Sexualidade e Medicina

Eu realmente acho que a Medicina tem tanto a dizer sobre “sexualidade” quanto tem a dizer sobre “parto”. Não nego que haja espaço, mas o vejo de uma forma absolutamente diminuta, marginal e relacionada às franjas do debate, e não ao seu núcleo psíquico e conceitual.

Isto é: quase nada, a não ser a avaliação de doenças que podem impedir ou dificultar o desempenho da prática sexual, tipo diabete, neuropatias, distúrbios hormonais, aterosclerose, paraplegia, etc. Imaginar um médico neurologista – ou ginecologistas e urologistas – falando sobre “desejo” chega a me dar calafrios. Falar de DST, tomar banho, lavar o pinto não é debater sexualidade, mas discorrer sobre patologias de transmissão sexual. Fico feliz de ver que hoje em dia a medicina mão fala mais da “orientação sexual”, mas não esqueçam que há poucos anos ela tratava as orientações desviantes da heteronormatividade como patologias. Quando vejo doutorados em sexualidade sob os auspícios de faculdades de medicina eu, francamente, não consigo entender. Para mim “Viagra” e “Cialis” é tudo o que a medicina tem a dizer sobre a sexualidade humana. Vou adiante: para entender a sexualidade humana é essencial abandonar o discurso médico.

Colocar nos genitais, nos hormônios, nas dimensões e nas glândulas o drama da sexualidade humana é o mesmo que colocar no corpo os dilemas do parto. Quanto mais os procuramos nas reentrâncias e saliências, menos percebemos a sua essência etérea e diáfana. “Não o procure nas dobras dos tecidos vaginais, nas protube­rân­cias ósseas, nas contrações ou nas variações dos hormônios. Ele se en­cerra nos pequenos grãos de areia de nossos sonhos, na bruma de palavras disper­sas de um passado distante. Ele se refugia nos sussurros de uma me­nina, na curiosidade infindável que ela carrega e no seu olhar insaciável. O “sexo” e seus mistérios se escondem ao olhar superficial, à análise tímida e ao investigador amedrontado. Para entender o que o comanda, é preciso penetrar nos abis­mos obscuros da alma de uma mulher, lá onde se abrigam seus so­nhos e suas tristezas. Quanto mais profundamente mergulharmos, mas nebu­losa será nossa jornada. Entretanto, apenas assim poderemos encontrar essa semente. É provável que, apenas uma suposição, a chave para essa questão esteja mesmo li­gada a essa fissura aberrante na ordem natural, a qual chamamos amor. E tal­vez, outra mera suposição, para entender o que acontece entre as orelhas de uma mulher, somente se soubermos como encontrar esta chave”.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

O tema lembro também o famoso aforismo socrático que para mim sempre traduziu muito bem este dilema: “A verdade não está nos homens, está entre eles”, ou puxando para nosso assunto, “A sexualidade não está nos sujeitos, mas entre eles”.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim.

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Lamaze

O que sobra nos dias de hoje dos ensinamentos do obstetra francês Fernand Lamaze? O controle consciente do processo de nascimento por parte da gestante ainda possui espaço na atenção ao parto de hoje? E seu pendor autoritário, ainda encontra defensores entre os pensadores do nascimento humano?

Eu creio que alguns modelos aplicados ao nascimento são – na perspectiva atual – completamente anacrônicos no que diz respeito às suas propostas.

Este é o caso dos modelos baseados na visão de Fernand Lamaze e seus sucessores, como Pierre Vellay, Achiles Economides, Robert Merger e outros, os quais estão conectados aos criadores da psicoprofilaxia do parto, originária da Rússia por Velvovsky que por sua vez se apoiava nos estudos de reflexos condicionados de Pavlov. O modelo de Lamaze se baseia na sugestão e no princípio do “awaken and alert” do “parto sem dor”, da respiração alotrópica e de tantos outros conceitos hoje completamente superados. Vale como documento histórico, mas é bom ressaltar que os “Grupos Lamaze” de educação perinatal de hoje em dia não tem mais conexão com as ideias do seu criador.

Aliás, a visão contemporânea do parto humanizado é exatamente OPOSTA à visão de Lamaze. A visão de atenção ao nascimento de hoje prescreve o apagamento neocortical, e não sua ativação.

De qualquer modo estas perspectivas de meados do século passado tem um grande valor histórico. Nos anos 60 o “parto sem dor” era a grande moda. Todos as cenas de parto do cinema, em especial americano, das décadas 60 e 70 mostravam a mulher “soprando” enquanto conversava com seu marido. A função deste era estimular a ela um contato visual, pedindo-lhe que se mantivesse alerta e desperta. Aos maridos era solicitado que servissem como “ajudantes de ordens” do obstetra.

Nesse modelo o médico seria o “capitão”, o marido seu imediato e a mulher a força da natureza contra a qual ambos agiriam. Isto é: um poder masculino reforçado (médico + marido) enfrentando a mulher e sua fisiologia caótica e indômita. Um choque entre razão e natureza, numa perspectiva patriarcal. Para isso ser efetivado, Lamaze inclusive admitia que “pacientes infantilizadas fossem tratadas de forma autoritária”.

Segundo a Wikipedia, “Lamaze foi criticado por ser excessivamente disciplinador e antifeminista A natureza disciplinar da abordagem de Lamaze para o parto é evidente na descrição de Sheila Kitzinger dos métodos que ele empregou enquanto trabalhava em uma clínica de Paris durante os anos 1950. De acordo com Sheila Kitzinger, Lamaze consistentemente classificou o desempenho das mulheres no parto como ‘excelente’ ao ‘fracasso total’ com base em sua ‘inquietação e gritos’. Aquelas que ‘falhavam’ eram, de acordo com Lamaze, ‘elas próprias responsáveis, porque nutriam dúvidas ou não haviam praticado o suficiente’ e, previsivelmente, mulheres ‘intelectuais’ que ‘faziam muitas perguntas’ eram consideradas por Lamaze como as mais propensas a falhar.

Mas é bem interessante que a mudança da compreensão do parto tenha ocorrido em perfeita sintonia com a troca de percepção da própria mulher na sociedade, numa dança dialética onde um fator reforça o outro e é por ele intensificado.

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Educação e Parto

Para muitos pais, em especial na minha época, a escola significa um local para adquirir conhecimentos técnicos para o encaminhamento de uma profissão e, com ela, a autonomia. Tenho vívida a lembrança de meus tempos de escola – mas também na universidade – onde o foco era a aquisição de ferramentas e habilidades específicas para a preparação de uma vida profissional adulta. Não havia nenhuma relevância na didática ou na pedagogia e nenhuma importância era dada à formação do sujeito. Um médico era, acima de tudo, um sujeito que obedecia regras e protocolos, com pouca ou nenhuma importância dada aos outros aspectos do doente.

Quando debatemos escolas militares esta questão vem à tona de uma forma bem nítida. Os pais dizem que querem alunos que se comportem, tenham disciplina, saibam respeitar a autoridade e tenham a devida absorção dos conteúdos apresentados em aula. Nenhuma relevância é dada à formação da cidadania, às questões sociais, à história das lutas sociais e nenhuma ênfase na produção de pensamento crítico. Assim, estas escolas são produtoras de sujeitos complacentes, obedientes e doutrinados a se comportar segundo as regras, não importando o quão injustas elas sejam.

Vejo correlações nítidas com o parto. Também na minha época – e mais fortemente antes dela – as famílias procuravam os médicos para a atenção ao parto com o interesse de acompanhar o processo de nascimento de um novo membro da sociedade, sem levar em consideração os significados últimos deste evento para a mulher e futura mãe. Esta era, como regra, relegada a uma posição secundária, como contêiner fetal, e todas as suas dimensões subjetivas – afetivas, psíquicas, sociais, espirituais e sexuais – eram desprezadas em nome do foco no bebê e sua sobrevivência. Ali se formavam as mães submissas e dóceis que criariam seus filhos para uma sociedade igualmente opressiva.

Educação e a maternidade estão inseridas de forma marcante no conjunto profundo de valores de uma sociedade. Por isso as mudanças em seus pressupostos fundamentais causam espanto nos grupos que as controlam. Uma educação libertária levará a mudanças na sociedade, e por isso ela é tão fortemente combatida. Não é à toa que um pensador como Paulo Freire é atacado por suas propostas na Educação. A ideia do “parto como parte da vida sexual de uma mulher” ofende aqueles que enxergam nessa tese a potencialidade capaz de ameaçar as bases do patriarcado. “Mulheres livres colocam medo homens que temem mulheres sem medo”, como dizia Eduardo Galeano. Por esta razão aqueles que defendem o protagonismo do parto garantido às mulheres serão igualmente atacados e perseguidos.

Toda a nudez (das ideias que nos aprisionam) será castigada.

Uma nova educação centrada na crítica social e a proposta de um nascimento que valoriza a experiência sexual das mulheres serão as sementes da sociedade do futuro, livre das amarras da opressão e do patriarcado.

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Gancho

Fiquei de castigo por 3 dias no Facebook. Tomei um gancho por “discurso de ódio”. Querem saber por quê?

Fiz um breve comentário na foto, colocada em um site de piadas americano, onde se via uma criança negra chorando ao lado do caixão em que jazia seu pai, soldado morto em batalha no Afeganistão. Abaixo da foto se lia a legenda: “Militares americanos mágicos: ficam 3 anos fora de casa e voltam transformados em uma bandeira”.

Pode-se dizer que é uma piada de mau gosto, ou inadequada. Cruel talvez, mas preferi levar a sério o tema. Respondi dizendo:

“Não é difícil descobrir o segredo desta magia. Basta parar de mandar pretos, pobres e latinos para matar outros pobres e periféricos em nome do “Exército Imperial”. Só no governo do democrata Obama foram SETE países destruídos pelos imperialistas. Centenas de milhares de mortos e mutilados, entre eles mulheres e crianças. Enquanto estes sujeitos forem tratados como heróis, e não como marionetes do Império para fazer os ricos ficarem ainda mais ricos, estaremos no caminho errado. E não esqueçam: antes de morrer este pai de família deixou órfãs várias crianças que agora choram também a falta do seu pai. Se é para lamentar pela tragédia e pela tristeza da cena, vamos chorar pela imagem completa, e não só por parte dela”.

Gancho merecido, não?

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Vacinas, cesarianas e cadeias

Será o nosso pedido desesperado por “vacinas” mais um clamor pelas soluções mágicas, o qual esconde nosso temor de encarar os verdadeiros desafios?

Ainda hoje eu escutava pessoas sendo entrevistadas no rádio e pedindo às autoridades nacionais e mundiais que se encontre de imediato a solução para esta pandemia e um apelo pela criação e distribuição de vacinas. Não é difícil entender que, nesse momento de angústia disseminada, pedidos como este sejam voz corrente entre a população. Todavia, é necessário ir além dos pedidos desesperados para entender o significado dessa busca por soluções.

Da mesma forma, logo depois de um caso dramático de crime, os gritos são por mais segurança, mais polícia, mais repressão aos delitos e mais rapidez nas sentenças. Criar presídios, cadeias, justiça mais rápida e encarceramento parecem soluções adequadas e ágeis. Acreditamos que quanto maior a repressão melhores os resultados, na crença de que a impunidade é a grande estimuladora das contravenções. A experiência acumulada sobre o encarceramento, em especial em países com doutrinas positivistas hegemônicas, mostra o oposto: o encarceramento em massa jamais solucionou o drama da criminalidade.

Também com as cesarianas pensamos dessa forma imediatista; basta um caso isolado de problemas no parto normal para pedirmos mais cesarianas e mais tecnologia aplicada ao parto, com a fé de que as intervenções tecnológicas no nascimento produzem mais segurança, mesmo que as evidências apontem o contrário.

Vacinas, cesarianas e cadeias tem espaço nas sociedades contemporâneas, sem dúvida. Todas elas podem salvar vidas, ou evitar que outras vidas sejam perdidas. Entretanto, o uso dessas alternativas aponta para inequívocas falhas estruturais, erros na arquitetura básica da sociedade, e estas soluções podem servir apenas para nos oferecer um alívio temporário para doenças crônicas e insidiosas.

Não acredito que a solução para os dilemas do parto será pelo incremento de mais tecnologia, mas pela compreensão que grande parte dos transtornos do parto ocorre pela sua inserção numa cultura capitalista e que enxerga as mulheres e seus ciclos de forma diminutiva, olhando-as com lentes invertidas que as tornam defectivas, incapazes, insuficientes e indignas de confiança. A falta de protagonismo das mulheres aos seus ciclos é a falha essencial, e o incremento das intervenções aparece como o sintoma, mas não será jamais sua solução.

A repressão policial violenta vai ocorrer em sociedades desiguais e inerentemente injustas, e sempre será usada para conter a natural reação dos oprimidos às injustiças e à iniquidade. A força bruta será o meio de controle social enquanto a ferida aberta da desigualdade continuar sangrando, fazendo um enorme e crescente contingente de pobres e miseráveis ser contido através da violência. Sem que a real doença social do capitalismo seja curada, não haverá polícias e presídios suficientes para conter a revolta dos esquecidos.

Hoje gritamos por vacinas porque elas entram como a solução tecnológica para uma relação absolutamente disfuncional do homem com a natureza. Da mesma maneira, se não for modificada a nossa relação com ela, nenhuma vacina será suficiente, pois para cada anticorpo produzido dezenas de outros antígenos esperam na fila para atacar os corpos humanos. A raiz deste problema não se encontra na falta de tecnologia para encontrar os remédios, mas no excesso de intervenção na delicada tessitura da natureza, onde somos apenas um dos tantos prejudicados.

Vacinas, cesarianas e cadeias jamais serão soluções definitivas para o dilema humano. Nossa relação desequilibrada com a natureza, com a distribuição das riquezas e o desrespeito com o feminino e seus ciclos são expressões de violência que denunciam paradigmas disfuncionais subjacentes. Somente olhando de frente para estes dilemas teremos um mundo mais justo, igual e saudável.

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