Privilégio

“Nascer cheio privilégios não é uma vergonha, assim como não é nascer sem eles. Vergonha é não reconhecê-los e não lutar pelo seu fim, sendo você um privilegiado ou um despossuído.”

Janice Olatunji “Into the Jungle of Privilege” Ed. Yoruba, pag. 135

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A Neurose Necessária

Eu sempre falei aos colegas que tentavam se aproximar da humanização do nascimento que a “curiosidade” não é uma motivação suficiente, realizar partos vaginais é muito pouco e seguir protocolos mais sensatos e embasados em evidencias, também. É necessário mais do que este desejo, mesmo sendo justo e correto; é preciso buscar uma mudança tão profunda quanto dolorosa e radical. É fundamental inserir o parto nos direitos reprodutivos essenciais das mulheres e garantir a elas o protagonismo pleno do seu exercício. Sem isso teremos apenas médicos curiosos e simpáticos, cujos esforços se limitam a sofisticar a tutela sem que jamais atinjam a profundidade de sua missão. É por isso, e por nada mais, que essa tarefa é tão complexa e difícil.

“Certa vez, eu queria interromper minha análise e perguntei a Lacan porque era tão duro iluminar nosso inconsciente. A resposta dele pode ser resumida assim: a verdade é sempre incômoda, e a psicanálise nos mostra o que preferimos ignorar. Quanto mais nos aproximamos de nossa verdade mais temos vontade de ignorá-la. Por isso mesmo ele desencorajava aqueles que o procuravam para se conhecer melhor. Isso não é o suficiente. É preciso que algo nos atrapalhe e no interrogue para sobreviver ao longo das sessões. É preciso almejar uma mudança radical.” (Gérard Miller)

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Padrões identificatórios

Quando uma jovem negra diz na TV que sempre quis ser médica porque sua mãe era da enfermagem e a “medicina exige mais estudo” há uma questão que cabe analisar. Existe aí uma lição para os identitarismos, tanto o feminismo quanto o racialismo: quando um sujeito muda de classe essa mudança se torna superior e mais importante do que suas identificações anteriores de gênero ou raça. Uma negra quando se torna médica muda de status e sobe na estratificação social, e suas conexões anteriores com o feminino ou a negritude ficam “desbotadas”.

O fato de ela ser uma médica negra que tratou a enfermagem de forma diminutiva é o centro do meu argumento. Como médica ela passou a se identificar com seus pares, e sua condição de mulher, negra, pobre e filha de enfermeira ficou para o passado. Agora ela está em outro padrão de grupo, com quem se identifica. É claro que a enfermagem não estuda “menos”, apenas estuda diferente, mas o fato de ela fizer isso tão facilmente é porque ela sucumbiu à narrativa comum da Medicina, preponderantemente preconceituosa e arrogante em relação às outras profissionais saúde.

O mesmo fenômeno acontece com médicas que atendem mulheres: as obstetras. Com quem se identificam elas quando confrontadas com a questão tensa da violência obstétrica? Com as vítimas, mulheres como elas, ou com os opressores, doutores como também elas são?

A resposta já sabemos, e nossa natureza de autopreservação sempre nos coloca naturalmente ao lado dos mais fortes.

 

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Comentários de Ódio

As pessoas que frequentam as mídias sociais ainda não entenderam o sentido amplo dos “comentários” das notícias e matérias jornalísticas. É preciso compreender estes fenômenos e enxergá-los como o são. Eles são pura catarse e funcionam como processos exonerativos do sujeito e, como sabemos, dizem muito mais do comentarista do que do objeto do seu comentário. Não esperem compreensão, parcimônia e justiça de pessoas que trazem apenas ódio e desprezo em suas almas. Por outro lado aqueles que cultivam uma atitude de justiça e respeito em suas vidas farão comentários que refletem seus valores éticos mais profundos.

Quando entendermos isso talvez seja possível parar de se escandalizar com a brutalidade dos comentários. Vejo as pessoas ainda chocadas com eles quando a melhor postura talvez seja saudar estes contraditórios pois, se nossas opiniões causaram tanta reação agressiva e controvérsia, então deve ter tocado um ponto sensível da cultura.

Nada é mais destrutivo para a criatividade do que o desejo de ser amado e admirado por todos. Qualquer inovador – e em qualquer campo do conhecimento – precisa aprender a devotar especial carinho para o canteiro dos seus inimigos e adversários com o mesmo amor que cuida do jardim dos seus amigos e apoiadores.

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Catástrofes

“É importante entender que médicos e advogados SEMPRE desenganam seus clientes no primeiro encontro. Isso faz parte do “currículo oculto” da formação desses profissionais. Eu já falei com dezenas de pacientes que uma ou mais vezes na sua vida foram “desenganados” pelos profissionais que os atenderam. A razão para isso é simples e fácil de entender. Os profissionais pintam o PIOR cenário para os seus clientes, oferecendo sempre as mais adversas possibilidades. Desta forma, caso o cliente morrer ou for condenado, a culpa será sempre devida às péssimas condições oferecidas de início; caso ele sobreviva ou seja inocentado – APESAR dessas péssimas condições iniciais – as glórias só poderão ser oferecidas aos profissionais, os quais resgataram seus clientes das portas da morte ou de uma sentença terrível e injusta. Esta é uma postura em que o profissional só pode ganhar; por isso as palavras iniciais de médicos e advogados devem ser sempre relativizadas diante desse imperativo.”

Jeffrey Griffith “From Life to Death, an Odissey of Desguise”, Ed. Lacrosse, pag 135

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