Tchutchuca

Para mim, conforme já disse em outras oportunidades, o grande erro – que a própria imprensa ratifica de forma sistemática – é considerar o CFM como um órgão preocupado com a saúde da população ou com a cura de doenças. Isto é um equívoco. O CFM se preocupa com os médicos – seu valor social e sua importância – a Medicina e seu significado na cultura. NÃO É função do CFM proteger pacientes. Para isso outras instâncias precisam ser criadas. Sugiro a “Ordem dos Pacientes”.

É evidente a impropriedade de misturar saúde e lucros, e o absurdo de ainda termos sistemas de saúde e profissionais que lucram com a doença e/ou com a piora dos pacientes. Por outro lado, muitos ainda continuam acreditando que o CFM tem alguma responsabilidade com a saúde das pessoas ou mesmo com a boa prática médica. Não!!! Estes órgãos existem para proteger os médicos e a Medicina – os quais realmente precisam ser protegidos. Uma sociedade que não protege médicos e profissionais da saúde que atuam na fronteira entre morte e vida produz caos e ações defensivas. Todavia, cobrar dessa instituição que zele pela saúde dos pacientes é um erro que precisamos corrigir com a criação de uma CFP – Conselho Federal de Pacientes, órgão responsável para defender os pacientes contra práticas anacrônicas e prejudiciais, como o abuso de cesarianas, kristeller, episiotomias, circuncisão ritualística e outras práticas sem evidências em todas as áreas da medicina.

Limpar a barra da categoria vai levar muitos anos, porque o problema não é de agora. O que testemunhamos nesse momento é o problema escancarado; porém os médicos assumiram uma postura reacionária e contrária aos interesses nacionais desde a eleição do segundo mandato de Dilma. Foram os médicos que tomaram a frente dos ataques misóginos a ela. Estavam lá debochando do AVC de dona Marisa ou na morte do neto de Lula. Foram os médicos que se recusaram a atender crianças (!!!) filhos de pais de esquerda. Colaboraram com a desestabilização. Atuaram como frente de ataque ao PT assumindo como fala principal os discursos de extrema direita.

O CFM está lotado de bolsonaristas da pior espécie. O episódio da pandemia é apenas o coroamento de uma postura anti-SUS, antipovo, aristocrática, arrogante e perniciosa para a saúde da população. A solução para a Medicina só vai ocorrer quando houver uma transformação radical no sistema de ingresso, impedindo que ocorra o sequestro de uma profissão pelos filhos da classe abastada, que pouco entende e quase nada conhece da realidade da saúde brasileira. Infelizmente a Medicina brasileira é arrogante, alienada e autocentrada. Os professores são aristocratas sem vinculação com as populações marginalizadas.

Sei que é uma generalização e que existem exceções importantes e atuantes, mas são minoritárias. A face da medicina brasileira não é boa, e isso ficou muito claro com a deplorável atuação do CFM no desenrolar da crise sanitária.

Esse mesmo CFM que ataca médicos humanistas e promove perseguições covardes a eles e à enfermagem, é a instituição que jamais mexeu um dedo para questionar os médicos que promovem abusos de cesarianas. Já parou para pensar a razão dessa dupla moral? Ora… o CFM só ataca quem ameaça a supremacia médica ao questionar suas ferramentas de intervenção. Jamais quem as usa de forma abusiva e perigosa, colocando em risco a integridade de pacientes.

Ou, como se diz no popular…“Feroz com humanistas, tchutchuca com cesaristas”.

Veja mais aqui na matéria do El País

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Positivismo e Medicina

A ideia de uma medicina monolítica é anticientífica e totalitária

O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma verdadeira de conhecimento verdadeiro, desconsiderando todas as outras formas de aquisição de conhecimento que não estejam subjugadas ao método aplicado pela ciência. Estes outros saberes serão, desta forma, considerados como domínio teológico-metafísico, que se caracteriza pelas crendices, mitos e superstições. Para o início do século XIX, estas ideias de Auguste Conte e John Stuart Mill seriam, por certo, muito avançadas. Todavia, com o surgimento do capitalismo transnacional e, em especial, a explosão da indústria químico-farmacêutica do pós guerra, as descobertas científicas no campo da medicina farmacológica adentraram o grande mercado dos lucros e das concorrências, fazendo com que as descobertas destas gigantes industriais sejam mais pautadas pelo seu sucesso em vendas do que pela real capacidade de tratar e curar doenças.

Hoje em dia, em função da pervasividade dos medicamentos na cultura ocidental, temos a ideia de que as inovações medicamentosas e farmacêuticas são elementos propulsores do progresso, oferecendo a estas empresas uma confiança muito além do que seria justo. Entretanto, a história recente nos mostra que a “BigPharma” – conjunto de empresas multinacionais de drogas – é por certo um dos conglomerados mais corruptos já criados pelo capitalismo moderno. Mesmo assim, ainda confundimos remédios com tecnologia e ciência; pior ainda, acreditamos que a saúde é algo que se conquista com a adição de drogas.

As pessoas ainda não perceberam o preço que ainda vamos pagar por estas crenças, que mais se assemelham ao crédito que historicamente demos às religiões. Ao criar uma “medicina certa”, positivista, correta e acima de qualquer questionamento, perdemos de perspectiva a subjetividade, marca indelével da “nouvelle vague” das ciências humanas. A ideia de uma medicina monolítica me traz à mente a sombra do totalitarismo do século XX, e entender que a busca pela saúde estará na alienação que o sujeito sofre sobre seu corpo e sua alma, oferecendo esta tarefa às drogas, é um erro que pode ser mensurado indiretamente pela epidemia de opiáceos nos Estados Unidos ou pelo consumo absurdo de antibióticos e psicotrópicos pelas populações ocidentais.

Não me refiro apenas a estes tratamentos experimentais recentemente utilizados para doenças contemporâneas, mas sei exatamente que agora como nunca esta questão está à flor da pele. Afinal, qual a saída para a humanidade que paulatinamente se desvia da sua natureza mais íntima e ruma célere à mais absoluta “ciborguificação”, tendo a vida regulada por uma lógica protética e artificial? A ideia que por muitos anos foi dominante é de que existe uma forma certa, infalível e correta de tratar as pessoas – a biomedicina tecnológica e intervencionista – como se os pacientes se comportassem como gado – e aqui os veterinários me xingam, porque dizem que nem os ruminantes são todos iguais.

A ideia de tratar as doenças a despeito do sujeito parte de um biologicismo ultrapassado que despreza os efeitos do terreno mórbido na manifestação das enfermidades. Voltar ao século XIX não me parece significar qualquer avanço. O pior é que esta medicina hegemônica muitas vezes é apenas a face visível que emerge de disputas violentas pelo fatiamento de mercados e pela busca de lucros astronômicos no negócio da doença, e nós somos apenas a parte consumidora (e bovina) que baixa a cabeça diante do discurso das autoridades.

Criar este tipo de positivismo na medicina é um erro brutal, que leva consigo o risco de perder de perspectiva a subjetividade imanente de cada doente.

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Aprendi isso a duras penas quando há 10 anos comecei a criticar um certo grupo de direitistas infiltrados na esquerda. Tomei pedrada e fui queimado vivo pelos reacionários das mais variadas cores e gostos. Mas garanto que isso é libertador. Fazer o papel de agradar seu “eleitorado”, escravizando-se à sua visão de mundo e dançando a música que eles tocam é uma prisão insuportável.

Não reclamo dos meus múltiplos cancelamentos. Tenho a certeza que estas pessoas estão bem melhor sem a minha presença incômoda e eu me sinto muito mais livre sem seu catecismo e suas imposições.

Saravá!!

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Objetos

Quase todos as noites ouço meus netos correndo com seus passos miúdos e os pés descalços em direção ao meu quarto. Trazem no rosto o olhar que conheço muito bem: a avidez por alguma novidade, uma conversa, algo para contar da escola ou um bicho diferente que viram perto do galpão de sementes. Mas na maioria das vezes eles apenas dizem em uníssono:

– História!!

Eu sempre reclamo, pois na hora que me pedem eu estou invariavelmente fazendo alguma coisa “importante”, seja estudando para uma prova, escrevendo ou olhando um vídeo. E eu sempre paro tudo o que estou fazendo porque sei que, no meu leito de morte, vou imaginar que todo o dinheiro do mundo seria pouco para poder reviver estes momentos. Melhor vivê-los agora, enquanto ainda é tempo.

Ato contínuo, o menor se volta para a vó e grita poucas palavras, mas que servem como um código para a sessão de aventuras que se aproxima:

– Vovó!!! Chá e bolacha!!!

E lá vem ela com três xícaras de chá de casca de limão (colhido na Comuna) e uma travessinha que ela trouxe do Japão quando fez estágio pela JICA em Osaka. A rotina então se repete: eles tomam o chá enquanto eu conto a história e depois distribuem farelo de bolacha salgada por todos os cantos do quarto. Terminado o capítulo, com o famoso “qua qua qua qua…” decrescente, eles ficam brabos, fazem ameaças, choram e reclamam, mas por fim aceitam ir para casa dormir.

Entretanto, o que mais me chama a atenção são estes objetos aleatórios que ficam marcados nas vidas das crianças, guardados nas memórias mais profundas. Só muito mais tarde reaparecem em suas vidas adultas, já modificados, codificados, transformados. Estes objetos fazem parte do acervo de pequenas coisas do período inicial das nossas vidas, e que depois desaparecem, porém jamais completamente. Ficam adormecidos em algum lugar da mente, para serem trazidos em formas diversas em outros momentos.

Tenho vários destes do tempo em que eu convivia com minha avó materna, a vó Irma. Quando eu passava fins de semanas inteiros na sua casa eu lembro das pequenas coisas, do quarto de ferramentas, do jardim nos fundos, das orquídeas bem tratadas e de tantos outros badulaques.

Não tenho a menor dúvida que estes artefatos ainda me acompanham, mesmo que travestidos de outras coisas, das quais não me desfaço por saber que são parte do simbólico que me constitui.

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Amor

Sim, mesmo que me falem de todos os outros amores, o amor do casal estará sempre em primeiro lugar porque é o único dos amores do qual somos dependentes para a continuidade da espécie. Se eu tivesse que proteger um, seria esse. Os outros, inobstante serem importantes para a vida de comunidade, não nos garantem a reprodução. Já passei pela experiência de pai de crianças, e sei enquanto minha nova função de avô é gratificante e significativa, porém certamente ela é acessória.

Eu concordo que estas formas contemporâneas de poliamor, trisal e outras arquiteturas são “mais do mesmo”; no fim das contas as mulheres biológicas vão engravidar de alguma forma e os cuidados dessas crianças será distribuído de forma não uniforme para quem estiver em volta. Se houver afeto como laço, tanto melhor. “O amor é isso que uma mulher devota ao seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”. Nem bom e nem mau, apenas uma força coercitiva extremamente poderosa. Feita assim mesmo, para ser violenta e avassaladora, pois que desta energia depende toda a vida.

Ardian Kovaçi, “Romancë, cigare dhe vodka” (Romance, cigarro e vodka), ed. Paqe dhe Drejtesi, pág.. 135

Ardian Topalli Kovaçi é um escritor e terapeuta albanês nascido em Tirana em 1957. Filho de agricultores viveu uma infância de pobreza durante o governo socialista de Enver Hoxha, mas pôde estudar psicologia na Universidade em Tirana. Dedicou -se à clínica privada nos primeiros anos de formado vivendo na capital, enquanto escrevia para os jornais da Sociedade Albanesa de Psicologia. A coletânea desses artigos compõe seu livro mais conhecido, “Sob as Ruínas da Tabacaria”, de 2000, onde faz uma crítica mordaz ao totalitarismo albanês, tendo como cenário a famosa tabacaria onde Enver Hoxha criou a primeira célula do Partido Comunista da Albânia. Trabalha como colunista do Lajmi i Fundir, escrevendo sobre amor e relacionamentos. É divorciado e tem dois filhos.

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Epitáfio

Existem temas e grupos que a gente risca da vida por causa de múltiplas decepções. Mas, por certo que muitas vezes estas pessoas também se decepcionaram conosco. Durante a vida me divorciei de vários amores; algumas foram separações suaves, outras dramáticas e que produziram ressentimento. Hoje consigo olhar estas rupturas com a serenidade que a idade proporciona, mas todas elas geraram a seu tempo a dor que as projeções determinam. Como vou me despedir dentro de alguns anos, quero deixar claro que não carrego nenhuma mágoa dos amores que deixei.

Sigam em paz….

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Socialista de IPhone

Vamos parar de repetir clichês da guerra fria?

iPhone é um produto feito por socialistas proletários chineses. Uma máxima marxista famosa é “Se o proletariado tudo produz a ele tudo pertence”. Portanto, “socialista de iPhone” é EXATAMENTE o que uma revolução proletária propõe.

Por outro lado, o que os capitalistas pretendem é que o iPhone seja exclusivo dos ricos, de quem explora a força de trabalho alheia, sendo assim inacessível para quem efetivamente o produz. Poucas coisas são mais perversas no capitalismo do que impedir o trabalhador de usufruir os benefícios do seu próprio trabalho.

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Kits e cesarianas

Como o meu filho bem observou, a diretriz da prescrição dos “kit covid” é a proteção …. DO MÉDICO, e não necessariamente do paciente. Ele me alertou também para o fato de que a lógica utilizada pelo CFM é igual àquela que leva ao abuso das cesariana: na dúvida OPERE, para se proteger enquanto profissional.

Mesmo sem o saber, o representante da corporação médica defende o “imperativo tecnológico” do qual Robbie Davis-Floyd se ocupa, que diz que “se há tecnologia disponível ela deve ser usada, inobstante o fato de causar dano”. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Assim, se algo ocorrer de grave pelo uso do kit covid – e o mesmo se pode dizer das cesarianas – sempre haverá a desculpa de que “fizemos tudo que estava ao nosso alcance”, e isso servirá como salvo conduto diante dos seus pares, pois quem julga os médicos nos conselhos de classe se beneficia do (ab)uso tecnológico em que a Medicina se sustenta e está envolta. Mas, é claro que falta também um judiciário que aprenda a julgar casos médicos desviando dos atalhos fáceis do “senso comum”.

Médicos acovardados e judiciário pusilânime levam ao abuso de intervenções, medicalização da vida cotidiana, custos aumentados e morbimortalidade crescente. Prevenir iatrogenia é função medica.

Veja aqui a matéria do Intercept sobre a posição do vice-presidente do CFM no que diz respeito à proteção dos médicos diante da Covid 19.

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Política, para que política?

Quando digo que parto humanizado é uma questão política muitos torcem o nariz e dizem que esta proposta será vitoriosa pela avalanche de evidências científicas confirmando nossas teses sobre a autonomia e a visão transdisciplinar desse evento. Essa teleologia me parece tola. Eu acho que acreditar na ciência como guia das ações humanas é basicamente uma postura…. anti científica.

Minha resposta a este positivismo ingênuo é mostrando que as episiotomias – cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental – possuem evidências que comprovam sua ineficiência quando usadas de rotina há mais de 30 anos. Três décadas de provas contundentes, e mesmo assim continua sendo praticada no mundo inteiro. Por este exemplo simplório fica fácil entender que a verdade dos fatos não é suficiente para nos afastar de um preconceito, em especial quando ele nos beneficia.

A homossexualidade deixou de ser considerada doença há poucas décadas, e sua saída do DSM foi celebrada por muitos. Por acaso alguma evidência científica nos mostrou esse erro? Qual o exame clínico deixou clara a inexistência do “homossexualismo”? Ou foram as pressões políticas nesse sentido que produziram a mudança? Vou além: qual a evidência científica seria necessária para liberar o aborto ou para uma aceitação mais científica do parto extra-hospitalar?

A superioridade comprovada – em termos de morbimortalidade materna e neonatal – do parto normal sobre a cesariana é conhecida de todos os profissionais do nascimento. Todavia, a taxa de cesarianas na classe média brasileira é da ordem de 85%, exatamente no segmento mais esclarecido da população. As evidências e provas não produzem nenhuma pressão no sentido de diminuir este abuso.

Ora… nenhuma evidência será suficiente para quem se nega a aceitar as mudanças que ela propõe. Por acaso Galileu foi perseguido por ter poucas provas de suas ideias ou, ao contrário, por tê-las em demasia – o que obrigaria a uma mudança radical no paradigma medieval geocêntrico?

Assim, apesar de reconhecer a importância das pesquisas eu percebo que elas são o SUPORTE das mudanças sociais, a base para produzir sedimentação, mas jamais sua ponta de lança. Para que estas modificações ocorram, é necessário uma ação política coordenada, para assim produzir transformações significativas e duradouras. Por outro lado, esta ação só vai ocorrer quando existir adequado amadurecimento de conceitos e propostas.

Parir é um ato político.
Sexo é um gesto político
Nascer, viver, amar e morrer … também.

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Jumanji

É

curioso que, quando se trata de defender a liberdade, a extrema esquerda e a extrema direita se aproximam. Quem aceita escamotear as liberdades em nome de uma pretensa proteção de certos grupos são os direitistas e os liberais, exatamente o solo fértil que permite o identitarismo florescer.

Exemplo de proximidade das extremas: a liberdade de ser ofensivo.

Triste, mas ainda assim é muito engraçado. A esquerda liberal americana agora usa como mote para as massas: Trust science = shut up and obey.

Isto é: a direita é que se coloca como revolucionária e anti sistema, enquanto a esquerda aceita passivamente as vozes de autoridade. Não admira que esta esquerda esteja perdendo jovens para a perspectiva da direita, que oferece a oportunidade de enfrentamento – e mudança – da ordem estabelecida e com um discurso muito mais “propositivo”. A pandemia – e o medo – nos tornou acomodados, passivos espectadores da festa da BigPharma e das atitudes opressivas e autoritárias.

Eu não deveria me surpreender, mas quem está namorando com a ideia da censura agora é a esquerda. Afinal, “as fake news podem causar danos incalculáveis”. Vejo isso e sinto calafrios, e acho engraçado porque para mim é inevitável que apareçam algumas analogias assustadoras. Apelem para a memória e recordem que inúmeras histórias de aventura juvenil começam com esse “plot” – ao estilo Jumanji, A Múmia, Indiana Jones, Superman (zona fantasma!!), Jungle Cruise e uns 50 outros que me vem à lembrança.

A trama é simples: garotos de bom coração, movidos pela ingenuidade ou por pura curiosidade, abrem uma caixa, um jogo, uma porta, uma tumba, entram numa casa abandonada, esfregam uma lamparina ou qualquer outra atitude banal. Imediatamente, esta ação desperta o terrível mal que estava adormecido há séculos, às vezes milênios, que volta para espalhar horror e vingança. O resto do filme se resume à tarefa de botar o monstro de volta no lugar de onde escapou.

Colocamos a censura dentro da caixa após a ditadura brutal e assassina de 1964. Achamos que estávamos seguros e havíamos aprendido com o terror e as mortes. Pura ingenuidade. Como no filme Jumanji, a caixa agora faz “tum-tum, tum-tum, tum-tum”, batendo como um coração ansioso e apressado.

Agora, depois de uma chuva de mentiras e falsidades que mudaram o rumo das eleições aqui, nos Estados Unidos e em outros países, colocando idiotas, psicopatas e autoritários no poder, estamos de novo pensando em soltar o monstro da censura de dentro de sua cela. A justificativa é boa: não podemos permitir que “mentiras circulem livremente”. Ora… em 1964 a justificativa era a mesma, e aposto que feita de bom coração. Para eles, a “mentira do comunismo” deveria parar de transitar na mente dos jovens.

Fico com essa curiosidade: quem será a Solange Hernandez (madrinha da censura nos anos 60-70) do século XXI para decidir o que é – ou não – mentira? Quando a censura poderá ser usada? Quem serão os notáveis a decidir? Serão eleitos ou deixaremos os CEOs do Facebook escolherem por nós? Suas escolhas serão livres (ra ra ra) ou moduladas pelos interesses das empresas que os financiam? Quem controlará os “fact checkers”?

“Ah, mas agora os tempos são outros. As fake news podem matar milhares de pessoas no mundo todo”. Pois eu afirmo que a falta de debate e criminalização do contraditório, onde “verdades científicas” passam a ser tratadas como dogmas religiosos, tem a potencialidade de matar muito mais. Aceitar mordaças na área da ciência é atacar a estrutura central que a sustenta.

Nos filmes de aventura a libertação do monstro ocorre nos primeiros 10 minutos; todo o resto da película é gasto na sua difícil captura. Se aceitarmos a censura mais uma vez achando que ela vai nos ajudar, podem ter certeza que teremos de novo duas décadas tentando colocá-la de novo na prisão, de onde não deveria jamais ter saído, por melhores que sejam – ontem e hoje – as razões para soltá-la.

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