Fortunas

Virou um mantra dentro da esquerda progressista a proposta de taxar grandes fortunas. Vários analistas falam – com muita razão – que a burguesia “hard core” do Brasil não paga imposto, e que um milionário paga menos tributos do que uma professora de escola primária. Não há dúvida que, dentro do modelo econômico em que estamos inseridos, esta é uma proposta coerente; eu me permito, entretanto, uma pequena digressão. Para mim, a taxação das grandes fortunas funcionaria como liberar os animais do zoológico. Ora, todos concordamos com a necessidade de libertar os animais aprisionados das gaiolas onde estão expostos à nossa curiosidade. A crueldade de colocá-los “atrás das grades” para que possamos admirá-los à custa de seu sofrimento não parece ter cabimento no mundo atual. Todavia, esse recurso, apesar de justo e correto, tem a potencialidade de desviar a verdadeira questão do nosso horizonte e do nosso foco. O que deveríamos estar verdadeiramente questionando – com força e insistência – é a própria existência de zoológicos, que só existem porque nossa ganância desmedida causou a destruição do ambiente natural dos animais selvagens. Esse deveria ser o real debate – a preservação do ambiente natural – e não a simples libertação dos bichos cativos.

Mutatis mutandis, as grandes fortunas só existem porque o sistema capitalista concentra a riqueza de forma obscena, aumentando as distâncias entre o trabalho e o capital pela própria essência concentradora do capitalismo. Deveríamos estar discutindo as razões pelas quais existem bilionários, que são as maiores ameaças atuais à democracia. A razão simples é que essa riqueza abusiva destes sujeitos sempre se traduz em poder político, o que pode ser facilmente percebido pela atuação dos bilionários e suas corporações nos reiterados ataques às democracias da América Latina em todo século XX. Elon Musk e o conhecido bilionário das “revoluções coloridas” George Soros são o exemplo claro do risco que os bilionários representam para as nações do sul global. A ideia de taxar fortunas se encaixa na perspectiva de “mudar a superfície para manter a essência intocada”, e por isso mesmo serve aos interesses da esquerda liberal, que não aceita a luta de classes e insiste na ilusão de “disciplinar o capitalismo” e esperar por uma “conciliação de classes” que leve ao progresso, o que sempre se mostrou um fracasso.

É por esta razão que vedetes da “esquerda” liberal americana usam o slogan tax the rich, como se esta frente de lutas fosse uma linha de combate revolucionária, quando na verdade não passa de uma manobra diversionista do próprio capitalismo para nos impedir de adotar a luta anticapitalista como bandeira. A mais conhecida é Alexandria Ocasio-Cortez, a estrela da “esquerda” histriônica do partido democrata. Ela faz parte de um grupo de novatos do partido democrata chamado “The Squad“, que tem essa fachada jovem mas insistem nas práticas reformistas por todos conhecidas, e que jamais foram capazes de produzir reais modificações ou benefícios para a classe trabalhadora. Todas essas iniciativas partem da “esquerda woke” americana e deveriam ser repudiadas pois não passam de cortina de fumaça para nos impedir de perseguir o real objetivo através da verdadeira luta.

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Sobre a moça linda

No discurso da candidata de Sergipe ao Miss Brasil Teen 2024 ela tenta se defender do que chama de “vitimismo”, como a pedir para que suas origens não sejam confundidas com um pedido de atenção especial. Entre citações em várias línguas ela solicitou que sua condição de mulher negra, filha de mão solteira, neta de indígenas e pobre não fosse tomada como vantagem sobre as demais concorrentes. Para ela, o fato de sua situação social ser ruim não significaria que seja “limitante”. Diante desse tipo de discurso – que sempre contém a palavra “representatividade” – creio ser importante um pequeno ajuste.

Sim, os seus “parâmetros sociais” vão, sem dúvida, limitar os seus sonhos, e por isso mesmo para uma menina pobre e periférica na maioria das vezes restam as qualidades herdadas de beleza e graça para que possa alcançar algum futuro, furar a bolha das castas e conquistar seu lugar numa sociedade de classes. Se essa condição social não fosse limitante para os pobres, onde estaria essa menina caso fosse feia, ou apenas de uma beleza normal, e não fulgurante como é a sua? Onde estão as outras meninas, as filhas de mãe solteira, netas de indígenas e que vivem nos subúrbios? Na faculdade de Medicina, fazendo o curso de Direito, de Arquitetura? Serão elas, em boa conta, empresárias e artistas? Não, elas serão em sua grande maioria mães, donas de casa, manicures, diaristas, funcionárias de escritórios e empregadas do comércio, pois a sua condição social será um enorme impeditivo para a sua ascensão. Negar isso é cegar-se à realidade cotidiana.

Quando se fala de um sujeito com qualidades especiais, em especial uma menina agraciada por incontestável beleza, não se pode tirar do horizonte que ela é uma minúscula exceção em um universo que determina desde o berço o destino de quem nasce pobre e com a cor negra a colorir sua pele. Não é justo tomar a exceção como se fosse a regra, pois a realidade bate à porta todos os dias nos mostrando que o mundo não oferece oportunidades iguais para quem nasce no bairro nobre e para aqueles da periferia dos grandes centros urbanos.

Sem que a sociedade sofra uma revolução através da luta de classes essas meninas continuarão a ser a suprema exceção, o ponto desviante, cuja única esperança de alcançar o sucesso e a fortuna na vida será através da beleza física ou, no caso dos meninos, a arte de chutar uma bola. Acreditar que o sucesso ocasional de uma pessoa representa a “vitória dos excluídos” é jogar o jogo dos poderosos, fazendo com que a sociedade injusta que temos seja tratada como normal, a qual só pune os vitimistas e os que “não se esforçaram o suficiente”.

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Carteira de trabalho

Esta foto acima é a carteira de trabalho do meu pai, com a foto da família à época, antes do nascimento dos meus irmãos Roger e Nice Jones. Infelizmente a minha data de nascimento está errada, já que é público e notório que nasci em 1984. Reparem a angulação, ao estilo Hollywood, que a minha mãe se posicionou para a foto, e o bigodinho “limpa-trilho” do meu pai.

Sobre as fotos está o carimbo do IAPFESP – Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários e Empregados Públicos, que eram um dos múltiplos institutos de aposentadoria e pensões que existiam na minha infância. O INPS – Instituto Nacional de Previdência Social – foi criado no ano de 1966, originando-se da fusão de todos os Institutos de Aposentadoria e Pensões existentes à época. Já o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), autarquia federal, foi criado em 1977, pela Lei nº 6.439, que instituiu o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social.

Por sua vez o SUS, Sistema Unificado de Saúde, foi criado pela Lei 8080/1990 que desde então levou a uma trajetória de muito esforço e desafios enfrentados, diariamente, para proporcionar e garantir o direito universal à saúde como dever do Estado.

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Fuga de Tel Aviv

É oficial. Autoridades de imigração israelense confirmam: nos primeiros seis meses da guerra contra Gaza 550 mil pessoas fugiram por Tel Aviv para os países ocidentais e nunca mais voltaram. Aliás, existe um famoso filme infantil sobre a fuga de aves domésticas que retrata esse fenômeno.

Brincadeiras a parte, quem pode criticar essa disparada? Lembrem que 60% dos israelenses tem dupla cidadania, pois são imigrantes da Europa e Estados Unidos, em especial os milicianos armados dos assentamentos. Eles apenas estão voltando para suas casas no Brooklyn, na Inglaterra, na Rússia, etc.

Para uma população de 6 milhões de judeus em Israel a fuga de 600 mil representaria 10% da população. Seria o mesmo que assistir 20 milhões de brasileiros saindo do nosso país. Se os psicopatas de Israel realmente planejam um ataque suicida ao Líbano (de onde já saíam escorraçados duas vezes), esse número ultrapassará a barreira do milhão tão logo a primeira bomba caia no norte de Israel. Isso apenas vai apressar o fim inevitável do país do racismo, dos abusos e do apartheid.

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Comentaristas isentos

Aqui no RS existe, desde longa data, o costume dos comentaristas de futebol, repórteres de TV e rádio, serem “imparciais”. Na verdade, pela divisão das torcidas, definir-se por um lado significava ser odiado pelo outro lado. Por esta razão os profissionais da imprensa passaram anos fingindo uma imparcialidade para se forjar uma equidistância dos polos clubísticos. Como sempre, é impossível enganar todos o tempo todo, e a cor da camisa sempre acabava aparecendo.

Esse costume foi rompido há alguns anos com advento das redes sociais e o surgimento dos comentaristas “identificados” com os clubes. Na maioria não são jornalistas de formação e com o tempo foram eclipsando a luz dos famosos jornalistas sabichões, que tudo sabem do ludopédio. A partir de então, não apenas inúmeros novos comentaristas surgiram como alguns “isentos” saíram do armário, declarando abertamente seus clubes, sendo que a maioria, ao fazer esta revelação, causou tanta surpresa quanto a declaração “bombástica” do governador do Estado para o Pedro Bial.

O que me surpreende (mas não devia) é que esses novos “assumidos” agora agem como torcedores fanáticos, esbravejando, gritando o nome do seu clube, chorando ao vivo e disparando palavrões quando o juiz marca algo contra seu time. Isso me obriga a pensar: quando havia encenação? Antes, quando agiam com moderação e isenção ou agora quando atuam de forma histriônica e fanática?

Minha resposta simples é: em ambos momentos. Antes para evitar a desvalorização de suas opiniões, pois estariam afetadas pela paixão clubística, e agora para solidificar sua condição de representantes fanatizados da torcida, mesmo que, diferente de outrora, agora suas manifestações são irracionais, escandalosas e mediadas pelo fervor por suas cores. Ou seja: na crônica esportiva, como em qualquer outro setor do mundo do espetáculo, a luta pela audiência pressupõe um teatro incessante, onde o que importa é cativar a atenção do espectador usando todas as armas possíveis. No passado a máscara era a isenção e a seriedade; hoje se usa a desbragada afiliação ao clube do seu coração como ferramenta de marketing. A sinceridade, como sabemos, é um detalhe pouco importante.

PS: quem é da Aldeia conhece M. Saraiva e a instituição da IVI.

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Partus mutandis

Eu creio que hoje estamos vivendo o “Império do Imediatismo”. Nas conversas diárias as mensagens que ocorrem no ambiente da Internet precisamos ser concisos ao extremo e, quando possível, acrescentar um recurso qualquer que cative a atenção. Antes do advento das redes sociais tudo o que tínhamos para a troca bidirecional de ideias eram os “list servers”, as listas de discussão através de e-mail. Naquela época, para debater os dilemas do parto e nascimento e a violência obstétrica, só tínhamos o texto e seu conteúdo, o que nos forçava a pensar e resolver estas questões através da nossa capacidade racional. Hoje o esforço é por convencer; queremos derrotar os adversários e não pensamos duas vezes para usar recursos extraordinários para derrotar quem nos desafia – as dancinhas do TikTok, a retórica, as imagens, as fake news, os memes. Recursos para impactar e sentir, e não para pensar

Lembro que quando apresentei o Power Point ao meu pai ele me disse “Muito legal, mas cuidado. Ao fazer uma palestra esses recursos roubam a atenção e colocam você em segundo plano. Não esqueça que as pessoas vieram para ver você, não estes artifícios”. Ele se preocupava que as “firulas” pudessem tomar o lugar do pensamento, da lógica e da razão. Temia que o meio dominasse a mensagem, e parece que ele tinha razão. Hoje parece que o Facebook, Instagram, Tiktok, etc. são grandes e sofisticadas molduras ao redor de telas vazias ou insignificantes. Isso também explica o sujeito que é famoso “por ser famoso”, alguém que foi colocado nessa posição pelo BBB ou por alguma tolice de redes sociais, mas sem qualquer habilidade ou conteúdo que o faça merecer qualquer destaque.

Por certo que hoje o parto enfrenta novos desafios. Em uma população cada vez mais drogada, mais controlada externamente pela química, os médicos se comportam como se os pacientes fossem constantes ameaças, ao mesmo tempo em que os pacientes são ressentidos com uma corporação vista como onipotente e arrogante. Mulheres estão decidindo pela gravidez cada vez mais tarde, acrescentando uma nova configuração populacional e familiar, com o desaparecimento de irmãos, cunhados, primos e bisavós. Um número imenso de gestações agora ocorre na 5a década, através de fertilizações e inseminações, cujos riscos sequer temos plena compreensão. Aos poucos o parto fisiológico está desaparece do horizonte; mulheres já não podem contar com a própria fisiologia e suas capacidades inatas para parir, e talvez essa seja uma tendência irreversível, já que o medo de parir é estimulado por aqueles que controlam o parto nas culturas ocidentais. Se somos uma espécie especial no planeta porque nascemos de uma forma inusitada e bizarra, temo que o afastamento do processo de adaptação dinâmica à natureza fará surgir uma nova espécie, e não tenho nenhuma confiança de que ela será melhor do que esta.

Nas listas por e-mail do passado havia um desejo muito grande de vários atores sociais – obstetras, parteiras, doulas, pediatras, etc. – de oferecer uma perspectiva para a grande inconformidade que sentíamos em relação ao nascimento humano. Havia disputas no terreno das ideias, mas não existia muito espaço para lacração. Éramos jovens, cheios de energia criativa; os sonhos ainda nos dominavam. Eu espero que uma nova geração de ativistas de perspectiva materialista (ou seja, menos idealistas e mais práticos) venham a nos substituir. Ativistas que entendam o parto humanizado como ele realmente é: uma luta por espaços sobre a topografia física e emocional da mulher, e não uma disputa de saberes e evidências científicas, posto que estas não são capazes de produzir transformações. Precisamos ultrapassar o idealismo ingênuo e reconhecer a necessidade do enfrentamento, com a coragem de enfrentar os desafios inevitáveis.

A partir de uma conversa com Ana Cris Duarte

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Filhos

São os filhos que nos deixam velhos; os netos apenas passam a régua e fecham a tampa do esquife. Isso é uma verdade insofismável, o destino inescapável que a geração que nos segue oferece como maldição. Não fosse o fato do meu filho estar completando hoje 42 anos eu mesmo poderia passar por esta idade, bastando para isso uma brilhantina no cabelo, uma roupa prafrentex, um raibã, uns pisantes ajeitados e ninguém repararia que tenho um pouco mais. Porém, como dissimular uma idade assim quando meu próprio filho já ultrapassou a barreira dos “enta”? Como explicar às pequenas que tenho a mesma idade do meu filho? Não colaria; eles nos denunciam, apontam seus dedos miúdos contra nós e desvelam o que tanto tentamos esconder.

Os filhos nos condenam à velhice. Eles nos lembram o tempo que passou. Eles nos apontam a linha do horizonte que se aproxima a cada dia, como um meteoro que se acerca da terra a cada giro diário, nos avisando do fim inexorável. É o ciclo que se refaz. Mas aparte de tantas denúncias, eles nos lembram do que nos tornamos e como isso ocorreu. Cada vez que dizem e fazem algo, não passa um dia em que não lembre “isso eu também já fiz”, ou “também já vi o mundo com esses olhos“. Vejo a mim mesmo nos passos dos meus filhos em cada fase da vida. Penso que todas as suas besteiras eu também as fiz, e suas alegrias também foram minhas, apenas umas poucas décadas antes. Entretanto, eles também são o farol a nos guiar na escuridão da senectude, lembrando o quanto de esperança ainda sobrevive.

Minha avó, Mammy, não permitiu que nenhum de seus netos a chamasse de vovó. Determinou que os netos a chamassem como seus filhos o faziam, a palavra inglesa para “mamãe”. Essa era sua forma de evitar a palavra que denunciaria sua idade. Na última conversa lúcida que tive com meu pai, no hospital onde veio a falecer, ele já estava bastante confuso. Ainda assim, me apresentei a ele dizendo meu nome “Ricardo, seu filho”. Ele voltou o rosto para mim, olhou fundo em meus olhos procurando o foco e, com um sorriso maroto, disse: “Ricardo? Como tu estás velho!!”, e riu gostoso, para depois mergulhar de novo em seu mundo que aos poucos se apagava. Para mim a mensagem ficou clara: ao se despedir da vida decidiu guardar as imagens reconfortantes dos filhos ainda pequenos e jovens, presentes nos seus momentos mais felizes. Quando confrontado com a realidade, preferiu sorrir e acreditar se tratar de uma ilusão. Escolheu a imagem idealizada, aquela que levaria para o outro plano.

Não há dúvida de que farei o mesmo. Mesmo nos 42 anos que hoje meu filho e minha nora Nani completam, eles continuarão sendo os meninos e meninas da João Bonumá, felizes e despreocupados jogando bola na rua, e na minha derradeira cama, quando se acercarem para a despedida deste velho, também sorrirei dizendo: “Como vocês estão velhos!!”, mostrando que também eu levarei para o além suas faces infantis e felizes, oferecendo a eles a esperança e a alegria que lhes deixo como herança.

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Serjão dos Foguetes

Sabe qual o drama do Serjão dos Foguetes? O mesmo de quase todos os “produtores de conteúdo” do YouTube: a tirania do papel em branco, o mais terrível dos opressores para quem está conectado ao mundo do entretenimento.

Vamos combinar que existe muito material para falar de astronomia e geofísica – esta última é a área na qual ele tem formação. Há como falar dos achados incríveis do James Webb, das descobertas de exoplanetas, da Lua, de Marte, da viagem interplanetária, de Vênus, do furacão de Júpiter, da vida fora da Terra, de visitantes alienígenas, das teorias sobre o Oumuamua, etc., mas a gente sabe que existem tormentos para quem quer continuar a falar indefinidamente. O primeiro é que, apesar de vasto, estes temas não são infinitos; não há como repetir 4 ou 5 vezes um programa sobre a Lua ou sobre os satélites de Saturno. Desta forma, uma solução encontrada é sucumbir à “síndrome de Caetano”, que é a tendência a dar opinião sobre coisas sobre as quais não tem muito conhecimento. Aqueles que se deixam contaminar por ela acabam falando demais por terem atingido um grau de notoriedade que faz com que jornalistas fiquem insistindo em obter sua opinião sobre temas aleatórios. Eu sei o quanto é difícil ser humilde nessas horas e dizer: “não tenho opinião formada sobre isso”, e ter a grandeza de uma Glória Pires na premiação do Oscar. A maioria sucumbe a ideia ilusória de que sua opinião é indispensável.

Serjão era quase uma unanimidade entre aqueles que gostam de ciência popular. Com seu jeito de nerd, gordão, sorridente, brincalhão, e muito comunicativo, ele explica a astrofísica como se fosse um professor bonachão das séries iniciais de um colégio público. Não se furtava a brincar com o “mundial inexistente do Palmeiras”, com as teses amalucadas dos terraplanistas e com as descrições de visitantes extraterrestres a visitar nosso planetinha. Tudo ia muito bem, e seu canal já havia passado alguns muitos milhares de inscritos e, direi eu, de forma merecida, até porque sou um dos fãs dos seus programas.

O problema começou a ocorrer quando Sérgio Sacani – seu verdadeiro nome – começou a dar mostras de que, além de ser um excelente comunicador e divulgador científico, estava alinhado com as correntes mais conservadoras do pensamento político contemporâneo, flertando com a extrema direita e o bolsonarismo. Quando sua biografia foi exposta surgiram manifestações no mínimo comprometedoras, em especial quando sugeriu a morte do presidente Lula, mesmo que em forma de brincadeira. A partir daí, ficou claro que sua posição no espectro político estava situada muito mais à direita do que gostaríamos, em especial por ele ser um propagador do conhecimento científico. Serjão apoia a ciência ao mesmo tempo em que se aproxima dos grupos que mais a atacam. Também é notória a sua vinculação com figuras icônicas da extrema direita mundial, em especial Elon Musk. Sua defesa se baseava em uma Fake News: um fantasioso diálogo entre o herói bilionário e a “ONU” a respeito de uma doação de 6 bilhões de dólares para acabar com a fome, para a qual ele exigia a “nota” dos gastos para, só então, investir nessa iniciativa. Tudo indica que o diálogo e as exigências do dono da Tesla eram apenas uma forma de propaganda.

A privatização da Petrobrás, que ele defende, é uma das suas opiniões mais controversas. Para ele, “a Petrobrás está cheia de pessoas que não fazem nada, está inchada“. Assim, uma empresa nas mãos de investidores, entregue pelo governo à iniciativa privada, seria uma forma de deixar a empresa mais saudável, usando o velho argumento de que as empresas privadas são mais “honestas” e mais “enxutas”. Para ele, a importância estratégica de ter o petróleo sob o controle do governo é menos importante do que se livrar de funcionários que, segundo ele, pouco ou nada produzem. Também é pródigo em atacar a China, tratando sua ciência como se fosse inferior à americana, o padrão de excelência.

Assim, o que vemos com Sérgio Sacani, longe de ser um desvio na curva, é um padrão no comportamento dos divulgadores de conhecimento nas redes sociais. Assim que ele começou a falar de assuntos como geopolítica, capitalismo, sociedade, privatizações, socialismo, China, Coreia Popular e o significado dos bilionários na sociedade capitalista ficou evidente sua verdadeira essência conservadora. A exaltação do bilionário Elon Musk, visto com ele como um “gênio” e mecenas da ciência, e a de Lula, visto como alguém que poderíamos eliminar, deixa muito clara sua perspectiva de mundo. Porém, não é certo culpá-lo por estas opiniões fora do seu métier; ele na verdade sucumbe à tentação irresistível de ficar tratando de assuntos que desconhece; na maioria das vezes “ouviu o galo cantar mas não sabe onde”. Muito do que ele fala de política, do PT, do Lula, de Elon Musk, da China, da Coreia Popular é suco de senso comum, um amontoado de informações sem fonte e sem qualquer comprovação científica. Essa adesão oportunista aos cânones científicos é o que existe de mais censurável; quando é para criticar os terraplanistas a vinculação à ciência é mandatória; afinal, como tratar destes assuntos e ao mesmo tempo desprezar toda a ciência que sustenta nossa visão do cosmos? Todavia, quando critica os “vagabundos da Petrobrás” não é necessário mostrar nenhuma comprovação de que os funcionários da nossa maior estatal são relapsos – sua percepção pessoal e isolada é suficiente. Ou seja: ciência para quem precisa de ciência; senso comum quando interessa.

Entretanto, eu ainda prefiro esquecer as mancadas do Serjão dos Foguetes e escutar apenas as coisas interessantes que ele apresenta. Acho que é razoável e justo distanciar o autor da obra, o divulgador científico da sua posição política. Por outro lado, que isso fique como ensinamento: o fato de um sujeito ter uma vida acadêmica abundante, rica e ter acumulado conhecimento sobre um tema específico, não garante que tenha informações suficientes para tratar com profundidade outros temas. A compartimentalização do conhecimento nos permite que sejamos doutos em determinada especialidade e totalmente ignorantes em muitas outras. Nosso erro é valorizar as opiniões dessas pessoas fora dos seus domínios, onde eles possuem a mesma profundidade de saber do que qualquer um de nós.

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Pax Capitalista

Existem personagens no universo das redes sociais – em especial no zoológico dos comentários que brotam abaixo de qualquer notícia – que ainda pensam que o PT é um partido “socialista”. Por certo que muitas dessas manifestações são pura estratégia do “espantalho”: chamam o partido de socialista (ou comunista) para poder colocar no inimigo um rótulo que agrega boa parte da direita mais raivosa e violenta. Da mesma forma chamam um partido de direita, como os democratas dos Estados Unidos, de “esquerdistas”, apenas para confundir a “teologia dos costumes” com o ideário socialista. Tudo mentira, usada para fazer fumaça e não questionar o capitalismo decadente e a necessária luta de classes.

É importante o esforço esclarecer todos aqueles que ainda estão mal informados sobre os partidos no atual cenário nacional. Quando olhamos o leque de alternativas que vai da direita fascista até a esquerda revolucionária, o PT se situa numa posição de centro-esquerda, de caráter abertamente reformista e inserido no modelo capitalista. Os verdadeiros socialistas do PT saíram há muito tempo e entraram em partidos da esquerda revolucionária, como o PCO, o PSOL, a UP, etc, ou então se adaptaram a posições de comando, imaginando mudar a política sem questionar a estrutura da democracia liberal. Para os socialistas “raiz”, da esquerda revolucionária e marxista, o PT no governo representa acima de tudo o alívio de não ter um ladrão de galinhas genocida comandando o país. Mesmo sendo um partido progressista e de raiz operária, o PT não representa os ideais anticapitalistas que animam a franja esquerda do espectro político do nosso país. Por isso os socialistas acreditam que não há erro algum em reclamar do PT; aliás, existem críticas bem merecidas. Porém, não cabe à esquerda fazer coro com os fascistas cujo interesse não é a crítica ao governo de Lula, mas sua destruição, para dar lugar ao seu projeto neoliberal e imperialista. Além disso, para criticar o socialismo é necessário entender o que esta proposta significa.

Desconfiem dos conceitos que os ricos e os “coaches” do individualismo vendem pra você, como “eles vão tomar sua casa“, ou “divida seu dinheiro com os pobres” e até o famoso “o socialismo nunca deu certo“. Este último parte da ideia de que o “socialismo não funcionou” quando comparado às sociedades capitalistas da Europa e da América do Norte, mas nestas análises apenas se referem à perspectiva da classe média, escondendo a iniquidade, a criminalidade e a crescente pobreza que por lá existe. Essa visão também se choca com a realidade que observamos. Hoje vemos China, Vietnã, Rússia, Coreia Popular e até Cuba como “players” no cenário internacional, posição que o Brasil – com muito mais riquezas que todos esses países – jamais ocupou. A Rússia saiu do arado manual para colocar o primeiro astronauta girando em torno da Terra em 50 anos. Hoje já é a 4ª economia do mundo e continua crescendo, apesar dos embargos do imperialismo, muito graças ao socialismo que vicejou no país por 70 anos. A China bate recordes de produtividade, é líder de alta tecnologia, cresce mais de 5% ao ano (mas já cresceu 14%!!!) e será em breve a primeira economia do mundo. O Vietnã é o líder mundial na produção de café e com a ajuda da China vai se tornando um polo de tecnologia de informação. Cuba, apesar do boicote insano, oferece dignidade aos seus cidadãos.

Pense nisso: há 30 anos o PIB do Brasil era igual ao da China. Responda: o que o socialismo da China fez lá que não fizemos aqui nas últimas 3 décadas?

Por fim, um socialista é o sujeito que estudou algo de teoria econômica e principalmente história. Não há como ser marxista sem entender o materialismo histórico e dialético e também a geopolítica do capitalismo. Sem que adquira uma noção das contradições insolúveis do capitalismo, e sem uma visão fraterna e internacionalista, será difícil entender esta perspectiva. Que muitos achem que os socialistas são “burros” ou “iludidos” não me surpreende; a imensa maioria parece incapaz de entender o que significa esse modelo, e por esta razão continuam apoiando os banqueiros, os rentistas, o imperialismo e os barões do sistema financeiro, que sugam toda a riqueza que nós produzimos. A lavagem cerebral a que todos somos submetidos através da propaganda imperialista incessante impede que se possa enxergar a real essência da nossa alienação. Entretanto, um dia estes mesmos que agora apoiam a submissão aos valores do capitalismo vão adquirir consciência de classe e entenderão as razões pelas quais os trabalhadores merecem usufruir da riqueza que eles mesmo produzem. Enquanto isso tentarão nos fazer acreditar, através dos múltiplos partidos de esquerda revisionistas, na possibilidade de uma “conciliação de classes”, que na verdade não passa de uma “pax capitalista“, onde a ilusão do equilíbrio só é conseguida pelo silêncio dos oprimidos.

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Tempos

Sobre o tema insolúvel da dinâmica dos tempos: “Ele poderia ter falado isso há muitos anos mas, se o fizesse, não haveria quem escutasse. Desta forma, inobstante a urgência da verdade em sua boca, há que esperar a maturação dos ouvidos.”

Pierre Le Gouthier, “Le Fruit qui Tombe”, Ed. Parnasse, pág. 135

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