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Romerobritismo do parto

É assim que caem os impérios; quando a miséria do povo recebe como resposta das elites esse tipo de contraste ele se torna uma ofensa em si. Trata-se de escárnio, deboche e desrespeito. Não se trata de questionar o direito de produzir algo que o dinheiro pode pagar, mas viver em uma sociedade onde a desassistência, a fome, o desemprego, a inflação e a desesperança convivem com a opulência obscena é uma bofetada na cara de qualquer brasileiro.

Quando essas coisas explodem alguns dizem “Por que essa violência, gente? Não é pra tanto!!“. Mas quando a gente oferece brioches para a patuleia faminta está alimentando a indignação silente. Quando cai a última gota, cabeças rolam… as vezes literalmente.

Aliás, concordo que isso é tudo muito brega. Para mim vale o relato que centenas de mulheres me disseram: “não existe sensação melhor do que parir um bebê e depois deitar na sua própria cama para descansar e tomar uma sopa de galinha”. Isso é qualidade de vida e valor; o resto é modinha e ostentação fútil. Esta sim é uma memória capaz de produzir transformações na forma como enxergamos o mundo.

Tenho ainda uma curiosidade: desses 500 milhões de custos nessa obra – cuja única função é fazer a elite perdulária paulistana se sentir “especial” – quanto foi investido para fazer dessa chinelagem a capa de Veja?

Pois eu acho que essa iniciativa é o “romerobritismo” da assistência ao parto no Brasil, uma homenagem a Romero Britto, que produz coisas bregas, extravagantes, caras e inúteis.

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Conservadores e Progressistas

Eu sempre me defini como um progressista, de esquerda, comunista e com uma postura aberta e franca sobre a minha posição política. Jamais achei que esta é uma questão moral, a qual me tornaria melhor do que os outros por estar do “lado certo” do espectro político. Não acredito nisso. Conheço pessoas de direita que são anjos, gente caridosa, amável, inteligente, culta e espiritualizada. Contrário senso, conheço esquerdistas toscos, violentos, agressivos, preconceituosos, sexistas e vingativos. As qualidades morais não se estabelecem entre progressistas e conservadores; elas são produzidas em camadas muito mais basilares de nossa estrutura psíquica.

Digo isso porque entendo que as posições políticas estão profundamente sedimentadas na nossa especial visão de mundo – e de nós mesmos. São valores adquiridos numa fase muito inicial da vida. Um conservador é alguém que tenta manter o que foi conquistado. Sua missão é não perder as conquistas, garantir o caminho percorrido e não permitir aventuras que possam colocá-las em risco. Já os progressistas querem ver adiante, romper barreiras, atravessar os limites, arriscar novos caminhos e questionar valores. Um tem os pés no chão e o outro as mãos apontadas para o céu.

Não existe erro em nenhuma dessas posturas; ambas são válidas e necessárias. Não há nenhum problema moral em exigir que as mudanças sejam lentas e cuidadosas, assim como não há equívoco em desejar lançar-se ao espaço e experimentar a novidade do mundo. Ambas são posições subjetivas naturais e moralmente válidas, e pessoas más e boas ocorrem em ambos os lados desse embate.

Quando no inicio desse século resolvemos intensificar os debates sobre as definições da “humanização do nascimento” enquanto movimento, ideologia, filosofia e prática eu deixei claro que havia uma série de princípios dos quais não poderíamos abrir mão, sob pena de perdermos a base ideológica que nos conectava. Por esta razão, sempre me posicionei de forma muito forte contra a ideia de “cesarianas humanizadas” na medida em que o protagonismo é um fator essencial nessa definição e, estando ausente num procedimento cirúrgico, não poderia ser tratado como tal. Da mesma forma, sempre me mantive fiel à proposta revolucionária da obstetrícia – o modelo de parteria – não aceitando as propostas reformistas que muitos ainda perseguem e defendem com fervor.

Nesse aspecto específico, eu sempre me comportei como um “conservador”, e acredito que posso até parecer um “reacionário” aos olhos dos que acreditam que “o importante é o resultado, não a via de parto”. Por isso eu posso entender quando conservadores em várias áreas me falam de suas preocupação em relação à sexualidade, gênero, costumes, economia, pedagogia, educação dos filhos etc, mesmo não concordando com sua visão de mundo. E também entendo visceralmente a perspectiva daqueles que, como eu, lutam por mudanças.

A idade nos garante esse tipo de vantagem. Podemos enxergar esses conflitos e atritos com menos apaixonamento, de forma mais compreensiva e situando-se de maneira mais racional diante desses dilemas. Isso não significa “frouxidão”, mas “flexibilidade”; não é “fragilidade”, é “paralaxe”.

Como eu dizia ao meu pai, ao ouvir muitos de seus conselhos cheios de sabedoria: “são as benesses da senectude”.

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Humanização do nascimento, o que é mesmo?

O parto humanizado congrega em suas ideias um evento humano, um movimento social, uma expressão da sexualidade e uma luta política.

Muitos ainda hoje perguntam a definição de “parto humanizado” e acredito que sua definição é fundamental para que as pessoas compreendam a verdadeira amplitude desse termo. É notável que existe confusão com a ideia de “parto gentil”, “parto livre”, parto adequado”, “parto sem violência”, etc. Muitos também confundem parto humanizado com “parto normal”ou parto “vaginal”, mas é preciso entender que o fato de uma criança nascer pela via “vaginal” não significa que o parto tenha sido conduzido com normalidade. Em verdade, muitas das violências obstétricas que testemunhamos em nossa sociedade são fruto da má condução de partos vaginais. É igualmente verdadeira a noção de que realizar cesarianas em benefício de médicos, instituições, escalas, feriados ou pela falta de capacidade de lidar com a intrincada dinâmica do parto normal são atos violentos. A via de parto, por si só, não determina a característica de um atendimento “humanizado”.

É forçoso lembrar que este nome está relacionado com o humanismo, herdeiro do Iluminismo do século XVIII. O Humanismo é a filosofia moral que estabelece o humano como elemento primordial na cultura; é uma perspectiva que se encontra em uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade. A “humanização” nasceu na Europa, originada no Renascimento que se opunha à escolástica, valorizando uma postura intelectual crítica e colocando no humano – mais do que na figura de Deus – o foco de todos os nossos interesses, nossa admiração, as diretrizes e o destino da humanidade. Esta corrente de pensamento, em que Erasmus de Roterdã tem um papel de destaque, vem se contrapor ao teocentrismo da idade média, que desprezava as capacidades humanas de adaptação e transcendência. Portanto, a ideia de que “parto humanizado” seria um pleonasmo, pois “se todos somos humanos o parto só poderia ser humanizado” é equivocada e oportunista, pois o termo aponta para um pensamento que coloca nossas ações a serviço da humanidade, contrapondo-se à tecnocracia que nos torna escravizados àqueles que detém o poder tecnológico de controle dos corpos.

Em função disso há muitos anos eu elaborei uma definição que fosse acima de tudo prática, mas que também fosse simples, didática, concisa e que contivesse em seu bojo os aspectos principais dessa ideia.

Assim, na minha perspectiva o parto humanizado pode ser entendido como um projeto sustentado por um tripé conceitual:

  • Protagonismo garantido à mulher;
  • Visão interdisciplinar (o parto não é um ato médico);
  • Atenção baseada em evidências.

Esta definição foi criada há alguns anos para tentar dar a este tema uma delimitação, e assim diminuir as inevitáveis confusões como, por exemplo, confundir parto humanizado com “parto domiciliar”, “parto na água”, ou “analgesia de parto”. Sim, muitos ainda hoje acreditam que oferecer analgesia peridural para as mulheres, retirando do parto seu componente de “dor e sofrimento”, seria oferecer às mulheres uma vivência mais plena do parto, sem os componentes “selvagens” que nos afastam da “alma” enquanto nos aproximam inexoravelmente do “corpo”. Esta confusão do parto humanizado com o “parto indolor” é ainda muito prevalente entre os homens, para quem as dores do parto carecem de sentido.

Protagonismo garantido à mulher significa que esse evento está sob o controle das mulheres – ou daquela especifica mulher que o está atravessando, ou sendo atravessada por ele – seus valores, suas expectativas, suas perspectivas e seus desejos, e não a partir de protocolos que mais visam garantir segurança para médicos e instituições do que o bem estar para a mãe e o bebê. Significa colocar o elemento humano – a futura mãe – como o centro das nossas atenções, fazendo com que todas as ações realizadas sobre o processo de nascimento tenham como objetivo precípuo o bem estar das mulheres e não o fortalecimento de sistemas médicos e institucionais de controle sobre seus corpos. “Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher, sem isso teremos apenas a sofisticação da tutela milenar instituída pelo patriarcado”. Assim, o protagonismo feminino no parto é a viga central que sustenta a estrutura do movimento de humanização. Sem ele qualquer outra medida será apenas enganosa ou parcial.

Interdisciplinar porque envolve todo o pensamento humano que se dedica a descrever, compreender ou decifrar o nascimento humano em suas múltiplas formas de abordagem e todas as maneiras de oferecer cuidado. Psicologia, psicanálise, medicina, enfermagem, sociologia, antropologia, fisioterapia são correntes do pensamento que se ocupam da compreensão desse evento. É importante compreender que o parto não é um evento médico, não pode ser controlado pelos pressupostos ideológicos intervencionistas da medicina – a não ser em casos de patologia – e que deve ser entendido como um ciclo normal da vida de uma mulher, como parte da expressão da sua sexualidade, e que por esta razão merece uma abordagem interdisciplinar que contemple todas estas perspectivas. A medicina e suas intervenções jamais melhoraram o processo de parto em sua estrutura milenar, apenas garantiram que os desequilíbrios associados a ele tivessem o cuidado tecnológico adequado – o que é sua justa função.

Atenção Baseada em Evidências serve para se contrapor à milenar tendência de atuar no parto baseando-se em mitos, crenças, crendices, ações perigosas e até violentas. Kristeller (pressão sobre o fundo uterino), tricotomia (corte dos pelos pubianos), decúbito dorsal (deitada de costas na mesa de parto) e episiotomias (corte vaginal) são exemplos clássicos de rituais violentos (inclusive mutilatórios) realizados pela medicina ocidental sem que quaisquer estudos e pesquisas tenham comprovado seu benefício para as mulheres. Em função disso podem ser entendidos como “rituais”, pois possuem seus três elementos definidores: são repetitivos, padronizados e simbólicos, e sua simbologia nos leva aos valores mais profundos de nossa sociedade: o capitalismo, o imperialismo e o patriarcado. Sem a contraposição de estudos, análises e evidências oferecidas pela ciência o parto se mantém um campo aberto e convidativo para a aplicação de rituais que relacionados aos valores mais profundos de uma sociedade, onde impera a violência de gênero deles derivada.

Essa é uma definição simples, prática e útil, mas por certo que não é definitiva. Podemos criar outras, mais complexas e mais abrangentes, mas as definições servem às tarefas de seu tempo e, portanto, acredito que esta ainda seja adequada para a época em que vivemos. Como diria o pensador francês Michel Odent, “para mudar a humanidade é preciso mudar a forma de nascer“. Para isso precisamos garantir às mulheres a plena autonomia para seus corpos e o total protagonismo para a construção de seu destino.

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Parto humanizado e mídias sociais

Eu as vezes sou convidado a assistir palestras sobre obstetrícia que tratam de temas que há muitos anos debatemos no movimento de Humanização do Parto e Nascimento. Nesta semana assisti mais uma vez o mestre Michel Odent – pensador e escritor francês de 91 anos – falar de suas teses centrais, como o “imprint” e a importância de oferecer à mulher um entorno de proteção, intimidade e privacidade para que a “entrega” seja a mais tranquila possível. Ter sido contemporâneo de Michel é um grande privilégio para qualquer pessoa que um dia trilhou pelos caminhos da humanização. Posso estar cometendo um sacrilégio mas, na minha perspectiva, os trabalhos de Odent e Robbie Davis-Floyd no campo da compreensão dos significados últimos e inconscientes do processo de nascer adquirem uma importância ainda maior do que aqueles conceitos sobre o “nascimento sem violência” oferecidos a nós um pouco antes por Frederick Leboyer, outro baluarte da grande revolução do parto.

Escutei também o comediante Rafinha Bastos falando sobre partos e doulas, na entrevista que fez com sua irmã – que é doula e professora de Yoga – e achei que sua visão superficial, preconceituosa, jocosa e até debochada do processo de nascimento é uma amostra razoavelmente adequada do pensamento médio dos homens brasileiros. Sua ignorância a respeito de elementos mínimos da proposta de humanização, sua repulsa com tudo o que existe de selvagem e essencialmente humano no parto – além da sua exaltação da “praticidade e limpeza” das cesarianas – são muito demonstrativas da visão majoritária que ainda é prevalente entre os homens. Acho lamentável sua percepção sobre um tema tão delicado, mas saber que ele se dispôs a escutar é algo que devemos saudar como positivo. Quando trocamos ideias com os companheiros das mulheres que nos procuram pela expectativa de um parto humanizado é importante ter em conta que estes sujeitos representam uma fatia francamente minoritária nesta sociedade.

Um pouco depois escutei a aula de uma enfermeira obstetra que falou sobre o tema da violência obstétrica para alunos universitários, um tema que a cada dia assume uma importância maior nos debates de gênero na Internet. Na minha perspectiva ela falou de uma forma bastante superficial, talvez um pouco mais do que o necessário, mas entendo que ela imaginava se dirigir a uma plateia ainda muito desinformada sobre o tema e, portanto, preferiu uma abordagem mais geral e simplificada.

Em verdade eu prefiro as perspectivas sobre o parto que são mais complexas, mais obscuras e menos debatidas e sobre as quais pouco se fala, em especial no que diz respeito à atenção ao parto como evento da sexualidade. Entretanto, tocar nesse ponto é arriscado e perigoso. Vivemos em uma sociedade de cancelamentos onde as ideias sucumbem à interpretação que se pode fazer delas, e onde a verdade é menos importante do que a aceitação e o reconhecimento das nossas “personas sociais”. Fugir de certos maniqueísmos é tarefa complexa, e seria um risco muito grande tratar desse tema para um grupo tão heterogêneo.

Nas perguntas que se seguiram à sua exposição chamou minha atenção algo que vi repetidas vezes quando tratei publicamente deste tema. Percebi que, o que muitas mulheres chamam de “violência obstétrica” é, na verdade, tão somente a ponta de um imenso iceberg, uma fração menor do que seja a violência que ocorre no parto. A maioria das mulheres (e também seus parceiros) aponta como violência apenas aquilo se que tornou visível e palpável, a parte que ultrapassa a linha das ondas e emerge do oceano como barbárie. Da mesma forma, a violência do encarceramento obsceno das sociedades capitalistas aparece sob a forma de desumanidade, tortura e morte, para só então ser condenada. Parece que a nós somente quando a brutalidade estrutural e ideológica submersa se torna evidente pelo exagero de um processo – que já é violento por natureza – temos a possibilidade de denunciar sua existência.

Ainda espero das jovens ativistas uma definição mais clara, concisa e firme do que seja “parto humanizado”. Parece faltar uma percepção mais elaborada, que fuja da ideia de “parto gentil”, “parto delicado”, “parto adequado”, “obediência às evidências científicas”, que são elementos importantes deste processo, mas que não contemplam o cerne da definição, o qual está visceralmente ligado à ideia de “garantia de protagonismo” às mulheres. Precisamos falar mais sobre a história desse movimento social, debater seus pilares de sustentação e entender que esta proposta surgiu muito recentemente como uma contraposição ao modelo tecnocrático hegemônico, que despersonaliza e objetualiza as gestantes, uma condição que se fortaleceu pela dominação do paradigma biomédico estabelecido de forma marcante a partir do século XX.

Na palestra da jovem professora ela elogiou as Casas de Parto e deixou claro para todos a importância das enfermeiras como cuidadoras primordiais do parto, o que é muito bom. Para além disso, eu me surpreendi com as perguntas feitas pelos estudantes a ela, o que sugeriu que ela poderia ter ido mais fundo nas definições, contradições e dificuldades no combate à violência obstétrica. Talvez ela tenha subestimado mais do que devia a capacidade de crítica dos alunos presentes à sua palestra.

Saber que esse tema toma a Internet hoje em dia me oferece a esperança de que estivemos fazendo certo em denunciar um modelo anacrônico de atenção ao parto e de mostrar que há perspectivas mais humanas e dignas de trazer as pessoas ao mundo.

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Conservadores

Hoje me perguntaram o que eu achava da atuação de uma obstetra da minha cidade. Em verdade, muito pouco a vi na minha vida. Ela tinha a fama de ser contra o abuso de cesarianas, e deve ter alguns 6 ou 7 anos a mais do que eu; portanto, quase centenária. Todavia, achei curiosa a forma como tive que explicar seu trabalho e como categorizá-lo.

Bem, ela não é cesarista. Talvez tenha entre 60 a 70% de cesarianas em seu consultório, mas os cesaristas tem geralmente taxas acima de 90. Ela por certo não é uma médica humanizada; deve desprezar Doulas, ou não trabalha com elas. É conhecida por ser autoritária e até grosseira algumas vezes, mas tem mais partos normais do que seus parceiros. Tem um discurso de “parto normal é melhor, mas nem sempre é possível”, conjugado com as famosas “hoje as mulheres são muito mais fracas que antigamente“.

Há algumas décadas ela seria chamada de “vaginalista“, mas esse termo é difícil de usar para alguém com tantas cesarianas. Talvez o termo “conservadora” fosse mais adequado, pois ela parece mais uma obstetra tradicionalista, que nos anos 80 eram aqueles profissionais que consideravam a cesariana um modismo que atingia as novas gerações, mas que nivelava por baixo as competências requeridas para a atenção ao parto. “Cesariana qualquer um faz; atender um parto precisa habilidade“, diziam alguns velhos professores.

Ela sequer pode cair no grupo dos “tecnocratas conscientes”, que são aqueles que reconhecem os malefícios da tecnocracia e do abuso das intervenções, mas acreditam que o contexto os obriga a esta postura em função da pressão social e dos seus pares. Não, ela apenas valoriza alguns saberes que eram a matéria prima dos antigos parteiros, e acredita que estas ferramentas sejam um diferencial importante para uma atenção mais efetiva ao nascimento.

Sim, o parto é deitado. “Preciso enxergar o que vou fazer e não tenho mais idade para ficar de joelhos“. A episiotomia usa quase sempre, senão “rasga tudo, já vi acontecer“. Ocitocina quase sempre, comandos tipo “fecha a boca e faz força de cocô” em todos os partos. Entrega rápido o bebê ao neonatologista pois “nunca se sabe se ele está mesmo bem”.

De maneira geral você terá mais chance de um parto vaginal com ela, mas não pense que sua experiência será “baseada em evidências”; ela vai ser mais próxima da sua fisiologia, mas ainda longe do que poderíamos esperar desse evento.

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Doulas Gourmet

O projeto de gourmetização das doulas não ajuda as doulas, mas auxilia as instituições no seu projeto de restringir ao máximo a sua atuação. É o projeto dos sonhos da corporação médica e dos hospitais privados, e carrega em seu bojo um problema gravíssimo: ele dificulta as doulas pobres, de comunidades distantes e sem educação formal a dar assistência às suas irmãs, vizinhas, amigas e clientes.

Por que deveríamos impedir uma doula sem instrução formal – inclusive analfabeta – de atuar? Por que restringir o acesso à essa função para todas as mulheres que não tem um diploma de segundo grau? No Brasil apenas 51% das mulheres com mais de 18 anos completam o ensino médio (homens 46%). Essa medida por si só já corta pela metade o número de mulheres que poderiam ser doulas. A quem tal restrição interessa?

Já pensaram se fosse exigido de cozinheiras, diaristas ou balconistas o ensino médio completo? Já perguntaram porque nunca alguém teve essa ideia para as outras profissões, mas decidiram que, para as doulas, essa certificação seria mandatória? Conseguem perceber o interesse das corporações em atingir o coração do movimento? Por que as doulas, mas não o porteiro do prédio, precisa esse grau de educação?

Claro… como sempre nos preocupamos com a classe média, com os pacientes mais abonados, com a performance de doulas em hospitais privados e sofisticados, enquanto o Brasil profundo, preto e pobre se mantém esquecido. A gentrificação desse movimento é um passo firme na direção da sua destruição, ao eliminar do cenário de atuação a sua base popular e laica.

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Lei das doulas

Parece que hoje, 16 de março de 2022, foi aprovada uma “Lei Nacional de Doulas”. Ainda não pude ler a lei – e a regulamentação que a acompanha – mas este parece ser um capítulo muito importante e significativo de uma luta que algumas doulas empreenderam no sentido do reconhecimento e da certificação das doulas em nível nacional.

Pelo que eu pude entender nas informações que me foram passadas, a nova “lei das doulas” determina uma formação mínima de 180 horas, e conclusão do ensino médio, e este para mim é o ponto crucial, porque estabelece um ponto de corte; depois disso, nada será como antes. Ainda não tenho conhecimento de como se pretende estabelecer o currículo para esses cursos de 180 horas, mas posso apostar como haverá aula de “feminismo”, “diversidade”, “direitos da mulher”, “violência de gênero”, “anatomia”, “fisiologia” e o escambau. Pelo que eu pude captar no Encontro Nacional de Doulas, realizado há alguns anos, a grade curricular destes cursos alargados deverá seguir por esse caminho, formando “doulas feministas”.

Entretanto, se colocaram na letra da lei as horas indispensáveis para um curso, por certo que por para além disso vão criar a necessidade de um certificado, depois um conselho autorizado a oferecer esta certidão e, por fim, vão proibir que doulas não registradas auxiliarem no atendimento às gestantes. As portas dos hospitais (parto domiciliar é outra realidade) se fecharão para quem não tiver a “carteirinha”.

Os ideólogos dessa profissionalização acabaram criando uma função – ou uma profissão – inserida na área médica; uma auxiliar de parto, formada e certificada. O que era uma grande virtude da doula – ser uma mulher tanto quanto a mulher que ela atendia – vai deixar de existir. Doulas serão técnicas, auxiliando o serviço médico do parto. Por certo que esta modificação na essência e na natureza das doulas vai enriquecer grupos que investem nesses cursos longos, mas a certamente a abrangência e a pervasividade dos cursos vai cair.

Pergunto: quem terá dinheiro para pagar cursos de 180 horas? E como vai acontecer com as doulas pobres? E as doulas analfabetas, ou com educação formal rudimentar? E a comadre que acompanha sua vizinha no interior e atua nessa função? Como vamos oferecer assistência de doulas para mulheres dos rincões afastados do país e que não tem condições para fazer um curso que – em última análise – pouco vai acrescentar para uma tarefa de dar suporte às necessidades básicas das gestantes?

Essa regulamentação parece servir ao que os médicos sempre desejaram. Agora vão parar de entrar mulheres “desqualificadas” nas maternidades, segurando suas “bolas de ginástica”, colocando incenso, com CDs da Enya dentro da bolsa. A partir de agora só vão entrar doulas formadas, com diploma e carteira do Conselho. Os médicos, por certo, devem estar comemorando.

A imagem que tínhamos das doulas ficará no passado. Caso isso se confirmar, acabou o movimento como nós o concebemos até então.

Quando li a notícia vindo pela Internet não pude me furtar de sorrir com uma velha piada que eu sempre contei sobre os “tipos de enfermeiras”. Por muitos anos eu falei das duas modalidades que cruzavam meu caminho: as primeiras são as “enfermeiras de tailleur”, que são enfermeiras chefes, chiques, lindas e arrumadas, executivas de maternidades e CEO de centro obstétrico, vestindo tailleurs que deixariam morrendo de inveja as aeromoças da SwissAir. Estão sempre limpas e falam um português perfeito.

Já as outras, que se contrapõem a estas, são as “enfermeiras de crocs”, desarrumadas, usando roupa de bloco cirúrgico, cabelo preso, sem maquiagem, mal dormidas, estressadas, angustiadas, cansadas ao extremo mas profundamente realizadas com seu trabalho de “chão de fábrica… de bebês”.

Pois agora, no bojo da certificação e da gentrificação das doulas, poderemos conhecer as “doulas de tailleur”, que serão as doulas chiques, com diploma na parede e crachá no peito; doulas com PhD, com anel de formatura e trabalhos publicados em periódicos reconhecidos. E vão chegar no hospital com laquê no cabelo…

Eu acho que muito cedo vamos ter saudade das “doulas roots”. Talvez este tipo de equívoco – no meu ver – seja necessário para que entendamos, finalmente, qual a verdadeira e profunda essência da doulas. Creio que fizemos uma tolice movida pela nossa vaidade, por uma necessidade muito primitiva enraizada na cultura sul-americana de sustentar seu saber – e a autoridade associada a ele – em um documento, um papel. É a nossa fome por “certificados”, que é muito característica dos brasileiros.

Lembro muito bem da vergonha que eu passei em Cleveland quando fiz uma palestra na Case Western Reserve University (em 2003, quando o Dr. John Kennell esteve presente) e pedi para a secretária do departamento de antropologia um “certificado”. Recordo nitidamente seu espanto quando lhe expliquei do que se tratava, e como ela não sabia o que era isso me pediu que a acompanhasse até sua sala para lhe ditar o que precisava escrever no papel. Perguntei para minha amiga Robbie como os americanos colocam essas coisas em um “resume” (currículo) e ela explicou que apenas informava o congresso, o local, data e o título da apresentação; não era necessário comprovar com papelzinho assinado pelo presidente do evento, pois ninguém arriscaria sua credibilidade mentindo ter realizado uma palestra que na verdade não fez.

Quando ela me contou isso me senti um perfeito caipira…

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Lillie Excellence

Muito maravilhoso participar de um painel no Dia Internacional da Mulher com ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais de tantos países, em especial da Índia e do Irã, onde a cultura nos parece tão diferente. Entretanto, quando vemos a questão do parto e nascimento percebemos que temos problemas semelhantes na luta pela autonomia das mulheres.

Já dizia Max “O parto é um fenômeno da cultura que ocorre no corpo das mulheres”, mostrando que a nossa relação com o que nos cerca é dialética. “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, diria o mestre de Freiburg, e desta forma o parto é o exato reflexo da cultura onde está inserido. Sociedades violentas vão produzir partos violentos, que estimularão o surgimento de adultos aptos para reproduzir esta violência. O contrário também é verdadeiro: uma cultura de paz e respeito com as mulheres produzirá uma sociedade que cultua seus laços de fraternidade.

Mudar o parto demanda, portanto, transformar o contexto onde ele se insere, mas que melhor maneira para começar essa tarefa senão trazendo mais bebês marcados pelo imprint da dignidade e da humanidade resgatadas? Mudando o parto, mudamos a humanidade, e uma humanidade transformada trará a autonomia e a dignidade para cada nascimento.

Thanks for all my friends in the world conneccted by the passion for birth.

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Idiomas distintos

Os médicos que ultimamente discursam contra o uso do termo “violência obstétrica” tem argumentos que eu consigo entender perfeitamente. Convido a uma reflexão.

Imagine que você passa 30, 40 anos trabalhando apenas em hospitais, atendendo bebês que não conseguem nascer de parto normal, tratando diabéticas, aprendendo sobre as drogas a usar, cuidando de hipertensas, gestações ameaçadas pela pré-eclâmpsia, analisando o melhor momento para intervir, operar, retirar um bebê pela via cirúrgica, depois costurar e aguardar a cicatrização adequada da ferida operatória. E fazer tudo isso com genuíno interesse de cuidar, muitas vezes conseguindo até salvar as vidas em risco.

Não apenas isso, mas há que contabilizar anos de dedicação, aulas na faculdade, provas, estágio, residência. Plantões intermináveis, noites mal dormidas, dedicação absoluta, pagamento escasso, crises familiares, angústia, medo, filhos sem pai ou mãe no aniversário. Estresse.

E aí aparece um monte de mulheres furiosas dizendo que o que você faz é violência obstétrica, como se tudo o que é feito pela medicina fosse carregado de egoísmo e maldade. Como se as ações realizadas não passassem de agressões dissimuladas, e igualmente destrutivas. E as vidas salvas? E os bebês resgatados de uma morte certa? E as mães que sucumbiriam sem esta ajuda?

Tente se colocar dentro dos sapatos dos médicos e andar mil km com deles. Só então poderá entender esta indignação.

Não há como negar esta perspectiva e não é necessário, da mesma forma, pintar os profissionais que atendem parto como seres cruéis e insensíveis. A questão não é moral, é sensorial e sistêmica.

A verdade é que estes velhos obstetras, apesar da idade, jamais se permitiram tocar por um nascimento fora do universo conceitual da biomedicina ocidental. É o único paradigma que lhes foi permitido conhecer. Para eles, parto e nascimento se esgotam no conhecimento técnico, focado na patologia, na figura do profissional médico e encerrado dentro dos hospitais. Carecem eles de uma perspectiva mais sensível e emocional, social e espiritual, psicológica e humana, elementos que compõe a complexidade desse evento. Essa perspectiva complexa e abrangente não é oferecida na escola de Medicina porque se contrapõe à ordem da obstetrícia, a qual se estabelece a partir da defectividade essencial feminina e do imperativo tecnocrático.

Em verdade as pessoas continuam cometendo equívocos mesmo depois de saberem que estão erradas ou ultrapassadas, pois as forças inconscientes que mantém estas condutas são mais fortes do que aquelas que as impelem à mudança. Só a dor produz transformação. Por outro lado, é preciso entender e acolher. Em verdade, creio que fazendo nós mesmos o que exigimos deles será o melhor caminho. Porém, lembre que “entender” não significa “aceitar” ou “concordar”.

Por certo que existe sentido em responsabilizar a Universidade, mas sejamos sinceros; os alunos repetem e incorporam como rotina o que escutam nas aulas ou que observam de seus referenciais profissionais? No meu tempo (espero que seja diferente hoje) os professores davam aulas (via de regra muito ruins) sobre fisiologia de parto e depois traziam pacientes particulares para serem operadas sem qualquer justificativa médica em hospitais públicos no plantão do hospital escola em que fazíamos residência. Todos nós sabíamos que os consultórios privados deles eram uma fábrica de cesarianas. Alguns davam aula e sequer trabalhavam com obstetrícia, mas aceitavam cesarianas com “hora marcada”.

Os alunos aprendem, acima de tudo, pelo exemplo!!! Alguns contratados da residência respondiam com risadas ao comentarem sua prática e diziam de forma cínica “lá fora o mundo não é acadêmico”. Esse exemplo entra direto no coração dos alunos: lutar pelo parto normal é “academicismo”; o mundo real é diferente do que se escuta em aula.

Sei que existem profissionais de qualidade hoje em dia, mas a realidade dos abusos, das múltiplas violências e da epidemia de cesarianas não pode ser encarada como ocasional. Ela é fabricada coletivamente pela cultura, e executada pelos profissionais. Pacientes envolvidos em medo e desinformação produzem médicos amedrontados e que apostam nessa mesma desinformação como forma de proteção. Um círculo vicioso que só se quebra com ação política e informação.

Há muitos anos que não me deixo seduzir pela ilusão de que é possível educar médicos para que tenham uma prática mais baseada em evidências no que diz respeito à obstetrícia. Não há como treinar profissionais durante 9 anos pela ideologia da intervenção e depois solicitar que sua prática se contraponha a isso. Todavia, eu cobro dos médicos pela situação absurda que vivemos, em função de sua posição de autoridade e pelo conhecimento que deveriam ter. Deveria partir dos médicos a reflexão necessária, mas o que fazem? Montam seminários pomposos para combater o termo “violência obstétrica”, ao invés de aceitar as críticas, reconhecer os desvios e lutar por uma reforma obstétrica – a exemplo do que ocorreu com a psiquiatria.

Para estes velhos médicos é incompreensível o que escutam das mulheres, porque jamais conseguiram entender o parto por um viés diferente do que receberam. Trata-se de um debate “lost in translation”; as mulheres exigem ser tratadas como sujeitos e protagonistas de seu destino, mas falam em um idioma que eles não entendem. Para entender essa língua estranha é preciso olhar com outros olhos, mudar a perspectiva, e com isso desafiar todo o seu conhecimento. Esta mudança de postura, desenvolvendo uma forma desafiante de sentir o parto, demanda coragem.

E isso também não se aprende na escola.

A revolução do parto, portanto, não virá de uma melhor compreensão dos médicos sobre o processo de nascimento, e nem de uma obediência rígida aos avanços da ciência por parte deles, no que tange ao respeito à fisiologia do parto. Não, a transformação virá da união da sociedade civil exigindo que a atenção ao parto seja conduzida da melhor forma e pelos melhores profissionais; será, sem dúvida, pela luta das mulheres.

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O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

A episiotomia inicialmente proposta por Sir Fielding Ould, em seu livro Treatise of Midwifery in Three Parts, publicado no ano de 1742 na língua inglesa.Entretanto, somente em 1799, Michaelis afirmou ter realizado uma incisão perineal durante o nascimento de um bebê. O termo episiotomia foi criado no ano de 1857 por Carl Von Braun, na Áustria, mas foi tornado popular por Joseph De Lee no início do século XX. A partir do início do século passado o nascimento passou a ser visto como evento perigoso (elevada morbidade e mortalidade materna e perinatal) mas, ao contrário do que acontecia até então, passou a requerer obrigatória assistência médica para prevenir riscos e reduzir morbidade e mortalidade materna e neonatal. A episiotomia se encaixava nesta visão ao oferecer aos médicos o controle sobre o curso do nascimento, garantindo-lhes autoridade e protagonismo.

Todavia, a observação cuidadosa do resultado desta intervenção demonstrou de forma definitiva que ela não oferece o que promete. Não encurta o período expulsivo do parto, não protege o períneo e muito menos produz resultados positivos sobre o bebê, e os estudos sobre a inutilidade das episiotomias foram publicados por Thacker & Banta em 1987, há mais de 30 anos. Assim sendo, como é possível entender que uma intervenção cirúrgica – incapaz de comprovar sua utilidade – manteve-se na prática médica cotidiana por mais de um século? Como pode uma especialidade médica, que se pretende racional e científica, utilizar técnicas sem qualquer evidência científica positiva de seu uso?

Há alguns tomei conhecimento de um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa a operacionalidade de seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado sobre o corpo da mulher, a chave que abre as portas do nascimento, a assinatura do autor na obra, grafando na carne a autoria de quem, usando os mais claros elementos da “couvade“, expropria o evento de quem realmente o produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na pretensa defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. As episiotomias foram a desculpa perfeita para afastar da disputa as parteiras, profissionais que trataram das mulheres durante milênios, oferecendo seu tempo e sua dedicação à arte de cuidá-las. Para tomar posse destes corpos era necessário mostrar o valor das intervenções, sua superioridade e sua eficiência (mesmo que ilusória) e descrever a natureza como vilã traiçoeira, que escolhia as mulheres como suas vítimas contumazes.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as perspectivas que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos nos últimos 80 séculos. A verdadeira motivação – inconsciente, porém não menos poderosa – para a prática desta cirurgia mutilatória e ritualística da medicina ocidental é a manutenção do controle sobre a sexualidade feminina, pois que ela é essencial para a estrutura social, onde o patriarcado e o capitalismo desempenham a função de estruturas fundamentais para sua sustentação.

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