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Indignação

Michael Löwy é um pensador marxista brasileiro radicado na França, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique.

Nunca esta frase de Michael Löwy foi tão importante para acordar as novas gerações. A indignação é o motor de todas as verdadeiras transformações sociais, das menores às maiores. Sem ela não há afeto, e sem as emoções afloradas não é possível mobilizar nossa potencialidade para a luta. Parafraseando a antropóloga britânica Sheila Kitzinger em seu livro “The Politics of Birth”, “Não se faz uma revolução com tapinhas nas costas”. Não mudaremos a realidade política no Brasil cuidando dos sentimentos feridos, acalentando emoções despedaçadas ou tendo cuidado para não ferir suscetibilidades. Para fazer um omelete é preciso quebrar as cascas dos ovos. O espírito de indignação precisa ser estimulado, porque sem ela só produzimos a estagnação e a cristalização das opressões.

Não é possível modificar os sistemas de poder numa determinada sociedade sem atingir aqueles que se acastelaram em posição de autoridade. Fazer concessões insensatas, acreditar em “consensos”, iludir-se com promessas e apostar em avanços fantasiosos (criados para que nenhuma mudança real ocorra) são formas altamente eficientes de adiar o necessário câmbio de paradigma. Todavia, poucos tem a capacidade de reconhecer a importância da inquietude que brota de um espírito revolucionário; a indignação ainda é vista como defeito, como uma falha de caráter que ocorre em sujeitos a quem nenhuma satisfação é possível. Por resta razão, mesmo nos movimentos populares e no seio do ativismo, prolifera um espírito contra-revolucionário que nos estimula a ter “paciência”, a conversar com os poderosos, a fazer infinitas concessões, a negociar e acreditar que a retórica move montanhas e que o bom senso, no fim, prevalecerá.

“Parem de nos matar”, dizem as próximas vítimas, na ilusão que isso fará aflorar a comiseração dos algozes. “Queremos comer” gemem os famélicos esperando, ao menos, migalhas dos seus opressores. “Exigimos dignidade” dizem as gestantes, despidas de autonomia e protagonismo, como se alguma vez na história da humanidade qualquer direito tenha sido conquistado pela bondade de quem o concedeu.

Sem a necessária indignação nenhum movimento é possível. Ela é a força da transformação, sem a qual tudo se cristaliza e morre.

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Publicidade e Medicina

É surpreendente a confusão que as pessoas (inclusive, e principalmente, os médicos) fazem entre “ciência”, “progresso”, e uso irrestrito de tecnologia para o tratamento de doenças – ou sua prevenção. Parece que perdemos a capacidade de raciocinar de forma isenta. Muitos ainda analisam a ciência como um ente objetivo, infensa às flutuações culturais do seu tempo, sem sofrer as pressões brutais do capitalismo que, em última análise, a mantém, financia e controla. Um exemplo disso é a reação pífia de médicos e da população em geral diante da recente retirada de circulação da vacina da AstraZeneca. “De um total de 40 casos prováveis e confirmados de Síndrome de Trombose com Trombocitopenia distribuídos por dose de vacina para covid-19, notificados no e-SUS Notifica Brasil (excluindo-se São Paulo), 34 foram atribuídos à vacina da AstraZeneca”. Aliás, essa foi a vacina que eu tomei, de cujo risco jamais fui alertado.

Já pararam para pensar o que aconteceria com o pobre mortal que resolvesse questionar a segurança dessas medicações há….. apenas 2 anos? O que aconteceu com quem teve a coragem de perguntar: “Essa medicação foi adequadamente testada?”. Não precisa imaginar; existem milhares de exemplos de “bruxos” queimados nas fogueiras por ousarem desafiar as verdades inquestionáveis da BigPharma – transformadas em “ciência isenta”. Os que ousaram fazer perguntas inconvenientes foram aqui chamados de “Negacionistas!!!!“, ou rechaçados aos gritos de “Bolsonarista, vá tomar Cloroquina seu idiota!!” Criamos uma tal polarização no debate sobre medicamentos que a análise racional foi impiedosamente sepultada, completamente consumida pela dualidade irracional que se formou. Pessoas como eu – de esquerda mas também radicalmente céticas em relação ao compromisso ético das corporações farmacêuticas – eram impedidas de comentar, pois corriam o risco de serem espancadas – e por ambos os polos digladiantes.

“As empresas farmacêuticas gastam US$ 480 bilhões todos os anos” (quase meio trilhão de dólares). “Desse valor, 5% vão para pesquisa e desenvolvimento; os outros 95% são gastos em marketing. Há muito interesse próprio trabalhando nos bastidores para criar novos distúrbios e disfunções, medicalizando a vida cotidiana, retratando problemas leves como sérios, ampliando os limites do diagnóstico, criando ferramentas de avaliação extensas e corrompendo a pesquisa médica”. (veja o artigo completo Med Men aqui)

… e destruindo a reputação de pesquisadores do mundo inteiro que ousam perguntar sobre a segurança e a efetividade das drogas que somos forçados a usar.

Impossível olhar para a ação predatória dessas gigantes multinacionais da BigPharma e não imaginar a cena da chegada dos navegadores europeus em terras do Novo Mundo, no final do século XV. Era de se imaginar que a reação mais natural por parte de quem os recebia seria a desconfiança. Afinal, por que haveriam eles de oferecer presentes sem exigir algo (valioso) dos nativos? E por que deveria esta troca ser justa, se os forasteiros aqui chegavam com suar armas, seus germes e seu aço enquanto os indígenas estavam vestidos apenas com sua ingenuidade, seu assombro e sua nudez? Por certo que entre os nativos algum deles questionou: “Será mesmo seguro receber por aqui gente tão estranha? Será que o que trazem é verdadeiramente algo de bom para nós?”

Entretanto, por certo que estes últimos não foram ouvidos. Enquanto eles falavam os outros se embeveciam com os badulaques, espelhos e contas presenteadas pelos viajantes, hipnotizados e embriagados pelo brilho fulgurante das novidades, as quais obliteravam a percepção completa da realidade. É provável que aqueles que alertaram para os perigos do contato com os europeus foram imediatamente tratados com rudeza, e até mesmo violência. Hoje, o modelo de publicidade das farmacêuticas americanas leva o consumidor de lá a ver as drogas como mais um artefato de consumo, como sapatos, armas, carros e bijuterias, mas poucos são os que se dão conta da armadilha na aventura das drogas. E o pior: trazem para cá como se fossem a “última moda em Nova York”. E nós, ingenuamente, compramos…

“Os fabricantes de dispositivos organizam ou alugam estandes em conferências, onde envolvem os principais líderes de opinião (pagando) médicos famosos em suas áreas para falar e recomendar seus produtos; os fabricantes também tratam compradores em potencial com jantares luxuosos, sacolas de brindes e preços promocionais que tornam os procedimentos mais lucrativos ao longo do tempo.”

Oferecer o status de ciência à empresas capitalistas multinacionais que lucram com diagnósticos cada vez mais forçados (muitos deles criados apenas para favorecer a venda dos remédios) e com o consumo das drogas que elas próprias vendem é um erro que pode ter efeitos devastadores para a humanidade. Segundo a professora da Universidade Georgetown Professor Adriane Fugh-Berman sobre o tema da criação de enfermidades, “O marketing de medicamentos pode começar de sete a dez anos antes de chegarem ao mercado. Como é ilegal promover um medicamento antes de ele ir para o mercado, o que eles estão promovendo é a doença. Isso não é ilegal porque não há regulamentação sobre a criação de enfermidades.” Em 12 anos os Estados Unidos pularam de 3.6 bilhões em publicidade de drogas para 32.7 bilhões, um acréscimo de quase 1000% no montante dispendido, uma estratégia cada vez mais agressiva para que essa “pílula” seja mais fácil de engolir. Mais interessante é ver que a maioria das drogas prescritas – quase 70% delas – 92 das 135 drogas mais populares – são aquelas consideradas como pouco efetivas. Ou seja: a propaganda de medicamentos nos faz comprar lixo, ou pílulas de baixo efeito para a melhoria da saúde, mas que oferecem alta lucratividade para os mercadores de drogas.

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O Ocaso do Parto Normal

Foto de Amanda Vargas para Bebê Abril

Vejo, com certo desânimo, que se fortaleceu o discurso que suaviza as cesarianas, tratando-as como cirurgias que podem ser “humanizadas”. Essas coisas já me incomodaram muito no passado; hoje só me entristecem. Durante anos sustentei a tese de que a humanização só pode existir aliada ao protagonismo. Todavia, na cesariana o protagonismo é entregue ao médico e, portanto, não há como “humanizar” aquilo sobre o qual não temos controle, somente exigir que seja feita de forma respeitosa e suave. “Humanização do nascimento é a garantia do protagonismo à mulher; o resto é sofisticação de tutela”.

Eu às vezes acredito que a “cultura do parto normal” é um projeto falido, algo como tentar evitar que as crianças usem o celular em excesso. Existe uma conexão violenta com estas tecnologias em ambos os casos, e as tentativas de “discipliná-las” fracassa diante do desejo incontrolável que leva ao seu uso. Lutamos contra condicionantes culturais extremamente poderosos, em especial porque o próprio parto normal atua contra os princípios fundamentais do capitalismo e nos faz pensar nos limites da tecnologia. “Os tempos do parto agridem a roda do capital”.

A ideia de que a forma de nascer é constituinte da formação do sujeito que está nascendo, tanto quanto da mulher que surge de seus escombros, é tão sofisticada e sutil que as pessoas comuns simplesmente não conseguem captar essa proposta. “Ora, para que sofrer horas à fio se posso resolver esse drama em 20 minutos? Riscos? No jornal e nos tribunais só aparecem casos desastrosos de parto, jamais de cesarianas. Por que deveria eu me submeter a um modelo de nascimento fracassado, antigo, cruel, sacrificial e ultrapassado?”

Como convencer mulheres do contrário? Um dos sinais desse fracasso é exatamente a proposta sutil de “humanizar” a cesariana, tirando dela sua aura de “intervenção” ou “alienação”. Para isso usamos a palavra “humanizada” para qualificá-la descrevendo o cuidado, a atenção, o carinho e o afeto que podem ser usados nesta cirurgia – apesar de que, por esse critério, até uma apendicectomia pode ser “humanizada”. Esse movimento – a troca de termos – sugere uma lenta e gradual capitulação. “Já que é impossível convencer que os sacrifícios (sacro ofício) de um parto normal produzem benefícios que se multiplicam para toda a vida, vamos pintar de dourado sua alternativa, mostrando a cesariana como algo igualmente belo e empoderador, “humanizando” a abertura de sete camadas de tecidos e transformando a extração fetal em um gesto de amor”. A frase que segue é sempre “não sinta vergonha por suas decisões”.

Pois não há vergonha alguma em admitir que talvez a luta pela humanização do nascimento venha a fracassar. Talvez mesmo as mulheres não queiram mais passar por este processo, mesmo com décadas de pesquisa científica mostrando a superioridade do parto normal, em todos os níveis, sobre a cirurgia para a retirada de bebês. É necessário ser maduro o suficiente para aceitar a possibilidade de que o futuro do nascimento humano será totalmente artificial, sem qualquer participação ativa das próprias mulheres, a quem – ainda – será reservada a nutrição e o desenvolvimento dos bebês em seus corpos. Com o tempo até este peso será retirado delas, e os novos integrantes da sociedade serão nutridos e criados em chocadeiras humanas. Um alívio, uma libertação, uma evolução – dirão muitos.

Não estou sendo irônico. Quando vejo obstetras usando a expressão “cesariana humanizada” eu percebo o início da estrada cujo destino final é a lenta extinção de um capacidade fisiológica. A atrofia sistemática das capacidades de parir, acrescida do extermínio lento e gradual de profissionais que cuidam do parto normal – habilidades desenvolvidas por milhões de anos em nosso gênero – me obrigam a uma visão pessimista do futuro do parto. O resgate do parto é a busca por nossa essência, entretanto a suprema alienação das mulheres desse processo e a expropriação definitiva do nascimento pela tecnologia são realidades que não surgirão por decreto, mas por passos quase imperceptíveis, os quais só podem ser captados por quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Por certo que não se trata de um destino já determinado. Cabe às mulheres decidir sobre algo que, em última análise, é o grande diferencial em sua função planetária. Entretanto, quando nenhuma criança mais surgir através do esforço e da dedicação de uma mulher, quando o grito primal for substituído pelos ruídos metálicos da mesa cirúrgica e quando a voz embargada do pai der lugar aos gracejos dos médicos no campo operatório, a estrutura psíquica que nos constitui estará radicalmente alterada e a sociedade como a conhecemos será radicalmente outra. Se existe amor, este é o amor de uma mãe pelo seu filho, sendo todos os outros amores dele derivados. A maior função de uma mãe é ensinar seu filho a amar. O que será da humanidade quando for suprimida do cotidiano de todos os seus habitantes nossa primeira e majestosa lição?


Veo, con cierta consternación, que se ha fortalecido el discurso que suaviza las cesáreas, tratándolas como cirugías que se pueden “humanizar”. Estas cosas me han molestado mucho en el pasado; hoy solo me entristecen. Durante años sostuve la tesis de que la humanización sólo puede existir en conjunción con el protagonismo. Sin embargo, en la cesárea, el papel principal lo tiene el médico y, por lo tanto, no hay forma de “humanizar” lo que no tenemos control, solo para exigir que se haga de manera respetuosa y gentil. “La humanización del nacimiento es la garantía del protagonismo de la mujer; el resto es sofisticación de la tutela”.

A veces creo que la “cultura del nacimiento normal” es un proyecto fallido, algo así como tratar de evitar que los niños usen en exceso sus teléfonos celulares. Hay una conexión violenta con estas tecnologías en ambos casos, y los intentos de “disciplinarlas” fracasan ante el deseo incontrolable que impulsa su uso. Luchamos contra restricciones culturales extremadamente poderosas, especialmente porque el nacimiento normal en sí mismo actúa en contra de los principios fundamentales del capitalismo y nos hace pensar en los límites de la tecnología. “Los tiempos del parto atacan la rueda del capital”.

La idea de que la forma de nacer es un constitutivo de la formación del sujeto que nace, así como de la mujer que emerge de sus escombros, es tan sofisticada y sutil que la gente común simplemente no puede captar esta propuesta. “Bueno, ¿para qué sufrir horas y horas si puedo resolver este drama en 20 minutos? ¿Riesgos? En el periódico y en los tribunales solo aparecen casos desastrosos de parto, nunca cesáreas. nacimiento, cruel, sacrificial y anticuado?”

¿Cómo convencer a las mujeres de lo contrario? Uno de los signos de este fracaso es precisamente la sutil propuesta de “humanizar” la cesárea, quitándole su aura de “intervención” o “alienación”. Por eso, usamos la palabra “humanizado” para calificarlo describiendo el cuidado, la atención y el afecto que se pueden usar en esta cirugía, aunque, según este criterio, incluso una apendicectomía puede ser “humanizada”. Este movimiento -el intercambio de términos- sugiere una capitulación lenta y gradual. “Como es imposible convencer que los sacrificios (oficio sagrado) de un parto normal producen beneficios que se multiplican de por vida, pintemos de oro su alternativa, mostrando la cesárea como algo igualmente hermoso y empoderador, “humanizando” la apertura de siete capas de tejido y convirtiendo la extracción fetal en un gesto de amor”. La frase que sigue es siempre “no te avergüences de tus decisiones”.

No hay vergüenza en admitir que tal vez fracase la lucha por la humanización del nacimiento. Quizás incluso las mujeres ya no quieran pasar por este proceso, incluso con décadas de investigación científica que muestran la superioridad del parto normal, en todos los niveles, sobre la cirugía para dar a luz. Es necesario ser lo suficientemente maduro para aceptar la posibilidad de que el futuro del nacimiento humano sea completamente artificial, sin ninguna participación activa de las propias mujeres, a quienes – aún – les estará reservada la nutrición y el desarrollo de los bebés en sus cuerpos. Con el tiempo, incluso se les quitará este peso de encima, y ​​los nuevos miembros de la sociedad serán nutridos y criados en incubadoras humanas. Un alivio, una liberación, una evolución – dirán muchos.

No estoy siendo irónico. Cuando veo a los obstetras utilizar la expresión “cesárea humanizada” percibo el inicio de un camino cuyo destino final es la lenta extinción de una capacidad fisiológica. La atrofia sistemática de la capacidad de dar a luz, sumada al lento y paulatino exterminio de los profesionales que atienden el parto normal – habilidades desarrolladas durante millones de años en nuestro género – me obligan a tener una visión pesimista del futuro del parto. El rescate del parto es la búsqueda de nuestra esencia, sin embargo la alienación suprema de la mujer de este proceso y la expropiación definitiva del nacimiento por parte de la tecnología son realidades que no emergerán por decreto, sino por pasos casi imperceptibles, que sólo podrán ser captados por aquellos que tienen ojos para ver y oídos para oír.

Ciertamente, este no es un destino predeterminado. Corresponde a las mujeres decidir sobre algo que, en definitiva, es el gran diferencial en su rol planetario. Sin embargo, cuando ya no surgen más hijos gracias al esfuerzo y dedicación de una mujer, cuando el “grito primal” es reemplazado por los ruidos metálicos de la mesa de operaciones y cuando la voz quebrada del padre da paso a las bromas de los médicos en el campo de operaciones, la estructura psíquica que nos constituye será radicalmente alterada y la sociedad tal como la conocemos será radicalmente diferente.

Si hay amor, es el amor de una madre por su hijo, todos los demás amores se derivan de él, y la mayor función de una madre es enseñar a su hijo a amar. ¿Qué será de la humanidad cuando nuestra primera y majestuosa lección sea suprimida de la vida cotidiana de todos sus habitantes?

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Paradigma

Segundo um obscuro professor de medicina da província, “doula é igual a verdureiro”, pois sua função não é regulamentada. Na verdade, as palavras do professor expressam o medo de testemunhar uma real mudança na forma de encarar o nascimento. As doulas fizeram a maior revolução na atenção ao parto desde a sua institucionalização, e exatamente por isso são atacadas por representantes do velho paradigma. Esse choque paradigmático ocorreu precisamente porque as doulas preenchem o espaço deixado pela falha do sistema médico tecnocrático em reconhecer as necessidades psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais das gestantes, em especial no momento de parir.

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Parto: passado, presente e futuro

O movimento de humanização do nascimento não se produz num vácuo conceitual mas, pelo contrário, surge no bojo das profundas transformações do pós guerra no que diz respeito à distribuição dos gêneros no mercado de trabalho, nos costumes, nos direitos sobre o corpo e nas questões relativas à sexualidade – incluindo aí a contracepção e o ciclo gravídico-puerperal. Nos anos 70-80 pela primeira vez se tornou possível mensurar de uma forma metódica e abrangente o resultado da invasão tecnológica sobre o parto ao confrontarmos os resultados obtidos pela institucionalização do parto com sua versão artesanal e domiciliar que foi o modelo hegemônico por toda a história da humanidade. Por esta razão nesta época apareceram no nosso horizonte os primeiros contrapontos ao modelo vigente.

No que diz respeito ao terreno das ideias, a partir desse período era possível beber em diversas fontes. Entre as principais referências estavam na Inglaterra o obstetra Grantly Dick-Read, que tratou da ambiência do parto e suas repercussões (em especial o ciclo medo-tensão-dor) e o parto como fato social; na França surgiu Fernand Lamaze que falava dos domínios do consciente sobre o parto. Mais uma vez na França surgiu a questão da violência na atenção ao parto, e Frederick Leboyer surgiu com a perspectiva do recém-nascido e o conceito de “imprint”. Ainda na França, Michel Odent abriu um portal no entendimento do parto ao falar desse evento como fenômeno “mamífero”, com seus estudos da etologia e os efeitos da ocitocina para o rtabalho de parto e o psiquismo materno. Finalmente, nos Estados Unidos surge o trabalho da antropóloga e Robbie Davis-Floyd que nos apresenta a perspectiva ritualística do parto, e os elementos simbólicos das rotinas obstétricas. Estes foram personagens e ideias que produziram o arcabouço ideológico que fomentou nossa perspectiva teleológica do processo de nascimento. O modelo humanista, surgido do caldo de ideias desses pensadores, ocorre em contraposição à crescente alienação das mulheres no ato de parir e o domínio da tecnologia sobre seus corpos. Certamente que a tarefa de desconstrução sobre o modelo tecnocrático de atenção ao parto só poderia ocorrer de forma conflituosa, porque sobre o corpo das mulheres existem claras demarcações, zonas de domínio, que são próprias da estruturação do modelo patriarcal. Desta forma, o movimento de humanização passou por etapas cujo reconhecimento é extremamente essencial para sua continuidade. Também é importante entender que, como todo fenômeno social, estas etapas não são estanques e são intercambiáveis no tempo e no espaço.

1- Indignação e Acolhimento

A primeira etapa é o que eu chamo de “Acolhimento“. O acolhimento vai ocorrer quando um sujeito, vítima real de uma situação ou contexto, procura a ajuda de pessoas que possam lhe escutar e entender suas feridas e traumas. Os primórdios da humanização do nascimento, desde o início das “list servers” sobre parto humanizado, eram recheados de histórias e relatos de partos onde a dignidade e a autonomia das mulheres e bebês foi claramente ofendida. Era tarefa dessa comunidade acolher as vítimas de um modelo de atenção que lhes parecia violento e insensível. O problema é que o ser humano tem mecanismos de satisfação que lhe permitem obter vantagens pela sua condição de vítima, seja por benefícios ou privilégios. Essa atitude é muito primitiva em nós, bastando para isso ver uma criança que chora copiosamente ao cair, sabendo que isso significará um ação acolhedora da mãe. Com o tempo esta atitude pode se tornar padrão de comportamento, criando uma criança manhosa, que percebe na sua condição real (ou fantasiosa) de vítima uma chance de receber o prêmio do carinho que deseja. Na atenção ao parto muitas mulheres se recolhem na condição de vítimas do sistema e o movimento de humanização às acolhe, gerando um circuito que oferece a elas um gozo pela sua condição.

É evidente que esta ação não pode perdurar porque uma regra básica das relações humanas é que a pessoa que se encontra na condição de vítima não pode ser protagonista, uma condição antagônica a esta posição. Desta forma o padrão maternal acolherá a criança ou o adulto vítima e lhe dará o cuidado necessário para sua proteção e recuperação, mas manterá o sujeito preso a um vínculo de dependência. Somente a posição paternal subsequente poderá livrar o sujeito dessa condição, obrigando-o a uma posição proativa. É importante notar que posições maternais e paternais se referem às funções e não aos personagens mãe e pai e muito menos às identidades de mulher e homem.

2- Punição

Essa condição de vítima é geradora de ressentimentos e o ressentimento vai produzir o segundo passo neste processo que é o “Punitivismo“. Esta foi uma tendência marcada nos primeiros anos do movimento de humanização. Se conhecíamos as vítimas de uma atenção inadequada por certo que haveria aqueles a quem culpar, em especial os que detém mais poder e conhecimento autoritativo. Nessa etapa muito se discutia sobre as punições devidas aos médicos e hospitais que utilizavam de forma exagerada e insensata os recursos tecnológicos. Da mesma forma como o enxergamos nos problemas sociais, o punitivismo na obstetrícia se baseia na crença que o aumento ou alargamento das punições sobre médicos e hospitais poderia garantir uma maior qualidade da atenção, pela simples eliminação da impunidade. Décadas de observação e inúmeras experiências nos mostram que esta é uma estratégia equivocada e de resultados pífios. Se punir quem vendia álcool na lei seca não diminuiu seu consumo, porque a punição aos médicos poderia trazer qualquer benefício, em especial quando sabemos que eles são igualmente reféns do “imperativo tecnológico” que os mantém prisioneiros de um modelo tecnocrático e intervencionista, mesmo quando têm pleno conhecimento de que não é o mais adequado.

3- Idealismo

A etapa seguinte eu chamo de “Idealismo”. Esta etapa ocorre quando vemos o florescimento de uma enorme quantidade de ideias e propostas relacionadas à atenção ao parto. Começamos a nortear nossas ações centrados nos trabalhos, pesquisas e estudos de ideólogos e pesquisadores que produziram um olhar desafiador sobre o parto. Assim, o “parto Leboyer” surgiu como uma prática – repleta de variantes – a partir das ideias do obstetra francês Frederick Leboyer. Alguns anos após, outro francês, Michel Odent, nos convidava a refletir sobre nossa ancestralidade e as reais necessidades de uma gestante em seu momento de parir. A partir deles, muitos outros vieram, entretanto, como pode ser facilmente observado, “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam”. O livro de Robbie “Birth as an American Rite of Passage” foi publicado há mais de 30 anos, e nessas três décadas o cenário do nascimento humano no mundo ocidental apenas piorou no que diz respeito à autonomia das mulheres, mesmo com grande acúmulo de perspectivas inovadoras e estudos que as embasam. As taxas de cesariana no Brasil chegaram a um platô que se situava entre 55 e 57% e não conseguem descer abaixo disso – em verdade os últimos relatórios falam de uma taxa de 59.7% de cesarianas e 82% no setor privado – inobstante as boas iniciativas de algumas instituições e poucos profissionais. As Intervenções continuam em alta, apesar de inúmeras publicações demonstrando sua inutilidade e mesmo seu efeito deletério para o binômio mãe-bebê

Fica evidente que as ideias são incapazes – por si só – de promover mudanças. Por mais que os médicos saibam da inutilidade da episiotomia, da alta taxa de cesarianas, dos enemas e da posição de litotomia, o simples reconhecimento desses erros não os leva a mudanças significativas em suas atitudes. Esse tipo de pensamento idealista nos levou a fazer “caravanas” pela humanização do nascimento no início do século, baseados na ilusão de que a simples confrontação com a verdade das pesquisas seria capaz de imprimir novas condutas médicas. Ledo engano; não houve nenhuma mudança significativa; nenhum índice de intervenção se tornou melhor pela demonstração prática de sua inadequação. Mesmo o programa “Parto Adequado” que foi utilizado em hospitais privados – o ponto nevrálgico das intervenções desmedidas – teve um “sucesso” inicial de diminuir em 1% as intervenções de nascimentos cirúrgicos, mas os valores voltaram a crescer algum tempo depois. A “educação médica” não parece surtir efeito, pois parte de uma perspectiva que não reconhece a dinâmica de poder que permeia a atenção à saúde.

4- Reformismo

A próxima etapa é derivada do idealismo e se refere a um movimento que ainda é hegemônico entre os obstetras “liberais”, aqueles simpatizantes do parto normal (também conhecidos como “vaginalistas”) e entre muitos profissionais das correntes da humanização do nascimento. Ela se chama “Reformismo“, que consiste na ideia de que é possível transformar a atenção ao parto se houver uma educação ampla, reforma no ensino da medicina, contratação de médicos alinhados com os projetos de humanização e estímulo à contratação de enfermeiras obstetras pelos centros de atenção ao parto. Essa proposta acredita que é possível “moralizar” a atenção apostando no sujeito, nos “bons profissionais” (os “good guys”) na suavização de suas práticas, na eliminação de intervenções desnecessárias, na educação e na informação científica atualizada – mas não na mudança do sistema no qual estes profissionais estão inseridos.

Existem inúmeros hospitais de caráter reformista na atualidade, alguns por acreditarem nessa proposta, enquanto outros por entenderem que se trata de um modelo intermediário para uma verdadeira mudança que só ocorrerá num futuro distante. No último congresso internacional da ReHuNa houve um momento profundamente revelador dessa proposta: o convite para que o presidente da Febrasgo (Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia do Brasil) tivesse uma fala. Nesta ocasião ele se mostrou educado, afável e compreensivo com as reivindicações dos seus entrevistadores. Para muitos um ato de reconhecimento de nossa relevância. Todavia, deveria ter ficado evidente para todos os presentes em sua palestra que a sua concordância – ou não – com as nossas propostas é absolutamente irrelevante para uma real transformação. O mesmo acontece com uma mesa em que representantes israelenses se encontram com a população palestina para discutir o futuro da região. As posições jamais serão alcançadas através da simples concordância com as visões dispares de mundo, e qualquer solução só poderá brotar do atrito e do choque de poderes – mais ou menos violento. Para isso é preciso uma abordagem “materialista e dialética”.

O Materialismo dialético é uma concepção filosófica e uma metodologia científica que propões a visão de que o ambiente, o sujeito e os fenômenos materiais e físicos tanto modelam a sociedade e a cultura quanto são modelados por eles; ou seja, que a matéria está em uma relação dialética com o psicológico e o social. Por mais que seja evidente a correção da luta por autonomia das mulheres em relação ao parto e nascimento, estas ideias somente terão avanços quando o ambiente social se modificar e as próprias mulheres se colocarem à frente do processo de mudança. Precisamos tanto de melhores profissionais quanto melhores clientes para o parto. Médicos e gestantes estão sujeitos ao mesmo modelo, atuam dentro dele e ao mesmo tempo são afetados por ele, e precisam agir em consonância para que este seja transformado. No atual estado da arte, a Medicina e sua lógica da intervenção está em antagonismo com as reivindicações das gestantes que desejam um parto humanizado. Jamais conseguiremos uma modificação profunda no sistema através de reformas que não mudam em profundidade o sistema de poderes que governa o corpo das mulheres, sua sexualidade e reprodução.

Enquanto o parto for considerado “ato médico” e se mantiver nas mãos de cirurgiões nenhum avanço significativo será alcançado, pois que a perspectiva médica e a visão da parteria são antípodas no espectro da atenção. A lógica médica aplicada ao nascimento objetualiza as pacientes, transformando-as em objetos dóceis e inermes para a sua atuação e intervenção. Essa lógica é essencial para o tratamento de muitas doenças e em especial para a realização de cirurgias, mas não se aplica ao atendimento de um evento fisiológico como o parto sem excluir as mulheres e seus bebês da equação. A aventura da Medicina no percurso do nascimento humano levou inexoravelmente ao apagamento das mães de qualquer decisão, colocando nas mãos dos médicos toda a responsabilidade do que vai acontecer a elas. Não por outra razão em nossa cultura os médicos “fazem partos”.

5- Revolução

O que resta como solução é deixar para trás as ilusões, entendendo a arena do nascimento como uma “luta de classes” que não vai chegar a qualquer consenso enquanto os médicos mantiverem o controle político e econômico sobre o processo de parir. Somente com a queda deste poder, e a ascensão das especialistas no parto – parteiras profissionais e tradicionais – haverá possibilidade de uma verdadeira “Revolução do Parto”, mas que só vai acontecer quando as massas, nutridas pela inescapável indignação, reivindicarem que a assistência volte ao controle das próprias mulheres e através do auxílio dos profissionais mais capacitados para este ofício. Cabe também resguardar aos médicos a nobre tarefa de agir nas circunstâncias em que a trilha da fisiologia se perdeu no emaranhado único de cada nascimento e adentrou na rota perigosa da patologia, para que eles sejam os heróis que tanto necessitamos. Todavia, diante dessa tarefa, é importante lembrar de Simon Chapman, professor de Psicologia na Austrália, que durante muitos anos estudou a questão do tabagismo e expôs a indústria de tabaco pelos seus malefícios à saúde humana. Em suas palavras “uma vez que seu trabalho ameace uma determinada indústria, corporação ou ideologia dominante, você será atacado sem tréguas e de forma cruel. Portanto, crie para si mesmo uma couraça de rinoceronte”. Todo aquele que deseja confrontar os poderes estabelecidos sobre o parto e, portanto, sobre o controle da sexualidade feminina, será atacado de forma incessante e violenta por aqueles que se sentem ameaçados pelo novo paradigma. Nunca isso foi tão verdade como agora.

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Indignação Seletiva

Parte da esquerda festiva do Brasil agora debocha das solicitações que os bolsominions presos na Papuda e na Colmeia fazem sobre as péssimas condições dos presídios. Usam a mesma retórica da direita punitivista e repetem a frase infeliz do Imperador Alexandre quando este diz que “cadeia não é colônia de férias”, dando risadas dos pedidos que alguns prisioneiros fazem sobre sua dieta – determinada por condições médicas. Outros, entre gargalhadas, insinuam que os golpistas “apodreçam na cadeia”, atitudes que demonstram que boa parte da esquerda nada mais é que uma direita de sinal trocado, incapaz de oferecer uma perspectiva civilizatória, não revanchista e progressista.

Eu prefiro olhar de outra forma. Talvez essa seja uma rara oportunidade, um momento especial para o Brasil branco e de classe média sentir na pele a dureza e a crueldade do sistema prisional medieval que vigora no Brasil. Agora, aqueles que davam risada da prisão injusta e ilegal de Lula, tem a chance de entender o quanto é indigna a vida no cárcere e porque é urgente para a sociedade debater a perspectiva do encarceramento em massa que este país emprega. Muitos relutam em aceitar que não existe justificativa para a desumanidade, e nenhuma desculpa há para o tratamento cruel, violento e degradante oferecido aos detentos nas masmorras brasileiras.

Se a melhoria das condições das penitenciárias e cadeias precisou da entrada abrupta dessa gente branca e limpinha, que assim seja. Desejar que eles sejam mal tratados – da mesma forma como a população preta e pobre sempre foi – é nivelar por baixo ao imitar a crueldade que tanto acusamos, perdendo a oportunidade histórica de mudar as condições de todos os brasileiros presos, inobstante a cor, o gênero, a religião ou o crime cometido.

Não cabe ao Estado ser uma instância de vingança e veículo para nossos instintos mais baixos. Os direitos humanos representam a conquista das sociedades contra a violência do poder absolutista sobre os cidadãos. Jogar fora estes avanços é mergulhar num medievalismo suicida.

Chocar-se – com justiça!!! – pela miséria dos Yanomamis e ao mesmo tempo fechar os olhos para a indignidade dos presídios é hipocrisia ou indignação seletiva, acreditando que alguns sujeitos são mais dignos de direitos humanos básicos do que outros.

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Revolução ou Reformismo?

O século XX nos colocou diante de uma enorme reformulação na forma como entendemos as questões relacionadas à saúde e, em especial, como atendemos partos e nascimentos. Também, no outro extremo, passamos a questionar as maneiras de fechar o ciclo da existência; hoje em dia morremos em salas altamente sofisticadas, em ambientes assépticos e rodeados de maquinário e tecnologia de ponta, onde antigamente havia tão somente a presença da família, dos amigos e dos amores. Em ambas as pontas do circuito da vida percebemos que a tecnologia invadiu de forma inexorável, prometendo a esses eventos mais segurança, ao mesmo tempo em que os desnaturalizava – e com isso os tornava paradoxalmente mais arriscados. Os nossos momentos mais marcantes sofrem uma perda crescente do contato com os aspectos mais sutis da vida – a nossa conexão com a natureza, nossas emoções e as relações amorosas que cultivamos – e, por esta razão, existe uma constante crítica aos caminhos que as sociedades contemporâneas traçaram para lidar com eles.

O Movimento de Humanização do Nascimento há muitos anos lança um olhar crítico às tendências da obstetrícia hegemônica, questionado o caráter intervencionista de suas práticas, que acabam por alijar as mulheres das decisões sobre seus próprios corpos e transformando um evento fisiológico em uma série infindável de intervenções que adicionam, apesar de oferecer mais segurança em eventos limites e de ordem patológica, aumentam o risco ao processo fisiológico de nascer. Hoje em dia em nações industrializadas como os Estados Unidos, mas também no Brasil, a chance de uma mulher passar pela experiência de um parto fisiológico e sem interrupções exageradas (e até abusivas) é de apenas 5%. Ou seja; 95% das gestantes vão se submeter aos procedimentos obstétricos invasivos que surgiram há menos de 100 anos, seduzidas pela ideia de que, sem eles, as mulheres estariam correndo sérios riscos, tanto para si quanto para seus filhos. Todavia, ao contrário da avalanche alienante e invasiva do modelo obstétrico contemporâneo ocidental, milhares de artigos e estudos atestam a falsidade destas propostas, e apontam o parto normal e vaginal como a maneira mais segura de parir e nascer.

A verdade é que, mesmo reconhecendo a importância da tecnologia aplicada à saúde – das cesarianas às UTIs sofisticadas – é inegável que houve um exagero ao se colocar nas mãos de cirurgiões a condução prioritária de um processo fisiológico e natural como o parto. Fica claro que, sendo formados e treinados intensamente para as intervenções salvadoras e para medidas emergenciais e dramáticas, os médicos obtém sua respeitabilidade e valor social através da utilização dessas ferramentas. É ingenuidade imaginar que formaremos profissionais capacitados para tarefas importantes e complexas como estas e depois os impediremos de utilizá-las livremente. Por esta razão, não é justo para a população – e menos ainda para os médicos – que a tarefa da atenção fisiológica do parto esteja delegada preferencialmente a estes profissionais, que seriam muito mais bem aproveitados se colocados na linha de frente das ações salvadoras e heroicas, e não na atenção cotidiana ao nascimento fisiológico e de risco habitual.

Para a tarefa de acompanhar e assistir os partos eutócicos (de risco habitual) já temos profissionais cujo história na atenção aos processos femininos de gestar, parir e amamentar remontam à aurora da humanidade. São as parteiras profissionais – enfermeiras obstétricas, obstetrizes (estas com formação superior) e parteiras tradicionais em suas comunidades – aquelas que realizam esta tarefa com a máxima qualidade e com segurança superior. Elas são as mais capacitadas para distinguir os processos que estão disfuncionais e encaminhá-los para os profissionais médicos. São elas as profissionais mais qualificadas para a atenção do parto normal, pois congregam os ensinamentos técnicos para uma atenção segura com a especial característica afetiva, emocional, social e espiritual de cuidar das mulheres em seus períodos de transição. O novo paradigma da Parteria precisa se apoiar sobre o trabalho destas profissionais, porém sem jamais negar a importância do trabalho médico em atuar nas franjas do processo, naqueles especiais momentos em que a rota da fisiologia dá lugar aos caminhos tortuosos e perigosos da patologia.

“As estimativas extraídas de estudos indicam que onde ocorrem intervenções realizadas por parteiras profissionais, como planejamento familiar, controle do diabete, parto assistido e apoio à amamentação, 4.3 MILHÕES de vidas poderão ser salvas por ano até 2035″

Não há mais dúvida de que o mundo ocidental não pode aceitar as promessas de um “reformismo obstétrico” imaginando treinar – ou condicionar – profissionais para uma conduta mais suave, mais embasada em evidências, menos intervencionista quando é da essência da própria prática médica a intervenção sobre o corpo doente para lhe restaurar a saúde. Todavia, o parto não se adapta a esta lógica pois não há saúde a ser restaurada, apenas para ser mantida. E para esta tarefa é muito mais importante o suporte, o cuidado, a proximidade e a empatia entre a profissional do cuidado e aquela mulher que está parindo. Esta é a tarefa para qual a parteria está qualificada e sempre demonstrou resultados superiores.

O pensador austríaco Wilhelm Reich (1897-1957) já dizia que “A civilização começará no dia em que o bem-estar do recém-nascido prevalecer sobre qualquer outra consideração.” Ou seja, não podemos mais admitir que a atenção ao parto e ao recém nascido com segurança, qualidade e com os profissionais mais adequados seja condicionada por questões econômicas, políticas, religiosas ou de qualquer outra ordem diferente do nem estar das mães e dos bebês. A transformação deste paradigma se dará também com o questionamento cada vez mais intenso do capitalismo aplicado à saúde e a vinculação dos tratamentos às grande corporações farmacêuticas. A maior utilização de “Tratamentos e práticas complementares” como acupuntura e homeopatia entre outros, é um passo nesse sentido, e todo profissional de saúde deveria adquirir conhecimentos destas alternativas para oferecer uma ampla gama de possibilidades terapêuticas às gestantes.

Precisamos desmedicalizar a vida, em especial suas pontas: nascimento e morte. É urgente uma “revolução do parto“, onde as ordens hierárquicas sejam transformadas para que os valores da segurança e satisfação de mães e bebês estejam acima de qualquer outra consideração, e onde os profissionais ocupados com o nascimento sintam-se plenamente realizados ao participar desta grande aventura da vida.

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English version

The 20th century has put us in front of a huge overhaul in the way we assist births. Also, at the other extreme, nowadays we die in highly sophisticated rooms, in aseptic environments and surrounded by state-of-the-art machinery and technology, where in the past there was the presence of family, friends and loved ones. At both ends of the circuit of life, we perceive that technology has inexorably invaded, promising more security to these events while, at the same time, denaturalizing them. These moments now suffer a growing loss of contact with the subtle aspects of life – our own connection with nature, our emotions and the loving relationships we cultivate – and, for this reason, there is a constant criticism on the paths that human beings have traced to deal with them.

The Movement for the Humanization of Birth all over the world has been debating the trends of hegemonic obstetrics for many years by questioning the interventionist tendency of its practices, removing women from decisions about their own bodies and transforming a physiological event into a series of interventions that add risk to the process. Nowadays in industrialized nations like the United States, but also in my country Brazil, the chance of a woman going through the experience of a physiological birth without exaggerated and even abusive interruptions is only 5%. Around 95% of pregnant women will undergo invasive obstetric procedures that emerged less than 100 years ago, with the illusion that, without them, all women would be at serious risk.

The truth is that, even recognizing the importance of technology applied to health – from cesarean sections to sophisticated ICUs – it is undeniable that there was an exaggeration in its overuse and in placing the management of a physiological and natural process – such as childbirth – in the hands of surgeons. It is clear that, being educated and trained intensively for lifesaving interventions and dramatic measures, physicians obtain their respectability and social value through the use of these tools. It is naive to imagine that we will train qualified professionals for important and complex tasks and then prevent them from using them freely. For this reason, after more than 30 years working with childbirth care, I realized that it is not fair to the population – and even less to doctors – that the task of physiological childbirth care is delegated primarily to these professionals, who would be very best used if placed at the forefront of lifesaving actions rather than in the daily attention to normal birth.

For this task, we already have professionals whose history in the attention to the female processes of gestating, giving birth and breastfeeding goes back to the dawn of humanity. It is the midwives – nurse midwives, midwives and traditional midwives in their communities – who perform this task with maximum quality and superior safety. They are the most qualified professionals for normal childbirth care, as they bring together the technical teachings for safe care with the special affective, emotional, social and spiritual characteristic of caring for women in their transition periods. The new paradigm of midwifery care needs to rely on the work of these professionals, but without ever denying the importance of medical work in acting on the fringes of the process, in those special moments when the route of physiology gives way to the tortuous and dangerous paths of pathology.

There is no longer any doubt that the western world cannot accept the promises of an “obstetric reform” imagining that training – or conditioning – obstetricians for a smoother, more evidence-based, less interventionist assistance could produce good outcomes. Indeed, intervention over the sick body to restore its health is the essence of medical practice itself, but childbirth does not adapt to this logic because there is no health to restore, only to maintain. And for this task, support, care, proximity and empathy between the caregiver and the woman who is giving birth are much more important.

The transformation of this paradigm will also take place with the increasingly intense questioning of capitalism applied to health and the linking of treatments to large pharmaceutical corporations. The greater use of “Complementary treatments” such as acupuncture, homeopathy, among others, is a step towards this goal, and health professionals should be aware of these alternatives to offer a wide range of therapeutic possibilities to pregnant women. 

We need to demedicalize life, especially its most crucial points: the beginning and the end, birth and death. There is an urgent need for a “childbirth revolution”, where hierarchical orders are transformed so that the values ​​of safety and satisfaction of mothers and babies are above all other considerations, and caregivers can be fully satisfied by participating in that great adventure of life.

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Partos, culpas e responsabilidades

Muito já se debateu sobre as estratégias para mudar a narrativa do parto normal fazendo com que os eventos fisiológicos do parto passassem a ser tratados como o “normal do nascimento”, enquanto as intervenções se limitassem às exceções, utilizadas tão somente na vigência de condições de risco aumentado. Este sempre foi o sonho de todo ativista da humanização, entretanto os avanços ainda são tímidos diante dos poderes concentrados na corporação médica e a visão intervencionista que se instalou como modelo hegemônico de atenção ao nascimento.

Todavia, hoje em dia é exatamente o oposto desta lógica o que ocorre nas sociedades industrializadas ocidentais. No Brasil menos de 5% das mulheres conseguem ultrapassar as dificuldades específicas do parto sem serem submetidas a múltiplas intervenções médicas – a maioria delas intempestiva, inútil, invasiva e/ou perigosa. Esta constatação é a imagem clara da forma como a sociedade enxerga o parto – perigoso, traiçoeiro e imprevisível – mas também a própria mulher – defectiva, falha, incompleta e indigna de confiança. O controle sobre o parto se insere nas disputas sobre a reprodução/sexualidade e reproduz a ideologia corrente.

A estratégia utilizada para transformar a prática da atenção ao parto para um modelo mais seguro, desmedicalizado e natural foi durante décadas centrada no discurso ufanista da “meritocracia feminina” que nos fez acreditar que “se a mulher realmente desejar….” ela terá seu tão sonhado parto normal em suas múltiplas formas – vaginal, cócoras, na água, domiciliar, na casa de parto, etc… Na resta dúvida que o desejo é um elemento fundamental na conquista do parto fisiológico. Sem que a paciente esteja imbuída do claro interesse, materializado em ações positivas, nenhum contexto a fará aumentar suas reais chances. Podemos chamar esta postura como a “pedra fundamental” sobre a qual as outras se assentam. Mais ainda, para que este desejo floresça há que se oferecer, desde o nascimento, uma perspectiva positiva do parto, trabalhando esta imagem e incorporando-a ao repertório de conceitos – das meninas em especial.

Entretanto, a simples postura propositiva das mulheres será insuficiente para o resultado final, e sobre isso não há dúvidas. “O parto é um evento social que ocorre no corpo das mulheres”, e isto significa que o parto que ocorre nos indivíduos é um retrato do contexto social onde se encontra inserido. Sociedades constritivas, ditatoriais e violentas terão partos igualmente abusivos, enquanto as sociedades justas, equilibradas e dignas vão expressar no momento do nascimento os valores do seu campo simbólico social. Desta forma, aumentar a pressão sobre a iniciativa das mulheres, como se (somente) delas dependesse o resultado do parto, é colocar sobre elas uma responsabilidade injusta e até desumana. Recaem sobre elas inúmeros boicotes – recônditos ou explícitos – que as desviam da rota para um nascimento fisiológico e seguro, sendo o principal deles a ideologia dos cuidadores. Toda a mulher imbuída do puro desejo por um parto normal sabe o quanto a postura negativa de um profissional pode ser determinante para o fracasso do seu intento.

Cabe aos profissionais envolvidos com o parto (e que entendem a dinâmica complexa e delicada deste evento), retirar a pressão excessiva sobre as mulheres sem desmerecer sua importância, ao mesmo tempo em que reconhecem a imensa importância dos contextos e das circunstâncias na construção de um fracasso – ou sucesso. Abandonar a retórica meritocrática é um passo nesse sentido. Outro passo essencial é entender que qualquer evento humano – em especial o parto, que conjuga em um só momento morte, vida e sexualidade – jamais acontecerá num vácuo social, e estará inexoravelmente embebido na amálgama de valores que nos circundam

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Sol e Lua

No que se refere ao parto as mulheres são o sol, enquanto seus cuidadores são a lua. Aquelas produzem a energia e a luz feérica do nascimento, enquanto estes refletem com humildade e respeito o brilho que capturam do momento. Qualquer inversão destes papéis significa uma perversão significativa na essência desse evento, um eclipse que desfaz o brilho de um às custas da intromissão do outro.

Por certo que precisamos de propostas para a melhoria da atenção ao parto e a todos os fenômenos relacionados aos ciclos femininos, mas é necessário fugir do idealismo que, tal qual uma sereia sedutora, nos leva a crer em soluções parciais para problemas estruturais. É importante reconhecer que as ideias por si só são estéreis, incapazes de produzir as mudanças que pretendemos. Um exemplo clássico é das episiotomias – cortes vaginais usados para alargar a saída e (pretensamente) para proteger o períneo. Há decadas sabemos o quanto são inúteis e prejudiciais, um fato comprovado por dezenas de estudos, e mesmo assim ela continua sendo usada indiscriminadamente em nosso meio. No Brasil, a episiotomia ainda é a única cirurgia realizada no corpo de uma mulher saudável sem o seu consentimento prévio. Atualmente ela ocorre em cerca de 53,5% nas parturientes brasileiras que fazem parto normal, exatamente porque a mudança nestas atitudes sedimentadas pela cultura médica não se dá pelas ideias – por mais fundamentadas que sejam – mas pela confrontação e pela luta na arena dos poderes instituídos. Precisamos, portanto, de uma perspectiva materialista para o nascimento.

O mesmo ocorre com a ideia – bem estabelecida por estudos multicêntricos ocorridos há várias décadas – de que é essencial para a saúde coletiva interromper o abuso de cesarianas, assim como as centenas de outras intervenções indevidas que ocorrem no ambiente hospitalar do parto, reconhecidamente inúteis e perigosas para o binômio mãe-bebê. Portanto, a agenda – além de positiva – precisa ser propositiva, centrada nas lutas que garantam o protagonismo e que estabeleçam uma relação centrada na liberdade ampla e irrestrita de escolhas, respeitando amplamente os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e suas famílias. Mais importante ainda é entender que essa luta será conduzida pelas mulheres, legítimas condutoras do processo, contando com a valiosa ajuda dos profissionais de vanguarda da obstetrícia e da parteria profissional.

Fora dessa perspectiva resta apenas o que se pode chamar de “reformismo obstétrico”, uma plataforma de propostas que se baseia na perspectiva da solução para os dilemas obstétricos através da simples proliferação de obstetras humanistas – profissionais mutantes e bizarros, centrados na perspectiva de respeito às evidências – que não passam de meia dúzia de ilhotas minúsculas em um oceano gigantesco de profissionais adaptados à obstetrícia contemporânea, que apenas replicam o modelo anacrônico, personalista, intervencionista, misógino e centrado nos valores do capitalismo que caracteriza a assistência ao parto nos grandes centros do ocidente. Imaginar que a reforma estrutural da obstetrícia se dará sobre as mesmas diretrizes intervencionistas de hoje – mantendo os mesmos atores no comando – é uma ilusão que não podemos nos permitir. Como bem dizia Giordano Bruno, “Quanta ingenuidade pedir a quem detém o poder que o mude”.

A ruptura com o reformismo obstétrico – que pretende mudar a fachada para não transformar a estrutura – será a grande tarefa da nova geração de ativistas e cuidadores do nascimento humano.

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ENAPARTU

ENAPARTU – Sorocaba, julho 2012

Há 10 anos se realizava o ENAPARTU – Encontro Nacional de Parteria Urbana – uma ideia criada para regulamentar, fortalecer e normatizar a parteria nas grandes cidades e através de parteiras profissionais habilitadas. Foi um movimento que pretendia criar dentro da ReHuNa (Rede pela Humanização do Nascimento) um departamento exclusivo para a questão do parto urbano, numa perspectiva revolucionária, rompendo as amarras autoritárias relacionadas ao parto e estimulando o debate aberto e franco sobre nascimento humano, feminilidade, patriarcado, autonomia e suas relações com a parteria.

O movimento tinha ideias e propostas avançadas (demais?) para sua época. Ainda estamos patinando no enfrentamento necessário à corporação e nas propostas de multilateralidade. Vivemos ainda no universo unipolar da obstetrícia, sem perspectivas de curto prazo para abrir outras opções em nível sistêmico.

Apesar de eu ter me afastado em definitivo de qualquer participação institucional sobre o parto ainda acredito na necessidade das redes e das associações e reconheço a importância desse centralismo como propagador de ideias e na produção de representatividade política. Espero que esse congresso possa servir de semente para o florescimento de uma corrente revolucionária para a parteria.

Talvez eu não tenha mais a oportunidade de ver em vida um congresso relacionado ao nascimento igual a esse – em outras bases e com outros personagens – mas as ideias de protagonismo garantido às mulheres, interdisciplinaridade e atenção baseada em evidências sobreviverão à minha partida e não serão jamais abandonadas, pois que estão contidas na essência da liberdade, meta última do ser humano.

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