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Fragmentação e Unidade

Ah, mas a Rússia de hoje – e a União Soviética antes dela – é uma nação violenta e que só se importa com armas e guerra

Lembrem que se não fosse por uma preocupação obsessiva com a guerra e a defesa a Rússia não existiria, e estaria hoje dividida em múltiplas pequenas nações, frágeis e independentes umas das outras, mas subservientes ao poder das nações imperialistas. Seriam orientadas pelo controle central do Império a se odiarem de morte, soterrando suas semelhanças em nome de diferenças ridículas e desprezíveis. E sobre armar-se, em quantos dias a Coreia do Norte seria varrida do mapa não fosse por seu arsenal nuclear? As suas bombas continuam sendo a garantia de sobrevivência. Em quantas pequenas nações seria dividida a China, não fosse a revolução socialista de 1949 que criou o estado gigantesco e poderoso de hoje? As suas bombas continuam sendo a garantia de sobrevivência.

A intenção do imperialismo sempre foi dividir para enfraquecer, e desta forma facilitar a dominação. A guerra da Bósnia, no início deste século, foi o capítulo final da fragmentação da Iugoslávia, uma nação diversa, com uma cultura rica e multiétnica. O país era composto por seis repúblicas regionais e duas províncias autônomas, e estava dividido de acordo com os grupos étnicos que as compunham e que, após a morte do Presidente Tito na década de 1990, separou-se em vários nações autônomas. Estas oito unidades federais passaram a ser seis repúblicas: Sérvia, Macedônia, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro e as duas províncias autônomas ficaram com a Sérvia: Kosovo e Vojvodina. A guerra do Kosovo levou à perda desta região para os combatentes do ELK (Exército de Libertação do Kosovo – combatentes de etnia albanesa) após 79 dias consecutivos de intenso bombardeio da OTAN contra a Sérvia, destroçando a economia do país e provocando, posteriormente, a deposição do presidente Slobodan Milosevic. Mas na base destas ações no final do século passado e início deste estavam os interesses imperialistas de enfraquecer a região para mais facilmente controlá-la, incorporando as nações dissidentes à frente bélica da OTAN.

Existe um claro interesse do imperialismo em dividir as nações, torná-las minúsculas, facilmente controladas pela centralidade do Império, assim como foi feito pelos grandes impérios durante toda a história da humanidade. Após fragmentada a nação inimiga torna-se muito mais fácil colocar um títere qualquer no comando e comandá-lo com os cordões invisíveis da subserviência, do endividamento e do colonialismo.

É evidente que estas sempre foram as intenções das grandes potencias imperialistas em relação à Rússia. Um país gigante, com uma cultura poderosa, multiétnico, rico em recursos naturais que sempre despertou o interesse de seus vizinhos, de Napoleão a Hitler, mas que se mantém unida e cada vez mais forte em função de uma ideologia nacionalista de fortalecer a união de seu povo em torno da grande “Mãe Rússia”.

Também a multi fragmentação africana pelo colonialismo objetivava enfraquecer os antigos reinos e etnias que compunham a África pré-colonial. Mas não é necessário irmos tão longe: basta olhar para a América Latina fragmentada e perceber que sua divisão e o incentivo às disputas locais sempre foi do interesse do imperialismo para nos manter separados. As desavenças entre Chile e Argentina, Bolívia e Chile, Colômbia e Venezuela sempre estiveram na pauta do Império, estimulando desavenças para impedir uma real união contra as forças exteriores que nos exploram.

Qué pagará este pesar
Del tiempo que se perdió.
De las vidas que costó,
De las que puede costar.
Lo pagará la unidad
De los pueblos en cuestión,
Y al que niegue esta razón
La Historia condenará.”
(Canción por la Unidad Latinoamericama – Pablo Milanés)

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Paradoxo da Paz

“Desculpe, sou contra o Putin, um diabo medonho, e porque tenho horror a qualquer guerra. Não existe justificativa para elas. Ah, e dizem que o Putin é homofóbico”

É impressionante a dificuldade dessa esquerda liberal de entender que essa guerra não pode ser avaliada por critérios morais aplicados a seus personagens principais. Também parece difícil entenderem que a guerra já estava acontecendo há 8 anos mas, curiosamente, só quando a Rússia reagiu é que os “pacifistas” se escandalizaram. Lembra muito o horror que surge quando uma bombinha Palestina atinge Israel alertando os “pacifistas” – que saem as ruas vestindo branco e pedindo paz – mas são os mesmos que respondem com absoluta apatia quando ocorrem os repetidos massacres em Gaza (que os sionistas tratam como “mowing the lawn” – aparar a grama).

Pois agora aparecem oportunistas que são contra a Guerra da Ucrânia, mas sequer ficam com a cara vermelha ao apoiar nazistas “old school” – que sequer podem ser chamados de neonazis, porque de novo nada têm. Querem a paz, mas só a paz do domínio, da submissão e do silêncio.

Em nome de uma russofobia e um ódio infantil à “pessoa do Putin” (e não sua política nacionalista e seu governo de direita) aceitam de bom grado passar pano para fascistas e assassinos, que queimaram mais de 50 pessoas vivas em um sindicato em Odessa, construíram laboratórios para guerra química, amarram cidadãos em postes, espancam ciganos e aniquilaram – através de suas brigadas de ultradireita – mais de 14 mil cidadãos em Donetsk e Lugansk desde o golpe de 2014

Por que apenas agora a guerra se tornou inaceitável? Por que admitiram até então que um país dominado por nazistas se juntasse à OTAN e se armasse com bombas atômicas ao mesmo tempo em que rasgavam o acordo de Minsk? Por que se negaram a perceber que uma ogiva nuclear em Kiev leva 4 minutos para atingir Moscou e estaria sendo colocado em uma cabeça de ponte da OTAN na Europa Oriental? Qual país no mundo inteiro aceitaria essa ameaça no seu vizinho? Por certo que o Império americano não, visto que a crise dos mísseis de Cuba em 1963 teve a mesma motivação.

É impossível não se indignar quando vemos xenofobia e desrespeito à todas as pessoas que defendem a Rússia e que cometem o “crime” de refletir com conhecimento de causa e sensatez, fugindo da propaganda imperialista massacrante, entreguista e oportunista que nos invade. A mesma imprensa corporativa que, em nome dos interesses do sistema financeiro internacional, emporcalha redações e redes de TV com mentiras que transformam nazistas declarados em “nacionalistas” e “forças da resistência”.

Estar contra o Putin (que é um direitista, autoritário, anticomunista e, talvez, homofóbico – who cares??) significa cerrar fileiras com a OTAN e a barbárie maligna e genocida do Império americano. Putin, por mais defeitos que tenha, está do nosso lado, lutando por um mundo multipolar, contra o Imperialismo corrupto e racista. Muitos ainda confundem a paz com a falta de reação e a apatia diante da violência imposta. Muitos mais acreditam numa “pax americana”, onde o imperialismo reinaria sem reação. Esta é uma visão ingênua e paradoxalmente violenta, pois condena muito mais pessoas à opressão e à morte.

Ninguém que se diga de esquerda pode estar ao lado dos golpistas ucranianos e do Império Americano. Uma improvável vitória dos nazistas da Ucrânia poderia determinar as bases irreversíveis para uma terceira guerra mundial. Aí reside o maior paradoxo: os pacifistas pró imperialismo e defensores da OTAN esperam como resultado desse conflito algo que inevitavelmente levaria a uma guerra de proporções catastróficas.

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Idiomas distintos

Os médicos que ultimamente discursam contra o uso do termo “violência obstétrica” tem argumentos que eu consigo entender perfeitamente. Convido a uma reflexão.

Imagine que você passa 30, 40 anos trabalhando apenas em hospitais, atendendo bebês que não conseguem nascer de parto normal, tratando diabéticas, aprendendo sobre as drogas a usar, cuidando de hipertensas, gestações ameaçadas pela pré-eclâmpsia, analisando o melhor momento para intervir, operar, retirar um bebê pela via cirúrgica, depois costurar e aguardar a cicatrização adequada da ferida operatória. E fazer tudo isso com genuíno interesse de cuidar, muitas vezes conseguindo até salvar as vidas em risco.

Não apenas isso, mas há que contabilizar anos de dedicação, aulas na faculdade, provas, estágio, residência. Plantões intermináveis, noites mal dormidas, dedicação absoluta, pagamento escasso, crises familiares, angústia, medo, filhos sem pai ou mãe no aniversário. Estresse.

E aí aparece um monte de mulheres furiosas dizendo que o que você faz é violência obstétrica, como se tudo o que é feito pela medicina fosse carregado de egoísmo e maldade. Como se as ações realizadas não passassem de agressões dissimuladas, e igualmente destrutivas. E as vidas salvas? E os bebês resgatados de uma morte certa? E as mães que sucumbiriam sem esta ajuda?

Tente se colocar dentro dos sapatos dos médicos e andar mil km com deles. Só então poderá entender esta indignação.

Não há como negar esta perspectiva e não é necessário, da mesma forma, pintar os profissionais que atendem parto como seres cruéis e insensíveis. A questão não é moral, é sensorial e sistêmica.

A verdade é que estes velhos obstetras, apesar da idade, jamais se permitiram tocar por um nascimento fora do universo conceitual da biomedicina ocidental. É o único paradigma que lhes foi permitido conhecer. Para eles, parto e nascimento se esgotam no conhecimento técnico, focado na patologia, na figura do profissional médico e encerrado dentro dos hospitais. Carecem eles de uma perspectiva mais sensível e emocional, social e espiritual, psicológica e humana, elementos que compõe a complexidade desse evento. Essa perspectiva complexa e abrangente não é oferecida na escola de Medicina porque se contrapõe à ordem da obstetrícia, a qual se estabelece a partir da defectividade essencial feminina e do imperativo tecnocrático.

Em verdade as pessoas continuam cometendo equívocos mesmo depois de saberem que estão erradas ou ultrapassadas, pois as forças inconscientes que mantém estas condutas são mais fortes do que aquelas que as impelem à mudança. Só a dor produz transformação. Por outro lado, é preciso entender e acolher. Em verdade, creio que fazendo nós mesmos o que exigimos deles será o melhor caminho. Porém, lembre que “entender” não significa “aceitar” ou “concordar”.

Por certo que existe sentido em responsabilizar a Universidade, mas sejamos sinceros; os alunos repetem e incorporam como rotina o que escutam nas aulas ou que observam de seus referenciais profissionais? No meu tempo (espero que seja diferente hoje) os professores davam aulas (via de regra muito ruins) sobre fisiologia de parto e depois traziam pacientes particulares para serem operadas sem qualquer justificativa médica em hospitais públicos no plantão do hospital escola em que fazíamos residência. Todos nós sabíamos que os consultórios privados deles eram uma fábrica de cesarianas. Alguns davam aula e sequer trabalhavam com obstetrícia, mas aceitavam cesarianas com “hora marcada”.

Os alunos aprendem, acima de tudo, pelo exemplo!!! Alguns contratados da residência respondiam com risadas ao comentarem sua prática e diziam de forma cínica “lá fora o mundo não é acadêmico”. Esse exemplo entra direto no coração dos alunos: lutar pelo parto normal é “academicismo”; o mundo real é diferente do que se escuta em aula.

Sei que existem profissionais de qualidade hoje em dia, mas a realidade dos abusos, das múltiplas violências e da epidemia de cesarianas não pode ser encarada como ocasional. Ela é fabricada coletivamente pela cultura, e executada pelos profissionais. Pacientes envolvidos em medo e desinformação produzem médicos amedrontados e que apostam nessa mesma desinformação como forma de proteção. Um círculo vicioso que só se quebra com ação política e informação.

Há muitos anos que não me deixo seduzir pela ilusão de que é possível educar médicos para que tenham uma prática mais baseada em evidências no que diz respeito à obstetrícia. Não há como treinar profissionais durante 9 anos pela ideologia da intervenção e depois solicitar que sua prática se contraponha a isso. Todavia, eu cobro dos médicos pela situação absurda que vivemos, em função de sua posição de autoridade e pelo conhecimento que deveriam ter. Deveria partir dos médicos a reflexão necessária, mas o que fazem? Montam seminários pomposos para combater o termo “violência obstétrica”, ao invés de aceitar as críticas, reconhecer os desvios e lutar por uma reforma obstétrica – a exemplo do que ocorreu com a psiquiatria.

Para estes velhos médicos é incompreensível o que escutam das mulheres, porque jamais conseguiram entender o parto por um viés diferente do que receberam. Trata-se de um debate “lost in translation”; as mulheres exigem ser tratadas como sujeitos e protagonistas de seu destino, mas falam em um idioma que eles não entendem. Para entender essa língua estranha é preciso olhar com outros olhos, mudar a perspectiva, e com isso desafiar todo o seu conhecimento. Esta mudança de postura, desenvolvendo uma forma desafiante de sentir o parto, demanda coragem.

E isso também não se aprende na escola.

A revolução do parto, portanto, não virá de uma melhor compreensão dos médicos sobre o processo de nascimento, e nem de uma obediência rígida aos avanços da ciência por parte deles, no que tange ao respeito à fisiologia do parto. Não, a transformação virá da união da sociedade civil exigindo que a atenção ao parto seja conduzida da melhor forma e pelos melhores profissionais; será, sem dúvida, pela luta das mulheres.

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Figurantes

Quando meu filho tinha por volta de 7 anos ele conheceu o universo dos “jogos de computador”. Eu, que vivi o apogeu do fliperama, nunca consegui ser influenciado por estes jogos – estava velho demais para ser contaminado – mas meu filho por alguns anos se dedicou aos jogos de guerra em “primeira pessoa”, onde era possível incorporar um soldado que enfrentava os inimigos em campos de batalha. Eu não gostava de jogar, mas adorava assisti-lo jogando e não me furtava de fazer alguns comentários. O mais comum – e que virou piada interna – era reclamar das matanças que seu personagem protagonizava. Eu lhe dizia: “Olha, você matou vários soldados inimigos!! Você acha que eles não tem família? Acha que eles não têm mulher e filhos? Acha que eles não tem uma casa para voltar quando você desliga o computador?”. Ele me explicava que eles não eram pessoas de verdade, e eram apenas as dificuldades que o jogo colocava para chegar até o “chefão” e vencer o jogo.

Fiquei feliz ao saber que, anos mais tarde, a minha piada sobre os “capangas” (que continha uma crítica à desumanização) um dia apareceu em uma comédia dos irmãos Zucker. Na verdade, estes jogos expõem, de forma dissimulada, uma face bem cruel da nossa sociedade – mas absolutamente verdadeira. Existem aqueles que merecem a condição de protagonistas da vida e da história, enquanto para outros esta condição não é oferecida; eles apenas merecem a condição subalterna, condenados a ser figurantes. Estes últimos são desumanizados, não contam, suas mortes não precisam ser lamentadas e são apenas o suporte para que os protagonistas possam brilhar.

Quando vejo os comentaristas da imprensa corporativa contextualizando o massacre das mulheres e crianças de Gaza, colocando a culpa das mortes nos próprios palestinos, dizendo que as mortes não aconteceriam se eles se rendessem ou parassem de usar suas mulheres e filhos como escudos humanos (uma mentira repetida mil vezes…), é inevitável trazer à memória Golda Meir. Foi ela, antiga primeira ministra de Israel, que popularizou a frase genocida: “Jamais perdoaremos os palestinos por terem obrigado nossos filhos a matarem os seus”, em conversa com Anuar Sadat, presidente do Egito. Como Israel é uma colônia ocidental, criada por invasores europeus e encravada em terra árabe na última e mais mortífera de todas as experiências colonialistas, percebi que a sociedade europeia continua a se considerar protagonista do planeta, e a periferia (em especial os palestinos, os negros africanos, os habitantes da Indochina e os “cucarachas” do Brasil) são como os capangas do jogo de computador do meu filho, cujo sofrimento e morte não contam porque ocorrem nos corpos dos figurantes no grande tabuleiro do planeta. Para eles nosso mundo continua dividido entre aqueles cujas vidas e mortes contam e os “outros”, para quem a a existência não faz diferença alguma na grande contabilidade do capitalismo.

Mesmo após termos eliminado boa parte do colonialismo em África, Ásia e Oceania, a mentalidade ocidental ainda é guiada pela ética dos colonizadores europeus que dizimavam populações nativas inteiras, dando gargalhadas com a desorientação de aborígenes que jamais haviam visto uma arma de fogo. Somos como os franceses na Argélia, os belgas no Congo, os alemães na Namíbia. Somos insensíveis às lágrimas e gritos das mães palestinas, mas questionamos a resistência palestina chamando-a de “brutal”. Não aceitamos que os figurantes assumam o controle do seu destino, usem de sua própria língua, plantem e colham de sua própria terra e conquistem sua tão sonhada autonomia.

A fala emocionada dos jornalistas também me lembra os clipes carregados de emoção que mostram soldados americanos voltando do front da Ásia central ou oriente médio, fazendo surpresa para suas mães, companheiras e filhos. Depois de destruir as famílias de líbios, afegãos, sírios, palestinos, vietnamitas, coreanos e qualquer um que ouse enfrentar o Império, eles voltam felizes e emocionados para abraçar os seus, todos lindos, limpos e loiros. As mortes que causaram nos “outros” são irrelevantes diante da felicidade do reencontro, mas foram importantes para que seu heroísmo fosse exaltado. Essa é a face mais cruel do imperialismo, e por isso deve ser combatido se desejamos um mundo com equidade e justiça para todos os povos

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Democracia liberal burguesa

O partido Republicano nos Estados Unidos tornou-se um partido de extrema direita, financiado pelo lobby de Israel, conectado com grupos de supremacia branca e ligado ao meio-oeste conservador, evangélico e profundamente conectado aos valores tradicionais.

Já o partido Democrata assumiu o posto antigamente ocupado pelo partido Republicano: um partido de direita, liberal, com uma política externa violenta. Ambos são irmanados na sua postura imperialista, apesar do partido de Obama, Clinton e Biden ser muito mais agressivo em sua política externa. É como Israel, onde os partidos se odeiam em todos os temas, mas se abraçam no suporte ao apartheid sionista. Nos Estados Unidos a política imperialista une Democratas e Republicanos com paixão.

Curiosamente, as diferenças chamativas não são políticas ou econômicas, mas estão na pauta dos costumes. Os identitários estão ligados aos democratas, que por isso são chamados “liberais” – mesmo que ambos partidos assumam o liberalismo econômico. É o partido de judeus, negros, da comunidade queer e da “diversidade”. É daí que veio o identitarismo brasileiro: direto da direita americana liberal. Por isso “leftist” nos Estados Unidos não tem, via de regra, nenhuma vinculação com ideias socialistas, mas com o identitarismo.

A esquerda americana é diminuta, quase inexistente, mas ela despreza tanto republicanos quanto democratas, assim como critica incansavelmente a geração “woke”.

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Gado à esquerda

A esquerda da brasileira está cheia de democratas que gritam por “cadeia neles”, que acreditam em “chamar a polícia” e que acham que a censura é um “assunto delicado” que em certas situações – tipo, fazer perguntas incômodas sobre vacinas, questionar identitários ou tecer críticas pesadas à Suprema Corte – deve ser levada em consideração. Acreditam igualmente na lisura das instituições burguesas e aplaudem decisões tomadas por personagens claramente contrários ao ideário que defendemos.

Daniel Silveira

Sim, a esquerda também tem seu gado, e ela está recheada de punitivistas e autoritários que andam por aí achando que basta usar a sua camiseta “Lula Livre” para torná-los automaticamente membros da vanguarda revolucionária. Agora vemos estes mesmos esquerdistas comemorando a prisão do fascista com esteroides aplaudindo figuras golpistas e macabras como Alexandre de Morais. Para se vingar dos personagens mais mesquinhos da política nacional aceitam exaltar um STF cheio de golpistas e reacionários. É muito triste ver a “Esquerda Cirandeira” batendo palmas pro Ministro que cortava pé de maconha com facão e que foi indicado para Ministro pelo golpista Temer…

Estamos cavando nossa própria cova. A sentença de 9 anos de prisão é absurda e claramente um exagero, tornando o caso do Daniel em um ato emblemático da arrogância do STF. Quem agora comemora este tipo de ação autoritária que brota de uma suprema corte reacionária deve pensar que muito em breve estas sentenças abusivas dos Ministros que julgam em causa própria vão se voltar contra a esquerda. Da mesma forma como cruzaram os braços diante do golpe parlamentar contra a presidente Dilma, agora igualmente cancelam os votos de milhares de votantes, apenas porque tiveram seu orgulho ferido.

Alexandre de Morais

Não esqueçam que estes mesmos Ministros foram os responsáveis não apenas pelo golpe contra Dilma, mas principalmente pela prisão do Lula – ambas ações criminosas e ilegais, afrontosas à constituição. Aplaudir Alexandre de Moraes agora é pura estupidez, comparável a alegria que estes ingênuos esquerdistas têm com os editoriais lidos pelo porta voz da Rede Globo – William Bonner – atacando Bolsonaro. Exaltar uma força reacionária para atacar outra é um erro estratégico que a esquerda não pode se dar ao luxo de cometer. Não importa que os personagens da bolha fascista sejam idiotas e golpistas, precisamos pensar adiante, tendo como norte os princípios que defendemos, e não ações oportunistas desprovidas de uma visão em longo prazo.

Estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Muitos desses esquerdistas que agora aplaudem a Suprema Corte por suas atitudes abusivas são apenas direitistas com distúrbio de lateralidade.

Steve Bannon

Por causa dessa ação Bolsonaro emitiu uma nota concedendo perdão para o “halterofascista”. Até nisso o Bolsonaro é um “Trump Genérico”. Fez para o Daniel o mesmo que o ex-presidente americano fez com Steve Bannon – outro notável bandido, personagem dos mais nefastos da política direitista internacional. Esses presidentes da direita adoram ter os seus bandidões de estimação e, pelo que se pode ver, sentem-se acima da justiça e da lei. Imagina agora como está se sentindo o tal bombadinho. “Quem se meter comigo eu mando chamar o Bolsonaro“. Mais capítulos dessa novela estão por vir, e ainda não se sabe qual a reação do STF com essa guerra aberta do executivo contra o judiciário, mas é certo que os verdadeiros marxistas não devem se associar a nenhuma dessas forças retrógradas sob pena de sermos as vítimas em um futuro próximo.

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O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

A episiotomia inicialmente proposta por Sir Fielding Ould, em seu livro Treatise of Midwifery in Three Parts, publicado no ano de 1742 na língua inglesa.Entretanto, somente em 1799, Michaelis afirmou ter realizado uma incisão perineal durante o nascimento de um bebê. O termo episiotomia foi criado no ano de 1857 por Carl Von Braun, na Áustria, mas foi tornado popular por Joseph De Lee no início do século XX. A partir do início do século passado o nascimento passou a ser visto como evento perigoso (elevada morbidade e mortalidade materna e perinatal) mas, ao contrário do que acontecia até então, passou a requerer obrigatória assistência médica para prevenir riscos e reduzir morbidade e mortalidade materna e neonatal. A episiotomia se encaixava nesta visão ao oferecer aos médicos o controle sobre o curso do nascimento, garantindo-lhes autoridade e protagonismo.

Todavia, a observação cuidadosa do resultado desta intervenção demonstrou de forma definitiva que ela não oferece o que promete. Não encurta o período expulsivo do parto, não protege o períneo e muito menos produz resultados positivos sobre o bebê, e os estudos sobre a inutilidade das episiotomias foram publicados por Thacker & Banta em 1987, há mais de 30 anos. Assim sendo, como é possível entender que uma intervenção cirúrgica – incapaz de comprovar sua utilidade – manteve-se na prática médica cotidiana por mais de um século? Como pode uma especialidade médica, que se pretende racional e científica, utilizar técnicas sem qualquer evidência científica positiva de seu uso?

Há alguns tomei conhecimento de um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa a operacionalidade de seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado sobre o corpo da mulher, a chave que abre as portas do nascimento, a assinatura do autor na obra, grafando na carne a autoria de quem, usando os mais claros elementos da “couvade“, expropria o evento de quem realmente o produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na pretensa defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. As episiotomias foram a desculpa perfeita para afastar da disputa as parteiras, profissionais que trataram das mulheres durante milênios, oferecendo seu tempo e sua dedicação à arte de cuidá-las. Para tomar posse destes corpos era necessário mostrar o valor das intervenções, sua superioridade e sua eficiência (mesmo que ilusória) e descrever a natureza como vilã traiçoeira, que escolhia as mulheres como suas vítimas contumazes.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as perspectivas que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos nos últimos 80 séculos. A verdadeira motivação – inconsciente, porém não menos poderosa – para a prática desta cirurgia mutilatória e ritualística da medicina ocidental é a manutenção do controle sobre a sexualidade feminina, pois que ela é essencial para a estrutura social, onde o patriarcado e o capitalismo desempenham a função de estruturas fundamentais para sua sustentação.

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Ciência e Ideologia

Não é raro ver pessoas reclamando que o debate da ciência agora está politizado – e até partidarizado – exaltando ideologias em detrimento da “objetividade” da ciência positiva. Correntes filosóficas e perspectivas diversas estariam tomando o lugar outrora ocupado por experimentos, estudos, gráficos, números e estatísticas. Entretanto, a ideia de uma ciência isenta sempre me pareceu tão ingênua quanto um sistema judiciário ou um jornalismo que pudessem funcionar com isenção em suas específicas atividades. Creio ainda que, aqueles que acreditam numa suposta isenção da ciência apenas ignoram a influência do mundo, da cultura, dos contextos e das circunstâncias que influenciam os pesquisadores diante da tarefa de pensar e de analisar problemas científicos.

Para estes que proclamam uma perspectiva positivista para a ciência eu tenho uma pergunta honesta de alguém descrente das análises isentas e desapaixonadas: onde está a objetividade da ciência para o tratamento da tuberculose, que todos os anos mata milhões de pobres distribuídos pelos bolsões de miséria da África? Onde está a frieza científica quando milhões sucumbem à malária, à diarreia por desmame precoce, à fome endêmica, à pneumonia, à hipertensão? Mais ainda, onde está a força das verdades científicas para mudar o curso da epidemia de cesarianas? Por que não há para estas doenças a mesma mobilização que ora vemos para a Covid19, que matará muito menos do que estas nossas velhas conhecidas? Se aplicássemos um critério tão somente baseado em resultados – quantas vidas seriam salvas, quantos recursos alocados, qual a aplicabilidade e qual o impacto na saúde global – a ciência contemporânea estaria muito mais focada em água tratada, erradicação da fome, miséria absoluta, fontes de energia, tratamento de verminoses etc. e muito menos em medicamentos para queda de cabelo ou doenças raras – que não por acaso tem impacto desprezível, mas são áreas altamente rentáveis.

É preciso ver quem controla a ciência médica. Quem paga seus custos? Quem a financia? Hoje fica fácil perceber que basta uma doença ameaçar brancos e sujeitos da classe média dos países ocidentais para a nossa sociedade se erguer e exigir medidas tecnológicas imediatas, como vacinas e novas drogas, mobilizando recursos aos milhões nas pesquisas, logística e manufatura de medicamentos. Foi assim com a Aids e está sendo o mesmo agora com a Covid19. Nossa ciência não poderia se expressar fora do seu contexto histórico, e por isso ela reproduz os modelos de opressão e desequilíbrio vigentes no planeta.

Da mesma forma a tortura nos afeta: nos escandalizamos (e com justiça) pelas torturas cometidas pela ditadura militar contra políticos, jovens militantes, mulheres e professores, mas ainda temos dificuldade de nos mobilizar quando a vítima é preta e pobre e meliante. Essa escolha é ideológica. Na guerra da Ucrânia sentimos muito pelo sofrimento das crianças loiras de comercial de talco, mas não conseguimos nos identificar com a miséria causada pelas guerras coloniais e derivadas da ganância capitalista na África, quando as vítimas são esquálidas e desumanizadas.

A ciência é – e sempre foi – ideológica. A simples escolha do que será investigado já é uma opção mediada pelos valores nos quais estamos inseridos. A isenção que se pede à ciência é falsa ou mentirosa. Quando nos envolvemos com a pesquisa e a descoberta de tratamentos para uma doença – e desconsideramos centenas de outras – nossa escolha já está impregnada de ideologia, inobstante ser consciente ou não. E quem tiver o poder de tomar decisões o fará baseado nos valores que lhe afetam diretamente, e não necessariamente pelo que atinge e ameaça a maioria das pessoas.

Há muitos anos escutei de um conselheiro do CRM uma frase cuja tolice marcante nunca consegui esquecer. Dizia ele para uma plateia de iguais: “Não existe ideologia na medicina, apenas boas e más práticas”. Para dizer isso era preciso negar a realidade que nos atropela: “a isenção da ciência só seria possível se os cientistas deixassem de ser… humanos”. Ignorar o mar de significantes que nos envolve invocando uma objetividade ilusória é uma enfermidade que ataca muitos pseudocientistas. Freud já nos explicava há mais de um século: “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, e isso demonstra que que a o circuito simbólico que nos enlaça acaba por pautar as decisões e o próprio pensamento. Assim, o oceano de conceitos à nossa volta escolhe por nós o que pesquisar e como tratar as doenças.

O que precisamos não é da ilusão de uma “ciência isenta”, mas sim de uma ciência democrática, onde as escolhas da ciência sejam tomadas em benefício da maioria e não para proteger o capital e quem o controla. É necessário que a ciência não mais esteja a reboque das forças do capital, mas que esteja nas mãos do povo para que ele possa decidir as prioridades de forma livre, e não pela imposição do lucro e do poder.

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Luis Inácio avisou…

Lula tinha razão; toda a instabilidade política que hoje estamos atravessando poderia ser abortada se os ministros do STF tivessem mantido a espinha ereta. Mas não; estavam empenhados nesse mesmo propósito de criminalizar a esquerda aceitando pela via da mentira e da fraude uma agenda neoliberal. A ação pusilânime da alta corte ofereceu espaço para que a escória autoritária alcançasse o poder. Deltan Dalanhol, Sérgio Moro e o próprio Bolsonaro são o resultado das ações de uma corte que jamais pensa na justiça ou na proteção da constituição, mas nas suas próprias convicções políticas e interesses corporativos.

E o golpe já estava anunciado para 2022; entretanto, as últimas pesquisas (que em 28 de julho prevê a vitória de Lula em primeiro turno) e o “Manifesto da Burguesia” que alcançou números recordes em muito pouco tempo significam um balde de água fria nas intenções golpistas. Bolsonaro não sabe para onde correr. Parece mirar na mobilização popular de 7 de setembro como derradeira tentativa de galvanizar forças para a luta eleitoral. Os números da eleição, todavia, parecem ser tremendamente desfavoráveis para ele. Uma das perguntas feitas era qual a chance de trocar de voto até o final da eleição e, entre os dois candidatos que pontuam a pesquisa, apenas 18% dizem que ainda poderiam trocar de candidato.

Mas vejam: nesta pesquisa a diferença entre Lula e Bolsonaro é de exatamente 18 pontos percentuais, o que significa que para uma reversão eleitoral todos os “indecisos” (em verdade aqueles que ainda poderiam trocar se algo grave ocorresse) precisariam votar no atual presidente, o que é impensável nas condições atuais. Não há dúvida de que a situação de Bolsonaro é dramática, o que aumenta consideravelmente o perigo; sabemos que as bestas acuadas se tornam violentas por acionarem os seus instintos mais básicos de sobrevivência,

Entretanto, mesmo aceitando de forma otimista o melhor dos cenários, ainda teremos algumas tarefas importantes para a reconstrução do Brasil. Existem tarefas urgentes, como a questão militar e a tarefa de enterrar o golpismo das forças armadas, cuja anistia nunca permitiu que se punissem adequadamente os crimes da caserna. Não menos importante é a questão política e a estrutura parlamentar brasileira frágil, que permite o golpismo, como o que foi feito contra a presidente Dilma. Sem a segurança de que não será golpeado – sem provas!! – por um parlamento oportunista e vendido nenhum governante poderá ter tranquilidade para exercer o poder sabendo que o congresso está tramando contra seu governo.

E, por fim, há a questão jurídica e o protagonismo criado pelo STF, que encampou os poderes legislativos em seu rol de ações. A ação do Ministro Alexandre de Moraes contra o PCO vai entrar para a lista dos mais graves ataques à constituição e à própria estrutura ética do Direito. Um ministro que age de ofício numa ação em que ele próprio se considera vítima é uma profunda aberração jurídica, mas que não recebeu o escândalo que merece pela inação da esquerda liberal – que enxerga nesse personagem uma proteção contra as diatribes de Bolsonaro. Os atuais ministros (mas os anteriores não merecem elogio algum) são reconhecidamente covardes, agem conforme os ventos da política e de seus compromissos anteriormente firmados. O próprio STF protagonizou momentos vergonhosos nos últimos anos, e por isso o ex-presidente Lula não titubeou em afirmar que se tratava de um poder “acovardado”.

No Brasil o STF aceita que existam leis para Dilma (pedaladas como crime de responsabilidade), outras exclusivas para Zé Dirceu (“não tenho provas mas a literatura me permite“) e algumas só aplicáveis à Lula (atos de ofício indeterminados, prisão em segunda instância). Manter o Brasil refém de um judiciário pusilânime e reacionário significa oferecer a estes atores sociais, que não são eleitos, um poder superior ao de todos os outros poderes. Sem que se faça uma revisão no judiciário brasileiro – que teve na ação corrupta do ex-juiz Moro apenas a ponta do iceberg – jamais teremos uma justiça isenta. E sem justiça temos o império da barbárie.

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A Essência do Parto

O caso da influencer que teve sua história exposta pela mídia a partir das queixas que ela fez sobre o atendimento grosseiro que recebeu durante o parto dominou os noticiários por algumas semanas e suscitou alguns debates interessantes sobre os limites da atuação médica. Por outro lado também acabou produzindo um efeito catártico, servindo para o deságue de mágoas e ressentimentos de muitas pessoas que reviveram violências sofridas no passado. O fato também possui um aspecto deletério para a cultura do parto: continuamos a mostrar o nascimento como cenário de guerra, local de gritaria, abusos, invasões da privacidade, intervenções descabidas e exercício exagerado de poder. Acredito que o debate sobre estas múltiplas violências – mais do que o ataque a profissionais – deve vir acompanhado de um esclarecimento de que a assistência ao parto não precisa ser assim e que esta não é a essência do parto. Colocar toda a nossa energia em ataques pessoais (mesmo que compreensíveis) ajuda muito pouco, quando é a própria a estrutura viciosa da atenção que produz esse tipo de problema.

O que temos é um problema sistêmico de violência ao parto, e não a sequência de “fatos isolados” que se acumulam. Tal como os tiroteios americanos que se sucedem de forma macabra, não é a caça aos degenerados que fará o problema desaparecer, mas quando a sociedade perceber que eles são consequência, e não origem, do problema estrutural da sociedade capitalista e individualista. Da mesma forma, o que testemunhamos hoje nada mais é do que a “degenerescência da assistência”, causada pela falha do sistema médico das sociedades ocidentais de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, emocionais, sociais e espirituais do parto e nascimento. Esse evento foi violentado em nossa cultura, afastado de sua essência de cuidado, jogado na lógica da intervenção e da patologia, controlado por cirurgiões treinados na intervenção e gerenciado por interesses capitalistas. Como poderia um projeto como esse prosperar sem a criação de um clima artificial de pânico a lhe envolver, fazendo desse medo a base ideológica de tanta submissão e – como consequência – tantos abusos?

Praticamente tudo o que se vê na atenção ao parto – do local do parto aos procedimentos, passando pelo local de nascer e pelos acompanhantes – é artificial e ideológico. Quase nada (com raras e notáveis exceções) está baseado em evidências científicas sólidas. Entretanto, a encenação de um nascimento segue um roteiro bem estabelecido de submissão e poder, que obedece a um ordenamento opressivo sobre as mulheres – tratadas como contêineres fetais, e seus bebês – vistos como o produtos da cultura.

Há poucos dias um casal amigo planejou um parto hospitalar, mas o bebê nasceu muito rápido e acabou chegando a este mundo pelas mãos das parteiras que os acompanhavam em casa. Decidiriam ir ao hospital conforme combinado para terminar a avaliação, e lá foram tratados com atitudes típicas de retaliação por alguns profissionais, motivadas pela “ofensa” de permitir a um bebê nascer em sua própria casa. Na saída do hospital o casal me confidenciou: “o saldo foi positivo, pois só uma médica plantonista e uma enfermeira chefe foram “terroristas” conosco. Os outros foram bem gentis e educados”.

Ainda acho que somos demasiado condescendentes com este tipo de violência, tão comum quanto disseminada. Aceitamos um mínimo de dignidade como se fosse um presente e ainda engolimos sapos para não criar confusão. Estamos inseridos em uma sociedade onde questionar o poder abusivo é visto como “desacato”, como atitude de enfrentamento e comportamento não colaborativo. Somos doutrinados a naturalizar ações agressivas por parte de equipes médicas pela crença de que “é para o nosso próprio bem”. Não, não é em nosso benefício; é apenas para manter os pacientes dóceis e submissos às ordenações criadas para facilitar a vida e os ganhos de profissionais e instituições. A própria existência de abusos na indicação de cesarianas é a prova de que existe uma tendência de que as ações nos hospitais sejam conduzidas no sentido de proteger a ação dos profissionais e dos hospitais, e não no benefício primordial de mães e bebês.

Ainda assim, mais do que fazer justiça, é fundamental ampliar o debate sobre os descaminhos da assistência ao parto através das críticas aos seus fundamentos e sua conexão com a visão alienante do modelo patriarcal que visa o controle da sexualidade feminina em todos os seus aspectos. Para revolucionar a assistência ao parto e nascimento é essencial desconstruir a visão centenária do parto como “ato médico” e reconstruí-la através de uma visão transdisciplinar, integrativa e baseada em evidências científicas consistentes.

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