Arquivo do mês: dezembro 2016

Atire a primeira pedra

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Esta semama fomos atropelados pelas imagens angustiantes de uma dupla de jovens espancado violentamente um vendedor ambulante dentro de uma estação do metrô em São Paulo. O resultado foi a morte da vítima.

Muitas vezes eu acho as reações à violência tão danosas e doentias quanto os atos cruéis a que se reportam. A gente quase nunca é suficientemente testado na vida a ponto de poder afirmar “isso eu jamais faria”. Como diria Terencio, “O que é humano não me é estranho”. De minha parte posso me ver em qualquer dos personagens: nas travestis, nos espancadores, na vítima, nos espectadores petrificados e até nos milhares de “juízes” que imediatamente condenaram os infratores. Não me sinto – em essência – diferente de nenhum deles.

Com uma breve pesquisa na memória posso lembrar de coisas que eu fiz na minha juventude que só não se tornaram tragédias por pura sorte. Quando tinha 15 anos estava em um Grenal e joguei uma laranja de longe em um torcedor rival. A chance de acertar era desprezível, mas mesmo assim arrisquei. Ela acabou se chocando contra a cabeça de um menino da minha idade, explodindo em mil fragmento alaranjados. Sei que nada grave ocorreu porque ele saiu correndo com sua turma. Fui cumprimentado por meus parceiros pela minha “pontaria” certeira mas passei os últimos 40 anos lamentando essa atitude, só por imaginar que poderia ter se tornado uma tragédia.

Mais de 99.9% das brigas de rua e espancamentos terminam com escoriações e orgulhos feridos; esta briga no metrô de São Paulo terminou em morte – por azar. Este azar poderia ter ocorrido comigo há 40 anos em uma tola partida de futebol. Diga aí quão melhor que aqueles espancadores você me considera. Eu coloco minha ação e a dos espancadores no mesmo nível… só o acaso nos separa.

Qual a minha motivação para jogar uma laranja na cabeça de um torcedor rival? A motivação dos  espancadores foi ódio, mas não apenas do ambulante, mas de toda uma sorte de frustrações, ódios, tristezas e rancores que não me cabe julgar. A minha foi ainda mais tola: machucar alguém cujas cores na camisa eram diferentes das minhas.

No caso do metrô foi azar, mas também foi homicídio. Na minha opinião eles não queriam matar, queriam bater, mas mataram, por isso são homicidas. Eles erraram a “pontaria”, sim. Não era o objetivo a morte do ambulante; era para dar socos, pontapés e machucar, como são 99.98% das brigas de rua.

Erraram, tiveram azar e mataram.

Quando brigamos de cabeca quente não se pensa racionalmente. Tive muitas brigas na vida e sei como fica nosso estado mental. Algumas pessoas acham confortável se afastar desses sujeitos, achando-os muito diferentes de si mesmos, desumanizando-os. Eu não, pois suas atitudes são semelhantes a muitas que já tive.

Para nós é mais fácil perdoar pessoas com quem conseguimos construir uma ponte de empatia. Posso me identificar com crimes hediondos que me falam de experiências em comum, mas não é fácil fazer o mesmo com erros distantes da minha realidade.

O que estamos, afinal, medindo? O crime em si ou  nossa capacidade de compreender os dramas e angústias alheias?

E vejam, os CRIMES precisam ser julgados, mas quem se acha em condições de julgar o criminoso, no emaranhado de significados e significantes que o constitui? Quem atira a primeira pedra?

Eu sei o quão tênue é a linha que separa a barbarie da civilizacao. Eu consigo perceber que, oferecidas as condições de contexto e circunstância, eu mataria, mesmo sem ter nenhuma intenção e nenhuma justificativa razoável para um ato extremo como esse.

As vezes a direção incerta de uma laranja arremessada de forma irresponsável e tola pode ser a diferença entre o criminoso e o menino abusado.

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Protegido: Para entender o caso

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Amor demais

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Lembrei de um conceito que escutei quando meus filhos eram muito pequenos: “Ame seus filhos bastante para que eles tenham autoconfiança, mas não demais para que eles nunca precisem procurar amor por si mesmos”.

A pior coisa do mundo é não ser amado; a segunda pior é ser amado demais. Amor em falta faz definhar; demais faz enlouquecer. O mundo nos impõe a falta; o desejo nos empurra ao excesso.

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Motocicletas

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Sobre as motocicletas…
Vamos esclarecer alguns pontos fundamentais: Qual relação com motocicletas NÃO é sexualizada? Em outras palavras: como colocar no meio das pernas um monstrengo metálico rígido e gigantesco e não sentir aquilo como sendo uma poderosa prótese fálica? Por que “quanto maior, melhor”? Por que tanto empenho em comprar um veículo responsável por grande parte das mortes no trânsito? Por que uma relação tão insensata entre custo e benefício?
Só o sexo explica. A mesma explicação que eu imagino para espartilhos e saltos altos.
“Vital e sua moto”. Por quê? Ora, por ser “vital” ter uma moto para conseguir “sucesso reprodutivo”.
Mas a minha tese é de que pela dinâmica adaptativa das espécies, possuir uma motocicleta tem um altíssimo fator positivo para conseguir se dar bem no sexo. Isto é: funciona, mesmo que incomode algumas vizinhas. O dia que não funcionar mais, desaparece.
Aliás… eu acho engraçado mulheres usando próteses fálicas como motocicletas e guitarras. Veja bem, nada contra elas usarem pelos seus óbvios aspectos operacionais – deslocamento urbano ou música – mas pelas suas características simbólicas, ao meu ver, inquestionáveis. Percebam o jeito com que um “easy rider” trata sua moto mas olhem para as guitarras com a mesma atenção e perceberão a lascívia masturbatória que os guitarristas demonstram, em especial nas músicas juvenis como o rock. As motos, em especial, se prestam para jovens (em busca de) e fulanos carecas de meia idade (na raspa do tacho da virilidade).
Faz sentido?

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Morte prematura


 

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Cinquenta e poucos anos é muito cedo para morrer, e não creio que dá para usar a surrada desculpa de que “viveu 100 anos em 50”, porque essa vivência não inclui uma das fases mais criativas e interessantes da vida: a plena maturidade, o arrefecimento da sexualidade bruta, a velhice e o fim. Não abriria mão de assistir a desintegração do meu corpo e a sabedoria capaz de fluir das cinzas dessa queima. Não faz sentido uma vida em que só a infância e a juventude tenham espaço. Muito do que sei adquiri faz pouco, exatamente pela derivação proporcionada pela paulatina e insidiosa perda do vigor.

Se eu tivesse a oportunidade de escolher minha vida futura fugiria da beleza física, da riqueza e do talento desmedido. É muito difícil ver pessoas profundamente talentosas, belas e ricas felizes e gratas à vida; mais fácil é vê-las prisioneiras de suas virtudes e qualidades. Ter excelência em qualquer área – em especial na arte e no corpo – é um fardo pesado, muitas vezes difícil de carregar sem uma quantidade as vezes insuportável de sofrimento.

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