O Amor

Elize foi condenada pela assassinato de Marcos Matsunaga, que foi morto e esquartejado por ela em 2012, num crime que escandalizou o país.

Surpresos? Pois aceitem, o amor tem dessas coisas. Não vejo nenhuma contradição em uma assassina confessa declarar, de forma explícita e desvelada, seu amor por alguém, em especial sua filha. Em verdade, o amor (e seus desvios) é capaz de produzir o horror, o drama e a tragédia, pois que é tecido pelas finas tramas do desejo. A declaração dela pode ser legítima e sincera – e assim acredito que seja – o que não apaga seus crimes ou suas falhas. O amor, em sendo humano, é cheio de contradições e repleto de paradoxos.

Entretanto, o que de pior podemos fazer a um condenado é desumanizá-lo, e retirar dele a capacidade de amar; é negar-lhe a condição mais primitiva que nos constitui. Retirar de uma prisioneira a possibilidade de “amar para além da vida” significa tirar dela a esperança, o fio tênue que pode fazê-la suportar a vida que lhe restou. O curioso é ver uma declaração de amor banal como esta ser tratada com espanto, como se a nossa própria estrutura psíquica mais profunda não contivesse as dualidades conflituosas de amor e ódio, horror e transcendência.

Minha única crítica é que parece fácil “perdoar” a Eliza humanizando-a, colocando-se no seu lugar, olhando o mundo pelos seus olhos, caminhando pelas trilhas da vida, calçando seus sapatos. Muito justo. Entretanto, por que só Eluize e não Nardoni, Bruno ou mesmo o marido de Maria da Penha? Por que só alguns podem ser humanizados enquanto os outros são condenados à monstruosidade eterna?

Identificação é a chave.

Pois, “tudo quanto seja humano não me será estranho”, como diria o poeta e dramaturgo romano Publius Tererentius Afer. Consigo me identificar com os monstros tanto quanto com os anjos, pois sei que ambos habitam em mim, e também em cada um de nós.

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A Sedução dos Atalhos

Na série de artigos que escrevi ultimamente sobre George Soros e a “benemerência colorida” era exatamente sobre essa perspectiva que eu me debruçava. Muitos de nós estamos tão fortemente aprisionados na perspectiva capitalista que sequer percebemos as armadilhas do realismo capitalista para a captura de consciências. Por isso eu vi com um certo horror a passividade com que grupos de assistência ao parto saudavam a intromissão da “Open Society” – uma organização internacional com tentáculos em todo o planeta e gerenciada pelo bilionário Soros – nas nossas organizações, e a justificativa dada era de que “Bem, não há como combater a perversidade desse sistema; assim, nada mais nos resta a não ser jogar a toalha. Porém, não custa nada aproveitar um pouquinho destes valores oferecidos para mitigar os efeitos devastadores do capitalismo na cultura, nos povos, nos trabalhadores e nas minorias“. É neste exato momento que nos iludimos com a ideia de que o auxílio às vítimas do capitalismo pode ser feito usando os próprios recursos dos capitalistas, sem perceber o quanto isso reforça seus pressupostos.

Não acredito na possibilidade de avançar em campos tão sensíveis como a assistência à saúde – em especial à assitência à mulher – sem uma ruptura com a lógica subjacente ao sistema capitalista, onde a saúde está vinculada ao lucro e ao incentivo das intervenções. Um sistema que lucra com a piora da qualidade de vida dos clientes/cidadãos tem uma estrutura perversa, que não pode perdurar. Aceitar que os grandes capitalistas financiem ONGs que atuem no Brasil é aceitar que influenciem na forma como essas questões são abordadas pela população. Esta interferência é deletéria e ameaça a soberania de qualquer país.

Como seria possível deixar que o capitalismo curasse as feridas que ele mesmo produz pela adoção de uma sociedade dividida em classes? De acordo com Fisher:

“… o realismo capitalista conquistou de tal modo o pensamento público que a ideia de anticapitalismo não mais atua como a antítese do capitalismo. Em vez disso, é implantado como um meio de reforçar o capitalismo. Isso é feito por meio da mídia que visa fornecer um meio seguro de consumir ideias anticapitalistas sem realmente desafiar o sistema. A falta de alternativas coerentes, conforme apresentadas através das lentes do realismo capitalista, leva muitos movimentos anticapitalistas a deixarem de visar o fim do capitalismo, mas em vez disso mitigar seus piores efeitos, muitas vezes por meio de atividades individuais baseadas no consumo.”

É fundamental entender que o capitalismo é um sistema que está fadado a falhar, pois não é possível crescimento infinito em uma realidade finita, e a exploração de uma classe sobre a grande maioria da população é moralmente inaceitável. Os modelos de benemerência criados por bilionários, como tentativa de mitigar o sofrimento que o sistema (que os beneficia) impõe, apenas atrasa a adoção de uma mudança profunda na estrutura social. As maquiagens na assistência à saúde da mulher, ao parto e nascimento, não vão solucionar os problemas nevrálgicos dessa sociedade, mesmo que pontualmente possam trazer benefícios para indivíduos “agraciados” por esta ajuda. Este é o clássico “mudar os rótulos para que a estrutura se mantenha intocada”.

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Mentira

Creio ser necessário lembrar que não haveria vida civilizada sem as verdades escondidas. Digo mais, creio que não haveria sequer a multiplicação das células no caldo primitivo não fosse a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e a falsidade. A vida humana se construiu a partir do falseamento do verbo, a troca maldosa dos sentidos, a mudança sorrateira da direção das palavras à sorrelfa da própria realidade, a qual desaparece diante do gigantismo implacável da linguagem. Como diria Lacan, “a palavra matou o Real”, mas quem lamenta? Ou alguém um dia experimentou alegria e genuíno prazer ao abraçar um feixe de nervos e tendões, suores e lágrimas, só para sentir junto ao peito as contrações rítmicas de uma bomba de sangue?

Jean B. Laviolette “L’art de mentir”, ed. Parole, pág. 135

Jean Benoit Laviolette é um psicanalista francês, nascido em Marseille em 1952. Fez formação na Sorbonne e formou-se em psicologia em 1978. Escreveu inúmeros artigos para a “Gazette Psychanalytique” quando morava em Paris e estudava com seu mestre, Jacques Lacan. Depois disso, já nos anos 80, passou a atender em sua clínica em Strassbourg, quando conheceu Madeleine Truffaut, escritora e poetisa, com quem se casou e teve 3 filhos. Escreveu três livros da área da psicologia, que poderiam ser entendidos como uma trilogia, apesar do autor negar que tivesse a intenção de continuidade para qualquer um dos seus livros. O primeiro foi “A Palavra Escondida”, seguida de “Ouvidos de Pedra”. Em 1995 escreveu “L’art de Mentir”, que, segundo ele, lhe ofereceu uma inesperada popularidade. Mora em Strassbourg com esposa e filhos.

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Conspiração

Eu ainda acredito que a pior teoria da conspiração é aquela que nada conspira, mas tudo crê, tudo aceita, nada questiona e mantém os modelos de dominação intocados. Opera na credulidade e na aceitação bovina de todas as notas oficiais, na opinião dos especialistas e na ciência capitalista. A “velhinha de Taubaté” é a mais perigosa de todas as conspiracionistas nacionais, porque sua aceitação passiva do que lhe é imposto pela avalanche midiática lhe torna a “cidadã perfeita”, sem qualquer traço de indignação, que é a mais intensa das forças motrizes de mudança social.

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Saúde Universal

Meu filho era recém nascido quando fiz essa carteira. Quando fui arrumar minha mudança acabei encontrando coisas que julgava nem existirem mais.

Esta é para quem tem curiosidade de saber como era o mundo antes do surgimento do SUS. Se você não tivesse a “carteirinha” (acima) não haveria como ser atendido pelo plantonista. Cheguei a trabalhar como “interno” (estudante) em um hospital da periferia onde as pessoas levavam esse documento na emergência para serem medicadas. O médico de plantão anotava o número do CTPS numa folha de papel específica e no final do mês entregava ao INAMPS, que pagava por produtividade, sem qualquer vínculo trabalhista. Claro que esse sistema era precário, e por várias razões. Citarei algumas abaixo:

1- Controle inexistente. Eu cheguei a testemunhar os médicos plantonistas pedindo a carteira de toda a família para atender uma consulta de 5 minutos para uma criança febril. Outro colega ia em uma escola próxima e se oferecia para verificar a pressão das professoras, pedindo que elas assinassem a ficha. As fraudes, certamente, ocorriam de forma corriqueira, das pequenas às gigantes.

2- Sem direitos trabalhistas. Férias, 13o salário, seguro acidente, adicional noturno, insalubridade, horas extras, etc. Quer tirar férias? Não vai ganhar nada. Quer virar 48 horas de plantão? Azar o seu. Ficou doente? Sinto muito…

3- Apadrinhamento. No início desse sistema, nos anos do milagre econômico (do “Brasil, ame-o ou deixe-o” e do Delfim Neto), pagava-se muito bem aos médicos agraciados com uma “credencial”. Esta era conseguida na base do apadrinhamento político, com zero meritocracia, talento ou qualidade. Eu lembro da frase do cirurgião do hospital que possuía desde muito uma dessas credenciais: “Olhe as casas dos médicos ao redor do hospital. Pois elas foram todas construídas por eles com suas credenciais do INAMPS, quando tudo aqui ainda era mato. Quando cheguei aqui para trabalhar essa credencial pagava um Passat por mês”.

*Nota histórica: Passat era um carro médio da Volkswagen*.

4- Exploração do trabalho. Quando eu fazia plantão como interno no hospital todos os médicos plantonistas que atendiam o ambulatório de urgências eram “contratados” – informalmente, por certo – pelo dono da credencial, que pagava um “salário” (alinhavado “de boca”) para os colegas preencherem as folhas com os nomes dos pacientes atendidos. Enquanto isso, os “proprietários” ficavam em casa ou no consultório, uma atitude ilegal que todos sabiam como acontecia, mas não havia qualquer fiscalização sobre este tipo de ação. Claro que estes plantonistas recebiam tão somente uma fração do que o “senhor feudal” recolhia ao final do mês pelo trabalho realizado. As credenciais eram as “Sesmarias” da atividade médica. Médicos exploravam seus próprios colegas na maior cara dura.

Nestes hospitais os médicos mais ricos e famosos da cidade eram – ao meu juízo – absolutamente medíocres. Do alto da mais absoluta impunidade (a medicina de 40 anos atrás) e uma falta absoluta de ética, garantiam seu posto, seus ganhos, sua posição social e seu poder através de artimanhas políticas – eram quase todos ligados à ARENA, o partido de sustentação da Ditadura – porque literalmente TUDO nessa área dependia da oportunidade de conhecer alguém que pudesse “mexer os pauzinhos” para adquirir alguma vantagem. Praticamente nada era fruto de concursos, provas, mérito ou qualidade, e tudo era feito pelas vias do “pistolão”. Foi nas brechas da desassistência aos pacientes que atendi os meus primeiros partos, nas pacientes que pariam muito rápido não dando ao obstetra credenciado (que deveria estar no hospital) o tempo necessário para “aparar” o bebê…

O SUS, quando comparado ao modelo que eu conheci na juventude, é uma conquista espetacular, um sistema maravilhoso e justo, mesmo com todos os problemas que porventura possa apresentar. Pensem nisso quando escutarem os reformistas e os entusiastas do Estado mínimo tentando privatizar nosso modelo de atenção universal.

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Histórias presas

Na minha cabeça orbitam dezenas de histórias que não posso contar, mensagens que não posso mandar, avisos que gostaria de dar mas sei que não seria permitido, a maioria para que eu mesmo pudesse escutar. Quando eu morrer, em um tempo menor do que gostaria e maior do que mereceria, levarei comigo essas histórias proibidas, contos secretos, lembranças tristes e memórias alegres. Estarão comigo seguras, e talvez as conte apenas para mim, enquanto de lá observo as outras milhões de histórias que ainda precisam ser contadas.

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Sobre as histórias a contar

Há 20 anos exatamente estava atendendo no consultório quando fui surpreendido por uma imagem no computador da minha mesa. Imediatamente liguei meu rádio e aproveitei para escutar as descrições ao vivo. Um avião havia se chocado contra as torres gêmeas em Nova York, um lugar que eu havia conhecido duas décadas antes quando visitei a cidade. A descrição da rádio me fez ligar a TV do consultório na recepção, aproveitando uma falha na agenda. A sensação de todos era pânico e assombro.

Cheguei a ver ao vivo o choque do segundo avião. Imediatamente liguei para minha mulher. “O mundo vai acabar”, disse eu para Zeza Jones em tom de despedida, sem saber que era mesmo verdade. O mundo, como o conhecíamos, acabava naquele dia. Nunca mais eu vi os Estados Unidos como eu estivera acostumado a ver e – confesso – até admirar. Imediatamente, ainda enquanto ouvíamos o eco da queda retumbante das torres, surge o “Patriotic Act”, a perda dos direitos civis nos EUA, o recrudescimento da islamofobia, a invasão do Iraque, a “Guerra ao Terror”, as convulsões no Oriente Médio, as invasões brutais a vários países (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, etc) e o panóptico americano sobre suas zonas de domínio, que em nível local levou à própria Lava Jato, ao juiz cooptado em Curitiba, aos golpes jurídico-midiáticos e finalmente nos levando à “facada” e à Bolsonaro.

Sim, em minha perspectiva o fascismo bolsonarista é ainda um reflexo do fatídico dia 11 de setembro de 2001, que no futuro será visto como a festa macabra a celebrar o fim de um Império. Desde então esse gigante de poder planetário apodrece lentamente à nossa frente mas, como todo sistema de opressão, sua decadência será marcada pela violência e pela agressão às conquistas da civilização.

Minha solidariedade aos mortos dessa tragédia no correr dos anos foi dando lugar à indignação com um país que passou a matar um World Trade Center a cada dia no Oriente Médio. Só no Iraque foram 100 mil. No Afeganistão foram mais de 400 mil mortos, mas para estes homens e mulheres pobres e de pele escura – mortos por defender sua própria terra – não há nenhuma superprodução de Hollywood para contar suas histórias, seu sofrimento, sua dor, seus filhos perdidos, o heroísmo de seus combatentes e suas esperanças soterradas pelas bombas americanas.

Os bombeiros americanos são tratados – justamente – como heróis. Histórias e lendas são contadas sobre sua bravura e coragem para salvar o maior número possível de vitimas do ataque. Todavia, nenhuma justiça é feita aos heróis e heroínas anônimos que ainda hoje protegem seus filhos dos ataques imperialistas. Da Palestina às cavernas nas montanhas do Afeganistão milhares de histórias poderiam ser contadas sobre a brutalidade e os massacres levados à cabo pelas forças invasoras, mas também sobre os anônimos homens e mulheres que defenderam suas famílias e suas comunidades.

Um mundo onde impere a justiça e o equilíbrio por certo haverá de trazer à tona essas narrativas de dor, coragem, determinação e esperança.

PS: Não, não é o World Trade Center nesta foto. É Gaza, onde todas as semanas há um novo massacre, matando palestinos de forma brutal e sistemática. Lá as torres gêmeas são o imagens do cotidiano. E por trás da barbárie continuada estão os mesmos Estados Unidos e seu apoio aos terroristas de Isr*el.

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Outing

Eu vejo uma certa perversidade social que se expressa no tal de “outing”. Hoje, manter-se reservado quanto à sua (homos)sexualidade parece um ato de covardia e um elogio à mentira. Ao mesmo tempo que admiro as pessoas que bravamente assumem de forma pública e desabrida sua orientação sexual e – mais penoso ainda – sua identidade de gênero, não posso aceitar que estas declarações se transformem em imposições sociais que, muitas vezes, até agravam os casos de culpa e depressão, ao invés de liberarem o sujeito. Se eu creio que a vivência da sexualidade livre só pode ocorrer a partir de escolhas livres, a exposição de sua intimidade só poderia acontecer pela mesma via.

Quando vejo cobranças sobre a “transparência” dos gays (atores, atrizes, políticos e pessoas comuns) eu sempre imagino que aqueles que “oprimem pela obrigatoriedade” da exposição (mesmo se dizendo parceiros na luta) em verdade deixam claro que: “se você quer usufruir deste gozo, então pague a nós o preço de gozar onde nos é interditado”. A cobrança diz muito mais de quem cobra do que daquele de quem cobramos. A maioria dos gays e lésbicas que conheci queriam apenas curtir sua sexualidade sem constrangimentos, e não ser um “banner de arco-íris ambulante”. Ser reservado em relação à sua vida mais íntima é um direito pelo qual deveríamos todos lutar. Armário é um espaço que só deveria ser aberto por dentro… o resto é violência.

(A partir de uma provocação de Diana Hirsch)

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Alianças

Tenho pensado muito no significado destas instituições internacionais de “ajuda” como a “Fundação Bill & Melinda Gates” e a “Open Society” porque entendo o quanto a injeção de dinheiro do capitalismo transnacional pode ser sedutor para os empreendedores sociais – no Brasil e no mundo todo. Muitos desses grupos – alguns deles eu conheci de perto – precisam desesperadamente de verba para levar adiante seus projetos. Esses patrocínios são, muitas vezes, a diferença entre a existência ou não uma ação social, e por isso mesmo são tão disputados.

Mostrar-se contra o recebimento de dinheiro (tanto quanto comer sabão em barra) é apanágio dos loucos, insanos e desmiolados. Questionar uma quantia de grana que pode auxiliar uma obra social honesta e necessária parece um ato sem sentido. Não?

Nem sempre. Perguntem aos defensores amamentação se aceitariam o patrocínio da Nestlé para algum projeto de estímulo ao aleitamento materno. Perguntem aos grupos da ecologia se uma verba da Monsanto seria bem vinda para recuperação de uma floresta. Que dizer do financiamento de um conhecido contraventor para uma campanha de um político? Eu poderia citar vários outros exemplos de empresas e indivíduos cujas ações mostraram-se tão profundamente danosas à sociedade a ponto de ser natural negarmos qualquer conexão com elas, mesmo quando o oferecimento de recursos não pressupõe qualquer contrapartida objetiva ou explícita. A diferença neste caso está que nós sabemos quem são essas empresas e não permitimos que um benefício em curto prazo possa manchar nossa reputação em longo prazo, ou empoderar ainda mais esses gigantes capitalistas.

A analogia que me ocorre é que aceitar este auxílio se assemelha a subir ao palanque com o MBL e a direita comportada. Se na superfície pode parecer benéfico para um objetivo imediato – forçar a saída do presidente fascista – quando investigamos em profundidade percebemos que poderemos estar abrindo espaço para a direita golpista que, por sua vez, tentará “manter o Bolsonarismo sem Bolsonaro“, culminando com a proposição de um nome nas eleições ligado ao neoliberalismo predatório, mas com bons modos à mesa. Não esqueçam que essa direita que agora brada contra Bolsonaro foi a Ficha 1 nos golpes sucessivos contra a nossa democracia.

Ligar-se ao capital abutre das instituições liberais filantrópicas significa aceitar que o capitalismo internacional e concentrador de renda continue a controlar a forma como o terceiro setor atua no país. Afastar-se desse dinheiro é uma questão de princípios, de independência e de autonomia. Pode trazer dificuldades em curto prazo, mas oferece a consciência limpa na longa caminhada.

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Armas, Guerra, Germes e Soros

Eu participava de um grupo relacionado à minha área há muitos anos de forma bastante intensa, até o dia em que o nome de George Soros e sua “Open Society” – ou Sociedade Aberta, nome derivado de um livro do filósofo conservador Karl Popper – entrou em debate pelos colegas. A questão se relacionava à participação do grupo em uma licitação para receber um “grant”- um financiamento – da Open Society para dar conta de projetos ligados à Humanização do Nascimento. Minha postura, como seria de se esperar, foi evidentemente contrária à qualquer ligação da nossa instituição com George Soros. Argumentei que este cidadão era um representante do “capitalismo sem fronteiras”, e um conhecido financiador de rebeliões neoliberais, o que faz das suas doações a grupos identitários uma perfeita cortina de fumaça objetivando encobrir suas ações de reforço ao neoliberalismo transnacional e sem barreiras, modelo que tanto admira.

Imediatamente as pessoas do grupo se colocaram contra minha posição, tratando-a como radical e baseada apenas em preconceito. Afinal o senso comum o trata como um homem progressista, defensor da democracia liberal e da diversidade, dos trans, negros, gays, mulheres, etc. Que mal poderia haver em um bilionário de bom coração, interessado em distribuir o que ganhou para causas que reconhece válidas e importantes?

Por certo que estas ações mudaram a vida de algumas – ou muitas – pessoas, mas nada produzem de diferença na estrutura social, que se mantém intocada, permanecendo injusta, desequilibrada e perversa. A ação desses bilionários da “caridade identitária” é exatamente essa: fomentar a divisão da sociedade por identidades e separá-la em guetos distribuídos por etnia, orientação ou identidade sexual, gênero, etc. Muda-se a vida de poucos para que a estrutura que comanda a todos não se altere.

É exatamente esse tipo de perspectiva política o que faz com que um negro pobre e miserável perceba como inimigo um branco igualmente pobre, desviando a atenção do fato cristalino de que ambos são vítimas de um modelo social injusto e excludente que produz uma enorme massa de pobres (de todas as cores, gêneros e orientações sexuais) que é explorada por uma elite invisível de bilionários – como George Soros.

Não há como confiar num sujeito cuja riqueza depende da nossa miséria.

Minha posição firme, baseada na minha perspectiva marxista e anti imperialista, foi rechaçada violentamente pelo coordenador do grupo, sendo que até as referências que usei para sustentar minha tese (uma entrevista golpista de Soros se opondo à eleição de Lula em 2002 na Folha de SP) foram desconsideradas e tratadas como “fake news”.

O resultado foi o meu cancelamento sumário e a minha posterior saída do grupo. Não havia maturidade para um debate mais profundo sobre as raízes de nossa dependência e as armadilhas criadas pelo imperialismo para sequestrar nosso ativismo. Ok, vida que segue. Todavia, minha saída tem uma interpretação que pode ser bastante pedagógica.

O objetivo desses institutos internacionais neoliberais (Soros, Gates, Koch, etc.) é a divisão da sociedade em elementos artificiais (criados pela própria sociedade para a divisão do trabalho) como etnia, orientação sexual, gênero, etc., fazendo-nos esquecer elementos muito mais gritantes como as classes sociais que nos dividem pelo capitalismo. Portanto, servem para nos separar, pois unidos em torno das reivindicações de classe somos mais fortes e mais vigorosos no combate à iniquidade social.

Pois a divisão causada nesse grupo pela figura sinistra do bilionário Soros cumpriu exatamente essa função. Separou e desuniu e nos fez esquecer o que nos unia exaltando a artificialidade – a defesa da benemerência colorida – que nos diferenciava. Tristemente didático. Fez lembrar um filme “Proposta Indecente”, com Robert Redford. Na trama, a história de um dinheiro oferecido cuja ideia dissimulada e perversa era separar e desunir, desviando o olhar do fato de que havia amor para além das posses.

Agora ficamos chocados com as informações trazidas a nós através do Ministério de Defesa da Rússia de que várias entidades ucranianas, georgianas e estadunidenses estariam se preparando para a produção de armas químicas. Particularmente, segundo esta fonte militar, o funcionamento destas instalações estaria sendo financiado e controlado por uma gama de organizações americanas, entre as quais o Fundo de Investimento Rosemond Seneca, dirigido por Hunter Biden, filho do presidente americano, e o fundo administrado por George Soros. A subsecretária de Estado americana, Vitória Nuland, reconheceu a existência desses laboratórios, assim como Avril Haines, diretora de inteligência Nacional dos Estados Unidos, que também declarou a existência destas instalações, porém, ambas negaram que em tais laboratórios houvesse a produção de armas químicas.

É importante entender que, quanto mais se investigam as ramificações de poder destes bilionários, mais aparecem seus tentáculos produzindo a exploração e a miséria de povos subjugados. O mesmo George Soros que controla a “Open Society” tem conexões com entidades fascistas ligadas ao golpismo na Ucrânia. Como pode haver ainda alguma dúvida de que sua presença no Brasil deveria ser rechaçada pelo conjunto das forças de esquerda ou por qualquer instituição que deseja ser livre das imposições do capital predatório internacional? Por que aceitamos que um candidato que se posiciona à esquerda do espectro político nacional esteja ligado a instituições golpistas como o NED, a CIA e o próprio Soros?

A atitude marxista mais justa e coerente será sempre lutar pela soberania dos povos e pela ruptura dos laços de subserviência ao imperialismo. Qualquer união com golpistas, por mais inocente que possa parecer, será um passo na direção oposta.

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