ligou pedindo socorro. O ponteiro maior do relógio já havia completado quase uma volta inteira depois da meia noite quando o telefone berrou nos meus ouvidos enquanto eu saboreava Nabocov na cama. Por sorte Ellen continuou dormindo sem se impressionar com a estridência do aparelho. Seu sono pesado era uma lenda conhecida por toda a sua família. No dia em que o mundo acabar ela só vai acordar do outro lado da vida. Imaginei que se tratava de uma chamada do hospital, mas eu não estava de sobreaviso.

– Terry, preciso de ajuda. Não é uma emergência, mas preciso que você venha aqui em casa agora.

– Martyn, é você? Alguma coisa que eu deva me preocupar?

– Um acidente doméstico, não precisa se preocupar tanto, mas não há como lidar com isso sozinho. Você pode vir aqui? Tipo, agora?

– Claro, claro. Fique aí. Espere só eu me vestir.

Martyn é meu amigo de infância, talvez meu único grande amigo. Crescemos juntos, e frequentamos as mesmas escolas apesar de eu ser mais velho uma meia dúzia de anos. Seu irmão, Mark, foi meu colega de escola, na mesma sala de aula, mas ele acabou se afastando de mim pelas derrapagens que a vida dá. Não foi o caso com Martyn. Fizemos muitas coisas juntos, torcíamos pelo mesmo clube, festas, conversas, bebedeiras, filosofias… mas também porque tínhamos uma perspectiva de vida igualmente sombria e pessimista. Nossas sombras eram carregadas com as mesmas tonalidades de cinza.

Martyn era casado com Anna, uma mulher inteligente e ambiciosa. Trabalhava na Bolsa de Valores e era uma espécie de expert em alguma coisa que ela um dia me explicou, mas não guardei na memória. Minha cabeça de cirurgião não tem nenhum contato com o mundo do comércio, valores, poupança, ativos, lucros. Em verdade, sequer o dinheiro exercia qualquer atrativo especial para mim. Minha mulher Ellen reclamava que eu poderia ganhar muito mais com as minhas cirurgias se tivesse um pouco mais de habilidade para cobrar, mas não há dúvida que nessa área sempre fui um fracasso.

O prédio onde Martyn morava não ficava mais do que 15 minutos de distância. Quando cheguei lá ele estava parado na rua, na frente do edifício. Achei estranho que ele não ficasse dentro de casa esperando minha chegada, mas talvez não quisesse acordar Anna. Quando parei o carro ao seu lado na rua percebi que ele abriu a porta de forma um pouco estranha. Deduzi que havia machucado o braço

– Então Martyn, o que houve? Foi algo no braço?

Ele deu um meio sorriso.

– Você sabe o quanto consigo ser desajeitado quando quero. Fui pegar algo na prateleira da cozinha e desabei do banquinho que coloquei para subir. Bati com o pulso na borda do balcão. Já faz umas duas horas, mas agora a dor apertou e eu temo que tenha quebrado algo.

– Posso ver?

Meu amigo levantou com cuidado a manga da camisa e pude ver uma grande mancha que coloria de roxo a parte inferior do seu braço direito. Era grande, e mostrava que algum vaso havia se rompido.

– Martyn, não sou ortopedista, mas sei que isso aí é uma fratura. Sua religião faz alguma restrição a amputações?

Martyn sorriu do meu característico humor negro. Em seguida explicou que não pensava me chamar mas não conseguia nem segurar a chave do carro, quanto mais dirigir até o hospital.

– Não sabia o que fazer, então resolvi lhe chamar. Sei que só mesmo um outro idiota como você entenderia minha patetice.

Rimos um pouco e lembramos de alguns fatos engraçados que passamos juntos na escola. Martyn, entretanto, parecia mais sério do que de costume, mas acreditei que sua face circunspecta era o reflexo da dor que por certo estava sentindo. Ao chegarmos ao hospital não tardou em ser atendido. Pedi para entrar junto e me apresentei como médico. Aquele era o hospital em que eu fizera minhas primeiras cirurgias, meus primeiros atendimentos de emergência há mais de 20 anos. Ainda guardava nas narinas o cheiro das salas de clínica, onde o odor de sangue e vômito se mistura com os desinfetantes poderosos utilizados. Martyn explicou para o plantonista da ortopedia o que havia ocorrido. Este, depois de um breve exame físico, pediu uma radiografia.

Alguns minutos depois ele voltou com a radiografia e, com um sorriso no rosto, anunciou:

– Muito bem Sr. Martyn, sua travessura foi premiada. Conseguiu o que desejava: uma fratura no rádio distal. Agora o senhor vai ficar alguns dias sem fazer os deveres da escola.

Martyn fuzilou o médico com os olhos e disparou:

– Quem sabe o senhor se mete com a sua vida, seus pacientes, e me deixa em paz? Quem é você para vir aqui debochar de mim? Vá fazer piadas para a sua turma!!

Segurei o braço do meu amigo e o puxei para trás. O ortopedista ficou perplexo e balbuciava coisas como “hei, eu estava só brincando, calma, desculpe”. Coloquei Martyn sentado em uma cadeira próxima e fui falar com meu colega médico.

– O que há com seu amigo? Não sabe brincar?

Expliquei que ele deveria estar com dor e que o desculpasse. O médico fez um muxoxo e disse que ele seria transferido para uma sala ao lado onde colocariam uma tala, mas que deveria procurar uma clínica em uma semana para o gesso definitivo. Entregou-me uma receita de analgésicos, despediu-se e saiu caminhando pelos corredores do hospital.

Perguntei a Martyn o que tinha acontecido e por que dera aquela resposta.

– Ahh, desculpe aí Terry, mas não aguento esses seus colegas. São uns arrogantes, metidos a besta. Ficam fazendo piadinhas com os desastres que acontecem com as pessoas. Agem como se fossem superiores, como se fossem adultos rodeados de crianças travessas; eles são os infalíveis enquanto nós somos os tolos e idiotas.

Pedi que tivesse calma, e ele deu de ombros. Caminhamos até o estacionamento e pegamos o meu carro. Já passavam das 3h e eu tinha que atender o ambulatório pela manhã. Ele ficou em silêncio até chegarmos no seu edifício. Quando estacionamos na frente ele olhou para cima pela janela do carro, para saber se havia luz no apartamento.

– Não quero acordar Anna, Terry. Obrigado por tudo. Não sei o que dizer e nem como lhe agradecer. Falamos depois. Boa noite e durma bem.

Dirigi e voltei para casa. Entrei no quarto e Ellen permanecia dormindo. Lolita teria que esperar mais um dia para que eu voltasse a me ocupar dela. A lembrança dessa cena permaneceu adormecida, num canto da gaveta de memórias, e foi despertada apenas agora pelas palavras de Martyn. Já haviam se passado dez anos da cena.

– Foi a estatueta e não uma queda do banquinho numa travessura na cozinha, Terry. E por trás da estatueta estava Anna.

Pedi que explicasse melhor.

– Foi Anna, Terry. Foi apenas mais um acesso de fúria contra mim. Durante anos eu havia me acostumado às suas agressões, e colocava na conta da vida estressante que ela tinha na Bolsa de Valores. Aquele dia havia sido especialmente ruim para ela. Perdeu dinheiro e clientes. Estava frustrada. Eu fui pegar pratos para a gente jantar e um deles escorregou da minha mão e caiu. Era um prato que havia ganhado de sua mãe no enxoval do nosso casamento. Aquilo a enfureceu. Passou a gritar como se fosse a maior tragédia da sua vida. Quando tentei acalmá-la passou a mão na estatueta que estava na sala e a jogou contra o meu rosto. Sabe aquela meia face pedindo silêncio? Essa mesma. Tive tempo apenas de me defender com a mão. Ela se assustou com o som do objeto batendo contra o meu braço, mas mesmo assim nada disse e se trancou no quarto. Fiquei mais de uma hora sentado na sala esperando a dor passar, e só então resolvi ligar para você. Eu até pretendia lhe contar, mas não queria que você me julgasse e muito menos que tivesse sentimentos contra Anna. Bem sei o quanto você gostava dela e não desejava que esse acidente se tornasse uma barreira entre vocês.

Eu apenas escutava e não me atrevia a dizer nada. Martyn continuou.

– Essa não foi a primeira e nem a última agressão que sofri. Sequer foi a mais dolorosa. As violências morais eram muito piores e muito mais cruéis. Eu tinha vergonha daquele comportamento dela mas, como uma boa vítima, acreditava que eu tinha culpa, que deveria ganhar mais, não quebrar coisas, ser mais impositivo no trabalho ou ser mais romântico. Sei lá… a gente não sabe exatamente o que nos falta, mas acredita carregar essa culpa, pelo menos em parte.

Martyn continuava seu relato e eu não ousava interrompê-lo.

– As violências eram diárias e eu não sabia o que fazer. As brigas continuaram até eu descobrir do caso que ela teve com Peter. Essa foi a gota d’água, e foi quando eu fui até sua casa e pedi para dormir lá por uma noite. Na semana seguinte nos separamos.

– Sim, lembro bem que você anunciou o fim do casamento e me pediu para não insistir ou tentar contemporizar. Percebi que algo de muito sério havia ocorrido e resolvi oferecer apenas a minha mão para ajudar.

– Esta foi a derradeira violência, mas as brigas foram um problema que perdurou a exata extensão do nosso casamento. Depois disso nos separamos, eu casei de novo e nunca mais a vi. Queria lhe dizer mais uma vez obrigado pela sua compreensão, por não ter insistido com perguntas quando eu não tinha condições para responder. Obrigado por ter ficado em silêncio ao meu lado; significou muito para mim. Eu nunca falei disso para ninguém, e por razões óbvias. Um homem apanhar em casa é algo vergonhoso em uma cultura machista. Nunca falei para ninguém desses fatos, e jamais ameacei Anna com essa verdade, mesmo quando ela tentou me tomar um dinheiro indevido em nossa separação. A minha vergonha era tanta que nenhum dinheiro pagaria isso.

Eu continuava a olhar para Martyn para entender o significado dessa confissão. Não acredito em casos de violência e abuso onde não exista a participação de ambos na construção do enlace doentio, e no caso de Martyn não poderia ser diferente. Mas por certo que ele era a parte frágil do casal, o espírito mais dócil e submisso. No seu caso ficou bem claro como a questão física – aparte de ser importante – não é o único determinante para os casos de violência, inclusive física. Agora, depois da separação de Martyn e Anna (por quem eu até nutria amizade e afeto), ficou bem mais clara a verdadeira imagem de Anna. Em minha mente ela era uma perversa de funcionamento neurótico, com um longo histórico de perversão e abandono na família. Afastada de ambos os pais foi criada pela avó, que também recebeu seu quinhão de maus trator por parte dela. O que ela fez com Martyn durante os anos em que estiveram casados teve características de pura crueldade. Até hoje, sempre que penso em Anna, imediatamente me vem à mente a personagem de Juliette Binoche que contracena com Jeremy Irons no filme “Perdas e Danos”. Um filme brilhante e sombrio, que eu sempre lembro, mas não consigo rever. As histórias de mulheres agressoras não são muito exploradas em um mundo infestado de machismo, e numa cultura violentamente patriarcal a escuridão que emana da agressividade masculina eclipsa a sombra da violência feminina.

Martyn recebeu as garrafas da mão do garçom que imediatamente as abriu. Serviu meu copo e saboreou um pouco da cerveja, enquanto olhava para a rua cinzenta que aos poucos perdia os últimos raios de sol. Violências domésticas com “sinal trocado” é um tema que eu tenho contato há muitos anos por causa de alguns textos que li e por inúmeras histórias de consultório. No ambiente feminino em que circulei durante décadas o tema é tabu. Falar de “misandria” é como falar de “racismo reverso”; quando eu tocava no assunto a reação variava do escárnio à fúria, em especial perto de colegas feministas. Entretanto foram tantos os casos de abuso contra homens que eu acabei por me interessar pelo tema. Apesar de ser um assunto que me atrai reconheço que no contexto em que vivemos este será por séculos um assunto “marginal”, mas não menos doloroso.

Toquei no ombro de Martyn e disse com meus olhos o que ele já sabia: “Conte comigo sempre, parceiro. É para isso que servem os amigos”.

William F. Prescott, “So down there I can’t even see” (Tão lá em baixo que nem consigo ver), ed. Panacea, pág. 135

William Francis Prescott é um escritor, ensaísta, jornalista e produtor teatral americano nascido em Westbrook no Maine em 1965. Filho de um pastor protestante e uma enfermeira ele começou a escrever desde muito cedo para os jornais da escola. Em 1983 foi estudar na University of Maine em Augusta, onde cursou jornalismo. Logo depois da graduação casou-se com Lorraine Madison, e mudaram-se em 1995 para Nova York para trabalhar na Revista New Yorker como assessor de Roger Angell, quando então começou a se dedicar à reportagem esportiva, especialmente o Baseball. Pelos contatos na revista tornou-se amigo de Woody Allen, uma amizade que perdura até hoje. Escreveu seu primeiro livro de ficção, “Até que horas posso ficar?” em 1998 que logo se tornou um sucesso de público e de crítica, para posteriormente fazer carreira na Broadway, tendo sido estrelado por Patrick Wilson no papel do coronel Samuel Bakerston. Seu segundo livro, também uma comédia dramática, foi “Azul não lhe cai bem”, onde narra as desventuras de uma vedete do teatro de revista que se envolve com um cirurgião plástico apenas para conseguir uma cirurgia de mamas por preços módicos, mas percebe que seu namorado é um traficante de drogas cuja clínica médica é apenas uma fachada. Seu terceiro livro foi “Tão lá em baixo que nem consigo ver”, que é seu único livro de contos, recolhidos de histórias verídicas que colheu enquanto jornalista no New Yorker. Mora em Washington com sua esposa Lorraine e os filhos Jeremia e Alicia

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Crescer

Tão preocupados estamos em vencer as barreiras constritivas da infância que não percebemos o amadurecimento dos nossos próprios pais. Todavia, uma busca mais consistente pela memória e percebemos as nuances do crescimento que eles enfrentam. Meu pai aos 50 anos era muito diferente do que se tornou aos 90. Ele dizia, próximo do final da vida, uma de suas frases mais marcantes: “Não se passa um dia sequer que eu não escute o ruído estrondoso da queda de uma das minhas antigas convicções”. Ele não diria isso aos 50, mas aos 90 foi capaz de se postar de forma humilde diante do conhecimento e da verdade.

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Pudor

Há alguns anos, quando a exaltação da imagem e da individualidade ainda engatinhavam na Internet (antes do Instagram), eu escrevi uma frase provocativa no Facebook. Apesar de ser um convite ao debate, foi uma frase sincera, já que sempre foi a minha real percepção: “De todas as qualidades femininas, a que eu mais acho atraente é o pudor”. Sim, eu sei, era para provocar e para transgredir, fazendo um percurso no contrafluxo da cultura. Claro que muitas pessoas entenderam como um “conselho” para que as mulheres fossem “recatadas”, o que estava longe da verdade. Não se tratava de uma regra geral, uma prescrição ou uma análise de valor. Era tão somente o reconhecimento de uma característica minha, pessoal e subjetiva: o pudor é, para mim, atrativo. Pudor é sexy…

Entendo o pudor como a tendência a proteger a intimidade do indivíduo das invasões e dos comprometimentos. Na Grécia e Roma antigas, o conceito de pudor confundia-se com a modéstia, e para estas virtudes havia uma deusa, Aedos ou Aidôs. Em louvor a esta divindade existe um altar em Atenas e dois santuários em Roma. Ela – a modéstia – é uma das virtudes mais atacadas na modernidade, uma das mais desprezadas, sendo até confundida com falta de amor próprio. Para mim ela está mais bem representada na modéstia de Pitágoras:

“A modéstia de Pitágoras é muito sábia, pois que a profundeza e a dificuldade das verdades supremas, assim como a fraqueza da natureza humana, “escrava sob tantos pontos de vista”, são causa de que a sabedoria “não seja um bem recebido pelo homem a título de posse” ou de propriedade, isto é, um bem que ele possa empregar de modo inteiramente livre”. (apud Maritain)

O grande líder da Revolução chinesa, Mao Zedong, já nos dizia que “Só progride quem é modesto. O orgulho nos obriga a dar passos para trás.” Já o pintor e pós-impressionista francês Paul Cézanne mostrava que a modéstia, em verdade, nos aponta para a percepção de nosso lugar no mundo ao dizer que “A consciência da nossa própria força faz-nos modestos.” Por fim, o escritor e enciclopedista Charles Pinot Duclós escreveu que “A modéstia é o único esplendor que se pode acrescentar à glória. Ela é um véu transparente, que atrai e fixa os olhares”. Acho interessante debater a modéstia em um mundo de exaltação individualista e diante dos debates que sempre surgem a partir dos enfrentamentos entre o ocidente e o oriente. Passei a pensar sobre os véus exatamente por esta perspectiva: o que é mais “moderno” e em consonância com a liberdade, expor-se para todos ou mostrar-se apenas para quem você mesmo escolhe?

Hoje em dia eu, ao percorrer o Youtube, vejo a manifestação de atores, subcelebridades, personagens da mídia e pessoas comuns manifestando a absoluta falta de reserva no trato de sua vida íntima. Vejam, não se trata de abordar qualquer assunto – como sexualidade, política, feminismo, liberdade, direitos humanos, etc – mas da exposição desabrida da SUA intimidade. Mulheres descrevendo de forma realista e pormenorizada suas relações sexuais, homens falando de suas funções orgânicas da forma mais grosseira possível em uma exaltação escatológica, gente descrevendo as relações familiares (muitas vezes abusivas) sem qualquer reserva, expondo seus ódios, suas fantasias, suas vergonhas e seus amores para o mundo. Sem nenhum pudor.

Confesso que este tipo de exposição me incomoda, mas não se trata de “proibir” ou mesmo de “condenar”. Posso saudar a liberdade que temos de fazer estas exposições, mas ao mesmo tempo questionar qual o sentido do absoluto despudor. A quem interessam estas manifestações que rompem totalmente os limites entre a vida pública e privada? Muitos, dirão, movidos pela curiosidade mórbida, a mesma que nos faz diminuir a marcha do carro ao passar por um acidente. Sim, mas que serventia tem essa abertura da vida íntima para quem se expõe? Além da fama fugaz, o que sobra de sujeito a ser desvendado quando não há mais nenhuma intimidade a ser desvelada? Há alguns anos uma amiga me disse algo que me fez questionar minha posição sobre o “despudor”.

– Tenho um segredo que jamais contei para ninguém, e acho que não gostaria de morrer com ele. Posso lhe falar o que é?

Ela me contou o seu segredo, e o guardo até hoje. Entretanto, o fato de ser o guardião de sua história, algo que lhe produziu alívio e paz, me tornou muito mais próximo dela e de sua história. Fosse um relato corriqueiro, do conhecimento de todos, talvez não produzisse tamanha conexão. A modéstia, o pudor, a escolha precisa para quem se aventurar na exposição de suas coisas mais íntimas é o que produz essa sensação de ser especial para alguém.

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