A Primeira Vez

Li o texto de uma jovem mãe de adolescente descrevendo sua liberalidade ao se defrontar com a primeira relação sexual do filho de 15 anos (???) com sua namorada de 17.

A justificativa que ela usa para facilitar – ou colaborar – para o encontro sexual do filho (não vou nem mencionar o fato de ele ser menor de idade para não misturar os assuntos) é o fato de ela ter sido criada por uma família muito conservadora (um clichê previsível) em que as primeiras experiências sexuais foram cercadas de tabus, angústia e sensação de culpa. Tudo precisava ser feito às escondidas, “rapidinhas” na escada do prédio, beijos roubados, sempre com medo de ser descoberta e tudo cercado de muita ansiedade. Por essa razão ela decidiu que com seus filhos seria diferente.

Percebi que muitas moças comentaram o texto saudando a postura “moderna” e “descolada” da jovem mãe. Muitas entendem que essa facilitação seria uma atitude que “descriminaliza” o sexo, tornando-o menos culposo, portanto, mais prazeroso.

Talvez na ideia de “prazer” tenha se estabelecido o meu desconforto definitivo com o texto.

Primeiramente, sua descrição dos “problemas” encontrados para seus encontros sexuais iniciais são as mais cálidas, intensas e eróticas lembranças que eu carrego. Acredito que muitos outros leitores daquele texto também pensam assim. É exatamente a dificuldade e toda a planificação necessária para esse encontro rápido e furtivo que conferiam àquele momento sua significação. Da mesma forma, é a brevidade da vida o que lhe confere o valor. O sentido erótico desses encontros é posto pela conquista, não tem valor isolado. Aí está o gozo envolvido, e por isso meu desconforto com a busca pelo “prazer”, pois não é dele que lembramos hoje, tantos anos passados.

Outro fator que me incomodou foi a tentativa amorosa, porém ingênua, de facilitar a vida dos filhos, o que configura a atitude das mães em especial. Freud dizia serem elas o “princípio do prazer”. O texto da articulista deixava para mim explícito a cada linha que essa decisão era exclusivamente dela e que não havia na casa um homem para ajudá-la a decidir; houvesse um e talvez a história fosse diferente. Duas cabeças sempre vão pensar melhor que uma só.

Sim, eu discordei do teor do texto de forma peremptória. Não vejo razão alguma para facilitar a vida sexual de um filho (em especial para um menino de 15 anos!!). Pelo contrário; vejo boas razões para dificultá-la – dentro de alguns limites. Também não acho adequado facilitar a vida profissional deles, pelas mesmas razões.

Para dizer isso invoco alguns princípios que considero importantes. O início da vida sexual de um adolescente é uma TRAIÇÃO ao amor parental e deve ser encarado com essa gravidade. A primeira transa de uma menina é uma ato de rebeldia e de ruptura com os laços afetivos com seu pai e por isso é significativo. Para um menino representa a ruptura da sua relação edipiana com o primeiro amor de sua vida – a mãe. Esses passos em direção à maturidade devem ser CONQUISTAS e não concessões. É pela dificuldade da ruptura que eles adquirem seu valor e importância. Temo muito pelo desejo de quem não precisou mentir um pouco, ludibriar e enganar seu “antigo amor” na busca por uma relação mais madura. Que valor se estabelece sobre algo que se ganha sem esforço?

Apesar de reconhecer exageros do patriarcado – como castigos, humilhações (públicas ou privadas), rupturas, etc – eu me nego a discutir este aspecto do problema, pois não é isso que me move. Para isso existe a lei e o bom senso. Quero debater apenas a facilitação sobre um ato que, ao meu ver, NÃO deve ser ajudado, mas conquistado e batalhado. Afinal, ele estabelece uma ruptura grave com um modelo afetivo que sustentou o sujeito por toda a infância.

Para finalizar eu creio que não existe nada mais excitante ou estimulante do que recordar as dificuldades envolvidas nestas primeiras experiências. É exatamente isso, e não a relação sexual em si (muitas vezes dificultosa, pela inexperiência), que mantém essas lembranças como quadros perenes na parede de nossas emoções mais significativas.

Facilitar uma conquista dessa envergadura para os filhos pode lhes oferecer uma visão errada do sentido e da importância do passo que estão dando.

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Império dos Afetos

Minha experiência sobre “trocar de opinião” sobre alguém é que tal transformação na percepção do outro nunca se dá em nível racional. Qualquer explicação lógica sobre as virtudes de um desafeto ou as falhas de alguém que admiramos – em nível cognitivo – é absolutamente inútil e infrutífera. A mudança só ocorre num nível muito mais profundo, necessariamente afetivo e emocional.

Lembro sempre da história que o meu pai contou sobre seu encontro com o governador Ildo Meneghetti nos anos 60. Na época meu pai era um jovem funcionário das centrais elétricas do RS e com ideias de esquerda. Ora, quem não? Ildo representava a política conservadora de direita udenista (UDN) e era o inimigo da esquerda local. Para melhor compreensão, seria como imaginar um sujeito de esquerda como eu se encontrando com Gilmar Mendes. Meu pai foi à reunião marcada com o governador cheio de pedras para atacar sua postura política e quando começou a reunião já tinha engatilhados na ponta da língua argumentos ferozes contra o chefe de estado.

Passaram-se os minutos e o contato pessoal com o governador “direitista” foi revelando um sujeito que se afastava do personagem construído por anos de animosidade. Afável, gentil, democrático e bem humorado. Meu pai o descreveu como “encantador”. Para um “esquerdista” isso seria uma ofensa. Entretanto, ele percebeu que a mudança na visão que tinha do velho líder só foi possível graças a este contato face a face. Nenhuma explicação seria capaz de produzir tal efeito.

A energia complexa dos encontros pessoais é que nos possibilita essa mudança que, como dito anteriormente, só pode ocorrer pela via do afeto.

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King Kong

No filme King Kong de Dino de Laurentis (Jéssica Lange e Jeff Bridges – 1976) a captura da fera se deu através de uma armadilha simples, porém engenhosa. Foi atraído para um buraco na floresta onde o gigante caiu ao perseguir membros da expedição. Logo depois foram jogadas “bombas soníferas” que liberaram um gás que o fez dormir. Corta a cena e vemos King Kong amarrado e imobilizado com grossas correntes no porão de um navio em direção à Nova York do início do século XX. Sua chegada à “esquina do mundo” serviria como rentoso espetáculo à uma sociedade ávida por produtos exóticos do “continente negro”. Corta de novo a cena para 2017. Minha mãe com 86 anos e com demência senil cai em casa e não consegue se mexer. Sente dor nas costas. Uma ambulância a leva para o hospital, depois de 4 horas de espera. Lá contata-se uma pequena fratura na vértebra lombar, e o tratamento deverá ser apenas repouso em casa. Após a liberação pelo traumatologista nos deparamos com duas possibilidades: aguardar mais 4 horas por uma ambulância que a levaria de volta para casa ou colocá-la no carro e levarmos nós mesmo. Escolhemos a segunda opção. Eu e meu irmão Marcus, auxiliados por dois enfermeiros, a colocamos esticada no banco de trás do carro. Minha mãe é miúda mas pesa 65 kg. Rodamos uma dúzia de quadras e chegamos na casa do meu pai. Tivemos uns 15 minutos de debates para escolher a melhor estratégia é decidimos por envolvê-la em um lençol e carregá-la assim até o elevador, cada um de nós segurando em uma ponta, enquanto meu pai, de 87 anos, ia abrindo as portas. Foi extremamente exaustivo porque a cada passo ela reclamava de dor e se sobressaltava. Depois de algum tempo conseguimos colocá-la na cama, dolorida, assustada e cansada. Nesse momento me veio à mente o filme que vi no dia 15 de julho de 1977, mas não me lembrei da beleza estonteante Jéssica, e sim da inquietude que tive ao sair do cinema. Depois de assistir ao filme fiquei com uma duvida que me segue até hoje. Como você retira um monstro de 30 metros de altura, desmaiado e mole, de dentro de um poço profundo e o coloca no porão de um navio, usando a tecnologia do início do século XX? Se carregar uma simples pessoa para fora de um carro foi um enorme e cansativo desafio, como seria possível dar conta desta tarefa? PS: para quem conhece a Dona Elba ela está bem, só precisa repousar. Foi apenas um susto.

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Free Palestine

Eu posso entender quando algumas pessoas se deixam seduzir pelas idéias carregadas de propaganda sionista por uma razão bem singela: quando eu era jovem pensava como eles. Acreditava nos mitos que eram trazidos pela mídia sobre Israel, em especial “a land without people for a people without a land”, ou “blossoming the desert”, “a Villa inside the jungle” e o pior, mais nefasto e mais mentiroso de todos: os “escudos humanos com crianças”.

Todas mentiras plantadas para justificar o Nakba, a expulsão de 750 mil palestinos de suas casas para criar uma colônia europeia racista e etnocrática na região. Eu acreditava nesses mitos até assistir há uns 10 anos um documentário no Festival de Cinema do Rio sobre a invasão do Líbano feita por um cineasta árabe. A conversa de 5 minutos que tive com ele depois da apresentação da película foi reveladora. Isso me acordou para uma nova realidade.

Um tempo depois assisti o fabuloso documentário (tem no YouTube) “Reel Bad Arabs – How Hollywood Vilifies a People” e pude ver como o cinema americano inventou a islamofobia.

Vejam aqui: Reel Bad Arabs – Completo

Depois comecei a escutar George Galloway – parlamentar britânico – e seu inglês impecável denunciando as atrocidades de Israel. Logo depois vi tudo de Norman Finkelstein (Holocaust Industry) e cheguei em Ilan Pappe (Ethnic Cleansing of Palestine). A partir daí comecei a ler os jornalistas que falavam dos massacres, e o melhor de todos é Max Blumenthal (51 Days War). Com isso pude entender a manipulação midiática sobre o sofrimento dos palestinos, da qual somos vítimas também. O grande problema para Israel é que o mundo inteiro está acordando para as atrocidades cometidas em no Oriente Médio e cada cidadão palestino que mora é um cineasta com uma câmera na mão e uma dor em sua alma.

Quando assisti “5 câmeras quebradas” pude finalmente entender a brutalidade da ocupação pelos olhos dos palestinos. Tenho esperança que, como eu e Miko Peled – ativista e escritor (The Son of the General) – muitos ainda poderão acordar.

Infelizmente, por causa da propaganda odiosa de Hollywood, ainda somos obrigados a testemunhar islamofobia à granel. Muitos, para acusar o islã, usam o argumento dos direitos das mulheres, o que é bizarro em se tratando de Brasil. Sabe como uma mulher palestina se sente ao ser espancada pelo marido? Ora, da mesma forma que uma cristã evangélica brasileira se sente ao ser massacrada pelo marido ao voltar do culto. Essa história de invocar a Sharia é para tolos ou sionistas; olhem como o Brasil mata gays e mulheres e parem de dizer que esse é um problema islâmico. Um pouco de informação não faz mal a ninguém.

Eu realmente viajei pelo mundo todo, mas NÃO visito Israel da mesma forma como não visitaria a África do Sul enquanto Mandela estivesse preso. Quando houver a libertação palestina serei o primeiro a visitar e celebrar a Palestina Livre.

Acho cômico alguém dizer que uma parte do mundo lhe pertence por “direito divino”, enquanto expulsa as pessoas que vivem há séculos no local. Eu conheço a história, as condenações da ONU, os massacres, as 550 crianças mortas no último ataque a Gaza. Também não estive no holocausto, mas isso não invalida os milhões de judeus mortos pela mesma lógica que agora massacra palestinos.

Provando que o planeta é redondo e dá voltas, hoje vemos mais uma vez o mesmo discurso fascista e de limpeza étnica de 1940. Quando se pedia ao mundo para olhar pelos judeus sob o controle nazista também virávamos as costas. “Eles que se entendam”, dizíamos. Milhões morreram pela nossa negligência.

Para confirmar que a espécie humana não tem gente superior ou inferior, agora é a vez dos colonialistas israelenses fascistas atacarem as populações palestinas, produzindo genocídio e limpeza étnica, com massacres contra Gaza que se repetem num período pré estabelecido e cíclicos. “Aparar a grama“, como disse um general israelense. Apoiar o genocídio é desumanizar-se, tratar a população original daquele lugar como sub humana e indigna de viver é crime contra a humanidade. Não sei a opinião de todos os pensadores israelenses sobre o conflito, mas sempre que vejo um israelense defendendo a ocupação covarde que lá impera eu lembro das pessoas que julgam brigas onde há um marido espancador dizendo: “os dois lados tem as suas razões”.

Não, genocídio planejado, colonialismo, expropriação de terras, limpeza étnica…. nada disso se justifica. A resposta do mundo civilizado só pode ser o BOICOTE sistemático a qualquer iniciativa israelense. Produtos, indústria, serviços, produção agrícola. Tudo, da mesma forma como foi feito com o Apartheid da África do Sul.

O apartheid da Palestina vai acabar quando cada um de nós perceber que o massacre dos palestinos (assim como no holocausto judeu) é um crime contra TODOS NÓS.

FREE PALESTINE!!!

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Liberdade, liberdade

Recordo que há alguns anos escrevi um artigo que falava criticamente do racismo que sobrevive no nosso meio e das suas conexões com a escravidão no Brasil. Para ilustrar o texto coloquei uma imagem da internet com um torso negro masculino envolto em uma grossa corrente. Recebi alguns elogios pela iniciativa (um obstetra falando de racismo institucional não é muito comum), mas no dia seguinte um famoso grupo identitário virtual me escreveu dizendo terem gostado do texto, mas que não aprovavam a imagem. Disseram que era hora de desvincular os negros da escravidão. Respondi explicando que o texto falava explicitamente da escravidão e suas repercussões, quase um século e meio após sua abolição, mas elas ficaram irredutíveis em sua proposta.

Eu troquei a imagem por outra (achei que não valia a pena a animosidade por um detalhe). Coloquei uma barriga grávida e negra, mas percebi o risco que havia nessa proposta de censura (que se limitou a um pedido). E se eu tivesse me negado? E se eu insistisse na imagem? Que tipo de represália eu poderia sofrer?

Quando escrevi meu capítulo no livro “Birth Models that Work“, da antropóloga Robbie Davis-Floyd, recebi um “sinal de luz” da revisora que achava que meu texto “essencializava” a mulher ao exaltar suas capacidades de gestar e parir, e isso podia incomodar algumas feministas. Desta vez bati pé e tive uma áspera discussão ao telefone que terminou com “então pode retirar o capítulo do livro“. Não foi necessário e minha contribuição nunca fui criticada por ter essa característica.

Liberdade de expressão é uma falta que eu vejo de maneira muito clara no discurso das esquerdas. As estúpidas expulsões de bolsominions de manifestações, ou mesmo negando-lhes o direito de falar, mostram a face autoritária que ainda sobrevive nesse meio. Cabe a nós, do campo progressista, eliminar qualquer forma de autoritarismo e censura, e para isso precisamos pagar o preço que se fizer necessário.

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Pós-verdades

Olhando pela imprensa nacional aqui na internet percebo que TODOS os veículos inicialmente compraram a história do sequestro; a Globo foi apenas a gota d’água. Mais ainda: aqueles que questionaram a veracidade de uma história absurda – em vários aspectos, totalmente inverossímil e impossível – eram automaticamente considerados como “racistas”.

Este é mais um exemplo de pós-verdade, uma construção contemporânea nietzschiana, em que a realidade desaparece sob o manto pesado das interpretações. As causas encampam os fatos, independente da realidade. O real passa a ser um detalhe, uma poeira minúscula tragada no tufão dos discursos contemporâneos. Não é sequer necessário investigar muito: a versão já está suficiente para os nossos propósitos. Os linchamento são imediatos e a destruição de pessoas, instituições e negócios também.

Esse caso, em especial, reunia gênero, raça e maternidade. Um prato cheio. A pressa e o desejo de construir uma narrativa heroica nos fez errar feio nos julgamentos. Agora que fique o ensinamento, para o nosso cambaleante jornalismo e para todos: nossos sentimentos são traiçoeiros. Eles nos fazem acreditar prontamente nas versões que tocam em nossas fragilidades e medos. Sem o controle frio e duro da razão sobre estes fatos sociais estamos condenados a criar injustiças por julgamentos apressados. A próxima vitima pode ser qualquer um de nós.

Como eu disse anteriormente, no mundo cibernético desconfiem de TUDO. Desconfiem principalmente quando uma postagem produz uma identificação imediata com você. Desconfiem quando pessoas dizem que encontraram uma espancadora de crianças, um marido abusador, uma sequestradora, um homem pobre injustiçado, um ato de racismo ou uma misoginia porque estes casos mexem com nossas emoções, produzem imediata identificação e sintonizam com nossas próprias dores, o que nos impede de pensar racionalmente.

Cada vez que receber uma notícia dessas respire fundo e tente raciocinar, evitando pré-julgamentos, análises enviesadas ou pensamentos recheados de preconceitos de cor, gênero ou religião.

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Nomear e Apoiar

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Orgasmos

Será possível ainda acreditar que a abordagem sobre as dificuldades sexuais – tanto para homens quanto para mulheres – pode ser de ordem cognitiva? Vejo gente falando sobre “as mulheres não conhecem o próprio corpo,” dando a entender que a “ignorância” sobre ele acarretaria em dificuldades para obter prazer. Quando leio isso eu lembro das opiniões médicas sobre “homossexualismo” de alguns poucos anos que afirmavam que tal “desvio” poderia ser “curado” pela perspectiva racionalista.

Pessoalmente, não acredito nisso. Creio que sexo não mora nos genitais e sequer no neocórtex; para homens e mulheres ele dormita nas profundezas do inconsciente e só com uma abordagem que abra as cancelas que protegem as suas profundezas será possível mudar seu destino. Não há nada que possa ser “ensinado” às mulheres e aos homens que seja capaz de mudar a rota do seu próprio prazer. Buscar na razão esta resposta é como procurar a chave perdida debaixo do poste de luz, mesmo sabendo que ela foi deixada mais abaixo, num ponto escuro da rua.

Para mim afirmar que as agruras da sexualidade podem ser motivadas com cursos ou “informação” tem o mesmo valor que dizer que o vício de fumar pode ser vencido se ensinarmos aos fumantes os os malefícios do cigarro. Ou ainda – na mesma direção e em sentido oposto – se acharmos que um treinamento ou uma “formação” poderiam curar uma compulsão sexual (como uma parafilia, por exemplo). Acho que isso nada mais é do que procurar no lugar errado.

Cursos e vivências sobre a temática da sexualidade podem melhorá-la não pelo que se “aprende“, mas pelo que se “apreende“.

O problema sempre ocorre com abordagens prescritivas, ao estilo “Nunca faça isso“, “faça assim“, “dar prazer sem receber é errado“. Errado para quem? Como podemos julgar a subjetividade nesse nível? Uma compreensão rasa e limitada do que seja prazer pode nos fazer julgar o prazer do outro como “errado“.

A melhor e mais preciosa história que conheço a este respeito vem do filme Manhattan, de Woody Allen, pela voz da personagem de Tisa Farrow (irmã de Mia).

Ela chega na festa e diz para um grupo de convidados:

Queridas, queria comunicar a vocês que, depois de 20 anos de análise, ontem eu tive pela primeira vez um orgasmo.

As amigas a abraçam eufóricas, mas ela diminui o entusiasmo delas com um olhar condoído.

– Calma, meninas. Infelizmente meu psiquiatra informou que eu tive um orgasmo do tipo errado.

Ohhhh“, dizem e se apressam em consolá-la.

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Rituais mutilatórios

E quanto aos rituais…. eu sou DEFENSOR árduo dos rituais. Eles são fundamentais para a cultura. Natal, Páscoa, Pesach, ano novo (cristão, chinês, hebreu), bodas, aniversários, funerais, etc. A questão é que todos os rituais desnudam os valores culturais. Estudei por 30 anos os rituais de parto para me convencer que eles apontam para os valores do patriarcado e que se assentam sobre o mito da defectividade essencial da mulher. Esta é a questão central: os rituais nos mostram quem somos!! Fazem isso porque operam na sombra do inconsciente e não sob a luz da razão!

Por isso eles são poderosos e reveladores. Sob a luminosidade da razão eles murcham, secam e ….. se transmutam. Os rituais não são estanques e imóveis; eles caminham dois passos atrás do nosso conhecimento e dos valores sociais, e nos seguem de perto. Quando a razão impõe um novo entendimento da realidade, os rituais se modificam para se adaptar à novidade. Os rituais são eternos, mas não imóveis. Sua metamorfose adaptativa é o que lhes confere a imortalidade.

Acabar com as mutilações genitais tem o mesmo sentido de terminar com os sacrifícios sobre animais que fazíamos em um passado não muito distante. Pareciam ter sentido, mas aos poucos – calcinados pela luz da razão – foram desaparecendo. O mesmo precisa ocorrer com os rituais humilhantes ou violentos – como as mutilações.

Se as mutilações tinham alguma vantagem higiênica e identificatória há milhares de anos estas funções desapareceram. Ninguém pode admitir que sua proximidade com Deus se deve por ter a vulva deformada ou o prepúcio amputado. A ciência inclusive nos mostra o quanto perdemos de sensibilidade e prazer com estas perdas e cortes. A abolição destas mutilações em crianças é um marco civilizatório essencial.

Estabeleça-se que nenhuma criança pode ter seu corpo violado por práticas ritualísticas e mutilatórias e que qualquer adesão a estes grupos religiosos através dessas práticas só possa ocorra após a maioridade. Essa mudança nas práticas permitiria que as marcas, quaisquer que sejam, ocorram sob o controle de um sujeito livre para tomar decisões perenes sobre o seu próprio corpo.

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Polícia

A polícia do Brasil é a que mais mata no mundo. Não sei se é a que mais morre, mas isso é irrelevante. Morrem muitos policiais também, muitos mesmo, e isso é lamentável.

De qualquer forma, equipar as polícias e as transformar em máquinas de guerra não ajuda a solucionar a questão, tanto aqui quanto em lugar algum do mundo. Os Estados Unidos são um claro exemplo desse fracasso. O Japão e a China são exemplos do sucesso do desarmamento. O capitalismo americano – que conjuga opulência com miséria junto com concentração absurda de riqueza – gera o descontentamento e agressividade, semelhantes ao que vemos no Brasil. Tornar o Brasil um país-presídio, um estado policial, não funcionaria pois jamais teve sucesso em lugar algum do mundo.

“De acordo com os Centros de controle e prevenção de doenças, em 2013, armas de fogo foram usadas em 84.258 lesões não-fatais (26.65 por 100 mil habitantes dos Estados Unidos) e 11.208 mortes por homicídio (3.5 por 100.000 habitantes), 21.175 por suicídio com arma de fogo 505 mortes devidas a disparo acidental de arma.”

Nos EUA 85 mil pessoas são feridas por balas por ano e o país possui quase 3 milhões – um Uruguai inteiro – encarcerado. Criar prisões não soluciona o drama capitalista, assim como instituir leis severas ou diminuir idade penal também não. O punitivismo é um fracasso total e uma desumanidade absurda com os presos, basta olhar as masmorras em que jogamos nossos sujeitos indesejáveis. A solução é a que já conhecemos de alguns países europeus: equidade e justiça social.

Mas aí precisamos de um presidente que represente a massa dos excluídos, e isso a Casa Grande não aceita.

A alternativa é a convulsão social mas o resultado disso é morte e angústia.

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