Cabeça certinha

Discordo apenas da cabeça arrumadinha do psicólogo. Essa imagem pode dar a entender que a cabeça dele está com as neuroses ajeitadas, dobradinhas dentro das gavetas, empilhadas em perfeita ordem. Já a imagem do pincel significa que as formas “modernas” listados ao lado não se propõem a mudar a estrutura do Cubo Mágico – nossa alma – mas tão somente falseiam a sua aparência com recursos exógenos e, portanto, fugazes.

Creio que a angústia do terapeuta não é menor é nem menos dolorosa do que a de seus pacientes. A escuta não pressupõe ausência de neurose, mas o entendimento de suas representações e esconderijos.

Lembro de um velho psicanalista me contando que a escolha para seu terapeuta foi guiada pela escolha do mais “normal”, o mais humanamente imperfeito. Assim também eu penso.

Sobre os gurus, outro exagero. Entre os exemplos de guru que eu conheci em toda a minha vida – aqueles que colocados nessa posição se acomodaram a ela – NENHUM deles cabe na definição de “mente organizada”. Seria útil ter uma visão menos idealizada desses personagens. Eles são mensageiros de uma nova perspectiva de mundo, mas ela também é repleta de contradições e paradoxos. Em verdade eles são criados pelas nossas próprias projeções, muito mais do que pelas suas qualidades.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Felipe Neto

Vejo as reações ao Felipe “Repaginado” Neto situando-se entre o entusiasmo – afinal ele coloca Bolsonaro e Malafaia no mesmo caldeirão diabólico do fascismo – e o ressentimento – a mesma prateleira onde colocamos Lobão, Joice, Moro, Janaína, etc., aquelas figuras patéticas da história recente que montaram a festa do golpe e agora choram porque o vizinho chamou a polícia.

Sem querer inventar a roda, creio que é possível situar-se com equidistância destas posições. Sim, é verdade que é muito bom que ele cerre fileiras contra o fascismo e o atraso representados por Bolsonaro e Malafaia. Sim é bom que esteja do nosso lado, reconheça seu erro e queira ajudar. Entretanto, de bons moços já estamos saturados. Collor já fez este papel; Huck está tentando ocupar este espaço. Representantes limpinhos da burguesia sempre jogam desta forma: colocam-se como “novidade”, impolutos, sinceros, apolíticos, enojados com o “mar de lama”, etc.

Todavia, alguém que se situa entre “Amoedo e Ciro” não parece ter condições para falar em nome da esquerda, ou mesmo das forças progressistas do país. Ele parece bem sincero, mas está longe de ser um personagem inédito.

Por outro lado, um cara com quase 40 milhões de seguidores não deve ser desprezado, e fico muito feliz que um sujeito com a sua influência no mundo cibernético tenha acordado para o risco que Bolsonaro representa para o país e a nossa democracia.

Gosto dessa atitude, mas não acho ser possível nutrir muitas esperanças por um “nouveau riche” com crise de consciência.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Tabus

Em uma comunidade que participo foram postadas as fotos do parto do homem trans realizado na água que rodaram o mundo. Por ser uma comunidade progressista o tema “trans” é bem recebido, especialmente porque dá destaque à liberdade e à diversidade. Boa parte dos integrantes se diz feminista. Apesar de encontrar manifestações de “estranheza” (da qual também fui acometido) não vi nenhuma posição debochada ou desrespeitosa sobre o tema nessa comunidade.

Entretanto, mesmo nas comunidades de esquerda, fica evidente por esta postagem que, mais do que a questão trans, o PARTO ainda é o tabu mais intenso e forte. Os comentários seguem a mesma trilha conhecida de culpar o nascimento – e sua configuração humilhante e dolorosa – pelo sofrimento das mulheres. “Degradante” foi a palavra usada, mais de uma vez.

Espero falar sobre isso nas lives que farei nos próximos dias. O discurso de muitas mulheres continua sendo a penalização de sua própria condição feminina, carregada como uma cruz e/ou uma maldição. As que tiveram partos fáceis – ou rápidos, indolores, suportáveis – creditam esse resultado à “sorte”, algum mistério genético ou metabólico que as protegeu de uma desgraça quase inevitável.

Quase ninguém ousa questionar o entorno, a atenção obstétrica ou a cultura que circunda, envolve e permeia a perspectiva dessas mulheres sobre o fenômeno do parto. O discurso se mantém inalterado, inobstante o viés de esquerda ou direita. O corpo das mulheres é defectivo, imperfeito e falho, responsável pelo tortura de parir.

A culpa continua sendo da natureza – misógina, cruel e insensível ao martírio feminino. Assim, fica claro que a luta pela humanização do nascimento não pode prescindir da educação das meninas (e meninos) sobre os significados últimos do feminino e do parto, para que a geração que agora chega possa ter uma compreensão mais profunda desses dilemas.

PS: mantive o nome das pessoas que se manifestaram porque não faço críticas às suas posturas – que são legítimas e sinceras – mas as utilizo com o um retrato da visão da cultura – em especial das mulheres – sobre a questão do parto contemporâneo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Cloroquina, a droga da direita

Entrei em uma conversa numa página que criticava o uso da Cloroquina com a tese de que não há evidências de que esta droga produza benefícios, além de existirem suspeitas fortes de que seus efeitos colaterais suplantariam seus possíveis efeitos benéficos. Nada a discordar deste tipo de postura, por certo.

Resolvi, entretanto, responder dizendo que o mesmo comportamento de desconfiança com a Cloroquina deveria nos nortear em relação às vacinas – que estão sendo produzidas às pressas, nas coxas, e sem qualquer garantia de eficácia “in vivo” ou de que seus efeitos colaterais suplantam seus possíveis benefícios. Para mim é fundamental cultivar a coerência diante destas soluções exógenas criadas para tratar um desequilíbrio que – ao meu ver – tem relação com nossa ação destrutiva com o meio ambiente.

Sem surpresa fui atacado por pessoas desta página porque (ahhh, a velha falta de interpretação de texto!!) acreditaram que meu comportamento cioso com relação às vacinas (que estão para ser colocadas no mercado a “toque de caixa”), significava uma defesa da Cloroquina. Em verdade, era apenas um pedido de coerência. Se ainda guardamos na memória os desastres que já aconteceram com o uso insensato de drogas, deveríamos multiplicar nosso cuidado com uma vacina sem garantias. Não esqueçam da Talidomina, dietilbestrol, Vioxx, Rx na gestação, etc…

Porém, o que mais me chama a atenção nessas manifestações é a equação simplificadora presente nas mentes mais ingênuas. Para estes – que são até da esquerda!!! – a Cloroquina é uma droga de “direita”, pois o Bolsonaro e o Trump a defendem (ok, esquecem que Maduro, o cruel comunista, também). Por seu turno, as vacinas são de “esquerda”, porque são feitas por “cientistas”, que usam a ciência como ferramenta, sendo esta filha da razão, que é claramente de “esquerda”, em contraposição ao “misticismo” e ao “obscurantismo” que são de “direita”.

Se é importante combater a chaga do negacionismo – na história, na política e nas ciências – também é essencial entender como esta colocação de antípodas é absurda. A ciência NÃO é de esquerda, e nem de direita. Ela é apenas uma ferramenta para solucionar problemas. As vacinas, por exemplo, são medicamentos produzidos pelas indústrias mais poderosas do mundo capitalista, tanto do ponto de vista do imaginário popular quanto dos poderes sobre os governos. Achar que as vacinas – ou qualquer outra droga – representam a “Ciência” é uma conclusão tosca, em especial num planeta em que o sistema capitalista é dominante. Vacinas são drogas como quaisquer outras e sobre elas devemos ter a mesma exigência de segurança e eficácia.

A retórica das esquerdas precisa se aprimorar. A Cloroquina não é uma droga do “mal”, ou “conservadora”. Ela apenas é inútil para o uso nesta pandemia, pelo menos até onde os estudos recentes comprovam – o que pode até mudar. Para as vacinas, o mesmo raciocínio isento e equilibrado deve ser utilizado: tudo bem, desde que sejam adequadamente testadas e comprovadamente eficientes para oferecer proteção à população (tarefa que dura muitos anos para se alcançar), mas enquanto isso teremos apenas um remédio “mágico”, sem comprovação – como a Cloroquina.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Política

Lugares

Durante minha experiência na obstetrícia conheci centenas de médicos, boa parte deles vivamente interessados na humanização do nascimento. Muitos me escreviam longos emails, me chamavam pelo MSN, me procuravam em congressos e me perguntavam questões relativas à prática cotidiana.

Uma parte deles se achegava pelas evidências científicas, outros pelos aspetos emocionais (mãe, pai, família) enquanto alguns mais pela questão jurídica e dos direitos reprodutivos e sexuais. Algumas adaptavam sua prática obstétrica ao ideário feminista conjugando áreas tão afins e próximas. Alguns se aproximavam percebendo um filão, um nicho de mercado a ser explorado, mas estes eram os que mais rapidamente retornavam a uma prática intervencionista ao verem as dificuldades e os obstáculos à frente.

Muitos resistiram, mas igualmente vi muitos médicos desistindo, não importando a porta pela qual haviam entrado. Aqueles estimulados pelas evidências frequentemente se embaralhavam nos números, nos estudos contraditórios e nas estatísticas, sem perceber as dimensões psicológicas, emocionais, sociais e espirituais do fenomeno que tinham diante de si. Aqueles que se jogavam na aventura do parto humanizado pela questão emocional com frequência davam um passo atrás diante do primeiro resultado negativo, ou quando os pacientes os abandonavam à própria sorte. As emoções nos tornam frágeis, e enfrentar a engrenagem da corporação é penoso…

Os que se interessavam pelas questões jurídicas eram muitas vezes prisioneiros de um senso de justiça incoercível e punitivista, enredando-se em ressentimentos que, não raramente, brotavam de suas próprias experiências traumáticas. Também as feministas em algumas ocasiões deixavam que sua paixão pelo feminino ofuscasse em demasia os significados do parto humanizado para o casal, e para o pai que também nascia.

Entretanto, ao largo do crescimento consistente da consciência nos benefícios da humanização, reconheço que o fator que mais afasta profissionais da seara do parto normal e fisiológico é….. o lugar.

Sim, o grande vilão é a topografia, o lugar onde o médico se situa na correlação de forças do nascimento. A perda dessa posição de poder – uma outorga da cultura sobre a figura do médico – é o que mais os afasta do ideário da humanização e o que mais produz nostalgia naqueles que por ele um dia se interessaram.

“A função do parteiro é fazer-se de vidro, cobrir-se de transparências, apagar-se. Agir tão somente no desvio em direção à patologia, quando então deve assumir sua imagem exuberante.”

Sem o reconhecimento de que seu lugar é secundário no parto, e de que sua função não é brilhar, mas permitir que a mulher brilhe em seu momento mais feminino, toda a humanização será apenas parcial. É a abdicação desta posição, tão sedutora quanto enganosa, o que mais torna difícil a adoção de uma prática humanizada na atenção ao parto.

Por esta razão a parteria tem uma vantagem inalcançável. Sendo esta arte muito menos poderosa – embora muito mais qualificada – afastar-se dos falsos poderes é uma tarefa muito mais simples.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Parto

Desapego

Minha decisão de morar de modo muito simples foi fortemente influenciada pelo Caminho de Santiago. Lá podemos ver de forma marcante que as “coisas” em nossa vida funcionam muito mais como peso do que por sua utilidade real, sejam carros, casas, roupas, utensílios, etc, e que desprender-se delas é uma parte importante do nosso caminho em direção à alegria das coisas simples.

Só depois de morar em uma casa pequena me dei conta do quanto de inutilidade existe no nosso modelo de vida. Vivemos existências perdulárias cercadas de redundâncias coloridas. As casas grandes precisam ser preenchidas com mais coisas, porque seus vazios denunciam a tolice dos exageros.

Nas casas pequenas a exiguidade do espaço nos faz repensar a utilidade dos artefatos. Depois de um certo tempo nos damos conta de que a qualidade de vida em nada foi prejudicada com a auto expropriação de centenas de badulaques e do lixo sofisticado que carregamos. E também nos damos conta que não possuímos coisas, mas que elas nos possuem.

Roupas? 10 calças? 20 sapatos? 3 carros? Camisas e ternos? Sério que precisamos tudo isso? Será que não somos todos – dentro do capitalismo – acumuladores patológicos em uma sociedade que preenche seu vazio de valores com coisas e objetos cuja utilidade é questionável?

Penso nas mansões dos artistas de Hollywood, gigantescas obras recheadas de inutilidades, apenas para que tantos quartos vazios não os lembrem todos os dias da miséria de uma sociedade em que milhares dormem nas ruas pela falta de um canto para repousar.

Viver na simplicidade, como fazia Gandhi, parece ser uma forma muito mais leve de carregar a vida

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

O Corona e os direitos humanos – edição bilíngue

Quando eu iniciei a atender partos, há 37 anos, a presença do pai – ou de qualquer acompanhante – era uma concessão do “chefe de plantão”, aquele médico que, por antiguidade ou posição formal, determinava as regras dentro do centro obstétrico. Não havia a compreensão de que, a entrada no recinto do centro obstétrico ao lado de seu marido ou de uma pessoa de sua confiança, era um direito das mulheres. Entretanto, no nascimento dos meus filhos eu fui agraciado com a possibilidade de estar presente, mas apenas por ser estudante de medicina no mesmo hospital onde eles nasceram. Essa experiência acabou moldando minha escolha posterior pela ginecologia e, em especial, pela obstetrícia.

Minha atuação como obstetra se iniciou exatamente nessa virada de ciclo. Em meados dos anos 80 já chegavam a nós matérias jornalísticas dos Estados Unidos e da Europa em que o marido aparecia ladeando sua esposa no momento do nascimento. Essas imagens mostravam homens se desmanchando em pranto e emoção diante da maravilha do nascimento, novamente revelado aos olhos masculinos depois de centenas de anos escondidas – seja no ambiente doméstico exclusivo das mulheres, seja dentro dos hospitais sob os cuidados dos profissionais de saúde. Para mim, essa pequena revolução na estética dos partos foi um dos mais importantes fatos ocorridos durante a minha formação.

Assim, após ter passado pelos partos dos meus filhos como acompanhante, se tornou impossível impedir a presença de outros pais nesse momento. Todavia, eu esbarrava muitas vezes nos protocolos rígidos e nas rotinas dos hospitais onde trabalhei, desde a mais simples proibição determinada pelo diretor da maternidade, até o impedimento de amigas, mãe ou companheira, com a desculpa de que apenas o marido poderia ser admitido. Fui obrigado – desde cedo – a enfrentar o conservadorismo da obstetrícia para garantir a estas mulheres a presença apaziguadora de um olhar amigo, e para os maridos uma experiência transformadora. Nunca foi bem aceito pelos meus pares, fui atacado e tratado com escárnio, porque viam nessa iniciativa uma interferência no seu trabalho e, acima de tudo, uma ameaça aos poderes instituídos na atenção ao parto.

Foi com muita luta que estabeleci um protocolo pessoal que incluía o marido na sala de parto. Foi necessário romper as barreiras do preconceito, os mitos da “fragilidade dos homens com o sangue” e a falsa ideia de que os acompanhantes “tocam” em material estéril nas salas de parto e, assim, colocam em risco biológico – tanto as mães quanto os bebês. Nada disso era baseado em evidências científicas; não havia qualquer prova de que acompanhantes prejudicavam o atendimento, mas todos sabiam – por um saber inconfesso – que esta presença ameaçava diretamente a onipotência do profissional médico, cujas ações seriam agora testemunhadas por pessoas da família.

Não foi fácil estabelecer esta norma, mas foi necessário fazer uso da lei para que esta medida, que pode ser facilmente entendida como um direito humano natural e óbvio, fosse cumprida na íntegra. No Brasil, no ano de 2005, por iniciativa de ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – foi assinada a “lei do Acompanhante”, que garantia às mulheres do sistema público e privado a presença de um acompanhante de livre escolha para todas as gestantes atendidas em hospitais de todo o país. Foi uma grande vitória da humanização do nascimento pela autonomia das mulheres sobre seus corpos.

A crise do Corona vírus agora nos apresenta um novo desafio. As conquistas de décadas de luta podem ser colocadas de lado em nome da segurança biológica. Certamente que não podemos colocar a vida das pacientes em risco, mas isso não nos permite retirar delas direitos humanos duramente conquistados. Segundo as palavras do colega obstetra brasileiro Edson Souza a “Conferência de Siracusa estabeleceu uma categoria de direitos humanos que jamais são derrogáveis, não importa o quanto o estado de emergência ou calamidade ameacem a vida de uma nação. São aqueles que garantem o direito à vida e à dignidade humana, ou seja, uma vida livre de tratamento desumano, cruel ou degradante. Assim sendo, a exclusão do acompanhante durante o trabalho de parto poderá se associar a sentimentos de medo, desconforto, solidão, ansiedade e stress pela parturiente, e tem sido interpretada como uma forma de tratamento desumano, degradante e violento”.

O momento é delicado e especial. Uma pandemia associada ao modo de vida capitalista produz uma encruzilhada. Podemos reforçar os laços que desde a mais remota ancestralidade foram essenciais para o sucesso de nossa empreitada humana, como a comunicação, a fraternidade e a solidariedade. Temos a chance de estreitar os laços que nos fazem humanos e criar uma nova humanidade a partir dessa experiência. Podemos, entretanto, manter a rota destrutiva do egoísmo, da iniquidade, da exploração e do afastamento entre os seres humanos. Essa escolha é nossa. Cada ser que entra neste mundo será marcado por nossas escolhas. Mas é certo dizer que aqueles que entram pelo carinho da família, do aconchego e da presença amorosa terão uma chance muito maior de se tornarem verdadeiros cidadãos.

Não esqueçam que “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer”, como diria Michel Odent.

Espanhol

Cuando comencé a asistir a partos hace 37 años, la presencia del padre, o de cualquier compañero, era una concesión del “jefe de la guardia”, ese médico que por antigüedad o posición formal determinaba las reglas dentro del centro obstétrico. No se entendía el derecho de las mujeres a ingresar al recinto del centro obstétrico junto a su esposo o una persona de su confianza. Cuando nacieron mis hijos, tuve la oportunidad de estar presente, pero solo por ser estudiante de medicina en el mismo hospital donde nacieron. Esta experiencia terminó dando forma a mi elección posterior para la ginecología y, especialmente, para la obstetricia.

Mi trabajo como obstetra comenzó exactamente en este giro del ciclo. A mediados de la década de 1980, nos llegaron artículos periodísticos de Estados Unidos y Europa cuando por primera vez el esposo apareció junto a su esposa en el momento del nacimiento. Estas imágenes mostraban a los hombres rompiendo en llanto y emoción ante la maravilla del nacimiento, nuevamente revelados a los ojos masculinos después de cientos de años ocultos, ya sea en el exclusivo entorno familiar de las mujeres o en hospitales bajo el cuidado de profesionales de la salud. Para mí, esta pequeña revolución en la estética del parto fue uno de los eventos más importantes que ocurrieron durante mi entrenamiento.

Para mí, después de pasar por los nacimientos de mis hijos como acompañante, era imposible evitar la presencia de otros padres en ese momento, pero a menudo me topé con los protocolos y las rutinas de los hospitales donde trabajaba. Desde la prohibición más simple determinada por el director de maternidad, hasta el impedimento de amigos, madre o pareja, ya que sólo el esposo podría ser admitido. Desde muy temprana edad, me vi obligado a enfrentar el conservadurismo de la obstetricia para garantizar a estas mujeres una presencia calmante y para sus esposos una experiencia transformadora. Nunca fue bien aceptado por mis compañeros, quienes vieron en esta iniciativa una interferencia en su trabajo y, sobre todo, una amenaza para los poderes instituidos en el cuidado del parto.

Con mucha lucha establecí un protocolo personal que incluía al esposo en la sala de partos. Era necesario romper las barreras del prejuicio, los mitos de la “fragilidad de los hombres con sangre”, la falsa idea de que los compañeros “tocan” material estéril en las salas de partos y, por lo tanto, ponen a las madres y a los bebés en riesgo biológico. Nada de esto se basó en evidencia científica, nunca hubo demostración de que los compañeros perjudicaran el servicio, pero todos sabían, por un conocimiento incierto, que esta presencia amenazaba directamente la omnipotencia del profesional médico, cuyas acciones ahora serían presenciadas por miembros de la familia.

No fue fácil establecer esta regla, pero fue necesario hacer uso de la ley para que esta medida, que puede entenderse fácilmente como un derecho humano natural y obvio, se cumpla por completo. En Brasil, en 2005, firmamos la “Ley de Acompañantes” que garantiza a las mujeres en el sistema público y privado la presencia de un compañero de libre elección para todas las mujeres atendidas en hospitales del país. Fue una gran victoria para la humanización del nacimiento y la autonomía de las mujeres sobre sus cuerpos.

La crisis del virus Corona ahora nos presenta un nuevo desafío. Los logros de décadas de lucha pueden dejarse de lado en nombre de la seguridad biológica. Seguramente no podemos poner en riesgo la vida de los pacientes, pero eso no nos permite quitarles los derechos humanos que tanto les costó ganar. En palabras del colega obstetra brasileño Edson Souza, la “Conferencia de Syracuse estableció una categoría de derechos humanos que nunca son derogables, sin importar cuánto amenace el estado de emergencia o la calamidad a la vida de una nación. Son aquellos que garantizan el derecho a la vida y la dignidad humana, es decir, una vida libre de tratos inhumanos, crueles o degradantes. Por lo tanto, la exclusión de un compañero durante el trabajo de parto puede estar asociada con sentimientos de miedo, incomodidad, soledad, ansiedad y estrés por parte de la parturienta, y ha sido interpretada como una forma de trato inhumano, degradante y violento”.

El momento es delicado y especial. Una pandemia asociada con el estilo de vida capitalista produce una encrucijada. Podemos reforzar los lazos que fueran esenciales para el éxito de nuestro esfuerzo humano, como la comunicación, la fraternidad y la solidaridad. Tenemos la oportunidad de fortalecer los vínculos que nos hacen humanos y crear una nueva humanidad a partir de esa experiencia. Sin embargo, podemos mantener el camino destructivo del egoísmo, la iniquidad, la explotación y la distancia entre los seres humanos. Esa elección es nuestra. Cada ser que entre en este mundo estará marcado por nuestras elecciones. Sin embargo, es posible decir que aquellos que ingresen en este mudo través el cuidado de la familia, el calor y la presencia amorosa tendrán muchas más posibilidades de convertirse en verdaderos ciudadanos.

No se olviden qué, “Para cambiar el mundo es necesario cambiar la forma de nacer”, como dice Michel Odent.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Política

Nostalgia

Na minha juventude era comum ouvir. “Sabe que vai passar Woody Allen no Corujão de sábado na Globo?” e a gente ficava acordado para assistir o filme porque a benevolência de uma emissora de TV era a única forma de rever um filme que se gostava ou assistir um que não conseguiu ver quando passou no cinema.

Em meados dos anos 80 surgiram os videocassetes e a consequente proliferação das “locadoras de vídeo”, as quais tornaram possível assistir filmes antigos que tivessem cópia para alugar. Primeiro os vídeos eram piratas ou “bootlegs” (filmados no cinema) e mais tarde as cópias precisavam ter o selo da Ancine para serem alugados. Foi também o “boom” da pornografia. Era possível assistir filmes pornôs sem passar pelo constrangimento de ir num cinema. As locadoras chegaram a ser um grande negócio e até meu irmão teve uma, mas hoje desapareceram por completo (lembram da Blockbuster?)

Aí chegou a internet, Napster e o Torrent. Uma vez uma amiga me mandou um arquivo pelo ICQ e disse para eu clicar. Era uma música no padrão .VQF, que nem existe mais. Era “Coração Bobo”, com Zé Ramalho e Alceu Valença. Escutei a música mas fiquei mais impressionado ainda por uma visão que eu tive, uma espécie de epifania. Chamei meu filho Lucas, menino na época, e lhe disse: “Acabou a indústria fonográfica”. Expliquei para ele que, se já é possível mandar músicas P2P (entre pessoas), não haverá mais porque comprá-las. Isso mudaria definitivamente a relação das pessoas com a música e com o mercado de discos e CDs.

Eu estava certo. Quebraram todas. O passo seguinte foi a venda de CDs piratas com filmes baixados na internet, o que selou em definitivo o destino das locadoras, mas garantiu a todos nós o acesso direto a toda a criação musical e cinematográfica da história dentro de nossas casas. Agora, até no celular. Hoje em dia podemos assistir qualquer obra a qualquer momento, bastando para isso um acesso a uma conexão wi-fi. Porém, quem hoje tem menos de 25 anos não sabe o que significava esperar para saber o que seria o Temperatura Máxima, Domingo Maior, Cinema em Casa, Cine Belas Artes etc…

Era todo o cinema que o mundo nos oferecia para assistir dentro de nossas casas.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Quarentena

A quarentena me obriga a alguns questionamentos…

O que aconteceria com um cara muito azarado e medíocre que resolvesse escrever um livro contando sua história de fracassos e derrotas, sobre sua notável mediocridade e falta de talento, e esse livro se tornasse um sucesso editorial incrível, tornando-o famoso e milionário?

Seria tratado como farsante?

E um cara que escrevesse um livro sobre a inutilidade da literatura e milhões se interessassem por ele?

E que tal uma página no Facebook para tratar da malignidade de Mark Zuckerberg e a importância de boicotá-lo?

Que acham de um cara tão medroso, mas tão medroso mesmo, cujo maior medo é que descubram sua covardia, e para ocultá-la comete os atos mais impetuosos e temerários apenas para que não percebam o quão medroso sempre foi?

E você, o que tem feito de elucubração inútil durante a pandemia?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Algo precisa ser feito

Então, diante da incompetência inconteste de um governo de perversidades alguém se ergue e, movido por genuína indignação, questiona aos gritos…

“Precisamos fazer algo!! Onde estão as esquerdas para reagir?”

Quando me defronto com estas questões eu respondo:

“Quantas unidades de infantaria o sr já conta para sua investida? Sim, porque sua proposta é de golpe, mesmo que a intenção seja de salvar o país. Pelas vias democráticas e republicanas NÃO há (pelo menos ainda) maioria no congresso para a ação extrema de sacar um presidente. Pela via judiciária menos ainda, pois o judiciário brasileiro é vil, covarde, corporativista e corrompido por vaidades, privilégios e interesses.”

Cobrar da esquerda o quê? Sair às ruas? Se unir? Mas nem a união de todas as esquerdas conseguiria tirar um presidente com 30% de aprovação dada pelos fanáticos que seguem o atual mandatário, alguém que se comporta como um líder religioso, e não como chefe de uma nação.

É justo pedir Impeachment para depois pagarmos mico como aconteceu com Trump?

Estamos encurralados. Não há via simples. Bolsonaro continua dizendo o que seus seguidores querem ouvir, e por isso não perdeu apoio significativo com a saída de Moro.

Não se trata de republicanismo. Digo mais: para mim FODA-SE a institucionalidade quando temos cadáveres se acumulando nos hospitais e nas casas. Todavia, para romper a situação FORA da institucionalidade, com quantos tanques poderíamos contar? Quantas unidades de infantaria? E, se a proposta ainda se encontra dentro das leis, quais congressistas do “centrão” (a direita de banho tomado) estariam interessados em mudar de lado? Quais ministros do STF tem REAL compromisso com a constituição a ponto de “matar no peito” uma ação firme contra Bolsonaro?

Além disso, qual setor do exército aceitaria um compromisso com as INSTITUIÇÕES e a salvação do Brasil arriscando-se a colocar um “comunista” de novo no poder? Para um golpe é preciso muito mais do que indignação e prova de crimes; é necessário conhecer o terreno dos poderosos…

Sim, estamos encurralados por um presidente que mantém – apesar da defecção do Moro – seus 20% de fiéis. Nenhum presidente sofre um impeachment com uma avaliação de 30% de bom e ótimo e, portanto, não se trata de um “clamor popular”.

Isso não significa um chamado à imobilidade ou ao conformismo, mas o reconhecimento de que gritar “alguém precisa fazer alguma coisa” é inútil e não nos ajuda.

Vejam a entrevista do Roberto Jefferson sobre os bombeiros, a polícia civil, o exército e todo o aparato de força do Brasil e respondam minha simples pergunta: fora das instituições, qual a proposta?

Enquanto esta proposta não aparece ainda prefiro me espelhar no comportamento reservado de Lula, um conhecedor da podridão do congresso e que entende as fragilidades e os suportes que (ainda) garantem esse governo.

Deixe um comentário

Arquivado em Política