Arquivo do mês: dezembro 2014

Consolo

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“O grande consolo que nos resta é, quando a escuridão se faz silêncio e nenhuma luz desponta no horizonte, olhar para trás e perceber que sua trajetória não foi em vão, e os que vierem depois de ti saberão o caminho acompanhando tuas pegadas.”

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Humanizar é…

Parteira Tradicional

Existe, inequivocamente, um crescente desconforto dos médicos quando se trata da palavra (ou do tema) humanização. Há alguns dias vi um médico fazer uma defesa apaixonada da medicina, quase às lágrimas, reclamando do uso da palavra humanização. Dizia ele que salvar pessoas, fazer cirurgias, aplicar o tratamento adequado, dar o remédio correto, dedicar-se ao estudo e atender seus pacientes com respeito e carinho era a VERDADEIRA humanização. Infelizmente esta é ainda a reação de muitas pessoas, mas este desconforto se baseia na incapacidade dos profissionais que trabalham com o parto de compreender a essência da humanização do nascimento. Essa dificuldade é notória em especial nos médicos, e muito menos presente nos profissionais das outras áreas (antropólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, etc.). O “black spot” da humanização se refere à incapacidade de reconhecer o paciente como SUJEITO, mantendo-se atrelado a uma postura que o considera como um objeto da nossa ação.

A postura que alguns médicos assumem diante dos pacientes muitas vezes me parece com aquela dos escravagistas, e com o mesmo tipo de surpresa honesta diante das queixas. “Como assim desumanos? Nós tiramos estes negros da África, onde estavam passando fome, e lhes demos roupas, comida, casa, um nome, um país e segurança. Como podem estar reclamando? O que mais podem querer?” Outro comportamento que me lembra esta situação é a queixa do marido dos anos 40 quando sua mulher lhe dizia que pretendia deixá-lo: “Mas porquê? Eu trago tudo para dentro de casa, não bato em você e não bebo! O que mais pode querer?“. Jamais passaria pela cabeça dessas pessoas (escravagistas conscientes e maridos) que eles – escravos e mulheres – pudessem desejar algo a mais do que aquilo que lhes era oferecido. Tal fato pode ser entendido porque a relação com tais personagens era objetual. Nunca se perguntava a um negro o quê desejava, o que almejava para sua vida e quais os seus valores. Para uma mulher os critérios eram sempre os masculinos, enquanto ela pudesse servi-lo, mas sem questionar suas aspirações e desejos.

Os pacientes são igualmente jogados neste lugar: patologias que precisam ser curadas, tumores a serem extirpados, bebês conduzidos à vida pela melhor via e remédios para todos males, mas através de uma visão que não leva em consideração o sujeito doente ou, no caso do parto, a mulher que está em sua travessia para o universo da maternidade.

Qualquer preocupação a respeito dos limites da autonomia de uma mulher é respeitável e compreensível. Entretanto, a tendência mundial é sempre permitir que as pessoas possam fazer escolhas baseadas em seus valores, sua visão de mundo e seus desejos. Essas histórias de “mulher que não quis deixar o médico fazer X ou Y“, questionando a autoridade médica, existem por aí, mas normalmente são um pouco diferentes do que se propaga. De qualquer maneira a existência de “radicais” nos deveria fazer pensar no tipo de atendimento que oferecemos em que uma mulher prefere parir SEM assistência do que com aquela que nós oferecemos. Um exemplo típico eu testemunhei em uma recente visita à Bulgária, quando conheci seu sistema de atenção ao parto. O movimento de humanização de lá precisa lidar com um número preocupante de mulheres que preferem parir escondidas com o auxílio de amigas do que enfrentar o sistema público (o único existente) de atenção ao parto, que obedece o modelo autoritário, punitivo e violento da medicina comunista. Mais do que criticá-las (e podemos fazer isso, sem problema) é preciso saber porque elas fogem da assistência oferecida. Assim sendo, nunca é demais repetir: se nós tivéssemos Casas de Parto e hospitais que respeitassem a autonomia e a autodeterminação das mulheres o número de gestantes optando por parto domiciliar cairia imediatamente, talvez para menos da metade, pois que boa parte delas quer um parto digno e sem violência, o que é difícil de encontrar na atualidade.

O caso Adelir traduz esta inabilidade nas suas últimas consequências. As doutoras que a atenderam até hoje acreditam piamente que fizeram o que era melhor, mas jamais pensaram na possibilidade de garantir à mulher o poder de decidir sobre como seu filho viria a nascer. Mesmo com todos os papéis e documentos assinados à gestante jamais foi oferecido o direito de decidir sobre seu parto.

Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos apenas tutela, a mesma que oferecemos às crianças e aos incapazes“.

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Toques

Toque

O toque vaginal de rotina durante as consultas de pré-natal cabe na definição de ritual que Robbie Davis-Floyd nos ofereceu. “Repetitivo, padronizado e simbólico, carregado de valor cultural“. Mas, com este viés da ritualística aplicada na atenção à saúde, qual o sentido inconsciente (é bom deixar claro) existente na rotina do toque que se realiza como parte da consulta?

Na minha opinião trata-se da submissão do outro ao seu saber. “Eu sei de algo sobre seu corpo que nem você mesma sabe“.

Um sujeito assim autorizado sente-se empoderado com a força que lhe é instituída a partir de um conhecimento superior, e isso aumenta sua distância com relação ao sujeito-paciente. É pela potência inconsciente dessas ações que elas permanecem vivas e fortes, mesmo com as evidências apontando para a direção oposta.

O exame de toque pode ser útil em várias circunstâncias, no pré-natal e no trabalho de parto. O que é preciso dizer é que realizá-lo de forma protocolar ou rotineira é um erro e não tem embasamento científico, caindo na definição de ritual. Além disso este é um ritual desagradável e possivelmente doloroso e constrangedor. Para ser realizado de forma adequada precisa ser explicado, e realizado apenas com consentimento explícito.

Somos movidos por um fluxo poderoso de emoções, onde nossa razão é muitas vezes um frágil barquinho de papel tentando navegar contra a corrente.

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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Epifanias

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A gente sempre tenta estabelecer uma data, um marco, um linha divisória entre dois momentos da nossa vida. Falar do momento exato em que acordamos para uma realidade pode ser difícil, e as vezes impossível. Eu costumo citar o nascimento dos meus filhos como este momento definitivo, mas por certo que quando eles nasceram não havia nenhuma noção clara de humanização do nascimento em minha mente. Sobrou apenas uma espécie de indignação e dor pelo que poderia ter sido. Quando atendi uma paciente no chão da sala de exames do hospital esta indignação tomou a forma de uma vergonha. Não era apenas um mal que existia; era uma mal que dependia de mim para existir.

Todavia, esses eventos são artificialmente construídos, e o são sempre a posteriori. Na verdade o que te leva a mudar de paradigma é um sequência de minúsculos fatos, muitos deles insignificantes quando vistos de forma isolada, mas que adquirem sentido quando formam um conjunto coerente. Essas mudanças estão frequentemente escondidas de nossa percepção mais grosseira mas as epifanias as expõe pelo intenso afluxo emocional que propiciam.

Nossas mudanças são determinadas pelo trabalho diário e subterrâneo da lava incandescente de nossas experiências cotidianas. Uma pequena fissura na crosta das convicções é capaz de fazer uma erupção transformadora em nossas vidas.

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A Real Necessidade

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A visão objetual do paciente, a persistente consideração de cada pessoa com objeto da ação da medicina – e não como sujeitos competentes para realizar escolhas informadas – são a REAL necessidade de humanizar o nascimento.Não, isso seria incompleto; uma transformação da forma, mas mantendo intacta a essência. Sem considerar cada mulher como legítima condutora do processo teremos apenas uma parcial mudança, insuficiente para a verdadeira revolução que pretendemos. Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher.

Ainda haverá muito tempo até que os profissionais da saúde entendam o que a “humanização do nascimento” tem a dizer. Ainda há confusão e ranger de dentes, porque alguns recusam-se a compreender os aspectos ÉTICOS relacionados com esta atitude, e se mantém fixados aos aspectos técnicos da atenção. Fazer uma cesariana com uma mulher com duas cesarianas prévias e um bebê pélvico (sentado) pode ser uma indicação compreensível. Todavia, o que é inadmissível é ameaçá-la, constrangê-la, amedrontá-la e considerá-la um objeto “inanimado”, sem vontade e sem autonomia. A humanização vem colocar a MULHER no centro dessas decisões, oferecendo aos profissionais que a auxiliam a honrosa posição de consultores e orientadores.

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O Silêncio

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Encontrei no “Bazar Mães à Obra” o lendário obstetra Alberto Abeche, o qual tive a honra de contar no nascimento do meu filho Lucas. O Alberto faz parte de um seleto grupo de obstetras que tenho orgulho de reconhecer como colegas. Alberto é um sujeito sensível e espiritualizado como poucos. Nos minutos que conversamos, rodeados por barrigudas e bebês, ele me perguntou o que achava ser a parte mais bonita de um parto. Eu respondi que o apagamento neocortical, o mergulho na “Partolândia”, era o aspecto mais encantador e misterioso de tudo o que cerca a chegada de um bebê. O transe químico, o “barato” do parto, a zonzeira, a perda dos referenciais eram os fatos que mais me marcaram durante 30 anos atendendo partos e seus desafios.

– E você, Alberto? O que te encanta mais no nascimento?, perguntei eu.

Ele sorriu e respondeu

– O silêncio, Ricardo. O silêncio de respeito e reverência logo após o nascimento. Quando, depois do grito primal, o diálogo de lágrimas e gemidos é o único som que tem permissão de ser ouvido. É quando ficamos mudos e imóveis assistindo o milagre à nossa frente. O silêncio, Ricardo, o mais eloquente dos ruídos.

Obrigado, Alberto, pelo seu exemplo, sensibilidade e coragem.

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Fazer Partos

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A naturalização da expressão “fazer o parto” é tão intensa na nossa cultura (e não o é com igual intensidade em outras latitudes) que alguns sequer entendem nossa crítica a esta forma de descrever um nascimento. Quando dizemos que “só mulheres podem fazer um parto” confundem essa afirmação com a exclusão dos atores sociais relacionados com sua assistência e entendem tal ponto de vista favorece a desassistência. Nada poderia estar mais distante da verdade. Parto assistido por bons profissionais é uma conquista milenar das sociedades humanas. Ponto.

É por esse entorno cultural – a negação consciente e/ou inconsciente do protagonismo da mulher no parto – que os movimentos de humanização são necessários. É precisamente pela obliteração da função primordial das mulheres num evento que só ocorre na intimidade dos seus corpos que não há como se calar. Mesmo quando se repetem as acusações infantis e inconsistentes de que somos “contra os médicos” ainda assim, e com mais razão, é preciso colocar a mulher no seu verdadeiro posto. Achar que combater a violência obstétrica é ser contra médicos é tão tolo quanto acreditar que a luta contra a pesca das baleias é ser contra os marinheiros. Bons médicos e bons marinheiros serão sempre necessários.

Barbatanas de baleia e Kristeller , chega.

Entretanto, tenho SÉRIAS objeções quanto a criminalização da violência obstétrica na forma como está sendo debatida. Essa atitude terá uma reação imediata: o refúgio por parte dos profissionais no porto seguro das cesarianas e o medo crescente destes em oferecer assistência para partos. Tratar episiotomia com a mesma severidade com que analisamos espancamento doméstico é um exagero que pode ter consequências danosas para a atenção ao parto e,  mesmo sendo plena de boas intenções, pode ser um tiro no pé.

Educação e ativismo são o melhor caminho. A judicialização é sempre um caminho extremo. Produziremos muito mais efeitos positivos ao orientar mulheres, educar os novos profissionais, criar protocolos humanizados, conselhos hospitalares locais de revisão de práticas, aconselhamento de casais grávidos, comitês de direitos dos pacientes, doulas, acompanhantes, plantões multiprofissionais e muito mais. Colocar profissionais contra a parede, ameaçá-los e constrangê-los, de nada adiantará.

A única coisa certa a ocorrer é o aumento de cesarianas.

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Crenças e Descrenças

Bertrand Russell, 1951

Eu sou um crente da descrença. Mas tenho profundo respeito por tudo que porventura exista fora desse pequeno aquário a que chamamos de “realidade palpável”. Assumir sua própria ignorância e respeitá-la nos ajuda a colocar freios na insistente onipotência. Mas, não enxergo nenhum raio de luz nenhuma aura, nenhum Espírito me sussurra. Talvez minha cegueira tenha alguma função, mesmo que eu não entenda. Quiçá seja apenas manter-me atento ao mundo deste lado.

Ter ou não ter “chip para acreditar” não é uma escolha racional, e sequer é uma “escolha”. É como orientação sexual. Não adianta virem me explicar as belezas masculinas; sou um heterossexual incurável. Quanto às crenças digo o mesmo que pensava Bertrand Russell: a ciência mostra o que pode ser visto, mas não é capaz de negar o invisível. Como ele mesmo diz: “A ciência nos diz o que podemos saber, mas o que podemos saber é pouco, e se esquecermos o quanto nós não podemos saber acabamos por nos tornar insensíveis a muitas coisas de grande importância.” (A História da Filosofia Ocidental).

Creio no sentido último do Universo, um princípio geral e impreciso, mas que acalma minhas angústias existenciais. Qualquer coisa abaixo disso não faz muito sentido para mim. Sei que minha crença em um princípio unificador é apenas isso: algo que – estimulado por Pascal – “prefiro acreditar”, mas não acho justo ser acusado de místico, pois essa crença está aquém de qualquer análise da razão. Creio porque assim minha vida e meus sofrimentos parecem ter sentido.

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Defensoras da Mulher

Associacao Portuguesa

Para as companheiras da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gestação e Parto.

“A integridade e dignidade de uma nação se mede pela proteção que oferece aos mais frágeis. Proteger as mulheres no sagrado tempo da espera e do êxtase pela nova vida é a missão nobre que cada um de nós carrega no coração, pois, ainda que apenas elas tenham a condição de gestar em seu ventre, somos todos nascidos de mulher, e carregamos por toda a existência a dívida com o feminino e o respeito com o milagre através do qual recebemos a vida.”

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