Arquivo do mês: fevereiro 2017

Fogueira das Vaidades

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Quando eu fiz residência em um hospital escola da minha cidade – há 30 anos – era do conhecimento de todos, desde quando você entrava no estágio do sexto ano de medicina, que o departamento era dividido ao meio. Havia dois “clãs”, dois grupos distintos de professores que historicamente se digladiavam e disputavam o poder de forma explícita e as vezes agressiva. O grupo que chamarei de “A” era o mais novo e o mais conectado com evidências e estudos, enquanto o grupo “B” era mais tradicional e conservador.

A chefia do serviço estava com o grupo “A”, mas sabíamos de processos judiciais que um grupo movia contra o outro pela primazia nas publicações. Havia um jovem e ambicioso  professor do grupo “A” que contava fofocas altamente comprometedoras de professores do outro grupo, e fazia isso na base da “camaradagem”, durante um plantão, um cafezinho no bar do hospital ou uma conversa privada. Eu achava aquilo estranho e anti ético,  mas era difícil se posicionar quando existia um valor incomensurável depositado nessas figuras de autoridade. Preceptores de residência eram, e ainda o são hoje, figuras que concentravam um enorme poder.

Não havia escrúpulos. Era uma fogueira de vaidades e havia a todo o momento um convite para tomar partido. Se você era de um lado não podia ser do outro.

Certa feita fui testemunha de um fato curioso no plantão, que me fez repensar toda a minha profissão e o meu destino após a residência. Uma paciente acompanhada de sua mãe procura um professor do clã “B” e lhe faz um estranho pedido. Ele havia atendido o seu próprio nascimento há 20 anos e agora, grávida,  gostaria que ele a atendesse,  sendo o responsável pela assistência das duas gerações. Como era um atendimento privado o professor aceitou sem pestanejar.

O que a o paciente não sabia é que este professor nunca foi obstetra. Havia atendido o parto de sua mãe logo após se formar, mas imediatamente depois se dedicou à ginecologia e infertilidade. Não atendia um parto há no mínimo duas décadas.

No dia do parto a paciente internou durante o meu plantão, e só por isso soube de todos os detalhes. Avisei o professor que se limitou a dizer por telefone: “fiquem atendendo aí e me liguem quando ameaçar coroar”. Foi o que fizemos. Quando o parto se aproximava chamamos o professor, que efetivamente chegou quando o bebê despontava no intróito vaginal.

O parto foi uma tragicomédia. O professor havia esquecido como segurar um bebê, e este escorregou de suas mãos. Para que  não caísse aparou com a perna. Sem saber o que fazer entregou o bebê ao pediatra, mas se esqueceu de cortar o cordão, e quase o bebê vai ao chão de novo. Nós, atônitos, assistíamos constrangidos. No final, “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, mas rolou Kristelller,  episiotomia transamazônica, corte prematuro do cordão, etc. Violência e despreparo.

Contei para a nossa turma que estava no plantão o que havíamos testemunhado e achamos graça, apesar do absurdo do atendimento.

Muda a cena para uns meses depois e durante um churrasco de confraternização dos residentes com professores do Clã “A” o jovem professor carreirista pede que eu vá até a sua mesa. Quando cheguei lá ele disse para todos:

– Conte para nós o parto que o Dr Nosferatu atendeu no seu plantão.

Nosferatu” era como chamava o professor inimigo para nós. Havia chegado aos seus ouvidos o parto bizarro atendido por um professor do Clã “B”, e que eu tinha relatado aos colegas do plantão. Sem saber o que dizer contei as peripécias do parto para o público de colegas ávidos por uma fofoca.

Terminei a história e voltei para a minha mesa. Imediatamente me dei conta que eu havia sido usado como massa de manobra na luta das facções adversárias. O professor carreirista me usou para denegrir um inimigo, que em verdade era um colega. Fui apenas “bucha de canhão”.

Tive uma sensação de culpa muito forte por participar daquela cena. Percebi também que não aceitaria viver minha vida profissional envolvido nas labaredas de vaidade do mundo acadêmico. Não queria pertencer a nenhum grupo ou facção, mas tudo me mostrava que não havia outro modo de  sobreviver.

O professor carreirista conta fofocas até hoje, e se mantém poderoso. O professor do grupo “B” já faleceu e eu, naquela churrascaria, fechei as portas da academia para mim para nunca mais querer abrir.

Eu não vejo esses personagens como desumanos ou perversos. Até no movimento de humanização do nascimento existem “clusters”, grupos que rivalizam, ressentimentos antigos e mágoas estimuladas ao crescimento pelo único adubo legitimamente humano: a vaidade.

Logo após minha saída da residência percebi que a maioria dos meus colegas tinha o sonho de trabalhar na Universidade. A tentação era muito grande pois tudo o que víamos era uma enorme concentração de poder nos professores, e todos os benefícios de prestígio social daí advindos. Minha dúvida era: como evitar o fato de que a motivação inevitavelmente se chocaria com a realidade.

A vida de um professor da universidade é ensinar, atualizar-se, dar aulas, acompanhar alunos e fazer pesquisa, mas estes aspectos eram os MENOS importantes para a seleção. É como se você fizesse um concurso para “body building” seduzido pelos músculos lustrosos dos Arnolds da vida e ao ser aprovado percebesse que precisava levantar peso todos os días.

Talvez por esta razão específica da minha vivencia, minha formação acadêmica foi pobre. Meus professores não tinham nenhum interesse – quanto menos talento – para o ensino. Usavam a universidade como insígnias de valor e poder, e não como ferramentas de transformação social. A seleção para estes cargos era feita de forma política e não levava em consideração a capacidade pedagógica ou o próprio desejo de ensinar.

Por outro lado o surgimento nos últimos anos de alguns professores de obstetrícia ligados às correntes de humanização do nascimento é a prova de que existe a possibilidade de reverter o  processo por dentro.

Se é possível produzir um reformador como Gorbachev de dentro do Politburo ou um papa um pouco mais aberto como Francisco emergido das entranhas do Vaticano, a Medicina também pode produzir – mesmo que lentamente – seus renovadores.

Quem viver, verá.

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Etapas


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“Desmistificar o parto e devolvê-lo às mulheres permite que ele seja vivido em sua plenitude, com suas características subjetivas e suas possibilidades transformativas.

Outro elemento essencial diz respeito a livrarmos a atenção ao parto de todo o ranço patriarcal e toda a violência que ainda a caracteriza. Dia haverá em que o nascer em paz e liberdade será a regra e a indignidade de atos agressivos contra a mulher será apenas uma página triste na história dos direitos humanos. Para que isso ocorra faz-se necessario questionar toda violência, visível ou invisível, assim como todas as ações de misoginia ideológica, institucional ou estrutural.

Esta é uma luta que vale a pena lutar.

Precisamos ultrapassar a etapa de ter liberdade para fazer escolhas e entrar na era de ter conhecimento e informação para fazermos boas escolhas”.

James Mugundabwe, “Letters to Nairobi”, pág 135

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Montanha

 

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“Na minha vida houve momentos tão belos que se tornaram instantes de pânico, pois de tão lindos pareciam o clímax de toda uma existência, a partir dos quais não faria mais sentido existir. É como escalar uma montanha invisível; num dado momento você olha para trás e vislumbra a paisagem esplendorosa atrás de si. Extasiado com o que vê fica paralisado, pois parece não haver mais sentido em continuar a subida.”

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Sociopatia


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Ha quase 50 anos, durante uma festa de São João no prédio onde morava, percebi meu pai sentado em silêncio em um canto do recinto  com o olhar preso no infinito cósmico. Perguntei a ele se estava bravo ou triste, e ele me respondeu que não. Perguntei se ele estava se divertindo e ele novamente disse “não”.

Fiquei surpreso,  pois era uma festa. Música,  fogueira, crianças correndo, piadas, “quentão”, broas e pinhão. O que poderia ser melhor e mais divertido que isso?

– Eu não consigo achar festas divertidas, mas não me pergunte o porquê. Qualquer explicação será parcial e incompreensível. Não se preocupe, estou bem.

Fiquei triste, sem saber o que dizer e, de uma certa forma, fiquei decepcionado. Ao meu lado via outros pais dizendo bobagens, cantando músicas e exagerando na bebida, enquanto meu pai apenas observava e, quando muito, ensaiava um tímido sorriso. Seu rosto demonstrava toda a distopia e toda a falta de conexão com a alegria fugaz, superficial e explícita do ambiente.

Por muitos anos não consegui entender meu pai e sua sociopatia. Por um tempo eu o culpei por ser como era. Todavia, minha incompreensão não durou muito tempo. Lembro que os primeiros sintomas percebi na adolescência, e na entrada da vida madura eu podia reconhecer em mim a mesma patologia em graus crescentes de manifestação. O destino se ocupara de me amaldiçoar com a mesma sina.

Hoje vi uma cena de carnaval de rua e fiquei pensando “Como eles podem se divertir saltitando assim e se vestindo como tolos?”, mas me calei antes que tal sintoma emergisse como palavra. Tenho vergonha da minha doença.  Felizmente eu não falo para muitos o meu diagnóstico e minha enfermidade fica a maior parte do tempo escondida, como um eczema coberto pelas mangas compridas no tempo frio.

É uma maldição, e dela a única saída é a derradeira expiração.

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Kardec e o Racismo

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O racismo (inquestionável ao meu ver) de Allan Kardec, criador do espiritismo, foi abordado por alguém na minha TL, mas foi posteriormente deletado por ter gerado muitas reações “acaloradas”. Eu não vejo nenhum problema em questionar essas figuras históricas à luz de novas ideias e visões de mundo.

Apesar do Espiritismo não ter sido criado para ser uma religião, mas um suporte às religiões, ele acabou se tornando uma espécie de “seita cristã”, em especial pelo seu florescimento no Brasil, um país marcadamente cristão.

Todas as religiões são construções HUMANAS,  e o espiritismo não poderia fugir à está regra. Não existe nada na cultura que não seja derivado de necessidades humanas. As religiões monoteístas são criações das sociedades antigas para envolver de magia e transcendência ordenamentos sociais adaptados à época em que floresceram. O “racismo” de Kardec pode (deve) ser criticado HOJE, mas na época em que foi escrito não causou nenhum alarde. Minha tese é que estas características e perspectivas de mundo não podem ser divorciadas do seu tempo.

Lembre que no seculo XIX estava no auge o colonialismo europeu em África e existia um consenso “científico” sobre a inferioridade intelectual dos negros. Não se trata de perdoar ou passar a mão, mas entender em que contexto estas obras foram escritas. É a mesma crítica que se faz à homofobia de Che Guevara; seus comentários ocorreram nos anos 60 quando “homossexualismo” era considerado uma doença degradante. Portanto, é importante mostrar essas contradições, mas ao mesmo tempo entender que se tratam das inconstâncias e contradições de um homem diante dos valores do seu tempo.

Como deveríamos julgar alguém sendo criticado por “escravizar sexualmente seu parceiro” por exercer a monogamia, quando esta tiver sido extinta no século XXIV?

Devemos acusar também Vinicius de Morais, Fernando Pessoa e Humberto de Campos por suas posturas abertamente racistas, e pela misoginia que aparece em seus textos?  Ou entender que a obra deles só pode ser entendida no contexto em que viveram?

E a pedofilia de Simone?

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