Doulas e SUS

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Sobre as leis de doulas que estão surgindo em várias partes do Brasil cabe uma reflexão:

O SUS é universal e gratuito e precisamos protegê-lo. Não cabe cobrança de nenhum profissional. Se doulas começarem a cobrar pelo seu trabalho isso oferece uma fresta perigosa para qualquer profissional também fazer cobranças pelo seu trabalho. Se quisermos manter o SUS gratuito teremos que ser firmes em sua defesa. Os caminhos para a atenção em hospitais públicos do SUS me parecem ser o da incorporação das doulas as equipes de saúde (como funcionarias regidas pela CLT) ou o voluntariado (como já ocorre em alguns hospitais, como o Sofia Feldman). Nos serviços privados a escolha será livre, assim como o pagamento.

Não vejo dificuldade em admitir doulas nos hospitais particulares, como já vem ocorrendo há uns 15 anos ou mais, mas precisamos ter MUITO cuidado com os hospitais públicos. Por isso as leis que garantem o acesso de doulas precisam ser muito bem fundamentadas e cuidadosas, sob pena de criarmos mais dificuldades para a implantação desse modelo do que facilidades para o livre acesso ao trabalho delas.

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Fúria

Ele voltou o olhar para ela logo após seu desabafo. Dos olhos dela fugiam faíscas luminescentes de indignação. Não havia nenhum ensejo de paz enquanto o corpo de Adélia se projetava à frente e seus lábios cuspiam dor e ressentimento. Não pensou sequer em dar o abraço que ela tanto precisava; naquele momento de dor seus braços teriam uma força magnética que repelia os dela. Limitou-se a falar.

– Como poderia eu retirar-lhe o ódio, único alimento possível para sua alma sofrida? A mim não cabe criticá-lo, Adélia, apenas permitir que sua energia se gaste lentamente, como o fogo que se vai quanto mais incandesce. Impedir sua raiva é ignorar o quanto ela ainda lhe protege. Sua cólera cega lhe resguarda do seu maior medo: a culpa. Enquanto você carregar seu ódio com tanto cuidado e tratar dele com tanta ternura, sua culpa se manterá adormecida.

Lançou para Adélia seu derradeiro sorriso, e deixou para ela uma pergunta, da qual se seguiu um silêncio.

– Que direito tenho eu de despertar o monstro da sua culpa? Como permitir que o estrondo de seus ódios continue a abafar o mal que tanto esconde? Como roubar a muleta que lhe sustenta, Adélia?

Adélia ofereceu apenas o vazio como resposta.

Babette, “Adélia e outros contos”, ed. Paris, pág. 135

Babette foi um escritor francês, nascido em Lyon em 1910, tendo morrido em Montpellier em 1991, em decorrência de um câncer. Na verdade, esse era o pseudônimo de Jean Michel Garrot, um jornalista e ex militar do exército francês, que escreveu por muitos anos para jornais e revistas femininas com o pseudônimo “Babette”. Foi um dos mais conhecidos escritores franceses da segunda metade do século XX. Entretanto, apesar da fama e da razoável fortuna, podia passear despreocupadamente por qualquer cidade francesa, já que sua identidade só foi revelada pouco antes de morrer. Começou escrevendo para o diário vespertino Journal de Lyon, respondendo perguntas de mulheres sobre casamento, filhos, educação e até moda. Sua formação em jornalismo, na Sorbonne, havia lhe garantido uma escrita elegante e sofisticada. Durante muitos anos manteve a sua coluna no jornal e algumas revistas femininas, até que Babette/Jean Michel resolveu se aventurar pela literatura. Para isso começou a escrever o que se convencionou chamar “pornografia feminina”, que são histórias românticas, cheias de reviravoltas, com ciúme, desconfiança, traição e a redenção amorosa que, via de regra, ocorria no epílogo de suas novelas. Passou a publicar no formato de “pocket books” nas bancas de jornal, com o nome genérico de “Babette” seguido do nome da história específica, como se fossem os capítulos de uma imensa série de narrativas. O sucesso foi rápido, e imediatamente se tornou a literatura preferida de meninas adolescentes que corriam às bancas quando havia o lançamento de uma nova edição. Babette se tornou extremamente popular e 230 títulos foram publicados desde que o folhetim se iniciou, sendo traduzido em inglês, espanhol, alemão e italiano. As histórias eram repletas de elementos clássicos da fantasia feminina: jovens militares, homens da aristocracia, sogras invejosas, patrões maldosos, jovens pobres de bom coração e ricos perversos e traiçoeiros. Durante anos a identidade de Jean Michel foi mantida como um segredo pela sua editora, que tratava este mistério como uma peça de marketing. Em 1978 uma mulher chamada Isabelle Marie Deschamps afirmou que havia escrito as novelas de Babette, tendo alguns minutos de fama na TV francesa. Todavia a mentira durou pouco tempo, pois provou-se que Marie era uma farsante, o que foi confirmado pela editora Paris, dona dos direitos autorais. A verdadeira identidade de Babette foi revelada no programa “Une Nuit a Paris”, para o famoso apresentador e jornalista Maurice Lefévre. Num domingo à noite em 1988, Babette apareceu por detrás de uma cortina num estúdio de televisão e a França inteira se surpreendeu com a figura de um homem quase chegando aos 80 anos de idade, baixa estatura, cabelos brancos e usando óculos, que durante décadas cativou com sua escrita a atenção das meninas da França e de vários países de língua francesa. Na entrevista, Jean Michel disse que, apesar de gostar das vantagens do anonimato, era hora de revelar o segredo tão bem guardado. Naquele mesmo ano ele recebera o diagnóstico de um câncer pulmonar que, por fim, o levaria à morte poucos anos depois, e por isso achou que era o momento adequado de se revelar. Quando questionado sobre de onde retirava material para tantas histórias escritas, respondeu que nos anos em que trabalhou como colunista de assuntos femininos no Journal de Lyon, colecionou milhares de cartas de leitoras sobre seus assuntos pessoais, suas dúvidas, suas angústias e seus medos, mas também de seus sonhos, alegrias, conquistas e fantasias. “Meus livros são a mistura das histórias de milhares de mulheres, cujas vidas estão nas personagens dos meus livros, como peças de um quebra-cabeças imenso e complexo”, disse ele. Jean Michel foi casado com Augustine Garrot e teve 4 filhas: Marie Claire, Dominique, Josephine e Arlene. Morreu em 1991, e está enterrado no cemitério de Montpellier.

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Solução

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

A solução seria uma nova eleição, em 2018, e não um golpe. Se você não gosta do amiguinho da escola, não fale mais com ele, mas não planeje matá-lo. Se não gosta da Dilma, vote no Aécio (de novo) mas tenha respeito pelos seus 54 milhões de votos. Acho lamentável que pessoas apoiem um golpe manipulados pelas informações de redes de notícias que são ridicularizadas no mundo inteiro. Só no Brasil se desconfia de Lula, e só aqui pedalinhos e barquinhos de lata servem como indícios, que NUNCA se concretizam. Pedir um impedimento por crise política é um escândalo; imagine o que seria o governo FHC…. mas naquela época não havia um Eduardo Cunha para mandar adiante um impeachment por vingança pessoal.

Pedir o afastamento de uma presidente HONESTA (quem disse isso foi FHC, lembram?), sem crime de responsabilidade, apenas porque a Petrobras empobreceu e está em crise como TODO O SISTEMA PETROLÍFERO MUNDIAL, é um descaso sério com os valores da democracia. Se Dilma merecia ser impedida, o que dizer de Alckmin, de Pezão, de Sartori? O que dizer dos 31 decretos de Alckmin, e das pedaladas de 16 governadores? Se desemprego tirasse uma presidente, como Sarney ou FHC puderam, governar? Mas por que NADA se diz desses políticos????

Porque o objetivo é expurgar um partido popular usando a corrupção como DESCULPA, ao estilo de TODOS os golpes de direita, de Hitler, Mussolini ou mesmo os caseiros, como 54 e 64. Uma falsa luta contra a corrupção – na maioria das vezes presumida, como confessam os acusadores (eles “deviam” saber disso…) – e a entrada triunfal de um ideário neoliberal que só chega ao poder SEM VOTO, com GOLPE, sem apoio popular, mas usando de manobras sórdidas e indignação seletiva para se expressar.

Eu é que pergunto: como podem ser cegos e não ver as forças por trás do golpe? Como podem fechar os olhos aos interesses de acabar com a estabilidade no emprego, a CLT, a Petrobras e o nosso valor mais cobiçado – o Pré-sal? Como negar a existência de um desejo americano CLARO e CRISTALINO de acabar as aspirações brasileiras de ser uma potência mundial? Como não ver que nosso desejo de terminar com a dependência do dólar através da união dos BRICS irrita os poderosos, mas pode nos oferecer autonomia e protagonismo no cenário internacional?

Aceitar esse golpe é lastimável e depõe contra os valores republicanos. É triste ver como ainda somos manipulados, e como ainda teremos muita dor. Ganharam os corruptos, os canalhas e os malandros. Eduardo Cunha e todos que saíram às ruas de verde amarelo são a demonstração mais deprimente da incompetência da democracia desse país em se sustentar diante dos dilemas.

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Cusparada

Jean cuspindo

A cusparada de Jean Wyllys em Bolsonaro no plenário ontem demonstra os limites claros que ele, Jean Wyllys, tem em relação à vida pública. Se é verdade que Bolsonaro é um fascista abjeto, também é verdadeiro que no plenário sua voz amplifica o desejo de milhares de pessoas a quem representa. Cuspir em um parlamentar é desdenhar da representatividade e daqueles que lhe delegaram seu voto. A defesa que Jean divulgou hoje diz que ele cuspiu em Bolsonaro ao ser chamado por ele de “veado”, “boiola” e “queima rosca”. Ora… agora uma agressão torpe e infantil justifica outra? O congresso é uma casa política ou a hora do Recreio de uma escola primária? Jean, neste episódio, apenas demonstra que não tem preparo para suportar com nobreza estas provocações…

O episódio da visita a Israel e os destemperos contra Bolsonaro apontam para o fato de que as boas intenções, a retórica e a cultura de Jean não são suficientes para o tornar um grande parlamentar. O destaque às suas posturas seria fácil diante da imensa incompetência desse congresso, mas o próprio Jean destrói suas possibilidades.

Cuspir em Bolsonaro exalta a vítima e rebaixa o agressor. Se existem alguns que acham que isso o coloca como um nobre combatente pelas minorias e contra os fascistas eu vejo nisso fragilidade e incapacidade para encarar com serenidade e respeito o contraditório. Tais atitudes rebaixam o debate político e dão um péssimo exemplo de incivilidade, o que é lastimável quando parte de um defensor da democracia e dos direitos das mulheres e gestantes.

Bolsonaro sai engrandecido desse episódio, mais uma vez, ao espertamente provocar as reações histriônicas de Jean Wyllys. Este precisa aprender a não se colocar como escada para que fascistas, racistas e canalhas possam subir perante a opinião pública.

Mas acho curioso esse tipo de defesa que fazem. Aliás, já escrevi e falei muito sobre isso. É aquela antiga tese: um cara matou um sujeito numa discussão. A polícia o prende e tortura. Ou mata. Ou espanca. Ou nega atendimento jurídico. Aí um tolo e legalista como eu diz: “”.

A resposta que sempre recebo: “ahhh, então tem que ser civilizado com um criminoso que matou a sangue frio?“. Outra muito comum: “Mas deveria ter pensado antes de matar. Agora sofra.” Ou então “Esse torturador – do criminoso preso – me representa.” Também se lê “Se fosse eu, faria pior“. Todos que assim atuam igualam-se aos criminosos que condenam.

Isto é: muitos acreditam que a simples vingança (cometer contra o agressor o mesmo crime do qual ele é acusado) é uma forma de justiça. Para mim, quem assim pensa e age, mostra que está muito mais perto do criminoso do que pensa. A diferença, muitas vezes, é apenas circunstância e oportunidade.

Infelizmente muitas pessoas caem na tentação de interpretar a minha crítica à atitude tola e imatura do Jean como um apoio ao facínora do Bolsonaro. Na verdade é o contrário. Percebi que o elogio ao Ustra foi premeditado por ele de forma cuidadosa para provocar os despreparados… e fiquei morrendo de raiva ao perceber que o estratagema (de novo) funcionou.

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Merecimento

São-joão

Caminhava ao seu lado apressando meu passinhos de criança para acompanhar suas pernas compridas. O ano era 1965, o mês novembro. Não contava mais do que cinco anos de idade. Porto Alegre não tinha mais que meio milhão de habitantes. Poucos carros ousavam cruzar suas esquinas e bondes amarelos da Carris ainda riscavam os paralelepípedos das ruas vazias. Os congestionamentos chegariam apenas 20 anos depois.

Andávamos, eu e meu pai, pela Av. Salgado Filho, perto de onde, três décadas depois, eu teria meu consultório. Na frente do Cinema São João passamos por uma banca de jornais onde, além das Revistas Manchete, Fatos & Fotos, Realidade e da fotonovela Sétimo Céu era possível comprar a Folha da Tarde e o Correio do Povo. Além disso podiam-se ver perdurados nas paredes do “stand” os bilhetes da Caixa Econômica Estadual.

Além das bancas, as loterias eram vendidas por ambulantes, que gritavam suas profecias nas esquinas do Centro. “Mil novecentos e quarenta, quem nasceu nesta data?”, gritava o ceguinho com a bengala em uma mão e a tripa de bilhetes na outra. “Olha o bilhete da sorte, gurizada medonha!!” tornou-se o bordão famoso na voz poderosa do vendedor, que perambulava em frente a Casa Slopper, imortalizada na música “Miss Suéter”, de Bosco e Blanc.

Minha atenção dividiu-se entre a mão segura e firme do meu pai e as cartelas coloridas penduradas na banca. A promessa era clara e insofismável: compre um bilhete e fique rico. Um premio que daria acesso a toda as felicidades estampadas nas publicidades que desde cedo caíam sobre minha cabeça de menino.

– Pai, disse eu, por que você não compra um bilhete? Se sair o seu número você pode ficar rico, e se você ficar rico pode comprar tudo, tudo, tudo que tiver no mundo e mais todas as coisas do universo. Compra vai…

– Acho que não, disse ele, sem diminuir o passo e sem desviar a atenção para os bilhetes coloridos.

– Mas pai, se você ganhar podemos ter tudo, comprar tudo.

Somente então ele diminuiu o passo e olhou para mim. Sua resposta foi em uma frase curta e breve.

– Eu acho que nenhum dinheiro tem valor se não for fruto do seu trabalho.

Aquela frase simples, de uma certa forma, selou um destino. Em verdade, nunca podemos saber ao certo o impacto que uma frase, ação ou atitude vai produzir na vida de uma criança. A frase, dita em um despretensioso passeio pela cidade, permaneceu meio século em minha memória. Sua energia sobreviveu por décadas talvez porque ela resumia, de uma forma honesta e concisa, a postura ética que meu pai seguia. Para ele só seria lícito colher o que se plantou, sejam frutos saborosos ou os espinhos que os cercam.

Quando lembro desse evento penso que estas frases soltas em nossa memória são os minúsculos quadriláteros coloridos que compõem o caleidoscópio de nosso mundo psíquico. Somos constituídos por estas pequenas lembranças, cuja força e intensidade moldam nosso caráter.

Por esta singela razão cuide o que diz diante dos pequenos. Talvez suas palavras sejam mais importantes do que você imagina, e são, em verdade, os alicerces para a construção daquela personalidade que aos poucos se constitui.

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Assalto

assalto

Minha filha foi assaltada. Um rapaz roubou seu celular e saiu em disparada. Ela saiu atrás gritando histericamente até encontrar uma viatura da polícia. Os policiais a fizeram percorrer na viatura as redondezas do Parque da Redenção, onde ocorreu o roubo, até encontrarem o pobre ladrão.

Reconhecido por ela, foi recolhido ao Palácio da Polícia para o flagrante. Bebel conseguiu recuperar seu celular. Na marra e na coragem.

Onde foi que eu errei? Por que não consegui criar uma filha para ser uma moça bela, recatada e pronta para o lar? Encontrei a Bebel logo depois e ela me contou que quando os policiais interceptaram o rapaz começaram a bater nele. Desnecessário dizer que ele era preto, muito mais preto do que a decência branca determina. Ele roubou a mulher branca, safado, degenerado. Como ousa???

Ato contínuo à imobilização imediata, e já indefeso, os policiais lhe aplicaram vários tapas, mais para humilhar do que para machucar, mas ouviram os protestos de Bebel.

– Hei, ele já foi imobilizado. Já pegamos o celular. Não há razão alguma para bater nele! Parem!

Os policiais relaxaram a pressão sobre seu corpo forte e negro, mas não se furtaram ao comentário óbvio.

– Ah… você é uma dessas. Não gosta que batam em ladrão. Pois fique sabendo, mocinha, que…

Bebel o interrompeu com o dedo indicador à proa

– Fiquem vocês sabendo que quem bate em uma pessoa que não pode se defender é bandido. O comportamento de vocês deve ser diferente daqueles a quem vocês perseguem.

Recebeu como resposta um riso debochado, mas surtiu efeito. Eles o algemaram, mas não foi mais agredido.

Há quem sustente que bater num bandido que acabou de lhe assaltar é algo normal e que deveria ser estimulado. Tivesse Bebel se associado ao espancamento e muitos diriam “Seus socos e sopapos me representam“.

A mim não representam e sei que muitas pessoas concordam comigo. Nossa resposta, enquanto pessoas ou sociedade, não pode ser na mesma sintonia daqueles a quem criticamos. Se algum exemplo de fraternidade precisa acontecer, que venha de nós. Só com o perdão se quebra o ciclo de ódio.

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Pedido Primeiro

Pais

Muitas vezes avalio as pessoas que conheci e tento me perguntar sobre as vantagens e desvantagens que elas carregam na vida. Muitas têm dinheiro, outras são inteligentes e cultas. Algumas não têm qualquer atrativo físico, mas carregam virtudes que reconheço como brilhantes. Muitas delas estão contentes com o pouco que possuem, enquanto outras não conseguem se satisfazer com o muito que acumulam. Muitos amigos me falam de “cargo”, materiais, coisas que tem ou que aspiram, projetos que se emperram por falta de dinheiro, façanhas gigantescas produzidas pela riqueza, enquanto alguns outros exaltam detalhes em suas vidas que para mim seriam imperceptíveis.

Afinal o que existe de valor na existência que nos faz procurar durante toda uma vida? O que é que tanto buscamos?

Penso por vezes, no “chiaroscuro” de cada noite, nos momentos que antecedem o mergulho onírico de cada jornada, em qual seria o pedido único que faria antes de nascer. Se me fosse oferecida uma única qualidade, circunstância ou valor, um pedido que não pudesse ser negado, um elemento escolhido para deixar minha vida mais produtiva… o que eu apresentaria como pedido na antessala da vida, antes de chegar a este mundo e cursar uma existência inteira onde a angústia seria minha única, leal e indefectível companheira?

Não seria a beleza. Sei o quanto ela abre portas, facilita os encontros e os amores, deixa os contatos mais fluidos e fáceis. Entretanto, a beleza tanto atrai quanto aprisiona. As histórias de homens e mulheres extremamente belos não são relatos de felicidade obrigatória. Pelo contrário: quanto mais conhecemos a vida de estrelas de cinema, modelos esculturais de perfeição das formas, mais percebemos que sua formosura física jamais atuou como uma garantia de sucesso emocional ou psíquico. A biografia dos personagens da cultura que tiraram suas vidas precocemente, ou que tiveram vidas afetivas e amorosas pobres e doloridas, são evidentes demais para acreditar que a beleza possa nos oferecer qualquer garantia de felicidade.

Mas, e o dinheiro? Pode ele oferecer alegria? Pode ele nos trazer segurança e acesso aos prazeres que o mundo oferece? O dinheiro é capaz de comprar a felicidade, ou ele apenas oferece boas vestimentas a um sujeito que, diante da sua nudez, sofre como qualquer mortal? Assim como a beleza, a riqueza ofusca e ludibria, engana e distrai. Muitas relações estabelecidas com os ricos e belos só ocorrem pela luz fulgurante da atração que emana dessas qualidades. Todavia, por superficiais que são, elas atraem sujeitos que se embriagam de suas promessas, mas que não suportam a nudez que se evidencia quando surgem as rugas e desaparecem os encantos que o dinheiro oferece.

Então, se a riqueza e a beleza não são garantias, quem sabe a inteligência e a cultura seriam as qualidades que eu pediria antes da minha chegada. Por certo que uma vida cheia de saber poderia me abrir portas, mas que certeza poderia eu ter de que tal virtude me traria o nirvana que tanto ansiamos? Não, a inteligência apurada não pode me garantir uma vida feliz, e os exemplos de gênios consumidos por aflições e angústias terríveis aparecem em toda a história da humanidade. Nada no mundo intelectual me traz a segurança de uma vida plena e tranquila.

Se a beleza, a riqueza, a inteligência e a cultura são insuficientes, que poderia você pedir para lhe oferecer, senão a garantia, pelo menos uma trilha mais firme em busca de uma existência plena e feliz?

Depois de trabalhar por mais de 30 anos escutando as queixas, sofrimentos, dramas e angústias de tantos que me procuraram pela oportunidade de falar de suas dores, eu só penso em uma coisa cada vez que tais pensamentos me afligem. Ela não custa dinheiro algum, e sequer ocorre em pessoas dotadas de beleza ímpar ou com qualidades intelectuais além do comum. Ela se esconde no sorriso de pessoas comuns e nas lágrimas de todos aqueles que um dia puderam ter esse valor. Não aparenta ser muita coisa, de tão banal que se afigura, e as vezes nem aparece nas biografias de famosos. Mas hoje eu não tenho dúvida que, se me fosse dada a oportunidade de escolher um único pedido antes de descer para a Terra e empreender uma nova jornada, seria essa a minha solicitação.

Eu escolheria ter um pai e uma mãe. Somente isso. Meu pai não precisaria ser rico ou inteligente, e minha mãe não precisaria ser um ente cuja beleza infinita me inundasse o corpo físico com seus genes cheios de formosura e charme. Nenhum deles precisaria ter valores que se possam contar, onde a matemática precisasse ser utilizada para avaliar sua grandeza. Também não precisariam ser de sexos diferentes, e até tal desafio seria pequeno diante da vantagem de tê-los por perto.

Se eu tivesse, como tive, pais que me amassem pelo que sou, qualquer outra dificuldade que viesse a aparecer em minha vida seria encarada de uma forma completamente diferente do que seria se sua ausência fosse uma presença viva e sangrante em todas as minhas relações e experiências.

Sim, eu desejaria o amor primordial, a base para qualquer outro afeto, o imprint de carinho e cuidado que é o grande diferencial na vida de qualquer sujeito.

Ok, se for possível fazer outro pedido, pequenino, quase imperceptível, para acompanhar esse singelo desejo de ter ao meu lado pais que me amem como sou… “se der para nascer de parto humanizado eu ficaria agradecido, tá bom“?

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Esquerda caviar

Marx

Critica interessante: “Golpe é a CUT usar dinheiro dos trabalhadores para fazer manifestações, enquanto a esquerda caviar não se importa com o golpe que o governo atual deu nos pobres”

Mas então eu pergunto: a CUT deveria usar o dinheiro de QUEM para defender os trabalhadores?????? Quem são os que acusa de serem “esquerda caviar”? Talvez esteja se referindo às pessoas de classe média (como eu) que pensam além do próprio umbigo e lutam para que TODOS tenham uma vida digna, e não apenas seu pequeno círculo de amigos ou sua corporação. Além disso, o governo pode ter cometido erros (mas duvido que saiba apontá-los e oferecer-lhes alternativa), porém não serão resolvidos com um golpe de estado promovido por notórios corruptos.

Admita: nunca foi a corrupção e lhe mobilizar a indignação. O que lhe dói, machuca e indigna é o fato de que sua sensação de riqueza e superioridade de classe se desmancha quando os pobres dividem uma fila de aeroporto ou a sala de classe de uma Universidade. Como disse Danuza Leão “Paris perdeu a graça quando o porteiro do meu prédio também viajou para lá”, e o fim dessa exclusividade de classe é percebida como uma perda.

Não, não é a corrupção que os escandaliza. É a própria democracia e sua incipiente conquista de equidade o que tanto horroriza uma classe média que se julga superior.

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Com quem andas?

moisaco-manifesto

Sempre tive curiosidade em perguntar às gerações que me antecederam como meus parentes se posicionaram diante dos grandes dilemas que ocorreram em suas vidas. Assim, eu pedi para o meu avô me explicar onde ele estava quando nazistas massacravam judeus na Alemanha ou na Polônia. Pedi também ao meu pai para me contar como se portou diante do golpe de 64 ou antes, no pré-golpe de 54. Essa é a resposta que um dia darei quando meus netos me perguntarem se eu sabia do genocídio e limpeza étnica da Palestina. Minha resposta será “sim”, eu sabia e denunciei o quanto pude. Também denuncio agora as cesarianas abusivas, a violência obstétrica e o golpe midiático-jurídico em curso.

Quando lhe perguntarem de que lado você se colocou quando a democracia foi ameaçada, diga se ficou ao lado de Cunha, Temer, Bolsonaro, Renan e Alexandre Frota ou se permaneceu firme ao lado do estado democrático de direito.

Eu estarei ao lado de Veríssimo, Lula, Leonardo Boff, e de todos que lutam para manter de pé a nossa frágil e juvenil democracia.

“Diga-me com quem andas…”

Aconteça o que acontecer, hoje é um dia de muita tristeza, que será lembrado com muita vergonha no futuro.

Será através da barbárie. Mas a culpa final recairá sobre as pessoas tolas que desdenham da democracia. Por causa delas é que muitos sofrerão nos atos que se seguirão ao golpe. Pessoas que por pura estupidez (ou uma ingênua antipatia com um governante) e teleguiados por notícias plantadas pela mídia – Friboi, jatinho, Triplex, sítio, pedalinhos, barco de lata, pedalada – associam-se a criminosos conhecidos e fascistas assumidos, com o sórdido objetivo de ganhar um governo na marra e na “mão grande”, por obra de ladrões e canalhas que zombam das conquistas sociais e da ordem democrática republicana.

Essa massa estupidificada de verde amarelo será a primeira a chorar quando o peso da falta da democracia cair sobre suas cabeças. No primeiro pé na porta da polícia invadindo sua casa lembre-se que a garantia de respeito ao estado de direito lhe foi tirada pelo seu ódio a Lula, e o que ele representa no mundo todo como líder dos pobres, além da sua negligência que permitiu Cunha se livrar das grades e chegar ao poder.

A culpa não é do congresso. A culpa é sua.

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Arte

silencio

“A atenção ao parto, enquanto manifestação artística, percorre a mesma trilha das artes que lhe acompanham: parte da excelência técnica e da extremada sofisticação em direção à simplicidade e à naturalidade; da histeria à suavidade, do grito ao silêncio.”

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