Invasões Bárbaras

As manifestações de médicos atacando os avanços do protagonismo feminino – em especial planos de parto – são parte do velho modelo anacrônico, carcomido, ultrapassado e embolorado da obstetrícia misógina brasileira. Tais profissionais usam a retórica oportunista de se vitimizar, colocando-se como perseguidos e injustiçados por uma horda de mulheres enfurecidas e cheias de “sangue nos olhos”. Posso garantir que mulheres que fazem planos de parto não são movidas por ódio, mas são as pontas de lança da idéia de “gestação participativa”

As acusações contra as mulheres que se informam e reivindicam são pura balela. Quem já passou 5 minutos dentro de um centro obstétrico de hospital privado sabe como acontecem as pressões e os constrangimentos a elas impostos. Estes sequer se iniciam ali; em verdade são o corolário de um processo que começa no primeiro comentário sobre a “bacia pequena”, a pouca (ou muita) idade, os riscos de sofrer todo o processo e não “ter passagem”, a segurança da medicina “moderna” (tecnológica), a crueldade dos partos “animais” e os riscos de ocorrer algo muito grave num parto pela vagina. Sem falar no “estrago” que uma criança é capaz de fazer ao “parquinho de diversões” do marido.

O discurso da obstetrícia nacional ainda é uma expressão de poder que, em cada detalhe – do excesso de exames à forma depreciativa como se descreve o processo de parir – traduz a visão diminutiva que ela (a obstetricia) cultiva sobre a mulher e sua fisiologia. É o que chamo de “misoginia estrutural”

A fala desses sujeitos apenas reproduz o que se escuta na Escola Médica e nos corredores e cafezinhos do hospital. Os médicos são descritos por si mesmos como vítimas de pacientes obcecadas e transtornadas, sem que possam entender de onde vem tanta ingratidão. Não raro culpam a Internet e as “ativistas loucas”.

Ingratas….

Sim, porque para eles cada mulher que vai parir não deve ao seu obstetra menos de que a mais absoluta gratidão por salvá-la de uma natureza má e cruel, que ofereceu como veículo de sua alma nada mais do que uma “máquina defeituosa e ineficiente”.

É contra essa imagem deturpada do corpo das mulheres e o questionamento radical de quem verdadeiramente o controla que se faz um Plano de Parto. É para que os médicos saibam que seu conhecimento tem valor e merece respeito, mas que não está acima da soberania que todos nós temos sobre nossos corpos e almas.

A história lembrará desse tempo como a invasão bárbara sobre o território dos corpos femininos. Lembraremos dessas falas reacionárias como os estertores do domínio espúrio sobre a sexualidade das mulheres. A partir daí um novo tempo surgirá, onde as parcerias serão feitas de forma mais livre e justa, garantindo o respeito pela autonomia, que se manterá pairando impávida sobre todas as palavras e gestos.

E que assim seja.

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Sobre a Verdade e os Velhos

Eu confesso que usei a estratégia de confrontar a realidade com minha sogra e minha mãe quando suas consciências começaram a dar sinais de enfraquecimento. A principio, como quase todos fazem, eu apresentava a elas o mundo real que seu entendimento desafiava. Mostrava à minha sogra que nao se ajustava os óculos no horario de verão, e à minha mãe que ela não morava mais na velha casa da Anita Garibaldi onde viveu na infância. Sorria pelo constrangimento e pela confusão que passavam. Eu achava que devia trazê-las para o meu mundo, para nāo perdê-las de vez

O tempo passou. Minha sogra faleceu e minha mãe tem hoje a alma enclausurada em um envoltório de matéria. Quase não fala, apenas se alimenta… e sonha.

Hoje eu tenho dúvidas se devia mesmo falar a elas a verdade. Até porque, é preciso definir o que é a “verdade” a ser dita. Quando em minha mãe se aprofundou a demência senil eu mudei de postura. Depois de um tempo parei de lhe dizer a “verdade” porque percebi de forma nítida que ela habitava em um mundo paralelo, onde os valores e os parâmetros eram bastante diferentes dos meus. A verdade, em sua alma, tinha outro formato. Falar para ela que já havia me ligado três vezes para falar do mesmo assunto, ou que seu pai (falecido há 50 anos) não viria buscá-lá não fazia mais sentido. Não via razão alguma em trazê-la para o meu mundo concreto e fazê-la provar reiteradamente o gosto amargo da angústia e do abandono.

Com a mesma lógica que privamos as crianças de verdades que elas não podem alcançar (papai Noel, morte, abandonos, violência, separações) adaptando estas informações no tempo e na capacidade delas, assim eu resolvi fazer com minha sogra e depois com minha mãe. A “tirania do real” não poderia ser uma arma de tortura constante, obrigando uma mente limitada a lidar de forma repetida com a dor de suas perdas.

A verdade não é fim, é meio. Usá-la sem um objetivo de mitigar a dor e a angústia retira seu sentido libertador.

Entendo as disposições em contrário, até porque já usei a estratégia da verdade crua, mas o tempo me fez mudar de visão sobre aqueles cujo apagamento insidioso da mente nos obriga a olhar a verdade com outra perspectiva.

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Pornografia consumista

Existem várias pornografias infantis no YouTube. Essa alertada pelo Felipe Neto é apenas a mais nojenta e explicita, mas é a ponta do iceberg da exploração infantil midiática. Para além disso existe a “pornografia do consumo” feita pelos “unboxers” milionários de vários países, que são crianças pagas para fazer propaganda de produtos, brinquedos, aparelhos e roupas. Pela perspectiva de muitos estudiosos o estímulo ao consumo por crianças é tão danoso em longo prazo quanto o estimulo à pedofilia. Se pensamos em coibir a exposição de crianças devemos fazer em todos os níveis, inclusive nos abusos do consumo.

Para mim a regra é simples: sem crianças no YouTube. Sem crianças em desfiles de moda, sem publicidade infantil, nada de propaganda de bolachinha recheada, sem estímulo ao consumo de brinquedos, sem crianças fazendo gracinhas, sem roupinhas da moda para criancas, sem biquínis infantis etc. Esse não é um lugar para a infância.

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Ocasio Sanders

Não quero ser estraga prazeres (ou empata ph*da) mas o entusiasmo que boa parcela da esquerda internacional tem com Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez tem o mesmo aroma de esperança frustrada que o mundo civilizado tinha com Obama. Este, ao fim e ao cabo, sempre se comportou como um Darth (in)Vader para tantos países, levando morte e miséria para milhões por onde o império derrama seu sal. Obama apenas confirmou o papel secundário dos mandatários americanos diante do poder do “deep state“: forças armadas e Wall Street. O apoio ao golpe americano na Venezuela soterrou minhas esperanças em Bernie e a postura de “Estrela da esquerda cirandeira” de Alexandria me faz perder o entusiasmo. Tomara que eu esteja errado

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Ainda sobre Jean

Comecei a gostar das crónicas (com “ó” mesmo) de Alexandra Lucas quando ela escreveu uma emocionante defesa de Woody Allen, rechaçando as mentiras e difamações que muitas mulheres americanas, sedentas de sangue, lançaram contra ele – a exemplo de bolsominions, sem provas e prenhes de convicções. O linchamento das radicais americanas me enojou quando percebi o ódio manifesto contra um homem, branco, rico e maduro cujo único crime foi se envolver com uma mulher mais jovem e com quem está unido há mais de 30 anos. A história do abuso, uma criação fantasmática rechaçada pela polícia e pelos especialistas, povoa a imaginação dessas acusadoras há 3 décadas. Ainda hoje atrizes como Ellen Page e Susan Sarandon espalham estas mentiras sem jamais demonstrarem uma prova sequer de que uma violência tenha sido cometida. O ódio, e só ele, as motiva.

Agora Alexandra escreve sobre a tristeza, que compartilho com ela (veja aqui), de ver uma figura tão importante para a imagem das esquerdas e do universo LGBT escrevendo tolices inimagináveis sobre a Palestina, vítima de um engodo criado sobre a “liberdade gay de Israel”. Em um texto escrito após ser criticado pela visita imprópria a Israel, Jean Wyllys, este personagem, conseguiu em poucos parágrafos reunir uma infinidade de clichés, bobagens, desinformações, preconceitos, ingenuidades e lugares comuns sobre a Palestina, mostrando que sua luta contra a opressão gay e trans em seu país não foi intensa o suficiente para se estender ao sofrimento e opressão a que são submetidos os palestinos, massacrados pelo exército racista de Israel. Sua deplorável conivência com o sionismo apenas mostra que, sem um aprofundamento sobre o tema, qualquer um pode ser vítima da sedução, do “pinkwashing” e da propaganda dos opressores.

Meu desejo – e o de Alexandra – é que Jean viva o suficiente para se desculpar do estrago que produziu na imagem da esquerda brasileira e para a luta Palestina por liberdade e autonomia. Sonho com o dia em que um texto seu comece com as palavras:

“Sobre a Palestina, eu peço perdão…”

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