A maternidade perfeita e a paternidade idealizada são fontes inesgotáveis de frustração. Durante 30 anos vi mulheres que se achavam as “Rainhas do Ninho” chorando copiosamente pela quebra de expectativas ilusórias com o nascimento de uma criança.
Também os pais sofriam pela incapacidade de lidar com todas as surpresas e crises inesperadas surgidas no puerpério e com as expectativas colocadas sobre eles por um mundo que já não aceita sua distância de tarefas que só recentemente estão assumindo.
Dar suporte a estes personagens – pais e mães – é garantir a eles apoio nessa tarefa complexa da parentalidade, mas também aos bebês, lhes oferecendo uma perspectiva de crescimento mais harmoniosa.
Sentado na cadeira à frente da escrivaninha de Mark eu não tinha a exata noção do que ele desejava comigo. Poderia ser apenas algum informe novo sobre nossa intervenção no Parque Halliburton e todas as questões ambientais envolvidas, que fortuitamente atrasaram a execução do projeto. Como uma ONG de proteção ambiental, era nossa tarefa combater os assentamentos irregulares que pudessem colocar em risco a delicada natureza que ainda sobrevivia em nossa cidade. Imaginei que Mark deveria estar ocupado desde nossa última reunião, há uma semana, quando discutimos a possibilidade de um patrocínio para nossa ação de proteção do banhado, o rio e as salamandras do Condado de Lippville. O oferecimento partiu do instituto “Century”, controlado pelo bilionário de origem romena Atanase Ardelean, conhecido por suas ações predatórias na bolsa de valores americana. Para além disso, é um pródigo financiador de rebeliões neoliberais, o que faz das doações a entidades identitárias uma perfeita cortina de fumaça a encobrir suas ações de reforço ao capitalismo sem fronteiras e sem barreiras, modelo que tanto admira.
Por certo que uma instituição como a nossa, a “Climate Green Challenge”, composta de ativistas que doam seu tempo e seus esforços para a construção de uma sociedade em harmonia com a natureza, precisa de ajuda – em especial de dinheiro. Entretanto, a Fundação Century nunca me pareceu confiável, em especial porque seu controlador é uma figura sinistra, ligada a ataques financeiros, cujas repercussões desestabilizam países inteiros. Não creio que seja adequado ou sensato valer-se do dinheiro de um sujeito que se tornou bilionário pela exploração dos trabalhadores, através do tráfego de influências e incentivando a miséria capitalista disseminada pelo mundo.
Na reunião passada, nossa colega Jesse expôs sua visão positiva sobre o aporte financeiro da Fundação Century para os nossos projetos, em especial a proteção do Parque Halliburton. Falou que muitas outras instituições já foram beneficiadas por este tipo de “grant” e que seria tolice não pleitear esse dinheiro; afinal, não era uma quantia advinda do crime e não estamos em posição de recusar ofertas. Eu escutei sua posição e resolvi responder com a visão que tenho sobre a Century e sobre o próprio Atanase. Minha opinião foi expressa em poucos minutos, porque nosso chefe Mark a todo tempo sinalizava para que eu a interrompesse em função do pouco tempo que tínhamos para encerrar o encontro. De qualquer modo, deixei muito claro que a situação era eticamente delicada, pois o envolvimento de uma ONG de ecologia com um bilionário internacional envolvido em inúmeras ações controversas poderia nos causar constrangimentos no futuro.
A reunião terminou depois de várias outros assuntos terem sido tratados. Desde aquele momento – e até antes disso – ficou claro para mim que eu era uma voz dissonante de todo o grupo. É bem provável que ninguém além de mim tinha informações mais detalhadas sobre a parte sombria da Fundação Century e muito menos sobre as controvérsias mais sérias a respeito do magnata Atanase. Para meus colegas tratava-se de uma instituição “do bem” e Atanase não passava de um filantropo moderno e progressista. Sabia eu também que, mais do que aceitar ou não esse tipo de verba, era preciso que todos avaliássemos com cuidado todos os pontos de vista, as perspectivas e as repercussões dessa iniciativa.
Finda a reunião tive a sensação que Jesse havia se sentido desconfortável. Quando questionei nossa possível união com a Fundação Century ela pareceu ter se sentido pessoalmente atingida. Afinal, a ideia partiu dela, e ela o fez com a melhor das intenções. Senti a necessidade de explicar a minha forma de enxergar a questão. Como tenho seu contato no telefone resolvi mandar uma mensagem para ela à noite do mesmo dia.
Conversa com Jesse
“Não quero mais polemizar sobre este tema, pois acho que apenas atrapalharei as decisões para serem tomadas pelo grupo, mas aqui está meu posicionamento em relação ao Atanase e em particular sobre o tema das suas ações em nível internacional”.
Assim comecei minha comunicação com ela, e depois disso mandei um texto elaborado sobre o histórico de Atanase Ardelean e sua instituição, mas é óbvio que o fiz diante da minha perspectiva marxista e anti-imperialista. Anexei posteriormente um vídeo explicativo de como essas organizações – como a Fundação Century e similares – podem ter intromissões deletérias nos países onde se estabelecem.
Ela respondeu de forma educada e ofereceu também suas explicações. Mandou um vídeo sobre a instituição de Atanase e a explicação sobre algumas de suas obras mais importantes. Percebi que suas informações não eram tão elaboradas quanto as informações que eu tinha, e ela parecia ter uma visão bem próxima do que eu classificaria como “senso comum” sobre o tema: Instituição do bem, bilionário generoso, progressista, a favor da diversidade etc.
Mantivemos esse debate via WhatsApp por mais de uma hora até quando fui dormir. No dia seguinte, acordei com um longo texto em que ela expunha a sua opinião – francamente contrária à minha – dizendo que minha perspectiva era constituída apenas por opiniões e análises confusas. Respondi que a atividade de Ardelean não podia ser entendida apenas pela ponta aparente, a “benemerência identitária”, mas no contexto político do capitalismo transnacional de “portas abertas” que ele propunha, o que é uma forma de manter a miséria e a exploração de vastas porções do planeta.
A conversa se manteve por mais 6 horas com idas e vindas. Por duas vezes, já cansado, me despedi da conversa e fiquei sem responder, mas ela insistia em atacar minha posição tratando-me como exagerado e radical. No final do debate deixei claro que reconhecia que a minha posição era minoritária – para não dizer isolada – e que o nosso grupo precisaria apenas fazer uma votação para decidir. Partiu de Jesse uma pauta consensual:
“Certo. Então proponho uma reunião de deliberação e votação no Colegiado. Porque as negociações estão avançando e o nosso escritório tem um encontro marcado com a Fundação Century na próxima semana para uma conversa inicial. Até que me digam o contrário eu estou avançando no projeto com o aval de Mark.”
Como eu estava cansado aceitei de pronto, até porque esta era exatamente a proposta que eu estivera o tempo todo perseguindo. Concordei dizendo apenas que desejava que todos estivessem cientes do que esta proposta significava. Terminei nosso longo diálogo dizendo:
“Concordo. Sei que serei o voto vencido, mas gostaria que todos se comprometessem com essa escolha. Não acho justo que alguém no futuro venha a dizer que “não sabia destas questões quando foram apresentadas”. Certo?”
Jesse apenas respondeu “Perfeito” e nada mais falamos. Diante das lembranças e acontecimentos de uma semana atrás, imaginei que Mark havia me pedido para ir à sua sala apenas para me dar informações sobre nossas propostas e ações em Lippville. Talvez estivesse interessado em ouvir também o meu ponto de vista sobre o Atanase Ardelean, o que não me parecia provável, uma vez que na própria reunião mostrou-se claramente favorável a este patrocínio.
Depois de alguns minutos Mark entrou na sala e me cumprimentou. Trazia um sorriso estranho no rosto e uma pressa tão grande em me dizer algo que não se permitiu sequer fazer um preâmbulo.
Mark
– Meu amigo, falei com Jesse há pouco, Ela ficou muito incomodada com a conversa que tiveram na semana passada. Disse que você enviou um quantidade enorme de textos e vídeos para ela. Usou também fontes suspeitas para falar da Fundação Century – como o New York Times. Por esta razão acabei de mandar uma circular para todos os nossos colaboradores. A partir de agora você estará suspenso das nossas reuniões. Sua conexão com o Whatsapp do grupo está cancelada. Você terá uma semana para pensar nas suas atitudes e para compreender que não pode usar estes veículos de comunicação desta forma. Na próxima reunião você terá tempo para defender sua proposta, mas não poderá usar as fontes que usou até agora – elas não serão aceitas. Sua atitude em relação a Jesse foi considerada assédio. Como ela se sentiu incomodada, e eu acredito que só a vítima pode dizer dos seus sentimentos, é assim que vou considerar. Ahh, e antes que eu me esqueça, você está com mensalidades da “Green” atrasadas, faça o favor de pagar o quanto antes.
Nos primeiros segundos fiquei em silêncio, atônito e estupefato, realmente confuso. Eu não conseguia acreditar no que estava escutando. Percebi que os meus olhos escureceram de raiva, mas respirei fundo antes de dizer qualquer coisa e correr o risco de me arrepender. Olhei com o canto do olho para o meu celular e vi que meu acesso ao WhatsApp do grupo havia realmente sido suspenso. Era verdade; Mark havia me expulsado do grupo após escutar apenas uma parte da história. Considerou como “assédio” uma conversa livre, educada e cordial entre duas pessoas. Imediatamente veio à minha mente a pergunta: “se conversar com alguém por WhatsApp sobre temas eminentemente técnicos de forma educada e cordial pode ser considerado assédio, o que não seria?” Se uma pessoa pode retrospectivamente – já havia se passado uma semana – perceber que uma troca de ideias com um colega poderia ser considerada como assédio, porque essa mesma conversa com Mark e qualquer outro diálogo que tive em 20 anos trabalhando nesta instituição não poderiam também ser considerados assédio? Por que esta troca de mensagens em especial merecia ser chamada desta forma mas as ligações de Mark para a minha casa durante os 20 anos em que concordamos e discordamos em diversos assuntos da instituição não seriam também criminosas?
Percebi também que o que movia Mark era um espécie de zelo pelo “politicamente correto” com as demandas femininas, mas que também é frequentemente usado com outras minorias. Partia do princípio de que a queixa de uma mulher é verdadeira até prova em contrário, uma inversão do ônus da prova que me obrigaria a provar que não cometi nenhum delito, e não a ela provar que algo criminoso ocorreu. A justificativa de Mark era uma velha conhecida minha: “a vítima sempre tem razão”, que é uma das maiores aberrações jurídicas criadas pelo identitarismo. Ela surge de um conceito bizarro, que eu chamaria de “legislação subjetiva”, ou seja, a ideia de que qualquer um cria suas próprias leis, derivadas de seus sentimentos e percepções subjetivas, mas que deverão ser obedecidas por todos. Assim, se sou negro, exijo que as pessoas ao meu redor usem apenas as palavras que eu permito, pois que algumas tem efeito negativo em minha subjetividade. Se eu for mulher, não aceito que determinadas expressões sejam usadas, e nem mesmo o uso de argumentos fortes e definitivos. Nesta perspectiva, o outro sempre carrega uma dupla posição: vítima e juiz, pois que não há uma instância de lei externa e neutra; o próprio sujeito que se coloca como vítima é quem decide se as palavras e ações alheias que lhe atingem serão lícitas ou não.
Jesse nunca reclamou de nada durante nossa conversa. Pior: ela retomou o debate no dia seguinte, quando para mim já poderia ter sido encerrado. Ainda mais, ela manteve a conversa em duas ocasiões, mesmo depois de eu ter encerrado o debate e ter me despedido dela!! Se há alguém que poderia ter uma base qualquer para se queixar de um fantasioso assédio este seria eu…. e não ela.
Por instantes fiquei pensando que durante nossa conversa eu poderia ter usado uma piada, um gracejo ou qualquer coisa que pudesse ter um duplo sentido, e que isso pudesse tê-la constrangido. Por sorte nossa conversa estava toda no celular e eu poderia investigar com cuidado se isso porventura tivesse ocorrido. Todavia, apesar dessa minha “culpa masculina essencial” eu tinha certeza que nossa conversa foi absolutamente técnica e tocou em vários aspectos delicados da ligação da “Green” com a Fundação Century. Nada pessoal, nada áspero, nada dúbio, nada confuso e nada que pudesse se configurar como “assédio”
Na medida em que os segundos iam passando, e ainda sem saber o que responder, peguei o papel da mão de Mark, que ele parecia estar tentando me oferecer. Era uma cópia do email mandado para todos os membros da diretoria e associados. Meus olhos cravaram na palavra assédio que se situava bem no meio da página impressa, pulava do texto e se chocava contra a minha retina. Lembrei que o termo “harassment” e o termo “abuse” em inglês têm um sentido mais geral, porém em português “assédio” e “abuso” ganham uma conotação claramente sexual. Qualquer membro da diretoria que pusesse os olhos nesse e-mail imediatamente pensaria que eu estava mandando mensagens pornográficas para a minha colega ou fazendo insinuações indevidas. Esta seria, por certo, a primeira primeira coisa que pensariam, a impressão inicial, mesmo que a maioria dos meus colegas conhecessem a mim e a minha família há mais de duas décadas. Era inacreditável o que estava diante dos meus olhos.
Não fui procurado para esclarecer qualquer problema por parte de Jesse. Ela se comportou como uma colegial, uma menina de não mais de 12 anos de idade, confusa com o debate que tivera comigo. Ao invés de escrever uma mensagem diretamente para mim – ou mesmo me bloquear – foi queixar-se para Mark. Diante da dificuldade de metabolizar minhas informações e meus receios com a parceria que estava para se estabelecer ela se refugiou no estereótipo da menina indefesa diante do homem opressor. Já Mark, num surto de autoritarismo e grosseria, resolveu me punir sem que eu tivesse a oportunidade de me defender. Pior ainda: me puniu institucionalmente por uma situação que só poderia ser entendida como privada, já que minha conversa com Jesse não ocorrera no ambiente físico da nossa instituição, em seu horário de funcionamento ou em uma ação na qual ambos deveríamos tomar decisões relacionadas ao nosso trabalho. Não, tratou-se de uma gentileza de minha parte de explicar particularmente a ela a minha posição quanto à Century, para não atrapalhar o ambiente da “Green”. Essa minha grande mágoa: no afã de proteger as mulheres criamos um modelo onde sua defesa pressupõe tratá-las como tolas, ignorantes, desqualificadas e frágeis – como crianças, incompetentes para tomar decisões e incapazes de estabelecer limites.
Adeus, Mark
Poucos segundos e estes pensamentos todos se acumularam em minha cabeça, mas eu nada conseguia falar. Era inegável que a questão não se resumia ao fato específico da minha conversa – repetindo, cordial e respeitosa – com Jesse. Havia algo de pessoal com Mark, uma mágoa, um ressentimento de algo que fiz ou deixei de fazer. Talvez – como saber? – algo relacionado ao que eu sou. Mais do que um malfeito, algo da minha essência que me tornaria insuportável aos seus olhos, e a crise criada por Jesse sobre uma troca de postagens privadas nada mais fez do que permitir que estes sentimentos eclodissem e subissem à tona. Talvez não se tratasse mesmo de uma questão “relacional”, mas “ontológica”. No entanto, eu nada podia lembrar que justificasse estas ações. Nossa amizade de mais de 20 anos não possuía nenhuma nódoa grave que pudesse produzir ressentimentos de minha parte. Tivemos centenas de conversas, até desentendimentos, ligações que Mark me fazia no meio da noite, domingos, feriados e a qualquer momento para me falar de seus problemas pessoais e até perguntar como eu estava. Da mesma forma, não conseguia enxergar algo em minhas ações que pudesse produzir tamanho ódio no meu amigo.
– Isso que você está fazendo é um absurdo, Mark. Minha posição a respeito da Century é clara, cristalina e simples. Minha opinião não é a “Verdade”, mas tão somente a minha perspectiva, que tem tanto valor quanto qualquer outra. Entretanto, conheço todos os colegas da diretoria e sei que eles enxergam esse problema com olhos diferentes dos meus. Não vejo problema algum em ser “voto vencido” em qualquer debate, porque durante toda a minha vida me postei no contrafluxo da vida, abraçando causas perdidas, utopias distantes e sonhos inalcançáveis. Sofri durante anos com os ataques dos poderosos que denunciei. Fui atacado, expulso, humilhado e agredido por todos estes anos e nunca reclamei porque sabia que lutar por estas causas minoritárias é apenas semeadura para que a colheita seja feita por outros, nas futuras gerações. Da mesma forma eu hoje tenho garantidos os direitos que muitos conquistaram para mim no passado, e vários pagaram com a vida por sua ousadia. Por outro lado, uma instituição como a nossa, que se propõe produzir um ambiente mais livre, com menos toxicidade e sem venenos não pode reproduzir em seu seio a mesma violência que combatemos quando usada contra a Natureza. Se pretendemos humanizar o meio ambiente, retirando dele o lixo que nossa ganância acumulou, é justo que façamos o mesmo com nossas relações pessoais. Ou então seremos apenas hipócritas, que encontramos o cisco no olho alheio e não percebemos a trave a nos obliterar a visão.
Mark manteve-se sério sem pestanejar. Iniciou a falar sobre as regras que eu teria que cumprir para a próxima reunião e, como um professor de escola primária, me deu conselhos de como deveria me portar, assim como pedindo que eu aproveitasse o tempo de suspensão para reavaliar minhas atitudes. Não havia como não me sentir um escolar de 60 anos recebendo um “pito” da professora.
Dobrei o papel com a cópia do e-mail e coloquei no bolso do casaco. Tentei me levantar mais senti que estava pesando algumas toneladas. As minhas juntas estava enrijecidas e os meus músculos tensos e doloridos pelo choque dos últimos minutos. Mesmo assim me coloquei de pé, estendi a mão para cumprimentar pela última vez Mark e falei sobre a minha despedida.
– Caríssimo Mark… nada disso será necessário. Sei que minha visão é minoritária e se você assim o desejar não será preciso sequer colocar este tema em discussão. Logo você vai entender. Todavia, acho importante esclarecer que não fiz assédio de tipo algum. Não incomodei ninguém e apenas debati com Jesse para que ela entendesse minha perspectiva. Não falei com mais ninguém sobre o tema além da minha manifestação na última reunião da Green, e apenas contactei Jesse porque ela estava à frente da proposta e não queria que ela pensasse que eu a estava desprezando. Em nossa última reunião manifestei minha inconformidade pela ligação da Green com este tipo de organização de forma clara e concisa, sem interromper outras falas e sem retomar o assunto depois de ter me manifestado. Depois escrevi um texto no WhatsApp com a minha posição, igualmente de forma educada, para deixar claras as minha motivações.
Suspirei com pesar e me preparei para finalizar a minha fala, controlando cada palavra para que elas não me traíssem e deixassem escapar a decepção que havia me tomado.
– Infelizmente, como fica claro a partir de agora, não há como continuar a trabalhar nesta instituição. Perdi completamente a confiança em você. Nada – literalmente – impede que qualquer um de nós telefone para a casa de um colega fora do expediente do trabalho para trocar ideias e, depois de um ato de cordialidade e amizade como esse, ser considerado um “assediador”. Não é mais possível correr este risco. Um lugar que cultiva esse tipo de relação está doente. Um lugar onde a confiança desapareceu não tem mais sustentação.
Baixei os olhos por uns instantes e finalizei.
– Espero que a Green continue em sua trilha de sucesso, em suas várias frentes de trabalho. Sei o quanto esta tarefa é importante e o quanto eu amei trabalhar aqui por mais de 20 anos. Aqui eu cresci, como ser humano e como cidadão. Sei da magnitude das responsabilidades e o quanto essa tarefa é prioritária no planeta, mas minha presença aqui se torna impossível. Eu jamais concordaria com o abuso que você está me submetendo, muito menos com as ameaças e as humilhações. Não tenho idade ou temperamento para aceitar este tipo de atitude. Também não quero mais ouvir o que você tem a dizer; eu entendo que isso foi produzido por uma terrível dor que você carrega, mas para a qual eu não tenho acesso e nem capacidade de ajudar. Peço agora apenas que aceite a minha saída e me esqueça. Que sigamos todos em paz.
Levantei-me sem dizer mais nada, enquanto Mark ainda tentou expressar algumas palavras para contemporizar. Apenas virei de costas e me dirigi à porta de saída. Olhei pela última vez para os quadros nas paredes, as fotografias, o azul do céu nas gravuras cheias de verdes e flores multicoloridas e abri a porta com a tristeza em carne viva na ponta dos dedos. Respirei o ar da rua e caminhei sem destino certo, à procura de um café que pudesse abrir as portas do entendimento, para que, assim, alguma luz pudesse entrar.
Anwar Fayed Ghazawwi é um escritor americano de origem palestina nascido em New Hampshire em 1958. Estudou jornalismo em Yale e passou trabalhar como correspondente de guerra por vários anos. Foi contemporâneo de Chris Hedges na cobertura da Guerra da Sérvia, tendo sido gravemente ferido na época durante um bombardeio em Saraievo, necessitando voltar para os Estados Unidos para terminar sua recuperação. Depois desse episódio cobriu muitos outros cenários de guerra, até o seu derradeiro: a Guerra dos 51 dias em Gaza, nos ataques israelense que resultaram em mais de 2500 palestinos mortos, entre eles 500 crianças. Depois desse episódio voltou para sua casa em Austin no Texas e passou a escrever sobre o mundo corporativo, que conheceu bem durante as coberturas de conflitos pois, segundo ele “a guerra é acima de tudo um grande comércio. Iludem-se aqueles que enxergam nela apenas patriotismo; há um quinhão de cobiça imenso em cada combate”. Seu primeiro livro foi “Empire of White Delusions”, em que trata das empresas escolhidas para a reconstrução do Iraque destruído pelo imperialismo e a corrupção que coordenava as ações das companhias que se debruçavam por sobre o espólio de milhares de mortos e milhões em destruição. Depois seguiram-se “The Carpet Crawlers” e finalmente “Top Business”, que conta a história de um magnata da indústria do petróleo que “mudou de lado” e resolveu se dedicar à luta pela ecologia e pela preservação da natureza e da vida silvestre. Anwar é ainda músico e toca saxofone na banda de “folk” “Terry versus Ohio”. É casado com Norma Barrington, uma advogada de Austin e tem dois filhos e 3 netos.
Sempre me interessei pelos significados últimos da riqueza e do poder, em especial a tentativa de entender personalidades onde estas características atingiam limites inimagináveis. Gosto muito da abordagem de Gore Vidal ao descrever os Césares como os homens mais poderosos da historia da civilização e o quanto esse poder desmedido era capaz de destruir suas almas; quase todos eles morreram loucos e desvairados, destruídos pela falta de limites ao desejo.
Hoje temos uma repetição curiosa, fruto do poder conferido a alguns sujeitos pelo neoliberalismo, o qual oportuniza a inédita, imoral e macabra concentração de renda atual. Ao lado de Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg está George (Schwarz) Soros e sua curiosa história, que poderia ser resumida como a revivescência de Roosevelt no seu intento de salvar o capitalismo através de um mundo sem fronteiras – Open Society – mas centrado no capital. Sua ojeriza ao socialismo o faz investir em instituições identitárias mundo afora e no combate aos governos autoritários e suas “sociedades fechadas”. Esta reportagem do The Guardian deixa claro o erro em pensar numa “sociedade de iguais” enquanto se investe num sistema de exploração que se nutre da miséria de muitos para garantir a opulência de cada vez menos.
Veja a excelente investigação do The Guardian aqui
Muito vi isso em meu consultório de psicologia. Em tantas histórias contadas se sobressaía um personagem, uma mentira ambulante atraindo como ímã alguém cuja carência a fazia acreditar em qualquer história, qualquer desculpa ou subterfúgio. Pior ainda: não havia forma de demovê-las do autoengano; inútil abrir-lhe os olhos à força. Só a dura, cruel e lenta confrontação com a realidade as fazia perceber, e por si mesmas, numa jornada solitária, triste e depressiva. Depois… a queda, o abismo, o vazio e a vergonha. E por quantas vezes somos obrigados a assistir o espetáculo grotesco da farsa sendo encenada bem à nossa frente, amordaçados pela ineficácia da razão diante da eclosão estupefaciente da paixão. Por certo que um pouco de nós sempre morre quando um amor nos trai. Os momentos de genuína parceria, as boas recordações, o companheirismo, os lamentos, as tristezas compartilhadas, as vitórias e as conquistas. Tudo se liquefaz, tornando-se um caldo de sentimentos confusos. Um gosto amargo de desesperança e culpa.
Gregoriański Nicolai Banacek, é um psicoterapeuta polonês nascido na Breslávia em 1965, tendo estudado na Universidade Jaguelônica (Uniwersytet Jagielloński), na Cracóvia. Escreveu várias obras no início da carreira em uma perspectiva behaviorista e baseada no trabalho de John Broadus Watson (1878-1958), que foi considerado o pai do comportamentalismo. Todavia, já na maturidade, em 2006, fez uma importante guinada profissional ao abraçar as teses lacanianas e a psicanálise. Além de “Dependências afetivas, mutilações da alma”, que relata 12 casos de consultório analisados na perspectiva analítica, escreveu também o recente “Nódoas, nós e trincheiras – dilemas da escuta”, onde persegue a narrativa do jovem oficial do exército Fiódor Olensky, um paciente neurótico grave com paralisias motoras e fobia de gatos. Atualmente mora em Bratislava e dá aulas na Universidade Comenius. É casado com a professora de piano Bozena Banacek e tem dois filhos, Haskel e Anninka.
A dor é maior quando o punhal que nos fere saiu da mão daquele irmão cuja alma um dia nos tocou.
Ferrer de Castel-Mayor, “Cartas a Endrigo”, Ed Verrigó, pág. 135
Ferrer Alfonso de Castel-Mayor foi um poeta espanhol (em verdade basco), nascido na cidade de Vitória (em basco Gasteiz, a capital oficiosa da comunidade autônoma) em 1912. Foi combatente na Guerra Civil Espanhola. Depois da queda da Catalunha para os liderados por Francisco Franco entre 1938 e 1939, e tendo ocorrido o isolamento das grandes cidades de Barcelona e Madrid, a situação militar dos republicanos, fiéis ao governo tornou-se desesperadora, e teve como consequência a tomada destas cidades, que foram ocupadas rapidamente e sem resistência. Franco declarou a vitória e o seu regime foi reconhecido pelo Reino Unido e pela França. Todos aqueles que durante os conflitos tiveram ligações com os republicanos derrotados foram duramente perseguidos pelos nacionalistas. Milhares de espanhóis de esquerda, artistas e intelectuais como Ferrer de Castel-Mayor fugiram para campos de refugiados no sul da França. Foi lá, em Nice, que Ferrer escreveu “Cartas a Endrigo”, a história da paixão entre dois homens combatentes e parceiros de luta nas brigadas de resistência. Muito se diz que as cartas eram direcionadas a Federico Garcia Lorca, morto por fuzilamento a mando do regime fascista de Franco, e que Endrigo seria seu alter-ego. Todavia, o principal biógrafo de Ferrer coloca esta hipótese em dúvida, ao citar o Comandante Javier Etxebarria, que poderia ter sido o destino das cartas, pois existe a suspeita de que eles teriam sido amantes durante os anos de combate. De qualquer forma, “Cartas a Endrigo” se constitui uma das melhores obras de poesia da primeira metade do século XX em língua espanhola. Sua crueza arrebatadora sobre as vicissitudes da guerra mostra um cenário de desesperança e degradação humana, e descreve o desmonte das utopias socialistas da Espanha. Ferrer viveu exilado na França até sua morte em 1975, sem conseguir ver a morte de Franco e a restituição da monarquia. Escreveu vários livros de poesia, entre eles “Borboletas de Sangue”, “Amaya rubra” e “Fortalezas de Papel”.
Tenho grande admiração pelas pessoas que seguem seus projetos e suas convicções mesmo depois da desaprovação da maioria. Esse tipo de persistência – cuja diferença da teimosia se descobre apenas a posteriori – é uma das mais importantes forças motrizes da criatividade e do crescimento.
Por trás de todo ato de genialidade humana encontramos um chato de comportamento obsessivo. Minhas homenagens a todos os inconvenientes e cabeças-duras que mudaram a história do planeta.
Quanto mais os homens ou suas relações parecem perfeitas no exterior e à vista desarmada mais garantido é que demônios habitam em seu interior. Desconfie da perfeição e da excelência, em especial aquelas autoproclamadas. A qualidade é humilde, a sabedoria silenciosa. Quando perceberes um compulsão insuperável ao autoelogio saiba que se trata apenas dos pequenos demônios de dentro querendo se expressar.
O jovem cavalheiro adentrou a loja e pigarreou discretamente anunciando sua presença. Vestia-se de forma simples e discreta, porém demonstrava asseio e cuidado. Tinha o cabelo curto e bem apartado, e suas unhas eram cortadas bem curtas. Na cabeça, o indefectível chapéu “Fedora”, última moda na capital, um artefato que leva o nome da peça teatral de Victorien Sardou, com Sarah Bernhardt.
A jovem Irma captou sua chegada com o canto dos olhos e manteve-se arrumando as flores e as samambaias da floricultura, como se a entrada do rapaz fosse um fato trivial. Todavia, ela sabia que a sua presença significava mais do que uma simples visita. Arrumou-se discretamente, mas manteve o olhar distante. Sabia o que sua entrada trazia e sabia também que hoje era o dia para definir o futuro desses encontros.
Ele passeava com os olhos pelo multicolorido das flores e as vezes acariciava com a ponta dos dedos as orquídeas, os jasmins, as rosas, as camélias, begônias, orquídeas, bromélias, ninfeias, ciclames, grevíleas, prímulas e os chefleur que se misturavam nas prateleiras. Dissimulava um vivo interesse, mas tanto ele quanto Irma sabiam se tratar de uma falsa curiosidade pelo mundo da botânica. Seu interesse era mesmo a jovem atendente, com seu vestido cinza e seus cabelos curtos.
Depois de ziguezaguear por entre as plantas da floricultura encontrou Irma no balcão anotando os pedidos para o fim da tarde. Quando colocou a mão sobre o balcão ela fingiu graciosamente uma surpresa, fechou seu bloco de anotações e sorriu timidamente.
– Como vai Irma? Estava passando aqui pela Barros Cassal e resolvi comprar umas flores para minha mãe. Você está bem?
Ela sorriu novamente e respondeu de forma mais fria do que ele esperava.
– Eu estou bem. Quer ajuda para escolher as flores? Temos lindos cravos e crisântemos que acabaram de chegar.
O jovem sorriu mas não se deu por vencido.
– Em verdade, as flores podem ficar para depois. Gostaria agora de saber sua resposta. Meu coração precisa de um repouso. Não posso mais viver nessa dúvida. Olhe, eu trouxe algo para você.
Colocou a mão em uma sacola que trazia consigo e retirou de lá uma pequena caixinha de papelão atado com fita azul. Como ela titubeasse para segurar o presente com suas mãos de dedos finos ele mesmo desatou a fita e tirou a tampa.
– Achei parecida com você. Linda, delicada, recatada e tímida. Quero que fique com ela, pois ela representa o sentimento que tenho por você.
Irma não sabia o que dizer, mas segurou a pequena figura de porcelana e vestido longo que o jovem colocou em suas mãos. A boneca tinha um rosto delicado e pálido, com bochechas vermelhas e cabelos curtos e loiros.
– Irma, você sabe o quanto gosto de você e eu sei que seu coração ainda não é meu. Entretanto, tenho paciência e posso esperar até que você esteja pronta. Além disso eu…
Irma interrompeu sua fala com a mão espalmada à frente.
– Por favor, não insista. Já conversamos sobre isso. Meu coração pertence ao meu noivo, Olintho. O simples fato de falar com você já me parece pecaminoso. Sou uma mulher comprometida e faria muito bem a nós dois que você não viesse mais a esta loja.
O jovem ainda ensaiou uma nova frase, mas foi interrompido com um “não”, seco e definitivo. A ele não restou nada além de levantar a aba do Fedora num gesto de despedida, saindo para nunca mais voltar.
Irma sentiu o peso da culpa saindo de suas costas. Foi até a ponta da loja e serviu-se de um copo d’água do filtro de barro. Ainda tremia de nervosa, mas sabia que fizera a única coisa certa. Respirou fundo, aguardou uns instantes e voltou ao balcão para finalizar a lista do dia.
Só depois de alguns minutos percebeu que a boneca permanecia sobre a mesa. Correu até a porta, olhou por toda a extensão da Avenida Independência, até onde seus olhos podiam alcançar, mas ele não estava mais lá.
Pensou em devolver, pois sabia seu endereço, mas isso a obrigaria encontrá-lo, o que não desejava. Esse encontro definitivo já havia sido por demais angustiante. Por outro lado, jogar fora uma linda boneca de porcelana lhe pareceu um crime, mas sabia que mantê-la consigo seria uma espécie de traição.
A solução veio simples. À noite, ao voltar para casa, deu de presente a boneca de porcelana para sua irmã Erna, que a guardou como a um tesouro por toda sua vida. Por nunca ter se casado sua irmã presenteou a boneca, já no fim da vida, à sua sobrinha Miriam Elisabete, que a guarda até hoje. Um século já nos separa da história de um amor frustrado, uma boneca de porcelana e uma bela moça comprometida que, alguns anos depois, estaria me segurando nos braços e a quem eu chamaria de “vovó Irma”.
Sempre me perguntei se haveria alguma razão para que eu fosse um sujeito romântico. Aqui vou conceituar “romântico” como alguém que acredita no amor entre duas pessoas, que pensa que uma relação assim pode gerar filhos e que constituir uma família pode ser um dos objetivos mais nobres da vida. Não se trata do romantismo de gestos externos como flores, bombons, declarações grandiloquentes ou, modernamente, carro de som na porta da casa – substituindo as serenatas. Não… apenas a crença no amor entre duas pessoas.
E vejam, coloco a crença no amor romântico apenas como mais um fetiche humano, tão válido quanto qualquer outro – cintas-liga, poliamor ou roupas de couro incluídas. É uma conexão afetiva de ordem irracional, portanto infensa às análises racionalistas e objetivas. Não acho que alguém se torna “superior” por se dedicar a essa fantasia, mas reconheço que os românticos assim definidos se tornam sujeitos mais fáceis para manter relacionamentos duradouros.
Escrevo isso porque arrumando livros antigos dos meus pais encontrei uma singela pista para o meu acanhado romantismo: uma carta que minha mãe escreveu ao meu pai uma semana antes de ganhar seu primeiro filho, meu irmão mais velho. A carta é um primor de romantismo, como não se encontra mais na literatura, mas também explica porque as mulheres nos anos 50-60 tinham muito mais facilidade para parir. O estado se espírito da minha mãe poucos antes do “grande dia” era de pura excitação com o que estava para ocorrer. Não havia uma linha sequer de angústia, preocupação ou temor, apenas uma viva ansiedade para ter seu filho nos braços…. e uma alegria imensa em poder cumprir aquilo que o “destino” havia legado a ela. Outros tempos, por certo…
Achei invasivo mostrar a carta inteira escrita por ela, mesmo que ambos já tenham partido, mas creio que a última frase é um primor de amor romântico e retrata bem as mulheres de sua época, que apostavam sua felicidade no amor profundo por seu companheiro e por seus filhos, dedicando-se uma vida inteira para que eles fossem felizes.
Lendo a derradeira frase daquela simpática missiva parece que estou assistindo uma novela escrita pela cubana radicada no Brasil Glória Magadan…
“My romance doesn’t need a castle rising in Spain Nor a dance to a constantly surprising refrain Wide awake I can make my most fantastic dreams come true My romance doesn’t need a thing… but you” Carly Simon – My Romance
Ultrassom 3D ou 4D(?) se refere a estas imagens que parecem moldes de cera com formato de feto dentro do útero, e são uma produção virtual cibernética e criativa que brota desse imenso campo das fantasias humanas.
Vou usar uma comparação tosca, mas que poderá servir de analogia.
Uma vez uma paciente me contou de um acidente terrível de automóvel que resultou na morte de uma criança de sua família. Depois de alguns meses a família enlutada procurou uma sensitiva, uma médium, que poderia trazer a palavra da criança já no plano espiritual. A paciente contou então do alívio provocado pela narrativa, ao saberem que a criança estava bem e que sua estada na terra foi abreviada um função de dívidas emocionais contraídas em outras encarnações. Estava feliz e tinha já encontrado o tio X, a vó Z e estava se recuperando do trauma de sua partida inesperada.
Não me cabe discutir a veracidade desse relato, e nem tem relevância aqui, mas apenas entender do que se constitui a mensagem da médium.
Diante do encontro com essa criança desencanada os fatos narrados por ela poderiam ser de dois tipos básicos: ela poderia contar uma história de superação, de otimismo, de positividade e de esperança, como de fato foi o relato que ela reproduziu à família. Por outro lado haveria outra possibilidade: ela poderia ter falado do seu sofrimento, da raiva, do ódio que ainda sentia e do ressentimento de ter sido expulsa dessa vida de forma tão abrupta. Poderia estar no “umbral”, sofrendo, consumida pelo ódio e pelo rancor, em especial contra as pessoas que não a protegeram ou que causaram sua partida precoce.
Pergunto: tendo diante de si uma família pesarosa, culposa, arrasada emocionalmente e destruída afetivamente quem diante desse quadro contaria a verdade, caso tivesse escutado da alma da criança a segunda versão? Conseguiria ser plenamente verdadeiro e fiel às palavras da menina ou mentiria, sabendo que esta mentira acalmaria seus corações e lhes traria a paz tão desejada, enquanto a verdade dura jogaria mais profundamente a todos no abismo de suas dores?
Eu acho que, inobstante a veracidade desses relatos, os videntes “mentem” (ou adocicam a dureza da verdade) para satisfazer aqueles que os procuram, pois sabem exatamente o que eles desejam – ou precisam – ouvir. É preciso ser movido por uma enorme crueldade para ser honesto e verdadeiro diante de tanta dor.
Nas ultrassonografias o programa “mente”, suaviza as bordas, preenche de forma automática as lacunas e falhas que o ultrassom não capta, acrescenta um colorido que os sons não reconhecem, oferecendo uma mentira que a todos agrada e satisfaz, além de aliviar as angústias e fantasias dos pais. Criamos um método baseado no falseamento das formas e na homogeneização dos contornos, mas curtimos essa mentira na medida que ela nos alivia a alma e diminui o peso das nossas ansiedades.
E nós todos caímos, claro, porque a angústia do desconhecido é mais poderosa do que as evidências e a própria verdade.