Arquivo do mês: dezembro 2014

Corrupção

 

 

corrupcao

 

Minha posição se mantém inalterada: todas as visões moralistas sobre a corrupção no Brasil são ingênuas ou de má fé. A corrupção NÃO TEM bandeira e nem partido. Existe em TODAS as agremiações que desfrutam de algum tipo de poder. Advogados, médicos, partidos políticos, síndicos… ninguém está livre. Essa história infantil de dizer que o PT é corrupto, são os “petralhas” ou os “tucanalhas” do PSDB, ou que “todos os políticos são corruptos” é RIDÍCULA. Os corruptos SOMOS NÓS, cada um em sua esfera. A corrupção é um mal que nos atinge a todos, sem exceção, nas grandes e nas pequenas coisas. Se existe algum diferencial hoje é que o PT está oferecendo todas as condições para a solução desta mazela social, permitindo que os corruptos sofram a ação da lei, sem perdão. O que nós vemos hoje, patrocinado pelo partido que está no governo, é uma transparência inédita na luta contra a corrupção nas empresas públicas e privadas. Os dirigentes das empreiteiras foram PRESOS, perceberam a diferença? Os corruptores também estão sofrendo a mão pesada da lei. Dilma tem razão em dizer que o caso da Petrobrás vai mudar o Brasil, e para melhor. A “coisa pública” – a “res pública” – será vista com mais responsabilidade no futuro, e com menos oportunismo. Infelizmente teremos que passar pela dor e pela humilhação de agir com rigor contra o atraso, mas é a via necessária. Espero que estes casos se tornem emblemáticos e sirvam de exemplo para o combate à impunidade, aqui e no resto do mundo.

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Arquivado em Política

Pororoca

Pororoca

Humanizar o nascimento é restituir protagonismo para as mulheres. Entender o nascimento como um evento social e humano, e não apenas médico. É reconhecer o nascimento como o evento apical da feminilidade, sobre o qual atuam forças sociais, emocionais, psicológicas, afetivas espirituais e – acima de tudo – numa configuração subjetiva, única e intransferível. Mais ainda: é ter uma visão interdisciplinar, com a devida consideração com os outros atores que fazem parte tanto da cena de parto quanto do debate sobre o significado dele na cultura. É respeitar as evidências científicas que norteiam e orientam o trabalho das equipes de assistência, as intervenções e o cuidado aplicado às mulheres durante este período tão criativo de suas vidas.

“Um parto é um mergulho para dentro de si, um encontro inexorável com as questões mais íntimas e subjetivas, nas águas revoltas e escuras do inconsciente. Todavia, é também um pulo no oceano de palavras que nos circundam, nos envolvem e nos dão significado. Ambos os mergulhos produzem suas revoluções, suas agitações e giros, mas do choque produzido por tais saltos emerge uma gigantesca onda, de cuja energia se produz a característica única e irreprodutível de cada nascimento.”

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Arquivado em Parto

Praia do Pinhal

Vó Vera

 

Minha sogra tinha casa no Pinhal, para onde ia todos os verões, carregando seus 7 filhos. Zeza era uma das 5 filhas. O filho mais velho, Carlos Fernando, faleceu um ano antes de eu começar a namorar com ela, num acidente que marcou muito nossa geração de amigos. Eu tinha 17 anos na época e íamos de “galere” para Pinhal nos feriadões e nas férias. Era muita zoeira. A casa ficava literalmente a 30 metros do mar. Um pequeno chalé de madeira, com dois quartos, que chegava a acomodar mais de 20 pessoas nos fins de semana. A regra era: mulheres nos quartos e nas camas, homens deitados em colchões improvisados no chão da sala. Haja fossa séptica!!! Fim de tarde saíamos para caminhar na beira da praia e quando escurecia íamos ao “centro”, perto do “osso da baleia” para tomar sorvete de milho verde. Meus filhos ainda conseguiram pegar o final desse tempo mágico, mas o tempo já havia passado e a magia foi fenecendo. Pinhal é para mim uma maravilhosa lembrança de adolescência, mas para Zeza e seus irmãos é muito mais, pois toda a infância deles foi ali, na beira do mar.

Dona Vera, minha sogra era o centro de onde irradiava essa luz de congraçamento. Em torno dela gravitavam seus filhos e os “achegados”. Enquanto teve energia e desejo, foi o elo necessário para conectar a todos. Ela foi da última geração de donas de casa, dedicadas ao lar e à família, e ia para o Pinhal no fim de novembro (quando todos os filhos já haviam passado de ano) e voltava para Porto Alegre no fim de fevereiro. Eram quase 3 meses de areia e sol. A vida deles cursou muito por lá. Pinhal é, portanto, o lugar mágico, idílico, onde é possível ser feliz. Se Freud está certo e a felicidade é reviver os momentos e as sensações de gozo da infância então para Zeza e seus irmãos o único lugar possível para essa alegria sublime é a praia do Pinhal….

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Arquivado em Histórias Pessoais

As diferenças

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“Enquanto o parto humanizado for opção apenas para uma casta seleta, uma parcela da classe média que possui dinheiro e informação, nosso trabalho será incompleto e insuficiente. A humanização do nascimento não é uma moda, uma “onda” ou um capricho de mulheres burguesas. Parto com dignidade é direito fundamental, e faz parte das lutas pela democracia e pela liberdade. Nossa paixão pelo parto digno deve atingir a mulher do campo e da cidade, as ricas e as pobres, sem qualquer distinção. “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer“, e isso precisa ocorrer em todos os níveis.”

Faz parte do processo de transformação em curso os desafios que encontramos agora na atenção oferecida por enfermeiras durante o parto. Mulheres imitaram os homens no raiar do feminismo, achando que elas também podiam usufruir do poder e da glória que o falo inspira. Eu curti o tempo do “unissex”, que nada mais era do que mulheres imitando homens, inclusive – e principalmente – nos seus defeitos. Levou tempo para as mulheres perceberem a verdade na frase que pendurei há muitos anos na parede do meu consultório: “Uma mulher que pretende imitar os homens carece de imaginação“.

Agora as mulheres percebem que, SIM, são diferentes e celebram esta diferença com a valorização de seus corpos sinuosos, suas gestações e mamas que produzem leite. Com as parteiras – as profissionais, mas também as tradicionais – ocorreu o mesmo. Pareceu por um bom tempo que imitar a ilusória superioridade tecnológica dos médicos lhes garantiria maior reconhecimento profissional. Enluvaram-se, enrouparam-se de verde, cobriram o rosto com a mascara do anonimato, usaram o aço que corta e a gaze que seca. Chamaram as mulheres de “maezinhas” e “minha filha”, olhando-as de cima a baixo para mostrar, afinal, quem é que manda.

Só agora as enfermeiras obstetras e obstetrizes percebem que não são “doutoras castradas”, mas profissionais cujo maior diferencial é a especial conexão afetiva e espiritual que protagonizam junto às mulheres. Dessa diferença é que surgirá a parteria do século XXI, que vai aliar conhecimento formal e científico com a ancestral capacidade de cuidar que receberam da linhagem de parteiras que se perde na poeira do tempo.

Quem viver, verá…

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Arquivado em Ativismo, Parto

Feministas Radicais

Latuf Feminazi

 

Bem… A charge do Latuff sobre as “radfems” é politicamente incorreta. Equivocada mesmo. Eu gosto do ativismo político do Latuff, em especial no que se refere à Palestina. Minha tese sobre o feminismo se mantém, e a crítica ao Latuff só a reforça: as mulheres são vítimas de uma sociedade onde o machismo ainda é brutal, mortal e cruel. Mesmo uma mulher que nunca sofreu na carne essa brutalidade já a sofreu no espírito. Temos uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo arbítrio. A sofisticação da justiça e da democracia passa, inexoravelmente, pela “libertação” das mulheres. Assim, por reconhecer estas realidades, qualquer crítica ao grupo que é historicamente oprimido, mesmo quando sensata ou verdadeira, pode receber a marca da insensibilidade ou parecer um conluio com os opressores. Seria absurdo imaginar que muitas radicais feministas não cometem erros ou que não possuem ódios, rancores e feridas mal cicatrizadas. O mesmo com negros, nordestinos, homossexuais. Se estes sentimentos passam ao ato, e criam violência, deveriam ser criticados. Entretanto, a charge do Latuff extrapola e generaliza. O que seria uma parcela minoritária vira a imagem iconográfica de um grupo que prega a igualdade. Fez bem em se retratar. Ficou legal para ele e acho que as feministas radicais acabaram contempladas em suas justas reivindicações. Os sujeitos erram, mas reconsiderar é muito bonito.

Latuf Feminazi Retratação

Durante este período percorri os debates sobre o professor famoso aquele e sua conduta com as fãs e acabei descobrindo, um pouco espantado, a extrema diversidade do movimento feminista. Algumas dissidências internas parecem brigas de torcida organizada de futebol. Tem muito rancor, mágoa, visões díspares, mas nada além do normal para movimentos nascentes (um movimento é “nascente” se tiver menos de um século, no meu critério pessoal). O meu espanto maior foi meu desconhecimento da extrema diversidade entre tais grupos e os jargões que elas usam. Radfems, transfems, cis, queer, mascus, etc. me mostram a ignorância que tinha/tenho sobre isso. Outro ponto é a divergência, que por vezes se manifesta por repúdio explícito, à presença de homens, chamados de “feministos“. Continuo achando que, mesmo apoiando estes movimentos e os amplos direitos de igualdade pretendidos pelas mulheres, não me identifico com o discurso de várias correntes. Todavia, sigo firme no apoio às liberdades femininas de expressão de sua sexualidade, em especial no parto, que é parte da “vida sexual de toda mulher”.

Nos debates sobre o suposto machismo do famoso professor sobravam acusações de todos os lados entre as várias vertentes feministas. “Transfóbica” era um dos mais comuns. É curioso como elas chamavam os homossexuais masculinos de “viados” com o mesmo “tom” pejorativo que os heterossexuais usam. Mas, longe de mim querer rotular e achar que “isso aí é o feminismo”. Isso é tao tolo como ver uma prostituta e dizer “isso é o capitalismo” ou ver um homem-bomba e chamar de “islamismo”. Não, este movimento é rico exatamente por ser multifacetado e plural. Mesmo me assustando com a violência de alguns grupos é inegável a urgência e a propriedade das reivindicações.

Um exemplo famoso: nos anos 90, nos Estados Unidos, um marido violento, mulherengo e alcoolista chega em casa bêbado e tenta fazer sexo com sua mulher – uma imigrante da América Central – que o rechaça. Ele deita para dormir e a mulher, amargurada e humilhada, resolve se vingar amputando seu pênis com golpes de facão. Lembro que na época eu dizia que uma brutalidade como a que ela cometeu não se justificaria, mesmo que fosse possível entender suas razões. Mas qualquer crítica à ação de uma mulher duplamente oprimida, por ser mulher e imigrante, passava a ideia de que aceitávamos as OUTRAS violências que ela sofria, a do marido e a da sociedade preconceituosa onde estava inserida, estas crônicas e insidiosas.

Era complexo, e por vezes inútil, debater com as vítimas, ou seja, todas as mulheres que se identificavam com o sofrimento e humilhação da imigrante.

No caso do negro acorrentado a um poste via-se o mesmo. As vítimas somos todos nós, reféns de uma sociedade desigual e onde o crime é impune. Qualquer um que defendesse o jovem negro, criticando a indignidade cometida contra um ser humano, recebia uma saraivada de críticas ferozes dos justiceiros, e as mais brandas eram “então leva pra casa”.

Tentar criar uma terceira via, onde NENHUMA violência seria aceitável, sempre recebe críticas daqueles que por anos (ou séculos) sofrem nas mãos dos opressores. Mas eu acredito que esta é a única solução duradoura.

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Arquivado em Política, Violência