Arquivo do mês: junho 2015

Padon pou mallonèt nou an

haitiano-capa

Há alguns dias apareceu nas redes sociais um vídeo sobre o encontro com um representante dos “Revoltados on Line” que humilhava um trabalhador negro haitiano em um posto de gasolina. Muitas reações negativas àquele abuso foram postadas, principalmente porque o próprio autor do ataque é obviamente descendente de imigrantes europeus que chegaram a este país em condições tão miseráveis e difíceis quanto estes haitianos que desembarcaram no país em busca de esperança para suas famílias.

Mais do que ressaltar o absurdo e a violência inaceitáveis neste comportamento, eu quero dizer que existem pessoas no mundo inteiro que abominam o racismo, o sexismo e a xenofobia. Existem, sim, pessoas espalhadas por este planeta que não aceitam estas barreiras artificiais, e que rejeitam ver seus semelhantes pela diferença da língua, da cor, do gênero ou da filiação religiosa. Eu ainda prefiro acreditar como verdadeiras as palavras de Max: “Se o visitante de um planeta distante alcançasse nossa pequena e tímida esfera de água e aqui encontrasse o bicho-homem em todas as suas variedades, muito mais se assombraria com as semelhanças do que com as diferenças”.

Ouso dizer que somos a maioria silenciosa, mas os brutamontes e suas atitudes violentas sempre recebem mais atenção. A guerra é sempre mais notícia do que a paz.

Esse vídeo, produzido na Lituânia, expressa em imagens o que senti vendo o haitiano humilhado por um brasileiro que não honra a delicadeza, a gentileza e a fraternidade do nosso povo. Em nome dos humanistas brasileiros eu digo aos irmãos do Haiti: “Padon pou malonnèt nou an” – Perdão pela nossa grosseria.

Sobre a fraternidade – Video da Lituânia

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Jesus Cura

Jesus cura

Como eu acredito que a cura é um processo interno, que se instala a partir da alterações profundas de rotas adaptativas inconscientes, eu não acredito que drogas, cirurgias, psicólogos ou médicos tenham a capacidade de curar um sujeito. Tais instâncias são elementos de auxílio para um caminho que é fundamentalmente solitário, e não a fonte da cura.

Por isso eu acho que Jesus não cura homofobia, como afirma o cartaz dos evangélicos “moderados”. Se curasse os cristãos seriam menos homofóbicos do que os ateus, mas o que observo é o oposto disso; os Felicianos e Malafaias não me deixam mentir…

Dizer que Jesus cura a homofobia tem tanto sentido para mim quanto dizer que a Bíblia condena os gays. Se Jesus foi mesmo o ser superior que nos fazem crer ele não se importaria com quem seus fiéis dormem. Isso, do ponto de vista do caráter ou da evolução espiritual não nos diz nada…

Deixem Jesus fora disso…

Se vc não acreditar em Jesus como divindade, realmente não fará nenhum sentido para você dizer que Ele pode curar!

É exatamente isso… Eu não acredito em nenhum guru, Messias, salvador…. nada. Não quero, não aceito e não desejo ser salvo por ninguém. Se alguma salvação existe ela será feita tão somente por mim.

Os evangélicos são os maiores porta-vozes da homofobia nacional, e é muito triste constatar que isso venha de uma organização religiosa que, a princípio, deveria se nortear pela fraternidade e pelo amor ao próximo. Aquele que for evangélico e não aceitar as palavras contra a opção sexual do seu semelhante que se manifeste publicamente contra isso, e mostre sua aversão aos Malafaias e Felicianos que pregam a exclusão. Eles disseminam de forma muito clara essa visão demeritória aos homossexuais e, quer aceitemos ou não, essa é a face dos evangélicos hoje em dia.

Sei que minhas palavras não agradarão boa parte das pessoas que cultivam suas crenças, mas sofro isso na carne há 30 anos, desde que iniciei a escrever. Ter coragem de desagradar as pessoas é tarefa que poucos aceitam. A maioria faz avaliações de suas opiniões baseadas na popularidade. Sou contra muitas coisas que as pessoas consideram óbvias, mas não por isso deixo de expressá-las, pois elas significam a minha verdade, parcial, passageira e frágil. Mas não foi Jesus ou Maomé quem me mandou dizê-las: elas são de total responsabilidade minha.

Aliás, há alguns poucos anos (uns 30) eu era crente nas realidades cristãs. Participei na minha juventude de grupos de jovens, algo que muito me ajudou a passar pelas atribulações da juventude. Depois joguei para longe toda e qualquer crença baseada em “livros sagrados“, “palavras do mestre“, etc. Entretanto, enganam-se os que pensam que eu me decepcionei com o tímido humanismo cristão. Não, eu me desencantei com a ideologia por trás de qualquer religião, que afasta os indivíduos do verdadeiro humanismo. Os evangélicos que combaterem de maneira FEROZ as religiões africanas não seguem nenhum preceito de fraternidade. Os católicos que fazem o mesmo sofrem da mesma falha ética. E assim com todas as religiões.

O salvacionismo evangélico leva a dissoluções e, acima de tudo, no caso dos pentecostais, uma “desmoralização” da religião, que de um artigo de fé passa a ser um produto a ser comprado no balcão dos bispos para o sucesso profissional. Basta ligar a TV e ver as vendas de “vassouras”, “pedaços da cruz”, “aspiradores de más energias”, e tantas outras bobagens que tentam enganar as pessoas e ludibriar fiéis, enclausurados em suas crenças e no seu misticismo.

Minha crítica, como pode perceber, não é ao católico fervoroso que tenta ser um bom cidadão, nem ao espírita religioso, ao umbandista caridoso ou ao evangélico que deu sua mente e seu coração para um ser etéreo (Jesus), mas para as religiões, criações humanas que lucram com uma visão mística, alienante, baseada em histórias que, quando literalmente entendidas, nos levaram a guerras, destruição, morte e dor.

Apesar das opiniões contrárias, continuarei pedindo que deixem Jesus fora deste tipo de debate sobre a homossexualidade, seja para acolher ou para repudiar os homossexuais. Se esse Jesus realmente existiu e foi o responsável pelo Sermão da Montanha, que é a síntese humanista da sua obra (e todo o resto – ressurreição, cruz, traições, etc. são apenas ficções que se repetem em quase todas as tradições para reforçar a mística do salvador) ele realmente não se importaria com a vida sexual das pessoas de bem.

Para Jesus, o “mestre nazareno”, tanto quanto para mim, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá, e toda e qualquer segregação deve ser repudiada…

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Aventurar-se

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Muitas pessoas que conheço fizeram o árduo percurso de abandonar suas vidas insossas em busca do prazer e da realização pessoal. Largaram facilidades ou carreiras para se dedicarem a uma grande paixão. E isso não é uma opção de “riquinhos” ou “playboys“, mas de pessoas que valorizam suas experiências pessoais acima dos valores mundanos, como dinheiro ou “sucesso”.

Eu fiz esse caminho, mas o desaconselho a todos os desavisados que me perguntam se vale a pena segui-lo. Não estimulo que ninguém embarque nessa trajetória, até porque “quem disse que a chegada é o prêmio maior, e não o próprio caminhar?“. Uso dessa estratégia porque buscar sua própria realização só tem sentido se for natural, e quando essa for a única saída nobre para quem se aventura na busca pelos altos fins de sua existência. Não se força uma opção radical como essa; ela precisa ser livre e espontânea.

O que é preciso entender é o tipo de “escolha” que foi realizada pelo sujeito. Podemos pensar, erradamente, que todos os que escolhem a paixão e a realização pessoal tem “fontes alternativas de renda“, ou um “lugar quentinho para voltar“. Para isso precisamos acreditar, como única possibilidade, o estereótipo do playboy que ganha mesada e cria uma banda de rock para “fazer o que ama”.

Não é verdade, e esta generalização é pobre e injusta; muitos visionários arriscaram TUDO pelos seus sonhos. Albert Schweitzer é um bom exemplo, Nietszche também. Freud abandonou a “medicina” (queria se dedicar à neurologia), e a possibilidade de um trabalho tranquilo e estável com seu mentor Breuer, para se aventurar na Salpetriére com Charcot e estudar as histéricas. Dessa opção pela aventura no desconhecido pariu-se a psicanálise, e descortinou à humanidade os mistérios do inconsciente. Entretanto, Freud com 40 anos não tinha um mísero tostão no bolso, e apesar disso apostou na força que o impulsionava a seguir suas ideias.

Acreditar que é preciso aceitar a mediocridade de seus horizontes é um péssimo guia para a vida. Somos feito da poeira multimilenar das estrelas, e por isso mesmo fomos criados para brilhar. Se é preciso adaptar-se às contas, impostos, dívidas e dias de chuva, mais necessário ainda é exigir de si um compromisso com a paixão e o sonho.

Sem isso somos apenas corpos caminhantes, desprovidos de alma.

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Tsunami

Nos poucos segundos que se seguem às emoções tsunâmicas de um nascimento a lente capta uma fatia de luz, um fragmento de instante que se insere nas fissuras do tempo. Ali condensados, as esperanças, os desejos, as promessas e as expectativas de uma vida que brota se expressam de forma crua, expondo a nudez da alma humana em sua forma mais verdadeira. Naqueles poucos segundos encontram-se condensadas as dores, as alegrias, as frustrações e as esperanças, como de um átomo que explode em um big bang multicolorido de energia criativa. Poucos segundos depois, o olhar vívido e faminto já percorre o ambiente para consumir o mundo, deglutindo todas as suas cores, aromas e amores. Seja bem vinda Ava. Aqui está o mundo que tanto querias ver.

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Solilóquio

Concha Caracol

Fico nervoso ao debater com pessoas que tem uma carga muito violenta de ódio e que tem feridas difíceis de cicatrizar. Mas, aprendi com meu pai que “só me fazes mal se me fazes mau“. Assim sendo, a resposta a este tipo de agressão não pode jamais ser na mesma moeda. Não há sentido em devolver essa energia com a mesma direção…

Todavia, em alguns debates virtuais a máscara cai rapidamente.

Tem uma bela frase que diz que “um liberal é um fascista que ainda não foi assaltado“, e eu complemento dizendo que “um moralista é um grosseirão que ainda não foi contrariado“. A prova do democrata repousa no desafio do contraditório. Mandou tomar no fiofó? Perdeu, playboy, perdeu…

Se não sabe debater escutando a opinião do outro, grite dentro de uma concha e tenha orgasmos auditivos ouvindo sua própria voz“.

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Boxe

Boxe

Um fato interessante aconteceu no mundo das lutas, em especial no Boxe, mas que pode produzir uma reflexão interessante sobre parto, e em especial a segurança relacionada à sua condução. A Federação de Boxe deliberou que a partir da próxima Olimpíada não mais serão usados os capacetes especiais acolchoados dos lutadores. A razão? Boxeadores com capacetes tinham o DOBRO (ou mais, me corrijam) de lesões cerebrais quando comparados àqueles que lutavam sem capacete.

Como? Não entendi…

Exato. O uso do capacete estava relacionado com muito mais lesões pois o capacete oferece uma falsa sensação de segurança. Desta forma os lutadores usavam menos técnicas de autoproteção. Isto é: eles levam mais socos e trombadas pois se preocupam menos em proteger a cabeça. Os pequenos traumatismos constantes acabavam por produzir lesões em maior quantidade do que quando o capacete não era usado.

Retirar algo que aparentemente protege gera mais segurança e proteção!!!

Pense agora nos hospitais e o abuso de cesarianas. O hospital parece proteger, mas quando se “retira” o hospital da assistência não aumentam drasticamente os problemas, na medida em que as pessoas passam a não se comportar de forma temerária (ocitocina exógena, confinamento ao leito, analgesia, amniotomias, monitorização eletrônica, etc.). Isso ficou muito claro no “Place of Birth” (Inglaterra, 2012) e suas repercussões no NICE (National Institute of Care Excellence) e no último estudo da MANA (Midwives Alliance of North America).

O resultado é que sem o “capacete institucional” altera-se o comportamento dos atendentes. Mudam os valores, muda a “psicosfera” e modificam-se as condutas. E os resultados são igualmente bons, mas com maior satisfação por parte das mulheres.

Faz sentido para vocês?

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Enfermeiras

enfermeira

Elas sempre me olharam com desconfiança, mas – verdade seja dita – eu nunca consegui transmitir simpatia a elas. Algumas já reclamaram que sou sério e fechado; mal-humorado, emburrado. E, confesso, não ajudei muito, nos últimos anos, a desfazer essa impressão. Todos os sujeitos sobre quem repousam críticas ou suspeitas acabam desenvolvendo algum nível de paranoia. E não é só com enfermeiras; não converso com meus colegas também, e devo passar a ideia de que sou uma espécie de arrogante depressivo.

Não é verdade. Sou reservado e desconfiado, e tenho receio de constranger pessoas com a minha presença.

As enfermeiras me tratam como alguém que está constantemente desafiando sua autoridade no centro obstétrico, mas isso não está muito longe da verdade. A “escolha de Sofia” a que gestantes se submetem, tendo que optar entre o marido e a doula, sempre me causou inconformidade e indignação, e as enfermeiras chefes percebem isso, de forma muito evidente. Resolvi que a melhor tática seria aceitar a atitude arbitrária e esperar que a pressão das pacientes influenciasse a ação dos gestores do CO.

Minha estratégia parece estar, aos poucos, funcionando, pois sinais de reversão das medidas autoritárias começam a aparecer, de forma gradual, porém sensível. Entretanto, a desconfiança das enfermeiras sempre se mantém.

Doutor Ricardo, não pode tomar café aqui“, disse a jovem enfermeira chefe. “Se a doula ficar infelizmente o marido tem que sair“. “Não, não pode entrar outra pessoa“. “São as normas, não posso fazer nada“. “Não Dr., ainda não está no sistema. Tenha paciência e aguarde“.

Não, não, não….

Por isso quando a jovem enfermeira me chamou às falas, em voz baixa e quase sussurrando, eu imaginei que estava, mais uma vez, cometendo alguma pequena contravenção, que poderia colocar sua autoridade em risco.

No entanto, a bela enfermeira se aproximou com um pequeno volume branco na mão e colocou-o sobre o balcão que nos separava. Abriu com cuidado até aparecer um disco, um DVD.

Jogou para mim um sorriso tímido e me falou um tanto sem jeito.

Doutor Ric, poderia dar um autógrafo na minha cópia do ” Renascimento do Parto”? Esse filme foi muito importante na minha formação.

Deu um nó na garganta, e um peso no peito. Trinta anos de relações difíceis e agora a nova geração começava a entender pelo quê tanto lutamos.

Deu vontade de chorar. Quem não?

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Escolha difícil

Perucas

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1 de junho de 2015 · 23:29

Escutar as Mulheres

Chains woman

Fiquei emocionado de ler um artigo que tratava do “Feminismo que precisa escutar as mulheres” escrito por Marjorie Rodrigues. Há muito tempo que não debato isso – por medo de esquartejamento – mas não me furto de escrever sobre o tema de uma perspectiva masculina sobre um movimento que é protagonizado por mulheres. Muito se tem escrito sobre a Violência Obstétrica e a importância de combatê-la, com o que sempre concordei. Porém, há alguns meses, recebi um “whats” de uma importante ativista preocupada com o tipo de enfrentamento que se formava, que basicamente se estruturava de forma binária: de um lado vítimas, as mulheres, e de outro os algozes cruéis e insensíveis, os médicos.

Claro que o maniqueísmo explícito dessa proposta já nos deveria alertar, mas muitas vezes a paixão pela causa nos deixa cegos para algumas idiossincrasias, e deixamos de ver todas as outras cenas que se desenrolam ao lado do túnel criado pelo nosso foco.

Não creio ser possível construir nenhum movimento que promova a equidade sem retirar a mulher da posição de vítima, passiva e estática, manipulada por uma ordem outra que não seja sua própria vontade e determinação. Vítimas nunca são protagonistas. Vitimas são sempre objetos, mesmo quando as protegemos.

Para mudar essa realidade é fundamental que a atitude das mulheres também se modifique, que elas reforcem seu protagonismo e que não aceitem imposições sobre seu comportamento, seja dos homens ou daquelas que querem falar por elas.

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Dilema Médico

duvidas

Ontem à noite recebi o telefonema de uma paciente que não conhecia, mas que estava sendo acompanhada por uma colega que está viajando, participando de um congresso em SP. Apresentou-se dizendo ser paciente da Dra. Fulana e que ela havia me indicado durante sua ausência, coisa que eu já sabia de antemão, pois havia sido previamente combinado com minha colega. A paciente disse que estava com 39 semanas de gestação e a bolsa havia acabado de se romper.

Perguntei da movimentação fetal e da cor do líquido. A resposta foi que o bebê estava se movimentando bem e que o líquido era transparente. Combinei com ela de ir à sua casa para avaliar os batimentos do bebê e conversar. Estávamos em pleno domingo em Porto Alegre, a terra dos 92.5% das cesarianas da Unimed. Aliás, este era o convênio que ela possuía. Algumas horas depois fomos, eu e Zeza, à sua casa para fazer uma avaliação. As contrações já haviam aparecido, mas estavam frágeis e esparsas, como uma em cada 15 ou 20 minutos, e muito fracas e curtas. Exames de pré-natal, BCFs, pressão, temperatura, posição fetal, etc. todos valores normais. Mas havia um porém…

Ela não nos conhecia, apenas havia escutado que somos a favor dos partos normais. Nunca havia participado do curso de gestantes da Zeza, ou conversado longamente sobre os grandes dilemas do parto, principalmente uma RUPREMA (ruptura prematura de membranas). Estava assustada. Ao seu lado estavam seus pais e seu jovem marido de primeira viagem. Ela mesma contou que havia nascido de cesariana por apresentação pélvica. Depois de uma avaliação cuidadosa e de algumas explicações sobre o que poderia ocorrer sua mãe me perguntou se era seguro um parto normal, e se uma cesariana não seria indicada. Foi então que ela interrompeu minhas explicações aos pais e falou de seus sentimentos e dúvidas. Este foi o ponto nevrálgico do seu parto.

Dr. sei que minha bolsa rompeu e que isso é arriscado, pois o parto pode ser “seco”. Sei também que nessas circunstâncias se faz uma indução, mas se é para induzir eu estou pensando em uma cesariana. O que o Sr. acha?

Veja bem… Eu me encontrava diante de uma encruzilhada: operar uma paciente às 20h de um domingo e voltar para casa a tempo de ver os gols do Fantástico, dormir bem e começar a semana sem atrapalhações e sem correr RISCOS (para mim, por certo), atender meu consultório na manhã de segunda feira… ou esperar o desencadeamento de um parto que poderá ocorrer muitas horas depois, e que talvez acabe em uma cesariana. Que fazer?

E tudo isso por 500 reais…

Façam a escolha. A primeira alternativa é ISENTA de riscos para o médico. Não atrapalha o domingo, não incomoda o consultório pela manhã, não lhe tira o sono, não traz transtornos para a relação com o paciente – afinal foi ELA quem sugeriu a cesariana – e podemos colocar este caso na conta dos “pacientes que optam pela cirurgia”. Jamais um médico que faz esta opção será criticado pela classe ou chamado a dar explicações como réu perante sua corporação. Já o segundo caminho significa uma noite de dedicação, o olhar de censura dos colegas (deixou essa bolsa rota por horas, tu viu?), a perda das consultas da manhã (por estar atendendo ou dormindo após o parto) e o risco do julgamento por parte da própria família (mas porque o senhor não fez o que eu sugeri?).

E pelos mesmos 500…

Minha resposta foi absolutamente “irresponsável”, ou “imoral”, no entendimento de Richard Dawkins: “Não vejo nenhuma justificativa para partirmos para uma cesariana. A bolsa rota, por si só, não indica uma cesariana e “parto seco” não tem valor na medicina atual: é apenas um mito. Creio que podemos dar um tempo para o seu bebê se ajeitar e suas contrações ficarem vigorosas. É uma questão de confiança e paciência. Vamos descansar e aguardar. Os valores de bem estar fetal estão excelentes. Descanse e aguarde. Ligue se for necessário, a qualquer momento”.

Algumas horas depois ela liga dando entrada no hospital. Ao exame, 6 cm. Cinco horas depois nasce um bebê de 3.180g, parto espontâneo hospitalar de cócoras, sem episiotomia e períneo íntegro. Nesse momento este lindo bebê está no colo de sua mãe, que se movimenta pelo hospital sem nenhum ponto de sutura em seu corpo. Minha pergunta: Num universo paralelo, onde minha escolha fosse diferente, o que uma paciente diria diante das seguintes palavras de seu médico: “É verdade, a bolsa rompeu e você nem está com contrações. O colo deve estar fechado e teremos que induzir. Podemos provocar as contrações no hospital e ainda assim ter que fazer uma cesariana, e você teria os dois sofrimentos: as contrações e a recuperação da cirurgia. Você tem razão: o melhor é partir para a cirurgia e poupar você de tanta dor…

A família respiraria aliviada. Afinal, a decisão do doutor lhes retira o peso e o pânico de esperar o desfecho demorado de um parto normal. Fazer a cirurgia abreviaria o sofrimento de aguardar pelo parto, evento tratado de forma apavorante, aterrorizante e dramática pela cultura, a ponto de ser totalmente “desnaturalizado”, imaginando ilusoriamente que o controle cirúrgico do evento pelas mãos dos profissionais lhe configura mais segurança. “Sim, melhor aceitar o conselho do doutor. Uma cirurgia é a melhor escolha. Afinal, o melhor é quando mães e bebês estão bem, certo? A forma de nascer não importa de nada. E, além disso, o doutor deve estar certo, já que estudou tanto para isso…

Será que me fiz entender sobre os dilemas de uma indicação cirúrgica no contexto dos planos de saúde e na classe média contemporânea? ______________________

Para quem quiser ler o artigo “Dilema Médico” traduzido para o francês por Hélène Vadeboncoeur

LE DILEMME D’UN OBSTÉTRICIEN-GYNÉCOLOGUE : ATTENDRE APRÈS UN ACCOUCHEMENT OU FAIRE UNE CÉSARIENNE ?

Ricardo Herbert Jones.

Reproduit le 29 juin 2015 sur Facebook par Movimento Nascer Melhor, traduit par Hélène Vadeboncoeur, Ph.D, chercheure en périnatalité, le 15 juillet 2015.

Hier soir, j’ai reçu l’appel d’un patiente que je ne connaissais pas, mais qui était suivie par un collègue en voyage, en train d’assister à un congrès à Sao Paulo. C’était une patiente de Dr. Fulana et celle-ci lui avait recommandé de m’appeler durant son absence. Je la connaissais, comme collègue. La patiente a déclaré qu’elle était à 39 semaines de grossesse et que ses eaux avaient crevé.

Je lui ai posé des questions sur les mouvements du bébé et sur la couleur du liquide amniotique. Elle m’a répondu que le bébé allait bien et que le liquide était transparent. Je lui ai dit que j’irais chez elle écouter le cœur du bébé et parler avec elle. Nous étions un dimanche, à Porto Alegre, ville avec un taux de césariennes de 92,5 % (Unimed).   Elle accepta.

Quelques heures plus tard nous sommes allés, moi et Zeza (ma femme qui est sage-femme) chez elle, pour faire une évaluation de la situation. Elle avait commencé à avoir des contractions, mais celles-ci étaient faibles et peu fréquentes (toutes les 15-20 minutes). Test prénatal, FBC, tension artérielle, température, position fœtale : tout était normal. Mais il y avait quelque chose…

Elle ne nous connaissait pas, mais elle avait entendu que nous étions en faveur de l’accouchement naturel. Elle n’avait pas participé aux rencontres prénatales animées par Zeza, ni discuté longuement des questions controversées reliés à l’accouchement, en particulier de la rupture prématurée des membranes. Elle avait peur. À ses côtés prenaient place ses parents et son jeune époux. Elle a dit qu’elle était née par césarienne (présentation par le siège). Après mûre réflexion et quelques explications sur ce qui se produirait, sa maman m’a demandé si un accouchement naturel était sécuritaire, et si une césarienne ne serait pas plutôt indiquée. C’est alors que la jeune femme a interrompu mes explications à ses parents et a parlé de ce qu’elle ressentait et de ses doutes. Ce fut un point tournant.

Le médecin sait que mes eaux ont crevé et que c’est risqué car l’accouchement se ferait ‘à sec’. Je sais aussi que, dans ces circonstances, on induit mais je pense aussi à la césarienne. Qu’en pensez-vous?”Vous voyez… J’étais à la croisée des chemins: ou bien une césarienne faite à 20 heures le dimanche, et je serais de retour à la maison à temps pour voir les buts de Fantastique, j’aurais une bonne nuit de sommeil et je commencerais la semaine sans problèmes et sans prendre de risques (pour moi, à coup sûr). Je serais à mon bureau le lundi matin… ou bien j’attendrais que se déclenche l’accouchement – ce qui pourrait n’arriver que plusieurs heures après, et qui pourrait aboutir à une césarienne. Que faire ?

Et tout cela pour 500 reais…

Choisir. Le choix de faire une césarienne est sans risque pour le médecin. On la fait le dimanche, cela ne dérange pas les heures de bureau le lundi matin. Cela ne nuirait pas à ma relation avec la patiente – après tout c’est elle qui a évoqué la césarienne, et ce serait classé dans la catégorie ‘les patientes qui optent pour l’opération’. Jamais un médecin qui choisit de faire une telle césarienne ne sera critiqué par ses pairs ni appelé à s’expliquer devant le Collège des médecins.La deuxième optioin signifie une soirée dédiée à accompagner cette femme lors de son accouchement, le regard réprobateur de collègues (vous avez laissé cette femme accoucher combien de temps après la rupture des membranes ?), l’annulation des rendez-vous avec vos patientes durant la matinée (parce que vous attendiez qu’elle donne naissance ou vous deviez dormir une fois celle-ci arrivée), le risque d’un procès de la famille (pourquoi n’avez-vous pas fait ce que j’avais suggéré?).

Et tout cela pour 500 reais.

Ma réponse, dans la perspective de Richard Dawkins, fut absolument “irresponsable” ou “immorale”: ”Je ne vois aucune raison de vous faire une césarienne. Des membranes rompues ne sont pas une indication de césarienne, et le concept de ‘naissance à sec’ est un mythe. Je pense que nous pouvons attendre un certain temps que votre bébé se positionne pour le travail et que les contractions s’intensifient. C’est une question de confiance et de patience. Nous reposer et attendre. Les paramètres de bien-être fœtal sont excellents. Vous reposer et attendre. Et m’appeler, le cas échéant, n’importe quand.”

Quelques heures plus tard, elle demande à être admise à l’hôpital. Elle est alors dilatée de 6 cm, et donne naissance, 5 heures après, à un bébé de 3 180 g, de manière spontanée en position accroupie, sans épisiotomie ni déchirure périnéale. Depuis qu’il est né, le bébé est dans les bras de sa mère, et elle se déplace dans la chambre de l’hôpital, le corps intact.

Ma question : dans un univers parallèle, où mon choix aurait été différent, que dirait ma patiente des paroles de son médecin: “C’est vrai, vos membranes sont rompues et vous n’avez pas de contractions. Votre col est fermé, et nous allons devoir provoquer l’accouchement. Nous pouvons le faire à l’hôpital, et il se peut que cela aboutisse en césarienne. Vous vous retrouveriez alors à avoir affronté deux difficultés : les contractions et la récupération de la chirurgie. Vous avez raison : il est préférable d’opter pour la chirurgie et de vous épargner la douleur des contractions.

La famille pousserait alors un soupir de soulagement. Après tout, la décision du médecin lui enlève un poids et l’inquiétude relativement au bon déroulement d’un accouchement naturel. Opérer abrège la souffrance reliée à l’attente du bébé, à l’accouchement, un événement considéré comme terrifiant, terrifiant et dramatique dans notre culture, au point d’avoir été complètement ‘dénaturalisé’. Où on a l’illusion – à tort – que le contrôle de l’événement au moyen de la chirurgie le rend sécuritaire simplement parce que celle-ci est aux mains de professionnels de la santé. “Oui, vous devriez suivre l’avis du médecin. La chirurgie est le meilleur choix. Après tout, c’est le bien-être des mères et des bébés qui est le plus important, n’est-ce pas ? La manière de naître n’est pas importante.

“En plus, la manière dont un bébé naît n’est pas importante.”“Et, en outre, ce que le médecin fait est sûrement juste, il a étudié si fort pour devenir médecin !

C’était mon opinion sur le dilemme posé par une indication chirurgicale, dans le contexte des plans de santé et de la classe moyenne.

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