As lágrimas de Warren

Quadro de Robert Hinckley sobre os acontecimentos de 16 outubro 1846

Na manhã daquele dia, no distante 16 de outubro de 1886, Gilbert Abbott – um homem tuberculoso que vivia em Boston e que ostentava um vistoso tumor submaxilar – sentou-se em uma cadeira de couro vermelho pensando que aquele poderia ser seu derradeiro dia de vida. Em seu rosto pálido parecia não correr uma gota sequer de sangue quando encarou, à sua frente, a equipe cirúrgica que se aprontava para efetuar a operação de retirada da tumoração. No centro da equipe, ladeado por nomes como Gould, Townsend, Bigelow e Hayward estava John Collins Warren, um dos mais famosos cirurgiões dos Estados Unidos à época. Gilbert Abbott sabia que seu sofrimento poderia ser excruciante, talvez fatal, mas por certo não seria demorado: uma quantidade imensa de dor concentrada em alguns poucos minutos, se tanto. É importante entender que em meados dos século XIX as cirurgias eram necessariamente muito rápidas, pois a velocidade dos cortes era o que permitiria a possibilidade de sobrevida. Os cirurgiões eram verdadeiros “açougueiros”, hábeis na capacidade de cortar os tecidos e serrar ossos com precisão e rapidez. Não havia tempo a desperdiçar; amputações de membros inferiores, em geral por gangrena, eram realizadas em 30 segundos, “pele-a-pele” – habilidade preciosa que tornou famoso o cirurgião escocês Robert Liston. Eram homens embrutecidos pelo trabalho com a dor, o sofrimento e a morte. Tinham um aspecto sujo, grosseiro e bruto e suas ações eram marcadas pela frieza e por um temperamento impávido.

Naquele diz um ator diferente havia sido aceito para participar da cena cirúrgica. O dentista Thomas Green Morton estaria disposto a demonstrar os efeitos sedativos de uma substância que havia experimentado com sucesso na sua prática de odontologia, quando conseguira extrair dentes de pacientes sem que estes experimentassem dor. Para isso uma grande plateia se preparava para assistir a apresentação, ainda que a maioria acreditasse em um retumbante fracasso e um vexame para seus protagonistas.

– Em nossa próxima cirurgia utilizaremos uma substância preparada por um certo senhor Morton, a qual ele atribui a capacidade de tornar insensíveis à dor aqueles que a aspirarem.

As palavras de Warren eram pura arrogância e incredulidade. Na sua visão até então, esses sujeitos e suas “novidades” nada mais eram do que embusteiros, picaretas, farsantes e aproveitadores da credulidade pública. Na plateia de médicos e estudantes ouviram-se risos quando do anúncio. Como ousava alguém abolir a sensação dolorosa que nos foi oferecida pelo Criador como castigo por nossos pecados mortais? Quem poderia ter a pretensão e a ousadia de mudar o que de humano existe em cada dor, cada sofrimento? O clima estava preparado para o deboche, o escárnio e a humilhação pública do pobre dentista; os presentes estavam prontos para uma ruidosa gargalhada.

Thomas Morton aproximou-se e perguntou ao paciente Abbott se ele estava com medo, ao que ele respondeu negativamente. Aproximou dele o globo de vidro repleto de éter sulfúrico (ou éter etílico), substância que era conhecida pelos trabalhadores dos circos há muitos anos como “gás hilariante”, muito usado em suas apresentações. Acercando-se de Abbott, trouxe a cânula para perto de sua boca, pedindo que aspirasse vigorosa e profundamente. “Vai tossir um pouco – avisou – mas logo passa”. Em poucos instantes os lábios do paciente se afrouxaram; logo após os braços penderam ao longo do corpo e perderam o tônus. A mandíbula afrouxou e Abbott passou a dormir como um cordeirinho. Morton voltou-se para John Warren e exclamou, pela primeira vez confiante:

– O paciente está à sua espera, Dr Warren

Deixo aqui a descrição do livro “O Século dos Cirurgiões“, de Jürgen Thorwald, sobre os fatos testemunhados por aqueles que se acotovelavam na arquibancada da sala de cirurgia do Hospital Geral de Massachusetts na histórica data de 16 de outubro de 1846:

“Warren curvou-se em silêncio para Abbott. Impassível como sempre, arregaçou os punhos, tomou o bisturi. E logo, com um movimento fulminante, desferiu o primeiro golpe. Fizera-se na sala silêncio absoluto; ouvir-se-ia perfeitamente a menor manifestação de sofrimento, um gemido, um suspiro. Porém, o paciente não se movia, não se defendia. Perturbado, pela primeira vez, Warren curvou-se mais sobre o operado, praticou a segunda incisão, a terceira, muito profunda. Dos lábios de Abbott não saiu um som. Warren extraiu o tumor. Nada! Nem um ai! Warren cortou as últimas aderências, colocou a ligadura, passou a velha esponja, para limpar o sangue…

E nada… só silêncio… sempre silêncio…

Warren endireitou-se, empunhando ainda o bisturi; estava mais pálido que de costume e o trejeito sarcástico desaparecera dos seus lábios; faíscas saíam dos seus olhos, cheios da luz do prodígio misterioso, inconcebível e, até instante atrás, inacreditável …

– Isto – pronunciou afinal o grande cirurgião – não é nenhum embuste…

De improviso, nas suas faces engelhadas, ressequidas, cintilou um brilho úmido. Warren, o soberbo, o lacônico, o coração empedernido, Warren o homem avesso a toda manifestação de sentimento, chorava.”

Mais de 178 anos já se passaram desta cena memorável, inaugurando a era da cirurgia moderna e o uso da anestesia como elemento indispensável em todo o procedimento cirúrgico, livrando a humanidade de uma história de milênios de dores e sofrimentos. A partir desta data, a possibilidade de corrigir o corpo humano através da invasão pelo bisturi passou a ser uma realidade. Também a partir desse momento, inaugurou-se o nascimento cirúrgico moderno, em que a sobrevida de ambos, mãe e bebê, se tornou a norma. Todavia, se é lícito questionar os abusos desta cirurgia nos tempos atuais, também é justo saudar essa incrível façanha do gênio humano. Aos médicos e a todos que se dedicam a minorar as dores daqueles que sofrem, nossa homenagem.

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Vingadores do presente

*atenção: contém spoilers*

Finalmente pude assistir com meus netos um dos meu filmes prediletos de ficção científica: Total Recall (no Brasil, “Vingador do Futuro”), da dupla Arnold Schwarzenegger – Paul Verhoeven, clássico que já completou 30 anos de idade. O filme se passa num futuro não muito distante em que o planeta Marte foi colonizado e suas minas de minério são exploradas por uma empresa privada da Terra, controlada a mão de ferro por um tirano chamado Cohaagen. No planeta as pessoas vivem enclausurados em uma redoma onde o oxigênio é racionado, o que, ao lado das péssimas condições sanitárias, produziu uma legião de seres mutantes. Por causa do sistema opressivo sobre a classe operária de Marte, criou-se uma força de resistência liderada por um mutante de nome Kuato, que vive na barriga de um outro sujeito (um esconderijo perfeito).

O filme lida com uma questão filosófica extremamente interessante: é possível mudar a essência de um sujeito? Seria possível mudar o caráter de um indivíduo, através de drogas, cirurgias, reprogramações, etc? O personagem Douglas Quaid (Arnold Schwarzenegger) anteriormente se chamava Hauser e era um escroque, um canalha amigo do governador corrupto de Marte. Através de um tratamento de “férias mentais” pela empresa “Rekall Inc.” ele se submete a uma transformação mental para se esquecer de sua personalidade passada e assumir uma nova, tornando-se um militante idealista para, infiltrado entre os insurgentes, poder se aproximar do líder dos rebeldes marcianos. Nesse processo, apaixona-se por uma mutante marciana chamada Melina. Tendo o líder mutante sido descoberto e morto, é hora de desfazer o processo e fazer Quaid (o idealista) voltar a ser Hauser (o infame e mesquinho braço direito de Cohaagen). Quando revelam a Quaid quem ele era no passado – alguém desprezível, interesseiro e egoísta – o novo sujeito se nega a retornar à personalidade anterior. Luta contra toda malta de corruptos de Marte, mantém sua nova “persona idealista” e libera a máquina alienígena que inunda o planeta de oxigênio, desta forma “terraformando” o planeta vermelho. Nesse processo salva os rebeldes da morte por sufocamento e fica com a morena bonitona.

Eu não entendo como é possível assistir esse filme e não se identificar com os rebeldes explorados, os sofridos operários de Marte, com suas mutações grotescas, falta de recursos, cicatrizes horrendas, degradação social e falta de oxigênio. Mesmo sendo a força motriz que produz a riqueza do planeta (o minério extraído) viviam enjaulados, expostos à radiação, enclausurados em seus guetos, sem direitos e sob o controle dos poderosos capitalistas. Sem o saber, Philip Dick, que escreveu o livro em que o filme se baseia, descreveu a situação de Gaza atual, onde o planeta Marte é a Palestina ocupada e os tiranos sionistas matam e aniquilam sem qualquer consideração pelas vidas humanas. Para os opressores e colonizadores “os mutantes/palestinos não são como nós, os escolhidos; deixe-os sufocar até a morte”.

Durante a rebelião pela libertação do povo marciano por certo que houve mortes de soldados do exército de Cohaagen, nas lutas entre o poder tirânico e as milícias dentro dos túneis de Marte, mas fica fácil entender que os rebeldes tinham o direito de lutar por sua liberdade e sua dignidade. A reação dos oprimidos é vista como natural e justa, por mais que se lamente as mortes que ocorrem. No final todos respiramos aliviados pela libertação dos oprimidos e a derrota dos colonizadores sem escrúpulos. Por isso é difícil para mim entender quem ainda critica a resistência Palestina e prefere que a força brutal dos colonizadores racistas vença a guerra. Como conseguem se identificar com os guerreiros pela liberdade na ficção e não conseguem enxergam a mesma dinâmica na realidade, vendo a resistência do povo massacrado há 75 anos na Palestina ocupada? Roger Waters tem razão em criticar os fascistas que vão ao seu show. “Cantaram minhas músicas por anos e nunca entenderam nada”. Pois eu digo que estes que ainda apoiam o Estado terrorista e racista de Israel ainda não entenderam nada sobre dignidade e luta de um povo.

PS: nem falei da Sharon Stone como a vilã mais gostosa da história da ficção científica.

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Esquerda festiva

Eu fui um dos que nunca engoliu o discurso direitista de ambos. Houve um tempo em que atacar Olavo de Carvalho, Temer, Bolsonaro e o bolsonarismo era visto como o selo de qualidade do esquerdista. Fomos enganados por figuras como Karnal, Prioli e Bugalho e outros menos importantes, fazendo-nos crer que seu combate aos fascistas tinha conteúdo revolucionário. A foto de Karnal elogiando o juiz Moro e os ataques sistemáticos de Bugalho aos socialistas mostraram sua verdadeira essência: pensadores sem criatividade que surfaram na onda da luta contra os golpes que atingiram o Brasil vindo das franjas mais reacionárias da nossa população. Hoje a gente percebe que a turma da esquerda liberal, que cultua o “fim da história”, que acredita na potencialidade do capitalismo, que usa teses moralistas para atingir os bilionários (ao invés de olhar a estrutura que os cria e sustenta) e que prega a “reforma íntima” (e não sistêmica) para a cura da iniquidade, são os mais fiéis combatentes contra o projeto socialista e de qualquer outra reforma estrutural na sociedade capaz de produzir reais transformações na distribuição de renda. Esses personagens midiáticos são a esquerda que a direita gosta, promove e estimula. A cena constrangedora que apareceu essa semana na Internet demonstra que o que eles sempre quiseram era essa exposição chula e as luzes da ribalta, em especial dos identitários. Essas pessoas deveriam ficar onde seria mais justo: na direita, onde suas teses serão sempre acalentadas e aceitas.

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Idolatrias

Esta seria a imagem de Maria, mãe de Jesus, uma palestina analfabeta que nasceu num lugar extremamente miserável na periferia do Império, na Palestina ocupada por Roma. Ela foi descrita por Chico Xavier e transferida para a tela por um artista mineiro. Como pode ser constatado, é uma Maria europeia e ariana, tão branca quanto as imagens do Jesus germânico que ainda percorrem o imaginário, difundidas pelo cinema. É fácil constatar que o espiritismo, como toda seita cristã que se preze, embarca na canoa do embranquecimento dos palestinos, aceitando como fato uma Maria que em NADA se parece com as mulheres extremamente pobres das populações palestinas de dois milênios passados. Esse trabalho do artista Vicente Avela, baseado na descrição pormenorizada de Chico Xavier, me faz lembrar o apoio explícito do grande médium mineiro à ditadura militar de 1964. Tanto a descrição europeizada de Maria quanto o apoio ao golpe militar de 64 são a comprovação de uma dessas teses excludentes:

1- Os fenômenos mediúnicos de Chico são derivados do mais puro “animismo”, ou seja, criações do próprio espírito encarnado, que transfere para os seus escritos as suas próprias ideias, perspectivas, visões de mundo, seus preconceitos, seu talento, sua cultura e seus erros conceituais. Seriam a expressão clara de Francisco Xavier, e não mensagens de espíritos desencarnados que se comunicavam com este plano. Ou seja: o apoio a uma ditadura brutal e a noção de uma Nossa Senhora bonita, delicada e de pele alva – contrastando com o que se esperaria de uma Palestina miserável que viveu há 2 milênios – seriam fruto das ideias próprias de Chico Xavier, e não fenômenos “extrafísicos”. Outra perspectiva seria…

2- A espiritualidade que nos rodeia, e também ao Chico Xavier, seria tão afeita a estes erros – uma Maria ariana e a venda nos olhos diante da selvageria de uma ditadura militar – quanto qualquer sujeito inculto, xenofílico e eurocêntrico, sem nenhum diferencial de ordem intelectual ou moral. Os espíritos, apesar de estarem do “lado de lá”, não teriam vantagem alguma quando comparados a qualquer ser humano encarnado de sua época. Ou seja: se são tão iguais à nós, fica difícil entender a razão pela qual insistimos em escutar seus conselhos. Por que faríamos isso se basta olhar para o lado em uma mesa de bar para escutar algo de igual sofisticação?

Eu, pessoalmente, fico com a segunda explicação. O entorno espiritual deve ser por demais semelhante ao que temos aqui. Os personagens desencarnados devem cultivar dúvidas semelhantes às nossas, e cometem erros que conhecemos bem. A diferença, se houver, se limita à percepção alargada da vida espiritual – e não muito mais do que isso.

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BDSM

O acrônimo B D S M significa Bondage, Discipline, Sadism and Masochism. Parecem palavras retiradas do lema de uma milícia de extrema direita, mas na verdade são práticas sexuais que incluem algum nível de violência consentida. Gente amarrada, humilhada, castigada, uso de sadismo e masoquismo. Não faço nenhuma crítica de ordem moral quanto a isso, em absoluto. Todos devem saber onde amarrar seu desejo, e se responsabilizar por ele. O limite? A lei. Em verdade creio que estas práticas tem o mesmo valor de fetiche quanto casar virgem, frequentar a igreja e ter 10 filhos. Cada um com sua fantasia; aliás, gosto da tese de que o pudor é a mais sofisticada das perversões. Afinal, como bem dizia Caetano:

A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo
Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com o que DEUS nos deu?
O que foi que nos aconteceu?
Todo homem sabe que essa fome
É mesmo grande
Até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo
O que quer uma mulher

Aliás, grande tema para debater. Nos congressos de BDSM uma das questões mais debatidas é a importância dos “passwords” ou “safewords”. Tipo: numa encenação sadomasoquista como saber se o sujeito está atuando, ao estilo “ai, ai, ai, não aguento mais, não me bata”, ou quando REALMENTE está sufocando ou sofrendo demasiado com a dor pelo castigo imposto (e até então consentido)?

Esse debate, por distante que possa parecer, eu lancei no universo do parto. Afinal quando um “não aguento mais” é uma atuação e um simples pedido de ajuda diante das incertezas do processo de parir e quando é um real limite para o sofrimento, e a consequente desistência de um projeto de parto normal? Como saber se devemos entender o valor contextualizado do pedido ou o valor bruto da palavra? Exatamente porque os domínios de expressão podem ser confusos eu dizia que, para partos também deveriam existir “palavras passe”, senhas, sinalizadores de que “agora é prá valer”, ou “chega dessa brincadeira”. Isso poderia criar mais garantias para as mães e mais segurança para os cuidadores.

Mas se “parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, que dizer dos outros aspectos na vida sexual onde um “não” poderia querer significar outra coisa, muitas vezes até o oposto? Bem… nesse caso perdemos a oportunidade de estabelecer qualquer debate; o mundo de hoje fechou essa porta. Eu sempre digo que nesse caso – nos prolegômenos do ato, no chiaroscuro do apagamento neocortical – o “não” deveria ser desnecessário.

Aos homens eu digo: se houver qualquer hesitação, por mais sutil que seja…. fuja. Não vale a pena arriscar. Para as meninas digo: respire fundo e diga com todas as letras o que (não) quer; não espere que os homens entendam racionalmente negativas gemidas quando seu cérebro está quase apagado diante da afluência de hormônios. Isso fará com que na área sexual, contrariamente à toda linguagem humana, os valores das palavras venham a perder seu simbolismo e terão sentido exclusivamente denotativo. No atual cenário das fricções de gênero, não vale a pena correr qualquer risco.

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Aos mestres com carinho

Meu sonho sempre foi ser professor, como meu pai. Sempre achei esta a profissão mais charmosa, mais desafiante, mais complexa. As vezes vejo pessoas escrevendo sobre as agruras dos seus ofícios e o quanto são difíceis, complexos, profundos e desafiadores. Quando me descrevem seus desafios eu sempre vejo minha imagem de menino, sentado na sala de aula com outros 40 alunos enquanto assistia uma aula sobre assuntos que não me interessavam – como matemática, por exemplo. Na minha frente uma professora, lutando contra o desinteresse de uma multidão, tentando provar o quanto aquele conteúdo poderia ser útil em suas vidas. Aquelas cenas ficaram marcadas na minha mente como a mais fidedigna descrição de um cavaleiro andante solitário enfrentando moinhos de vento ranhentos e inconvenientes. A sua coragem e força de vontade hoje me impressionam.

Somente muitos anos depois da minha experiência escolar eu tive a oportunidade de me colocar na posição de professor. Em todas as vezes que recebi elogios eu respondi de forma direta: “Eu estou dando um curso para adultos, ávidos por um conhecimento específico, pelo qual pagaram e que vai lhes abrir portas na vida profissional. Desta forma, 80% do trabalho – o interesse – já está feito por quem assiste a aula. Como acha que me sairia com crianças ou adolescentes, sem interesse nesse tema, garotos e garotas que naquele momento gostariam de estar conversando ou namorando? Como acha que eu me sairia se o conteúdo que eu ofereço não fosse capaz de abrir portas para alguma vantagem na vida?”

Um bom professor lhe oferece insegurança e angústia; não lhe garante a paz, e sim a espada. O mestre lhe oferece a certeza das incertezas, a compulsão pelo pensamento crítico e segurança para não aceitar respostas fáceis ou definitivas. Um mau professor carrega você para onde desejar, enquanto o bom professor lhe mostra o caminho. Já o mestre lhe descortina a vastidão à frente, aponta para o horizonte e diz: “faça seu caminho”. O mestre Freud já nos ensinava que “as certezas absolutas nos cegam perante novos horizontes; nunca tenha certeza de nada, porque a sabedoria começa com a dúvida”. Desta forma sua pedagogia nos afastava da sedução das convicções inamovíveis e do alívio que elas proporcionam. Pelo contrário: sua sabedoria nos apontava que o crescimento se dá exatamente pelo enfrentamento da angústia de nada saber.

Aos mestres minha reverência e minhas desculpas. Fui um aluno chato, irritante, conversador e irreverente. Desafiava constantemente a autoridade que os pobres professores tinham diante da turma. Fui muitas vezes chamado à atenção, e todas de forma merecida. Essa minha relação de atrito com todas as formas de poder transformou-se, com o passar dos anos, em genuína admiração, a ponto de que agora vejo os professores como os profissionais mais sofisticados. Da mesma maneira, hoje vejo a arte de curar como sendo, em essência, uma pedagogia, e não uma intervenção mecânica sobre organismos disfuncionais. Quanto mais o médico se aperfeiçoa, mas se parece com um professor: ao invés de intervir auxilia o paciente a encontrar dentro de si mesmo a cura que tanto necessita.

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A Realidade da Educação: Entre a Severidade e a Permissividade

“Eu achava que meus pais eram muito rígidos, mas vendo essa geração de hoje eu acho que eles me salvaram”.

Uma afirmação no mínimo arriscada. Se a “rigidez” se refere a firmeza de princípios, então estamos juntos. Caso ela esteja lançando uma tese saudosista sobre os castigos e o uso dos “corretivos”, que eram comuns na minha época, então estamos bem distantes. Talvez os pais de ontem – que agora são bisavós – pensem desta forma, exaltando a educação dura que receberam, mas eu creio que esta postura serve como uma excelente desculpa para espancamentos, surras e demonstrações de violência que ocorriam em tempos passados. Tipo “Sim, bati nos meus filhos e dei a eles castigos degradantes e humilhantes, mas os salvei do destino terrível da permissividade”. Fácil, não?

Não há dúvida que existe um clima de “laisser faire” na educação, e uma crença de que os filhos são máquinas de desejo a quem não convém frustrar. Por certo que existe um enfraquecimento da figura paterna, tanto pela ausência física dos pais em função da fragilidade dos casamentos, quanto por uma cobrança crescente e intensa sobre a severidade e a brutalidade dos métodos de educação aplicados pelos pais do passado. Entretanto, o questionamento sobre os métodos “frouxos” de educação doméstica não pode permitir a crença de que o modelo de surras e castigos seja justo ou adequado. Se existem crianças “sem limites” e abusivas também é verdade que os traumas causados pelas práticas violentas de outrora não podem ser negligenciados. Temos uma legião de homens e mulheres velhos cuja infância foi marcada pela violência doméstica, socialmente validada, mas que causa neles sintomas tanto visíveis quanto silenciosos até hoje.

Não devemos cair na sedução fácil de um falso dilema. “Ahh, no meu tempo é que era bom!!”, normalmente é uma frase dita por alguém que não entendeu como foi terrível a criação das crianças no passado. “Apanhei, mas sobrevivi”, o que é verdade, mas a que preço? O que dizer dos medos, das angústias, da falta de confiança e das mágoas que até agora lhe atormentam? Portanto, é razoável imaginar que ambos os modelos são ruins, e que não é necessário escolher entre duas perspectivas – violência ou permissividade – como se fossem as únicas alternativas possíveis. Não; é possível educar os filhos com firmeza e autoridade sem cair na tentação fácil da violência física e moral que oferece respostas imediatas, mas que deixa marcas indeléveis na alma das crianças.

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Pós eleições

Muitos dos que agora criticam o PT por abandonar as ruas são responsáveis pelo afastamento das raízes operárias do partido. Falo daqueles que, da posição de formadores de opinião, agora criticam o Partido dos Trabalhadores mas que há poucos anos aceitavam que a melhor estratégia era apostar no reformismo. Entre eles um professor de sociologia de Brasília, cuja postura sempre foi de apoio a uma esquerda “moderada” e reformista. Lembro bem quando da grande vitória do Talibã sobre as forças imperialistas de ocupação de ver o professor choramingando pelas “meninas que não iriam às aulas”, sem levar em conta a barbárie do imperialismo, a rede de prostituição das crianças afegãs patrocinada pelo exército americano, a destruição da infraestrutura do país, o lucro com a Papoula e as milhares de mortes dos cidadãos do país, enquanto sua preocupação mais firme era com as questões identitárias. Sua vinculação e seu apoio a Guilherme Boulos é a prova definitiva de que ele não tem – e e nunca teve – uma postura de esquerda raiz. Jamais se importou com as vinculações de Boulos com o IREE e com think tanks imperialistas. Curiosamente, agora quer cobrar isso do PT. Essa postura de muitos de “ahhh, o PT esqueceu suas bases”, apesar de estar correta, permite esconder as opções pessoais que durante anos tiveram em favor de uma política de conciliação.

Quanto a Porto Alegre, muitos (como ele) dizem que a escolha por Maria do Rosário foi equivocada, mas todos se negam a dizer qual teria sido a escolha certa. Ou seja: criticam sem apontar a alternativa. Mello ganhou porque tinha a máquina municipal, por ser apoiado pelas grandes empreiteiras, pela especulação imobiliária, por causa da campanha antipetista feroz que se faz há duas décadas na cidade, pelo sentimento anticomunista propagado pela direita nacional, e também por não termos nomes fortes para a majoritária. Colocar a culpa em Maria do Rosário é uma postura errada, cruel e que serve aos interesses da direita. Não esqueçam que o candidato para a câmara de vereadores mais votado da capital foi um sujeito cujo slogan é “direita de verdade”. Também reelegemos uma comandante da PM, uma notória fascista que vai às seções legislativas fardada, e agora a cereja do bolo: elegemos o “Comandante Ustra”, primo do mais famoso torturador da ditadura, ídolo de Bolsonaro, que fez campanha exaltando o que existe de mais abjeto em um ser humano. Ou seja: essa cidade mergulhou de cabeça no obscurantismo, na violência, no punitivismo e nas soluções cosméticas. Ainda teremos muito trabalho de base pela frente para mostrar a este povo como as alternativas à direita são mais do mesmo, e que não apresentarão jamais bons resultados em médio e longo prazo. É preciso, como eu já disse, limpar a esquerda do discurso identitário e voltar a fazer campanha política no chão de fábrica e nas ruas.

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Espiritismo é Religião?

O espiritismo enquanto sistema de crenças institucionalizado foi criado por um homem, Allan Kardec (ou o pedagogo Hippolyte Leon), baseado em manifestações de espíritos acerca de fenômenos muito comuns na França do século XIX. Não é uma “revelação”, porque este tipo de modelo só pode produzir doutrinas dogmáticas, e também não é uma doutrina ditada por espíritos. Ela foi criada por Kardec, que lhe ofereceu todas as virtudes e todas os seus defeitos. Como principal virtude a ideia de que não é uma religião, não se comporta como seita, não aceita personalismo, não tem caráter sectário e está vinculada à ciência, de maneira que pode ser modificada indefinidamente caso seja comprovado um erro em seus pressupostos.

Como principal defeito o evidente eurocentrismo, a ideia construída de Cristo como espírito guia da humanidade, desprezando outros personagens religiosos de igual relevância e importância histórica. Faltou ao espiritismo nascente este caráter de universalidade. A ideia de uma doutrina de consequências morais também me parece bastante equivocada, pois que a moral se molda e se transmuta com o tempo. Ver espíritas adotando a moral conservadora cristã e as perspectivas políticas mais alienantes são os resultados óbvios dessa escolha. O espiritismo deveria se ocupar da pesquisa científica e filosófica da sobrevivência da alma, a manutenção do princípio espiritual e a reencarnação como processos depurativos do sujeito, e muito menos com os costumes e a moral vigente, elementos que apenas atrasam sua circulação no ambiente acadêmico.

Não se trata de “conhecer”, mas de interpretar os fatos. Não acredito que o espiritismo seja uma doutrina “ditada” por espíritos, mas criada por Kardec a partir de mensagens esparsas e sem a devida conexão recebidas por médiuns de sua época. Kardec sempre foi a figura central e unificadora do processo, pois é dele a sistematização, a divisão dos temas, a escolha das perguntas e a formatação final. Desta forma, o Livro dos Espíritos é tão humano e tão centrado na figura do seu criador quanto a teoria evolucionista de Darwin. A ideia de que ele seria apenas o “codificador” (seja lá o que isso quer dizer) não me parece justa. Os méritos são de Kardec, assim como os terríveis defeitos encontrados nas obras, causados pelo contexto em que foram escritos aqui na Terra.

E quanto a “espírito perfeito” essa é outra tolice. Jesus é uma criação humana, criado e moldado pelas nossas necessidades e interesses geopolíticos. O Jesus real foi basicamente um judeu reformista, cujo principal interesse era reformular a religião judaica. Nunca conversou com alguém que não fosse judeu e sempre se dirigiu apenas ao seu povo. Era basicamente um autoproclamado “messias” – assim como outros 400 daquela época – alguém destinado a livrar os judeus do jugo Romano. Tinha portanto uma missão política, aliás, para criar um “reino deste mundo”. Falhou em seu intento, e por esta singela razão jamais foi reconhecido como “ungido” por seus iguais. Entretanto, sua mensagem aos humildes e pobres cativou a periferia do Império Romano, graças ao apóstolo dos gentios (não judeus), Paulo de Tarso, que a levou a “gregos e baianos”.

Por outro lado, essa é apenas a história criada sobre um personagem mitológico ocidental, que ganhou sucesso graças a uma decisão de gabinete de Constantino. Que dizer dos outros líderes espirituais, como Buda, Lao Tsé, Zoroastro, Confúcio etc. Por que seriam eles “inferiores” ao “sujeito perfeito” nascido no fim do mundo, num lugar miserável e desimportante do Império Romano chamado Palestina e cuja mensagem não trazia nenhuma grande verdade oculta (a não ser parte das bem-aventuranças)? Ora… 200 anos depois de Kardec e continuamos com o mesmo eurocentrismo cafona, achando que nosso Jesus branco é um “ser de luz” com faroletes mais luminosos que do que aqueles dos seus concorrentes. Por que haveria de ser? E por que deveria o espiritismo, em sua proposta universalista, escolher o líder ocidental como paradigma de perfeição? Não faz nenhum sentido, e o espiritismo deveria abandonar essa perspectiva racista e sectária para se tornar a verdadeira voz de unificação de uma proposta espiritualista.

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Sentido da Vida

No dia seguinte à minha morte, o sol vai nascer e se pôr sobre esta colina, pequena Neesha, inobstante o fato de que eu não estarei mais aqui para admirar sua curva graciosa na abóbada celeste e seu mergulho glorioso no horizonte. Este será, sem dúvida, o maior ensinamento que o universo dará à minha arrogância: as coisas não precisam de mim, e tudo continuará girando sem que eu perceba.

Joseph Blaszczykowski, “Za górami słońce nie zachodzi” (Além da Montanha o Sol nunca se Põe), Ed. Zvedia, pág. 135

Joseph “Blatsch”, como assinava suas obras, nasceu em Cracóvia em 1926 e morreu em Breslávia em agosto de 2024 aos 98 anos. Na juventude lutou na União da Luta Armada (posteriormente Exército da Pátria) em ações de sabotagem contra as forças nazistas em sua cidade natal. Nesse período, junto com seus irmãos, auxiliou na interrupção das linhas de abastecimento alemãs para a Frente Oriental, danificando significativamente os transportes ferroviários das tropas alemãs. Com apenas 16 anos ficou conhecido como um forte e destemido guerrilheiro antinazista. Foi um dos homens mais procurados pelo exército de Hitler no período da ocupação, ficando conhecido por muitos como o “Lobo da Cracóvia”. Quando a guerra terminou, mudou-se para Breslávia, cidade recém-incorporada à Polônia após a expulsão da população alemã, onde ingressou no curso de história, graduando como mestre em história europeia. Seu primeiro livro foi sobre a formação do povo polonês. Neste livro “Formacja narodu polskiego” (A formação do povo polaco) ele explica que os germânicos migraram da área por volta do ano 500 da nossa era, durante a chamada idade das trevas. As áreas com florestas mais densas situadas ao norte foram ocupadas pelas populações bálticas. De acordo com estudos arqueológicos, os grupamentos de origem eslava ocupam a região da atual Polônia por mais de 1500 anos. Em 1952 ele escreveu seu primeiro livro de ficção histórica, “Buty Führera” (As Botas do Führer) onde relata o encontro e a longa conversa de um sapateiro de Varsóvia com Adolf Hitler, durante a ocupação da Polônia, na ocasião em que este foi chamado para consertar as botas do chefe do III Reich. O livro alcançou um grande sucesso e foi vertido para o teatro em 1960. Seguiram-se vários livros de ficção sobre a temática da guerra, mas também da solidão, da pobreza, da ascensão do movimento Solidariedade liderado por Lech Wałęsa, sobre a decadência capitalista, a guerra e por fim seu canto do cisne, “Além da Montanha o Sol nunca se Põe”, onde o tema é a velhice, a senectude e a morte. Neste livro ele conta a história de um velho vendedor de livros usados chamado Krzysztof Goralski que compra um livro antigo de uma garota indiana chamada Neesha. Folheando suas páginas ele encontra uma nota manuscrita, e a partir deste momento, profundamente impactado por seu conteúdo, ele fecha sua loja e empreende uma busca insana e obsessiva para reencontrar a garota. O conteúdo da nota jamais é revelado em todo o transcorrer da epopeia, mas fica claro que a busca de Krzysztof é pelo sentido de si mesmo, de sua vida e seu significado mais profundo. O livro, apesar de ter sido escrito a partir de 1980, foi publicado somente em 2023 a pedido do autor, para que esta fosse sua derradeira obra, e para que pudesse acrescentar ao personagem central da trama, o livreiro Krzysztof, os detalhes do espírito e a visão de mundo de um idoso, algo que só o trânsito pela velhice lhe garantiria. Joseph Blaszczykowski era viúvo de Maria Kristeva e teve 3 filhos: Piotr, Fiódor e Paweł e 7 netos. Está enterrado em Cmentarz Grabiszyński, na Breslávia.

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Arquivado em Citações, Ficção, Pag 135