Elitismo e Meritocracia

Sobre um texto que li hoje criticando a “meritocracia” e o “elitismo” do movimento de humanização do nascimento.

Aliás, já vi esse texto – escrito por outra pessoa e com palavras semelhantes – há há muitos anos na Internet e de forma repetida. Provavelmente a autora nem se apercebeu de como seu discurso está defasado no tempo. Esse debate sobre “elitismo” no movimento de humanização do nascimento tem mais de uma década e meia, e surgiu ainda nos encontros virtuais nas listas de discussão das “amigas do parto”.

Por acaso este texto surgiu na mesma semana que li outro artigo sobre as pessoas que reclamam de quem faz, mas, em contrapartida, não fazem nada. A autora mesmo diz não ser militante do parto humanizado, que não é algo que a envolva de corpo e alma, e isso para mim significa: “não me envolvo nessa temática, nunca fui à rua lutar por partos dignos, nunca dei minha cara à tapa, nunca fui xingada por ser a favor do parto normal, nunca fui perseguida pelas minhas ideias sobre nascimento, não compreendo muitos dos termos, nunca lutei por esta bandeira, mas quero criticar bastante quem o faz”.

Todo o texto dela é embasado em UMA grande crítica: as coisas que o movimento de humanização ainda não fez. As críticas vem pelo vazio gigantesco do “ainda não feito”. Tentem imaginar descrever QUALQUER movimento ou pessoa baseado no que ele NÃO fez, e desreconhecendo tudo o que protagonizou em sua vida ou percurso.

“Descartes era genial, porém feio; Pelé era um bom futebolista, mas como goleiro era medíocre; Jesus brigou no templo e se enfureceu, e isso é pecado; Darwin revolucionou o mundo como o conhecemos, mas era deprimido; Marx era um pensador revolucionário, mas um péssimo pai de família; Freud transformou o mundo ao abrir as portas do inconsciente, mas era fixado em sexualidade; Galileu Galilei enfrentou seus algozes com bravura, mas mentiu… apenas sussurrou i pur si muove…”

Reclamar de fora, sem enfrentar, apontando dedos, chamando de elitistas os poucos profissionais médicos, de enfermagem, obstetrizes e doulas que tiveram a coragem de sacrificar a própria segurança pessoal em nome de uma ideia é um ato grosseiro e insensato. Chamar de “elitistas” pessoas que vivem honestamente do seu trabalho é agressivo e injusto. Chamar de “meritocrático” apenas por mostrar às mulheres que SIM, a tarefa de mudar o sistema depende DELAS (não confundir com a ideia de que a CULPA é delas) é tentar fazer “fogo amigo” com palavras de ordem e agressões sem sentido. Dizer que nada é feito pelas mulheres negras e pobres do SUS é cegar-se às iniciativas pelo parto humanizado no ISEA e Sofia Feldman, entre outros.

O artigo é tudo, menos brilhante e atual. Como eu disse, essa queixa de caráter vitimista (uma tentação quase insuportável no meio em que a autora circula) tentando colocar a responsabilidade em alguém é retrógrado e inútil. “Ei vocês aí… façam alguma coisa pelas mulheres negras, chinesas, iranianas e nigerianas. Vocês só trabalham para quem pode pagar. Trabalhem de graça, sejam sacerdotes. Enquanto isso, eu continuarei ganhando meu dinheiro e cobrando bem por cada hora que dispensar no meu trabalho. Mas VOCÊS tem obrigações conosco, e estamos de olho”.

A responsabilidade para mudar o sistema é das MULHERES, com a ajuda de todos nós. Muito fui achincalhado quando tentava ajudar o movimento de mulheres, a ponto de precisar me afastar para sempre de qualquer ação nesse sentido, mas a queixa era sempre essa: “não se meta, não tente protagonizar uma luta que é nossa”. Pois bem, lição aprendida. A luta é MESMO das mulheres, é responsabilidade delas, a mudança partirá delas e o esforço deverá ser de quem leva o parto no próprio corpo. Nós, ativistas, podemos apenas apoiar e debater, sem retirar o protagonismo de quem é de direito.

Todos nós concordamos que é necessária uma expansão do discurso e da prática. O que deixa desanimado é que o tom é sempre agressivo, ressentido e acusatório. É o mesmo tipo de agressão contra figuras como o Jean Wyllys, agredindo-o por tudo que ele NÃO fez pelos homossexuais ou negros, ao invés de ajudá-lo a expandir sua ação e oferecendo ajuda para esta tarefa. As acusações são, via de regra, levianas e acusam os profissionais de serem interesseiros, movidos por dinheiro, como se houvesse culpa na qualidade de destes colegas, e que eles deveriam trabalhar graciosamente. Normalmente quem faz este tipo de acusação NUNCA se dedicou às causas que critica. Mas, vamos deixar claro que nada disso é novidade. Como eu mesmo salientei este é um dos famosos assuntos “iô-iô”, que vez por outra voltam a bater na mesma tecla das falhas do movimento de humanização, principalmente por causa dos médicos privados e suas cobranças.

O texto ao qual me referi atinge inclusive as doulas, responsáveis diretas pela mudança lenta e gradual da ESTÉTICA do parto, ao acrescentarem doçura, suavidade e afeto nos ambientes de parto. Pois até elas são tratadas como “dinheiristas“, e com o mesmo padrão de crítica: “Ah, mas só pra quem pode pagar, né?“, como se fosse responsabilidade das pobres doulas a mudança da mentalidade das maternidades públicas. Ora, se nós achamos que as doulas são importantes para as mulheres “negras e pobres” do Brasil, é preciso pressionar e exigir do vereador, deputado, dono de hospital ou gerente de maternidade, para que se crie um sistema que incorpore o trabalho das doulas ao SUS. Falar mal do atendimento que as doulas ainda não fazem é, como eu disse acima, injusto e cruel.

A transformação profunda na assistência às mulheres negras e pobres no parto, entre outras mazelas que ainda precisamos eliminar, virá quando pararmos de agredir os poucos profissionais que levam este debate adiante – e que pensam em transformações sensíveis na maternidade – e partirmos para uma ação POLÍTICA organizada e em bloco. A maioria dos ativistas médicos que conheço está fora do sistema público de saúde, e faz seu trabalho na abrangência de suas possibilidades. Não há como pedir para médicos que atendem no consultório que mudem o SUS, já que não podem agir nesse campo. Para isso é preciso que as mulheres, com a ajuda dos movimentos sociais, EXIJAM mudanças no Sistema Único de Saúde. Entretanto, parar de culpar os profissionais (e os movimentos) pelo que AINDA não fizeram é um bom começo de trabalho.

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O Retorno do Soldado

O Retorno do Soldado

(Roteiro adaptado sobre uma ideia original de Isabel Jones)

Depois de passar 12 anos foragido Ricachensky (Rick) Yonewsky voltou a ser visto em público. A sua trágica desaparição há mais de uma década destroçara sua família, destruíra seus afetos e criou uma dúvida entre todos os que de alguma forma privaram de sua intimidade.

O que, afinal, aconteceu com Rick Yonewsky?

As marcas no rosto denunciavam a dor e a penúria que sofreu. Do pouco que disse soube-se que vagou entre os campos de concentração na Armênia e o exílio no Turcomenistão. Quando, por fim, terminaram seus dias de angústia e pôde voltar para casa, só desejava o afago da família e o abraço dos filhos que, sem surpresa, sequer o reconheceram. Mas por que foi e, mais importante ainda, porque voltou? Que mistério rondava a “fuga” do soldado Rick?

“Eu não lembrava mais da sua cara, papai“, disse Bebeluska, que mal sabia seu nome, já que há doze anos fora dado como morto ou foragido. “Porque voltou depois de tanto tempo?“, perguntou ela.

O velho soldado nem sabia o que dizer. “Voltei porque amo meu país, porque quero provar minha inocência, porque quero resgatar minha honra. E também porque acabou meu dinheiro”, disse ele derramando uma lágrima que driblava os sulcos profundos de sua máscara de sofrimento.

Sua mulher, Olga Zeziskaya, era duplamente viúva. De si mesmo, dado como desaparecido ou desertor, e de Vladimir Cocorutchka, vendedor de puxadores de persiana com quem havia se casado legalmente após Rick ser dado como oficialmente morto.

Infelizmente para ela Vladimir havia caído da janela em que instalava um puxador de persianas. Ao falsear o pé na borda ainda teve tempo de gritar “Perdoe-me Rick. Fiz tudo por amor”. As últimas palavras de “Vlad” denunciavam sua participação no “desaparecimento” de Rick, e talvez o regresso do soldado pudesse por fim esclarecer o mistério de 12 anos.

“Tenho muito a falar, e depois que o fizer não sobrará pedra sobre pedra. Aqueles que fizeram de minha vida um inferno pagarão por cada minuto de exílio e humilhação. E que Deus tenha piedade de suas almas, pois eu jamais perdoarei aqueles que tanto mal me causaram.”

Bebeluska chorava ao ver o pai tão velho e tão amargurado. Em sua cabecinha de menina era incapaz de imaginar as atrocidades pelas quais seu velho pai passou. Ela era toda espanto e surpresa, tanta que nem alegria pela volta do pai cabia em seu coração.

“Tudo isso ficará para amanhã. Quero todos aqui ao meu lado para que eu possa contar-lhes toda a verdade, a longa história suja que cerca meu desaparecimento. Aguardem.”, disse o velho combatente de olhar duro e face dolorida.

“Hoje apenas me permitam ir ao futebol, me afastar do mundo, desviar o olhar e a memória de tantos horrores e, por fim, olhar o preto, azul e branco vencer. Hoje só quero repousar a mente e, por alguns minutos, esquecer o que fiz, e o que fizeram de mim”.

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Espetacularização da Justiça

Justiça

Sobre a espetacularização da justiça e a ação do juiz Moro na “Lava Jato”… (mas também poderia ser uma crítica aos médicos cesaristas e tecnocráticos fanatizados que julgam médicos que apoiam o parto normal)

“E o direito à defesa, corolário e condição fundamental do devido processo legal, é cada vez mais cerceado. (…) Com isso, tenta-se convencer as pessoas de que o processo penal é um estorvo, pois o que importa é prender e condenar antes mesmo de julgar. É o que o processualista italiano Franco Cordero denomina de quadro mental paranoico do juiz, que, ao conduzir o processo, o faz sob o “primado da hipótese sobre os fatos” e passa a agir como voraz acusador.” (Wadih Damous)

Esse é um recurso muito utilizado para atacar médicos que apoiam o parto normal. As provas, a realidade, as evidências e os testemunhos caem por terra diante de um desejo quase explícito de agredir uma ideia, uma tese e uma proposta. “Se a mensagem lhe parece inconveniente, atire no mensageiro”. Juízes se transformam em acusadores violentos, embriagados pelo “primado da hipótese sobre os fatos”, fazendo uma justiça baseada em sua própria visão de mundo, embasada em preconceitos e equívocos.

O mesmo sucedeu no caso da Escola de Base, apesar dos propósitos parecerem nobres. Para atacar o abuso e a pedofilia atropelou-se o bom senso, as provas, evidências e o juízo mais apurado. As vítimas, assim expostas, foram massacradas pela opinião pública, sem possibilidade de recuperação. Depois da tragédia descobriu-se que nada do afirmado era verdade, mas aí já era tarde demais: a honra, patrimônio maior do sujeito de bem, já havia sido destruída para sempre.

Podemos entender as razões para as atitudes de juízes vaidosos e prepotentes, que atropelam a lei e a constituição, mas podemos entender o estuprador, o ladrão de colarinho branco e o pivete que rouba galinhas. Isso não significa que essas ações sejam justificadas. Passar por cima da lei pode evitar uma injustiça, mas como ação é um crime contra a cidadania. Sem regras rígidas voltamos para a selva.

Os que apoiam a espetacularização da justiça deveriam se preocupar com as últimas consequências deste tipo de modelo para a sociedade como um todo. Os linchamentos – onde a destruição do “mal” está acima do direito à defesa e as garantias constitucionais – mostra sua face mais covarde e cruel. Um verdadeiro democrata e amante da verdade jamais se solidariza com um massacre, seja ele midiático ou real. Combater os abusos de poder é complexo, mas indispensável para a civilidade”.

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Isabela

Megafone

Hoje à tarde entrei no shopping para tomar meu último cafezinho antes de visitar pacientes no hospital quando, vindo em minha direção, caminham duas moças jovens e bonitas aparentemente tendo uma discussão. Uma delas interrompe o passo antes de chegar na escada rolante, coloca as mãos ao lado da boca imitando um megafone e grita com voz transparecendo fúria:

– É isso aí galera. Prestem atenção!! Eu comi a Isabela!!

A amiga que a acompanhava puxa suas mãos e reiniciam a discussão.

Pensei em gritar “Eu também!!” mas pelo jeito que estavam furiosas elas jamais entenderiam a piada…

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Merecimentos

Imitar-os-bons-exemplos-é-preciso

Temos os profissionais de saúde que merecemos.
Temos o aleitamento materno que queremos.
Temos o parto que desejamos.
Temos os médicos e as enfermeiras que escolhemos.
Temos o parto e a amamentação que nos cabem, neste latifúndio chamado Terra…

Acabo de colocar a cabeça para fora de casa. A brisa sacode meu supercílio esquerdo e enche minhas narinas de ar fresco e tímidos raios de sol. Olho para os lados para procurar a diferença. Uma mulher passa à minha frente, na calçada sombreada da rua onde de moro. Traz uma criança grudada em sua mão direita, e tem uma bolsa de couro pendurada no braço esquerdo. Olho para ela e pergunto-lhe silenciosamente se o parto de seu filho e a amamentação foram, mesmo que por alguns breves momentos, preocupações em sua vida. O silêncio dela deve ser verdadeiro, mesmo que a pergunta tenha sido apenas imaginada.

Não vejo cartazes na rua, muito menos manifestantes. Não consigo divisar no horizonte próximo das casas de minha rua qualquer indício de que o roubo do nascimento e o desmerecimento da amamentação tenham provocado qualquer tipo de insatisfação entre as pessoas. Ninguém parece reclamar. Não escuto um grito sequer de indignação com a espoliação de momentos tão significativos da constituição da essência humana. Estamos a um passo das chocadeiras, do nascimento virtual e do total desvirtuamento daquilo que em nós chamávamos de “humano”. Aqui aparece a face pós-moderna mais dolorosa da medicina: perdemos totalmente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Hoje os médicos só conhecem a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocínio do articulista Dino Felluga, acrescento que “fizemos um roteiro tão assemelhado com a verdade que este se justapôs àquela. Hoje em dia a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa. As fórmulas e as cesarianas mantêm-se de pé enquanto assistimos ao desaparecimento de suas versões originais“.

Mentimos o parto e a amamentação, falseando a natureza.

Somente quando a sociedade perceber o quanto perdeu com a aventura tecnocrática é que poderemos mudar o paradigma dominante e exigir que os profissionais ligados ao parto e à amamentação sigam as diretrizes mais naturais e menos intervencionistas. Enquanto isso não ocorrer continuaremos a formar profissionais que atuem de acordo com os nossos mitos e nossas crenças.

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Amicus Plato

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“Amicus Plato, sed magis amica veritas”

(Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade.) Aristóteles

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca de pluralidade nas expressões, a liberdade garantida e a resiliência para suportar opiniões contrárias. Desta forma, também considero essencial a necessidade de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra as nossas opiniões é mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. A humanização do nascimento é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores destas ideias: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre a assistência ao nascimento. Entretanto, é fundamental para isso que tenhamos as garantias que o estado de direito oferece aos cidadãos: a certeza de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento.

Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. Sem isso teremos uma situação grave, exatamente por agredir um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que os alguns não querem ouvir.

Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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Ambrosia

Esta é uma história verídica, mas os nomes dos personagens foram trocados.

Conheci Ildo há muitos anos atrás quando fazia meus primeiros plantões como “interno” em um pronto Socorro da minha cidade. Ao contrário do Dr Emerson, meu colega das quartas-feiras, eu encontrava o Ildo apenas nos plantões de fim de semana. Diferentemente do que acontecia com o Dr Emerson eu não precisava chamar Ildo de “doutor”, pois ele não chegava aos 30 anos de idade, o que era pouca diferença dos meus 20 anos recém feitos. Ele havia se formado há alguns poucos meses em uma faculdade do exterior e estava começando seu trabalho como médico pelo lugar mais divertido: um Pronto Socorro, cheio de estudantes, colegas jovens e histórias curiosas.

Nossos plantões eram muito divertidos, principalmente porque Ildo tinha uma forma jovial e curiosa de pensar. Era cheio de frases e bordões gauchescos, já que toda sua infância foi passada na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Era recém-casado com uma belíssima mulher que se chamava Angélica. Muitas vezes saíamos de um atendimento e fazíamos uma breve parada em sua casa, na parte antiga da cidade, para um breve café e uma rápida conversa. Eu me encantava com o charme e a beleza de Angélica, que sempre me perguntava como estava a faculdade e mandava lembranças para a minha namorada. Um casal aparentemente feliz e cheios de sonhos.

Uma tarde, num plantão no pronto-socorro, encontro Ildo absolutamente alterado. Não parava de sorrir e de falar alto. Parecia excitadíssimo com uma novidade. Quando seus colegas médicos se afastaram me aproximei e perguntei a razão de tanta alegria.

– Eu fui escolhido, Ric. Fui chamado. Acabo de receber o telegrama que tanto esperava. Vou para o Rio de Janeiro no mês que vem e vou estudar com o maior cirurgião plástico de todos os tempos: Dr Ivo Pitanguy!

Claro que tamanha alegria transbordou inevitavelmente para mim. Certamente que isso parecia ser algo fora do comum, uma oportunidade única de estudar cirurgia plástica com um dos mais renomados cirurgiões do mundo, conhecido até pelas pessoas que não são da área médica. Cumprimentei-o e desejei a ele a melhor das sortes. No nosso último plantão despedi-me de Angélica, sua linda esposa, e disse que sempre me lembraria deles como um casal maravilhoso, amigos do coração. Ela me abraçou e pediu que eu transmitisse à minha namorada um grande abraço, e que um dia queria conhecê-la. Ildo nunca mais voltou àquele pronto-socorro. Seu estágio de mais de um ano com o famoso professor fez com que ele retornasse para nossa cidade já ostentando um nome, uma carreira promissora e muitas promessas. Por intermédio de amigos médicos eu ficava sabendo de suas conquistas. Uma clínica de cirurgia com seu nome, o casamento que se mantinha sólido, a fama repentina, mas merecida. Parece que as coisas tinham funcionado da maneira como ele sempre desejou. O sucesso e a fortuna haviam sorrido para ele.

Aqui faço um recorte no tempo e costuro com nosso reencontro 25 anos depois daquela despedida afetuosa em sua casa, no último plantão de pronto-socorro que fizemos juntos. Eu deixava o hospital e estava parado à frente do elevador do quarto andar, depois de uma visita pós-parto. Olhava fixamente para a porta metálica esperando que ela se abrisse quando senti uma mão em meu ombro, seguida de uma expressão e um sotaque “gaudério” inconfundíveis.

– Mas e aí vivente, que tal?

Só um guasca de fora fala assim. Era Ildo, com seu costumeiro linguajar gauchesco.

– Ildo, disse eu, !! Como vai? Quanto tempo? O que fazes aqui?

Eu sabia que ele dificilmente estaria operando um paciente naquele hospital, já que era dono de uma clínica famosa de cirurgia plástica na cidade. Sua presença era no mínimo estranha, como alguém muito “chique” para estar em um hospital comum como aquele.

– Eu… bem, eu… vim visitar uma parente minha que está internada.

Seu titubeio não passou despercebido, mas não insisti na pergunta. Talvez não quisesse me dizer o que ela tinha, ou apenas julgou que não era um assunto importante para interromper um reencontro que ocorria depois de um quarto de século. Ildo continuava um homem muito bonito. Estava bem mais magro do que quando o conheci, mas guardava uma nobreza facilmente identificável. Roupas caras, andar portentoso, um relógio dourado e extravagante. Um homem de sucesso.

– E a …..

– Zeza? Vai bem. Tivemos dois filhos, que já são grandes.

– Parabéns Ric!!

– E Angélica como vai? Eu, obviamente, me lembrava muito bem do nome de sua esposa.

– Vai muito bem, melhor do que nunca.

– Eu não acredito que ela ainda está com você!! Ela não conseguiu arrumar nada melhor? Que desperdício!!

Conversas de homem, como sempre tolas e divertidas.

Subitamente ele ficou sério e me olhou de uma forma diferente. Fixou-se em meus olhos e perguntou:

– E você Ric, o que fez da sua vida? Resolveu mesmo ser obstetra? E então, ficou rico?

Eu sorri e respondi que ser rico era uma possibilidade praticamente nula, mas que nunca foi meu objetivo. Trabalhava com o que gostava e da forma como desenhei muito cedo na minha vida. Humanizar o nascimento era um ofício e uma bandeira; um trabalho e um sonho de vida. Ele continuou a me olhar como que tentando me decifrar. Finalmente falou de si.

– Pois eu fiquei rico, muito próximo do que se pode chamar um milionário. Comprei casas, apartamentos, mansões, uma clínica, um pequeno Iate, dinheiro no banco, viagens pelo mundo todo. Fui o introdutor no nosso meio de uma técnica que vi no Rio de Janeiro e que estava apenas começando a ser utilizada. É a lipoaspiração, conhece?

Abanei a cabeça sorridente. Como não conhecer algo que havia revolucionado a cirurgia plástica? Ele continuou.

– Pois choviam paciente para fazer isso. Eu ganhava em dólares. Cinquenta, as vezes cem mil dólares em um único mês. Era muito dinheiro. Fiquei muito rico mesmo.

Curiosamente, eu não percebia na conversa do meu colega nenhuma arrogância. Não era exibicionismo o que eu presenciava; era algo bem mais profundo. Ildo parecia trazer à tona o relicário de sua vida, uma avaliação de suas conquistas e do valor real que elas possuíam. Parecia ter perguntado sobre o meu percurso apenas para relativizar o seu. Não havia uma expressão de vitória ou de pedantismo em suas palavras. A imagem que eu via era a de um homem que desejava ansiosamente saber o valor do que conquistara, e se o que ocorreu com ele havia valido a pena.

– Não, Ildo; minha vida passou longe disso. Não nasci com este talento. Gosto de atender minhas pacientes, tenho um grande prazer em atender partos, mas nunca serei rico. Não tenho nada contra ser milionário, mas jamais me esforcei nesse sentido.

Ele não ficou constrangido com a minha resposta, e sequer achou que eu estava desprezando sua capacidade de fazer dinheiro. Seu olhar era de sincero questionamento. Parecia querer saber o que havia acontecido naqueles 25 anos que nos separaram.

– Bem, foi um grande prazer lhe reencontrar, Ric. Continue seu trabalho sempre. Eu vou indo, pois estão me esperando. Um abraço para ….

– Zeza, disse eu.

– Isso, mande um abração para ela.

Desejei o mesmo para Angélica e olhei sua silhueta virando a curva do corredor, enquanto eu aguardava a chegada do elevador. Caminhei até o estacionamento do hospital e liguei meu velho carro.  Antes de sair ainda olhei para os lados, esperando encontrar a Mercedes ou BMW que eu imaginava ser do meu colega. Não os vi, mas me diverti pensando nos 25 anos e nos milhões que nos separavam.

Algumas semanas depois encontro sobre minha mesa, ainda dentro da capa plástica, o exemplar de uma revista médica da minha cidade. Normalmente eu nunca leio nada dessas publicações, pois as matérias são essencialmente corporativas, enfadonhas e recheadas de propagandas de remédios. Entretanto, desta vez fiquei tentado a folhear suas páginas acetinadas. Entre matérias insossas e fotos de medalhões da medicina da província, encontrei na última página o quadro de obituário médico. Nela apareceram nomes de médicos falecidos naquele mês e, entre aqueles que eu nunca ouvira falar, meus olhos repousaram sobre um nome conhecido.

– Dr Ildo Buaiz.

Cheguei a me assustar ao ver o nome do meu colega na lista de falecimentos. “Como poderia ter morrido, se há poucas semanas o encontrei no hospital, quando pudemos trocar ideias e recordar o nosso passado nos plantões do Pronto-Socorro?”

Como isso teria acontecido? Pensei num homônimo, mas dois médicos na minha cidade com o mesmo nome não parecia razoável. Achei que a melhor hipótese seria um acidente. No nosso país as pessoas morrem todos os dias nos mais absurdos desastres de automóvel, e meu colega Ildo poderia ter sido mais uma vítima dessa tragédia cotidiana. Passei vários dias com esta pergunta na cabeça até que, alguns dias depois, indiquei uma cirurgia no hospital e pedi para minha colega Andréa para que viesse ao hospital me auxiliar. Durante o procedimento eu comentei que ainda estava abalado pela morte de um colega nosso, de forma repentina e sem explicação até então. Contei o episódio de nosso encontro na frente dos elevadores do hospital e da minha surpresa com a notícia.

– Como é o nome dele, perguntou minha colega.

Eu disse que se chamava Ildo Buaiz, um antigo amigo e colega do tempo do Pronto-Socorro.

Ela ficou estática me olhando e exclamou:

– O Ildo é da minha cidade, lá da fronteira. Eu não sabia!! Mas ele é jovem, não tinha sequer 50 anos! Que será que houve?

Expliquei a ela que não tinha ideia, e que ele me pareceu bem durante nosso breve encontro, apesar de estar bem mais magro do que no tempo que fazíamos plantão.

– Deixe comigo, Ric. Vou descobrir o que houve.

Passaram-se algumas semanas e reencontrei Andrea em outra cirurgia. Perguntei se ela tinha notícias daquele caso do nosso colega e ela disse que me contaria depois de terminada a operação, na sala do café. Depois de finda a nossa tarefa, nos encontramos na sala de conforto médico, e ela me relatou a história que havia desenterrado.

– Câncer, Ric. Fulminante.

– Sério? Que coisa!!

– Um tumor galopante. Ele fazia tratamento nesse hospital, foi por isso que você o encontrou aqui.

“Visitar uma parente”, disse ele. Em verdade ele estava se tratando, mas não quis me dizer.

– Sim, Ric. Ele teve um tumor raro e absolutamente inoperável. Em poucos meses ele passou de um cidadão rico e feliz para um quadro desesperador. Foi rápido demais, até para poder se adaptar à essa realidade. A vida às vezes tem dessas surpresas.

Enquanto ela me descrevia as informações que colhera com seus familiares na sua cidade eu tentava recuperar da memória os detalhes do nosso breve encontro. “E você Ric, ficou rico?”. Essas palavras agora tinham um outro sentido, mas confirmavam a clara impressão de que não se tratava de exibicionismo ou arrogância. Não, ele apenas queria saber o que significava toda a sua vida, os seus sucesso, sua fama e seu dinheiro. Naquele dia, tudo parecia estar escorrendo pelos dedos.

– Ele faleceu aqui no hospital, continuou Andrea. Ele sempre foi muito discreto, mas lá na minha cidade todos acabaram sabendo. Ele era muito querido pela família. Seu pai foi político e era um homem influente. Uma tristeza isso. Jovem, bonito e bem sucedido.

– Muito triste, respondi

– Conheço uma tia dele que mora lá, e falei com ela há alguns dias. Nos últimos dias antes de falecer ele pedia a ela que trouxesse de nossa cidade um presente muito especial, algo que o fazia voltar aos seus tempos de criança, quando tomava banho no rio e caminhava descalço pelo campo.

– O que era?

– Ambrosia. Ele era louco por ambrosia, mas se privava de comer para não engordar. Durante muitos anos não fez o que seu desejo mandava, mas quando percebeu que seus dias estavam contados resolveu aproveitar seus últimos momentos fazendo o que lhe dava tanto prazer: uma deliciosa ambrosia com calda açucarada.

As palavras do meu colega ainda ecoavam na minha cabeça. Seu olhar fixo era em busca de respostas para o sentido de sua vida. Provavelmente por muitos anos ele pensou que a vida era feita para obter sucesso e usufruir das coisas que o dinheiro pode comprar. Seus dólares, entretanto, não foram suficientes para comprar o mais caro de todos os bens: o tempo. Antes de chegar à terceira idade seu tempo se esgotou, e toda a riqueza que ele conquistou na vida perdeu completamente seu sentido. Era isso que Ildo perguntava para mim: “Qual o sentido da vida? Qual a importância de lutar para conquistar valores que se esvaem por entre os dedos?”

Eu não sei Ildo, não posso lhe dizer. Mas creio que a próxima vez que tiver vontade de comer uma ambrosia lembrarei de você, e vou saborear sabendo que esta é uma das melhores coisas da vida. E que as coisas mais importantes não podem ser compradas com dinheiro, mas são os afetos que plantamos durante nossa existência.

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O Outro

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Venho por meio dessa singela mensagem prestar uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida, a qual me mostrou os caminhos a seguir, minhas limitações, virtudes, defeitos e capacidades escondidas.

Minha eterna gratidão ao …. Outro.

Sem o Outro jamais teria a mais tênue noção de quem sou, nem a menor possibilidade de me situar no universo. Sem ele eu jamais compraria uma camisa nova, e nem pentearia meus poucos cabelos. Se não fosse pelo Outro jamais teria estudado ou me aperfeiçoado, e nem tentaria eliminar os constrangedores buracos negros da minha educação. O Outro me ensinou (e continua agindo assim) todos os dias a me comportar nas mais diferentes situações, garantindo que todo avanço é seguido de uma força contrária em sentido oposto. Sem o Outro eu seria um perfeito idiota, incapaz de me situar no mundo.

Nem um milhão de anos seriam suficientes para agradecer a você, Outro, o quanto me ajuda a transitar pelo mundo de forma positiva. Seus conselhos, sua ajuda incondicional, seus “toques” e dicas, seus puxões de orelha me ajudaram a ficar de pé até agora.

Sem você minha vida não teria nenhum sentido e nenhum futuro. Você é o espelho que olho todos os dias para seguir caminhando. Você me construiu, fez o que sou, me moldou e me nomeou. Você me define.

Obrigado, Outro.

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Privilégios

privilegio

Para aqueles que adoram exaltar suas próprias virtudes, talentos e qualidades, as quais surgiram do seu valor pessoal e do seu esforço solitário preciso declarar que:

O meio foi SUPER, HIPER, MEGA benevolente comigo, por TODA a minha vida. Faço parte da camada mais privilegiada desse país, e estou no TOP 2% do planeta. Sou um ENDIVIDADO com as circunstâncias que fizeram o que sou. Anotem aí apenas 10 benesses que gratuitamente recebi da vida:

  1. Sou branco e homem
  2. Heterossexual (juro!)
  3. Nasci na classe média
  4. Tive irmãos maravilhosos
  5. Estudei em escolas próximas da minha casa e nunca me faltou um livro, uma caneta ou um caderno.
  6. Conheci meus avós
  7. Tive uma mãe maravilhosa
  8. Tive um pai filósofo e erudito
  9. Fiz uma faculdade PAGA por VOCÊ, e mais alguns milhões de brasileiros.
  10. Casei jovem com uma mulher espetacular, e por pura sorte… Também por pura sorte meus filhos se espelharam nas virtudes da mãe…

Nada do que está escrito aqui consegui por talento ou muito esforço. Tudo isso eu GANHEI da vida. Por isso me sinto devedor da enormidade de privilégios que cercam os burgueses brancos e heterossexuais como eu.

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Responsabilidade e Culpa

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Uma das confusões mais comuns que vejo no mundo das redes sociais é entre os conceitos de “responsabilidade” e “culpa“. Isso gera discussões e até exclusões, como muitos já foram vítimas. Por isso creio ser importante clarificar o que estes termos pretendem, para que fiquem bem assimilados.

Podemos dizer que os negros não tiveram culpa pela escravidão, e nem os gays pela exclusão e preconceito. Nenhuma dessas condições é feita por escolha do sujeito. Entretanto, é responsabilidade dos negros e dos gays mudar sua realidade. Ninguém vai carregá-los no colo, o que seria estúpido e indigno. Somente eles podem protagonizar suas lutas e sua busca por espaço e reconhecimento. Esse protagonismo é deles.

Isso não implica que sujeitos como eu, branco e heterossexual, não possam ser estimuladores de uma nova realidade inclusiva para negros e homossexuais. Faz parte das nossas tarefas eliminar as diferenças possíveis. O mesmo pode ser dito das lutas femininas e em especial pela dignificação do Parto. Não é culpa delas a situação objetualizante e coisificante, mas é responsabilidade delas – com o auxílio de todos nós – a retomada do protagonismo.

Espero que isso ajude a descomplicar esta confusão semântica.

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