Medicina e Socialismo

Muitos médicos fazem da prática da medicina toda a sua vida, pois é dela que extraem seu valor social, seu significado e sua importância. Ter essa conexão com a profissão não é exatamente errado, mas é perigoso. Em primeiro lugar porque somos muito mais do que a profissão que abraçamos. Somos uma potencialidade infinita de funções e modos de ser. Somos pais, avós, filhos, escritores, marceneiros, empresários, cantores em potencial e ater-se apenas a uma forma de expressão pode impor uma limitação desnecessária a qualquer um de nós.

Muitas mulheres – e até homens – colocaram na sua relação amorosa todo o valor de sua existência. Como Florbela Espanca, dizem “tu não és sequer a razão do meu viver, pois que já és toda minha vida”. Alguns profissionais fazem o mesmo, e alienam sua existência a um ofício. Em medicina isso é muito comum. Todavia, creio ser importante criar outras formas de ser relevante e sentir-se produtivo. Ou, como diriam os apostadores, não devemos colocar todas as fichas (da nossa paixão) no mesmo número.

Em segundo lugar, a Medicina tanto abriga quanto oprime. Ela é uma mãe poderosa, amorosa e benevolente, porém possessiva e vingativa. Ao mesmo tempo em que lhe oferece um poder desmedido, valor social e dinheiro ela lhe cobra fidelidade. Para a imensa maioria de seus filhos essa fidelidade é oferecida sem queixas. Afinal, quem reclamaria do preço a pagar diante de produto tão valioso? Existem, entretanto, aqueles a quem sua fidelidade está direcionada a valores outros, como uma mente livre e sem amarras. Para estes a conexão à medicina e seus postulados só terá sentido se não afetar outros aspectos da vida, como a equidade, a justiça, os direitos humanos e a liberdade do sujeito de fazer suas próprias escolhas.

É nesse momento que os choques podem ocorrer. No caso da Medicina, a expressão da arte médica se faz no espaço que se forma entre a justa ação de proteção dos pacientes e a apropriação indébita da autonomia destes pelo jugo imposto pelo capitalismo. É nessa zona esfumaçada e incerta que operam os profissionais. Para a maioria, os abusos sobre a autonomia dos doentes são um preço baixo que eles devem pagar para a sua prometida segurança. Para outros, liberdade é a meta última, e qualquer ação que destrua a autonomia alheia será criminosa.

Uma mente inquieta sofrerá a inevitável dor e padecerá da angústia, do sofrimento e viverá em conflito quando estiver diante desse “imperativo de consciência”. Calar-se e acovardar-se diante da injustiça produz doença e martírio moral. Lutar causará dor, feridas, ressentimento e tristezas profundas. Consciência e postura ética cobram um preço deveras alto. Para alguns o embate será inexorável e muitos sabem que essa luta poderá não trazer qualquer resultado além do próprio sacrifício pessoal. Nesse aspecto a luta política pela conquista do socialismo emparelha seu caminho com a luta por uma medicina mais democrática. Não faz sentido que a luta pela saúde dos pacientes não incorpore a ideia de uma sociedade justa e igualitária. Imaginar que é possível tratar os sujeitos doentes sem se importar com as causas primeiras do adoecimento é fazer o jogo mórbido das indústrias que lucram com a doença e o martírio.

Baruch Espinoza, judeu sefardita holandês nascido em Amsterdã, resolveu fazer críticas à dogmas cristãos e à própria Bíblia que foram consideradas pesadas e inadequadas pela oficialidade da comunidade judaica, por agredir elementos essenciais do cristianismo. Estes rabinos, com razão, temiam que suas posições deixassem em risco os judeus que foram recebidos na Holanda após sua expulsão de Portugal pela inquisição portuguesa.

Apesar das pressões, Espinoza não se retratou, por fidelidade à sua consciência e pelo valor que dava à sua liberdade de expressão. Foi humilhado, excomungado e expulso de sua comunidade, vindo a se refugiar em um sótão para trabalhar como relojoeiro até o final de sua vida. Ele é, para mim, o maior exemplo de integridade e respeito a si mesmo. Muitos médicos que conheci – como vários colegas do Brasil e do exterior – seguem esse padrão ético e pessoal. Muitos deles tem marcas na alma das lutas incessantes contra um sistema cruel cujo respeito à autonomia dos pacientes não ocupa o lugar central que deveria ter na ação terapêutica. Para estes minha reverência e meu respeito.

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Puritanismo no Século XXI

“A jovem puritana”, de David Lipsy

O puritanismo do século XXI, em especial no que diz respeito à sexualidade, é um projeto social absolutamente bizarro. Por trás de uma ideia nobre – a proteção das pessoas contra os abusadores – produziu um sistema social onde a exaltação das virtudes físicas e da atração sexual se tornaram pecaminosas. Ele prejudica mais as mulheres do que os homens, mas sua abrangência e pervasividade na cultura são inacreditáveis. A própria exaltação da beleza feminina e sua inefável sedução passaram a ser vistas como criminosas ou “diminutivas”. O sexo agora é tratado como um contrato asséptico. A beleza passou a ser ofensiva. Qualquer aproximação masculina, pela imantação do desejo, é vista como potencial assédio.

A resposta que me dão é “ahhh, você fala isso porque nunca foi abusado”. Até fui, mas não acho que minha experiência traumática possa servir de regra para o resto do mundo. A cura para a violência sexual jamais será o puritanismo inútil ou a penalização do desejo!! Não se combate o abuso destruindo a paixão e o próprio sexo.

O puritanismo daqueles personagens que dizem defender as mulheres é inacreditável em sua criatividade. E não se trata de um fato isolado; é uma narrativa disseminada que pretende retirar das mulheres qualquer resquício de erotismo, transformando-as em almas impolutas e destituídas de um corpo desejável.

Hoje mesmo minha amiga me dizia que dá graças a Deus ter nascido nos anos 70. Eu, que nasci na aurora dos anos 60, digo o mesmo. Eu me vejo MUITO mais prafrentex e na crista da onda que essa legião de Boko-mokos que perambulam por aí com proibições cafonas. Vejo garotos perdidos e culpados em relação aos seus desejos, martirizados pela atração que sentem pelas meninas, cheios de dedos apontados. Mas vejo igualmente meninas desencontradas, confusas, igualmente culposas, sem saber o que fazer com seus desejos tornados conflituosos.

Falo desse tema porque fui adolescente durante os anos 70 e 80 e fico chocado com a liberdade que tínhamos naquela época, e o quanto disso foi retirado pela onda puritana que assola o mundo. Hoje não é mais permitido “sexualizar o corpo das mulheres” – como se corpos não fossem naturalmente erotizados. Isso é um escândalo. Mulheres não podem mais exercitar sua sexualidade narcísica fora das regras de grupos que tem controle sobre a política dos corpos, e nós homens temos que curtir essa culpa tola por objetualizar seus corpos. O que está acontecendo com o mundo? Por que agora, depois de termos ultrapassado séculos de constrição, a livre expressão do desejo e da própria sexualidade passa a ser pecaminosa de novo?

Mas isso nem é o pior… as vezes imagino o que seria do nosso país se a genialidade de Chico Buarque tivesse esperado algumas décadas a mais para descer à Terra e somente agora resolvesse nascer e ser músico. Chico não poderia cantar NENHUMA de suas canções, pois que todas elas seriam vetadas pela Santa Inquisição da Pureza Virginal.

Felizmente Chico veio antes e escreveu essa pérola, apenas para dizer que essa onda puritana é essencialmente uma agressão à natureza…

“O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido”

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Parto e Fotografia

Hoje é difícil de avaliar, mas o impacto há 20 anos passados dos primeiros slideshows sobre parto foi incrível. Eu lembro das lágrimas das pessoas quando assistiam nos congressos que eu participava, e como isso tocava a todos de forma tão intensa. O parto e sua estética foram redescobertos com a popularização das câmeras fotográficas digitais. Eu lembro de uma aula que fui dar sobre parto normal e parto de cócoras no Hospital da Aeronáutica em meados dos anos 90 e recordo a dificuldade que havia para conseguir imagens de parto. Qualquer uma. Era preciso procurar em livros, ou em revistas médicas para falar de posições, episiotomias, coroamento, etc. A iconografia do nascimento era inexistente, ou dificilmente acessível. A internet virou tudo isso de cabeça para baixo.

Naquela época, algumas mulheres me diziam no consultório que achavam bizarro ter um filho nessa posição “verticalizada” porque o bebê poderia “cair lá de cima”. Então eu me levantava e fazia como o Moyses Paciornik: ficava de cócoras com a bunda quase tocando o chão e dizia para elas fazerem o mesmo. Depois eu explicava que, para o bebê ter espaço para nascer, precisava até subir um pouco as nádegas. Essa demonstração, para muitas delas, era reveladora. A imagem era um fator impactante para um mundo onde o parto havia sido escondido das pessoas – inclusive as mulheres – pelo processo de medicalização e hospitalização. Quando foi possível enxergar de novo como era um parto, com toda sua potência crua e feminina, foi como um portal se abrindo.

Para poder mostrar às minhas pacientes como era o processo de partos pedi licença para fotografar algumas gestantes no plantão do SUS que eu fazia na época. Esses bebês hoje tem por volta de 25 anos de idade. Eram fotografias com câmera Kodak de filme de rolo comum, e as tenho até hoje, mas na época provocaram um forte impacto nos casais que as viram. Finalmente eu comprei uma máquina digital jurássica que meu irmão mandou dos Estados Unidos por volta de 1995. Era uma Kodak DC50, uma espécie de tijolo cinza, enorme, que podia tirar umas 7 ou 8 fotos antes de precisar descarregar no computador, e custou uma pequena fortuna (uns 250 dólares) em uma promoção. As imagens eram de baixíssima resolução, mas essa máquina me permitiu fazer os primeiros slideshows com um programinha que vinha em um CD vendido nas bancas de jornal.

Lembro bem da reação que eu tive ao terminar o meu primeiro projeto: estava sozinho no consultório e caí em um choro convulsivo depois de assistir. Então liguei para uma doula amiga minha – e que estava no parto fotografado – e disse a ela que tudo o que a gente passava de perseguição e violência valia a pena, pois o parto era um milagre, uma beleza sem fim. Sim, mais parecia papo de bêbado, mas minha droga era apenas ocitocina.

“Birth is all about rithym” já dizia Penny Simkyn, e a combinação da música com as imagens de parto oferecia a sintonia adequada para acompanhar as modificações fisiológicas, emocionais, psíquicas e espirituais que estavam acontecendo. As músicas, com as imagens sobrepostas, nos faziam viajar nas emoções do parto, reviver cada passo, cada sentimento, cada momento de tensão e cada emoção pela chegada de uma nova vida. Com o tempo foi possível filmar, mais do que apenas fotografar. Meu filho Lucas, que morava em Londres, comprou uma pequena filmadora e me deu de presente. A partir daí todos os partos eram filmados e todas as pacientes recebiam um CD de presente, o qual chamávamos de “resgate da memória”, para que ela pudesse ver e recordar cada momento que a amnésia da ocitocina lhe havia privado em seu parto.

De todas as coisas que sinto falta na atenção direta ao parto uma das mais significativas é a adrenalina de sentar na frente do computador e viver de novo cada instante do parto que tínhamos acabado de auxiliar. Uma sensação inefável, grandiosa e inesquecível. Por isso eu sempre digo que sou o sujeito mais afortunado do mundo. Apesar da violência com que minhas propostas foram recebidas, e das injustiças que tive de suportar, passar 34 anos cuidando de gestantes torna a vida de qualquer um valiosa e abençoada.

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Medicina e Lucro

Logo após me formar fui trabalhar como médico no hospital da Aeronáutica. Lá implantei um sistema de redução de cesarianas muito simples e prático e que deu muito certo no tempo em que lá trabalhei. Descrevi isso no livro da Robbie – “Birth Models that Work”. Ok, mas isso é outra história. Pois, como eu estava dizendo, eu trabalhava apenas meio turno no hospital da Aeronáutica e, por esta razão, comecei a atender em uma Policlínica, que aqui nós apelidávamos de “trambiclínicas“.

Estas são (ou eram) clínicas privadas que fazem contrato com empresas para oferecer assistência aos seus funcionários em atendimentos de ambulatório e hospital. A regra era a mesma de qualquer negócio: minimizar despesas e maximizar lucros. O pagamento aos médicos era ridículo; só recém formados se dignavam a atender lá, como forma de adquirir experiência e ajudar a pagar a prestação do fusca. A rotatividade era alta; quase nunca as pacientes completavam um tratamento com o mesmo profissional.

A policlínica nem existe mais. Aliás, quase todas elas foram tragadas pelos convênios médicos. Afinal, por que pagar pelas instalações de uma clínica se você pode usar o consultório do próprio médico para realizar as consultas? Ele que arque com as despesas para mantê-lo – secretária, impostos, água, luz, etc. Bingo!! Uma forma de terceirizar despesas e manter os ganhos. Nessa empresa a fonte principal de recursos era a Pirelli, empresa de pneus de uma cidade próxima. Era esse o contrato que sustentava a clínica, e por isso todo o cuidado era dado a ele.

Certa vez atendi uma paciente por esta policlínica que acabou fazendo uma cesariana. No dia seguinte ao nascimento do bebê recebi uma mensagem no BIP (sim, sou velho nesse nível) pedindo para ligar para a direção da policlínica. Liguei e fui atendido pela secretária do “chefe” que, justiça seja feita, não era médico, mas administrador de empresas.

– Dr. Fulano disse para o senhor dar alta para a paciente.

Pedi para repetir porque não entendi direito a mensagem e ela voltou a dizer exatamente a mesma frase. Perguntei a razão e ela explicou que “esse convênio da Pirelli custa muito caro para a policlínica, e não tem como ficar mais de dois dias”. Expliquei que uma alta é responsabilidade apenas do médico que presta o atendimento e que um administrador não pode determinar isso por conta de fatores econômicos. Ela insistiu e disse que eram “ordens do chefe”.

Eu disse a ela, então, que ele próprio me ligasse ou viesse me falar isso pessoalmente. Ela desligou o telefone e ele jamais veio tratar do assunto comigo. A paciente teve alta no dia correto e eu pedi demissão na semana seguinte. O caso da Prevent Senior (os kits de Covid distribuídos sem o consentimento de pacientes) só causa surpresa em quem não conhece a tragédia que é transformar saúde e acesso à medicina em um negócio lucrativo. Não tenho nenhuma dúvida que histórias banais como esta estão na memória de muitos médicos que transitaram por estes caminhos. Medicina e lucro são coisas que jamais deveriam se misturar. Saúde é um direito humano, não algo que pode – ou não – ser comprado por quem padece por uma doença.

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Sexualidade masculina

Vocês bem sabem que não sou psicólogo, psiquiatra ou mesmo da área psi. Tudo o que falo é por que sou velho, e os velhos acumulam informações e pensamentos em demasia. Estes, ao mesmo tempo que queimam os folículos pilosos da cabeça, precisam de expressão sob pena produzirem constipação e gases.

Li agora uma placa numa escola americana sobre o “dress code” das alunas, dizendo que cada vez que a escola reclama do comprimento do short – ou da alça do sutiã das meninas aparecendo – estão perdendo uma oportunidade de educar os meninos de que as garotas não são “objetos sexuais”.

Desculpem ficar chocado com isso, mas eu realmente não entendo como pode este discurso ser ainda tão prevalente.

É claro que os abusos devem ser coibidos e até punidos, em especial na escola, pois ali temos crianças em formação. Devemos impedir ao máximo que meninas tenham seus corpos tocados ou invadidos sem autorização. Devemos educar sobre “body shaming”, “slut shaming” (desculpem os anglicismos) e qualquer ato que desmereça as meninas e suas capacidades. Porém…

Meninas são objetos sexuais e não há o que se possa fazer sobre isso. É da nossa constituição psíquica desejá-las. Pedir para um adolescente parar de olhar para as meninas como objetos sexuais faz tanto sentido quanto solicitar a um gay que não tenha pensamentos… gays.

As mulheres são objetos de desejo dos homens desde os primórdios, e só por isso estamos aqui. Por outro lado, é claro que não gostamos da palavra “objeto”, pois ela coisifica pessoas, entretanto o erro está apenas quando REDUZIMOS alguém à condição de objeto, quando todas as suas outras dimensões subjetivas, sociais, emocionais e espirituais são apagadas para ressaltar apenas sua “persona sexual”. O mesmo é feito com os proletários, retirando deles a condição de sujeitos e reduzindo-os apenas a engrenagens inominadas de uma máquina de produção. Portanto, não está na essência, mas na forma como objetualizamos alguém, e na extensão dessa coisificação.

Mas o que me apavora é a ideia que existe por trás deste tipo de cartaz. Parece que, pela brutal incompreensão do que seja a sexualidade masculina, algumas pessoas imaginam ser possível perverter sua expressão para um modelo mais “adequado”, “civilizado”, ou quem sabe mais “feminino”. E veja, não se trata de modificar os modos machistas que ainda persistem – com o que todos devemos concordar – mas mudar a própria essência do desejo objetual masculino, fazendo os homens deixarem de desejar as mulheres, suas formas e seus encantos.

Quem em sã consciência consegue imaginar alguém em uma escola doutrinando meninos adolescentes para que não olhem e não sonhem com as meninas sem que isso esteja em um sketch de comédia juvenil?

Acho que ultrapassamos os limites quando ao invés de combatemos o machismo, a violência de gênero, os abusos, as humilhações e as agressões culpamos a própria sexualidade masculina, como se ela fosse, “equivocada” e suja. A modernidade produziu uma noção curiosa: o desejo masculino heterossexual é o “desejo errado”. Ao invés de tentarmos coibir o machismo e suas ramificações na cultura procuramos inutilmente anular o próprio desejo masculino, o que me parece apenas sexista e criminoso.

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Pouca mesmo

Meu caríssimo amigo Maximilian, depois de meses sem dar as caras, ligou esta manhã para um longo choramingo a respeito de figuras pouco iluminadas que atravessam seu caminho. Lá pelas tantas, depois de gastar sua artilharia de adjetivos, soltou essa pérola:

– … e depois, sem mais delongas, voltou a vomitar platitudes, escorregando em sua verborragia viscosa, demonstrando não passar de mais uma vítima da pocanálise, que a tantos incautos ataca…

Perguntei porque ela seria uma vítima da “psicanálise”, pois jamais me ocorrera que ela um dia tivesse se embrenhado na escuridão solitária e fria desta aventura pelo discurso. Ele me respondeu:

– Você ouviu errado, ela é vítima da “pocanálise”, mesmo, um escasso ou insuficiente transcurso pela escuta de si mesma, o que a faz repetir autoelogios e a torna cega para as reais motivações que guiam sua vida.

Ahh, entendi. E acho que sim; uma análise faria maravilhas naquele corpitcho

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Entre a Luta e a Resistência

Eu as vezes acho que as esquerdas, ao serem tão pró-establishment, fazem o jogo que a direita gosta e aplaude.

Pensem bem; Bolsonaro foi eleito com um discurso anti sistema, contra os poderes, contra o “globalismo”, criticando as grandes corporações. Em suma, contra o mundo inteiro, tal qual ele se apresenta a nós. Por causa disso, por representar a mudança (falsa, é verdade) ele angariou milhões de simpatizantes. O discurso de contraposição aos governos, de revisão de valores, de mudança de modelo econômico e de reversão de valores foi cooptado pela direita.

A direita, assim, se tornou proativa, colocando a esquerda como reativa, acuada, nas cordas, na defensiva. A esquerda entregou a narrativa à direita, e se adaptou à condição de “resistência”. Isto é, “vamos resistir ao que eles fazem conosco”. Passividade assumida. Assumimos aquele cartaz infeliz de algumas marchas “Parem de nos matar!!”.

Para quem viveu a ditadura, a abertura democrática, a constituinte e viu ressurgir a esquerda no Brasil testemunhar o grito “Obedeçam às autoridades” vindo do nosso campo é muito estranho. Bizarro, eu diria. Oferecer essa narrativa de enfrentamento aos mauricinhos não me desce pela garganta.

Vejam, por exemplo, a pandemia. Não vou me ater à eficácia de qualquer tratamento, mas a postura da direita foi desde o princípio como contestação do status quo. Inobstante estar equivocada, a direita se mostrou crítica e contestadora, enquanto a esquerda se mostrou submissa à autoridade, seja da ciência oficial, da OMS, das empresas farmacêuticas, da TV, dos grandes conglomerados industriais. Empresas mafiosas multinacionais tornaram-se heroínas nesta batalha, as mesmas cujas práticas foram historicamente denunciadas pelos partidos à esquerda. Desde quando Bill Gates e George Soros poderiam servir de exemplos para socialistas??

Mesmo no meio da paranoia e das teorias de conspiração mais fajutas, é notável o empenho da nova juventude de direita em produzir mudanças no cenário atual de crise aguda do capitalismo. Por certo que elas se resumem ao aprofundamento da distância entre as classes, mas ao menos a eles é oferecida a honra de lutar contra os gigantes do capitalismo “globalista”. Eles se esforçam em fazer, enquanto nós nos acomodamos na re-ação.

Enquanto a esquerda glorifica seus antigos adversários, oferecendo apenas complacência e concordância, a direita seduz os jovem a lutar “contra tudo isso que tá aí, taokey?

A direita procura heróis, a esquerda mártires..

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O Especialista

Outro tema que eu considero interessante é o surgimento do “especialista”. Quando se fala essa palavra imediatamente associamos “qualidade” ao sujeito que a carrega. “Pode ficar seguro, ele é especialista no assunto”. Pois eu sempre tive reservas quanto a essa tendência, porque considero o culto à especialização é algo claramente limitante.

Meu pai, ao contrário, era um generalista. Meu avô paterno também. Ambos eram capazes de falar sobre qualquer assunto com desenvoltura. Eram curiosos, guardavam “cultura (in)útil”, contavam histórias, conheciam lugares, tinham uma percepção abrangente do mundo, possuíam uma curiosidade ativa e um pensamento crítico aguçado. Gostavam de se definir como “livres pensadores”.

Todavia, não eram especialistas em nada. Não se dedicavam a uma parte apenas do conhecimento. Tinham essa visão abrangente da cultura e do conhecimento, e gostavam dessa perspectiva que tinham do mundo.

Pois eu creio que os especialistas, na estrutura tecnocrática da sociedade, acabam se tornando perigosos. Pedir a opinião de alguém que enxerga o mundo pelo funil de sua especialidade é sempre arriscado. Pedir que um especialista em parte elétrica avalie um motor o fará olhar para ele por este viés. Nos médicos isso é sempre complicado, porque se criou a ideia equivocada de que o especialista é um sujeito mais qualificado, o que é um erro. Bem sabemos o que os especialistas em patologia obstétrica tendem a pensar sobre partos. Os médicos generalistas deveriam ser 80% da assistência à saúde no Brasil, e os mais bem pagos, exatamente porque 80% dos transtornos da saúde entram no escopo de ação desses profissionais.

Infelizmente a perspectiva que valoriza o especialista ainda é hegemônica na sociedade. Entretanto, creio que eles deveriam ser acionados apenas nas raras situações em que um saber muito específico precisa ser acionado. Infelizmente não é assim, e todos os dias vejo gente consultando especialistas de forma equivocada, em situações nas quais o generalista daria conta do recado de forma muito mais rápida, segura e justa.

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Diferenças

Tenho uma tese que carrego há décadas. As divergências morais e intelectuais entre os humanos são muito pequenas. Assim como nas minúsculas diferenças genéticas que temos com nossos primos primatas, as distâncias entre gênios e sujeitos comuns são ainda menores. No grande espectro são desprezíveis. As nossas discrepâncias são muito menores do que as semelhanças. Ainda mais posso dizer entre gêneros e “raças”. Não há qualquer diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, ou entre qualquer etnia.

A diversidade observada pode ser facilmente explicada pela história e pela geopolítica dos últimos 80 séculos, o que não é nada se levarmos em conta que isso representa menos de 5% do tempo em que vivemos na Terra. Exaltar um grupo especial ou desmerecer outro com essencialismos provou-se tolo e sem embasamento. Acreditar que homens são mais burros ou violentos que mulheres e que negros são mais nobres que brancos – e vice-versa – só serve a quem semeia divisões e mentiras.

Não é apenas a quantidade de informação o elemento essencial para a valorização de um profissional, mas o valor que se dá às pessoas que realizam estas funções. Não fosse assim um astrofísico ganharia mais do que um astro… de futebol, e uma professora ganharia o mesmo que um médico e assim por diante. A valoração que damos é muito mais política e cultural do que baseada no acúmulo de saberes e técnicas.

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Especismo

Chorar por um golfinho ou uma baleia mortos na praia é um sentimento nobre; já saborear um atum não causa nenhuma crise de consciência na imensa maioria de nós. São todos grandes animais aquáticos, mas um deles não desperta empatia. Por quê?

Não é “amor aos animais” o que nos faz sofrer por eles, pois amamos apenas alguns. Cães, gatos, cavalos, baleias, golfinhos, mas jamais ratos, baratas, mosquitos, gambás, cobras e escorpiões. Nossa seletividade ocorre porque nosso amor é por nós mesmos, pois nosso sentimento só se revela quando é possível SE VER no animal. No fundo é a identificação quem determina o afeto.

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