Lawfare

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“Lawfare é uma palavra inglesa que representa o uso indevido dos recursos jurídicos para fins de perseguição política”. Neste sentido, a lei é utilizada como uma espécie de “arma de guerra”, o que permite o uso de um instrumento jurídico com afeição política.

Lula, juízes garantistas e obstetras humanistas são perseguidos pela justiça e pelos seus pares, no caso dos obstetras, a corporação médica. A perseguição contra os médicos humanistas se insere como um capítulo negro na longa crise da obstetrícia brasileira que, sem capacidade de justificar a barbárie das cesarianas descabidas e outras tantas práticas anacrônicas, prefere atacar os médicos que se posicionam contrários a esta prática. No final, atira-se no mensageiro para atrasar a chegada da mensagem. Infelizmente para eles essa estratégia não dura muito tempo, e a verdade por fim se torna a única possibilidade de avanço.

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Eu e as Doulas

– Você sabe o que é uma doula?

Sua pergunta era direta e seus olhos verde-água me encaravam com a mesma firmeza doce com que segurava Miguel, seu filho recém-nascido. Poucos dias haviam se passado do nascimento, e ela vinha ao meu consultório para a revisão de rotina. Os desafios daquela gravidez e os mistérios daquele parto haviam me oferecido inúmeros ensinamentos sobre as conexões entre o espírito, a mente, o corpo e suas inúmeras e enigmáticas falas. Quando a pergunta de Cristina me chegou aos ouvidos eu sequer sabia que as grandes transformações ainda estavam para começar…

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Não, eu ainda não sabia o que era uma doula, mas Cristina teve paciência para me explicar o que elas faziam. Falou de Wendy, Klaus e Kennell, Dana Raphael, Penny Simkin. Falou do suporte psicológico, afetivo, emocional, físico e espiritual que elas podiam proporcionar. Falou também dos estudos, da biblioteca Cochrane, e de tantas outras verdades as quais eu desconhecia por completo.

– Eu sou uma doula, Ricardo, continuou ela. E nós vamos trabalhar juntos.

O convite inesperado me acertou em cheio. Sua proposta era simples: referência e contra-referência. Ela me encaminharia pessoas interessadas em um atendimento humanizado ao parto e eu encaminharia a ela gestantes que desejam um acompanhamento de Yoga durante a gestação e que desejam a presença de uma doula no parto. Os partos seriam uma tarefa compartilhada entre nós. Ali começava uma parceria que produziu muitos frutos, mas que também acabou atingindo de forma inquestionável um dos pilares da obstetrícia moderna: o poder sobre o corpo da mulher. O preço a ser pago, sei bem agora, seria o pior possível, e o perdão… impossível.

Nosso trabalho se iniciou de forma tímida, mas tinha uma característica importante: a busca de horizontalidade. Não se tratava de uma “auxiliar de médico” a fazer um trabalho acessório para ajudar o “nosso” trabalho. Não, o trabalho da doula vinha inserido em um outro entendimento da atenção, em que diferentes atores executam funções complementares e de igual importância. A doula fazia o trabalho de preparação física para o desafio do parto, e durante o processo se ocupava de oferecer conforto, confiança, determinação e relaxamento. Depois de cada parto conversávamos para ver os pontos positivos e negativos da nossa atuação, o que poderia ser melhorado e o que poderia ser repetido em novos atendimentos.

Todavia, o primeiro grande assombro do meu trabalho com as doulas não ocorreu pelos partos maravilhosos, pelo choro de felicidade, pela alegria de pais e mães envolvidos em um abraço comovido com sua cria, ainda úmida e quente, embalada nos braços. Não foi pelo clima maravilhoso de sensualidade, de carinho, de proteção e confiança. Não, não foram estas as causas do meu assombro.

Meu primeiro grande susto foi ver uma paciente escrever na internet uma nota sobre um parto que nós tínhamos atendido. Nela se lia, com palavras semelhantes a estas: “Agradeço ao meu marido, minha família, meus amigos e à minha doula. Sem ela eu jamais conseguiria.“

A sensação que eu tive foi de espanto. “Como assim sem ela eu não conseguiria? E eu? E a minha arte, meu esforço, minha dedicação, meu talento, meus anos de estudo?” Meus pensamentos incontroláveis eram o suporte da minha indignação, mas era preciso absorver o golpe e tentar entender. Com o passar do tempo consegui compreender que minha irritação se dava por não conseguir admitir nada além de mim mesmo como merecedor de qualquer tipo de elogio pelo nascimento. Minha mente ainda acreditava que eu “fazia” os partos de minhas clientes e, sendo assim, não haveria como alguém querer roubar este corpo e este parto que a mim pertenciam.

Era preciso sair deste lugar, e eu sabia disso. Sem abrir mão da posição de “dono do parto” eu jamais poderia dar um passo adiante. “Humanizar o parto é garantir o protagonismo à mulher“, dizia eu. Se o protagonismo a elas pertence, que disputa é essa que se pode estabelecer entre pessoas alheias ao evento? “Se a posição de coadjuvante não lhe é suportável, esqueça esse ofício“, repetia meu amigo Max. “Médicos, parteiras e doulas não são feitos para brilhar, são feitos para refletir e ampliar a luz que emana de uma mulher parindo“. Aquela era a lição mais dura, a mais difícil, a mais complexa e a mais desafiadora. Descer do pedestal de saber auto erigido sobre o corpo da mulher é terrível. Quando vejo os ataques ferozes de elementos da corporação médica às doulas fica claro para mim que eles são tomados pelo mesmo sentimento que me atingiu ao ler aquela nota, mas sem a fidelidade aos compromissos de equidade, justiça e protagonismo garantido às mulheres aos quais eu me propunha.

Meu trabalho com as doulas foi abrindo um portal que eu jamais teria imaginado. Era como se um aspecto gigantesco, imenso e misterioso do meu trabalho houvesse sido trancafiado por 10 anos e só então pudesses ser aberto. Os aspectos psicológicos, absolutamente negligenciados durante toda a minha formação médica e na residência, finalmente faziam sentido. O enigma da página 138 do livro “Nacimiento Renacido“, de Michel Odent, podia ser desvendado: era essa conexão física, emocional, intensa e profundamente feminina que oportunizava às mulheres percorrer os labirintos obscuros do seu ser feminino com mais confiança. Era essa a parte que me faltava, da qual eu carecia e que as doulas poderiam ajudar, acrescentando a feminilidade e o contato amoroso ao trabalho técnico de médicos e obstetrizes.

Duro reconhecer, mas durante muitos anos eu fui um médico manco, claudicante, que andava me arrastando, sem saber como oferecer uma atenção que contemplasse as reais e profundas necessidades das gestantes e seus parceiros. Foi através das doulas, com sua calma, silêncio, tranquilidade, compaixão e arte que eu aprendi muito sobre os intrincados caminhos da feminilidade. Se o parto verdadeiramente é “uma parte da vida sexual normal de uma mulher” como dizia Odent, então a própria sexualidade feminina se desenrolava diante dos nossos olhos no momento sublime do nascimento, o que nos obrigava a uma atitude de solene admiração e respeito.

As doulas me levaram a uma revolução interna sem precedentes. Com elas percebi que a única posição subjetiva coerente de um médico é a humildade, aliada a compreensão do nascimento como um fenômeno para muito além do que conseguimos atingir com a mera pesquisa biológica e mecânica. Existem segredos ainda reclusos, que precisam ser descobertos, e cabe a nós a coragem de procurá-los. Para as doulas, e para Cristina – minha primeira doula – fica a minha homenagem e os meus agradecimentos eternos.

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A Destruição da Política

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O discurso destrutivo contra a política e os políticos nós reconhecemos facilmente nas ditaduras militares da minha juventude e nas ditaduras midiáticas contemporâneas.  Berlusconi, Doria, Trump e tantos outros “anti-políticos” são o resultado direto da desmoralização da política pelas forças conservadoras, com o discurso raso de que “os políticos são todos uns ladrões” e com a concepção tosca de que os cidadãos comuns (eu e você) somos mais honestos do que eles. Uma busca rápida e superficial de nossa própria consciência prova exatamente o contrário.

Os políticos são o espelho dos valores sociais medianos, o campo simbólico por onde todos circulamos. Não nasceram em outro planeta e seguem os mesmos valores do que nós. Pior, ao atacar a política e seus atores, criamos a falsa noção de que o empresariado e seus sequazes são “honestos”, “dinâmicos” e “progressistas”, quando na verdade são tão corruptos e virtuosos quanto qualquer outro sujeito social, mas que governarão a partir de seu especial viés de lucro e de capital. 

A tentativa de destruir a política e aniquilar a representatividade social se alinha com os piores movimentos fascistas e autoritários que conhecemos, de hoje e de sempre.

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Pets


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Eu escrevi há algum tempo um artigo controverso falando sobre o que considero uma crueldade moderna: a domesticação de cães e gatos. Mostrei estudos recentes que mostram que os gatos são responsáveis pelo extermínio de aves migratórias e isso se tornou um problema ecológico contemporâneo. Os cães modificados geneticamente, nas múltiplas espécies artificiais que produzimos, passaram a ter câncer, problemas de coluna, cegueira, desproporção cefalopélvica e uma vida mais curta. A isso podemos chamar “amor”? Terminei afirmando que não tenho “amor” pelos animais, porque esse amor eu considero muito estranho, e só se expressa na possibilidade identificatória. Isto é: amamos cães e gatos, mas não os ratos e os porcos, e todos eles são mamíferos. Nem pelos morcegos temos esse nobre sentimento. Baleias e golfinhos, mas não atuns e arraias. Baratas e mosquitos, nem pensar. Falei que nossa propensão a cuidar amorosamente de bichos aconteceu sempre que as civilizações diminuíram drasticamente o número de filhos. Lembra quando o culto aos “pets” era uma “frescura” europeia? Pois lá a diminuição da “prole humana” começou antes.

Os animais escolhidos para serem companhia para os homens e mulheres são sempre aqueles com quem podemos estabelecer um contato empático. Isto é: só servem aqueles que podem, de alguma forma, reproduzir a conduta humana. Gatos, cães, golfinhos, papagaios, etc.

Há pessoas que se ofendem com esse tipo de consideração, mais racional e fria. Porém eu lembro bem do comentário de um veterinário que disse em um programa de rádio: “entendo as inúmeras vantagens que os humanos tem –  em especial os velhos e as crianças – no convívio com os animais. Todavia, tenho sérias dúvidas se os animais tem algum benefício com a nossa presença”.

“Das raças de cães que existem na atualidade, 90% delas foram criadas nos últimos cem anos, e nossa insistência para que os cães atendam nossos padrões arbitrários – estéticos, de força, de aptidão para a guarda e a caça – está fazendo com que fiquem mais doentes e morram mais cedo do que seus ancestrais. O cão médio de raça pura é muito mais frágil que o cachorro comum, o conhecido “virá lata”. 60% dos Golden Retrievers acabarão padecendo de câncer. O “Dog Alemão” é tão grande que seu coração não suporta o peso do próprio corpo. Os Bulldogues, depois de um século de existência, estão com o o nariz tão amassado que mal podem respirar. Além disso, suas cabeças são tão grandes que só podem nascer através de cesariana Todos tem displasia do quadril e a expectativa de vida deles reduziu-se para seis anos”.

Quando eu disse que não tinha “amor” pelos animais – pelo menos não essa devoção antropomórfica que algumas pessoas demonstram – uma veterinária respondeu raivosamente dizendo que eu era uma “pessoa de merda”. Porém, eu comparo os animais domésticos às mulheres do harém. Lindas, charmosas, bem tratadas e bem alimentadas, vivendo do bom e do melhor. Entretanto, cativas. Será que por baixo das aparências de luxo essas mulheres realmente desejariam o cativeiro se a elas fosse oferecida a dádiva da liberdade?

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Poderes

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“O poder médico, que se expressa através do discurso e da ideologia do risco, assim como as ameaças veladas sobre o bem estar do bebê, têm um poder imenso de convencimento sobre as pacientes, em especial no final de uma gestação, onde as fragilidades e os temores estão à flor da pele. Muito mais do que o sistema de crenças e sua sustentação nas evidências – ou não – os exageros e violências vão ocorrer pela própria imponência da figura do terapeuta sobre o sujeito que sofre no embate transferencial que se estabelece.”

Dimitri Ustalov, “In hoc signo vinces”, ed Pompéia, pag 135

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Parto Adequado

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Fiquei sabendo que 10 mil cesarianas foram evitadas pelo programa “Parto Adequado”, cujo nome foi criado com um único objetivo: tirar o nome “humanização” dos projetos de incentivo ao parto normal. Como sabemos, os médicos sempre se ofenderam com essa palavra (“está nos chamando de desumanos?”). Essa diminuição de cesarianas e a consequente queda nas internações em UTI neonatal parece ser um bom indicador. Entretanto, quando percebemos que são realizadas mais de 1 milhão de cesarianas por ano, esta redução representa menos de 1% de todas as cirurgias realizadas no país.

Claro, o programa não foi aplicado no país inteiro, mas penso que sem mudar o paradigma médico intervencionista pelo modelo de parteria nenhuma mudança significativa e mensurável será percebida em um futuro próximo. Apesar dos resultados aparentemente promissores, o projeto “Parto Adequado” parece querer provar que é possível melhorar o atendimento ao parto dentro do velho paradigma, baseado na intervenção, no médico e no hospital.

Não creio…

A simples diminuição de cesarianas não fará a menor diferença. Estaremos evitando cesarianas a que preço? Podemos acabar trocando altas taxas de cesarianas por partos cheios de intervenções, além de acrescentar riscos decorrentes de uma atenção vaginalista, mas que mantém o mesmo viés centrado na intervenção.

Humanizar o nascimento é bem mais do que trocar um corte em cima por um mais em baixo.

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Acusações

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Eu acredito ser justo que mulheres comentem atendimentos em que se sentiram mal atendidas, lesadas, desrespeitadas etc, inclusive dizendo o nome do profissional quando isso ocorrer em grupos fechados. Por outro lado sou contrário aos linchamento virtuais de profissionais para quem não se dá direito de defesa. Sempre que escuto essas histórias eu digo “é, pode ser, mas gostaria de escutar a outra parte“. Entretanto, nas poucas vezes que isso aconteceu, fiquei impressionado com as diferentes histórias apresentadas quando ambos os lados tem a oportunidade de se expressar .

Um exemplo: Uma apresentadora de TV foi demitida e escreveu uma dura carta acusando os diretores pela sua demissão. Fiquei bravo com eles. Hoje surgiu a versão dos diretores que a demitiram. Fiquei puto com ela. Qual a versão verdadeira?

“Toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer” são tão somente palavras de ordem que fazem sentido no furor do ativismo. Na vida real há problemas, intervenções necessárias, cesarianas e todo tipo de merda possível, que em boa parte das vezes não tem a ver com a violência do profissional, mas com o uso adequado de sua arte para oferecer segurança às mães e aos bebês. Muitas vezes esses pacientes sofrem pela fantasia exagerada que criam sobre seus partos e não por uma real falha do profissional que as atendeu.

Para ser justo é preciso escutar com a razão, e não apenas com o coração.

Entretanto, o que eu afirmo em nada invalida a existência de violência obstétrica, que quanto mais invisível é mais intensa se apresenta. A descrição das pacientes NUNCA deve ser desconsiderada, ao mesmo tempo que não se pode desconsiderar a fala dos profissionais. A experiência nos oferece a oportunidade de entender que um parto não depende apenas dos cuidadores. Eles são uma parte fundamental do processo, mas não podem garantir nenhum resultado. Infelizmente muitas mulheres acreditam que as equipes de atenção humanizada podem solucionar bloqueios de ordem psicológica e emocional, alguns deles com mais de 30 anos de construção.

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Moção de Apoio

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12 de dezembro de 2016 · 17:35

Demonização da Política

Caros amigos. Por mais que esteja ocorrendo um desmonte dos partidos no Brasil ainda acredito que a saída para nossos desacertos está nos partidos. A melhora do Brasil não vai passar pela demonização de políticos e agremiações partidárias. Podemos tomar como exemplo o trauma na Itália com a ascensão de Berlusconi, um empresário de televisão e futebol. Aqui no Brasil, Doria em São Paulo foi a resposta inicial, mas tem muita coisa pior sendo gestada, como Dr Rey e Roberto Justus… (lembrem que Trump, no início, era considerado uma piada). O pior dessa equação é a crença fantasiosa de que os empresários, ao contrário dos políticos, são honestos, dinâmicos e trabalhadores. Basta ver o calote bilionário das empresas e as linhagens familiares do empresariado para ver que isso é falso.

Precisamos de BOA política, clara, transparente, com controle social e com propostas fáceis de entender. Não é destruindo os partidos e sua representatividade, e colocando um patrão para nos controlar que vamos mudar a imagem do Brasil.

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Para um pai que nasce

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A paternidade é um mergulho no abismo profundo das perguntas deixadas sem resposta. O fazer-se pai é reconstruir-se a partir das próprias fragilidades; é reencontrar-se na criança que acalentamos, buscando nela a solução para as dúvidas que deixamos para trás. Para além das respostas que perseguimos, tornar-se pai permite a um homem a dádiva do perdão, pois lhe possibilita perdoar o próprio pai nas inexoráveis falhas que a condição humana lhe impôs. Sem a paternidade, e o necessário sofrimento que ela nos obriga percorrer, perdemos esta grande oportunidade, ficando à mercê de vivências outras, fora do escopo de nossa própria experiência de vida. Por sua força e relevância, não há como negar que poucas experiências humanas podem ser mais criativas e potencialmente transformadoras. Depois de 34 anos assistindo partos e nascimentos é impossível não se admirar com o impacto que este evento provoca nos pais que, junto com seus filhos, nascem durante a explosão de emoções que circundam o parto.

Ao mesmo tempo em que produziu notáveis melhorias na sobrevida de mães e bebês, em especial na assistência aos casos de risco, o paradigma tecnocrático de assistência ao nascimento – por sua ênfase na técnica e na intervenção em detrimento do apoio e do cuidado – objetualiza e coisifica as gestantes, encarando-as como bombas-relógio prestes a explodir, tornando-se assim uma das maiores ameaças contemporâneas ao parto normal. O Brasil tornou-se um exemplo internacional de má prática  obstétrica, onde o abuso e o exagero na prática de cesarianas – além de inúmeras outras violências obstétricas – mostram o risco de mantermos a hegemonia deste modelo de assistência. É imperativo que se faça uma crítica severa ao paradigma médico de atenção ao parto normal para não perdermos por completo a conexão com um evento tão importante na construção da condição humana.

“Somos o que somos porque nascemos de maneira bizarra e incomum”. O nascimento humano, único em sua forma e consequências, determina as características especiais que nos distinguem. Da altricialidade de nossos rebentos – a extremada desproteção dos recém nascidos – originada por sua prematuridade neuronal, surge a “estranha anomalia da ordem cósmica, fissura na tessitura biológica e ato falho da obra divina: o amor“. Segundo Freud “se amor existe ele é o sentimento que une uma mãe ao seu bebê, fonte de onde todos os outros amores serão derivados”.

Existe ainda uma outra maneira de exercitar a paternidade de forma desafiadora e criativa: tornar-se pai de uma menina. Dos meninos pensamos tudo saber, tudo entender; afinal eles cursam o  caminho que nossos pés já andaram e nossos olhos já viram; as pedras sobre as quais tropeçam seus delicados pezinhos também estavam lá quando as trilhamos há poucas décadas. Deles queremos que se pareçam conosco, que sigam nossos passos, que torçam pelo mesmo time e que honrem nosso nome. Mas o que podemos esperar delas, que nascem como suas mães, que nos parecem tão estranhas e sempre nos confundem com sua especial visão do mundo?

O nascimento de uma filha nos coloca diante de um desafio duplo: a obrigação de enfrentar as dúvidas e temores da paternidade acrescentados ao desafio de entender o “feminino em botão”, a flor delicada e firme que desabrocha em frente aos nossos olhos atônitos e que nos oferece o ensinamento contundente da diferença. Como cuidar do desenvolvimento de seres que sempre nos pareceram enigmáticas, misteriosas e incompreensíveis? Se por um lado esta tarefa é grandiosa, também o é aterrorizante. Sabemos das marcas que a imagem de um pai produz na construção que essa menina fará de sua própria sexualidade e vida madura. Um pai será a matriz de valores e atitudes por sobre os quais ela vai estabelecer suas parcerias. A paternidade , assim estabelecida, vai impor ao novo pai uma revisão profunda de suas atitudes com relação às mulheres, na  medida em que deixamos de ser sujeitos de nós mesmos e passamos a ser espelhos onde aqueles pequenos olhos sequiosos de aprendizado procuram ensinamentos e exemplos de vida.

Apesar das angústias e do temor diante do gigantismo da tarefa, ainda assim poucas experiências na vida podem se equiparar ao desafio de construir-se pai. As cenas que acompanhei nas ultimas três décadas, onde sisudos homens vertiam lágrimas da mais profunda e genuína emoção ao levarem pela primeira vez seus filhos aos braços, formam um caleidoscópio de imagens que jamais serão apagadas da parede da memória. Ali, na escuridão cálida de uma cena de nascimento, entre sussurros, gemidos, medos e expectativas, se escondem os segredos mais profundos que regem a nossa esperança de imortalidade.

Ricardo Jones

Obstetra

Pai de Lucas e Bebel, avô de Oliver, Henry, Ava, Eric e Inácio. (Theo, in memoriam)

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