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Champagne

Quando a gente fica velho as coisas passam a ter um valor relativo. É mais difícil ficarmos vivamente emocionados com um show de música ou mesmo um filme, mesmo que sejam realmente bons.

Lembro do meu amigo, Major Rogério, que me contava da vez em que foi convidado a experimentar uma Champagne de uma cave exatamente dessa região região da França. O anfitrião vinha de um longa família de tradicionais vinicultores franceses na região mais famosa do mundo nesse cultivo e nessa prática.

A abertura da garrafa empoeirada na adega escura e úmida foi rodeada de cerimônia.  Um ar circunspecto e solene envolvia as ações do velho champanheiro. O ambiente foi marcado pela mais austera religiosidade, e as ações eram pontuadas de rituais que confirmavam a gravidade da abertura da garrafa há tanto tempo guardada.

Ploc!! O som da rolha liberta de sua camisa-de-força vítrea ecoou pelos porões da mansão e liberou o gás naturalmente formado pela fermentação.  Abriu-se a caixa com as taças de cristal e o líquido borbulhante chiou em efervescência diante do seleto grupo. O contato com o sabor se fez obedecendo o protocolo mais rígido.

O major me relatou da seguinte forma sua experiência:

“Eu sequer ousava pensar o quanto custariam os poucos goles daquele líquido se houvesse eu que pagar por eles. Entretanto, o sabor foi tão diferente e tão inusitado que produziu efeitos insólitos e paradoxais. Primeiro, e mais importante, me garantiu uma memória gustativa inesquecível e perene. Tenho certeza que em meus derradeiros momentos de vida ainda terei a lembrança dessa preciosidade. Por outro lado essa experiência produziu para mim uma condenação triste e solitária: daquele dia em diante eu nunca mais fui capaz de tomar champanhe comum com o mesmo prazer e entusiasmo. A excelência daquela maravilha matou algo genuíno que eu tinha: o prazer simples das coisas comuns.”

Ficar velho e experiente lhe faz desconfiar das “novidades”. Isso é bom, mas as vezes triste.

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Com açúcar com afeto

Ele sentou-se na poltrona à minha frente enquanto escutávamos ao longe a melodia serena da vida, envoltos na bruma matinal e escutando os pássaros alvissareiros.

– Então Ric, quer saber como foi?

– Pode contar

– Diga aí uma droga que já ouviu falar. Qualquer uma.

Minha relação com as drogas sempre foi de aversão e uma certa repulsa. Quando nos anos 90 criei o PAOH – Protocolo de Assistência Obstétrica Humanizada – um simples protocolo de atendimento baseado em premissas simples de acompanhamento ao parto de baixo risco, um dos elementos fundamentais na lista de seis itens era “Uso judicioso e restrito de medicamentos durante o trabalho de parto”. Portanto, minha distância com as drogas incluía tanto as drogas ilegais quanto as legais, posto que ambas possuem efeitos perigosos para a economia orgânica. Entendia eu que a “legalidade” de uma droga não se referia à sua periculosidade ou dano possível, mas a questões contextuais e culturais ligadas ao seu controle e produção. Maconha é ilegal e cachaça é legalizada, mas o álcool tem uma mortalidade milhares de vezes superior à maconha. Portanto, eu sabia o quanto esse valor era volátil na sociedade. As descrições de Freud sobre seu uso de Cocaína no início do século passado são curiosas, enquanto as propagandas com médicos fumando e fazendo publicidade de Camel – aliado ao (agora) estranho patrocínio da indústria do tabaco às instituições médicas – também nos ajudam a entender um pouco mais a complexidade do tema.

Fiquei olhando para Bruno com atenção enquanto pensava em uma resposta para seu desafio. Não queria dizer uma droga muito simples para não ser considerado ingênuo, mas também nenhuma muito pesada para não ser ofensivo. Ele continuava parado à minha frente com um sorriso instigante. Era alto, levemente grisalho e ostentava uma barba bem cortada.

– Cocaína, disse eu finalmente.

Com um sorriso respondeu

– Muito, doutor. E por muitos anos. Diga outra.

– Maconha? Heroína? Metanfetamina? Crack?

A todas elas me respondia afirmativamente, e para cada uma acrescentava outras em sua longa lista de drogas experimentadas. Todas tinham sua história, as quais descrevia como quem relata as lembranças de uma amante do passado: um início fulgurante, a lua-de-mel, a convivência conturbada e o longo martírio de um final catastrófico.

Levantou-se do assento em que estava e foi até a estante logo atrás. Trouxe um grosso livro de capa dura em que se lia na capa “O Pão dos Deuses”, de Terence de McKeena, uma espécie de enciclopédia das drogas. Folheei algumas páginas lustrosas ricamente ilustradas com fotos de plantas, equipamentos, cigarros artesanais, cachimbos e seringas.

– Estou limpo há três anos, doutor. Nada mesmo. Fiz essa promessa a ela.

Olhamos ambos para o quarto onde a ação se desenrolava. Ali, sua mulher respirava profundamente enquanto aguardava que suas contrações voltassem. Seu semblante era sereno, no intermezzo melífluo entre duas ondas de contração. Atrás dela a doula massageava suas costas deixando o ambiente com um suave aroma de lavanda. Abraçada a ela a parteira dançava os passos de uma dança tão antiga quanto conhecida. São dois prá lá, dois prá cá. Respire fundo, deixe seu corpo se inundar de energia.

Ficamos escutando por alguns segundos os sons do quarto adjacente enquanto eu fechava o livro de capa dura à minha frente.

– Sabe qual foi a mais difícil de largar?, perguntou

– Nunca tive que largar nenhuma, disse eu, quase envergonhado da minha caretice. Eu diria que o cigarro, pelo menos é o que tantos pacientes me disseram ser tão complexo e difícil.

Ele abriu um sorriso.

– Negativo. Não digo que larguei o cigarro de forma fácil, mas nem se compara à droga mais difícil de todas elas. Abra de novo o livro, está nas primeiras páginas.

Folheei as páginas brilhantes desde o início até o momento em que ele me pediu para parar e apontou para um montinho de grãos brancos.

– Esse aí, doutor. Para mim o açúcar foi a droga mais difícil para me libertar.

Sorri com ele. Subitamente me senti um viciado e pensando comigo “Não, eu paro quando quiser”….

Nossa conversa se manteve entre risadas, comentários sarcásticos e sussurros até o momento que Zeza me chamou.

Completou”, disse ela, com aquele sorriso cheio de satisfação que eu bem conhecia.

– Você pode ir para a banheira agora, se quiser, disse ela para a bela menina que sentia suas últimas dores.

Zeza se posicionou à sua frente, enquanto a doula permanecia ao lado. O marido abraçou-a por trás firmemente, enquanto esperávamos pela chegada do bebê. Seu corpo semissubmerso se contorcia a cada onda contrátil, e depois relaxava no espaço silente entre elas. A tudo eu observava atentamente, mantendo a câmera a postos para gravar o momento da chegada.

Enquanto as velas ao redor da banheira iluminavam o espaço do banheiro minha atenção se concentrava no rosto sereno da mãe e me perdia pensando sobre os significados últimos dessa passagem. Quando vejo o momento inexplicável do apagamento neocortical, o mergulho na “partolândia” e o mistério eterno deste momento para o mundo masculino eu sempre lembro do sorriso de Elisabeth Davis no documentário “Orgasmic Birth” ao dizer “Se lhe dissessem que esta é a maior aventura possível da existência humana e que aqui está o mapa, você recusaria?

Os minutos se sucederam na velocidade dos gemidos enquanto mantivemos o nosso silêncio solene diante do que estava para acontecer. As chamas das velas tremulavam a cada suspiro mais longo, a cada palavra que saía dos lábios da bela menina. Zeza, a postos, finalmente aponta discretamente seu indicador para me mostrar a emergência dos cabelos do bebê. O momento da chegada se aproximava.

Se há um momento nessa cultura em que as máscaras caem, é este. As carapaças pétreas que seguram nossa experiência cotidiana se desfazem diante da explosão de emoções e significados que emergem durante o nascimento. Sei que nada será como antes, amanhã…

O momento tão esperado se aproximava e eu podia sentir na pele o silêncio de Bruno. Não havia um som, uma palavra, apenas os músculos retesados de seus braços e o olhar parado sobre o ventre de sua mulher. Abraçado a ela ele aguardava calado o momento decisivo.

Zeza virou seu olhar para mim e eu percebi o sinal. Na próxima contração ele viria. O silêncio se fez ainda mais ruidoso e só foi interrompido com o grito primal, seguido do som das mãos de Zeza retirando o bebê da água e colocando-o de frente para o sorriso de êxtase de sua mãe. Registrei o momento mágico com minhas mãos trêmulas, firmes o suficiente para não estragar a imagem. Em mais um momento e o bebê silenciosamente se aninhava no colo da mãe.

Foi então que o silêncio da cena foi novamente interrompido. Como a erupção de um vulcão, Bruno gritou com o máximo de seus pulmões. Gritou não como um grito de vitória, ou de consagração, mas como algo muito mais profundo e inquietante. E sobre seu grito sobreveio outro, e mais outro e depois outro.

Zeza olhou para mim com alguma preocupação. A conversa anterior sobre as drogas me deixou preocupado, confesso. E se ele estivesse entrando em uma espécie de surto? E se ele se descontrolasse? E se algo ocorresse que colocasse a todos – em especial ele mesmo – em risco?

Olhei para Zeza e a doula e nossos olhares mudos tinham o mesmo sentido: era melhor tirá-lo da cena até que se acalmasse. Foi então que eu lhe fiz um convite irrecusável:

– Bruno, quem sabe deixamos as mulheres com essa parte e vamos tomar um café na cozinha?

Apelei para o meu vício. Talvez assim, assumindo diante dele uma parceria no universo das adições, ele se sentisse compelido a me acompanhar.

– Claro, disse ele. Eu passo um café para nós.

Colocou-se de pé, e secou o corpo com a toalha pendurada. Foi até seu quarto e rapidamente trocou a bermuda que usava. Entrou comigo na cozinha, mas não conseguia controlar-se diante das emoções que havia presenciado.

– Ric, foi muito demais. Foi algo espetacular. Foi mágico.

Colocava as mãos à frente do rosto e caminhava inquieto de um lado para o outro da cozinha, e seus passos se deixavam acompanhar pelo chiado da chaleira. O aroma do café em pó invadiu o recinto enquanto ele continuava a falar.

– Tudo Ric, não apenas o momento da chegada do bebê. Não somente o êxtase, mas tudo que o precedeu. Não se trata de valorizar o prazer de receber sua filha nos braços, mas poder valorizar a completude da experiência humana. O medo, a angústia, a espera, a tensão, a ansiedade pelo momento de sentir na pele a maciez de um bebê. Todas essas emoções fazem parte do pacote, e seu valor é imenso exatamente por isso. Como podem escolher conscientemente trocar esta rica experiência por nascimentos mediados pela tecnologia, onde as emoções são engarrafadas, pasteurizadas, controladas por máquinas e onde recebemos apenas a parte final, sem que o ciclo todo tenha se completado?

Tomou um pouco de fôlego, respirou profundamente e fixou o olhar em algum ponto do infinito cósmico. Olhou mais uma vez para mim e disse:

– Ric, eu usei todas as drogas do mundo, tive todas as sensações que a vida pode oferecer. Participei das viagens lisérgicas mais doidas e mais bizarras. Andei pelo vale das sombras e consegui milagrosamente chegar até aqui. Por isso mesmo posso te afirmar que nenhuma sensação chega sequer perto desta que acabo de sentir. Nenhuma experiência supera esta e nenhum barato consegue ultrapassar esta emoção.

Nenhuma descrição de uma experiência sensorial poderia ser mais clara sobre a temática do gozo e do prazer, e só alguém que esteve por tantos anos envolvido no mundo da adição química poderia dar uma explicação tão rica quanto esta.

Verteu a água fumegante sobre o coador repleto e serviu uma xícara para mim. Ofereceu açúcar e eu menti que não queria. Ele sorriu da minha falsidade.

Enquanto ele se preparava para sentar na mesma poltrona em que estivera nas horas que antecederam, algo milagroso ocorreu.

O telefone tocou.

Bruno titubeou por instantes antes de atender. O bebê não tinha sequer 10 minutos de vida, e alguém ligava. O que seria?

– Alô, pois não?

Eu o acompanhava com o olhar, tentando adivinhar as palavras que só ele ouvia. Não era preciso mais do que metade das falas para saber do que se tratava.

– Sim, pai, está tudo bem. A bebê acabou de nascer. Não, estamos mesmo em casa, mas depois eu explico. Não se preocupe estamos muito bem. Não, não pesamos ainda, mas ela é linda e saudável. Assim que soubermos mais detalhes vamos informar. Ela está com a enfermeira e sua auxiliar aprendendo a mamar. Amanhã vocês podem vir aqui fazer uma visita. Claro pai, muito obrigado. Sim, eu sei…. claro que eu sempre soube.

Sua voz ficou mais pesada, mais grave. Ele estava visivelmente emocionado. Pensei em me levantar e deixa-lo a sós falando com o pai, mas não houve tempo para isso.

– Agora eu também sou pai, e talvez eu possa finalmente entendê-lo. Um beijo pai e obrigado.

Ao longe escutamos o choro forte da bebê. Tomei um gole de café amargo e me diverti com o vapor que pulava da xícara para embaçar meus óculos. Melhor assim; prefiro que não vejam um velho obstetra chorar.

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Ripples

A primeira vez que fui ao Rio meu filho tinha 1 ano e meio de vida. Entrei com ele e sua mãe em um ônibus para Botafogo e fomos assaltados antes mesmo de sentar, quando o ônibus se preparava para sair. Três garotos entraram e um deles puxou da cintura um revólver. Roubaram meu relógio e uns cruzados. O valor corrigido de ambos não passaria hoje de 50 reais, mas foi a primeira vez que sofri um assalto e uma ameaça dessa forma. Eu tinha 23 anos na época.

As vezes penso que os três meninos meliantes já morreram, o que é bem provável. Eles tinham entre 15 e 18 anos. Pretinhos, mirradinhos, bonitos. Não houve nenhum contato e sequer violência física, mas fui atingido no peito por uma sensação de fragilidade e impotência. Eles apenas ordenaram: “Passa o relógio e o que tiver no bolso“. Só isso.

A lembrança desse fato voltou à minha memória hoje. O roubo em si foi insignificante, mas o que me incomodou durante semanas foi o estrago que produziu em mim. A raiva, a sensação de impotência, o susto, os dentes trincados, os desejos de vingança e o pensamento fixo na cena me acompanharam por vários dias. Como uma pedra jogada em um lago que produz ondulações por muito tempo. Lembro de ter visto os mesmos sentimentos destrutivos muitos anos depois no rosto de um colega anestesista que havia sido assaltado nas férias. O orgulho de macho ferido, a impotência, o ódio, a raiva, as expressões malignas eram todos muito piores que as bugigangas e os poucos pilas roubados.

Estas lembranças me atingiram porque quando ocorre um fato brutal – como as agressões às mulheres dos últimos dias – as reverberações destes eventos são horríveis e continuadas. O fato se repete todos os dias em muitas outras mulheres que despertam suas dores antigas, as quais cumpre extravasar, numa catarse que as redes sociais amplificam de forma intensa e dolorosa.

Não me cabe questionar a validade destes relatos, pois talvez a expulsão destes demônios a partir de um fato alheio possa ajudar as vítimas cujas vozes se calaram. Todavia, me resta lamentar o quanto de dor ainda produzimos nesse planeta, e o quanto ainda se mantém guardado e calado dentro de tanta gente.

Espero somente, solitário em minhas fantasias, que os três garotos cariocas que um dia encontrei do lado oposto de uma arma sejam hoje homens de valor, pais, parceiros, amigos, talvez avós como eu. Espero que tenham encontrado uma saída para suas vidas, assim como espero que a dor que emerge de tantas mulheres que sofreram nas mãos de seus algozes sirva para que um dia tenhamos plena consciência da importância de respeitar a todos.

Não são esperanças tolas.

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Betting on Zero

Há 25 anos eu fui convidado por um grupo de colegas do hospital onde eu trabalhava para participar de uma reunião a respeito de um “novo modelo de negócios” que poderia render milhões. Alguns colegas foram, eu não. Não acredito, inclusive hoje, que eu poderia vender coisa alguma na vida; seria uma tremenda perda de tempo. O mais entusiasmado entre eles era um colega pneumologista, que voltou da reunião absolutamente apaixonado pela ideia, e completamente envolvido pelo clima da proposta.

A reunião era da Amway, uma ideia “revolucionária” onde você não precisava vender nada, apenas convencer outras pessoas a vender por você. Você seria um gerente, um coordenador de equipe, o cabeça, o organizador. O chefe. O que poderia ser mais sedutor?

A regra do sucesso? Nunca desistir, mesmo quando parece estar fracassando. O método de convencimento? Ora, ainda hoje é usado por igrejas no mundo inteiro: a promessa da redenção. Lembro de encontrar meu colega uns dias depois e dizer a ele que este modelo se parecia demais com uma “pirâmide”, e que não seria possível em um modelo como esse que todas as pessoas se beneficiassem. “Não é uma questão de de talento ou empreendedorismo, mas de matemática”, expliquei a ele.

Ele ficou furioso com a minha observação. Sua resposta foi:”Eu estava enganado quanto à sua capacidade de se envolver em um negócio maravilhoso como este, mas agora estou desconfiado da sua capacidade intelectual“. Essa é a resposta óbvia de alguém que “viu a luz” em uma espécie de viagem astral e não aceita que outros não a tenham visto. Meu colega levantou-se e saiu indignado da sala.

Nunca mais falei sobre ele sobre esse episódio e alguns meses depois eu mesmo saí do hospital. Quando encontrei um amigo em comum muitos anos depois lhe perguntei se o nosso amigo ainda estava envolvido no “negócio” para o qual tinha nos convidado. Meu colega respondeu que ele havia abandonado um ano depois e que foi “uma grande decepção, a qual não gostaria de comentar”.

Digo isso apenas porque ontem assisti o documentário da Netflix “Betting on Zero” e achei muito bom, pois me parece um documentário que fala mais do que o gigantesco modelo de negócios e sonhos da Herbalife, mas vai além e nos faz questionar as bases do capitalismo: a ilusão disseminada de que, se você tiver méritos e resiliência, poderá ser um vencedor, mesmo quando as regras do jogo são predeterminadas e na sua mão jamais haverá cartas boas para apostar. O capitalismo está na estrutura filosófica que sustenta estes negócios através da promessa escatológica de redenção.

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Culpa e responsabilidade

Quando analisamos o papel da maternidade na cultura humana e sua importância central podemos nos defrontar com questões controversas. É verdadeiro o peso desproporcional que recai sobre as mães pela sua condição e também a necessidade, diante do fim dos papéis sociais fixos, de redistribuir as responsabilidades que o casal tem em relação ao cuidado parental. Porém, é importante refletir sobre os significados desse peso. Se você olhar pelo lado da culpa tudo fica pesado e doloroso, mas se você olhar pelo viés da responsabilidade, a mãe é efetivamente o canal por onde a criança é introduzida ao mundo da linguagem.

Ontem eu estava contando uma história para o meu neto quando ele me interrompeu e disse: “Mas nesse lugar não tinha aranhas, né? É que eu tenho medo de aranhas. Eu e a minha mãe…”

Na verdade a mãe dele é que tem medo de aranhas e ele se identifica com seus sentimentos. As crianças sempre produzem essa conexão violenta e libidinal (originada da altricialidade) com a figura da mãe, que Freud chamou de Complexo de Édipo. É sobre essa relação intensa, amorosa e criativa que se estabelecem os fundamentos do psiquismo humano. A mãe é, portanto, o centro constitutivo da vida emocional da espécie. É natural que recaia sobre ela a responsabilidade (não a culpa) de construir o mundo afetivo das crianças, seus filhos.

A visão estrutural humana solidamente construída pelo amor primordial entre um bebê e sua mãe – e o amor que ela lhe dirige em contrapartida – nunca foi suplantada como chave essencial para compreender o desejo humano. Não acredito que seja possível aliviar o “peso da maternidade” retirando das mães a responsabilidade de serem as construtoras de mentes, introdutoras da linguagem e até mesmo aquelas que oferecem um pai ao seu filho – pai que um dia poderá resgatar esta criança das garras mortais do amor materno.

Não vejo sentido em “pegar pesado” com os autores que reconhecem a importância da mãe no sustento psíquico das sociedades humanas. Entretanto, se este valor feminino fosse extinguido, levando às últimas consequências a “liberdade da mulher”, teríamos uma sociedade sem esse peso em suas costas, mas talvez sem amor suficiente para que a própria espécie pudesse sobreviver.

É de Freud a frase:

A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar. A maior função de um homem é livrar seu filho de ser consumido pelo amor materno“.

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Feras e outras histórias de amor

Há exatos 40 anos tomei um decisão radical para a qual estava me nutrindo de coragem por algumas semanas. Convidei meu “crush” (mesmo que naquela época não houvesse esse nome) para ir ao cinema. Quem sabe as condições de pressão e temperatura pudessem quebrar o gelo que emperrava a minha iniciativa.

Havia vários filmes para ver na cidade, mas o escolhido foi King Kong, uma mega produção da época dirigida por John Guillermin e estrelada por Jeff Bridges, Jéssica Lange e…. Kong. No escurinho do cinema e após vários drops de anis eu tomei a coragem necessária para pedir a menina em namoro. Mal sabia eu que toda a minha vida seria determinada pelas escolhas daquela noite.

Exatamente 4 anos e meio depois daquele encontro eu casei com a moça simpática de olhos verdes e sorriso reservado. Todavia, o que sempre me causou espanto foi o fato de que o script da nossa vida em comum seguiu o roteiro que pautou nosso primeiro momento.

King Kong é “A Bela e a Fera” com final trágico. Uma história de amor marcada pela incompatibilidade. Como Bela, na animação da Disney, Dwan começa como cativa do monstro e com o tempo desenvolve por ele ternura, apreço e, por fim, afeto genuíno. Mas, ao contrário de Bela, que tinha a chance de reverter a maldição da Fera com seu amor, Dwan esbarrava no limite intransponível das espécies distintas e incompatíveis. O fim do monstro simiesco só poderia ser a tragédia.

É assim que também vi a minha história. Eu sempre fui o monstro incapaz de conter a fúria e a indignação. Durante anos persegui meus ideais mesmo recebendo os ataques inevitáveis de quem não aceitava a visão crítica e dura que eu apresentava. Segurando minhas convicções como Kong se apoiava no mastro do Empire States, recebi os inevitáveis disparos que surgiam de todos os lados. Por muitas vezes, durante todos estes anos de luta, a única coisa que me ofereceu um tímido consolo era o brilho dos olhos verdes da menina tímida cuja história se iniciou naquela sessão de cinema. Como o monstro da história, eu acabei percebendo que até o final dos meus dias seria este o olhar a me oferecer a força para seguir.

Quatro décadas nos separam daquela sessão de cinema. Dois filhos, dois netos, centenas de partos, muitas dores, tristezas, decepções e alegrias foram divididas. Nunca imaginei que um ogro pudesse ter tanta sorte, algo muito além do seu merecimento.

Agradeço a Zeza a companhia pelos últimos 40 anos, que formaram o que sou. Desculpe ter sido o King Kong descontrolado e furioso, e obrigado por ser a Dwan que sempre me apoiou, em especial quando o meu mundo parecia ruir.

PS: para mostrar como sou um sujeito de sorte a alternativa para King Kong naquela noite de inverno há 40 anos era “Carrie, a estranha”.

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Histórias

Terminei de contar ao meu neto Oliver uma mega história em capítulos que durou uma semana.

A história fui eu que inventei. É sobre um grupo de quatro  rapazes (todos tem os nomes de amigos do Oliver) que saem pela floresta atrás de uma lenda: a arca do tesouro que está no fundo de um lago dourado. No trajeto encontra-se com um grupo de quatro ursos falantes, que em verdade eram quatro rapazes que foram amaldiçoados pelas “Sombras” e tornaram-se ursos, e depois encontram-se com uma menina chamada Sophia que tem poderes mágicos e foi criada por uma matilha de lobos falantes – igualmente amaldiçoados pelas “Sombras“.

Os três grupos se juntam – os rapazes, os ursos e os lobos com Sophia – para juntos encontrar a arca, pois nela estão escondidas as poções mágicas que poderiam quebrar as maldições, o mapa para Sophia encontrar sua casa além de moedas de ouro que deixarão os rapazes muito ricos.

Quase no final da aventura Sophia é sequestrada pelas “Sombras” e a arca é encontrada no fundo do lago…. mas não sem antes receberem a ajuda de um gigante que os embarcou em um avião de papel e os auxiliou para que encontrassem o caminho.

Sophia é a grande protagonista. Ela domina as magias e comanda todo o grupo na busca pela arca. Exatamente por ser a mais importante e a protagonista – a única que sabia como chegar até o lago dourado – ela foi sequestrada pelas “Sombras” e precisou ser resgatada pelos amigos nas masmorras do Castelo das Sombras. Houve um episódio em que a inventividade dos rapazes utilizou um balão cheio de xixi para facilitar o resgate. Essa foi a parte que o Oliver mais gostou.

Na minha história Sophia é a personagem central e enigmática. Tudo ocorria em torno dela. Pensei que seria bom o Oliver escutar histórias em que as meninas são importantes e centrais já que as histórias de heroísmo masculino virão com naturalidade daqui por diante em sua vida e no processo de castração e identificação com o pai.

Minha ligação com a contação de histórias surgiu porque os pais do Oliver se engajaram em um esforço para diminuir ao máximo a exposição das crianças às telas – televisão, tablets e celulares – junto com outros país da escola Waldorf a que pertencem. Isso gerou (ao menos aparentemente) uma melhora no comportamento e agressividade das crianças. Por outro lado, as crianças precisam da fantasia oferecida pelas histórias para acalmar a ebulição do mundo psíquico a que são submetidas. Por isso Oliver literalmente implorava que contássemos histórias para ele.

Eu acabei sendo o encarregado mais constante de contá-las e resolvi contar as que eu mesmo inventava, para exercitar a minha imaginação e a dele ao mesmo tempo. Não havia um script fixo; a história era criada a medida em que era contada e com o auxílio das ideias que o próprio Oliver oferecia. Os nomes dos personagens foram todos criações suas (nomes de amigos da escola e de uma amiguinha da comuna). Resolvi também contar a história em capítulos para que ele treinasse a lembrança do que havia acontecido até então. Cada contação de história começava com o exercício de recapitular os episódios anteriores.

O nível de excitação dele para cada nova fase da aventura era impressionante. Seus olhos brilhavam a cada nova etapa e para cada solução que os personagens encontravam para os desafios. Era possível ver em seus olhos a construção das imagens e cenários que eram trazidos à história. Além disso ele incorporava conceitos e palavras novas (como “redemoinho”, “caule”, “muralha”, “rapto”, “poção”, etc).

A experiência foi tão agradável que resolvi escrever essas histórias para que sirvam de guia para outros contadores que acreditem na ideia de ajudar o crescimento das crianças estimulando sua imaginação.

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A América vestiu-se de Azul

Hoje completam 33 anos em que a América foi pintada de azul. Eu fui testemunha. Assisti o jogo ao lado do meu primo Cesar Blumm. Os ingressos já se haviam esgotado há semanas mas entrei no estádio de uma maneira insólita e impensável nos dia de hoje. Desesperado para assistir o jogo resolvi dar a última cartada possível, apenas uma hora antes da bola rolar. Com a cara de pau que Deus me deu bati no portão de ferro da entrada de serviço da social do estádio Olímpico e avisei ao porteiro que eu era o médico escalado para o plantão do estádio.

Na época eu tinha 23 anos e cara de 18. O porteiro – um senhor de idade – a princípio ficou confuso, mas deixou que eu entrasse por medo de alguma represália. Imagina se ocorre um acidente e ele impediu o médico de entrar? Ao lado do portão de ferro ficava o posto de emergência. Entrei ali para disfarçar e, quando o médico “de verdade” me perguntou o que eu queria, pedi para verificarem a minha pressão. 120 x 90. Aguardei uns minutos e saí de fininho, para o porteiro não se dar conta da minha malandragem

Depois de um tempo procurando na multidão que se aglomerava encontrei meu primo e assistimos o jogo quase sem respirar. Pela primeira vez um time do Rio Grande do Sul conquistava a Taca Libertadores, mas o fez ganhando do campeão da América e do mundo da época. Seria como vencer uma Libertadores ganhando do Real Madri. Foi épico, um momento inesquecível. Um jogo de pura raça Charrua. Os dois maiores copeiros da América em campo, isso antes da triste decadência econômica do futebol uruguaio.

O jogo foi pauleira pura. Nada do que se viu naquela partida sobrevive nos dias de hoje. Carrinho por cima da bola, sopapos, jogador sangrando em campo, repórter entrevistando o goleiro no tiro de meta, Renato Gaúcho debochando do adversário ao ser expulso mostrando nos dedos o placar do jogo. Tita e De Leon banhados em sangue. Torcida pulando o fosso e invadindo o gramado para comemorar. Nunca mais, nunca mais…

O futebol contemporâneo, civilizado mas asséptico, perdeu a efervescência testosterônica dos gramados. Trocamos gladiadores por barbies milionárias e sem amor pelos clubes que defendem. As arenas modernas aviltam a paixão do torcedor tanto quanto os salários estratosféricos agridem a pureza bravia do futebol. Esse dia de glória para o futebol poderei contar aos meus bisnetos. Sim, há mais de 3 décadas vovô Ric estava presente quando o pavilhão tricolor subiu mais alto entre todos aqueles da América de Simon Bolívar.

https://www.facebook.com/gremio.democratico/videos/1144739005571668

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Lágrimas na Chuva

A letra desenhada e curvilínea sempre foi esteticamente perfeita. “Letra de professora”, dizíamos. Ao lado das colunas impressas de tantos livros ela rabiscava suas ideia, opiniões e pensamentos. O livro se coloria, se avolumava, ganhava uma coautoria e assim se engrandecia. Mais do que ler, minha mãe os estudava, dialogando com os autores de forma pessoal e íntima.

Os livros na estante olham para seu corpo envelhecido ressentidos pela sua ausência. Reclamam a falta dos rabiscos, das críticas e do carinho delicado que sua letra por décadas trilhou no papel já amarelado. Choram sua falta e reclamam seu olhar.

– Sabe estes livros aqui na sua frente? diz meu pai. Você os leu a todos!!

Ela sorri, um pouco sem jeito. Olha com surpresa para o arranjo de volumes encadernados e do fundo de seu olhar tenta puxar uma lembrança fugidia, uma ponte para alcançar a lembrança que lhe escapa.

– É mesmo? Que impressionante!!, diz ela com seu sorriso envergonhado.

Aquela letra tão linda, todos aqueles livros, aquelas ideias, todos aqueles amores. Todos desaparecem como lágrimas na chuva.

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.” (Discurso final Blade Runner)

No lusco-fusco do quarto seu olhar estático mira o teto como a viajar pelo tempo a fazer-lhe perguntas. Ponho a mão em sua testa e me aproximo de seu rosto, que se volta para o meu.

Mãe, sabe quem sou eu?, pergunto.

Ela esboça um sorriso e de pronto responde “É claro…

– Então diga quem sou, insisto

Ela interrompe o sorriso, seu rosto fica mais sério, franze as sobrancelhas e aperta as vistas.

– Eu não vou pergatilhar nomes…

Pergatilhar é apenas mais um dos seus curiosos neologismos. Talvez – como saber? – seja um verbo comum, quase banal, usado nesse lugar que seus olhos visitam enquanto dissimuladamente vasculham o teto a procura de lembranças.

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King Kong

No filme King Kong de Dino de Laurentis (Jéssica Lange e Jeff Bridges – 1976) a captura da fera se deu através de uma armadilha simples, porém engenhosa. Foi atraído para um buraco na floresta onde o gigante caiu ao perseguir membros da expedição. Logo depois foram jogadas “bombas soníferas” que liberaram um gás que o fez dormir. Corta a cena e vemos King Kong amarrado e imobilizado com grossas correntes no porão de um navio em direção à Nova York do início do século XX. Sua chegada à “esquina do mundo” serviria como rentoso espetáculo à uma sociedade ávida por produtos exóticos do “continente negro”. Corta de novo a cena para 2017. Minha mãe com 86 anos e com demência senil cai em casa e não consegue se mexer. Sente dor nas costas. Uma ambulância a leva para o hospital, depois de 4 horas de espera. Lá contata-se uma pequena fratura na vértebra lombar, e o tratamento deverá ser apenas repouso em casa. Após a liberação pelo traumatologista nos deparamos com duas possibilidades: aguardar mais 4 horas por uma ambulância que a levaria de volta para casa ou colocá-la no carro e levarmos nós mesmo. Escolhemos a segunda opção. Eu e meu irmão Marcus, auxiliados por dois enfermeiros, a colocamos esticada no banco de trás do carro. Minha mãe é miúda mas pesa 65 kg. Rodamos uma dúzia de quadras e chegamos na casa do meu pai. Tivemos uns 15 minutos de debates para escolher a melhor estratégia é decidimos por envolvê-la em um lençol e carregá-la assim até o elevador, cada um de nós segurando em uma ponta, enquanto meu pai, de 87 anos, ia abrindo as portas. Foi extremamente exaustivo porque a cada passo ela reclamava de dor e se sobressaltava. Depois de algum tempo conseguimos colocá-la na cama, dolorida, assustada e cansada. Nesse momento me veio à mente o filme que vi no dia 15 de julho de 1977, mas não me lembrei da beleza estonteante Jéssica, e sim da inquietude que tive ao sair do cinema. Depois de assistir ao filme fiquei com uma duvida que me segue até hoje. Como você retira um monstro de 30 metros de altura, desmaiado e mole, de dentro de um poço profundo e o coloca no porão de um navio, usando a tecnologia do início do século XX? Se carregar uma simples pessoa para fora de um carro foi um enorme e cansativo desafio, como seria possível dar conta desta tarefa? PS: para quem conhece a Dona Elba ela está bem, só precisa repousar. Foi apenas um susto.

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