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Sobre uma Crítica à Humanização

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Fiquei um pouco surpreso ao ler um texto escrito por um médico e que parece ter sido escrito nos anos 80. O articulista parece estar genuinamente preocupado com a questão da humanização e o problema da violência obstétrica, mas curiosamente o texto fala pouco das questões contemporâneas de violência contra a mulher no momento de parir, e preocupa-se mais com a questão por um viés corporativistas e de proteção do mercado para os médicos. Desta maneira, o colega parece ter descoberto que a humanização do nascimento não deve prescindir da tecnologia e dos médicos.

Eureka !!! No texto ele parece ter avistado a América e ficou maravilhado com sua descoberta, mas ainda não teve tempo de se dar conta que tudo isso já é velho, e que logo ali na frente está o porto e a cidade, construídas há muito tempo.

No texto aparece a frase “…e fôssemos falar em parto e quiçá gestação totalmente “humanizada”, conceituando mínima ou ausente tecnificação..”

Mínima ou ausente tecnificação?” Diante desta insinuação eu pergunto: A quem ainda interessa este conceito anacrônico de confundir humanização com desassistência e repulsa à tecnologia? Tal confusão foi sepultada há anos !!! O articulista prefere se defender de algo que não interessa a mais ninguém, ou seja, a falsa idéia de que a humanização do nascimento prega a ausência de atendimento e a supressão da figura do médico.

Desinformação ou interesse em criar confusão?

No mais o texto revela mais pelo que não diz do que pelo que expressa. A simples existência de um texto em defesa da boa prática médica demonstra uma preocupação crescente da corporação com as acusações cada dia mais consistentes de que o nascimento é local frequente de práticas envelhecidas, inconsistentes e com muita violência. Isso é positivo.

Espero que os equívocos do texto não desmereçam a nobre e positiva tentativa do seu autor em ajudar na construção de uma assistência mais digna e respeitosa às mulheres.

A quem realmente interessa a manutenção desses mitos? A quem interessa a ideia de que a humanização despreza tecnologia e médicos? A quem favorece a noção anacrônica de que a tecnologia pode ser aplicada indiscriminadamente, pois ela representaria o “progresso” e a “evolução” , e que só através dela poderemos nos proteger das incertezas da natureza?

Ora… a pergunta é: Quem se sente ameaçado com a justiça e a dignidade restituída às mulheres? Quem?

O texto nos remete a um falso dilema: Se quisermos a modernidade e o progresso, a alienação e a violência entram no pacote. É uma venda casada, na qual os médicos são os proprietários do parto, e a mulher um objeto sobre o qual eles atuam. Caso queira o parto natural, sem violência e protagonismo, então nós médicos não faremos parte, e seu destino é a selva e a desassistência.

O texto do colega sonega EXATAMENTE a humanização do nascimento, que vem propor a “terceira via”, o protagonismo restituído à mulher, a visão complementar e integrativa e acoplada às EVIDÊNCIAS científicas. Falta tocar no nervo exposto da assistência: a incapacidade crescente dos médicos de entenderem o parto normal como um direito das mulheres e um evento humano, para o qual a sua ajuda é bem vinda, mas não fundamental para a assistência direta.

Falta CORAGEM para olhar este cenário de frente. Por isso é que se cria essa dicotomia falsa e interesseira entre violência e tecnologia X desassistência e barbárie. MENTIRA. É possível oferecer partos humanizados, para todos os setores, públicos e privados, mas para isso é preciso sair das trevas, parar de pensar sobre conceitos estapafúrdios e anacrônicos, e encarar o desafio de oferecer a ética conjugada com a técnica, resguardando as mulheres de intervenções inadequadas no transcurso fisiológico dos seus partos.

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Violência Homem

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Para meus colegas homens – que enxergam com tanto assombro e aversão a proximidade entre as palavras “violência” e “obstetrícia” – eu proponho que façam este singelo exercício de imaginação:

Vejam-se em um hospital escola em posição para um toque e avaliação da próstata. Depois de um bom tempo de demora entram o professor e seus 16 alunos. O mestre descreve seu caso como se você estivesse ausente, e como se sua única função no mundo fosse carregar uma patologia no corpo para oferecer aos alunos como aprendizado. Logo depois, sem pedir ou avisar nada, enfia os dedos no seu ânus, descrevendo jocosamente o que encontra, entre um e outro comentário de futebol. Depois disso, pede para um aluno sentir a consistência da próstata, o que ele faz com mais vagar. Depois um segundo, um terceiro e um quarto. Quando você escuta o quinto aluno colocar as luvas, resolve perguntar se está certo ser tratado dessa forma. O nobre professor se indigna e diz, com rudeza, que aquele é um hospital escola, e que você DEVE isso aos alunos. Você concorda, em termos, mas tenta argumentar que existem formas mais dignas e respeitosas de fazer isso, mas é interrompido. Explicam-lhe, finalmente, que é assim ou nada. “Se você quer o atendimento tecnológico que temos a oferecer então deve se calar. Caso não queira, nada podemos fazer para lhe ajudar”.

Você baixa os olhos e se submete. Por medo. Engole em seco e permite, mais uma vez, ter seu corpo invadido e sua dignidade desmerecida.

Pensou? Talvez só assim seja possível a você enxergar porque se calam as mulheres diante das ameaças, explícitas ou dissimuladas. Talvez só passando por uma experiência assim você possa aquilatar a dor da humilhação e da violência. Não é por pouca coisa que as mulheres recalcam essa dor em suas almas.

Enquanto continuarmos a aceitar este tipo de violência contra mulheres todas as outras continuarão a ter sentido. Por outro lado, quando extinguirmos o parto violento, as outras formas de agressão passarão a ser cada vez mais inaceitáveis.

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Violência Mulher

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O pior da violência é quando não é reconhecida como tal. É quando ela se mistura às normas e rotinas, procedimentos e protocolos, sendo institucionalizada e banalizada, a tal ponto que fica camuflada no cenário da atenção. Invisível ela cria raízes e se consolida na paisagem. Quando alguém, por fim, desperta e reclama, sempre aparece um outro que, amortecido pela mesmice das condutas repetitivas exclama: Mas como? Sempre fizemos assim e nunca ninguém reclamou“.

Acredite… quando um grupo de antropólogos e feministas aportou em terras de África para questionar a clitoridectomia em meninas adolescentes como prática ritualística e institucionalizada esta foi a EXATA manifestação do líder tribal. “Como assim “violento”? Esse ritual é realizado há milênios e jamais alguém havia reclamado!!”.

Para ter direitos é necessário conhecê-los. Para viver em um mundo melhor é preciso primeiro concebê-lo, depois desejá-lo e por fim construí-lo.”

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Parto e Autonomia

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Afinal, quem deve tomar as decisões no nascimento?

Você acha que as equipes de saúde podem tomar decisões por você?
Podem escolher por você? É certo você receber uma episiotomia sem justificativa e sem a sua plena concordância? É razoável ter um fórceps ou um Kristeller aplicado sem que você receba explicações? É correto tomar atitudes sobre o corpo de uma mulher sem consentimento?

É justo que você seja afastada do seu bebê sem explicações detalhadas ou justificativas baseadas em evidências, apenas porque as equipes do hospital querem “dar um banho“, “tirar a sujeira do parto“, “pesar, medir, colocar colírio” ou para fazer “procedimentos de rotina“? Podem estes procedimentos ocorrer sem que você seja consultada?

É justo que seu bebê seja levado para longe de você apenas para ser avaliado em um local cheio de luzes, barulhos e cheiro de desinfetantes a despeito de sua vontade expressa de estar ao lado do seu filho? É adequado interromper a “hora dourada” – os 60 minutos que se seguem ao nascimento – para cumprir normas insensíveis e sem comprovação de sua utilidade? A quem servem estas condutas?

Já parou para se perguntar quem tem o direito de mandar em você e no seu filho no momento sagrado em que um é apresentado ao outro?

Pense bem… afinal, quem manda no seu corpo? Quem determina sobre este bebê, que ainda pulsa no mesmo ritmo do seu coração?

Não se trata de impedir o cuidado oferecido pelos profissionais, mas questionar até onde estas intervenções são criadas para verdadeiramente acrescentar segurança ao momento do parto ou apenas para gerar vantagens para quem atende.

Se você acha que a atenção ao bebê precisa ser revista, para que o melhor da técnica se adapte aos direitos humanos, não aceite mais procedimentos indignos e que não respeitam a ciência e negam autonomia às mulheres.

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As Delícias do Parto

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Pela segunda vez em poucas semanas atendemos um parto (no hospital!) em que a mãe, imediatamente depois que o corpinho inteiro do bebê saiu, exclamou de forma espontânea: “Ai, que delícia!!”

Ai, que delícia!! ??????

Mas… não era para ser um horror?
Não era para elas se ajoelharem e pedirem uma analgesia?
Não era para ficarem aterrorizadas e marcarem uma cesariana ainda segurando entre os dedos trêmulos das mãos o teste de positivo de gravidez?

Não entendo…
Não era para ser uma dor excruciante, injusta, cruel e sem sentido?
Não era para ter a intensidade dolorosa de um dedo decepado?
Não era para ser como “defecar um tijolo”?
Onde cabe o conceito de “delícia” no sombrio cenário de parto que me foi ensinado na escola médica?
Onde “prazer”, “realização” e “superação” poderiam fazer sentido no modelo tecnocrático e biologizante que recebi nos bancos da universidade?

Eu pergunto:
Onde foi que perdemos o caminho do nascimento humano?
Onde foi que esta parte fundamental da sexualidade humana foi culturalmente deturpada?
Em que momento perdemos a mão, caímos soltos no espaço, sem referenciais e sem destino?
Onde foi que prostituímos o parto, encarceramos os corpos e sequestramos o prazer, a alegria e a felicidade de parir em paz e com dignidade?
Porque não podemos mais escutar dos nascimentos a verdade que neles se esconde?

Sim, a verdade por tantos sonegada é que esse momento pode ser uma “delícia”, desde que nós assim aceitemos.

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Respostas à Violência

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Não se trata de tornar-se infenso a qualquer reparo. Eu mesmo conheço pessoas que fazem críticas corretas e bem fundamentadas ao trabalho das doulas. Por exemplo: levar o ativismo para as salas de parto e tornar o centro obstétrico um campo de batalha. Temos nos preocupado com isso nos últimos anos, exatamente pelo aumento no número de doulas e na natural dificuldade de estabelecer o limite entre ativismo – doulagem. É muita emoção para ser controlada, mas é necessário que assim o seja. É por isso que devemos escutar as críticas e aprender com elas, o que só fortalece o movimento de humanização. Fechar-se em conceitos estanques é cristalizar-se e desaparecer. A dinâmica da transformação social deve ser intensa e reflexiva.

O fato da própria ACOG (American College of Obstetrics and Gynecology), poderosa defensora dos obstetras dos Estados Unidos, ter reconhecido publicamente a importância das doulas na diminuição da taxa vergonhosa de cesarianas (a vergonha para eles chegou aos 33%; para nós ainda não, aos 56%) apenas deixou os conservadores da minha especialidade ainda mais furiosos. O resultado é bem demonstrado em algumas manifestações de médicos indignados com o fato de terem suas atitudes e condutas questionadas pelos pacientes: baixo nível, agressão verbal, impropérios, acusações, generalizações e violência de toda ordem. Como diria Schopenhauer: depois do escárnio viria a violência; era o que fatalmente ocorreria.

Concordo com o mestre. Minha visão sobre esta fase do processo de humanização do parto é de que a violência poderia esperar, mas chegaria de qualquer maneira. Não é possível fazer o omelete da humanização sem quebrar os ovos da prepotência. Entretanto, nossa resposta precisa ser diferenciada. NÃO podemos entrar no jogo acusatório e violento. Se recebemos pedradas, revidemos com evidências. Se a violência é o idioma, respondamos na língua da perseverança.

Sem este diferencial apenas nos igualamos à queles que nos combatem.

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Capitulação à Tecnocracia

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A atenção anacrônica e tecnocrática de pré-natal faz, SIM, a cabeça das mulheres em direção a uma cesariana, ilusoriamente colocada como “salvadora”, e quanto a isso não resta dúvida alguma. Existem vários estudos comprovando tal evidência, entre eles o estudo de Potter, da universidade do Texas, realizado no Brasil no início dos anos 2000. Nessa investigação fica demonstrado que – tanto no serviço público quanto no privado – as mulheres optam pelos partos normais em sua grande maioria. Entretanto, ocorre uma transformação – pela ferramenta do medo – no pré-natal, fazendo com que os índices se invertam. As mulheres tem sua autoestima profundamente abalada, ou mesmo destruída, durante a preparação para o parto, e os mitos da barriga perigosa, e da “mulher bomba-relógio” acabam vingando. O resultado é o desastre das cesarianas desmedidas, que nos coloca na “barbárie” do intervencionismo.

Quanto aos riscos do parto normal, da cesariana e dos partos domiciliares eles todos existem. Não existe nada no mundo com “risco zero”. Lembre que um parto é um evento humano, e por ser humano é carregado do risco natural, assim como é andar de carro ou avião, ou mesmo sair de casa para comprar leite na mercearia. Toda nossa vida é cercada de probabilidades de algo ruim possa ocorrer. O que podemos fazer é cultivar atitudes que diminuam tais chances. Desta forma, parir no hospital é TAMBÉM igualmente arriscado, bastando para isso que você perceba que o simples passo para dentro de um centro obstétrico significa uma chance de 85% de sofrer uma grande cirurgia como é a cesariana, que na grande maioria das vezes (no caso brasileiro) é absolutamente desnecessária do ponto de vista clínico e obstétrico. Triste é constatar de forma inequívoca que esta cirurgia foi INDUZIDA pelo discurso dos profissionais, o qual deixa as mulheres apavoradas diante de um evento natural e fisiológico como parir, que foi ultrapassado com valentia e confiança por quase todas as suas ancestrais. Criou-se um medo bizarro e inusitado na cultura, fomentado pelas instituições que LUCRAM com a angústia das mulheres e com suas dúvidas artificiais sobre suas reais capacidades de gerar e parir com segurança, as quais foram implantadas em suas almas pelo sistema de saúde contemporâneo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico

Todavia, se uma mulher está carregada de medo e insegurança, jamais será melhor desistir e se entregar ao sistema. Não, pelo contrário. Aí está a demonstração de uma fragilidade, a qual nenhuma cesariana poderá consertar. Se a mulher está mergulhada em suas desconfianças sobre si mesma, este é o momento certo para enfrentá-las, e não para entregar-se de forma alienada a um profissional qualquer. Médicos servem para guiar e auxiliar, e não para tomar decisões sobre sua vida. “Liberdade é nossa meta última”, me dizia um querido colega na época da residência, ao me explicar que o medo nos aliena, aprisiona e acovarda. Enfiar a cabeça no chão, entregar suas escolhas a outrem, desconfiar de si mesmas e atirar-se à aventura intervencionista nunca fará com que as mulheres alcancem os altos fins de suas existências. Pelo contrário: vai mantê-las atreladas a um discurso que, se as liberta do jugo masculino, as mantém presas à tecnocracia e a ideia contemporânea da defectividade essencial de seus corpos.

A capitulação à tecnocracia no parto é o primeiro dominó a cair na maternagem. Depois acataremos o afastamento do bebê, a vacinação extemporânea, a fórmula, os alimentos com conservantes e assim por diante. A sedução da manipulação da vida por interesses de outra ordem será sempre presente, e cada vez com mais intensidade. Dar um basta a isso nunca é tarde. Porque não começar a reforçar uma adormecida cidadania logo ao abrir o teste de gravidez positivo à sua frente?

Somente a liberdade e a autonomia darão às mulheres o destino grandioso para o qual foram criadas.

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Sobre as críticas

Consulta médica

Há tantos anos debatendo diariamente a questão do parto inserido no universo da tecnocracia eu percebi que discutir casos particulares de partos ou indicações de cesarianas (a minha cesariana, a cesariana da minha mulher, a cesariana de uma conhecida ou da vizinha) é INÚTIL e desnecessário. Não se trata de acusar uma específica pessoa que foi vítima de uma assistência inadequada, mas fazer uma crítica forte ao modelo, o sistema e o paradigma de atendimento às gestantes.

É nisso que precisamos focar. Criticar cesarianas, ou mesmo partos, sem estar na pele de quem teve que tomar as decisões é INJUSTO e CRUEL. Esqueçam os médicos cesaristas; eles são prisioneiros deste sistema e frágeis demais para lutar contra ele. Precisamos focar nas mulheres e no seu empoderamento, para que ELAS mudem o parto na sociedade em que estamos inseridos. Com uma sociedade transformada os profissionais que atendem parto mudarão naturalmente.

Por certo que esta é uma questão dialética. Não seria justo desonerar os médicos de qualquer responsabilidade na mudança do modelo. O contato com a experiência única e transformadora do parto deveria moldar a visão destes profissionais a respeito da natureza especial deste evento. Entretanto, o parto medicamente absorvido, transforma-se em uma mera cirurgia de extirpação fetal. Desta forma, despido de simbolismos, o nascimento se esvazia dos seus conteúdos mais significativos. Eu percebi que a principal função do médico é a pedagogia. Cabe a ele mostrar os caminhos da saúde, ensinar o auto cuidado e fazer com que a paciente descubra dentro de si mesma o sentido subjetivo de gestar e parir. Quando o pré-natal se reduz às medições antropométricas e burocracias ele perdeu sua grandiosidade.

Diante de um momento épico e sem precedentes este encontro tão singular entre profissional e cliente nada mais faz do que resumir à mulher a um contêiner fetal, desprovida de transcendência que um nascimento impõe. Pois este empobrecimento típico da cultura tecnocrática ocidental contemporânea é responsabilidade dos profissionais, pois todas as gestantes que conheci perceberam claramente a importância do pré natal como período valioso de aprendizado e crescimento.

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Pais expulsos do parto

Pais e Filhos

Insistir nesse equívoco – “expulsar” os pais (homens) da sala de parto – atrapalha historicamente os projetos e objetivos da humanização do nascimento. E por “equívoco” eu considero qualquer determinação externa que não parta da mulher.

Inserir o pai ou expulsá-lo é a mesma coisa, se nos negamos a olhar cada mulher e cada parto como únicos e especiais. Sem o protagonismo poderemos apenas sofisticar tutelas. Expulsar o pai piora o parto, inseri-lo no ambiente de parto como regra fixa também. Quando é que vamos parar com estas regras ridículas as quais as mulheres devem se submeter, determinações apriorísticas que não levam em consideração o contexto, seu desejo, sua vontade e a sua subjetividade?

A ideia original do Michel (Odent) é de que, para que o parto possa ser levado em segurança é fundamental que a paciente não se sinta observada, resguardando assim a sua privacidade e intimidade. Com isso elevaremos os níveis de ocitocina e manteremos a adrenalina baixa, produzindo uma harmonização do ambiente psicológico e hormonal, regularizando as contrações e alcançando o progresso adequado do trabalho de parto. O entorno é fundamental, como diria Grantly Dick-Read; a “psicosfera” é determinante, como diria meu colega Max. Este parece ser um ponto pacífico, e quase ninguém parece discordar dele.

Entretanto, criar sobre este princípio geral uma “regra”, um “protocolo”, um determinante externo ao desejo da mulher é tratar as mulheres como bichos desprovidos de subjetividade e de linguagem. Estabelecer que todos os pais devem sair do ambiente de parto é um equívoco; determinar que todas as mães amamentem na primeira hora também. Obrigar a euforia e a felicidade após cada parto é uma imposição cruel e desumana. Não tem saída: o único caminho dentro da trilha da linguagem é olhar para este fenômeno como algo especial, irreproduzível e infinito em suas particularidades e detalhes.

Quantas vezes será necessário repetir que “intimidade” é um valor subjetivo, pessoal e determinado por circunstâncias de ordem cultural, circunstancial e contextual?

O que era intimidade há 200 anos hoje não é. Dormitórios para os pais diferente daquele dos filhos parece uma obviedade hoje em dia, mas há poucos anos o contrário era o padrão. A intimidade – de um casal ou de uma mulher parindo – é uma criação de caráter social, e não um valor biológico para os humanos. As análises etológicas, que estudam o comportamento animal, são excelentes fontes de ensino, mas não podemos expandir a compreensão de comportamentos – como no sexo e no parto – daquilo que observamos em animais para os seres humanos, dotados de linguagem e cultura. Portanto, o que é válido para uma vaca, uma cabra, um felino ou um equino não é necessariamente adequado para seres humanos!!

Uma mulher pode se sentir vigiada estando sozinha em uma sala, e pode se sentir plenamente segura e com intimidade estando rodeada de amigos, familiares e profissionais que a atendem. Criar proibições para este evento tão delicado não parece ter embasamento científico e lógico, e não parece ser adequado ou justo.

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O problema aqui dentro…

Drogas


A medicina ocidental contemporânea, desde os tempos de Pasteur, sofre de um mal crônico e limitador do pensamento. Trata-se da visão exógena da doença, colocando sobre o agente agressor – seja ele químico, físico, biológico ou psicológico – um peso determinante no surgimento e na manutenção dos eventos mórbidos de qualquer natureza. Assim é com a antibioticoterapia, e a crença resultante do malefício das bactérias, vistas há mais de um século como agentes agressores e maléficos para o equilíbrio orgânico. Somente agora, a partir das novas concepções do “biota” e a importância dos elementos probióticos, é que estamos percebendo o imenso significado dos elementos microscópicos que compartilham o espaço físico com o ser humano.

No terreno das drogas ocorre o mesmo. Por razões óbvias acreditamos que as “drogas” – aqui entendidas como aquelas ilegais – são ruins por natureza, por determinarem uma dependência orgânica natural e inexorável. “É da essência da droga viciar“, diz a velha escola dos teóricos do vício drogal. Com isso continuamos a acreditar que o elemento externo – a substância psicoativa – é a chave para o entendimento da drogadição, negligenciando, mais uma vez, as questões do “terreno predisponente”.

A mim não parece que a ligação sujeito-droga assim se estabeleça, da mesma forma – como disse Pasteur no fim de sua vida – que para que haja uma infecção qualquer é indispensável que exista uma “diátese”, um terreno propício para a sua ocorrência. A partir desta perspectiva, tão cara aos estudiosos da homeopatia, não é a droga que merece ser combatida, mas as condições nas quais está inserido o sujeito drogado, o seu entorno biopatográfico, físico, contextual e psicológico. Sem este entendimento, que eu chamaria de “capacidade mórbida reativa”, continuaremos a investir em uma guerra absolutamente fracassada e sem futuro, e que nunca deu resultado em qualquer lugar que tivesse sido implementada. Lutar contras “as drogas” é tão equivocado como a velha piada de tirar o sofá da sala; as drogas apenas ocupam um espaço deixado vago pelas fragilidades de um sujeito previamente doente.

Por outro lado, sabemos a quem esta guerra inútil e custosa interessa: aos policiais corruptos, agentes políticos e traficantes, que se beneficiam com o submundo das drogas, infestado de propinas, lutas fratricidas por pontos e mercados, subornos e assassinatos em profusão. O que é novidade é perceber que ela também serve aos cientistas que vivem de pesquisas nesta área, e que insistem em colocar como preponderantes os agentes externos – as drogas – sem perceber que até mesmo a drogadição é algo se que processa – primeiramente – entre as orelhas.

Para um sujeito feliz e livre qualquer droga não é mais do que uma enorme perda de tempo. O problema está dentro de nós, e não do lado de fora…

Pois os mesmos questionamentos que fazemos em relação ao uso de drogas podemos fazer em relação ao parto. Para o nascimento também temos as gaiolas que modificam o evento, transformando-o em uma caricatura daquilo que foi outrora.  Tudo o que sabemos sobre a obstetrícia contemporânea é observando mulheres “enjauladas” em hospitais. As pesquisas, os valores, os dados, as estatísticas, toda a informação é colhida de mulheres inseridas no modelo hospitalar. Por mais que o ambiente procure ser menos agressivo (o que ocorre apenas em alguns contextos mais modernos), o contato com pessoas desconhecidas, os ruídos estranhos, as máquinas frias e as substâncias exógenas (como anestésicos e ocitocina) injetadas na corrente sanguínea acabam por TRANSFORMAR o evento do nascimento, descaracterizando-o de sua expressão natural e original. Não é mais o PARTO que estamos observando, mas o parto hospitalar, o parto médico, o parto confinado e o parto artificial. Como diria Max, “não é mais no parto, mas seu simulacro“.

Assim como um rato não se comporta da mesma forma estando preso em uma gaiola, as mulheres não agem com a mesma naturalidade confinadas em um ambiente hospitalar.

O ambiente, por sua vez, produz inequívocas manifestações no sujeito nele inserido, e um ambiente hospitalar inspira medo, temor, apreensão e angústia. Estes sentimentos, por sua vez, acionam o sistema simpático, através da adrenalina, que atua na economia orgânica no sentido de produzir reações de “fuga ou luta”. Além disso, este hormônio inibe a ação da ocitocina na produção do apagamento neocortical e nas necessárias contrações rítmicas uterinas. A resultante é a ativação da adrenalina e a supressão da ocitocina, produzindo a disfuncionalidade típica dos partos que ocorre em nossos hospitais. Esta disfunção é frequentemente corrigida com a adição exógena de ocitocina e o uso da analgesia peridural (pois as contrações artificiais induzidas pela primeira são dificilmente suportáveis sem o recurso analgésico) e a consequência é a perda total da possibilidade de uma vivência fisiológica do parto.

O parto da forma como é realizado nos hospitais do ocidente é prejudicial à fisiologia do nascimento exatamente pela falha do sistema médico em trabalhar e reconhecer os aspectos emocionais, psicológicos, sociais, espirituais e contextuais relacionados com o nascimento de um bebê.

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